sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Palácio de Queluz - coisas que vivemos quando viajamos

Um amigo me enviou pelo correio eletrônico uma foto do famoso Quarto D. Quixote, no Palácio de Queluz, em Portugal, no qual D. Pedro I morreu em 1834. A foto centraliza a cama com dossel – onde também nasceu o futuro imperador – iluminada por uma forte luz vinda das janelas. Muito diferente da imagem que tenho do mesmo quarto.
Visitei o palácio em 2014, num dia de inverno, e o quarto estava sombrio. Não lembro se as janelas estavam abertas ou não. Era um dia chuvoso. Minha mulher e eu ficamos parados no meio do quarto e a monitora da sala nos contou que os brasileiros gostam muito de visitar o lugar, alguns vêm especialmente para ver onde "o imperador do Brasil morreu" e pouco dão atenção às demais peças.
Achei a observação curiosa e fiquei até tomado de alguma emoção retroativa àquele momento dramático da morte de um rei, que, segundo os livros de História, muitas vezes desencadeia uma fase de tensão política e até de instabilidade social. Há um quadro representando os últimos momentos de D. Pedro e creio que ele está reproduzido em miniatura na ficha explicativa colocada na frente da cama. Emocionado ou coisa parecida, não tirei nenhuma foto do local (apesar de permitido).
Quando D. Pedro faleceu, ele abdicara a coroa do Império brasileiro e se tornara Rei de Portugal com o título de D. Pedro IV. Pelo que narra a historiadora Mary del Priore em A carne e o sangue (biografia de D. Pedro com ênfase nos seus amores), ele estava com a saúde bem ruinzinha aos 30 anos e uma tuberculose acabou dando cabo de seu corpo debilitado, quando tinha 35.
Escrevo isso de memória, sem consultar o livro da Mary del Priore, pois quando viajamos é assim: vamos lembrando as coisas de cambulhada, muitas vezes as informações se embaralham e é esse quadro que fica na memória. Eu me utilizo de guias, folders, prospectos, mas às vezes não consigo me concentrar e fico flanando pelos lugares. Foi um pouco assim no Palácio de Queluz.
Meu amigo contou que fez um passeio rápido pelo palácio e riu muito ouvindo um colega (professor de História) comentar as fofocas da corte lusitana. Ele estava num congresso de historiadores e a visita ao palácio durou pouco tempo. Minha mulher e eu passamos boa parte de um dia andando pelos corredores, salas e jardins – praticamente vazios naquele dia de inverno –, lemos detidamente as informações de algumas peças e objetos, conversamos com os monitores, e igualmente ficamos com essa impressão de que tudo é muito rápido, efêmero e os séculos de história contidos naquelas paredes pouco ou quase nada apreendemos.
Éramos um casal plebeu, do outro lado do Atlântico, conhecendo as plagas dos antigos colonizadores e tudo aquilo era um pouco estranho. Súbito cruzamos com um casal de atores, vestidos como cortesões do século XVIII, e travou-se um diálogo engraçado.
O cortesão nos perguntou de onde vínhamos, dissemos que éramos do Brasil, e ele quis saber como estava “a Colônia”. Informado de que o Brasil não era mais colônia, o ator – muito afetado, como talvez tenham sido os cortesões do Palácio de Queluz – encenou uma perplexidade que nos fez rir e depois saiu por um salão envidraçado, a andar elegantemente com sua companheira.
- As voltas que o mundo dá - dissera o ator, encenando de forma cômica as transformações políticas e sociais que nós, professores de História, sisudamente explicamos em sala de aula, muitas vezes enfastiando os alunos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Questionando a educação brasileira

