sábado, 16 de dezembro de 2017

As famílias são eternas

A Companhia das Letras acaba de lançar o último romance de Leonardo Brasiliense, intitulado Roupas sujas. Uma “saga familiar” (como está indicado na contracapa) ambientada na zona colonial italiana do Rio Grande do Sul. O romance anterior de Leonardo (publicado pela Editora Saraiva) também é ambientado na mesma região: Decapitados. Mas as duas obras poderiam se passar no sertão pernambucano ou no litoral paulista que não faria muita diferença. Afinal, “as famílias são eternas”, diz um dos quatros narradores desse último livro. Famílias são como uma equação e funcionam de modo muito semelhante em qualquer lugar: os elementos da operação são os mesmos e infinitas as suas variações. 


Num caso – em Decapitados – é a cabeça do Pai da comunidade que sumiu (a cabeça do pai, já defunto, colocada como relíquia numa capela). No outro caso – nesse último romance, Roupas sujas – é a Mãe o elemento central. A Mãe morre e deixa a família (o marido e sete filhos) obrigados a se reorganizarem. Pai, Mãe e filhos são peças de um jogo infinito, eterno, e haja talento para lidar com isso. Como o talento é escasso, sobra jogadas infelizes e é com esse material que Leonardo Brasiliense opera para deleite dos seus leitores.
O resultado são essas Roupas sujas familiares, compostas por quatro narradores: três deles membros dessa família infeliz que perde a Mãe num parto mal sucedido  (morre a Mãe, sobrevive a criança) e um quarto narrador não identificável, mas nem por isso menos importante para o andamento e desfecho da narrativa. A Mãe morre num parto sem assistência médica (a Medicina era luxo na região colonial italiana, na década de 1970) e mais de vinte anos depois um filho romancista reconstitui o drama familiar decorrente dessa morte (a primeira parte do romance, a mais longa). Uma das filhas (professora) escreve cartas ao irmão escritor (a segunda parte do romance, menos extensa que o anterior), tendo como mote o romance escrito pelo irmão a respeito dos desdobramentos da morte da Mãe. E um outro filho (aquele que nasceu no parto em que a Mãe morreu) escreve um sucinto diário, às vésperas de ser ordenado padre, relatando seu comovente drama de culpa e sacrifício.
Famílias exigem sacrifícios para se perpetuarem e possibilitarem a continuidade da vida e Pedro cumpre esse ritual, se oferecendo em holocausto, isto é, ao sacerdócio. Famílias exigem corpos e mentes ardendo em sofrimento, especialmente nas dores da culpa. Ou, pelo menos, tem sido assim que a maioria de nós tem operado e é dentro dessa longa tradição de dor e de culpa que Leonardo Brasiliense arma esse magnífico e curto romance. Uma peça de dor e de culpa, muito próxima do compasso de uma tragédia. 
Mas o último narrador – o narrador indefinido, que intervém na narrativa por meio de notas de rodapé – indica que a coisa poderia ser contada de outra maneira, próxima ao ritmo de um samba, quem sabe. Afinal, “as famílias são eternas”, ele afirma, e isso as torna “muito difícil de compreender”. Talvez nem seja possível, eu acrescentaria, mas nem por isso deixamos de empreender a dolorosa tarefa de mergulhar e procurar algum sentido nas roupas sujas dos dramas familiares.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

D. João V e Madre Paula

D. João V, rei de Portugal entre 1706 e 1750, não poupava dinheiro quando se tratava das coisas da Igreja. Pensei nisso sentado num dos bancos da igreja de São Roque, em Lisboa, assistindo a um concerto de música sacra com composições dos séculos XVII e XX. Um espetáculo sóbrio, comparado aos que o rei D. João patrocinou naquele mesmo local.
Interior da Igreja de São Roque. Capelas laterais.
Na época de D. João V, a igreja de São Roque pertencia aos jesuítas e o rei mandou construir no seu interior uma capela luxuosíssima dedicada a São João Batista. A capela foi feita na Itália, “o maior viveiro das artes”, mas com orientações precisas do rei e do arquiteto-ourives da corte portuguesa (um detalhe importante para entender a pouca sensualidade da obra e a preponderância de um barroco mais clássico, menos dado ao gozo dos sentidos como era próprio do barroco italiano do período). Depois de ser sagrada pelo papa, a capela foi desmontada, enviada a Portugal em três naus e remontada onde hoje se encontra. Assisti ao concerto sentado próximo a Capela de São João Batista e usufrui um e outro espetáculo.
D. João governou “à sombra do ouro que chegava do Brasil” (uma média de oito toneladas ao ano) e não sabia o que era controlar gastos. Além dessa capela mandou construir o Convento de Mafra e a Biblioteca Joanina (na Universidade de Coimbra), isso para ficar em apenas mais dois exemplos de realizações grandiosas do seu reinado. Considerado o Rei Sol da monarquia portuguesa, esse título dá conta do investimento em ostentação que o soberano fazia.
Objetos litúrgicos da Capela de S. João Batista, expostos no Museu de São Roque.
Saí satisfeito do concerto, naquela noite, e desci a Rua da Misericórdia em direção ao Chiado. No caminho lembrei de Madre Paula, “a carne gloriosa”, “a flor de claustro perfumada de incenso”, que encantou a vida do rei durante treze anos. Em relação a ela, D. João V também não poupou dinheiro algum. Quando a conheceu, ela era freira no Convento de Odivelas e amante de um conde. O rei a negociou com o conde e consta que ela não reclamou. Pelo contrário, arrogante, passou a exercer até com crueldade o poder que a condição de preferida do rei lhe dava. D. João mandou construiu aposentos luxuosos para ela (no convento), com muito ouro, prata, e nove criados para servi-la. Madre Paula usufruiu esses benefícios mesmo quando deixou de ser amante do rei e, provavelmente, utilizou até o fim da vida a lendária banheira de prata maciça (100 kg de prata) presenteada pelo soberano.
Afirmam os historiadores que a colaboração entre a Coroa e a Igreja atingiu picos elevados durante o reinado de D. João V. O rei não poupava esforços para engrandecê-la, tinha gosto pelas cerimônias litúrgicas espetacularizadas e as utilizava para afirmação do seu poder. Do mesmo modo, sabia usufruir com requintes “as flores adocicadas” que o claustro é capaz de fornecer. Além de Madre Paula, sabe-se da existência de outra freira do mesmo convento que foi amante do rei: Madalena de Miranda. Com ambas o rei teve filhos, os quais foram reconhecidos após sua morte. Um deles se tornou arcebispo de Braga; o outro, inquisidor-geral do Reino. Coisas da Igreja e da monarquia portuguesa que um reles turista não compreende muito bem, mas, nem por isso, deixa de usufruir com prazer.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Pãezinhos de Santo Antônio

Comprei pãozinhos na igreja de Santo Antônio, na igreja construída no local onde nasceu o santo, no bairro Alfama, em Lisboa. Fiz menção de comer o pãozinho na hora e fui avisado que tomasse cuidado. “Uma senhora quebrou a chapa”, o homem que vendia os pãezinhos falou. Um sujeito divertido. Na frente da porta da igreja, de pé ao lado de uma grande mesa, cheia de pães e objetos de devoção, o homem explicava o que era preciso fazer. Ele ensacava os pães, recolhia o dinheiro, e não deixava de falar na devoção, nas crenças e ritos que envolvem o santo.


Não podia comprar um só, ele explicava. Precisava levar no mínimo dois. Um eu podia comer no dia, mas molhando no leite ou na sopa. “Cuidado, os pãezinhos são duros.” O homem falava e ria. O outro era para guardar em casa e comer um ano depois (sim, um ano depois), fazendo uma oração, um pedido. "A coisa não falha." O homem ria um riso bom de devoto, de quem sabe misturar as coisas do mundo profano com as do sagrado e fazer disso um poema de religiosidade.


