sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Comportamento sexual na Roma Antiga



Dia desses uma amiga postou no Facebook a foto de um cálice romano com cena de homossexualismo masculino. Um homem deitado (de costas) sobre outro, na tradicional representação do sexo entre homens, isto é, sem penetração, sexo intercrural (nas coxas).
Logo abaixo da ilustração do cálice, um texto comentando a naturalidade com que a homossexualidade masculina era encarada em Roma e como era condenado o sexo entre mulheres.
Respondi que não era bem assim. O homossexualismo masculino na Roma Antiga não era condenável, mas visto com desconfiança. “Um costume grego”, diziam os romanos. Júlio César, por exemplo, foi alvo de gozação a vida inteira devido ao seu relacionamento com o rei da Bitinia, quando jovem. César era um conquistador de mulheres contumaz – os historiadores romanos enumeram as esposas de senadores, generais, pretores, etc. com as quais ele transou – e nem assim seus detratores o livraram de piadas.
Já Alexandre Magno, que manteve um relacionamento constante com Heféstion – além de frequentar o harém de mulheres que o acompanhava na campanha da Ásia –, nunca foi ridicularizado. Era um homem grego e seguia os ditames de sua época e cultura: o amor entre os homens era “mais civilizado” do que aquele com as mulheres.
Quanto ao homossexualismo feminino, tanto na Grécia quanto em Roma, sabe-se muito pouco. Mas seguramente não era condenado. Safo, na Grécia (na ilha de Lesbos), era uma mestra respeitável que se envolvia com suas alunas. Fez poemas belíssimos a respeito do encantamento amoroso que vivia com as meninas e não há registro disso ter provocado algum escândalo. Ao contrário. Tudo indica que ela continuou a ótima educadora que era, casou e teve filhos.
Em Roma, há registros de festas religiosas exclusivas para mulheres – dedicadas a Bona Dea, a Deusa Boa, p.ex. –, onde rolavam alegres orgias. Numa dessas cerimônias, Pompéia, a segunda mulher de César, introduziu o seu amante masculino e, aí sim, deu rolo. O jovem Clódio estava disfarçado com roupas femininas, uma das presentes começou a acariciá-lo, descobriu, e o caso foi considerado um sacrilégio. Isto é, sacrilégio um homem estar presente numa festa feminina e não as mulheres se acariciarem, beberem e fazerem tudo mais que acontece numa orgia.
Homossexualismo feminino, afinal, nem era visto como sexo na Antiguidade greco-romano. Sexo entre mulheres não envolve penetração e isto, para gregos e romanos, estava fora do que entendiam como sexualidade. Sexo entre mulheres era, provavelmente, uma outra coisa. 
Esta a provável razão da invisibilidade do homossexualismo feminino em Grécia e Roma. Na arte, por exemplo, não se encontrou nenhuma representação de cena homossexual feminina. Nenhuma representação de mulheres se acariciando para ilustrar um cálice ou um jarro. Nem mesmo nas paredes de Pompéia. Apenas os poemas de Safo.  

Como a história da sexualidade na Antiguidade é motivo de muita discussão, indico as fontes que utilizei para este comentário: SCHMIDT, Jöel. Júlio César. POA: L&PM, 2006; KING, Helen. Preparando o terreno: sexologia grega e romana. In: PORTER, R.; e TEICH, M. (orgs.) Conhecimento sexual, ciência sexual. SP: UNESP, 1998.
Helen King, por sinal, faz uma boa síntese de como o sexo era pensado na cultura greco-romana: uma relação marcada pela desigualdade, descrita muitas vezes com imagens de guerra, fuga e captura. O homossexualismo masculino era visto como normal (especialmente na Grécia do período clássico), desde que ajustado a parâmetros muito definidos. Nas representações visuais, p.ex., o parceiro passivo jamais era mostrado com uma ereção. (Não era recomendado que o homem passivo expressasse prazer.) A penetração era de importância central e os encontros sexuais eram pensados como uma relação entre penetrador e penetrado. Por último, as mulheres assumiam o papel de mercadoria preparadas para o consumo. Mesmo sendo vistas como vorazes do ponto de vista sexual (dispostas a secar a semente dos homens), as mulheres eram apresentadas como comida para serem desembrulhadas e saboreadas. 

domingo, 23 de dezembro de 2012

Cleo e Daniel


O romance Cleo e Daniel, de Roberto Freire, foi reeditado este ano pela L&PM. Lançado pela primeira vez em 1965, tornou-se sucesso de público, principalmente entre os leitores jovens.
Em 65, segundo a apresentação de Ignácio Loyola Brandão, Cleo e Daniel surgiu como “um livro diferente, claro, aberto”, capaz de mudar a literatura e a visão das coisas. A expressão daqueles “confusos anos 60”. Nos 70, o livro continuava agradando. Comprei uma edição em banca de revista, em forma de jornal (coleção Jornalivro) e li mais de uma vez. Emprestei para vários amigos e sempre agradou. Reli dias atrás e não gostei mais.
Um romance de grande vigor, com um narrador forte, apaixonado e desesperado: o psicanalista Rudolf Flügel a perambular pelas ruas de São Paulo e vivenciar o sexo, a loucura & o amor, e teorizar a respeito também. Um dos personagens apresenta o mito grego do andrógino – “Nem homem, nem mulher, os dois num só... como a gente, na cama, trepando” – e afirma: “O filho da puta do Platão estava certo!”
De certa forma, os personagens centrais têm a nostalgia da fusão mitológica entre homem e mulher – “Uma bola de carne sem feições, quatro pernas, quatro braços” – que assustou os deuses do Olimpo. Tanto assustou que Júpiter cortou essa bola de carne ao meio e deu origem ao macho e à fêmea. E os dois, a partir de então, ficaram fadados a se procurar eternamente...
Uma angústia que não atinge o formingueiro paulistano, segundo o narrador. Isto é, os homens e as mulheres de São Paulo, preocupados em trabalhar, vencer na vida e viver o amor de forma razoável. Alguns, até capazes de apostar na religião católica ou no socialismo para reformar a sociedade.
No meio do turbilhão de inquietações que acometem o personagem-narrador, ele se depara com um casal de adolescentes desajustados, as figuras que dão título ao livro – Cleo e Daniel – e a narrativa chega ao clímax. O jovem casal realiza o amor completo anunciado pelo mito e ninguém os suporta – nem mesmo Rudolf Flügel, que primeiramente se encantou com os adolescentes e os defendeu inclusive. Cleo e Daniel transam nos jardins do Arcebispado e deixam o bispo perplexo, se beijam em público, assustam a multidão e provocam a intervenção policial.
Uma fantasia romântica e desesperada: a concretização da mitológica fusão entre homem e mulher e, ao mesmo tempo, a sua impossibilidade.
Reli o romance e não gostei. Mas já foi um livro importante para mim. Agora, me pareceu uma narrativa desconjuntada e até confusa. Adolescente demais, concluí. Devo ter envelhecido.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Até quando, Catilina?

O Irmão Zeno entrava na sala de aula com o livro debaixo do braço. Subia no estrado e mandava abrirmos na página tal. Nós, alunos da terceira série ginasial, seguíamos a orientação do professor e depois, quietos, escutávamos a leitura e  os comentários que ele fazia sobre a história de Roma.
Ele era velho e gordo, baixinho e empertigado. Há muito tempo deixara a sala de aula e se dedicava ao setor administrativo do colégio. Na metade do ano, o professor de História adoeceu e ele veio substituí-lo. Seria por pouco tempo, nos adiantou o diretor, e logo descobrimos o motivo. Irmão Zeno não lembrava mais a matéria. Lia pausadamente e com voz monótona os capítulos do livro e levava algum tempo para dizer onde ficava Cartago e qual o caminho que Aníbal fizera para chegar até a península itálica e surpreender os romanos.
Um dia, no entanto, a sua voz se alterou, ele se entusiasmou e fechou o livro para nos dizer que Cícero, este sim, este fora um grande romano e um nome eterno na literatura. Cícero, autor de discursos contundentes, que um dia o Irmão Zeno soubera em latim e hoje, infelizmente, sabia apenas em português. E recitava, andando em cima do estrado, apontando o dedo para uma figura imaginária num canto da sala:
– Até quando, ó Catilina, abusarás de nossa paciência? Aonde irão parar os arrebatamentos dessa audácia desenfreada? Ó tempos! Ó costumes! O Senado conhece tuas artimanhas.
Irmão Zeno se transformava, a voz perdia o tom monocórdio, e nos perguntávamos se teria sido assim que o velho Cícero acusara a conspiração de Catilina... Vivíamos o ano de 69 e o professor nos alertava que também a República brasileira enfrentava seus detratores nas palavras e ações de “agitadores treinados em Cuba”.
Semanas depois chegou o novo professor – o único leigo a lecionar naquele colégio marista – e as aulas passaram a ter outro ritmo. Uma aula normal, dizíamos. O novo professor explicava a transformação da República em Império – o Senado e o povo cansados das guerras civis – e não "vituperava" contra os inimigos do Estado e da sociedade tradicionais.
Pensando bem, só o Irmão Zeno para dramatizar a crise da República romana e indicar a um bando de meninos o que é a violência das lutas pelo poder:
– Nem a guarda que vela à noite no monte Palatino, nem os postos de soldados espalhados na cidade, nada te desconcerta, Catilina. Até quando abusarás de nossa paciência? Ó tempos, ó costumes!

