quinta-feira, 19 de julho de 2018

"Silêncio", de Scorsese

Foi um dos melhores filmes que assisti ultimamente: “Silêncio”, de Martin Scorsese, baseado no romance japonês de mesmo nome, de Shusaku Endo. 
Arrisco dizer que o filme é melhor que o livro. Li o livro com entusiasmo, assisti ao filme pela segunda vez e gostei ainda mais. Uma narrativa contundente. Mas sou suspeito. A temática religiosa tem me pegado: a busca do martírio, o embate com o silêncio de Deus – o “insondável silêncio de Deus”, como diz um dos personagens. Temas caros na história da Cristandade. Grandes santos procuraram o martírio – como São Francisco, Santo Antônio, Santa Teresa de Ávila – e alguns conseguiram. Uma aspiração de muitos católicos, até hoje. E, pairando sobre essas sensibilidades religiosas, sempre a esperança de um sinal divino. Um sinal que nas histórias eclesiásticas geralmente se evidencia, de um jeito ou de outro. Mas nas narrativas realistas, mais humanas – como é o caso do romance de Shusaku Endo e do filme de Scorsese –, é o silêncio que se impõe. E a constatação, como faz o personagem narrador do livro de Endo, que não somos tão fortes como Jó.

O filme inicia em Lisboa, em meados do século XVII, quando dois jovens jesuítas decidem partir para o Japão em busca de notícias sobre seu mestre, o padre Cristóvão Ferreira, que dizem ter renegado o Catolicismo. Os dois jovens não acreditam nisso. Por pior que tenha sido a tortura que infringiram ao mestre, os jovens imaginam que ele resistiu.

Nessa época, o Catolicismo iniciado pelo trabalho missionário de São Francisco Xavier não era mais aceito pelas autoridades japonesas. Os cristãos eram perseguidos e geralmente mortos. A repressão iniciara no final do século XVI, mas o catolicismo apenas refluiu, não desapareceu. A crucificação de 26 católicos, em 1597, em Nagasaki, é um marco dessa perseguição que se prolongou e se sofisticou (em técnicas de repressão e tortura) ao longo do século seguinte.

Cena do filme: os dois jovens missionários que buscam o padre Ferreira.
Ao chegar ao Japão, os jovens jesuítas são constantemente atormentados por essa conjuntura repressiva. Os portugueses não são bem-vindos. E os missionários descobrem que padre Ferreira (interpretado por Liam Neeson) foi confrontado com a tortura – com a possibilidade do martírio – e recuou. Segundo a rígida norma religiosa, ele fracassou. As cenas do padre Ferreira exposto à dor da tortura e da abjuração são um dos pontos altos do filme. Grande interpretação do ator Liam Neeson. Cenas dolorosamente humanas. Narrativa muito distante do tradicional padrão de história religiosa, que costuma representar o martírio como algo glorioso. No filme de Scorsese isso não acontece. Ao contrário.
Nem por isso o filme é menos religioso. A cena final que o diga. Diante do brutal silêncio de Deus – ou insondável, como diz um personagem –, diante da brutalidade dos homens também, se contrapõe a esperança humana. Frágil e tortuosa esperança, no caso. Humana esperança – muito distante daquela corajosa postura do bíblico personagem Jó, que não fraquejou um só momento.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Guerra do Paraguai e literatura de ficção


A Guerra do Paraguai (ou Guerra da Tríplice Aliança) não ocupa muito espaço na nossa literatura de ficção. No gênero romance, conheço apenas “A solidão segundo Solano López” (1980), de Carlos de Oliveira Gomes, “O rastro do Jaguar” (2009), de Murilo Carvalho – ambos com características de romance histórico, isto é, sem ruptura com a discurso historiográfico – e “Avante, soldados: para trás” (1992), de Deonísio da Silva – de caráter satírico, com intenção de subverter o discurso historiográfico. Provavelmente existam outros títulos (tomara que existam), mas fico com os citados, especialmente os dois primeiros por se adequarem ao meu modo de pensar o mundo e a literatura.

