sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Revolução de 1932 no Rio Grande do Sul


Em 1932, as lideranças da Frente Única sul-rio-grandense romperam com Getúlio Vargas e comprometeram-se com os paulistas num movimento de rebelião ao Governo Provisório varguista. Entre esses líderes gaúchos estavam Borges de Medeiros e Flores da Cunha, do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), mais Raul Pilla e Batista Luzardo, do Partido Libertador (PL). Flores da Cunha era o interventor no estado (nomeado por Vargas) e o movimento dependia dos recursos que Flores dispunha como chefe de governo (o comando da Brigada Militar) para o sucesso militar da revolta.

Quando se aproxima a eclosão do movimento, no entanto, Flores retoma os laços de lealdade para com Vargas e deixa os companheiros na mão. As operações militares contra o Governo Provisório iniciam em São Paulo, no mês de julho, as lideranças paulistas contam com o apoio gaúcho, mas as lideranças gaúchas não conseguem se mobilizar. Borges de Medeiros e Batista Luzardo são “presos” em Porto Alegre e os focos de revolta no estado ficam contidos no nascedouro. Flores conhecia os planos dos rebeldes e traz as lideranças do movimento sob estrita vigilância.

Uma vigilância, no entanto, que não implicava em trancafiar os líderes em prisões. Luzardo vivia num hotel da Rua Andrade Neves, Borges na sua residência na Rua Duque de Caxias, e eram apenas vigiados por agentes policiais. Luzardo se disfarça de padre e burla os policiais, Borges também engambela os seus secretas durante um passeio matutino e ambos partem para o interior do Estado com o propósito de estabelecer um “foco revolucionário”.

Forma-se então a Coluna Luzardo e o propósito inicial é tomar Santa Maria (em função do papel estratégico da cidade quanto ao controle da malha ferroviária), mas o projeto não vinga e a coluna, com um efetivo de aproximadamente 200 homens, se encaminha para o sul. Enquanto isso, apenas na região de Soledade um outro foco de luta é criado (pelo general Candoca), porém logo contido.

A Coluna Luzardo marcha pela região da Campanha e no dia 19 de setembro acampa na estância de Cerro Alegre, nas proximidades de Piratini.  No outro dia, 20 de setembro, 700 homens das forças legalistas cercam os rebeldes e os levam à rendição após algumas horas de tiroteio. É o último combate da Revolução de 32 no Rio Grande do Sul. Alguns dizem que é o fim de um ciclo revolucionário que iniciou com a Revolução Farroupilha, mas isso é um exagero. Historiadores mais apegados a ideia de uma tradição revolucionária sul-rio-grandense costumam endossar essa interpretação, no entanto trata-se apenas do esgotamento das revoltas oligárquicas no estado, as quais, no que diz respeito ao quesito “revolucionário” (mudança de estrutura social) são questionáveis.

Seja como for, essa temática histórica (a do ciclo revolucionário) é um filão que alimenta boa parte da nossa literatura de feição memorialística, historiográfica e ficcional, e muitos de nós gastam horas em torno desse assunto. Um tema fascinante, constitutivo da nossa identidade regional. No caso da Revolução de 32 – e em especial do compromisso que os gaúchos assumiram com os paulistas – trata-se de um episódio histórico que muitos de nós ouviram os avós, os pais e os tios comentarem animadamente, xingando-se uns aos outros e também fazendo piadas, rindo. Menino, eu ouvia o pai e meu avô materno tratarem desse assunto, indagarem por que os gaúchos romperam a palavra dada aos paulistas, e me empolgava.