Não é pouca coisa o que propõe o professor e filósofo Ronai Rocha no seu livro “Quando ninguém educa: questionando Paulo Freire” (Editora Contexto, 2017, 153 p.): um diagnóstico da educação brasileira, um mapeamento do cenário conceitual que marca a atual discussão a respeito dos planos curriculares (a polêmica BNCC), e uma defesa do reerguimento da escola e da mística do professor. Tanto um texto de combate, que fustiga a pedagogia brasileira (em especial a de matriz freiriana), quanto de reflexão ponderada e até poética a favor da melhoria da escola, do revigoramento da atividade do professor e do engajamento do aluno. Ora é a voz do filósofo que domina o texto, esmiuçando os conceitos que orientam o debate educacional, ora é a do professor que vive a realidade escolar desde os anos 70 e tem o doloroso entendimento de que a escola foi rebaixada e não está cumprindo à contento as suas funções de ensinar os conhecimentos básicos.
Na avaliação do autor, esse rebaixamento da escola aconteceu devido a “um certo extravio de nossa cultura curricular e pedagógica", ocorrida a partir da virada da educação brasileira nos anos 70 e 80. Uma transformação explicável a partir da expansão da rede de ensino e das decorrentes discussões pedagógicas que a acompanharam, em especial uma maior atenção aos aspectos social e político da educação em detrimento das práticas pedagógicas propriamente ditas.
Quanto a esse estado da pedagogia, a obra de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, foi e é fundamental. Ronai Rocha não desconsidera o seu valor e papel históricos, mas vê como exagerada a sua influência no pensamento educacional brasileiro e compreende que a mesma se mantem “ao preço de uma leitura anacrônica”. Uma leitura descontextualizada, que minimiza o foco da obra, a alfabetização de adultos, assim como a problematização das opressões em geral e do diálogo com as camadas populares nos termos das décadas de 60 e 70. Temas candentes, claro, mas que o autor entende não serem os centrais para a construção de um modelo escolar formal.
O capítulo sobre a Pedagogia do oprimido já vale o livro, mas esse não é foco principal da reflexão de Ronai Rocha. Seus propósitos centrais são o já referido rebaixamento da escola assim como proposições de como encarar esse problema. Se a inspiração freiriana foi fundamental para a pedagogia brasileira e proporcionou ganhos consideráveis (como maior consciência política a respeito da educação), os custos foram muito maiores, segundo o autor. A instituição escolar foi abalada quanto ao seu papel de transmissora de conhecimentos consagrados (a famosa e pertinente discussão a respeito dos “aparelhos ideológicos do Estado”) e perdeu-se o sentido grandioso da escola: o de possibilitar uma espécie de segundo nascimento dos indivíduos, aquele proporcionado pelo conhecimento e usufruto do “legado que transcende as paredes que nos cercam”, das Artes e da Ciência, por exemplo, construídas pela nossa civilização.
Não é pouco coisa o que se propõe Ronai Rocha. Não sei como os teóricos da educação de orientação freiriana e desconstrutivista reagirão à provocação, mas entendo que o questionamento apresentado é pertinente. E, em especial, o diagnóstico da escola quanto as suas falhas no ensino dos conhecimentos básicos calará fundo os professores habituados ao chão da sala de aula. A partir daí, entendendo que até aqueles que ainda amam Paulo Freire lerão esse livro como uma provocação instigante. Um livro que se propõe a reorganizar os termos da discussão educacional, priorizando a revalorização do currículo e da prática pedagógica, assim como apontando as disposições necessárias para a retomada da escola das suas funções essenciais. Aparentemente uma proposta conservadora – a de recolocar a escola como capaz de organizar e transmitir o grande legado da nossa civilização (a tão mal falada Civilização Ocidental). Mas, como o autor indica, até para que prosperem propostas revolucionárias de educação e sociedade é necessário que a escola funcione, que o professor ensine e que os alunos conheçam e saibam usufruir aquilo que está muito distante de suas experiências cotidianas, como o Teorema de Pitágoras, a obra de Machado de Assis e as Bachianas de Villa Lobos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Colônia Cecília

