sexta-feira, 20 de abril de 2018

Calça rasgada


Há tempos estou para escrever sobre essa moda das calças rasgadas. Isto é, a respeito desse modismo que era uma característica do vestuário da juventude rebelde dos anos 80 e que, de repente, entrou no circuito das butiques sofisticadas, nas revistas de moda, na indumentária das cantoras de sertanejo e por aí afora. O costume de rasgar as calças parece vir da cultura punk, que se esmerou em estetizar um visual contestador – no corte e na cor dos cabelos, no vestuário – e lá pelas tantas a coisa transbordou desse nicho e ganhou um público mais amplo, indiferente à contestação política.

No ano passado, viajando de trem na Itália, uma colega que trabalha com moda me explicou, simplesmente, que “irreverência vende”.

– O público feminino adora – ela acentuou. A moça é funcionária de uma indústria têxtil paulista (na região de Americana) e costumeiramente viaja a Milão e Turim para conferir as tendências do vestuário.

– A Itália é referência no mundo da moda – ela disse. E me contou que, entre outras coisas, o seu trabalho consistia em circular pelas lojas, pelos departamentos de roupa feminina, e observar o que as mulheres gostam, anotar as suas preferências. E calça rasgada está entre os itens.

Ainda insisti na pergunta sobre o perfil do público feminino, se eram mulheres que queriam encenar no próprio corpo, na vestimenta, a contestação da ordem dos costumes, da ordem social e ela franziu a testa.

– Irreverência – ela frisou. E voltou a repetir que era isso que as mulheres querem comprar. Ela repassava seu relatório para os figurinistas da fábrica onde trabalhava, no estado de São Paulo, os caras seguiam a orientação – as tendências  apontadas – e a coisa vingava, isto é, vendia.

Eu devo ter feito alguma cara feia, cara de quem não entendeu, e a conversa não rendeu mais. Uma pena. Na certa a moça viu que eu não entendo de gostos e preferências femininos, e descurtiu. Nós éramos colegas numa escola de língua italiana para estrangeiros, tínhamos terminado o curso e viajávamos na região de Marche. Eu ia a Macerata para visitar o Museu Buonaccorsi, ela seguia um mais adiante para pegar um voo para Milão.

Há tempo estou para escrever sobre essa moda das calças rasgadas. A coisa me intriga. Em Siena, fotografei a vitrina de uma butique (foto abaixo) e lá estava um manequim com calças rasgadas. A confirmação do que disse a minha colega: em Milão, em Siena, em São Paulo e em tantas outras cidades do Brasil e do mundo, tudo a mesma coisa: a irreverência vende.


Mas tem que ser conjugada com um sapato de grife, um cinto idem, uma blusa de seda, coisas assim, me explicou – didaticamente – uma amiga, insistindo para que eu largasse de mão a implicância com esse modismo.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Maria Madalena


A Bíblia é a narrativa central da nossa civilização. Isto é, se entendemos que a nossa civilização é construída tendo como referência básica a tradição judaico-cristã, não há como escapar das histórias bíblicas, sejam verdadeiras ou não. Suas histórias estão no eixo do nosso imaginário e tanto as aprendemos nas cerimônias religiosas, quanto na escola, nas ruas, nos museus e, especialmente, no cinema. Entre essas histórias, sem dúvida, está a de Maria Madalena, figura citada nos quatro evangelhos de forma sucinta e que gerou diversas interpretações e lendas.

No filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, ela é a adúltera que vai ser apedrejada e que Jesus salva da morte. Uma cena belíssima de uma linda mulher jogada no chão, já estropiada, sangrando, e que ergue os olhos, agradecida, ao seu Salvador. O filme recria a passagem do Evangelho de João  8, 1-11, no qual uma adúltera é apresentada a Cristo para que ele se pronuncie a respeito da Lei de Moisés (que ordena o apedrejamento de tais mulheres). Jesus enfrenta o questionamento lançando um desafio – “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” – e livra a moça do castigo. O evangelista não nomeia a mulher, mas alguns exegetas medievais a identificaram como Madalena e a interpretação colou, se difundiu e chegou até o cinema do século XXI.

Outro trecho dos Evangelhos que serviu para identificar Madalena como pecadora é a que trata da mulher que lava os pés de Cristo na casa de um fariseu (Lucas 7, 36-50). Nesse episódio, uma pecadora anônima banha os pés de Jesus com suas lágrimas, depois seca-os com seus cabelos, cobre-os de beijos e os unge com perfume. Novamente o evangelista não nomeia a mulher e alguns estudiosos a identificaram como Madalena. Uma mulher que “entregou-se completamente aos prazeres carnais” e depois se arrependeu, conforme está na Legenda Áurea, um dos mais famosos livros sobre santos, escrito por Jacopo de Varazze no século XIII.