Foi com essa memória de menino que li essa semana o livro Pela palavra empenhada: a Revolução de 1932, de Blau Souza e Zeno Chaves (PoA: AGE, 2012. 184 p.), uma investigação histórica e memorialística sobre o episódio revolucionário de 32 no cenário sul-rio-grandense. Como o próprio título indica, uma investigação que tem como eixo a pergunta a respeito de como as lideranças gaúchas lidaram com a “palavra empenhada” aos paulistas. Uma palavra (compromisso) que a gauchada não manteve.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Batalha da Ponte Mílvea


A batalha da Ponte Mílvea é daquelas que se estuda na história romana devido ao seu papel na reorganização do Império após a crise do século II d.C. É o confronto militar no qual Constantino derrota Maxêncio, às margens do rio Tibre, em 312, e dessa maneira prepara o caminho para a reunificação dos impérios do Ocidente e Oriente (criados por Diocleciano) e seu coroamento como único imperador. Para quem tem alguma intimidade com a história do Cristianismo, no entanto, é muito mais do que isso.

Segundo a lenda católica, às vésperas da batalha, Constantino teria tido uma visão na qual se apresentou uma cruz com a legenda  In hoc vince (Através disso vence) e ele se converteu ao Cristianismo. O general mandou desenhar nos escudos da sua tropa o signo da Cruz e derrotou seu adversário. Na sequência, foi promulgado o Édito de Milão (assegurando a liberdade de culto), terminaram as perseguições aos cristãos e abriram-se as possibilidades do Cristianismo se estabelecer como religião oficial e estruturar-se como igreja imperial. Para alguns, Constantino encerrou a Antiguidade (o domínio do paganismo) e inaugurou o início da Cristandade (um modelo sócio-político no qual o Cristianismo ocupa o polo central).

A Batalha da Ponte Mílvia (detalhe), de Rafael Sânzio. Vaticano.
Escrevo isso porque há pouco mais de um ano passei diante da Ponte Mílvea, em Roma, e a cena se gravou em mim como uma espécie de iluminação. Estava dentro de um ônibus, a professora de italiano se referiu à ponte rapidamente... e fui transportado ao meu mundo de criança. Uma experiência e tanto, dessas que a gente volta e meia relembra.

E me refiro a essa vivência como “iluminação” porque a minha infância se fez presente naquele momento como um jato de luz. Fui iluminado pela lembrança do tempo em que era aluno de catequese, me preparava para a primeira comunhão e me enfronhava nas lendas e histórias da Igreja Católica. Em algum momento daquele período da infância aprendi sobre a visão de Constantino, a cruz marcada nos escudos dos soldados, e acredito que a História Geral de Souto Maior (um livro muito adotado pelas escolas na década de 60) tenha sido uma das referências. Provavelmente foi nesse livro didático (do meu irmão mais velho) que li pela primeira vez a respeito do assunto.

Essa semana, relendo A Igreja no Império Romano, do historiador gaúcho Martin Dreher, descobri que a matriz dessa lenda é Eusébio de Cesaréia, contemporâneo de Constantino. Eusébio escreveu uma história eclesiástica na qual afirmava que o general implorou ao “Deus dos céus e de seu Logus, Jesus Cristo” a vitória no campo de batalha. Mais tarde, após a morte de Constantino, Eusébio acrescentou mais detalhes. Contou que, às vésperas da batalha com Maxêncio, o futuro imperador teve uma visão ao meio-dia e viu uma Cruz se colocar diante do Sol com a famosa inscrição afirmando que ele venceria com aquele símbolo cristão.
Martin Dreher comenta que Constantino não se converteu ao Cristianismo às vésperas da batalha de Ponde Mílvia e só foi batizado 25 anos depois, no leito de morte. Constantino era adepto do culto a Mithras, mas nem por isso deixou de perceber que a nascente Igreja Cristã poderia ser útil para a reorganização do então fragmentado Império Romano. Um político sagaz que soube fazer um pacto com a Igreja muito proveitoso para os dois lados. 
A história romana é um tema que não tem fim e imagino que um dia, se voltar a Roma, procurarei a Ponte Mílvea. Mas não será apenas para homenagear as glórias do imperador Constantino ou a inauguração da Cristandade. Será, principalmente, para lembrar de um guri que foi coroinha na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Pelotas, e um dia acreditou que as forças divinas eram capazes de intervir na história dos homens.