Entre 1890 e 1894, funcionou uma colônia anarquista no município de Palmeira, no Paraná, a cem quilômetros de Curitiba. Aparentemente, era uma colônia como tantas outras, criada por emigrantes europeus, que atravessavam o Atlântico subsidiados pelo Governo brasileiro para substituir a mão-de-obra escrava ou ocupar as regiões consideradas despovoadas.
As colônias de imigrantes europeus tinham como base a propriedade privada e a organização familiar, mas essa – batizada Colônia Cecília – norteava-se por outros princípios: a propriedade coletiva e a família comunal. Uma sociedade anárquico-comunista, criada com a pretensão de desconstruir “toda forma doméstica de relações sexuais”, estabelecer o amor livre, visto que a família era considerada “o principal sustentáculo do regime capitalista” (do egoísmo e da apropriação privada de riquezas) e “incompatível com a vida socialista”.
Seguramente um caso único entre as colônias criadas no Brasil, na época da Grande Imigração Europeia. Um belo e fracassado empreendimento experimental, que durou quase quatro anos. Chegou a comportar 300 colonos, mas a debandada era constante e geral. Poucos aguentavam. A situação material era precária, a produção coletiva não dava conta do recado, as assembleias deliberativas eram constantes e, ao que tudo indica, havia necessidade de muito apego ao ideário anarquista para aguentar o rojão.
O projeto de família comunal não se concretizou e, em 1893, num relatório a respeito da vida na colônia, apenas dois casos de amor livre foram registrados – os dois devidamente apresentados e discutidos em assembleia. Um deles – entre Giovanni, Eleda e Aníbal – apresentado minuciosamente num instigante texto intitulado “Uma história de amor na Colônia Cecília”, de autoria de um dos participantes do caso, Giovanni Rossi (por sinal, o principal líder e ideólogo da colônia). Texto instigante, ao menos, para aqueles que acham (santa ingenuidade, dirão alguns) que é possível transformar as relações amorosas, consolidadas pela tradição e pelas características psicológicas dominantes de homens e mulheres.
Encontrei o texto, nesse último final de semana, bem guardado em uma das minhas estantes – bem guardado para uma leitura num dia que nem sabia qual. O texto faz parte de um conjunto de quatro opúsculos escritos por Giovanni Rossi, traduzidos e organizados por Mariza Vicentini e Miguel Sanches Neto, publicados pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2000. Miguel Sanches Neto, por sinal, em 2005, lançou um fabuloso romance chamado “Um amor anarquista”, baseado nesse episódio.
Elucidativos e instigantes os textos de Giovanni Rossi, em especial o que enfoca a sua história amorosa com Eleda (do qual extraí os trechos colocados entre aspas apresentados nesta crônica). Giovanni narra seu caso amoroso com objetividade e o vê também como um experimento científico. Para ele, a revolução social provocaria a emancipação econômica e, obrigatoriamente, a emancipação afetiva. A colônia anárco-comunista propiciaria essa emancipação e, dessa maneira, o “problema do amor” se encaminhava para “uma solução espontânea, lógica e necessária”.
Um otimista (e talvez um simplista em relação à natureza humana), esse Giovanni Rossi, agrônomo e militante anarquista. Viveu a experiência da Colônia Cecília até 1894 (quando esta se enquadrou ao padrão normal das colônias) e depois passou a exercer carreira de agrônomo no Rio Grande do Sul (em Taquari) e Santa Catarina. Voltou para a Itália em 1907, junto com Eleda e duas filhas, e talvez tenha continuado apostando na possibilidade do socialismo democrático, do amor livre, da família comunal, e de outros delírios do gênero. Morreu em 1943, aos 86 anos de idade, e não consegui informações sobre essa fase final da sua vida.