Reli “A solidão segundo Solano López” semanas atrás e gostei muito. Tinha uma boa lembrança do livro e confirmei essa impressão. Escrito no final dos anos 70, o romancista faz um prólogo onde explicita o seu alinhamento com o revisionismo histórico da época (que entendia a guerra contra o Paraguai devido às pressões do imperialismo britânico), e se propõe a um quadro geral do conflito militar. A tese da pressão imperialista foi contestada posteriormente (um dos seus principais expoentes, o argentino Leon Pomer, reconheceu o exagero da interpretação), mas a narrativa ficcional de Oliveira Gomes não fica prejudicada por conta disso.

Romance vigoroso, a narrativa acompanha a invasão dos exércitos da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) a partir dos seus comandantes militares (Mitre, Caxias, Osório), enfoca também o lado paraguaio, sob o comando absoluto de Solano López, e o leitor tem uma visão geral do conflito, o passo a passo da guerra. No que diz respeito ao lado paraguaio, a narrativa também enfoca as disputas internas, como o surgimento de uma resistência ao ditador Solano López e o modo como esses opositores são neutralizados – neste último caso, com o auxílio da “terrível” Madame Lynch, esposa do ditador.

Mas o autor não enfoca apenas os ilustres personagens históricos (Mitre, Caxias, Osório, Solano López e Madame Lynch). Cria também um outro eixo narrativo, composto por personagens menores (provavelmente fictícios), e amplia o leque social dos atingidos pela guerra. Nesses personagens menores (homens e mulheres que não conquistaram lugar nos tradicionais livros de História) a guerra escreve de forma mais dolorosa o seu espectro de horrores e parece ser essa a intenção do autor: revelar o sofrimento que grandes interesses econômicos e políticos em confronto são capazes de produzir na população em geral. Presidentes e imperadores, diplomatas e generais movem-se orientados por grandes projetos – de organização da economia internacional, de formação de Estados Nacionais –, arrastam exércitos para a concretização de seus objetivos (às vezes caprichos), e isso se faz com uma soma de sofrimentos incalculáveis, não apenas de soldados, mas da população civil também.

Detalhe de quadro de Cándido López.
Já  em “O rastro do Jaguar”, de Murilo Carvalho, a abordagem é diversa, com outro tom (menos épico) e outra maneira (originalíssima) de enfocar o mesmo conflito militar. Nesse romance, um jornalista europeu (nascido em Portugal, criado na França), na virada do século XIX para o XX, se põe a escrever suas memórias, tendo como foco a trajetória de um amigo que ele acompanhou em viagem pelo Brasil (Bahia, Rio Grande do Sul) e Paraguai. O amigo fora levado criança para a França (pelo viajante Auguste Saint-Hilaire, que o adotara quando passou pelo Rio Grande do Sul, em 1820-21) e criado no continente europeu como se fosse francês. Aos 40 anos esse amigo do narrador descobre sua identidade guarani e decide voltar ao Brasil em busca do seu povo. Esse regresso coincide com a Guerra do Paraguai e tanto o jornalista quanto o índio se veem envolvidos pelo conflito.

Pelo olhar do jornalista (que envia artigos para um jornal parisiense) temos uma visão geral da guerra, enquanto pelo lado do índio ganhamos a perspectiva da grande massa indígena que atende aos apelos de Solano López e luta bravamente sob seu comando. Segundo o personagem narrador, os guarani (que constituíam o exército paraguaio) aguardavam um profeta-guerreiro que viria reerguer a nação indígena e identificaram no ditador essa figura mítica. Daí o engajamento dos índios e seu comprometimento na luta. Equivocadamente os guarani lutaram pelo projeto de Estado Nacional de López entendendo como um projeto que recuperasse também a dignidade indígena.