- DREHER, Martin. A Igreja no Império Romano. São Leopoldo: Sinodal, 1993. (vol. 1 da coleção "História da Igreja".)
- SOUTO MAIOR, A. História Geral: para o ensino de 2º Grau e vestibulares. São Paulo: Companhia Editora Nacional, s/ data.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Calça rasgada


Há tempos estou para escrever sobre essa moda das calças rasgadas. Isto é, a respeito desse modismo que era uma característica do vestuário da juventude rebelde dos anos 80 e que, de repente, entrou no circuito das butiques sofisticadas, nas revistas de moda, na indumentária das cantoras de sertanejo e por aí afora. O costume de rasgar as calças parece vir da cultura punk, que se esmerou em estetizar um visual contestador – no corte e na cor dos cabelos, no vestuário – e lá pelas tantas a coisa transbordou desse nicho e ganhou um público mais amplo, indiferente à contestação política.

No ano passado, viajando de trem na Itália, uma colega que trabalha com moda me explicou, simplesmente, que “irreverência vende”.

– O público feminino adora – ela acentuou. A moça é funcionária de uma indústria têxtil paulista (na região de Americana) e costumeiramente viaja a Milão e Turim para conferir as tendências do vestuário.

– A Itália é referência no mundo da moda – ela disse. E me contou que, entre outras coisas, o seu trabalho consistia em circular pelas lojas, pelos departamentos de roupa feminina, e observar o que as mulheres gostam, anotar as suas preferências. E calça rasgada está entre os itens.

Ainda insisti na pergunta sobre o perfil do público feminino, se eram mulheres que queriam encenar no próprio corpo, na vestimenta, a contestação da ordem dos costumes, da ordem social e ela franziu a testa.

– Irreverência – ela frisou. E voltou a repetir que era isso que as mulheres querem comprar. Ela repassava seu relatório para os figurinistas da fábrica onde trabalhava, no estado de São Paulo, os caras seguiam a orientação – as tendências  apontadas – e a coisa vingava, isto é, vendia.

Eu devo ter feito alguma cara feia, cara de quem não entendeu, e a conversa não rendeu mais. Uma pena. Na certa a moça viu que eu não entendo de gostos e preferências femininos, e descurtiu. Nós éramos colegas numa escola de língua italiana para estrangeiros, tínhamos terminado o curso e viajávamos na região de Marche. Eu ia a Macerata para visitar o Museu Buonaccorsi, ela seguia um mais adiante para pegar um voo para Milão.

Há tempo estou para escrever sobre essa moda das calças rasgadas. A coisa me intriga. Em Siena, fotografei a vitrina de uma butique (foto abaixo) e lá estava um manequim com calças rasgadas. A confirmação do que disse a minha colega: em Milão, em Siena, em São Paulo e em tantas outras cidades do Brasil e do mundo, tudo a mesma coisa: a irreverência vende.


Mas tem que ser conjugada com um sapato de grife, um cinto idem, uma blusa de seda, coisas assim, me explicou – didaticamente – uma amiga, insistindo para que eu largasse de mão a implicância com esse modismo.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Maria Madalena


A Bíblia é a narrativa central da nossa civilização. Isto é, se entendemos que a nossa civilização é construída tendo como referência básica a tradição judaico-cristã, não há como escapar das histórias bíblicas, sejam verdadeiras ou não. Suas histórias estão no eixo do nosso imaginário e tanto as aprendemos nas cerimônias religiosas, quanto na escola, nas ruas, nos museus e, especialmente, no cinema. Entre essas histórias, sem dúvida, está a de Maria Madalena, figura citada nos quatro evangelhos de forma sucinta e que gerou diversas interpretações e lendas.

No filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, ela é a adúltera que vai ser apedrejada e que Jesus salva da morte. Uma cena belíssima de uma linda mulher jogada no chão, já estropiada, sangrando, e que ergue os olhos, agradecida, ao seu Salvador. O filme recria a passagem do Evangelho de João  8, 1-11, no qual uma adúltera é apresentada a Cristo para que ele se pronuncie a respeito da Lei de Moisés (que ordena o apedrejamento de tais mulheres). Jesus enfrenta o questionamento lançando um desafio – “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” – e livra a moça do castigo. O evangelista não nomeia a mulher, mas alguns exegetas medievais a identificaram como Madalena e a interpretação colou, se difundiu e chegou até o cinema do século XXI.

Outro trecho dos Evangelhos que serviu para identificar Madalena como pecadora é a que trata da mulher que lava os pés de Cristo na casa de um fariseu (Lucas 7, 36-50). Nesse episódio, uma pecadora anônima banha os pés de Jesus com suas lágrimas, depois seca-os com seus cabelos, cobre-os de beijos e os unge com perfume. Novamente o evangelista não nomeia a mulher e alguns estudiosos a identificaram como Madalena. Uma mulher que “entregou-se completamente aos prazeres carnais” e depois se arrependeu, conforme está na Legenda Áurea, um dos mais famosos livros sobre santos, escrito por Jacopo de Varazze no século XIII.

Na Contra-Reforma essa versão da trajetória de Madalena foi reforçada e serviu como instrumento de propaganda católica para construir o modelo da mulher arrependida, que passa pela confissão, a penitência e alcança a salvação. É dessa maneira que ela ganha a tradição popular e, até hoje, quando pesquisadores vão à campo, recolhem depoimento de homens e mulheres de todas os níveis sociais que repetem a versão da adúltera e da pecadora.

Mas o assunto nunca deixou de ser polêmico entre os estudiosos e, durante o Concílio Vaticano II (na década de 1960), a Igreja acatou e consolidou um “novo entendimento” a respeito de Madalena: a de que ela não é a adúltera que Cristo salvou do apedrejamento nem a pecadora que lavou os seus pés. A Igreja resgatou o que se encontra no texto dos Evangelhos e passou a afirmar que ela era, isso sim, uma das integrantes da “companhia feminina de Jesus” (expressão usada por Lucas para designar as mulheres que acompanhavam Cristo e os doze apóstolos) e, principalmente, a primeira pessoa a ter contato com o Cristo ressuscitado (a "apóstola dos apóstolos", segundo Tomás de Aquino).

Em junho de 2016, o Papa Francisco elevou “a memória de Madalena [...] ao grau de festa pela Congregação para o Culto” (colocando-a no mesmo patamar dos doze apóstolos consagrados pela história eclesiástica) e deste então se tornou mais visível o esforço da Igreja Católica em restabelecer a história de Maria Madalena nos termos em que ela foi descrita pelos evangelistas. Junto com isso, também se revelou o polêmico esforço de mudar o papel das mulheres “na missão de Cristo e na Igreja”. No entanto, na tradição popular, permanece a versão criada no medievo e reafirmada na Contra-Reforma da pecadora arrependida.

Agora, Hollywood se engaja nesse projeto do Vaticano e produz o filme Maria Madalena, lançado no Brasil em março desse ano. O filme tem roteiro de duas mulheres (Helen Edmundson e Philippa Goslett), a direção de Garth Davis (o mesmo de Lion: uma jornada para casa, premiado no Oscar de 2017), e produção da Universal Pictures.

Madalena é interpretada como uma moça frágil, porém decidida, que sabe se impor diante da sua família. O pai e os irmãos querem que ela case, escolhem um noivo para ela, mas a moça tem outras aspirações e os enfrenta. Frágil e delicada, ela tem inquietações religiosas e prefere seguir um profeta (Jesus) que anda pela região. Castamente, se integra aos seguidores de Jesus e, no filme (ao contrário do que é indicado nos Evangelhos), é a única mulher no grupo.