Na Contra-Reforma essa versão da trajetória de Madalena foi reforçada e serviu como instrumento de propaganda católica para construir o modelo da mulher arrependida, que passa pela confissão, a penitência e alcança a salvação. É dessa maneira que ela ganha a tradição popular e, até hoje, quando pesquisadores vão à campo, recolhem depoimento de homens e mulheres de todas os níveis sociais que repetem a versão da adúltera e da pecadora.

Mas o assunto nunca deixou de ser polêmico entre os estudiosos e, durante o Concílio Vaticano II (na década de 1960), a Igreja acatou e consolidou um “novo entendimento” a respeito de Madalena: a de que ela não é a adúltera que Cristo salvou do apedrejamento nem a pecadora que lavou os seus pés. A Igreja resgatou o que se encontra no texto dos Evangelhos e passou a afirmar que ela era, isso sim, uma das integrantes da “companhia feminina de Jesus” (expressão usada por Lucas para designar as mulheres que acompanhavam Cristo e os doze apóstolos) e, principalmente, a primeira pessoa a ter contato com o Cristo ressuscitado (a "apóstola dos apóstolos", segundo Tomás de Aquino).

Em junho de 2016, o Papa Francisco elevou “a memória de Madalena [...] ao grau de festa pela Congregação para o Culto” (colocando-a no mesmo patamar dos doze apóstolos consagrados pela história eclesiástica) e deste então se tornou mais visível o esforço da Igreja Católica em restabelecer a história de Maria Madalena nos termos em que ela foi descrita pelos evangelistas. Junto com isso, também se revelou o polêmico esforço de mudar o papel das mulheres “na missão de Cristo e na Igreja”. No entanto, na tradição popular, permanece a versão criada no medievo e reafirmada na Contra-Reforma da pecadora arrependida.

Agora, Hollywood se engaja nesse projeto do Vaticano e produz o filme Maria Madalena, lançado no Brasil em março desse ano. O filme tem roteiro de duas mulheres (Helen Edmundson e Philippa Goslett), a direção de Garth Davis (o mesmo de Lion: uma jornada para casa, premiado no Oscar de 2017), e produção da Universal Pictures.

Madalena é interpretada como uma moça frágil, porém decidida, que sabe se impor diante da sua família. O pai e os irmãos querem que ela case, escolhem um noivo para ela, mas a moça tem outras aspirações e os enfrenta. Frágil e delicada, ela tem inquietações religiosas e prefere seguir um profeta (Jesus) que anda pela região. Castamente, se integra aos seguidores de Jesus e, no filme (ao contrário do que é indicado nos Evangelhos), é a única mulher no grupo.

É significativa a cena em que ela aparece puxando uma rede de pesca, pois dessa maneira ela se assemelha aos apóstolos consagrados, os “pescadores de homens”, conforme Jesus os chamou (Mateus 4, 19). Cena simbólica da luta das feministas católicas por um maior protagonismo na estrutura de poder eclesiástico.

Maria Madalena, interpretada por Rooney Mara, no filme Maria Madalena (2018).

Sem dúvida, um filme importante no contexto das tentativas de renovação do papel da mulher nos quadros da Igreja Católica. Mas não me parece que tenha tido grande repercussão e nem empolgado a pequena parcela da população que frequenta as salas de cinemas. Uma avaliação, claro, a conferir. Na sessão em que fui assistir ao filme, aqui em Santa Maria, havia dez pessoas na plateia e não senti entusiasmo – nem em mim nem nos demais espectadores. A Madalena dos filmes de Mel Gibson, de Martin Scorsese, e do romance de José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo) ainda são mais empolgantes.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Memorial da Resistência - São Paulo.


Em 1969, um grupo de frades dominicanos foi preso pelo DEOPS/SP por apoiar a luta armada da ALN (Ação Libertadora Nacional). Frei Beto era um deles. Os frades não participavam de operações militares, eram um grupo de apoio tático e foi através deles que os agentes de segurança chegaram até um dos principais líderes da organização, Carlos Marighella, e o mataram.

