segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os Beatles e o comunismo internacional

Cursei o ginásio em colégio católico, no final dos anos 60. Vivia em Porto Alegre naquele tempo. Um dia, o Irmão José, nosso professor de inglês, viu meus colegas e eu com um disco dos Beatles – o “Sgt. Pepper’s” – e veio nos fazer uma preleção a respeito das “mensagens subliminares” daquelas canções. Estávamos no pátio da escola, aguardando o sino tocar para o início das aulas, e o professor nos deixou de queixo caído.

Segundo ele, os rapazes de Liverpool tinham intenções subversivas em relação aos valores da Civilização Ocidental e, do ponto de vista católico, não eram recomendáveis. O professor não iria confiscar o disco, mas era melhor recolher o material e só nos entregar no final das aulas.
Eu ganhara o disco no último Natal, presente do pai (acho que aquele long-play era o meu, não recordo direito), e não entendera aquela conversa quanto aos Beatles estarem mancomunados com o comunismo internacional e favorecerem a dissolução dos valores cristãos, em especial aqueles relativos à ordem familiar: a autoridade paterna, a castidade dos jovens e coisas assim.
Foi uma conversa que nos deixou de cabelos em pé, a nós, ginasianos que “amavam os Beatles e os Rolling Stones”, mas que não deixavam de ir à missa aos domingos. Nós nos dividíamos quanto a opinião em relação ao “Sgt. Pepper’s”, diferente de tudo quanto escutáramos dos Beatles até então, mas estávamos gostando. Ainda não usávamos a expressão “baita som”, mas devia ser mais ou menos isso que falávamos.
Lembrei disso outro dia, folheando um livro num sebo de Porto Alegre, no qual havia referência a uma publicação norte-americana, de 1964, intitulada Comunismo, hipnotismo e Os Beatles, do pastor David Nobel. Talvez o Irmão José tivesse lido o livro.
Segundo o pastor David Nobel, as canções dos rapazes de Liverpool continham “mensagens subliminares” e eles tinham sido treinados em Moscou com técnicas de hipnotismo... Se a conversa do Irmão José não era essa, era parecida: os Beatles como prováveis agentes do comunismo internacional, atuando no sentido de entorpecer a mente dos jovens e dissuadi-los do bom caminho.
Hoje, isso me parece absurdo, mas era comum naquele final dos anos 60 ver subversão e/ou intenções malévolas no campo das artes. Pais e professores costumavam divagar com essas coisas, mas a maioria de nós (os jovens) nem sempre caímos na conversa.
Coisas daqueles tempos, insisto em afirmar. Mas a atual discussão sobre o que acontece no mundo das artes – a exposição queer no Santander Cultural, a performance com nudez no Museu de Arte Moderna paulista – me indicam que provavelmente estou enganado.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lisboa turística (2)

Li no Lisboa em Pessoa: guia turístico e literário da capital portuguesa, de João Correia Filho, que na Torre de Belém se encontra uma cabeça de rinoceronte esculpida. Ela é visível numa das salas da Torre, a Sala do Governador. É a cabeça do rinoceronte que serviu de modelo para a famosa gravura de Albert Dürer, segundo o autor. O animal foi um presente que Afonso de Albuquerque ganhou de um sultão do Oriente e que chegou a Lisboa em 1515. Um alemão que estava em Portugal viu o animal, desenhou o bicho e enviou a ilustração a um amigo de Dürer. Foi a partir disso que o artista realizou a sua gravura.


Eu conhecia outra versão, com elementos mais rocambolescos. O rinoceronte foi enviado pelo rei Dom Manuel para o papa, em Roma. O navio que levava o animal naufragou, o bicho morreu e seus restos chegaram até a praia. Dürer estava na Itália, viu a carcaça do animal e, a partir daí, recriou o bicho. Tenho lembrança de ter lido isso num livro de John dos Passos sobre as navegações portuguesas, com longas transcrições dos cronistas da época, mas não tenho certeza.[i] Só espero não estar inventando.
Dei uma olhada no Google e constatei que ao menos as informações a respeito do rei de Portugal enviar o rinoceronte ao papa, o navio naufragar e o rinoceronte morrer afogado são verdadeiras. O resto, quando ao modo como Albert Dürer tomou conhecimento do animal, há controvérsias. Seja como for, em nenhuma das versões Dürer bateu os olhos no rinoceronte vivo. Coisas que a gente não soluciona com guias turísticos, mas se diverte mesmo assim.
Quando estive na Torre de Belém, não visitei a Sala do Governador. Havia um grupo de adolescentes portugueses visitando o local, eles faziam uma bagunça enorme nas estreitas escadarias da Torre e me restringi ao terraço. Depois desci ao calabouço, que estava praticamente vazio, e fiquei por lá. São muito bonitas as aberturas para os canhões e a maravilhosa vista do Tejo. Fiquei me imaginando um vigia do tempo das caravelas...