domingo, 9 de dezembro de 2012

Compras em Rivera


Estava na Rua Sarandi, em Rivera, e resolvi comprar meias de um camelô de calçada.
Se o leitor conhece Rivera, sabe que eu estava na principal rua de uma área de freeshops, na fronteira do Uruguai com Rio Grande do Sul, famosa por oferecer as mais prestigiadas grifes de perfumes, bebidas, tênis e produtos eletrônicos. Era uma manhã de movimento, uma multidão circulava visivelmente satisfeita, e a última coisa que um bem informado consumidor de classe média pensava... era no comércio informal dos camelôs.
Mas eu não sou um consumidor bem informado e prestava atenção no trabalho incansável que os vendedores ambulantes faziam: oferecer mercadorias a consumidores ávidos, que os ignoram solenemente. Eu imaginava o que eles pensariam desses brasileiros sedentos por marcas estrangeiras e resolvi me aproximar. Isto é, comprar um conjunto de meias e quem sabe dizer que alguns de nós, consumidores de classe média, somos capazes de interagir com este setor do comércio ou algo assim.
Então, justo na hora em que coloco a mão no bolso, vem um homem baixo, humilde, me pedir alguma coisa. O camelô manda este homem embora. “Estou trabalhando”, ele diz. Eu percebo que o sujeito está querendo auxílio (mostrava uma carta explicando sua condição de ex-dependente químico) e também falo para se afastar. O homem sai resmungando e escuto o seu comentário:
– Esses sujeitos compram, compram e não conseguem dar dinheiro pra quem precisa!
Sim, eu não o ajudara. Gastara em perfumes, vinhos, um conjunto de meias e não dispensara um mísero real para aquele homem que anunciava estar em fase de reabilitação e precisava de auxílio.
Mas não me abalei com o pedido do homem e nem com a minha atitude “desumana”. Paguei as meias ao jovem camelô – que tinha uma barba preta, como eu usara tempos atrás – e as tenho vestido nos últimos dias.
Não são meias de muita qualidade e uma delas já furou. Não são como os excelentes tênis Nike, confeccionados no Vietnam, e vendidos nos freeshops. Mas talvez tenham vindo do Oriente também. De alguma fábrica de Hanói, Xangai ou de Taiwan. Mercadorias que atravessam o Atlântico e auxiliam a compor o cenário por onde circulam consumidores das mais variadas espécies. Alguns, até com sintomas de má consciência.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Aristocracia pelotense


Nos últimos anos de vida, dona Amélia gostava de falar que era neta de barão. E, por esse motivo, que era baronesa também. Dona Amélia não entendia que os títulos nobiliárquicos do Império brasileiro não passavam de pai para filho, muito menos de avô para neta, e, como não havia pessoa alguma que pudesse convencê-la do contrário, ela sentia-se uma das raras representantes da nobreza em pleno século XX.  
Era início dos anos 90, havia a campanha para decidir sobre o regime político brasileiro, o filho mais velho defendia a causa monarquista e talvez isso tenha mexido com as fantasias da velhinha. Um retorno à Monarquia e o restabelecimento dos títulos nobiliárquicos era tudo que ela sonhava.
Em plena era da ruptura neoliberal, provocada pelo breve governo de Fernando Collor, dona Amélia sentia-se a defensora de um passado seguro diante de um futuro incerto. Ela sentava-se na sacada do prédio de apartamentos onde morava, em Pelotas, olhava a multidão andar pelas ruas e comentava:
– Gente sem eira nem beira. Pobre gente a espera de um Pai...
Um único neto escutava as suas histórias mirabolantes, envolvendo guerras na Cisplatina, no Paraguai, o fausto proporcionado pelas charqueadas e o gênio do grande tribuno Gaspar Silveira Martins.
– Uma velhinha nostálgica do Império, que se sentia injustamente esquecida pelo mundo, apesar de tratada a pão de ló – me contou o neto, acrescentando que o drama da avó sempre lhe tocou profundamente.
– A história da velha talvez desse um conto – dizia ele. – Uma velhinha que falava do tempo do Imperador e sentia ganas da modernidade republicana. Minha vó era isto no final da vida. Acompanhava com vivo interesse o plebiscito para decidir entre a República e a Monarquia, e, mesmo entrevada, fez questão de ser conduzida até à urna. Votou e morreu semanas depois.
Quem me contou a história foi o neto, anos mais tarde, num verão na praia do Cassino. Estávamos num restaurante de hotel, nós dois professores de História, conversando sobre Pelotas – as charqueadas, a decadência econômica, as famílias que um dia foram poderosas e até hoje alimentam sonhos de grandeza – e nisso entrou o caso de dona Amélia.
A avó do meu colega, provavelmente, é um tipo emblemático desse drama pelotense que fascina alguns de nós. A cidade ainda tem fumos de grandeza e lida mal com a perda dessa condição. A dinâmica econômica sul-rio-grandense pisoteou suas pretensões, mas ficaram vestígios de um tempo de maior prosperidade. Dona Amélia sintetizou tudo isso numa fantasia monarquista e talvez tenha morrido convicta de ser uma baronesa.
– Uma grande dama – comentava o neto. – Quem sabe uma personagem machadiana, dessas que revelam, com melancolia, os segredos da alma humana.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Rubens Paiva


O desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva é um caso emblemático do Regime Militar brasileiro. Rubens Paiva era deputado federal do PTB e foi cassado logo na primeira leva, após o Golpe de 64. Acreditou que poderia fazer oposição democrática ao governo militar e se deu mal. No dia 20 de janeiro de 1971 teve a sua casa “invadida por seis militares à paisana armados com metralhadoras” e obrigado a “comparecer na Aeronáutica para prestar depoimento”. Foi no seu próprio carro. Nunca mais voltou. Seu corpo está desaparecido até hoje.
No dia 24 de fevereiro de 1971, foi publicada no Diário Oficial da União a versão oficial do episódio: “quando [Rubens Paiva] era conduzido para ser inquirido sobre fatos que denunciam atividade subversiva, teve seu veículo interceptado por elementos desconhecidos, possivelmente terroristas, empreendendo fuga para local ignorado”.
Na semana passada, documentos encontrados na casa do coronel reformado Júlio Molina Dias (morto em assalto, no início do mês) dão conta de que o ex-deputado entrou no DOI-Codi / 1º Exército / Rio de Janeiro, no dia 20 de janeiro. Em resumo, não houve a fuga espetacular. O caso é emblemático, pois revela as arbitrariedades cometidas e as posteriores farsas encenadas pelas autoridades.
Rubens Paiva não estava ligado às organizações armadas, mas tinha contato com seus integrantes. Segundo o filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, uma carta de exilado político no Chile, enviada ao ex-deputado, foi interceptada pelos órgãos de segurança e daí seguiu-se a investigação. Os militares tinham contas a ajustar com o ex-deputado (ele guardava provas do auxílio financeiro da CIA às organizações que faziam oposição ao Governo Jango) e se excederam no interrogatório. Um “acidente de trabalho”, segundo o ex-presidente Médici (comentário escutado pelo senador Vitorino Freire).
A notícia do achado dos documentos do DOI-Codi, comprovando ingresso do ex-deputado no 1º Exército, indicam um novo capítulo no caso do “desaparecimento de Rubens Paiva”. Li a matéria na Zero Hora da semana passada e recortei para guardar. Passei na Biblioteca do Campus e retirei o livro Feliz ano velho, do filho do ex-deputado, para reler. O livro é de 1982 e foi um sucesso nos anos 80. Teve quarenta edições. 
Marcelo tinha onze anos quando os militares entraram em sua casa. Logo depois, a mãe o mandou levar um recado para uma vizinha: “O Rubens Paiva foi preso, ninguém pode vir aqui, senão é preso também”.
Segundo depoimento do escritor, após a descoberta de documentos do DOI-Codi na casa do coronel reformado, a surpresa foi geral: “Por que ele guardava (...)? Era uma espécie de souvenir da guerra suja?”
Um souvenir, provavelmente. E quem sabe o indício de que o coronel também queria contar a sua versão do caso.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Esquina Maldita