A história está contada em diversos livros, entre eles Batismo de sangue, de Frei Beto (um dos melhores títulos da memorialística guerrilheira). O livro virou filme (muito bom, também entre os melhores a respeito do tema) e é lembrado numa das paredes do Memorial da Resistência, na cidade de São Paulo.

Os frades foram presos, rezaram uma missa na prisão e a cena (tal qual como representada no filme)  está desenhada numa das paredes do corredor do antigo conjunto prisional do DEOPS, reconstituído em 2007, com o propósito de manter viva a lembrança da resistência ao Regime Militar (1964-1985).



Estive no Memorial no início desse mês. Desci do metrô na Estação da Luz, caminhei meia dúzia de quadras até a Estação Pinacoteca, o prédio onde se encontra o Memorial, e fiquei impactado com os craqueiros atirados na calçada, dormindo em colchões ou sentados em grupo, acendendo seus cachimbos. A área está próxima à Cracolândia e um viajante como eu – vindo do interior do Rio Grande do Sul – não consegue deixar de ficar chocado.

A região é bastante policiada – abriga órgãos do governo estadual e sofisticados espações culturais (entre eles, a Sala São Paulo) – e dizem que os traficantes também auxiliam na segurança, impedindo que os drogados cometam “excessos”. Um lugar tranquilo de caminhar, me avisaram, mas chocante. “Umas das estações do Inferno”, me disse um paulistano.

Eu fui e respirei aliviado quando entrei no prédio. O Memorial ocupa parte do térreo da Estação Pinacoteca - que já abrigou os escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana e depois foi sede do DEOPS, entre 1938 e 1983, e hoje reconstitui parte do conjunto prisional que ali existiu. O museu privilegia um conjunto de quatro celas (mais corredor de acesso e corredor para banhos de sol) e remete o visitante ao período de 1969-71, considerado o mais feroz da repressão política protagonizada pelo Regime Militar. Os vídeos e textos indicam as “atrocidades, desencanto, humilhação e desespero” que ali aconteceram, mas também remetem aos atos de “coragem, fraternidade e sábia resistência” que também ocorreram naquele espaço.
Não é um lugar deprimente. É um espaço de memória, de reflexão – de sóbria reflexão, acrescentaria. E a cena da missa dos frades dominicanos desenhada numa das paredes indica uma das intenções do museu: a de que existe esperança. Ou, ao menos, que se pode encenar a esperança. Mesmo não se acreditando em coisa alguma da simbologia da missa católica ali representada existe a possibilidade de se apostar na solidariedade e na resistência e luta contra regimes de opressão.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Conversas com minha mãe


Talvez fosse em 2001, quem sabe em 2002, estávamos almoçando num dos restaurantes da PUC de Porto Alegre – minha mãe, minha mulher e eu – e cruzamos com Marshall Berman. Ele vinha caminhando ao lado do bufê fartamente servido (era o restaurante mais sofisticado da PUC) com um prato balançando na mão, vestido com exagerada displicência, os cabelos despenteados, e minha mãe o olhou de cima a baixo. Depois, na mesa, comentou com minha mulher e eu:

– É desse escritor que vocês gostam tanto? Na certa ele escreve melhor do que se veste.

Nós rimos e concordamos com ela. O famoso ensaísta norte-americano realmente compunha uma figura estranhíssima naquele ambiente, mas dissemos que valia a pena ler Tudo que é sólido se desmancha no ar. Minha mãe, no entanto, não se interessou. Ela estava na faixa dos setenta anos, tinha descoberto Machado de Assis, um autor que ela passara a vida inteira achando chato e que, de repente, tornara-se uma das suas leituras prediletas (junto com Eça de Queirós, um amor antigo).

Agora que minha mãe faleceu, meus irmãos e eu dividimos os seus livros (alguns dos tantos livros que ela leu ao longo da vida) e descobri entre eles um pequeno volume de contos de Machado, no qual ela anotou que eu a presenteei depois de um almoço num shopping de Porto Alegre, em 2012.

Mas não lembro o almoço. Não sei se comemos camarão e bebemos chope (um dos nossos cardápios prediletos) ou se comemos galeto e bebemos vinho... Era um shopping onde costumávamos passear, almoçar e, inevitavelmente, bater ponto na sua livraria.

A mãe lia regularmente e gostava de Machado, Eça, Isabel Allende e tantos outros - os autores da Bíblia inclusive. Lia e relia os contos e romances machadianos (preferia os romances), e muitas vezes eles nos serviam de porta de entrada para pensar a “natureza humana” (um termo que ela empregava), os segredos e as sombras que existem em todos nós.