Neste dia, quando sai da Torre, havia muitas crianças de escola, todas muito disciplinadas, esperando a hora da visitação.
Crianças, por sinal, são muito interessantes de serem observadas nesses locais – especialmente quando ficam quietinhas escutando as explicações da professora. No Museu Calouste Gulbenkian (também em Lisboa) acompanhei um conjunto de crianças bem pequenas, sentadas ao redor de uma escultura chamada “São Martinho a cavalo partilhando a capa com um mendigo”, do século XVI. Elas ouviam com atenção a professora e eu aprendi junto com elas a respeito desse bispo francês, São Martinho, e seu espírito caritativo.
João Correio Filho indica o Calouste Gulbenkan como visita obrigatória e destaca um quadro de Rembrandt (Retrato de um velho – ou Figura de velho, conforme catálogo do museu) e as jóias de René Lalique como pontos altos. O local não existia no tempo de Pessoa e só foi inaugurado no final dos anos 60. Entre o acervo, eu destacaria também a coleção de obras orientais (da Pérsia, Armênia, Índia) e o mobiliário francês do século XVIII, que me impressionaram bastante. Mas tem muito mais.[ii]
Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.
Na primeira vez que visitei o museu, andava lendo sobre Giacomo Casanova (Eu, Casanova, confesso - romance de Flávio Braga) e fiquei admirado com a sensualidade da arte decorativa francesa (principalmente com os quadros, muito explícitos). Cenário adequado para as aventuras de Casanova, que treinava e vendia moças educadas para os nobres da corte de Luís XV, que as usufruíam durante alguns meses e depois as descartavam. Coisas da alta cultura francesa. Coisas que a gente aprende nos museus - e se diverte.


[i] O livro de John dos Passos talvez seja Portugal: três séculos de expansão e descobrimento (Ed. Íbis, 1970), um relato historiográfico e não um romance. John dos Passos era originário de família das Ilhas dos Açores e admirava as realizações lusitanas do período das Grandes Navegações.
[ii] Calouste Gulbenkian foi um magnata armênio da área petrolífera e grande colecionador de arte. Durante a Segunda Guerra refugiou-se em Portugal e, ao morrer (1955) “legou seus bens aos portugueses”, dando origem à Fundação que leva seu nome.

domingo, 8 de outubro de 2017

Lisboa turística

Estou lendo Lisboa em Pessoa, um roteiro turístico inspirado num texto de Fernando Pessoa e escrito por João Correia Filho (Editora Leya, 2011, 376 p.). Pessoa era um lisboeta entusiasmado por sua cidade e no início da década de 1920 preparou uma sugestão de passeio pela capital portuguesa: Lisboa: o que o turista deve ver. Com base nesse texto (que permaneceu inédito até a década de 1990), o jornalista e fotógrafo brasileiro João Correia Filho preparou este Lisboa em Pessoa, com diversas sugestões de roteiros para bater pernas e se encantar com o mundo lisboeta. Vai ser meu guia na próxima viagem.