Após publicar o comentário acima, um leitor me indicou o esclarecedor artigo de Isabelle Felice, "A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi" (1998), facilmente encontrável no Google. Entre outras coisas, fica-se sabendo que no triângulo amoroso Giovanni, Eleda & Anibal havia uma quarta pessoa, o jovem Jean Géléac, pai do primeiro filho de Eleda - e que o anarquista Giovanni, após voltar a Itália, jamais comentava com os filhos o ousado empreendimento que tentara no Brasil.

sábado, 15 de julho de 2017

O ronco do búgio

No início dos anos 70, acampei diversas vezes na Praia do Tigre – uma pequena praia no atual Parque Estadual de Itapuã, na beira da Lagoa dos Patos. Naquela época, o parque não existia. Era um projeto. Na Praia Grande, apenas uma casa. Um bar. E o dono prevendo grandes oportunidades. Era o lugar onde comprávamos cachaça.
Depois da Praia Grande, entrávamos mato a dentro e caminhávamos um tempão até chegarmos à Praia do Tigre. Um lugar só acessível a mochileiros. Ou, pelo menos, era assim quando fui lá pela última vez (no verão de 1976). Deve ter mudado muito de lá para cá.
No alto dos morros de Itapuã, havia acampamentos de guarani e os índios não eram de muita conversa. Um dia nos perdemos no mato, pedimos auxílio a eles e o preço foi muito alto: todas as nossas facas e mais alguma coisa. Achamos caro demais e fomos buscar ajuda nos pescadores da Praia do Sítio – que prontamente nos levaram até o nosso acampamento. Não lembro o que cobraram em troca. Lembro que sentaram conosco, em torno do fogo, e beberam, conversaram e depois foram embora.
Como se vê, lugar de muita aventura para a garotada urbana que éramos. Às vezes os bugios faziam um barulhão danado no mato, saíamos para encontrá-los e eles fugiam. Animais ariscos, nos contaram. Os índios costumavam caçá-los. Os bugios sentiam de longe o cheiro dos humanos (índios e outros) e escapuliam.
No último final de semana, matei a vontade de ver os bugios em estado selvagem (ou próximo disso), no Parque Witeck, no município de Novo Cabrais (perto de Cachoeira do Sul). O parque é conhecido pela sua riqueza vegetal e, realmente, é magnífico. Mas os bugios roubaram a cena. Me conquistaram. Faziam uma barulheira tão grande que cheguei a pensar que fossem ruído de máquinas trabalhando. Não eram. Os bugios roncavam intensamente em cima das árvores e pude fotografá-los. Uma realização.


Eram animais habituados aos humanos. O cheiro de gente não os assustava, pois, diferente dos guarani que habitavam os morros de Itapuã, os humanos do Parque Witeck não os caçam para comer. Eles são parte da belíssima paisagem, reconstruída e ajardinada pelos proprietários. Os bugios podem roncar à vontade – para demarcar território, me explicaram – e não se importam que um fotógrafo amador prepare o zum de sua máquina para captá-los.
Levei mais de quarenta anos para fazer a foto de um bugio.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Histórias de viajantes e de peregrinos