Uma das boas surpresas dessa última Feira do Livro, em Porto Alegre, foi o lançamento do livro Esquina Maldita, de Paulo César Teixeira (Editora Libretos, 210 p.). Uma investigação jornalística a respeito dos bares que existiram na esquina da Rua Sarmento Leite com a Avenida Osvaldo Aranha, entre as décadas de 1960 e 1980: Alaska, Estudantil, Copa 70 e Marius.
O Bar Alaska, pioneiro, foi criado em 1965, e na seqüência surgiram os outros três. Os cursos da UFRGS funcionavam nas imediações e esses bares passaram a reunir a juventude universitária. A Esquina foi o point da esquerda estudantil e, ao longo dos 70, agregou também uma outra juventude, nem tão engajada politicamente, isto é, nem tão inserida nos partidos políticos (ou organizações clandestinas) e mais adepta das políticas do corpo, das drogas, das práticas alternativas e coisas assim.
O autor entrevistou os donos dos bares, historiou cada um dos estabelecimentos e também procurou os seus frequentadores mais ilustres: a Nega Lu, a Lucrécia, o casal Chico Daniel e Bete Portugal, entre eles. Talvez as figuras mais emblemáticas do que se considerava ousadia nos anos 70: a postura homossexual assumida, no caso da Nega Lu e Lucrécia; o casamento aberto, no caso de Chico e Bete.
Significativamente, o livro é dedicado a duas figuras emblemáticas da Esquina: Isake Plentis, o garçom do Alaska, e Joãozinho (João Alberto Figueiró), estudante de Ciências Sociais (depois professor), um freqüentador assíduo. Ambos morreram há pouco tempo e não seria exagero dizer que simbolizam a fauna do lugar: Isake, um trabalhador, garçom atencioso, e Joãozinho, o boêmio solitário, bom de copo e ótimo papo.
Como bem afirma o autor, a droga mais utilizada na Esquina era o álcool, mas as outras drogas (ilegais) também circulavam. Maconha, seguramente, a mais utilizada, mas que não era fumada no interior dos bares, só na rua. Havia uma turma que usava drogas injetáveis, mas eram poucos, muito poucos, e se picavam nas imediações. Uma turma que arrancou do escritor Caio Abreu um comentário exagerado: “Isso aqui parece Amsterdam”. Exagerado porque, na maioria, os frequentadores eram apenas adeptos do álcool e grandes conversadores. Não havia música nos bares – tirando as apresentações eventuais da Nega Lu, no Estudantil – e se conversava muito, muitíssimo, assim como se namorava também.
Quanto ao quesito namoro e sexo, muito boa a investigação do autor a respeito dos recintos reservados do Estudantil. Diz a lenda que ali rolava sexo entre os casais, mas o autor não encontrou comprovação. Pura lenda. Apenas amassos, abraços e beijos, e mãos e pernas pra lá e pra cá.
Paulo César Teixeira, autor do livro, faz uma boa história da Esquina e das diferentes gerações que perambularam pelos bares. A turma mais militante dos anos 60 e início dos 70, e a turma mais voltada às práticas alternativas, no final dos 70 e início dos 80. Segundo o autor, “um gueto de boemia com vida intelectual inquieta e independente, cujos protagonistas foram testemunhas e artífices do surgimento de uma cultura urbana contemporânea.” “Muitas idéias que circulavam nas conversas se transformaram em realidade nos anos 2000”, conclui o autor.
Uma avaliação serena e otimista das tantas conversas & delírios que rolaram naqueles bares. Aquele antro de "proselitismo e porra-louquice" abrigou projetos e ousadias - no campo das artes, da cultura e do comportamento - que hoje estão consolidados na vida porto-alegrense. Segundo um dos entrevistados, por ali passou uma revolução e a coisa até deu certo. Pode crer.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os barulhos da cidade


     Estive em São Leopoldo e passei três noites num hotel do centro da cidade. Num dia de manhã, na portaria, ouvi uma hóspede reclamar dos barulhos da noite e fiquei pensando no assunto. A janela do seu quarto dava para a rua e ela escutara, durante a madrugada, a algazarra de "drogados e prostitutas" na calçada do hotel. Não conseguira pregar no sono. A janela do meu quarto também era voltada para a rua, porém eu não escutara coisa alguma. Ouvira, isto sim, no início da noite, os potentes aparelhos de som de diversos carros. Mas isto até a meia-noite. Depois, praticamente desapareceu o chamado "som automotivo".
     Desapareceu de circulação ou eu ferrei no sono? Não sei. Seja como for, as cidades ficaram demasiadamente barulhentas. A gurizada e seus terríveis conjuntos de auto-falantes nas traseiras dos automóveis tornaram-se uma provação para grande número de moradores. Haja paciência para aguentar a altura das músicas e sua impertinência nas mais variadas horas do dia e da noite!
     Caberia fazer uma história dos ruídos das cidades? Investigar a mudança de perfil sonoro das cidades e descobrir quando elas passaram a ser dominadas por excessos de barulhos, seja de máquinas, ônibus ou trens, seja de instrumentos musicais e aparelhos de som em bares, boates, clubes, templos religiosos e automóveis? Um assunto a pesquisar, me parece.
     Eu sou um nostálgico das madrugadas silenciosas e gostaria de entender essa transformação. Fui criança em Pelotas e gostava de suas noites sossegadas. Abria a porta de casa, avistava o Cruzeiro do Sul e escutava o canto dos grilos. Fui adolescente em Porto Alegre, no bairro Floresta, e ouvia o bonde solitário cruzar a Avenida Cristóvão Colombo durante a noite. Os bondes rareavam depois das 22 horas e parecia que a cidade caia em sono profundo.
   Dia desses escutei um porto-alegrense se queixar da nova regulamentação da Prefeitura para os bares noturnos e achei estranho que ele dissesse que noites silenciosas apenas existiam nas cidades do interior. Um porto-alegrense como muitos, isto é,  que não conhece o interior do Rio Grande e pouco sabe que suas cidades são barulhentas e agitadas, como bem demonstram algumas avenidas de Santa Maria, Cruz Alta e São Leopoldo também.
    Caberia mesmo uma investigação para esclarecer a mudança sonoro  de nossas cidades. Mas quanto aos "drogados e prostitutas" que a hóspede falara... Bem, isto talvez seja outra história. Outro tema para pesquisas, monografias, teses e essas conversas todas que se fazem nos espaços acadêmicos, que tudo transformam em objeto de estudo e discussão teórica. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Coisas da vida e da literatura

Maximo Gorki conheceu o avô no dia em que leu o romance Eugênia Grandet, de Balzac. O pai de Eugênia era um homem que controlava os torrões de açúcar que a família consumia, proibia leituras à noite para não gastar vela, e muito se assemelhava ao avô de Gorki. O famoso escritor russo só conseguiu compreender o seu avô – avarento e mesquinho como o pai de Eugênia Grandet – no dia em que teve acesso ao livro de Balzac. Foi por meio da descrição de pai Grandet que Gorki desvelou a figura do avô.
Esta história é emblemática do quanto a literatura pode servir como forma de conhecimento do mundo, o quanto o material de ficção possibilita a muitos de nós o acesso à realidades que estão na nossa frente, prontas para serem desveladas, só necessitando que alguém nos auxilie. E esse alguém, muitas vezes, pode ser um poeta ou romancista.
Exemplos semelhantes a este talvez cada um de nós, leitores de livros de ficção, poderia contar. No meu caso, penso que foi O tempo e o vento, de Erico Veríssimo, que me auxiliou no conhecimento de algo fundamental na vida: o reconhecimento da figura paterna. No conflito do personagem Floriano Cambará com o seu pai, o doutor Rodrigo Cambará, aprendi a reconhecer que eu também precisava fazer as pazes com meu pai e construir alguma forma de entendimento entre nós. Li o romance com 19 anos, durante os meses de abril a junho de 1975, e acho que nunca mais fui o mesmo. O esforço consciente de Floriano para compreender e se aproximar do pai me revelou um caminho que eu deveria trilhar.
Meu pai ainda estava vivo e hoje posso dizer que me aguardava. Era um homem generoso, que não guardava rancores do filho arrogante, e esperava. Me aproximei, nos aproximamos, e penso que a leitura d’O tempo e o vento me auxiliou a compreender os nossos conflitos de pai e filho. Auxiliou, esclareceu, verdadeiramente iluminou. Três anos depois meu pai morria e nesses poucos anos construímos um entendimento que foi fundamental para a minha construção como homem.
Assim, se Gorki conheceu o avô lendo Balzac, posso dizer que conheci meu pai lendo Erico Veríssimo. Coisas da vida e da literatura. Coisas possíveis de serem vividas por quem se deixa encantar pelo mundo da leitura. Histórias que me vêm a mente enquanto caminho pela Feira do Livro de Porto Alegre e penso que sempre é necessário festejar todas as ações que favoreçam a formação de leitores. A formação de homens e mulheres que um dia poderão ler Balzac, Gorki ou Erico Veríssimo, e conhecerem melhor os seus pais e avós. Conhecerem melhor o próprio mundo e talvez viverem com maior intensidade.