Já estive em Lisboa mais de uma vez e confesso que não conheço nem um terço do que “o turista deve ver”. Uma vez jantei no Teatro São Carlos, no Chiado, e tinha a vaga noção de que Fernando Pessoa nascera numa casa das proximidades. Planejara que depois do jantar caminharia no entorno do teatro, procurando a tal casa, mas um doido tentou vender um quadro para minha mulher, ficou nos esperando na porta do restaurante, e tivemos que sair apressados. O garçom nos ajudou a despistar o pintor e fomos quase correndo em direção a Rua Almeida Garret para pegarmos um táxi. A casa do poeta ficou para outra oportunidade.
Voltei ao Chiado outras vezes, mas nunca mais fiz a caminhada em torno do Teatro São Carlos, procurando a casa de Pessoa – a qual, segundo Correia Filho, tem apenas uma pequena placa anunciando que ali nasceu o poeta. A Casa Fernando Pessoa, um centro cultural dedicado ao mestre de “Tabacaria”, fica mais adiante (no bairro Estrela) e dessa vez pretendo visitá-la (Rua Coelho da Rocha, nº. 16).
No itinerário que contempla a visita a Casa Fernando Pessoa, Correia Filho propõe uma longa caminhada, iniciando no Parque Eduardo VII (na frente do qual me hospedei na primeira vez que estive em Lisboa), passando pelo Aqueduto das Águas Livres e chegando até a Basílica Estrela. Uma caminhada e tanto que, ao menos agora, estou disposto a cumprir. No entanto me conheço, sou daqueles turistas que não seguem os roteiros à risca. Às vezes paro num parque e fico fotografando (o que pode acontecer no Parque Eduardo VII ou no Jardim Estrela, outro local do itinerário). Ou então entro numa igreja e divido meu olhar entre as imagens sacras, os frequentadores devotos e as pacientes faxineiras esfregando o chão ou tirando o pó dos altares. Os santos portugueses são belíssimos, muito expressivos, as Nossas Senhoras, encantadoras, que não há como não parar e se esquecer do mundo.

Anoitei o passeio na agenda – Parque Eduardo VII até a Casa Fernando Pessoa –, mas sei que posso me perder no caminho. Se não chegar antes da Casa Fernando Pessoa fechar as portas (às 18 horas), direi a mim mesmo os versos de um de seus famosos heterônimos (Álvaro de Campos): “Nada me prende a nada. / Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. / [...] / [E] vivo num sonhar irrequieto” (Lisboa revisited, 1926) – e estarei perdoado, quem sabe.

sábado, 30 de setembro de 2017

45 anos e uma notícia surpreendente

Filme para ver no Net Now: “45 anos” (2015), dirigido por Andrew Haig, com Charlotte Rampling e Tom Courtenay. Um casal vive na zona rural inglesa, os dois são saudáveis, vivem sem preocupações financeiras e a mulher está organizando uma festa para comemorar os 45 anos de casamento. Súbito chega uma notícia pelo correio que abala os dois: o corpo de uma antiga namorada do marido (de antes dele conhecer a atual esposa) é encontrado nos Alpes suíços. O marido rememora esse antigo amor e a mulher descobre a existência dessa relação antiga a respeito do qual ele nunca falou.
O filme é lento, intimista, centrado nas reações que marido e mulher têm diante da notícia, até o momento da festa de casamento. Se o leitor não assistiu e gosta de dramas intimistas, sugiro suspender a leitura e ver o filme primeiro. Vale a pena. O que eu escrevo estragará o prazer que uma história bem narrada e bem interpretada costuma causar.