Eu estava zonzo e não entendia direito o que se passava. Lembrava da minha avó, da minha infância... Estava em Lisboa e em Pelotas. Quando era criança, via a vó chegar da igreja com uns pãezinhos dentro da bolsa e os distribuir dizendo que tinham sido abençoados. Era dia de Santo Antônio. Meus irmãos e eu comíamos sem receio algum de quebrar um dente e acreditávamos que alguma coisa boa pudesse acontecer. Eu acreditava. Então comia devagarinho - e só o que lembro é que eram muito macios aqueles pãezinhos.
De alguma maneira, era isso que queria repetir ali, na igreja de Santo Antônio, no lugar onde nasceu o santo. Repetir uma experiência de infância. Mas fiquei na vontade. Tive medo de quebrar um dente e guardei os dois pãezinhos na mochila. Depois, no hotel, acomodei-os na mala e ainda pouco rearranjei-os entre as roupas e presentes, preparando a bagagem para voltar ao Brasil.
Com cuidado, estou levando os pãezinhos para casa, para comê-los na mesa da cozinha, junto com meu filho. Imagino que vamos molhá-los numa sopa, que abrirei um vinho tinto e, da minha parte, a única oração será a lembrança da infância e daquele jeito infantil de acreditar nas coisas. E será um milagre se a esperança experimentada naqueles "verdes anos" vier me visitar novamente. Se acontecer, direi que é coisa do santo. Que ele não falha. Coisas do Sant'Antoninho.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Casa Fernando Pessoa

Nos últimos quinze anos de vida (entre os anos de 1920 e 1935), Fernando Pessoa morou num apartamento na Rua Coelho da Rocha, nº 16, no bairro Campo de Ourique. Na década de 90, o prédio de apartamentos foi adquirido pela prefeitura de Lisboa e transformado na Casa Fernando Pessoa, um centro cultural dedicado à memória do poeta e ao estudo da sua obra.
Dias atrás peguei um táxi para visitar o local e falei ao motorista que queria ir a Casa Fernando Pessoa e me referi a ela como “um centro cultural dedicado ao poeta”. De forma ríspida, o motorista me explicou que o local “não é um centro cultural, é uma casa”.
– O senhor quer ir a Casa Fernando Pessoa ou a um centro cultural? – ele perguntou, incisivo.
– A Casa Fernando Pessoa – eu respondi. E lembrei que os lusitanos são rigorosos no uso da linguagem, se irritam com o modo dos brasileiros utilizarem a língua portuguesa e que é melhor não complicar.
Enfim, pulando a implicância do motorista de táxi, a Casa Fernando Pessoa é um centro cultural dedicado à memória do “mais universal dos escritores portugueses” e consiste num prédio inteiro (o térreo mais dois andares) com salas de exposições permanentes e temporárias, acesso à biblioteca pessoal do poeta completamente digitalizada, mais uma biblioteca dedicada ao tema “Fernando Pessoa”, com estantes de parede inteira forradas de livros e acessíveis ao visitante.
O quarto do poeta é reconstituído e muitos dos objetos ali expostos foram de seu uso pessoal – como a famosa cômoda na qual o poeta escrevia de pé. Segundo carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro (escrita em janeiro de 1935), foi de pé diante dessa cômoda que ele viveu o seu “dia triunfal”, escrevendo – um atrás do outro – os primeiros poemas dos heterônimos Alberto Caieiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Uma lenda criada pelo próprio poeta, segundo os especialistas. Mas a carta está ali, reproduzida ao lado da cômoda, para deleite dos visitantes.


Há também uma máquina de escrever – mas essa não foi de propriedade do poeta. Pertencia a um dos escritórios em que ele trabalhou como correspondente comercial. Máquinas de escrever eram caras e o poeta sempre teve orçamento modesto, explicam os seus biógrafos. Os patrões de Fernando Pessoa costumavam ser gentis e permitiam que ele datilografasse seus textos nas máquinas do escritório.
Segundo depoimento de um contemporâneo do poeta, o quarto do apartamento da Rua Coelho da Rocha não tinha a aparência asséptica como hoje vemos: o ambiente era mal iluminado, cheirava a tabaco, os cinzeiros viviam cheios de "beatas" (baganas) e sempre havia muitos papéis sobre a mesa. O contemporâneo, no caso, era o filho do barbeiro Manassés, que às vezes atendia o poeta em casa. O filho acompanhava o pai e anos depois ele recordou o cenário.
Subi e desci a Casa Fernando Pessoa e terminei a visita no café (nos fundos do prédio) lendo um livro que adquiri na lojinha: Fernando Pessoa para todas as pessoas, de Ricardo de Morais (Editora Verso de Kapa, 2015, 245 p.), “membro da equipa” da Casa. Livro para satisfazer a curiosidade do visitante a respeito da vida do poeta e também de suas estratégias literárias – inclusive com trechos da correspondência com Ophélia Queiroz, a única namorada do poeta. Um relacionamento que não vingou.
Quando escrevo essa crônica, já terminei o livro acima e fiquei impressionado com os sofrimentos e a solidão do poeta. Escritor genial, sim, com estratégias literárias excepcionais – como a criação dos heterônimos, com o propósito de dar conta da diversidade humana –, mas um homem que colocou a obra acima da própria da vida. Um homem que dizia ter em relação a vida apenas “o interesse de um decifrador de charadas”. Um espírito superior, claro (como ele próprio reconhecia), mas que preço alto para a produção de uma obra, que preço!

domingo, 19 de novembro de 2017

Turistando em Lisboa

Ando turistando em Lisboa. E uma das minhas referências é o guia turístico e literário do jornalista João Correia Filho, Lisboa em Pessoa (Editora Leya, 2011). Baseado em roteiro escrito por Fernando Pessoa, o jornalista recriou os itinerários propostos pelo poeta e tento seguir esses roteiros. Muitas indicações sobre livros e autores. Mas nem sempre acerto.
Logo que cheguei, saí à cata do local onde nasceu Fernando Pessoa – no entorno do Teatro de São Carlos, no Chiado – e demorei a encontrar. Precisei do auxílio de um nativo (no caso, uma atenciosa funcionária de uma loja). Ela me falou de uma estátua – um homem com um livro no lugar da cabeça (uma estátua conhecida) – e encontrei o prédio. Bem na frente do teatro. Ali o poeta nasceu e viveu os primeiros anos (no quarto andar). Imaginei uma infância enfeitiçada pelo som de concertos e óperas vindos do teatro... Anos atrás, jantei no restaurante do teatro e lembrei que o poeta nascera por ali. Era uma noite muito fria.
Prédio onde nasceu Fernando Pessoa - no quarto andar.