terça-feira, 23 de outubro de 2012


Guerra do Contestado

Completaram-se cem anos do início da Guerra do Contestado (1912-1916). Um conflito ocorrido em Santa Catarina, numa região então contestada pelo Paraná. Uma área de disputa entre governos estaduais, de conflitos de terra entre coronéis e sertanistas, e também da construção de uma estrada de ferro (ligando Rio Grande do Sul a São Paulo), a qual expulsava posseiros de terras devolutas. No cerne dessa confusão se organizam grupos religiosos autônomos, inspirados no catolicismo rústico de monges peregrinos, e geralmente se narra o conflito a partir da atuação dessas organizações.
Os grupos de religiosos e sertanejos (posseiros, ervateiros, trabalhadores desalojados de suas terras por coronéis ou pela estrada de ferro) passam a peregrinar pelo interior de Santa Catarina e assustam as autoridades locais. Tropas estaduais e federais são chamadas a combatê-los e assim inicia a guerra, em outubro de 1912 (Batalha do Irani). Um ano depois, os sertanejos se reorganizam, dessa vez com maior disciplina, com a formação de “cidades santas” e também de grupos de combatentes – os “Doze Pares de França”, inspirados nas histórias de Carlos Magno. Os Pares de França reuniam sertanejos hábeis no uso de facões e também com conhecimento da doutrina ensinada pelos monges. A luta tem prosseguimento e o Exército envia efetivo de seis mil homens para combater os religiosos.
Em sete meses os principais núcleos rebeldes e suas lideranças são derrotados pelos soldados do Exército. O restante dos combates (até janeiro de 1916) é promovido por coronéis locais, que realizam algumas barbaridades. Calcula-se em dez mil o número de mortos (entre combatentes e mortos por doença) e até hoje sobrevive na região a memória da religiosidade rústica daqueles camponeses e também a lembrança de atrocidades.
Para quem se interessa pelo mundo religioso (suas funções, usos e abusos), a Guerra do Contestado é um prato cheio. No caso, a religiosidade popular, capaz de reunir a população sofrida e lhe dar um norte de resistência e até de luta, de enfrentamento aos adversários.
Nesse mês, a Revista de História da Biblioteca Nacional publica um dossiê sobre essa guerra, com artigos esclarecedores. Entre eles, um sobre o monge Giovanni Agostini, provavelmente o pioneiro dos monges peregrinos que articularam a religiosidade que impulsionou os sertanejos de Santa Catarina. O artigo é de autoria de Alexandre Karsburg e é resultado de pesquisa minuciosa a respeito da trajetória do monge Agostini. Este religioso (sem formação oficial) nasceu na Itália (1801) e veio para a América do Sul em 1838. Passou pelo Brasil (1843 a 52) e seguiu pelos países andinos até a América Central e do Norte. Morreu nos Estados Unidos, em 1869.
Na sua passagem pelo Brasil, esteve em Santa Catarina e também no Rio Grande do Sul (deu origem à devoção de Santo Antão, nos arredores de Santa Maria). Sua pregação pelo interior de Santa Catarina é considerada a matriz da religiosidade dos rebeldes de Contestado. Uma evidência de que nem sempre a religião serve apenas para nos conscientizarmos na nossa “finitude e insignificância”, mas também para preparar as armas para enfrentar os inimigos. No caso de Contestado, para afiar e manejar os facões e combater os jagunços dos coronéis e também os soldados da Polícia e do Exército.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Racismo em Monteiro Lobato

Continua a polêmica em torno da existência de racismo na obra de Monteiro Lobato, em especial sobre um dos seus livros, Caçadas de Pedrinho – provavelmente por ser um dos mais lidos nas escolas. Em 25 de setembro, houve reunião entre representantes do MEC e do IARA (Instituto de Advocacia Racial e Ambiental), o encontro não resultou em acordo e o caso seguiu para o STF. Para o MEC, a questão se resolveria com nota explicativa nas novas edições. Para o IARA, é preciso muito mais, inclusive um maior compromisso do MEC com a capacitação de professores para tratar dos temas raciais. Para o MEC, essa capacitação já vem sendo realizada a contento.
A questão, então, me parece não ser apenas o racismo – ou o uso de estereótipos raciais – na literatura de Monteiro Lobato. Isto é pretexto para uma discussão mais ampla: as condições da sociedade em geral – e da escola em particular – em lidar com eficácia os problemas raciais. Uma questão de raízes históricas que Lobato (1882-1948), nascido em família de cafeicultores escravistas do Vale do rio Paraíba, me parece refletir muito bem, tanto em Caçadas de Pedrinho quanto em Negrinha, outro de seus livros questionado. Refletir com as devidas ambiguidades e tensões próprias da boa literatura.
Para mim, que entende que as questões levantadas pelo IARA estão presentes em outros tantos textos literários canônicos – racismo, sexismo, autoritarismo, colonialismo –, esta é uma discussão que faz parte da leitura e da interpretação de textos. Não vejo porque polemizar com o MEC e, muito menos, levar o caso ao STF.
Mas fiquei instigado pela polêmica e fui reler Caçadas de Pedrinho, logo que começou o debate. Para minha alegria, tive o mesmo prazer que tive quando guri. Que maravilha de texto! Imagino que até hoje a meninada se refestele com a leitura. Bati os olhos numa das passagens destacadas pelos críticos do racismo e não me incomodei. Talvez porque eu não seja negro, dirão alguns. Pode ser.
O tal trecho era o da descrição de tia Nastácia, a preta velha do Sítio do Picapau Amarelo, quando as onças invadem a fazendola. Nessa ocasião, todos os bípedes da casa, mais o Marquês de Rabicó (um leitão) se protegem das feras usando pernas de pau – menos Nastácia. Quando a “onçada” aparece, no entanto, “esquecida dos seus numerosos reumatismos, [Nastácia] trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros”. Na sequência, a boneca Emília faz a onças fugirem e Nastácia pode descer do mastro. Ao final, afastado o perigo dos animais selvagens, tia Nastácia está enturmada nas brincadeiras das crianças e diz: “Agora chegou minha vez. Negro também é gente, Sinhá...”
A frase da personagem encerra o romance e bem indica que tia Nastácia é uma preta velha consciente do que é ser negra numa sociedade recém saída da escravidão. Tia Nastácia quer seu lugar nas brincadeiras das crianças. Mesmo que o narrador utilize estratégias descritivas que podem soar pejorativas (para mim, o resultado é cômico), mais adiante ele coloca na boca da personagem a indignação em relação ao contexto sócio-cultural que permitia a produção de estereótipos racistas. A indignação e a determinação de uma mulher negra para se afirmar no mundo dos brancos. Uma mulher que conhece o seu valor e que, quase cem anos depois de criada pela imaginação de Lobato, ainda é capaz de conquistar leitores.
Será preciso discussão jurídica em torno disso? Discussão no plenário do STF? Penso que não. Sisudos como são os ministros desse tribunal, desconfio que irão fazer serviço de empalhadores de passarinhos e tirar toda graça e leveza do texto de Lobato. Um desserviço para a literatura. Penso que nem a causa da luta contra o racismo ganha com isso.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Anos 70