É significativa a cena em que ela aparece puxando uma rede de pesca, pois dessa maneira ela se assemelha aos apóstolos consagrados, os “pescadores de homens”, conforme Jesus os chamou (Mateus 4, 19). Cena simbólica da luta das feministas católicas por um maior protagonismo na estrutura de poder eclesiástico.

Maria Madalena, interpretada por Rooney Mara, no filme Maria Madalena (2018).

Sem dúvida, um filme importante no contexto das tentativas de renovação do papel da mulher nos quadros da Igreja Católica. Mas não me parece que tenha tido grande repercussão e nem empolgado a pequena parcela da população que frequenta as salas de cinemas. Uma avaliação, claro, a conferir. Na sessão em que fui assistir ao filme, aqui em Santa Maria, havia dez pessoas na plateia e não senti entusiasmo – nem em mim nem nos demais espectadores. A Madalena dos filmes de Mel Gibson, de Martin Scorsese, e do romance de José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo) ainda são mais empolgantes.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Memorial da Resistência - São Paulo.


Em 1969, um grupo de frades dominicanos foi preso pelo DEOPS/SP por apoiar a luta armada da ALN (Ação Libertadora Nacional). Frei Beto era um deles. Os frades não participavam de operações militares, eram um grupo de apoio tático e foi através deles que os agentes de segurança chegaram até um dos principais líderes da organização, Carlos Marighella, e o mataram.

A história está contada em diversos livros, entre eles Batismo de sangue, de Frei Beto (um dos melhores títulos da memorialística guerrilheira). O livro virou filme (muito bom, também entre os melhores a respeito do tema) e é lembrado numa das paredes do Memorial da Resistência, na cidade de São Paulo.

Os frades foram presos, rezaram uma missa na prisão e a cena (tal qual como representada no filme)  está desenhada numa das paredes do corredor do antigo conjunto prisional do DEOPS, reconstituído em 2007, com o propósito de manter viva a lembrança da resistência ao Regime Militar (1964-1985).



Estive no Memorial no início desse mês. Desci do metrô na Estação da Luz, caminhei meia dúzia de quadras até a Estação Pinacoteca, o prédio onde se encontra o Memorial, e fiquei impactado com os craqueiros atirados na calçada, dormindo em colchões ou sentados em grupo, acendendo seus cachimbos. A área está próxima à Cracolândia e um viajante como eu – vindo do interior do Rio Grande do Sul – não consegue deixar de ficar chocado.

A região é bastante policiada – abriga órgãos do governo estadual e sofisticados espações culturais (entre eles, a Sala São Paulo) – e dizem que os traficantes também auxiliam na segurança, impedindo que os drogados cometam “excessos”. Um lugar tranquilo de caminhar, me avisaram, mas chocante. “Umas das estações do Inferno”, me disse um paulistano.

Eu fui e respirei aliviado quando entrei no prédio. O Memorial ocupa parte do térreo da Estação Pinacoteca - que já abrigou os escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana e depois foi sede do DEOPS, entre 1938 e 1983, e hoje reconstitui parte do conjunto prisional que ali existiu. O museu privilegia um conjunto de quatro celas (mais corredor de acesso e corredor para banhos de sol) e remete o visitante ao período de 1969-71, considerado o mais feroz da repressão política protagonizada pelo Regime Militar. Os vídeos e textos indicam as “atrocidades, desencanto, humilhação e desespero” que ali aconteceram, mas também remetem aos atos de “coragem, fraternidade e sábia resistência” que também ocorreram naquele espaço.
Não é um lugar deprimente. É um espaço de memória, de reflexão – de sóbria reflexão, acrescentaria. E a cena da missa dos frades dominicanos desenhada numa das paredes indica uma das intenções do museu: a de que existe esperança. Ou, ao menos, que se pode encenar a esperança. Mesmo não se acreditando em coisa alguma da simbologia da missa católica ali representada existe a possibilidade de se apostar na solidariedade e na resistência e luta contra regimes de opressão.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Conversas com minha mãe