Então eu olho os livros que me couberam na partilha e sinto que continuo vivendo como se minha mãe estivesse comigo... Como se ouvisse ela comentar os trajes de Marshall Berman ou as possíveis artimanhas da machadiana Capitu:

– As mulheres são muito ardilosas, meu filho, te cuida.
Folheio os livros que ela leu com tanta atenção – obras de Machado, Eça, Veríssimo, Josué Guimarães, Assis Brasil, Lígia Fagundes Telles, tantos – e é como se ainda continuássemos conversando, conferindo impressões de leitura, falando da família, de nós mesmos, tecendo essa teia de afetos entre mãe e filho que tanto me alicerça, me fundamenta, e da qual sou eternamente grato.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Assis, Giotto e São Francisco

Em fevereiro do ano passado, visitei a cidade de Assis (Itália) com meus colegas do Campus Magnolie (escola de língua italiana para estrangeiros). Estávamos hospedados em Castelraimondo (distante pouco mais de 70 km da cidade natal de São Francisco), tivemos aula pela manhã e viajamos a tarde. Visita guiada numa tarde de sol e muito frio. O professor falava em italiano, pausadamente, e dava para entender. Um passeio inesquecível, desses que muito professor de História sonha a vida inteira.
São Francisco de Assis é um dos maiores santos da Cristandade e a sua vida e prática espiritual são um marco na história da sensibilidade cristã. Como aponta Armindo Trevisan, seu amor à Natureza e sua devoção à Paixão de Cristo acentuaram uma revolução que estava em curso durante a vida do santo: a da humanização da teologia e da espiritualidade cristãs. Uma “revolução copernicana às avessas”, acentua Trevisan, que obrigava “o sol da reflexão a girar em torno do homem, isto é, da humanidade de Cristo, consequentemente, da humanidade sexuada de sua mãe”. Uma revolução desencadeada pelos santos Anselmo e Bernardo, no século XII, e que São Francisco viveu, poetizou e difundiu.
Entrei na cidade de Assis com a lembrança dessas leituras e, enquanto o meu corpo se movimentava por uma cidade do século XXI (a atual cidade de Assis, preservada/restaurada nos seus traços medievais), os olhos e a imaginação buscavam os sinais do passado. Visitei as basílicas de Santa Clara e de São Francisco nessa “vibe”, à procura de uma possível sintonia com a poderosa tradição inaugurada por esses santos e reinventada pela Igreja e pelos devotos nos últimos 800 anos.
Não se alcança isso numa tarde, é verdade, mas o que se vê, ouve e sente é material para que o passeio continue muito e muito tempo depois.
E foi isso que aconteceu semanas atrás: catei na estante um pequeno livro que comprei na Libreria Internazionnale Francescana e retomei o ponto mais alto desse passeio: a visita ao interior da igreja superior da Basílica de São Francisco. Ali se encontram as 28 pinturas murais de Giotto, intituladas “A vida de São Francisco” e realizadas entre 1296 e 1299. São 28 murais (ou afrescos) que o pequeno livro – Giotto: a lenda franciscana na Basílica de Assis – reproduz e comenta, tanto nos seus aspectos artísticos quanto (principalmente) nos seus aspectos religiosos. Um livro precioso para entender a enorme riqueza desses murais. Obra da juventude de Giotto e marca inicial do processo de ruptura com o convencionalismo bizantino e a inauguração de uma “representação mais vívida da vida”. Aos meus alunos, eu apontava Giotto como pré-renascentista, um artista que ensaiou os primeiros passos de uma nova representação da figura humana, que se configurou no Renascimento Cultural.
Naquela tarde (fevereiro do ano passado), caminhei pela igreja superior da Basílica de São Francisco e parei diante de cada mural. Vistos um a um, em silêncio, foi possível uma sintonia com o material religioso dos murais e a vivência de uma emoção crescente. Quando cheguei ao mural da cena do Monte Alverne – mural nº. 19, no qual o santo tem a visão de Cristo sob a aparência de um Serafim Crucificado e recebe os estigmas da Cruz nas mãos, nos pés e no lado direito das costelas – era como se eu tivesse percorrido um enorme caminho e encontrado uma das matrizes da minha vida. Afinal, guri da década de 1960, tive minha fase de sonhar com os santos e querer imitar suas vidas de martírio. Coisas de quem se criou à sombra da Igreja Católica...
Muito bom poder retornar a isso (à matriz católica) aos 62 anos de idade, e também sintonizar com o menino e adolescente que eu fui. Se perdi a fé religiosa, ganhei humanidade. E ganhei-a nos marcos da tradição cristã e dos seus artistas, nas sendas abertas por São Francisco e Giotto, um de seus artistas inspirados.
Naquela noite, quando voltei com meus colegas ao Campus Magnolie, não lembro que vinho bebi (provavelmente um primitivo), mas com o copo entre as mãos sei que rezei como São Francisco: “Irmão corpo, precisas de uma porção justa de alimento e bebida. Irmão corpo, que bem precisas de todo apreço”.