O ano era 1976 e estávamos numa aula do Curso de História, na UFRGS. Estudávamos a Revolução Industrial na Inglaterra, a formação da classe operária e os movimentos de resistência dos trabalhadores. De repente, a conversa vai parar num movimento de guerrilha que acontecia ou acontecera (ninguém sabia ao certo) no centro do país. Ficamos divagando a respeito e tentando localizar o conflito armado: em Goiás ou Mato Grosso?
– Talvez no Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia – aventou o professor, que lera a respeito de movimentação militar na região central do país.
– Talvez seja um foco guerrilheiro consistente – alguém arriscava.
– Mas quem, nessa altura do campeonato, seria capaz de enfrentar a ditadura militar? – ponderava outro.
– Ora, ora – brincava um terceiro –, vai ver que a aliança operário-estudantil deu certo em algum lugar.
Conjecturas de um pequeno grupo de estudantes, na sala de aula, com um professor camarada. Pouco sabíamos a respeito dos embates militares do Estado brasileiro com a esquerda armada. Éramos universitários, líamos jornais, revistas, livros, íamos ao cinema, ao teatro – e a impressão era de que a realidade nos escapava feito areia entre os dedos. Havia censura nos meios de comunicação e volta e meia encontrávamos nos jornais – no jornal Movimento, p.ex. – páginas sem texto, com a indicação de que a censura passara por ali.
Só no início dos 80, li o livro-reportagem de Fernando Portela, Guerras de guerrilhas no Brasil (Global, 1979), e descobri que o tal movimento guerrilheiro comentado em sala de aula ocorrera, sim, mas no sul do Pará. Fora promovido pelo PCdoB, aniquilado em 75, e nós, reles estudantes, não sabíamos de coisa alguma.
Tempos difíceis aqueles! Para a juventude de classe média, universitária, talvez não fosse dos piores. Visto de longe, no entanto, me parece terrível aquele diálogo que travávamos em sala de aula. Emblemático de um quadro de desinformação que vivíamos naqueles anos. Uma situação comum para a maioria dos brasileiros, que se tornava dramática para os estudantes da área das Ciências Sociais. Dramática, terrível, insuportável!
Detalhe curioso: o texto que líamos a respeito da Revolução Industrial fora escrito por Eric Hobsbawm e fazia parte de uma coletânea de artigos. A primeira edição brasileira de A era das revoluções (Paz e Terra, 1977) só sairia no ano seguinte.  

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


Arnaldo Campos

Era 1986 e o cometa Halley voltava a passar próximo ao planeta Terra. Esperava-se um grande espetáculo, mas isso não aconteceu. Milhares de pessoas ficaram na rua, no pátio ou na janela olhando para o céu e a frustração foi geral. A muito custo se identificava o cometa.
Matilde e seu filho André, moradores da Vila Orfeu, em Porto Alegre, também procuraram o cometa e se decepcionaram. Personagens fictícios da novela de Arnaldo Campos, A ceia do Diabo (Editora Mercado Aberto, 1994, 146 p.), eles viviam modestamente e saiam de casa todas as manhãs para trabalhar no centro da cidade. Ela, num escritório de representação comercial no 11º andar da Galeria do Rosário; ele, numa livraria.
Matilde era bisneta de imigrantes italianos e viera da região de Santa Rosa para a Capital. Casara com o pedreiro Silviano e estava viúva há um ano. Tinha 40 anos de idade e um único filho, de 14 anos. O menino passara a dormir na cama da mãe, após a morte do pai, e a abraçava durante a noite. O cuidado e a atenção do filho agradaram a viúva, mas, passado um ano, começaram a incomodar. A mulher se interessou por um vizinho e a atitude possessiva do filho era mais um problema a resolver. Matilde era uma mulher recatada, mãe dedicada, e tinha nas prédicas moralistas do pároco local uma das suas principais interlocuções. O peso da moral sexual católica a impedia de um novo relacionamento, mas felizmente ela tinha uma amiga de postura liberal e uma vizinha curandeira que indicavam a existência de outras possibilidades na vida, além daquelas apontadas pela Igreja.
Novela consistente, esta de Arnaldo Campos – um escritor preocupado com os dramas vividos pelos indivíduos das classes populares. De modo lírico, como bem indicam os editores na contracapa, o escritor enfocou com delicadeza os dramas da viúva Matilde. O desejo sexual que ela sente é percebido como algo diabólico – por isto o título da novela, A ceia do Diabo, referindo-se à intromissão de Satanás (da tentação do pecado) na sua vida familiar –, mas este entendimento tradicional da sexualidade é ultrapassado pela personagem.
Arnaldo Campos era um escritor e livreiro muito presente na cena cultural porto-alegrense. Tinha milhares de amigos entre seus leitores e fregueses de livraria, entre os quais me incluo. Li a sua novela no último domingo - como uma homenagem pela sua morte recente - e percebi que a narrativa transborda humanidade pelo drama de Matilde.
Ao final da novela, a viúva constata que “tão difícil quanto achar o [cometa] Halley seria voltar a viver em paz com o filho”. Matilde passara a namorar o vizinho, coisa que o filho não aceitava. Independente da postura filial, porém, Matilde segue em frente. A perspectiva da narrativa é totalmente favorável à mulher, numa perspectiva afável, impregnada de humanidade, bem como o era o feitio de Arnaldo Campos.

domingo, 23 de setembro de 2012


Violeta foi para o céu

As canções da chilena Violeta Parra fazem parte do repertório de muitos de nós, especialmente daqueles que viveram o movimento estudantil dos anos 70. Era comum nos diretórios acadêmicos se ouvir as canções de Violeta Parra, assim como as de Mercedes Sosa, Chico Buarque e Gonzaguinha. “Me gustan los estudiantes” (“aves que no se assustan / de animal ni policia”) mais “Gracias a la vida” (“que me ha dando tanto... / me ha dado la risa y me ha dado el llanto”) me parecem representativas das composições de Violeta, uma artista enraizada no folclore chileno, vinculada às lutas populares latino-americanas e também ao Partido Comunista.
Com essas lembranças, fui assistir ao filme Violeta foi para o céu (Violeta se fue a los Cielos), de Andrés Wood (Chile, 2011, 110 min.), que está em cartaz na cidade. O filme é do mesmo diretor do excelente Machuca, baseia-se em livro escrito por um filho da cantora (Ángel Parra) e surpreende quanto ao modo como aborda a vida da cantora, compositora e artista plástica.
Uma narrativa que não romantiza a artista. Não trata a sua trajetória de forma linear e opta por uma estrutura fragmentada de representação de sua infância, amores e obstinações, tudo isso articulado por suas canções. Um filme comovente, duro, nada confortável e muito bonito. Uma espécie de mosaico poético da vida da cantora, com metáforas rudes e significativas: a cantora menina, suja e pobre, se lambuzando ao comer amoras; a frágil galinha solta no pátio, ameaçada por um gavião. Metáforas que são decodificados pelo próprio filme: a determinação e obstinação da cantora, que não perde sua matriz de índia pobre; a frágil galinha (a mulher, o povo sofrido) diante do gavião poderoso (as estruturas de poder e o capitalismo).
Ao contrário do que eu imaginava (como ouvinte de suas delicadas composições), Violeta não era uma mulher frágil nem delicada. No filme, é interpretada brilhantemente por Francisca Gavilón, uma artista de traços semelhantes à de Violeta e que acentua a postura simples, dura e sofrida da cantora. Talvez uma postura típica de índia - e, por isso mesmo, vista com desconfiança pela elite chilena.
Particularmente, me impactaram as cenas nas quais Violeta sai em busca de artistas populares nas montanhas, tanto para registrar suas canções quanto para aprender a cantar. Violeta não se propôs a desenvolver uma “voz acadêmica”, mas a mergulhar seu canto e sua arte nas raízes populares. Como estudante dos anos 70, foi esse traço da cantora que primeiro aprendi a admirar: sua vinculação com a arte popular. Mas não a sabia tão determinada e obstinada como o filme indica. Numa obstinação, por sinal, que a terminou sufocando-a e levando-a ao suicídio.