Talvez fosse em 2001, quem sabe em 2002, estávamos almoçando num dos restaurantes da PUC de Porto Alegre – minha mãe, minha mulher e eu – e cruzamos com Marshall Berman. Ele vinha caminhando ao lado do bufê fartamente servido (era o restaurante mais sofisticado da PUC) com um prato balançando na mão, vestido com exagerada displicência, os cabelos despenteados, e minha mãe o olhou de cima a baixo. Depois, na mesa, comentou com minha mulher e eu:

– É desse escritor que vocês gostam tanto? Na certa ele escreve melhor do que se veste.

Nós rimos e concordamos com ela. O famoso ensaísta norte-americano realmente compunha uma figura estranhíssima naquele ambiente, mas dissemos que valia a pena ler Tudo que é sólido se desmancha no ar. Minha mãe, no entanto, não se interessou. Ela estava na faixa dos setenta anos, tinha descoberto Machado de Assis, um autor que ela passara a vida inteira achando chato e que, de repente, tornara-se uma das suas leituras prediletas (junto com Eça de Queirós, um amor antigo).

Agora que minha mãe faleceu, meus irmãos e eu dividimos os seus livros (alguns dos tantos livros que ela leu ao longo da vida) e descobri entre eles um pequeno volume de contos de Machado, no qual ela anotou que eu a presenteei depois de um almoço num shopping de Porto Alegre, em 2012.

Mas não lembro o almoço. Não sei se comemos camarão e bebemos chope (um dos nossos cardápios prediletos) ou se comemos galeto e bebemos vinho... Era um shopping onde costumávamos passear, almoçar e, inevitavelmente, bater ponto na sua livraria.

A mãe lia regularmente e gostava de Machado, Eça, Isabel Allende e tantos outros - os autores da Bíblia inclusive. Lia e relia os contos e romances machadianos (preferia os romances), e muitas vezes eles nos serviam de porta de entrada para pensar a “natureza humana” (um termo que ela empregava), os segredos e as sombras que existem em todos nós.

Então eu olho os livros que me couberam na partilha e sinto que continuo vivendo como se minha mãe estivesse comigo... Como se ouvisse ela comentar os trajes de Marshall Berman ou as possíveis artimanhas da machadiana Capitu:

– As mulheres são muito ardilosas, meu filho, te cuida.
Folheio os livros que ela leu com tanta atenção – obras de Machado, Eça, Veríssimo, Josué Guimarães, Assis Brasil, Lígia Fagundes Telles, tantos – e é como se ainda continuássemos conversando, conferindo impressões de leitura, falando da família, de nós mesmos, tecendo essa teia de afetos entre mãe e filho que tanto me alicerça, me fundamenta, e da qual sou eternamente grato.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Assis, Giotto e São Francisco