 Depois de receber a notícia, o marido conta a mulher que ele e a namorada escalavam os Alpes suíços, quando ocorre um acidente. A mulher escorrega, cai numa fenda das montanhas e desaparece. 50 anos depois, é esse corpo - completamente congelado - que é encontrado.
O marido conta tudo isso para a atual esposa e ela assinala, como algo “engraçado” (ela usa essa palavra), o fato do acidente ter ocorrido na mesma data em que morreu sua mãe. Os dois se conheceram pouco depois disso e as perdas recentes parecem não terem sido comentadas por ambos.
Eu pensei que essa história da mãe fosse aparecer novamente nas conversas do casal, mas me enganei. Deve ser coisa minha (paciente antigo de psicoterapia) que acha que essas histórias de pai e mãe são importantes na construção dos relacionamentos amorosos e podem ser tematizados pelo cinema e literatura. No caso desse filme, não é assim. A perda da mãe não é retomada. Apenas citada.
A narrativa centra no ciúme que a esposa sente desse amor antigo do marido e que a leva a remexer furtivamente nas coisas do marido, folhear suas anotações e fotos de juventude. Uma noite, ela pergunta se ele teria casado com a namorada, se ela não tivesse morrido, e o marido titubeia em responder essa “pergunta teórica”. Mas acaba cedendo a insistência da esposa e diz que sim, casaria. Uma resposta que a mulher escuta com aparente serenidade, mas que depois descobrimos que a abala profundamente.
A vida do casal balança, o marido percebe, deixa as lembranças da antiga namorada de lado, se propõe a ser mais companheiro, faz discurso amoroso na festa de casamento, cai em lágrimas nessa festa (ele, um sujeito de raras lágrimas, segundo a esposa), mas não tem jeito. A mulher está desencantada. Provavelmente, mais uma prisioneira do mito do amor romântico, que acreditou que seu casamento fora um encontro de almas armado pelos deuses e não uma construção humana, marcado por esforços mútuos e contingências da vida.
Um belo filme. A cena final - da mulher no meio do salão de festas, depois de dançar com o marido, com o olhar de desamparo - é de uma humanidade assustadora. A humanidade das pequenas dores, da infelicidade miúda e devastadora.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Uma preta que gostava de livros: Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus era negra e catadora de papéis nas ruas de São Paulo. Morava na favela de Canindé, gostava de ler e escrever. Um dia, um vizinho bateu na porta do seu barraco para perguntar onde encontrava “folhas de batatas” e quis saber também o que ela tanto escrevia. “Um diário”, ela respondeu. “Nunca vi uma preta gostar tanto de livro como você”, ele comentou.

Esse episódio, Carolina registrou no seu diário, no dia 23 de julho de 1955. Tinha 41 anos e três filhos de pais diferentes. Nesse dia, Carolina escreveu: “Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler.” Além de ler, ela escrevia compulsivamente e teve a sorte de encontrar um jornalista que preparou os seus originais e publicou-os em livro – Quarto de despejo: diário de uma favelada –, em 1960.
Uma mulher admirável. Amargurada pela sua condição de excluída a um quarto de despejo (a favela de Canindé) da rica capital paulista, Carolina escrevia para xingar. Xingamentos que se escutam até hoje. Os seus registros da luta cotidiana pela sobrevivência e da presença constante da fome – inclusive da cor da fome: amarelo – são impressionantes: “Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi tudo normalizou-se aos meus olhos”.
Na década de 1950, a indústria brasileira se expandia, a migração campo-cidade se acentuava e as grandes capitais inchavam. O desenvolvimento urbano, no entanto – como é de praxe na história brasileira –, não atendia as necessidades básicas de grande parte da população e as favelas eram um fenômeno que escancarava a lógica excludente do crescimento econômico. Comentando esse período da sociedade brasileira, o historiador norte-americano John Chasteen cita o caso da favelada Carolina de Jesus: “ela acalentava mais sonhos que a maioria”. Tinha completado o segundo ano primário (em sua cidade natal, Sacramento, em Minas Gerais) e talvez isso fizesse a diferença. “Carregava em uma sacola de aniagem [os papéis velhos que coletava nas ruas] e vendia pelo equivalente a 25 centavos de dólar ao dia.” Sofria as privações que a cidade grande lhe impunha e refletia sobre isso.
Em 1959, num bate-boca com os vizinhos de favela, disse que escrevia porque precisava “mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês”. E acrescentou que contava com o apoio de um repórter, Eudálio Dantas, o jornalista que já naquele ano preparava os originais do que seria o seu primeiro livro: Quarto de despejo.
Com a vendagem do livro – um sucesso no início dos anos 60, com tradução para treze idiomas –, Carolina de Jesus conseguiu a casa de alvenaria com a qual sonhou durante anos.

O livro Quarto de despejou entrou na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS  e talvez por isso eu o tenha encontrado na vitrine de uma livraria. Conhecia-o apenas dos trechos citados nos livros de História, como um dos raros registros da miséria brasileira produzido por um miserável e não por escritores de classe média ou alta. Feita a leitura, constato que é mais do que um documento histórico, é uma obra literária de beleza áspera, que me fez lembrar outra grande escritora negra: Marilene Felinto, autora de As mulheres de Tijucopapo. Mulheres de faca na bota.
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* O livro de John Chasteen citado é América Latina: uma história de sangue e fogo (RJ: Campus, 2001); o de Carolina de Jesus é Quarto de despejo: diário de uma favelada (SP: Ática, 2014 - 10 ª edição, 8 ª impressão).