domingo, 16 de setembro de 2012


O noivo tinha suas razões

Trata-se de uma história que aconteceu em Pelotas, na década de 1950. Quem me contou foi uma prima, Carmem Lúcia, que morreu dois anos atrás. Carmem e eu reuníamos histórias e planejávamos escrever um livro. Mas não escrevemos uma linha desse livro. Apenas conversamos a respeito. Sonhamos juntos. E nos divertimos bastante. Tempos atrás fui visitar o seu túmulo e lembrei dos nossos planos...
Uma das histórias que lembrei foi esta, acontecida com uma empregada doméstica, que trabalhava num casarão da Rua Benjamin Constant, perto do porto. A mulher traia o noivo com um rapaz – um filho da patroa – e o noivo descobriu. Um dia, o noivo pega a noiva pelos cabelos e dá uma baita duma surra. A mulher passa três dias na cama e, quando volta a trabalhar, está desfigurada.
Todo mundo sabia da traição, todos ficaram sabendo do corretivo que o noivo dera e, a partir de então, a conversa girava em torno disso: a violência que a empregada sofrera. O pessoal se dividia entre defender e acusar o noivo. Carmem cresceu ouvindo essas conversas.
– O noivo tinha suas razões para bater, a maioria falava. Alguns diziam que ele tinha o direito – a Carmem contava.
– E a mulher, o que fez? – eu perguntava.
– Ora, casou com o noivo e teve três filhos com ele. Era gamada no cara – a Carmem explicava. – Naquele tempo não havia preocupação em relação à violência contra mulher ou coisa parecida. Eu mesma vi os dois aos beijos e abraços, reconciliados.
Escrever histórias como essa era o nosso desafio. Casos como esse compunham a nossa matéria-prima, o substrato do imaginário que pretendíamos desvendar. A partir dessas histórias, queríamos explicitar os costumes, as crenças e os valores que nortearam nossas vidas. Não era pouca coisa.
Carmem vivenciou o episódio, eu apenas escutei a respeito. Tinha catorze anos quando ouvi pela primeira vez. E o revivemos outras tantas, ambos mais velhos, ao redor de um prato de siri, bebendo vinho branco.
No cemitério, fiquei lembrando nossas conversas...
– E o rapaz que transava com a empregada, o que foi feito dele? – pensei.
Não lembro o que Carmem contava do rapaz. Só sei que ela tornava o episódio divertido e revelador do mundo em que crescêramos.
O noivo tinha suas razões para bater. Eu também tenho meus motivos para não deixar esse episódio cair no esquecimento.

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Redoma de vidro

Uma senhora de 87 anos, professora primária aposentada, me telefona e pergunta a respeito de quando os professores das universidades federais voltarão às aulas. Informada de que o movimento de paralisação continua, ela provoca:
– Vocês pensam que vivem numa redoma de vidro?
Esta senhora se formou na Escola Complementar, na época do Estado Novo, e se tornou alfabetizadora nos antigos grupos escolares. Fez carreira no Magistério Estadual e aposentou-se no início dos anos 70. Gradativamente, com o rebaixamento salarial que o Magistério sofreu, passou seus votos (antes dados ao PSD, depois à ARENA) para o nascente Partido dos Trabalhadores. Foi uma eleitora entusiástica do PT, de Olívio Dutra e Lula, até a crise de 2005. A partir daí, decepcionada, desistiu de votar.
– Já passei da idade – explica. – Agora deixo para os jovens.
Mas um sonho ela não abandona: o do piso nacional do magistério, que o Tarso Genro criou no Ministério da Educação... e não conseguiu implementar no Rio Grande do Sul. Isto ela acha que merece. Se bem que teme não viver até lá.
Esta senhora é uma interlocutora privilegiada que tenho – uma interlocutora do mundo que existe além dos muros da universidade federal. Leitora de jornal, espectadora de noticiários de TV, leitora de romances (de Eça de Queirós e Machado de Assis, que não deixa de reler), é uma senhora bem informada.
– Mas o país não está na iminência de ser arrastado numa crise internacional? – pergunta. – Vocês não acham que estão querendo o que nenhuma outra categoria consegue? Onde é que vocês estão?
– Na tal redoma de vidro – eu rebato. E tento reproduzir a argumentação da direção do movimento (pelo menos os argumentos que visam tornar o magistério superior federal uma carreira atrativa), mas desisto. – O movimento paredista ultrapassou a medida do razoável – concluo.
A senhora faz um pequeno silêncio do outro lado de telefone e pergunta se não corro o risco de ser demitido. Respondo que não. O ponto não foi cortado e nem o salário deixou de ser pago regularmente. Então a professora aposentada volta ao seu tema principal: o piso salarial do magistério estadual.
– Pois eu não vivo nessa redoma de vidro onde vocês estão – ela diz. – Eu e a maioria do povo brasileiro. Acho que vocês poderiam levar isto em consideração...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


Quem é a louca que passa?

O reles cronista desse blog, uma bicha enrustida que não tem coragem de sair do armário? Não, nada disso. Para a infelicidade de alguns leitores, não é o caso. Se fosse, imagino que eu teria coragem de sair batendo as portas ou coisa parecida.
A LOUCA QUE PASSA é uma homenagem aos loucos em geral, com os quais cruzamos nas ruas e nos assustam e encantam ao mesmo tempo. Os loucos que bebem poesia e assumem um olhar de desvario e desgraça, que às vezes nos atravessa e imobiliza feito um raio.
Quem sacou esses doidos e tematizou o seu fascínio sobre nós foi o poeta Luiz Guilherme do Prado Veppo, em diversos dos seus poemas. A loucura, de certa maneira, o encantava. No singelo poema “A que bebeu poesia”, publicado em Espada de flor (1975), isto fica bem claro. Ali se encontra o verso “a louca que passa”, referindo-se àquela mulher que “Deixou na vidraça / Um olhar que no fundo / Tem muita desgraça”. E logo depois o poeta pergunta: “Será minha mãe?”, minha noiva, minha filha? Para concluir que é, provavelmente, a mulher que se embebedou de poesia.
Prado Veppo tinha uma ternura profunda pelos loucos, os desvairados, os transviados da norma estabelecida. Seu olhar percebia o desvario de muitos de nós e procurava nos salvar da dor incomensurável da loucura. Mas sabia, na sua sabedoria, que a loucura é parceira da poesia. Que a loucura desvenda mundos obscuros e é capaz de enfeitiçar o mundo de poesia. Que é preciso, então, saber lidar com a doidice. Beber da sua seiva vital e não ficar eternamente preso aos seus braços.
Prado Veppo, é bom salientar, além de poeta, era psiquiatra. Penso que foi com ele que aprendi que pouco nos distinguimos dos doidos – ou, pelo menos, que me encontro a pouca distância do desvario, uma linha tênue me separa da doidice. Uma linha que é tudo, uma linha que faz toda a diferença na minha vida.
Ao intitular este blog com um verso do Veppo, pretensiosamente eu quis indicar três intenções: uma, a de exercitar uma olhar compreensivo a respeito da loucura; dois, o meu compromisso com a poesia; três, a minha dívida com Luiz Guilherme do Prado Veppo.

A que bebeu poesia

A louca que passa
Deixou na vidraça
Um olhar que no fundo
Tem muita desgraça.

Será minha mãe
A pobre da louca
Que nada mais tendo
Conserva a ternura?

Será minha noiva
Que louca ficou
Depois que parti
No barco da guerra?

Será minha filha
A louca do bairro
Que a vida judiou
Depois que morri?
                  
Ou foi a poesia
Que a louca bebeu
Que lhe deu esse ar
De ser doutro mundo?

O leitor encontra esse poema no livro Prado Veppo: obra completa, que Pedro Brum Santos e eu organizamos (Editora UFSM, 2002, 400 p.).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


Perplexidade

Minha perplexidade com a assembléia da SEDUFSM, na última terça-feira, não quer calar. Ainda não digeri o processo de votação e de soma de votos de duas assembléias distintas, como ocorreu naquele dia. Uma assembléia acontecia em Santa Maria, na UFSM, outra em Frederico Westphalen, no CESNORS. As assembléias não tinham comunicação. Os que estavam em Santa Maria não sabiam o que os colegas debatiam em Frederico. Os de Frederico, igualmente ignoravam o desenrolar dos fatos em Santa Maria. Ao final, no entanto, o presidente da assembléia de Santa Maria somou os votos de lá com os daqui. Como?
Eram assembléias distintas. Votações de propostas que não se igualavam. Os que capitaneavam propostas em Santa Maria não estavam em Frederico, não tinham contato com Frederico. Ou tinham representantes e a grande maioria dos presentes ignorava?
Volto a insistir: eram duas assembléias distintas, dois processos de votação que podem ter semelhança, mas não eram absolutamente os mesmos.
Eu estava na assembléia de Santa Maria, sentado num banco do Auditório da Química, e acompanhava o que se passava na minha frente. Ouvi as análises do projeto de lei a respeito da reestruturação da carreira e, especialmente, a apresentação de propostas para a continuidade ou não do movimento paredista.
Apresentaram-se várias propostas de continuação da greve e elas foram se reconfigurando numa só, ganhando o formato final de “manutenção do movimento paredista, com indicativo de saída no próximo dia 17”.
Contrapondo-se a ela, apresentou-se uma outra, almejando o fim imediato da paralisação. Uma proposta que também foi ganhando nova formatação ao longo do debate e agregando a idéia de manter as reivindicações da categoria, sem greve, por meio de uma comissão encabeçada pelo sindicato.
Veio a votação, a contagem, a proclamação dos resultados e, então, a surpresa geral. Após informar o número dos votantes da primeira proposta, a da manutenção da greve (129 votos), o presidente informou que a ela se somavam os votos da assembléia de Frederico Westphalen (36 votos), num total de 165. O tumulto foi geral, a surpresa e o espanto tomaram conta de grande número dos presentes – não apenas dos que votaram pelo fim da greve. Ao meu lado, colegas que queriam a continuação do movimento grevista exclamavam: “Mas desse jeito não!”
O presidente explicou – no meio do tumulto – que essas eram as novas regras do sindicato: a assembléia descentralizada, o modo de dar voz aos colegas de Frederico. E informou que eram 144 os votos contrários à continuação da greve, com acréscimo de mais 3 votos vindos do CESNORS. 147 no total.
Minha perplexidade não cala. A direção do sindicato me afiançou que meu estranhamento não procede, pois não estou a par do novo funcionamento das assembléias do meu sindicato...    