Hoje, mais uma vez andei pelo Chiado atrás de outra indicação de João Correia Filho: o antigo Grand Hotel Central, local de uma das cenas d’Os Maias, de Eça de Queirós. Foi nesse hotel que Carlos da Maia viu pela primeira vez Maria Eduarda (que ele não sabia ser sua irmã). Ela desceu de um coupé na frente do hotel e passou diante dele “com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro e um aroma no ar”. Carlos da Maia se apaixonou.
No mapa do livro de João Correia Filho, o local do hotel está marcado na Rua do Alecrim, mas não fica claro o local preciso e não houve jeito de encontrá-lo. Hoje procurei mais uma vez e acertei. Tinha entrado na Livraria Sá da Costa (na Rua Garret), folheado uma geografia queirosiana e visto uma foto antiga do hotel. Depois desci novamente a Rua do Alecrim e lá estava. Atualmente é um hotel boutique. Entrei no prédio para confirmar a informação, conversei com a funcionária do balcão – uma linda moça –, mas ela pareceu não saber quem era Eça de Queirós. Gentilíssima, ela disse que aquele prédio bem poderia ter abrigado o hotel a que eu me referia e ficou sorrindo para mim. Acho que estávamos em mundos diferentes.
Literatura demais, eu pensei. Literatura demais para uma cabeça tão jovem. Essa guria deve ter outras referências culturais, um mundo que nem imagino. Agradeci a atenção e fui embora. Fui dar uma banda nas margens do Tejo.
Antigo Grand Hotel Central.
Ando turistando em Lisboa. Já subi e desci a Rua do Alecrim diversas vezes e sempre fotografo a estátua de Eça de Queirós. Guri do curso colegial, os contos de Eça faziam parte das minhas leituras e releituras. Tenho um exemplar todo sublinhado.
Nos anos 80, fiz um curso de criação literária (na PUC de Porto Alegre) e o professor indicou Os Maias como leitura imprescindível. Levei anos para conseguir a calma necessária para a leitura completa dos dois volumes. Um livro fascinante – que rendeu uma minissérie da Globo igualmente admirável, com uma Maria Eduarda lindíssima (interpreta por Ana Paula Arósio) e uma Maria Monforte (a mãe de Carlos e Maria Eduarda) igualmente inesquecível (interpretada por Marília Pera).
Ando turistando em Lisboa. Diante do Tejo, na tarde desse domingo, tive a impressão de ter visto uma deusa mirando as águas do rio... mas foi só impressão. Logo segui em frente, em direção ao Mercado da Ribeira (atual Mercado Time Out), para beber um cálice de vinho.

sábado, 11 de novembro de 2017

Donjuanismo, poesia & tragédia

Na noite de 23 de abril de 1927, na mal iluminada Rua Ernesto Beck, numa cidade do interior do Rio Grande do Sul – Santa Maria –, dois homens armados se defrontaram por causa de uma mulher. Os dois homens eram Pedro da Silva Beltrão, 34 anos, comerciante, e Francisco Ricardo, 31, juiz e poeta.  A mulher, dona Ana Calderan Beltrão, 29, era casada com Pedro.
O marido seguiu a esposa pela rua e depois encontrou-a com o poeta, conversando na calçada. O marido já sabia que o poeta Francisco andava fazendo “gracejos” a sua esposa e estava preparado. Ao aproximar-se dos dois, gritou “filho da puta” e sacou a arma. O poeta também utilizou o seu revólver e oito tiros foram disparados. Nenhum dos dois homens sobreviveu. O sedutor morreu 24 horas depois, o marido resistiu quatro dias. Dona Ana, por sua vez, não teve ferimento.
No dia do enterro de Pedro Beltrão, a imprensa local louvou o esposo: “a virilidade da nossa raça não está de todo desvirtuada, pois ainda há homens que preferem perder a vida, a conservá-la [...] manchada”. Dias depois, um outro jornal se referia ao poeta como “um juiz Don Juan [...] useiro e vezeiro nos desaforos [e] ousadias”.
Do ponto de vista da História, mais um episódio a respeito das rigorosas regras sociais que existiam para os casos de “ameaça à honra familiar”. Matar era uma saída elogiada para os homens que se sentiam “ultrajados”. Matar para viver. 


 Sergio Faraco e Valter Noal Filho trazem à tona esse episódio santa-mariense e o esclarecem à luz do inquérito policial e das notícias de jornais da época, assim como de um artigo (de membro da Academia Rio-Grandense de Letras) e de depoimentos de memorialistas. E ainda acrescentam ao livro uma coletânea de poemas de Francisco Ricardo, mais fotos do período.
As motivações e o confronto dos dois homens ficam esclarecidos, mas quanto a dona Ana o enigma permanece. Como indicam os autores: “O que Rosa fazia ali [na Rua Ernesto Beck], naquele horário [20h30min] e numa rua escura, acompanhada de um homem cuja fama era por todos conhecida e verberada?” Um silêncio completo da voz feminina – que, ao que tudo indica, não deixou registro.
Mas se faltam referências ao protagonismo feminino, não se pode dizer o mesmo das figuras masculinas, como demonstra soneto abaixo, de Francisco Ricardo, representativo da sua disposição romântica. O poema fora publicado em 1927 e era “dedicado a uma misteriosa mulher de Santa Maria”:
“Ela dirá que tudo foi brinquedo... / um romance sem prólogo nem fim... / romance sem palavras... sem segredo... / Eu direi que nem tudo foi assim... // (...) // Direi que a sua história é bem contada: Era uma vez uma alta Flor-amada / era tão alta que ninguém colheu... // E por ser Flor de Torre, altiva e quieta, / dizem que foi colhida por um poeta / e esse alto poeta... dizem que fui eu!
O poeta Francisco Ricardo tinha 1,85 metro de altura, era conhecido pelo seu interesse por mulheres casadas e costumava trazer consigo um revólver “espanhol”, calibre 38.

sábado, 4 de novembro de 2017

D. Afonso e o Mar Português

Em agosto de 1471, o rei português D. Afonso V conquistou a cidade de Arzila, na costa do Marrocos. Foi um golpe de sorte. Não era a primeira vez que os portugueses faziam a investida. A expansão lusitana no litoral atlântico da África vinha desde 1415, com a conquista de Ceuta, e Arzila estava na mira. Em 1471, o soberano de Arzila partiu para uma guerra no interior da África (cercar a cidade de Fez), deixou sua cidadela militarmente enfraquecida e os portugueses aproveitaram. Em menos de quatro dias, cercaram e tomaram Arzila, provocando enorme quantidade de mortos. Ao final dessa investida, o rei português consagrou a mesquita moura a Nossa Senhora da Anunciação, assegurando o domínio do território.
Na sequência, assustados com a fama de “terríveis piratas” que os portugueses vinham adquirindo no norte da África (mais uma vez comprovada na conquista de Arzila), os habitantes de Tanger abandonaram a cidade e as tropas do rei D. Afonso tomaram o local. Ponto para a Cristandade. D. Afonso V tinha espírito cruzadístico e dava à expansão ultramarina lusitana um caráter religioso – sem descuidar de garantir aos nobres a pilhagem das riquezas assim como assegurar aos mercadores lusos o controle das rotas comerciais africanas. Era mais um ponto na formação do Mar Português – séculos mais tarde cantado por Fernando Pessoa em Mensagem: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!”
Em homenagem a conquista de Arzila e Tanger, D. Afonso encomendou às oficinas de tecelagem flamengas quatro enormes tapetes, representando o desembarque, o cerco e o assalto a Arzila, e, por último, a tomada de Tanger. Tapetes de 4 metros de altura por 10 de comprimento, que conheci no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães (norte de Portugal). Na verdade, achava que tinha conhecido. Mas quando estive lá, em 2012, o que vi foram réplicas desses tapetes (conhecidos como Tapeçaria de Pastrana).
Sala do Paço dos Duques de Bragança com réplica de um dos tapetes.
 Escrevo sobre isso porque ando lendo sobre a expansão ultramarina portuguesa – a formação do Mar Português – e me deparei com uma referência aos famosos tapetes. Uma tapeçaria grandiosa, com muitas figuras, cores e símbolos, e recordei a impressão que tive... Uma dessas boas e inesquecíveis experiências de turista: fiquei fascinado com o modo como a grandeza lusitana é tratada e reverenciada, lembrei ao mesmo tempo as atrocidades cometidas por D. Afonso e seus soldados... e engasguei. Coisa de professor de História, talvez. Não fui capaz de passar “além da dor” que toda a humana lida encerra – especialmente a dor, a violência e as lágrimas das nações que ultrapassaram o Cabo Bojador – e fiquei com as imagens das tomadas de Arzila e Tanger atravessadas na garganta. 
Tão cedo não irei novamente ao Paço dos Duques de Bragança, mas na próxima viagem a Lisboa já coloquei no roteiro os museus que exibem material do expansionismo lusitano na África, Índia e China (e, na certa, também com alguma coisa de São Francisco Xavier, o grande missionário do Oriente). O material do saque, da pilhagem e do comércio (coisas que se confundiam nas empreitadas portuguesas – junto com a conquista religiosa) e tentarei compreender melhor as coisas. Ou não me engasgar, ao menos. Aceitar, enfim, o horror e a grandeza da aventura humana, D. Afonso, as atrocidades lusitanas e a formação do Mar Português.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Velha Roma Legionária