domingo, 17 de setembro de 2017

Apenas um rapaz latino-americano

         Antônio Carlos Belchior se tornou um enigma para muitos dos seus fãs. Em 2007, desapareceu dos olhos do público. Algumas vezes surgiam notícias de que ele estava no Uruguai, de repente era visto em Porto Alegre, a imprensa corria atrás e novamente ele sumia. Em abril desse ano, ele morreu de um aneurisma na aorta na cidade de Santa Cruz do Sul, sem que o mistério se solucionasse. O jornalista Jotabê Medeiros, que preparava uma biografia do cantor, estava com passagem comprada para Santa Cruz, iria entrevistá-lo e tentar conseguir uma resposta para o enigma, mas não houve tempo.

A biografia de Jotabê Medeiros acaba de sair – Belchior: um rapaz latino-americano (Ed. Todavia, 200 p.) – e não poderia haver subtítulo melhor para a narrativa da trajetória desse cantor e compositor do que o seu famoso verso sobre a rapaziada latino-americana. Segundo Jotabê, o verso nasceu durante uma aula na Universidade de Brasília, em 1974 ou 75, do filósofo cearense Augusto Pontes (e também amigo e guru do compositor). O filósofo se apresentou dizendo que era “apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares” e o compositor serviu-se da frase como mote para uma canção: “Eu sou apenas um rapaz / latino-americano / sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior”.  Uma pegada comparável as de Raul Seixas, outro compositor que sacava as elaborações filosóficas complexas e as transformava em canções de grande alcance comunicativo.[i]
Nos anos 70, talvez não houvesse estudante universitário que não tivesse os versos de Eu sou apenas um rapaz... na ponta da língua. No turbilhão daqueles anos, marcados por uma ditadura militar e a aceleração do desenvolvimento capitalista, parte da juventude brasileira procurava definir uma identidade latino-americana e sentia-se acossada por conta da conjuntura política e econômica. Os versos de Belchior vinham a calhar.
Belchior teve seu primeiro LP em 1974 (Mote e glose), mas a fama só veio dois anos depois, quando Elis Regina interpretou duas de suas melhores canções – Como nossos pais e Velha roupa colorida – e lançou o seu segundo LP, o antológico Alucinação. Com voz fanhosa, anasalada, era incrível que ele conseguisse ser ouvido e comparado com as interpretações impecáveis de Elis Regina. Um fenômeno! Um cantor de poucos recursos musicais (especialmente se comparado com Elis), mas que se impunha como compositor e intérprete extremamente perspicaz das inquietações brasileiras.
A biografia de Jotabê reconstitui a trajetória de Belchior (1946 – 2017) e indica possíveis respostas para o sumiço do cantor, nos dez últimos anos de vida. Ao colocar no primeiro capítulo o período da vida (três anos) em que Belchior esteve no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga (Ceará), o biógrafo dá um peso considerável para a inclinação religiosa do cantor. No mosteiro, Belchior consolidou o seu pendor para a literatura, a filosofia, assim como adquiriu a disciplina intelectual que possibilitará a sua extensa produção poética. Da mesma maneira, exercitou o seu sonho de santidade, constatou que sua vocação religiosa era pouca e caiu fora, pegou a estrada.
Este sonho de criança Belchior teria alcançado no final da vida, segundo o seu amigo e analista Barbosa Coutinho (o famoso “analista amigo meu” da canção Divina comédia humana). Escondendo-se dos fãs e até dos familiares e amigos (protegido por uma espécie de Yoko Ono brasileira, a sua última mulher, Edna Prometheu), Belchior talvez tenha vivido o sonho de pureza dos santos e também dos velhos hippies: a não pactuação com o “Sistema” (para utilizar uma expressão dos anos 60 e 70). Uma tese para os fãs debaterem, para melhor entender esse poeta nordestino que fez a cabeça de muitos de nós.