quinta-feira, 6 de setembro de 2012


A castelã de Longeville

“A castelã de Longeville” é um conto escrito pelo Marquês de Sade. Reencontrei-a num dos livros da “Coleção 64 páginas” da L&PM: O corno de si mesmo & outras histórias. Disse “reencontrei” e o leitor pode pensar que eu já tenha lido o conto em outros tempos. Não li não, escutei a história. Tinha um amigo que contava histórias galantes e essa fazia parte do repertório.
História de um casal de nobres na região da Champanha, entediados com o casamento de mais de dez anos, e que passam a cultivar amantes. O Senhor de Longeville mantém uma “apetecível e fresca” rapariga de 18 anos e não sabe que sua esposa também tem um consolo sexual: o jovem moleiro das cercanias. Musculoso como um burro, “bonito como a rosa que dava no seu jardim”.
A esposa tolera as infidelidades do marido, porém o marido, quando descobre a traição da esposa, resolve partir para a vingança. O Senhor de Longeville arma um plano para matar o amante da esposa, mas tudo dá errado. A castelã corre na frente e quem morre é a fresca amante do marido, jogada dentro de um saco no fosso que circunda o castelo.
Um conto moral! Com a morte da amante, se restabelece a harmonia entre marido e mulher.
Meu amigo e eu achávamos muita graça no conto e comentávamos sobre as várias formas de se estabelecer relações de poder entre casais, sejam eles institucionalizados ou não. Dizíamos que o primeiro que fosse a França daria um jeito de procurar o Castelo de Longeville. Talvez conhecendo o castelo, encontrássemos inspiração para entender os conflitos conjugais. Uma brincadeira que cultivávamos.
Meu amigo esteve na França mais de uma vez, mas não visitou a Champanha. Ficava em Paris e, uma vez, foi visitar os famosos castelos da região do Loire – o Chenonceuax, entre eles. Trouxe fotos belíssimas e avisou:
– Da próxima vez, subo até o território da Champagne.
Mas não houve essa outra viagem. Meu amigo morreu há poucos anos. Ficaram nossas conversas e nossa imaginação a respeito do mundo elegante narrado pelo Marquês.
– A vida dos nobres de Longeville era assim – pontificava meu amigo – era feita de jantares com carne de caça e espumantes deliciosos. Para a noite, moçoilas frescas e apetecíveis, ou rapazes musculosos para os apreciadores do gênero.
Na edição da L&PM, há uma nota de rodapé avisando que “ainda existe” o Castelo de Longeville. Provavelmente eu jamais irei conhecê-lo.

sábado, 25 de agosto de 2012


Na Praça da Matriz

Em 1987, participei da ocupação da Praça da Matriz, em Porto Alegre, promovida pelo CPERS (Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul). Pedro Simon era governador, rompera o acordo feito pelo governo anterior (Jair Soares), que “garantia” ao Magistério um piso salarial de 2,5 salários mínimos, e os professores se indignaram. Simon não quis comprometer o erário com a educação e o Magistério respondeu com uma greve gigantesca. Mas fomos escandalosamente derrotados. Um massacre!
Logo no início da greve, a direção do movimento decidiu pela ocupação da Praça da Matriz – uma ocupação permanente, com barracas e tudo mais – e eu estava lá, no dia em que isso aconteceu. Fazíamos manifestações diárias na frente do Palácio e, no dia da montagem do acampamento, eu não sabia de nada. Soube ao longo da tarde, quando os colegas começaram a montar o acampamento.
A ocupação alterou a rotina da praça e foi tema de longas discussões: como realizar um ato político contra o Governo do Estado sem criar confronto exagerado com a população usuária da praça? Como interagir com as senhoras, babás e crianças que vinham tomar sol, conversar e brincar na praça? Penso que houve civilidade de ambos os lados e que a coisa se resolveu bem. Os usuários logo se tornaram fregueses das professoras que vendiam doces & salgados, e parece que o convívio foi fraterno.
Mas havia o sino, dependurado numa árvore, que era tocado o dia inteiro. Um sino de escola – uma variação encorpada da tradicional sineta – que todos queriam badalar, para expressar a sua indignação com o governador. Chegava uma comissão de professores de longe (de São Gabriel, por exemplo) e a primeira coisa que a turma queria era tocar o sino da praça. Logo veio uma comissão de moradores locais e informou que o sino ecoava nos seus apartamentos. O sino incomodava os moradores e houve uma negociação com a direção do acampamento. O uso do badalo passou a ser disciplinado e não era mais tocado depois do anoitecer até o outro dia de manhã.
Escrevo isto porque, outro dia, me incomodei com os grevistas que ocupavam a Reitoria da UFSM. Uma estratégia de confronto desnecessário, do meu ponto de vista – e deselegante também. Lembrei dos usuários da Praça da Matriz, dos moradores do entorno da praça, e dos mendigos que, à noite, vinham dormir nos bancos...
Meu amigo Joãozinho (mais tarde diretor do Colégio Júlio de Castilhos) era da direção do movimento e logo percebeu que precisávamos administrar o problema dos mendigos. Eles não formaram nenhuma comissão e meu amigo se adiantou. Tratou de liberar alguns bancos, durante a noite, para que os mendigos os usassem como sempre faziam. Eles aceitavam calados o cachorro-quente ou a sopa que servíamos, se enrolavam nos seus trapos e nos observavam, desconfiados. “O que esses riquinhos fazem aqui?”, deviam pensar. E nós ali, lutando pela educação ou coisa parecida.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


Na porta da Reitoria

Se você é professor, funcionário, estudante ou utiliza o espaço da Universidade Federal de Santa Maria para alguma coisa, quantas vezes já foi barrado nesses últimos meses? Barrado de entrar no campus, na Reitoria ou em outro lugar da universidade, por conta das operações de choque do movimento grevista?
Da minha parte, não pude entrar na Reitoria quatro vezes, de julho para cá. Em duas ocasiões, eu não me incomodei. Numa terceira, eu soube com antecedência que os grevistas fariam a invasão e driblei o problema. Mas hoje, sexta-feira, fui surpreendido e me irritei. Cheguei até a porta da Reitoria e resolvi bater boca com os estudantes que estavam lá.
Uma menina abriu a porta e disse que “ninguém vai trabalhar hoje”. Fiquei discutindo com os guris que faziam a segurança externa e perguntei o que eles estavam ganhando com o movimento. Argumentei que a greve é um sucesso do ponto de vista político – emparedou a Dilma, engessou a UFSM, produziu dividendos políticos inegáveis para o PSOL & PSTU –, mas, e daí? Tirando isso, o que as categorias envolvidas estão ganhando? A greve já não foi além do razoável?
A conversa durou pouco tempo e praticamente apenas eu falei. Além do aviso da estudante, que abriu e fechou as portas da Reitoria para dar o seu recado, os estudantes que faziam a guarda foram lacônicos, disseram apenas duas frases, que reproduzo logo a seguir.  
“Estamos lutando contra a intransigência da Dilma”, disse um deles, quando falei que a greve passara dos limites e que não havia intenção de negociar por parte dos comandos de greve. E me estendi falando do movimento dos professores, que explicitou uma cisão profunda na categoria, com o ANDES recusando o acordo com o governo que o PROIFES aceitou. Uma atitude que terá danos irreparáveis para o ANDES, do meu ponto de vista.
Depois, com a continuidade da minha conversa, procurando responder que os estudantes não estavam na disputa por interesses político-partidários, um dos rapazes repetiu o slogan clássico: “estamos lutamos pela melhoria da educação”.
Aí não deu. “Isso é conversa pra boi dormir”, falei. E saí de cena. Com 57 anos, 34 de magistério (21 na UFSM), não posso endossar um argumento desses. Acreditar que, na conjuntura atual, com os números espantosos de crescimento da UFSM, uma greve de três meses possa sinalizar luta por melhoria educacional, puxa vida, é demais! Deixo esse argumento para os que chegaram ontem ao mundo.
Na porta da Reitoria, percebi que mudei. Mudei meu entendimento de luta política, luta econômica e por melhoria da educação. Estratégias de ocupação, com agressão à liberdade dos outros, só em casos excepcionais. Na conjuntura atual, não me parece que somem positivamente. Não sei se indicam o beco sem saída a que o movimento chegou ou, simplesmente, muito pior, a sua irresponsabilidade.