Obs.: o livro citado de Armindo Trevisan é O rosto de Cristo: a formação do imaginário e da arte cristã (Porto Alegre: AGE, 2003); o livro sobre os murais é de Bruno Dozzini, Giotto: a lenda franciscana na Basílica de Assis (Assisi: Editrice Minerva, 2011). A Libreria Internazionnale Franciscana se localiza encontra na Piazza Porziuncula (Assis) e tem livros sobre a temática franciscana para todos os gostos, idades e nas mais diversas línguas.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Catherine Millet e o sexo selvagem

Catherine Millet foi uma das signatárias do manifesto das feministas francesas realizado em protesto ao feminismo norte-americano, especialmente aquele protagonizado pelas atrizes vestidas de preto na última cerimônia do Globo de Ouro, em janeiro desse ano. Catherine Millet, 69 anos, é uma sofisticada crítica de arte e também romancista. Em seu romance autobiográfico, A vida sexual de Catherine M. (Ediouro, 2002, 216 p.), sua personagem principal encarna de forma contundente essa mulher que o manifesto das francesas delineia: uma mulher que não precisa de proteção, que entende o jogo sexual como selvagem e agressivo, não se melindra com isso e vai à luta.


No manifesto das francesas, o feminismo norte-americano é visto como “uma onda purificadora puritana”, que retoma o entendimento tradicional da mulher como “mera criança” que necessitar de proteção contra as investidas inconvenientes dos homens. Para as francesas, “as mulheres estão suficientemente conscientes de que o desejo sexual é por natureza selvagem e agressivo”, sabem distinguir uma investida desastrada de um ataque sexual e são capazes de se defenderem. Ou, pelo menos, as francesas apostam nisso. Em certo sentido, são otimistas.
Quando li os termos do manifesto, lembrei do romance autobiográfico de Catherine Millet e procurei-o na estante. Publicado em 2001, na França, o livro logo tornou-se um sucesso de venda e foi traduzido em vários países, inclusive no Brasil. Na época, A vida sexual de Catherine M. foi saudado como o relato sincero, surpreendente pela originalidade, de uma mulher sobre a inserção feminina no mundo dos jogos eróticos. Uma inserção nos moldes da tradição libertina: a da busca da completa liberdade sexual, sem nenhum sentimentalismo, sem nenhuma amarra moral. Uma inserção politicamente incorreta, cujos principais objetivos são o prazer e a liberdade. Um prazer conquistado solitariamente, a dois, em grupo, com o sexo oposto, com o mesmo sexo, com quem for e em qualquer circunstância. Principalmente em qualquer lugar e momento, pois isso torna “mais abrangente” o sentimento de liberdade. Tudo vale para a conquista “do Graal sexual”, endossa a personagem central do romance, Catherine M.
 Aparentemente um romance pornográfico, devido às descrições de práticas sexuais de forma crua, mas somente o necessário para dar um sabor bandalho à narrativa libertina. Logo fica claro que a personagem Catherine M. está refletindo sobre a sua trajetória sexual, sua personalidade sexual, sua inserção peculiar no universo dos jogos eróticos – e não necessária e exclusivamente excitar o leitor, como é o caso do texto pornográfico. Uma narrativa que tem muitos pontos em comum com a vida da autora, mas que, nem por isso, deixa de ser ficcional. Muitas vezes provocação pura, como o reconhecimento da selvageria e agressão que o desejo sexual pode alcançar e o gozo completo com essas dimensões da sexualidade. Provocação para a maioria dos nós, homens ou mulheres, que (pelo menos da boca pra fora) quer se comportar de forma politicamente correta.
Não sei até que ponto Catherine Millet, a autora, endossa as posições libertinas da sua personagem. Aparentemente, pelas declarações da autora na imprensa, há muita proximidade de ideias e Catherine Millet insiste provocações semelhantes as que se encontra no romance. Mas as “bandeiras de luta” de Catherine M. (o do completo usufruto do sexo e da liberdade) não se harmonizam com qualquer feminismo que se constitui em movimento social e busca um novo regramento para as relações entre os sexos (muito menos com o feminismo das atrizes vestidas de preto). Nem a personagem se propõe a isso. Nem a autora. Apenas se aproximam, se assemelham, na defesa do prazer sexual e da liberdade.
Catherine M. é personagem de um romance libertino escrito na primeira pessoa e narra de forma reflexiva (ensaística, como indica Vargas Llosa) sua inserção individual no mundo dos jogos eróticos. Uma personagem – construída como projeção autobiográfica da autora – que encena a fantasia e a realidade vividas por sua criadora. Uma personagem feminina deliciosamente livre e independente, e, por isso mesmo, também assustadora. Se lemos a sua narrativa como representativa da nova configuração do feminino, as mulheres – ou pelo menos algumas mulheres – não precisam de proteção em relação às investidas masculinas, mesmo que sejam selvagens e agressivas.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A história do mundo a partir de objetos