Como o romance é narrado por um europeu, a nação guarani é comparada aos antigos povos bárbaros que se constituíram em nações organizadas na Europa, posteriormente em Estados, num longo processo histórico que atravessou a Antiguidade, a Idade Média e se consolidou nos séculos XVIII e XIX. Um tempo histórico que os guarani não tiveram para si. Os indígenas foram engolfados por um processo civilizatório no qual eram os sócios menores e, durante a Guerra do Paraguai, estavam envolvidos numa luta de Estados Nacionais em formação, todos de matriz europeia (Paraguai, Brasil, Argentina), e para esse banquete os indígenas não eram convidados – a não ser como bucha de canhão.
Muito melancólico esse romance de Murilo Carvalho e muito atual também, na medida em que as lutas indígenas se renovaram nos últimos vinte anos, tanto no Brasil como na América Latina. Os povos indígenas procuram se recolocar na cena político-cultural e as lutas do século XIX seguramente ainda servem de material para reflexão. A Guerra do Paraguai continua sendo um depositário de grandes histórias – histórias importantes na nossa formação social – e às vezes estranho que poucos ficcionistas se aventurem a revive-la.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Tiro de Guerra




A foto acima é um recuerdo familiar: meu avô materno com sua turma do Tiro de Guerra, em Pelotas, no dia 15 de novembro de 1919. Na fileira dos atiradores de pé, ele é o terceiro, da direita para a esquerda. Um rapaz de estatura baixa, 22 anos, filho de imigrante português, muito bonito. Na sua turma do Tiro de Guerra ele aprendeu a manejar o fuzil Mauser (é isso que lembro ele contar), fazer “ordem unida” e se orgulhar disso. Contava que a arma pesava quase cinco quilos (mais precisamente 3,8 kg, se fosse uma Mauser Modelo 1908), muito difícil de apoiar no ombro e fazer a mira. Pelos seus comentários, imagino que teve apenas noções de tiro, mas era reservista e seria convocado pelo Exército em caso de necessidade.

Quando encontrava algum antigo companheiro do Tiro de Guerra, recordo que ele e o amigo riam, lançavam algum olhar nostálgico e sempre falavam de alguma lembrança saborosa desses tempos de “treinamento militar”. Ou, pelo menos, era isso que o neto criança imaginava. Mais tarde, já crescido e interessado em história militar, conversei com ele sobre o assunto, mas ele não contou (ou não lembro) nenhuma história específica. Falava apenas da Mauser pesada no ombro e o orgulho que sentiu pelo fato de poder ser "chamado pela Pátria” quando ela precisasse de homens para defende-la. Mas fazia esse último comentário com um riso maroto, que me fazia pensar que não acreditava muito que sua turma pudesse ter condições de defender a Pátria militarmente.

Com a foto acima nas mãos, minha mãe e eu tentamos várias vezes reconstituir as histórias do avô, mas não fomos muito longe, isto é, não fomos além de recordar a satisfação que ele revelava ao contar que se tornara “reservista do Tiro de Guerra”. Uma foto pequena do avô, com este mesmo fardamento, sem o quepe, minha mãe às vezes trazia na carteira e outras vezes deixava dentro de uma caixinha de joias da Joalheria Pinto Ferreira... Lembranças que se embaralham na minha memória, hoje em dia.

O Tiro de Guerra teve origem numa Sociedade de Tiro criada na cidade de Rio Grande e ganhou impulso após a Grande Guerra. O vô nunca deixou de se referir à 1ª Guerra Mundial como a “Grande Guerra” e parece nunca ter esquecido as notícias de barbaria daquele conflito. Em 1923 (durante a hoje chamada “Revolução de 23”) a tropas rebeldes de Zeca Netto tomaram Pelotas por um dia e esse parece ter sido o acontecimento militar que meu avô mais viveu de perto.

– O Exército convocou vocês para defender a cidade? – eu lembro de ter perguntado.

– Não, isso era coisa entre os rebeldes e o Presidente do Estado (Borges de Medeiros). O Exército nem se meteu nisso – ele deve ter explicado ao menino que eu era.