Quando criança, fui fisgado pela História de Roma: Rômulo e Remo, os irmãos salvos e amamentados pela loba; os irmãos Horácio, guerreiros implacáveis contra os campeões de Alba Longa; o general Cincinato, que não queria cargo nem fortuna, apenas servir a sua cidade. Fui pego por essas tramas heroicas, que aprendi lendo histórias em quadrinhos, assistindo filmes na matiné e ouvindo meu pai confirmá-las, dar detalhes, e me conduzir a leitura de enciclopédias.
Um tema que não tem fim, que até hoje me atrai. Um tanto porque remete ao meu imaginário juvenil, outro tanto porque constitui um dos lastros da Civilização Ocidental. A bibliografia a respeito é extensa e outro dia catei na estante Grandeza e decadência dos Romanos, de Montesquieu (Editora Paumape, 1995, 164 p.). Outras edições brasileiras traduzem o título de forma literal – Considerações sobre as causas da grandeza dos Romanos e da sua decadência – e, dessa maneira, indicam melhor o tipo de livro que é. O autor não faz um livro de História convencional, mas utiliza as histórias narradas por Tito Lívio, Políbio, Plutarco e outros como matéria-prima para as suas reflexões a respeito da dinâmica das sociedades e de seus governos. Um livro que pressupõe alguma intimidade com a vida política e militar de Roma, desde a sua fundação até “as misérias” do Império Romano do Oriente. E, aspecto curioso para um leitor contemporâneo, uma reflexão que aborda o mundo romano como se fosse semelhante à sociedade europeia do tempo do autor.



Quando publicou esse livro (1734), o barão de Montesquieu era um intelectual de 45 anos que procurava entender como “um governo livre” podia se sustentar. Para ele, a Roma Republicana era bem um modelo para isso, pois “sua constituição se mostr[ava] tal, pelo espírito do povo, a força do Senado ou a autoridade de alguns magistrados, que todo poder sempre pod[ia] ser corrigido”. Preocupado com o exercício do poder, temeroso dos excessos de autoridade e dos desequilíbrios da ordem, Montesquieu estava atento às condições de uma sociedade manter o seu rumo, alterar suas leis (quando necessário) e corrigir os costumes.
Nesse sentido, apostava na aristocracia como elemento fundamental para manutenção da ordem (os “sagazes aristocratas” com assento no Senado), reconhecia a função do povo (para aclamar ou não as autoridades, mas não muito mais do que isso) assim como o papel dos magistrados (com destaque para os censores) continuamente substituídos nos cargos. Mas, principalmente, valorizava “o espírito geral” da sociedade – no caso dos romanos, centrado na disciplina e na austeridade, e muito distante de outros povos “amolentados por riquezas e luxos”.
  Os romanos dos primeiros séculos (até o estabelecimento do Império, com Augusto) eram “apaixonados” pela guerra e não esmoreciam na formação dos seus soldados. Para exemplificar essa disciplina militar, o autor se refere por duas vezes a um episódio emblemático do mundo romano (daqueles exaltados por Tito Lívio), ocorrido na guerra contra os samnitas (no século IV a.C.). Nessa guerra, o general Mânlio Torquato proibiu os legionários de deixarem suas fileiras para combates individuais com os adversários. O filho do general, no entanto, desobedeceu a ordem (deixou as fileiras para uma luta singular) e, quando regressou vitorioso, o comandante (seu pai) mandou estrangulá-lo. Sem dó nem piedade, o general exerceu a autoridade necessária para a manutenção da “robusta” disciplina, elemento essencial da expansão territorial, da manutenção das fronteiras e da grandeza de Roma.
Como se vê, são virtudes masculinas as que estão no eixo da construção civilizatória, as quais se perderam quando a sociedade e o Estado se expandiram além da medida, isto é, dos limites da cidade-estado antiga. Nenhuma referência ao mundo feminino, a não ser como algo a ser evitado pelos homens quando no trato da guerra, da política e da administração. Vários nomes de senadores, magistrados e generais são citados (geralmente de forma elogiosa) e apenas duas mulheres: Cleópatra e Teodora. Cleópatra, que “fugiu [na batalha de Ácio] e arrastou Antônio consigo”, e a imperatriz Teodora (esposa de Justiniano), que se insinuava nos negócios do marido com as “paixões e fantasias de seu sexo”.
Reflexões que deitaram raízes no entendimento que temos do mundo romano – mesmo que a historiografia contemporânea não endosse mais as conclusões ali formuladas. Reflexões que estão entranhadas no modo como a Civilização Ocidental se construiu: exaltação dos valores guerreiros, dos costumes austeros, da obediência aos “melhores” (a aristocracia), assim como desconfiança em relação ao povo, constantemente oscilante “entre os extremos do ímpeto e os extremos da fraqueza”.
Velha Roma Legionária, na qual era passível de admiração os “generais condenar[em] à morte seus próprios filhos”, quando eles agiam sem levar em conta as ordens superiores.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os Beatles e o comunismo internacional

Cursei o ginásio em colégio católico, no final dos anos 60. Vivia em Porto Alegre naquele tempo. Um dia, o Irmão José, nosso professor de inglês, viu meus colegas e eu com um disco dos Beatles – o “Sgt. Pepper’s” – e veio nos fazer uma preleção a respeito das “mensagens subliminares” daquelas canções. Estávamos no pátio da escola, aguardando o sino tocar para o início das aulas, e o professor nos deixou de queixo caído.

Segundo ele, os rapazes de Liverpool tinham intenções subversivas em relação aos valores da Civilização Ocidental e, do ponto de vista católico, não eram recomendáveis. O professor não iria confiscar o disco, mas era melhor recolher o material e só nos entregar no final das aulas.
Eu ganhara o disco no último Natal, presente do pai (acho que aquele long-play era o meu, não recordo direito), e não entendera aquela conversa quanto aos Beatles estarem mancomunados com o comunismo internacional e favorecerem a dissolução dos valores cristãos, em especial aqueles relativos à ordem familiar: a autoridade paterna, a castidade dos jovens e coisas assim.
Foi uma conversa que nos deixou de cabelos em pé, a nós, ginasianos que “amavam os Beatles e os Rolling Stones”, mas que não deixavam de ir à missa aos domingos. Nós nos dividíamos quanto a opinião em relação ao “Sgt. Pepper’s”, diferente de tudo quanto escutáramos dos Beatles até então, mas estávamos gostando. Ainda não usávamos a expressão “baita som”, mas devia ser mais ou menos isso que falávamos.
Lembrei disso outro dia, folheando um livro num sebo de Porto Alegre, no qual havia referência a uma publicação norte-americana, de 1964, intitulada Comunismo, hipnotismo e Os Beatles, do pastor David Nobel. Talvez o Irmão José tivesse lido o livro.
Segundo o pastor David Nobel, as canções dos rapazes de Liverpool continham “mensagens subliminares” e eles tinham sido treinados em Moscou com técnicas de hipnotismo... Se a conversa do Irmão José não era essa, era parecida: os Beatles como prováveis agentes do comunismo internacional, atuando no sentido de entorpecer a mente dos jovens e dissuadi-los do bom caminho.
Hoje, isso me parece absurdo, mas era comum naquele final dos anos 60 ver subversão e/ou intenções malévolas no campo das artes. Pais e professores costumavam divagar com essas coisas, mas a maioria de nós (os jovens) nem sempre caímos na conversa.
Coisas daqueles tempos, insisto em afirmar. Mas a atual discussão sobre o que acontece no mundo das artes – a exposição queer no Santander Cultural, a performance com nudez no Museu de Arte Moderna paulista – me indicam que provavelmente estou enganado.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lisboa turística (2)