Histórias de viagem tem me fascinado. Histórias de peregrinos também.
Outro dia, navegando na Internet, li o relato de uma viajante que achou admirável o guia turístico falar horas à fio pelas estradas da Escócia. Não entendi, porém, se a admiração era algo elogioso ou não. Afinal, um guia de viagem falando sem parar, comentando a paisagem, os costumes locais, fazendo piadas, é insuportável. Já vivi isso e não gostei. Felizmente era depois do almoço e dormi. Nem ouvi metade da chatíssima conversa, explanação e anedotário que durou entre Cáceres e Sevilha, no sul da Espanha.
Estávamos numa caminhonete de três bancos, não passávamos de oito turistas e durante o almoço combináramos que não deixaríamos o homem falar. Mas, na hora em que a viagem recomeçou, as duas argentinas que estavam no primeiro banco junto ao guia (que também era o motorista) não mantiveram o trato e deram trela ao homem. Foi uma desgraça. Minha mulher chegou zonza em Sevilha e, por intervenção dela junto à agência de viagem, dois dias depois seguimos nosso percurso pela Andaluzia com um guia mais educado, comedido nas informações e comentários.
Quanto aos peregrinos, admirei (positivamente) a criatividade de Alexandre Pires, que decidiu refazer os caminhos de São Francisco de Assis, entre as cidades de Dovadola e Assis, de skate, dois anos atrás. Um modo original de peregrinação. Claro que ele não fez todo o caminho de skate, mas, quando dava, lá estava ele em cima do seu “aparelho esportivo” deslizando pelas estradas italianas. Um percurso de quase 300 quilômetros, como ele registra no livro 18.4, o caminho: nos passos de São Francisco de Assis (Porto Alegre, BesouroBox, 2015), junto com excelentes fotos. Uma viagem com objetivos de reflexão espiritual e também de captação de recursos financeiros para fins caritativos – no caso, para a Casa de Acolhimento FASC, em Porto Alegre.
Alexandre Pires conta que viveu uma crise profunda a partir dos 35 anos, decorrente de excesso de trabalho e descuido com a vida conjugal, e que um livro sobre São Francisco o ajudou a encontrar rumos mais humanitário para sua vida. Decidiu, então, que no dia do seu aniversário de 40 anos (o 18.04 do título do livro) ele o comemoraria nas trilhas de São Francisco. Com a experiência de empresário que era, contatou jornalistas e fotógrafos, utilizou de marketing nas redes sociais e criou um projeto compartilhado com milhares de pessoas. Sua peregrinação não era para ser solitária e contou com fotos e filmagens de profissionais da área. Na primavera europeia de 2015 ele concretizou o seu projeto, dividindo-o com seus apoiadores. Segundo ele, o resultado foi a conquista de “certo equilíbrio”, além de ganhos financeiros para a Casa de Acolhimento FASC e palestras sobre o fomento turístico na região central da Itália.
Uma peregrinação original, essa de Alexandre Pires – que, segundo ele, provocou uma “transformação única” em sua vida. Não sei se a maioria dos peregrinos conseguem isso.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Disciplinar e restringir

Assisti no noticiário da TV que a jovem prefeita de Roma, Virginia Raggi, estabeleceu um regulamento a respeito do uso das fontes históricas da cidade com pesadas multas aos infratores. Segundo as notícias que busquei no Google, está proibido o acampamento ao redor das fontes, assim como o consumo de bebidas, alimentos, banhos, lavagem de roupas, e também a utilização das fontes como lixeira ou local para escalar. A medida vem acompanhada da intenção de restringir o acesso de imigrantes e estrangeiros à capital da Itália e, pelo jeito, não visa apenas disciplinar os inquietos turistas. “Impossível pensar em mais estruturas de acolhimento”, disse a prefeita, indicando a sua preocupação com os imigrantes africanos que ocupam as ruas da capital da Itália.
Quando visitei as famosas fontes históricas de Roma – Fontana de Trevi, della Barcaccia, dei Quattro Fiumi (Quatro Rios) –, era inverno e não havia ninguém nadando ou dando banho no cachorrinho. Nem vi ninguém acampado nas imediações. Na Fontana de Trevi, o número de visitantes era enorme – visivelmente turistas – e nem pensei em cumprir o ritual de chegar na borda e jogar uma moedinha. Meus colegas que fizeram isso precisaram de muita paciência para chegar até a beira da fonte. Eu fiquei de longe, fotografando.



Numa outra ocasião, batendo pernas pelo bairro Salustiano – procurando a Igreja de Santa Maria della Vittoria, local da escultura de Bernini, “Êxtase de Santa Teresa” –, me deparei com a Fontana dei Mosè e penso ter visto o modo como os nativos utilizam suas fontes. Era início da noite e um bando de adolescentes estava sentado nas bordas da “piscina” da fonte, rindo, brincando, e alguns dando voltas em torno das esculturas dos felinos, para beber a água que sai de suas bocas. Águas cristalina, limpíssima, imaginei.
Fiquei de longe observando e aqui abaixo reproduzo foto que catei no Google, onde se vê a majestosa fonte e suas leoas. Um frio danado (era final de inverno) e aqueles jovens se comportavam como se estivessem numa noite de verão. Adolescentes parecem ser iguais em todos os recantos do mundo, pensei.