Minha mãe e eu várias vezes tentamos reconstituir a história desse avô e sempre nos faltou informação. Mas restou essa foto, a foto de um rapaz fardado e orgulhoso, que olha altivo para a câmara, que olha altivo para mim e parece perguntar se tenho alguma noção de arma de fogo para defender a Pátria em caso de necessidade.

– Certamente que não – eu digo mentalmente, imaginando que essa resposta seria motivo para mais conversa entre nós. Afinal, o rio-grandino que criou a sociedade de tiro que deu origem ao Tiro de Guerra, em Rio Grande, no início do século XX, imaginava uma sociedade de civis armados (com fuzis em casa inclusive) prontos a serem chamados para defender a Pátria, como se fossem habitantes da antiga Roma e isso – ter esse preparo militar – nunca foi coisa que tivemos.[i]



[i] Segundo o historiador militar Claudio Moreira Brito, o rio-grandino (Antônio Carlos Lopes) que criou a Sociedade de Propaganda do Tiro de Guerra, em Rio Grande (1902), organização que deu origem ao Tiro de Guerra no país inteiro, se inspirou no sistema de defesa militar da Suíça, no qual homens com formação militar tinham armas em casa e seriam chamados em caso de guerra (como era na antiga Roma antes da profissionalização do exército).

terça-feira, 19 de junho de 2018

Guerras napoleônicas: "O retorno do herói"


O retorno do herói foi um dos filmes selecionados no recente Festival Varilux de Cinema Francês. Uma comédia ambientada no período das guerras napoleônicas, na qual um elegante hussardo francês (integrante da cavalaria) pede a mão de uma jovem aristocrata e no mesmo dia é convocado para a Campanha da Áustria (1809). Ele promete escrever todos os dias para a adorável noivinha, não escreve uma única carta e desaparece. Alguns anos depois, quando regressa, descobre que a irmã da noiva escreveu cartas por ele (para salvar a irmã de terrível depressão) e que ele se tornou um herói para a família da noiva e para a cidade. Sem escrúpulo, encarna o personagem criado pelas cartas imaginárias e narra as suas peripécias heroicas para uma plateia encantada. Em resumo, passa a faturar em cima da sua fama de herói.




Um dia, porém, conta a sua verdadeira história: a de um oficial que participou de uma carga de cavalaria contra as tropas austríacas – durante a batalha de Essling, nos arredores de Viena – e assistiu durante poucos minutos mais de 300 cavalarianos do seu regimento morrerem devido ao bombardeio dos canhões inimigos. É o único momento do filme em que o tom de comédia desaparece. De forma emocionada e pausada, o personagem narra o espetáculo de horror que presenciou para uma plateia em estado de choque. Um clarão de horror numa comédia ligeira e logo o filme volta ao seu tom de humor, por sinal muito bom. Divertimento garantido, como se diz.

Não conto mais a respeito do filme para não tirar a surpresa de um possível espectador. A guerra é sempre um tema empolgante e é muito bom quando o cinema a aborda de forma humorada, indicando as diversas maneiras que os homens têm de lidar com o horror dos combates (um horror que nos constitui, que é parte integrante da nossa civilização). No caso desse filme, a saída do personagem não é nada honrosa do ponto de vista da ética militar – mas, sem dúvida, é uma alternativa muito humana. Afinal salvar a própria pele é sempre algo humano, vergonhosamente humano às vezes.

O filme, ou melhor, a cena em que o personagem narra a sua participação na batalha de Essling me lembrou um conto de Prosper Mérimée que nunca esqueci (e várias vezes citei em sala de aula): “A tomada do reduto”, escrito em 1829. Nesse conto, um oficial francês narra a sua vivência em outra das guerras napoleônicas (a Campanha da Rússia, 1812), na tomada do reduto de Chevardino, próximo a Moscou. O personagem é um oficial de infantaria, ele marcha contra os russos entrincheirados no reduto e assim narra o ataque:

Vibraram todos os fuzis. Fechei os olhos, e ouvi um espantoso fragor, seguido de gritos e gemidos. Abri os olhos, surpreso de ainda me encontrar no mundo. [...] Achava-me cercado de feridos e mortos. Meu capitão jazia estendido a meus pés, com a cabeça estraçalhada por uma bala de canhão, e eu estava coberto de seu cérebro e seu sangue. De toda a minha companhia, só restavam de pé seis homens e eu.