Li no Lisboa em Pessoa: guia turístico e literário da capital portuguesa, de João Correia Filho, que na Torre de Belém se encontra uma cabeça de rinoceronte esculpida. Ela é visível numa das salas da Torre, a Sala do Governador. É a cabeça do rinoceronte que serviu de modelo para a famosa gravura de Albert Dürer, segundo o autor. O animal foi um presente que Afonso de Albuquerque ganhou de um sultão do Oriente e que chegou a Lisboa em 1515. Um alemão que estava em Portugal viu o animal, desenhou o bicho e enviou a ilustração a um amigo de Dürer. Foi a partir disso que o artista realizou a sua gravura.


Eu conhecia outra versão, com elementos mais rocambolescos. O rinoceronte foi enviado pelo rei Dom Manuel para o papa, em Roma. O navio que levava o animal naufragou, o bicho morreu e seus restos chegaram até a praia. Dürer estava na Itália, viu a carcaça do animal e, a partir daí, recriou o bicho. Tenho lembrança de ter lido isso num livro de John dos Passos sobre as navegações portuguesas, com longas transcrições dos cronistas da época, mas não tenho certeza.[i] Só espero não estar inventando.
Dei uma olhada no Google e constatei que ao menos as informações a respeito do rei de Portugal enviar o rinoceronte ao papa, o navio naufragar e o rinoceronte morrer afogado são verdadeiras. O resto, quando ao modo como Albert Dürer tomou conhecimento do animal, há controvérsias. Seja como for, em nenhuma das versões Dürer bateu os olhos no rinoceronte vivo. Coisas que a gente não soluciona com guias turísticos, mas se diverte mesmo assim.
Quando estive na Torre de Belém, não visitei a Sala do Governador. Havia um grupo de adolescentes portugueses visitando o local, eles faziam uma bagunça enorme nas estreitas escadarias da Torre e me restringi ao terraço. Depois desci ao calabouço, que estava praticamente vazio, e fiquei por lá. São muito bonitas as aberturas para os canhões e a maravilhosa vista do Tejo. Fiquei me imaginando um vigia do tempo das caravelas...

Neste dia, quando sai da Torre, havia muitas crianças de escola, todas muito disciplinadas, esperando a hora da visitação.
Crianças, por sinal, são muito interessantes de serem observadas nesses locais – especialmente quando ficam quietinhas escutando as explicações da professora. No Museu Calouste Gulbenkian (também em Lisboa) acompanhei um conjunto de crianças bem pequenas, sentadas ao redor de uma escultura chamada “São Martinho a cavalo partilhando a capa com um mendigo”, do século XVI. Elas ouviam com atenção a professora e eu aprendi junto com elas a respeito desse bispo francês, São Martinho, e seu espírito caritativo.
João Correio Filho indica o Calouste Gulbenkan como visita obrigatória e destaca um quadro de Rembrandt (Retrato de um velho – ou Figura de velho, conforme catálogo do museu) e as jóias de René Lalique como pontos altos. O local não existia no tempo de Pessoa e só foi inaugurado no final dos anos 60. Entre o acervo, eu destacaria também a coleção de obras orientais (da Pérsia, Armênia, Índia) e o mobiliário francês do século XVIII, que me impressionaram bastante. Mas tem muito mais.[ii]
Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.
Na primeira vez que visitei o museu, andava lendo sobre Giacomo Casanova (Eu, Casanova, confesso - romance de Flávio Braga) e fiquei admirado com a sensualidade da arte decorativa francesa (principalmente com os quadros, muito explícitos). Cenário adequado para as aventuras de Casanova, que treinava e vendia moças educadas para os nobres da corte de Luís XV, que as usufruíam durante alguns meses e depois as descartavam. Coisas da alta cultura francesa. Coisas que a gente aprende nos museus - e se diverte.


[i] O livro de John dos Passos talvez seja Portugal: três séculos de expansão e descobrimento (Ed. Íbis, 1970), um relato historiográfico e não um romance. John dos Passos era originário de família das Ilhas dos Açores e admirava as realizações lusitanas do período das Grandes Navegações.
[ii] Calouste Gulbenkian foi um magnata armênio da área petrolífera e grande colecionador de arte. Durante a Segunda Guerra refugiou-se em Portugal e, ao morrer (1955) “legou seus bens aos portugueses”, dando origem à Fundação que leva seu nome.

domingo, 8 de outubro de 2017

Lisboa turística

Estou lendo Lisboa em Pessoa, um roteiro turístico inspirado num texto de Fernando Pessoa e escrito por João Correia Filho (Editora Leya, 2011, 376 p.). Pessoa era um lisboeta entusiasmado por sua cidade e no início da década de 1920 preparou uma sugestão de passeio pela capital portuguesa: Lisboa: o que o turista deve ver. Com base nesse texto (que permaneceu inédito até a década de 1990), o jornalista e fotógrafo brasileiro João Correia Filho preparou este Lisboa em Pessoa, com diversas sugestões de roteiros para bater pernas e se encantar com o mundo lisboeta. Vai ser meu guia na próxima viagem.

Já estive em Lisboa mais de uma vez e confesso que não conheço nem um terço do que “o turista deve ver”. Uma vez jantei no Teatro São Carlos, no Chiado, e tinha a vaga noção de que Fernando Pessoa nascera numa casa das proximidades. Planejara que depois do jantar caminharia no entorno do teatro, procurando a tal casa, mas um doido tentou vender um quadro para minha mulher, ficou nos esperando na porta do restaurante, e tivemos que sair apressados. O garçom nos ajudou a despistar o pintor e fomos quase correndo em direção a Rua Almeida Garret para pegarmos um táxi. A casa do poeta ficou para outra oportunidade.
Voltei ao Chiado outras vezes, mas nunca mais fiz a caminhada em torno do Teatro São Carlos, procurando a casa de Pessoa – a qual, segundo Correia Filho, tem apenas uma pequena placa anunciando que ali nasceu o poeta. A Casa Fernando Pessoa, um centro cultural dedicado ao mestre de “Tabacaria”, fica mais adiante (no bairro Estrela) e dessa vez pretendo visitá-la (Rua Coelho da Rocha, nº. 16).
No itinerário que contempla a visita a Casa Fernando Pessoa, Correia Filho propõe uma longa caminhada, iniciando no Parque Eduardo VII (na frente do qual me hospedei na primeira vez que estive em Lisboa), passando pelo Aqueduto das Águas Livres e chegando até a Basílica Estrela. Uma caminhada e tanto que, ao menos agora, estou disposto a cumprir. No entanto me conheço, sou daqueles turistas que não seguem os roteiros à risca. Às vezes paro num parque e fico fotografando (o que pode acontecer no Parque Eduardo VII ou no Jardim Estrela, outro local do itinerário). Ou então entro numa igreja e divido meu olhar entre as imagens sacras, os frequentadores devotos e as pacientes faxineiras esfregando o chão ou tirando o pó dos altares. Os santos portugueses são belíssimos, muito expressivos, as Nossas Senhoras, encantadoras, que não há como não parar e se esquecer do mundo.