As medidas da Prefeitura bem indicam a preocupação de preservar o patrimônio de Roma - uma intenção louvável, quando se sabe que aumenta o número de depredações causadas por turistas -, mas parece que o novo regulamento está embutido num projeto mais amplo de organização do espaço público. Não apenas disciplinar o seu uso, mas restringir também a "qualidade" dos usuários. Um problema e tanto quando lembramos - e muitos italianos lembram disso - que a Itália resolveu os seus problemas sociais, no final do século XIX e ao longo do XX, exportando seus pobres para outros países. Na maioria dos casos, esses emigrantes italianos foram acolhidos - como ocorreu nos Estados Unidos, Brasil e Argentina - e puderam dar origem à proles numerosas.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Pompéia

Alguém já escreveu que as viagens continuam depois que chegamos em casa. O sujeito vai a Roma, Nápoles, Pompéia, e volta lembrando os lugares visitados, lendo e relendo os folders e livros adquiridos, vendo e revendo as fotos, e por aí vai, semanas e meses afora. É o meu caso. Estive em Pompéia numa única manhã, em fevereiro desse ano, e continuo caminhando pela Via dell’Abbondanza, tentando entender o que vi.
A Via dell’Abbondanza (Rua da Abundância) é uma das importantes artérias dessa cidade romana, soterrada por uma erupção vulcânica em 79 d.C. Fiz uma visita guiada com meu grupo de colegas de Campus Magnoli (onde estávamos estudando língua e cultura italianas) e nesta rua visitamos uma morada (domus) da elite local. Não sei se era a casa de Paquio Proculo ou do Sacerdos Amandus. Meu italiano trôpego não entendeu direito o guia e hoje, examinando o catálogo da cidade e o mapa com a localização das moradias, suspeito tratar-se da casa do Sacerdos Amandus. Tirei algumas fotos da casa, inclusive a de um afresco, que entendi como sendo uma representação de Andrômeda sendo salva por Perseu – como se vê na foto abaixo, no detalhe à direita. Este afresco se encontra no átrio da casa do Sacerdos Amandus (segundo o catálogo) e daí conclui que foi essa moradia que visitei. 


Andrômeda fora acorrentada para ser devorada por um monstro, Perseu passava pelo alto (voando em cima do seu cavalo Pégaso), quando avista a princesa e se encanta. Retira da bolsa a cabeça da Medusa (que recém havia matado e decapitado) e a apresenta ao monstro, petrificando-o. Vencido o terrível adversário, Perseu se inclina diante da bela Andrômeda.
O leitor mais bem informado poderá dizer se me enganei ou não. Da minha parte, continuo andando pelas ruínas de Pompéia, tentando decifrar os seus mistérios e encontrar os vestígios da cultura e da vida romanas ali escondidos, camuflados. Caminho pela Via dell’Abbondanza, entro no Fórum – a praça dos antigos prédios públicos para o exercício da política, da justiça, da religião e do comércio – e lembro que fui professor de História Antiga durante muitos anos.
Era um lugar como esse que eu tentava enfocar nas minhas aulas: um local onde as práticas da religião e do Estado se intercambiavam e forjavam um grande império e uma grande civilização (uma de nossas matrizes culturais). Vejo meus colegas alegres e falantes – somos felizes nessa manhã ensolarada e fria – e sinto que a algazarra da antiga praça romana se recria quase dois mil anos depois.
O Sacerdos Amandus caminha ao meu lado e pergunto a ele se aquele afresco de Perseu e Andrômeda lhe pertence. E arrisco:
- A bela Andrômeda foi inspirada na sua esposa, senhor Amandus?