Algo semelhante viveu o personagem do filme O retorno do herói: ele também se viu “cercado de feridos e mortos”. Os dois, o hussardo da batalha de Essling e o infante da tomada de Chevardino, sobreviveram aos massacres que Napoleão Bonaparte protagonizou na Europa do início do século XIX, massacres fundamentais para a constituição da Civilização Européia. Os dois foram sobreviventes e testemunhos do horror napoleônico.
Um bom filme. Saí do cinema pensando que o indicaria para os meus alunos, se ainda fosse professor de História.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Revolução de 1932 no Rio Grande do Sul


Em 1932, as lideranças da Frente Única sul-rio-grandense romperam com Getúlio Vargas e comprometeram-se com os paulistas num movimento de rebelião ao Governo Provisório varguista. Entre esses líderes gaúchos estavam Borges de Medeiros e Flores da Cunha, do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), mais Raul Pilla e Batista Luzardo, do Partido Libertador (PL). Flores da Cunha era o interventor no estado (nomeado por Vargas) e o movimento dependia dos recursos que Flores dispunha como chefe de governo (o comando da Brigada Militar) para o sucesso militar da revolta.

Quando se aproxima a eclosão do movimento, no entanto, Flores retoma os laços de lealdade para com Vargas e deixa os companheiros na mão. As operações militares contra o Governo Provisório iniciam em São Paulo, no mês de julho, as lideranças paulistas contam com o apoio gaúcho, mas as lideranças gaúchas não conseguem se mobilizar. Borges de Medeiros e Batista Luzardo são “presos” em Porto Alegre e os focos de revolta no estado ficam contidos no nascedouro. Flores conhecia os planos dos rebeldes e traz as lideranças do movimento sob estrita vigilância.

Uma vigilância, no entanto, que não implicava em trancafiar os líderes em prisões. Luzardo vivia num hotel da Rua Andrade Neves, Borges na sua residência na Rua Duque de Caxias, e eram apenas vigiados por agentes policiais. Luzardo se disfarça de padre e burla os policiais, Borges também engambela os seus secretas durante um passeio matutino e ambos partem para o interior do Estado com o propósito de estabelecer um “foco revolucionário”.

Forma-se então a Coluna Luzardo e o propósito inicial é tomar Santa Maria (em função do papel estratégico da cidade quanto ao controle da malha ferroviária), mas o projeto não vinga e a coluna, com um efetivo de aproximadamente 200 homens, se encaminha para o sul. Enquanto isso, apenas na região de Soledade um outro foco de luta é criado (pelo general Candoca), porém logo contido.

A Coluna Luzardo marcha pela região da Campanha e no dia 19 de setembro acampa na estância de Cerro Alegre, nas proximidades de Piratini.  No outro dia, 20 de setembro, 700 homens das forças legalistas cercam os rebeldes e os levam à rendição após algumas horas de tiroteio. É o último combate da Revolução de 32 no Rio Grande do Sul. Alguns dizem que é o fim de um ciclo revolucionário que iniciou com a Revolução Farroupilha, mas isso é um exagero. Historiadores mais apegados a ideia de uma tradição revolucionária sul-rio-grandense costumam endossar essa interpretação, no entanto trata-se apenas do esgotamento das revoltas oligárquicas no estado, as quais, no que diz respeito ao quesito “revolucionário” (mudança de estrutura social) são questionáveis.