Em fevereiro do ano passado, visitei a cidade de Assis (Itália) com meus colegas do Campus Magnolie (escola de língua italiana para estrangeiros). Estávamos hospedados em Castelraimondo (distante pouco mais de 70 km da cidade natal de São Francisco), tivemos aula pela manhã e viajamos a tarde. Visita guiada numa tarde de sol e muito frio. O professor falava em italiano, pausadamente, e dava para entender. Um passeio inesquecível, desses que muito professor de História sonha a vida inteira.
São Francisco de Assis é um dos maiores santos da Cristandade e a sua vida e prática espiritual são um marco na história da sensibilidade cristã. Como aponta Armindo Trevisan, seu amor à Natureza e sua devoção à Paixão de Cristo acentuaram uma revolução que estava em curso durante a vida do santo: a da humanização da teologia e da espiritualidade cristãs. Uma “revolução copernicana às avessas”, acentua Trevisan, que obrigava “o sol da reflexão a girar em torno do homem, isto é, da humanidade de Cristo, consequentemente, da humanidade sexuada de sua mãe”. Uma revolução desencadeada pelos santos Anselmo e Bernardo, no século XII, e que São Francisco viveu, poetizou e difundiu.
Entrei na cidade de Assis com a lembrança dessas leituras e, enquanto o meu corpo se movimentava por uma cidade do século XXI (a atual cidade de Assis, preservada/restaurada nos seus traços medievais), os olhos e a imaginação buscavam os sinais do passado. Visitei as basílicas de Santa Clara e de São Francisco nessa “vibe”, à procura de uma possível sintonia com a poderosa tradição inaugurada por esses santos e reinventada pela Igreja e pelos devotos nos últimos 800 anos.
Não se alcança isso numa tarde, é verdade, mas o que se vê, ouve e sente é material para que o passeio continue muito e muito tempo depois.
E foi isso que aconteceu semanas atrás: catei na estante um pequeno livro que comprei na Libreria Internazionnale Francescana e retomei o ponto mais alto desse passeio: a visita ao interior da igreja superior da Basílica de São Francisco. Ali se encontram as 28 pinturas murais de Giotto, intituladas “A vida de São Francisco” e realizadas entre 1296 e 1299. São 28 murais (ou afrescos) que o pequeno livro – Giotto: a lenda franciscana na Basílica de Assis – reproduz e comenta, tanto nos seus aspectos artísticos quanto (principalmente) nos seus aspectos religiosos. Um livro precioso para entender a enorme riqueza desses murais. Obra da juventude de Giotto e marca inicial do processo de ruptura com o convencionalismo bizantino e a inauguração de uma “representação mais vívida da vida”. Aos meus alunos, eu apontava Giotto como pré-renascentista, um artista que ensaiou os primeiros passos de uma nova representação da figura humana, que se configurou no Renascimento Cultural.
Naquela tarde (fevereiro do ano passado), caminhei pela igreja superior da Basílica de São Francisco e parei diante de cada mural. Vistos um a um, em silêncio, foi possível uma sintonia com o material religioso dos murais e a vivência de uma emoção crescente. Quando cheguei ao mural da cena do Monte Alverne – mural nº. 19, no qual o santo tem a visão de Cristo sob a aparência de um Serafim Crucificado e recebe os estigmas da Cruz nas mãos, nos pés e no lado direito das costelas – era como se eu tivesse percorrido um enorme caminho e encontrado uma das matrizes da minha vida. Afinal, guri da década de 1960, tive minha fase de sonhar com os santos e querer imitar suas vidas de martírio. Coisas de quem se criou à sombra da Igreja Católica...
Muito bom poder retornar a isso (à matriz católica) aos 62 anos de idade, e também sintonizar com o menino e adolescente que eu fui. Se perdi a fé religiosa, ganhei humanidade. E ganhei-a nos marcos da tradição cristã e dos seus artistas, nas sendas abertas por São Francisco e Giotto, um de seus artistas inspirados.
Naquela noite, quando voltei com meus colegas ao Campus Magnolie, não lembro que vinho bebi (provavelmente um primitivo), mas com o copo entre as mãos sei que rezei como São Francisco: “Irmão corpo, precisas de uma porção justa de alimento e bebida. Irmão corpo, que bem precisas de todo apreço”.

Obs.: o livro citado de Armindo Trevisan é O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã (Porto Alegre: AGE, 2003); o livro sobre os murais é de Bruno Dozzini, Giotto: a lenda franciscana na Basílica de Assis (Assisi: Editrice Minerva, 2011). A Libreria Internazionnale Franciscana se localiza encontra na Piazza Porziuncula (Assis) e tem livros sobre a temática franciscana para todos os gostos, idades e nas mais diversas línguas.