Anoitei o passeio na agenda – Parque Eduardo VII até a Casa Fernando Pessoa –, mas sei que posso me perder no caminho. Se não chegar antes da Casa Fernando Pessoa fechar as portas (às 18 horas), direi a mim mesmo os versos de um de seus famosos heterônimos (Álvaro de Campos): “Nada me prende a nada. / Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. / [...] / [E] vivo num sonhar irrequieto” (Lisboa revisited, 1926) – e estarei perdoado, quem sabe.

sábado, 30 de setembro de 2017

45 anos e uma notícia surpreendente

Filme para ver no Net Now: “45 anos” (2015), dirigido por Andrew Haig, com Charlotte Rampling e Tom Courtenay. Um casal vive na zona rural inglesa, os dois são saudáveis, vivem sem preocupações financeiras e a mulher está organizando uma festa para comemorar os 45 anos de casamento. Súbito chega uma notícia pelo correio que abala os dois: o corpo de uma antiga namorada do marido (de antes dele conhecer a atual esposa) é encontrado nos Alpes suíços. O marido rememora esse antigo amor e a mulher descobre a existência dessa relação antiga a respeito do qual ele nunca falou.
O filme é lento, intimista, centrado nas reações que marido e mulher têm diante da notícia, até o momento da festa de casamento. Se o leitor não assistiu e gosta de dramas intimistas, sugiro suspender a leitura e ver o filme primeiro. Vale a pena. O que eu escrevo estragará o prazer que uma história bem narrada e bem interpretada costuma causar.

 Depois de receber a notícia, o marido conta a mulher que ele e a namorada escalavam os Alpes suíços, quando ocorre um acidente. A mulher escorrega, cai numa fenda das montanhas e desaparece. 50 anos depois, é esse corpo - completamente congelado - que é encontrado.
O marido conta tudo isso para a atual esposa e ela assinala, como algo “engraçado” (ela usa essa palavra), o fato do acidente ter ocorrido na mesma data em que morreu sua mãe. Os dois se conheceram pouco depois disso e as perdas recentes parecem não terem sido comentadas por ambos.
Eu pensei que essa história da mãe fosse aparecer novamente nas conversas do casal, mas me enganei. Deve ser coisa minha (paciente antigo de psicoterapia) que acha que essas histórias de pai e mãe são importantes na construção dos relacionamentos amorosos e podem ser tematizados pelo cinema e literatura. No caso desse filme, não é assim. A perda da mãe não é retomada. Apenas citada.
A narrativa centra no ciúme que a esposa sente desse amor antigo do marido e que a leva a remexer furtivamente nas coisas do marido, folhear suas anotações e fotos de juventude. Uma noite, ela pergunta se ele teria casado com a namorada, se ela não tivesse morrido, e o marido titubeia em responder essa “pergunta teórica”. Mas acaba cedendo a insistência da esposa e diz que sim, casaria. Uma resposta que a mulher escuta com aparente serenidade, mas que depois descobrimos que a abala profundamente.
A vida do casal balança, o marido percebe, deixa as lembranças da antiga namorada de lado, se propõe a ser mais companheiro, faz discurso amoroso na festa de casamento, cai em lágrimas nessa festa (ele, um sujeito de raras lágrimas, segundo a esposa), mas não tem jeito. A mulher está desencantada. Provavelmente, mais uma prisioneira do mito do amor romântico, que acreditou que seu casamento fora um encontro de almas armado pelos deuses e não uma construção humana, marcado por esforços mútuos e contingências da vida.
Um belo filme. A cena final - da mulher no meio do salão de festas, depois de dançar com o marido, com o olhar de desamparo - é de uma humanidade assustadora. A humanidade das pequenas dores, da infelicidade miúda e devastadora.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Uma preta que gostava de livros: Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus era negra e catadora de papéis nas ruas de São Paulo. Morava na favela de Canindé, gostava de ler e escrever. Um dia, um vizinho bateu na porta do seu barraco para perguntar onde encontrava “folhas de batatas” e quis saber também o que ela tanto escrevia. “Um diário”, ela respondeu. “Nunca vi uma preta gostar tanto de livro como você”, ele comentou.

Esse episódio, Carolina registrou no seu diário, no dia 23 de julho de 1955. Tinha 41 anos e três filhos de pais diferentes. Nesse dia, Carolina escreveu: “Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler.” Além de ler, ela escrevia compulsivamente e teve a sorte de encontrar um jornalista que preparou os seus originais e publicou-os em livro – Quarto de despejo: diário de uma favelada –, em 1960.
Uma mulher admirável. Amargurada pela sua condição de excluída a um quarto de despejo (a favela de Canindé) da rica capital paulista, Carolina escrevia para xingar. Xingamentos que se escutam até hoje. Os seus registros da luta cotidiana pela sobrevivência e da presença constante da fome – inclusive da cor da fome: amarelo – são impressionantes: “Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi tudo normalizou-se aos meus olhos”.
Na década de 1950, a indústria brasileira se expandia, a migração campo-cidade se acentuava e as grandes capitais inchavam. O desenvolvimento urbano, no entanto – como é de praxe na história brasileira –, não atendia as necessidades básicas de grande parte da população e as favelas eram um fenômeno que escancarava a lógica excludente do crescimento econômico. Comentando esse período da sociedade brasileira, o historiador norte-americano John Chasteen cita o caso da favelada Carolina de Jesus: “ela acalentava mais sonhos que a maioria”. Tinha completado o segundo ano primário (em sua cidade natal, Sacramento, em Minas Gerais) e talvez isso fizesse a diferença. “Carregava em uma sacola de aniagem [os papéis velhos que coletava nas ruas] e vendia pelo equivalente a 25 centavos de dólar ao dia.” Sofria as privações que a cidade grande lhe impunha e refletia sobre isso.
Em 1959, num bate-boca com os vizinhos de favela, disse que escrevia porque precisava “mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês”. E acrescentou que contava com o apoio de um repórter, Eudálio Dantas, o jornalista que já naquele ano preparava os originais do que seria o seu primeiro livro: Quarto de despejo.
Com a vendagem do livro – um sucesso no início dos anos 60, com tradução para treze idiomas –, Carolina de Jesus conseguiu a casa de alvenaria com a qual sonhou durante anos.

O livro Quarto de despejou entrou na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS  e talvez por isso eu o tenha encontrado na vitrine de uma livraria. Conhecia-o apenas dos trechos citados nos livros de História, como um dos raros registros da miséria brasileira produzido por um miserável e não por escritores de classe média ou alta. Feita a leitura, constato que é mais do que um documento histórico, é uma obra literária de beleza áspera, que me fez lembrar outra grande escritora negra: Marilene Felinto, autora de As mulheres de Tijucopapo. Mulheres de faca na bota.
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* O livro de John Chasteen citado é América Latina: uma história de sangue e fogo (RJ: Campus, 2001); o de Carolina de Jesus é Quarto de despejo: diário de uma favelada (SP: Ática, 2014 - 10 ª edição, 8 ª impressão).

domingo, 17 de setembro de 2017

Apenas um rapaz latino-americano

         Antônio Carlos Belchior se tornou um enigma para muitos dos seus fãs. Em 2007, desapareceu dos olhos do público. Algumas vezes surgiam notícias de que ele estava no Uruguai, de repente era visto em Porto Alegre, a imprensa corria atrás e novamente ele sumia. Em abril desse ano, ele morreu de um aneurisma na aorta na cidade de Santa Cruz do Sul, sem que o mistério se solucionasse. O jornalista Jotabê Medeiros, que preparava uma biografia do cantor, estava com passagem comprada para Santa Cruz, iria entrevistá-lo e tentar conseguir uma resposta para o enigma, mas não houve tempo.