Seja como for, essa temática histórica (a do ciclo revolucionário) é um filão que alimenta boa parte da nossa literatura de feição memorialística, historiográfica e ficcional, e muitos de nós gastam horas em torno desse assunto. Um tema fascinante, constitutivo da nossa identidade regional. No caso da Revolução de 32 – e em especial do compromisso que os gaúchos assumiram com os paulistas – trata-se de um episódio histórico que muitos de nós ouviram os avós, os pais e os tios comentarem animadamente, xingando-se uns aos outros e também fazendo piadas, rindo. Menino, eu ouvia o pai e meu avô materno tratarem desse assunto, indagarem por que os gaúchos romperam a palavra dada aos paulistas, e me empolgava.



Foi com essa memória de menino que li essa semana o livro Pela palavra empenhada: a Revolução de 1932, de Blau Souza e Zeno Chaves (PoA: AGE, 2012. 184 p.), uma investigação histórica e memorialística sobre o episódio revolucionário de 32 no cenário sul-rio-grandense. Como o próprio título indica, uma investigação que tem como eixo a pergunta a respeito de como as lideranças gaúchas lidaram com a “palavra empenhada” aos paulistas. Uma palavra (compromisso) que a gauchada não manteve.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Batalha da Ponte Mílvea


A batalha da Ponte Mílvea é daquelas que se estuda na história romana devido ao seu papel na reorganização do Império após a crise do século II d.C. É o confronto militar no qual Constantino derrota Maxêncio, às margens do rio Tibre, em 312, e dessa maneira prepara o caminho para a reunificação dos impérios do Ocidente e Oriente (criados por Diocleciano) e seu coroamento como único imperador. Para quem tem alguma intimidade com a história do Cristianismo, no entanto, é muito mais do que isso.

Segundo a lenda católica, às vésperas da batalha, Constantino teria tido uma visão na qual se apresentou uma cruz com a legenda  In hoc vince (Através disso vence) e ele se converteu ao Cristianismo. O general mandou desenhar nos escudos da sua tropa o signo da Cruz e derrotou seu adversário. Na sequência, foi promulgado o Édito de Milão (assegurando a liberdade de culto), terminaram as perseguições aos cristãos e abriram-se as possibilidades do Cristianismo se estabelecer como religião oficial e estruturar-se como igreja imperial. Para alguns, Constantino encerrou a Antiguidade (o domínio do paganismo) e inaugurou o início da Cristandade (um modelo sócio-político no qual o Cristianismo ocupa o polo central).

A Batalha da Ponte Mílvia (detalhe), de Rafael Sânzio. Vaticano.
Escrevo isso porque há pouco mais de um ano passei diante da Ponte Mílvea, em Roma, e a cena se gravou em mim como uma espécie de iluminação. Estava dentro de um ônibus, a professora de italiano se referiu à ponte rapidamente... e fui transportado ao meu mundo de criança. Uma experiência e tanto, dessas que a gente volta e meia relembra.

E me refiro a essa vivência como “iluminação” porque a minha infância se fez presente naquele momento como um jato de luz. Fui iluminado pela lembrança do tempo em que era aluno de catequese, me preparava para a primeira comunhão e me enfronhava nas lendas e histórias da Igreja Católica. Em algum momento daquele período da infância aprendi sobre a visão de Constantino, a cruz marcada nos escudos dos soldados, e acredito que a História Geral de Souto Maior (um livro muito adotado pelas escolas na década de 60) tenha sido uma das referências. Provavelmente foi nesse livro didático (do meu irmão mais velho) que li pela primeira vez a respeito do assunto.