[i] A frase completa do filósofo Augusto Pontes, segundo as anotações que deixou, é a seguinte: “Sou apenas um sul-americano sem parentes no poder, apenas a pessoa eu, no estado de mim mesmo”. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Divagações em torno da exposição de arte queer em Porto Alegre

       Visitei a Galeria Borghese este ano, em Roma, e não saberia dizer o que mais gostei. Seguramente de uma pintura de Caravaggio, “Madona com a serpente”, na Sala de Sileno, que me fisgou de um jeito que me fez esquecer tudo ao redor. Mas devo confessar que fiquei de queixo caído quando entrei na Sala do Hermafrodita e respirei o ar de sensualidade refinada que se desprende das obras ali expostas, tanto da escultura romana que dá nome a sala quanto das pinturas das paredes e do teto tematizando a trajetória do mítico Hermafrodita. Coisa impressionante.

A galeria em questão foi criação do Cardeal Borghese, no início do século XVII. O cardeal era sobrinho do Papa Paulo V e ambos estavam sintonizados com a tradição da alta hierarquia católica de recuperação da arte greco-romana. O cardeal e o papa não pouparam esforços para incentivar as artes (com verbas da Igreja) e coube ao Cardeal Borghese a construção de um palácio (matriz da atual galeria) com o propósito de reunir algumas obras e promover a criação artística.  
Era o tempo da Contra Reforma e não deixa de causar perplexidade o fato de uma escultura representativa da sexualidade “excêntrica” – o Hermafrodita – tivesse acolhida nesse palácio eclesiástico. A escultura fora descoberta durante a construção dos alicerces da igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma, e o cardeal pagara uma alta soma de dinheiro para adquiri-la. A peça permaneceu na galeria até o início do século XIX (época da invasão napoleônica), quando foi levada para a França. Hoje se encontra no Louvre e o que se vê na galeria é outra cópia romana da mesma escultura grega.
Milhares de turistas visitam essas obras em Roma e Paris, são conquistados pelos encantos da representação artística do hermafroditismo – da sexualidade estranha à normativa heterossexual – e poucos se escandalizam com isso. Afinal, a arte que tematiza a sexualidade, tanto a sexualidade heterossexual quanto outras, é daquelas que mais fascina. Se o tema da sexualidade se fundir com o da religiosidade, então, o resultado geralmente é de grande impacto. O Hermafrodita tinha conteúdo sagrado na Antiguidade (ele era filho de Hermes e Afrodite), mas perdeu esse caráter ao se tornar parte de uma coleção católica e ser fonte inspiradora de um novo estilo artístico: o barroco romano.
Lembrei da Galeria Borghese e de sua Sala do Hermafrodita, quando tive conhecimento das manifestações contrárias à exposição de temática LGBT – “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira” – no Santander Cultural, em Porto Alegre. Afinal, se os protestos se deram devido à tematização de sexualidades contrárias a normatividade heterossexual, já era hora dos manifestantes saberem que é esse tipo de arte é antiga e que provoca muita satisfação ao público. Se os manifestantes se incomodaram com a utilização de temas religiosos, na certa também desconsideraram que essa é uma das matérias-primas da arte.
Quando visitei a exposição no Santander, em agosto, imaginei que o material ali apresentado fosse causar polêmica. Mas supus uma polêmica inteligente, tanto a respeito da linguagem artística das obras quanto da temática abordada, inclusive quando utilizava elementos religiosos. Afinal, tratava-se de uma exposição provocativa, com muitas peças criadas nos termos da questionada estética conceitual (ou pós-moderna), ainda não assimilada, e apresentadas em diálogo com obras de outros períodos da arte, a instigar comparações, questionamentos e muitas vezes desconcertar.

Algumas peças utilizavam elementos do imaginário católico – como o caso da escultura “Cristo Nosso de Cada Dia” (1978), de Roberto Cidade (um dramático Cristo na cruz com o pênis ereto), e da pintura “Last Resort” (2016), de Felipe Scandelari (uma Madona com um desconcertante chipanzé de fraldas no colo) – e a polêmica era inevitável. Mas polêmica civilizada, como é costume no meio cultural, polêmica que considerasse os termos da arte e avaliasse as obras a partir do seu potencial conceitual, expressivo ou outro.
Mas me enganei. O que ocorreu – os manifestantes zombando dos visitantes, atacando o curador, ameaçando o museu, clamando pelo fechamento da exposição – fugiu completamente aos termos do debate de ideias, mesmo quando impregnado de paixões. Até no campo da arte estamos longe da discussão civilizada.