A biografia de Jotabê Medeiros acaba de sair – Belchior: um rapaz latino-americano (Ed. Todavia, 200 p.) – e não poderia haver subtítulo melhor para a narrativa da trajetória desse cantor e compositor do que o seu famoso verso sobre a rapaziada latino-americana. Segundo Jotabê, o verso nasceu durante uma aula na Universidade de Brasília, em 1974 ou 75, do filósofo cearense Augusto Pontes (e também amigo e guru do compositor). O filósofo se apresentou dizendo que era “apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares” e o compositor serviu-se da frase como mote para uma canção: “Eu sou apenas um rapaz / latino-americano / sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior”.  Uma pegada comparável as de Raul Seixas, outro compositor que sacava as elaborações filosóficas complexas e as transformava em canções de grande alcance comunicativo.[i]
Nos anos 70, talvez não houvesse estudante universitário que não tivesse os versos de Eu sou apenas um rapaz... na ponta da língua. No turbilhão daqueles anos, marcados por uma ditadura militar e a aceleração do desenvolvimento capitalista, parte da juventude brasileira procurava definir uma identidade latino-americana e sentia-se acossada por conta da conjuntura política e econômica. Os versos de Belchior vinham a calhar.
Belchior teve seu primeiro LP em 1974 (Mote e glose), mas a fama só veio dois anos depois, quando Elis Regina interpretou duas de suas melhores canções – Como nossos pais e Velha roupa colorida – e lançou o seu segundo LP, o antológico Alucinação. Com voz fanhosa, anasalada, era incrível que ele conseguisse ser ouvido e comparado com as interpretações impecáveis de Elis Regina. Um fenômeno! Um cantor de poucos recursos musicais (especialmente se comparado com Elis), mas que se impunha como compositor e intérprete extremamente perspicaz das inquietações brasileiras.
A biografia de Jotabê reconstitui a trajetória de Belchior (1946 – 2017) e indica possíveis respostas para o sumiço do cantor, nos dez últimos anos de vida. Ao colocar no primeiro capítulo o período da vida (três anos) em que Belchior esteve no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga (Ceará), o biógrafo dá um peso considerável para a inclinação religiosa do cantor. No mosteiro, Belchior consolidou o seu pendor para a literatura, a filosofia, assim como adquiriu a disciplina intelectual que possibilitará a sua extensa produção poética. Da mesma maneira, exercitou o seu sonho de santidade, constatou que sua vocação religiosa era pouca e caiu fora, pegou a estrada.
Este sonho de criança Belchior teria alcançado no final da vida, segundo o seu amigo e analista Barbosa Coutinho (o famoso “analista amigo meu” da canção Divina comédia humana). Escondendo-se dos fãs e até dos familiares e amigos (protegido por uma espécie de Yoko Ono brasileira, a sua última mulher, Edna Prometheu), Belchior talvez tenha vivido o sonho de pureza dos santos e também dos velhos hippies: a não pactuação com o “Sistema” (para utilizar uma expressão dos anos 60 e 70). Uma tese para os fãs debaterem, para melhor entender esse poeta nordestino que fez a cabeça de muitos de nós.





[i] A frase completa do filósofo Augusto Pontes, segundo as anotações que deixou, é a seguinte: “Sou apenas um sul-americano sem parentes no poder, apenas a pessoa eu, no estado de mim mesmo”. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Divagações em torno da exposição de arte queer em Porto Alegre

       Visitei a Galeria Borghese este ano, em Roma, e não saberia dizer o que mais gostei. Seguramente de uma pintura de Caravaggio, “Madona com a serpente”, na Sala de Sileno, que me fisgou de um jeito que me fez esquecer tudo ao redor. Mas devo confessar que fiquei de queixo caído quando entrei na Sala do Hermafrodita e respirei o ar de sensualidade refinada que se desprende das obras ali expostas, tanto da escultura romana que dá nome a sala quanto das pinturas das paredes e do teto tematizando a trajetória do mítico Hermafrodita. Coisa impressionante.

A galeria em questão foi criação do Cardeal Borghese, no início do século XVII. O cardeal era sobrinho do Papa Paulo V e ambos estavam sintonizados com a tradição da alta hierarquia católica de recuperação da arte greco-romana. O cardeal e o papa não pouparam esforços para incentivar as artes (com verbas da Igreja) e coube ao Cardeal Borghese a construção de um palácio (matriz da atual galeria) com o propósito de reunir algumas obras e promover a criação artística.  
Era o tempo da Contra Reforma e não deixa de causar perplexidade o fato de uma escultura representativa da sexualidade “excêntrica” – o Hermafrodita – tivesse acolhida nesse palácio eclesiástico. A escultura fora descoberta durante a construção dos alicerces da igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma, e o cardeal pagara uma alta soma de dinheiro para adquiri-la. A peça permaneceu na galeria até o início do século XIX (época da invasão napoleônica), quando foi levada para a França. Hoje se encontra no Louvre e o que se vê na galeria é outra cópia romana da mesma escultura grega.
Milhares de turistas visitam essas obras em Roma e Paris, são conquistados pelos encantos da representação artística do hermafroditismo – da sexualidade estranha à normativa heterossexual – e poucos se escandalizam com isso. Afinal, a arte que tematiza a sexualidade, tanto a sexualidade heterossexual quanto outras, é daquelas que mais fascina. Se o tema da sexualidade se fundir com o da religiosidade, então, o resultado geralmente é de grande impacto. O Hermafrodita tinha conteúdo sagrado na Antiguidade (ele era filho de Hermes e Afrodite), mas perdeu esse caráter ao se tornar parte de uma coleção católica e ser fonte inspiradora de um novo estilo artístico: o barroco romano.
Lembrei da Galeria Borghese e de sua Sala do Hermafrodita, quando tive conhecimento das manifestações contrárias à exposição de temática LGBT – “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira” – no Santander Cultural, em Porto Alegre. Afinal, se os protestos se deram devido à tematização de sexualidades contrárias a normatividade heterossexual, já era hora dos manifestantes saberem que é esse tipo de arte é antiga e que provoca muita satisfação ao público. Se os manifestantes se incomodaram com a utilização de temas religiosos, na certa também desconsideraram que essa é uma das matérias-primas da arte.
Quando visitei a exposição no Santander, em agosto, imaginei que o material ali apresentado fosse causar polêmica. Mas supus uma polêmica inteligente, tanto a respeito da linguagem artística das obras quanto da temática abordada, inclusive quando utilizava elementos religiosos. Afinal, tratava-se de uma exposição provocativa, com muitas peças criadas nos termos da questionada estética conceitual (ou pós-moderna), ainda não assimilada, e apresentadas em diálogo com obras de outros períodos da arte, a instigar comparações, questionamentos e muitas vezes desconcertar.