Essa semana, relendo A Igreja no Império Romano, do historiador gaúcho Martin Dreher, descobri que a matriz dessa lenda é Eusébio de Cesaréia, contemporâneo de Constantino. Eusébio escreveu uma história eclesiástica na qual afirmava que o general implorou ao “Deus dos céus e de seu Logus, Jesus Cristo” a vitória no campo de batalha. Mais tarde, após a morte de Constantino, Eusébio acrescentou mais detalhes. Contou que, às vésperas da batalha com Maxêncio, o futuro imperador teve uma visão ao meio-dia e viu uma Cruz se colocar diante do Sol com a famosa inscrição afirmando que ele venceria com aquele símbolo cristão.
Martin Dreher comenta que Constantino não se converteu ao Cristianismo às vésperas da batalha de Ponde Mílvia e só foi batizado 25 anos depois, no leito de morte. Constantino era adepto do culto a Mithras, mas nem por isso deixou de perceber que a nascente Igreja Cristã poderia ser útil para a reorganização do então fragmentado Império Romano. Um político sagaz que soube fazer um pacto com a Igreja muito proveitoso para os dois lados. 
A história romana é um tema que não tem fim e imagino que um dia, se voltar a Roma, procurarei a Ponte Mílvea. Mas não será apenas para homenagear as glórias do imperador Constantino ou a inauguração da Cristandade. Será, principalmente, para lembrar de um guri que foi coroinha na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Pelotas, e um dia acreditou que as forças divinas eram capazes de intervir na história dos homens.


- DREHER, Martin. A Igreja no Império Romano. São Leopoldo: Sinodal, 1993. (vol. 1 da coleção "História da Igreja".)
- SOUTO MAIOR, A. História Geral: para o ensino de 2º Grau e vestibulares. São Paulo: Companhia Editora Nacional, s/ data.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Calça rasgada


Há tempos estou para escrever sobre essa moda das calças rasgadas. Isto é, a respeito desse modismo que era uma característica do vestuário da juventude rebelde dos anos 80 e que, de repente, entrou no circuito das butiques sofisticadas, nas revistas de moda, na indumentária das cantoras de sertanejo e por aí afora. O costume de rasgar as calças parece vir da cultura punk, que se esmerou em estetizar um visual contestador – no corte e na cor dos cabelos, no vestuário – e lá pelas tantas a coisa transbordou desse nicho e ganhou um público mais amplo, indiferente à contestação política.

No ano passado, viajando de trem na Itália, uma colega que trabalha com moda me explicou, simplesmente, que “irreverência vende”.

– O público feminino adora – ela acentuou. A moça é funcionária de uma indústria têxtil paulista (na região de Americana) e costumeiramente viaja a Milão e Turim para conferir as tendências do vestuário.

– A Itália é referência no mundo da moda – ela disse. E me contou que, entre outras coisas, o seu trabalho consistia em circular pelas lojas, pelos departamentos de roupa feminina, e observar o que as mulheres gostam, anotar as suas preferências. E calça rasgada está entre os itens.

Ainda insisti na pergunta sobre o perfil do público feminino, se eram mulheres que queriam encenar no próprio corpo, na vestimenta, a contestação da ordem dos costumes, da ordem social e ela franziu a testa.

– Irreverência – ela frisou. E voltou a repetir que era isso que as mulheres querem comprar. Ela repassava seu relatório para os figurinistas da fábrica onde trabalhava, no estado de São Paulo, os caras seguiam a orientação – as tendências  apontadas – e a coisa vingava, isto é, vendia.

Eu devo ter feito alguma cara feia, cara de quem não entendeu, e a conversa não rendeu mais. Uma pena. Na certa a moça viu que eu não entendo de gostos e preferências femininos, e descurtiu. Nós éramos colegas numa escola de língua italiana para estrangeiros, tínhamos terminado o curso e viajávamos na região de Marche. Eu ia a Macerata para visitar o Museu Buonaccorsi, ela seguia um mais adiante para pegar um voo para Milão.

Há tempo estou para escrever sobre essa moda das calças rasgadas. A coisa me intriga. Em Siena, fotografei a vitrina de uma butique (foto abaixo) e lá estava um manequim com calças rasgadas. A confirmação do que disse a minha colega: em Milão, em Siena, em São Paulo e em tantas outras cidades do Brasil e do mundo, tudo a mesma coisa: a irreverência vende.


Mas tem que ser conjugada com um sapato de grife, um cinto idem, uma blusa de seda, coisas assim, me explicou – didaticamente – uma amiga, insistindo para que eu largasse de mão a implicância com esse modismo.