A mamãe não quer

Caminho pela Rua Floriano Peixoto e escuto a frase:
– A mamãe não quer que tu ponhas porcaria na boca.
Olho para a “mamãe”, vejo uma senhora puxar um cachorrinho pela coleira – o cusco estava furungando alguma coisa na calçada – e constato com quem ela está falando. Então lembro uma conversa de estudantes de Veterinária: a rapaziada não agüenta os “papais” e as “mamães” que chegam as clínicas. Que essa é uma das pedreiras da profissão. A gurizada tem que se preparar.
– É precioso ter psicologia – dizia um dos estudantes. – Agora o veterinário tem que ter preparo semelhante ao do pediatra.
Observo a “mamãe” do cusquinho passar por mim e penso que o guri está com razão. Essa aí deve chegar a clínica e explicar que o seu “filho” não obedece ou coisa assim:
– O que eu faço, doutor?    
Conto isso a um amigo que se apaixonou pelo poodle da filha e ele comenta que não entendo nada da relação entre homens e animais.
Não entendo mesmo. Sou do tempo em que cachorro era cachorro – bicho, animal doméstico – que se tratava com carinho, sim, mas não passava do umbral da porta da cozinha. Vivia e dormia no pátio.
Um dia, meu irmão mais velho chegou com um filhote de perdigueiro com vira-lata e foi uma festa lá em casa. Foi o único cachorro da minha infância. Nós morávamos em casa e meu irmão criava pombas e periquitos. Os periquitos tinham um viveiro; as pombas, uma casinha que ficava perto do chão. Uma tentação para o cusquinho! Banzé era o nome dele. Passaram-se alguns dias e o Banzé entrou na casinha das pombas e saiu com uma delas na boca.
Não vi o cachorrinho mastigando a pomba. Vi ele correr feliz da vida pelo pátio, com umas penas no canto da boca. Custei a entender. Meu irmão logo compreendeu a situação e ficou furioso. Uma lição para nós. Jamais imagináramos que o Banzé fizesse uma coisa daquelas.
– Ele é bicho – o pai explicou – ele não fez nada demais – e ajudou meu irmão a colocar a casa das pombas numa altura que o Banzé não alcançasse.
Acho que é por isso que tenho dificuldade em entender esses cachorrinhos que viraram gente. Que se tornaram “filhos” e passaram a ter mamães-gente, papais-gente, e até vovós.
– Haja psicologia! – disse um estudante de Veterinária

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Churrasquinho na praça

Seu Antônio faz churrasquinho na Praça Roque Gonzáles (na frente do Hospital de Caridade) há um ano. Tem freguesia certa. Enquanto conversávamos, vieram duas funcionárias de uma farmácia das imediações e comeram cada uma um espetinho, sentadas num banco da praça. Veio também um rapaz, que acabara de chegar de viagem, e levou meia dúzia, todos embrulhados em papel laminado.
Era uma noite quente e seu Antônio estava na praça desde as quatro da tarde. Sobravam poucos espetinhos e ele me adiantou que o movimento fora muito bom.
– Dá pra vender uns 50 por dia. No início do mês, se trouxer 80 ou 90, vão todos. Depois do dia 20, porém, fica difícil. O pessoal já gastou o salário – ele explica.
Seu Antônio nasceu em Jaguari, em 1945. Aos cinco anos de idade, começou a trabalhar numa leiteria – ele disse “leitaria”, é assim que se fala na região – e cuidava das vacas. Dava comida, levava elas pro campo, pra estrebaria. E eu não acreditei.
– Com cinco anos de idade? – perguntei.
Sorrindo, ele respondeu que sim. Contou que puxava os animais por uma corda e os bichos vinham tranqüilos. Depois, ainda criança, passou a entregar leite nas casas. O dono arrumava os litros de leite em malas de garupa, em cima do cavalo, e lá saia ele.
Novamente meu espanto. Mas dessa vez fico calado. 
Depois seu Antônio veio para a cidade e foi trabalhar no escritório de uma empresa de transporte.
– A mesma empresa, durante vinte oito anos – ele explica com orgulho.
 Tenho vontade de perguntar como se deu a passagem do mundo rural para o urbano, mas deixo pra outra hora. Chegam mais duas clientes e ele as atende com atenção.
Ao redor de nós, o Hospital de Caridade, os prédios de consultórios médicos e clínicas variadas. Um pólo sofisticado de serviços de saúde, referência no interior do estado. Como será que seu Antônio vê tudo isso?
São oito e meia da noite e ele não tem mais churrasquinho para vender. Vai para casa mais cedo e fico observando ele encerrar o expediente.
Na verdade, ficamos olhando, Leonardo Brasiliense e eu. Foi o Brasiliense quem descobriu o seu Antônio. Trouxe a máquina fotográfica e ficou fotografando o homem, enquanto eu conversava com ele. (Confira as fotos no blog leonardobrasiliense.blogspot.com.)
Quem vê o seu Antônio?, me pergunto. Se não fosse o Brasiliense, fotógrafo atento à paisagem humana da cidade, eu não teria visto.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Professores e leitura

Nikelen Witter fez uma provocação no Facebook quanto à função do professor na formação do leitor. Fiquei motivado pela questão e aqui vai minha resposta.
Professor ajuda, sim. No meu caso, foi fundamental. Tive um bom incentivo dos pais – da mãe professora e alfabetizadora; do pai bancário, que gostava de Alexandre Dumas & Balzac – e os professores completaram o ciclo.
A professora da escola primária falava em Tomé de Souza e lá ia eu procurar em casa o que havia sobre os governadores gerais no Brasil. As primeiras leituras de livros de História. Depois, na 1ª série ginasial, o professor indicou As aventuras de Tibicuera como leitura obrigatória e foi um deslumbramento. Leitura inesquecível. Na seqüência, não me tornei leitor de Erico Veríssimo. Isso veio depois. Fui ler José de Alencar, por indicação dos professores, e Júlio Verne, por sugestão do pai.
Um dia, na 3ª série ginasial, o professor de Língua Portuguesa apresentou Olhai os lírios do campo para fazermos análise sintática e fiquei encantado. Aquele texto enxuto, claro, claríssimo – frases curtas e diretas – me pegou pelo pé. Estava encharcado de Alencar, Casimiro de Abreu e Ronald de Carvalho, e de repente aquela “simplicidade” do Erico veio para lavar a alma. Acho que nunca mais fui o mesmo.
O professor de História dava uma aula sobre a Guerra do Paraguai, eu comentava o assunto com um tio, coronel do Exército, e terminava ganhando livros da Biblioteca do Exército. O melhor de todos, Reminiscência da Guerra do Paraguai, de Dionísio Cerqueira. Uma preciosidade!
E, no meu caso, que era ligado à Igreja Católica, valeu também a indicação de livros de temática religiosa: Quo vadis, O último cruzado, Ricardo Coração de Leão – que o pai lia (às vezes relia) e comentava comigo. E mais Maria da tempestade, de João Mohana, um romance inesquecível. E também O diário de Anne Frank, indicado por um irmão marista, professor de Religião.
Penso que um leitor se forma a partir de múltiplas motivações. E nisso entra a família, mas também a escola, às vezes a Igreja, mais os meios de comunicação, especialmente o cinema.
Foi um professor de Teoria da História, na faculdade, que me colocou no rastro de Dostoievski. Ele falava olhando para um ponto qualquer da sala, muito distante de nós, reles mortais, e de repente se referiu a Os irmãos Karamazov. Disse que era um tratado sobre a alma humana e fez um longo silêncio. “Um tratado”, “a alma humana”, “as verdades da nossa condição”. Nunca mais esqueci.
Quando fui ler este romance, era com o professor da faculdade que dialogava. E concordei com ele. Estava diante da “mais dura e torpe humanidade”. O teacher não me enganara. Pelo contrário.