Algumas peças utilizavam elementos do imaginário católico – como o caso da escultura “Cristo Nosso de Cada Dia” (1978), de Roberto Cidade (um dramático Cristo na cruz com o pênis ereto), e da pintura “Last Resort” (2016), de Felipe Scandelari (uma Madona com um desconcertante chipanzé de fraldas no colo) – e a polêmica era inevitável. Mas polêmica civilizada, como é costume no meio cultural, polêmica que considerasse os termos da arte e avaliasse as obras a partir do seu potencial conceitual, expressivo ou outro.
Mas me enganei. O que ocorreu – os manifestantes zombando dos visitantes, atacando o curador, ameaçando o museu, clamando pelo fechamento da exposição – fugiu completamente aos termos do debate de ideias, mesmo quando impregnado de paixões. Até no campo da arte estamos longe da discussão civilizada.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Irmão Antônio e a busca da Terra Sem Males

       Foi lançado na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, um livro em homenagem ao Irmão Antônio Cecchin, uma personalidade que é referência para os movimentos sociais no Brasil e, em especial, no Rio Grande do Sul. Sua prática política-religiosa esteve vinculada à criação da Comissão Pastoral da Terra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da Romaria da Terra e da Pastoral da Ecologia. É de sua autoria também o processo de canonização do índio guarani Sepé Tiaraju.
         Irmão Antônio nasceu em Santa Maria, em 1927, e tornou-se religioso Marista em 1946. Em novembro do ano passado, faleceu. Lecionou no Colégio Rosário, em Porto Alegre, foi membro da Ação Católica e talvez essas duas atividades – a de professor de escola confessional e a de católico engajado – sejam as definidoras da sua vida.
Nos anos 1950, alinhado à orientação de D. Helder Câmara, participou da transformação da Ação Católica, a qual adotou o método “Ver, Julgar e Agir”, uma mudança ideológica que correspondia aos novos ventos que agitavam a Igreja Católica, conduzindo-a ao Concílio Vaticano II, à Conferência de Medelin e à “opção preferencial pelos pobres”.
         Enquanto professor nas escolas maristas (entre o final da década de 1940 até o início dos anos 70), Irmão Antônio criou as Fichas Catequéticas (material para a formação religiosa de adolescentes), as quais considerou um “divisor de águas” na sua vida. As Fichas se tornaram alvo de grande polêmica no Brasil e foram condenadas pelo Ministro da Educação Jarbas Passarinho, em 1970, durante o Governo Médici. A partir daí (e também devido às prisões que sofreu, em 1969 e 1972) sua prática religiosa passou a se dar junto às populações desfavorecidas e não mais entre os jovens de classe média e alta atendidos pelas escolas maristas. É a partir daí que sua prática religiosa se vincula aos setores sociais marginalizados do campo e da cidade, como os agricultores sem terra, os migrantes nas periferias urbanas e os catadores de lixo, e à criação de organizações capazes de levar a cabo suas demandas.
Irmão Antônio realizou uma ação política sempre vinculada à fé católica, voltada à “conscientização libertadora dos excluídos” (nos termos estabelecidos pelas Comunidades Eclesiais de Base), e capaz de articular-se com outras religiosidades, como as de matriz indígena e africana.
Quem acompanhou o seu trabalho sabe dessa capacidade de aglutinação das diferentes religiosidades em torno de uma proposta teológica católica. O título do livro – “Irmão Antônio Cecchin: ‘seguindo o caminho’ (At 9,2) em busca da Terra Sem Males” – é indicativo disso. Reúne – a partir do seu nome, o nome de um militante religioso – a fusão entre uma passagem bíblica (do Atos dos Apóstolos, “seguindo o caminho”) com o cerne da crença religiosa guarani (a busca da Terra Sem Males). Em resumo, a articulação da religiosidade do colonizador católico com a religiosidade de uma das populações mais antigas da sociedade sul-rio-grandense. Uma fusão religiosa visando a melhoria das condições de vida das populações mais carentes e que deu resultado. Afinal, estão aí os assentamentos de pequenos agricultores realizados pelo MST (movimento social que ajudou a criar) e também a organização de vilas populares em Canoas (das quais foi liderança fundamental).
Trata-se de um livro, organizado por Matilde Cecchin, feito de depoimentos que lembram e celebram a dimensão grandiosa e também de humildade desse excepcional militante político-religioso. Um livro que também aponta um realidade social - a dos excluídos de muitos dos benefícios proporcionados pela nossa sociedade - que está longe de ser equacionada de forma civilizada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O coronel Fawcett e as minas de prata do Moribeca

Está disponível no Net Now um filme a respeito do coronel Percy Fawcett. Chama-se Z, a cidade perdida, dirigida por James Gray, produção norte-americana de 2016. Imperdível para quem gosta de histórias de exploradores das potências europeias em busca de civilizações perdidas em territórios inexplorados e habitados por selvagens.
Percy Fawcett (1867-1925?), oficial do exército britânico, foi uma das inspirações para a criação de Indiana Jones, mas o filme está longe das narrativas trepidantes de Caçadores da Arca Perdida e de outros com o mesmo personagem. É um filme lento – com excelentes atores, fotografia primorosa – que investe nas motivações pessoais de Fawcett para se embrenhar na selva amazônica, assim como no ritmo vagaroso, exasperante (mas nem por isso menos apaixonante), das expedições exploratórias do início do século XX. Não segue à risca o gênero “filme de ação”, porém, a sua maneira, é um filme de herói explorador.
Segundo o filme, Fawcett busca a glória (encontrar uma civilização perdida) com o propósito de limpar o nome da família – enlameada pelo pai viciado em jogo e bebida – e cumpre com rigor esse objetivo. A esposa o apoia e chega a se revelar disposta a participar das expedições. Diante da negativa do marido, ela protesta pelo fato dele não aceitar a igualdade entre homens e mulheres e o bate-boca entre o casal esquenta. Mas ela acaba assumindo o padrão tradicional (mulheres não têm treinamento para se embrenharem na selva, mulheres ficam em casa cuidando dos filhos) e o herói segue sozinho para a selva, isto é, apenas com os seus companheiros homens.
A narrativa é muito simpática em relação a esposa de Fawcett e a mostra encontrando um manuscrito, escrito por um “soldado português do século XVIII”, que indica a existência de uma cidade perdida no interior da América do Sul. Seguramente, trata-se do famoso “Documento 512” - que guiou Fawcett pelo interior do Brasil - relativo a uma bandeira realizada no período colonial que foi em busca das minas de prata indicada por outro bandeirante, o Moribeca, e encontrou as ruínas de uma povoação antiga. Segundo o manuscrito, foi descoberta uma “oculta e grande povoação antiquíssima sem moradores”, com entrada formada por “três arcos de grande altura” e muitas casas “com seus telhados descobertos e sem telhas”.
O Documento 512 foi encontrado na Livraria Pública da Corte (atual Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro), em 1839, e, ao que consta, não saiu de lá até hoje. O manuscrito foi publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico, ainda no século XIX, e teve ampla circulação. Serviu de inspiração para o romancista José de Alencar escrever As minas de prata (1865) e era conhecida por Rider Haggard (As minas do rei Salomão, 1886) e Arthur Conan Doyle (O mundo perdido, 1912) – esses dois últimos, figuras que Percy Fawcett conhecia pessoalmente.
Segundo pesquisadores, Fawcett começou a se interessar por civilizações perdidas quando servia no Ceilão e conheceu o Documento 512 por meio da tradução feita por um membro da Real Sociedade Geográfica de Londres, o explorador Richard Burton (personagem de outro filme fabuloso sobre exploradores ingleses, Montanhas da Lua, a respeito da busca das nascentes do Rio Nilo). Seja como for, ao apresentar a mulher de Fawcett descobrindo o manuscrito, o filme delineia uma esposa amorosa e engajada na obsessão do marido – o que ela foi até o final da vida.
É uma bela história, a que protagonizou o coronel Percy Fawcett - e o filme dá conta disso. Porém, resta a observação: no século XVIII, os bandeirantes saíram em busca das minas de prata indicadas pelo Moribeca e "descobriram" as ruínas de uma antiga civilização. Isso criou uma longa tradição, que incendiou a imaginação de pesquisadores, romancistas, exploradores e também cineastas. Mas o documento dessa expedição é apenas indicado de passagem no filme em questão. Um filme brasileiro - como o que estava para sair, feito a partir do livro Coronel Fawcett: a verdadeira história de Indiana Jones (1996), de Hermes Leal –, talvez desse outro tratamento a essa tradição criada pelo Documento 512. Mas o cinema norte-americano, que conhece melhor o caminho das pedras (ou das minas), correu na frente.