Para quem gosta de História e museu, A história do mundo em 100 objetos, de Neil MacGregor (Editora Intrínseca, 2013), é um livro fascinante. O autor é diretor do Museu Britânico e a obra consiste num calhamaço de 760 páginas, com fotos e comentários de cem peças do museu, com o propósito de narrar a história da humanidade desde o Paleolítico até o ano de 2010. Com uma seleção de peças museológicas preciosas, o autor demonstra que objetos são tão reveladores da História como são as narrativas escritas – e, em alguns casos, até mais esclarecedoras. Através de objetos – como um tambor sudanês e um escudo australiano (peças que o autor escolhe para contar a sua “história das civilizações”) – personagens anônimos que não citados em texto algum se fazem presentes nos relatos históricos.


O Museu Britânico tem um acervo extraordinário e entre as peças escolhidas para esse livro encontram-se o famoso Estandarte de Ur (um mosaico funerário), uma estátua de granito de Ramsés II, um relevo de mármore do Partenon, a Pedra da Roseta, uma peça cerimonial maia do jogo de pelota, uma cabeça de pedra de Buda (do templo de Borobodur, em Java) e assim por diante. A partir de objetos como esses, Neil MacGregor descortina uma “história das civilizações” – articulando civilizações, sociedades e culturas da África, Ásia, Europa e Américas – vista a partir de um dos seus centros irradiadores, a Grã-Bretanha.
Para alguns, a narrativa soará fortemente eurocêntrica, mas a abordagem é acompanhada por um esforço tão sincero e inteligente do autor e sua equipe no sentido de integrar as diferentes civilizações, sociedades e culturas numa história global – uma “história das civilizações”, como o autor se refere – que a perspectiva europeizante perde a relevância. Na história proposta pelo autor, as diferentes civilizações – desde o início dos tempos – interagem umas com as outras por meio do comércio e até mesmo por guerras de conquista e acabam construindo um amálgama comum.
O autor não ignora as mazelas do colonialismo e imperialismo europeus (conforme se lê nas abordagens do tambor sudanês e escudo australiano citados acima, “capturados” por agentes do Império Britânico em operação no Sudão e Austrália, marechal Horatio Kitchner e capitão James Cook respectivamente), mas prevalece o entendimento de que existe uma “família humana”. Para o autor, essa “família humana” não é uma metáfora vazia e, sim, formada por “toda a humanidade [a qual] tem as mesmas necessidades e preocupações, medos e esperanças”.
Se o leitor sintonizar com essa abordagem, a leitura será enriquecedora e saborosa. Afinal, cada peça escolhida encerra diversas camadas de histórias e descortina aspectos variados da história da humanidade. A Pedra da Roseta tanto é um documento burocrático da dinastia ptolemaica (grega) que dominava o Egito no século II a.C., quanto uma peça de disputa entre franceses e ingleses durante as Guerras Napoleônicos, quanto o documento fundamental para a descoberta da escrita hieroglífica. E a escultura de Ramsés II tanto é um objeto do culto religioso do Egito dos faraós quanto a peça que revelou aos europeus, no início do século XIX, que a grande arte não iniciara na Grécia, que outras civilizações existiram antes, tão criativas quanto os antigos helenos.
Como se vê, uma leitura fascinante – a nos convidar a conhecer o mundo, suas diferentes facetas (civilizações, sociedades e culturas) e, quem sabe, a também a cruzar o oceano e percorrer as galerias do Museu Britânico.