sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Palácio de Queluz - coisas que vivemos quando viajamos

Um amigo me enviou pelo correio eletrônico uma foto do famoso Quarto D. Quixote, no Palácio de Queluz, em Portugal, no qual D. Pedro I morreu em 1834. A foto centraliza a cama com dossel – onde também nasceu o futuro imperador – iluminada por uma forte luz vinda das janelas. Muito diferente da imagem que tenho do mesmo quarto.
Visitei o palácio em 2014, num dia de inverno, e o quarto estava sombrio. Não lembro se as janelas estavam abertas ou não. Era um dia chuvoso. Minha mulher e eu ficamos parados no meio do quarto e a monitora da sala nos contou que os brasileiros gostam muito de visitar o lugar, alguns vêm especialmente para ver onde "o imperador do Brasil morreu" e pouco dão atenção às demais peças.
Achei a observação curiosa e fiquei até tomado de alguma emoção retroativa àquele momento dramático da morte de um rei, que, segundo os livros de História, muitas vezes desencadeia uma fase de tensão política e até de instabilidade social. Há um quadro representando os últimos momentos de D. Pedro e creio que ele está reproduzido em miniatura na ficha explicativa colocada na frente da cama. Emocionado ou coisa parecida, não tirei nenhuma foto do local (apesar de permitido).
Quando D. Pedro faleceu, ele abdicara a coroa do Império brasileiro e se tornara Rei de Portugal com o título de D. Pedro IV. Pelo que narra a historiadora Mary del Priore em A carne e o sangue (biografia de D. Pedro com ênfase nos seus amores), ele estava com a saúde bem ruinzinha aos 30 anos e uma tuberculose acabou dando cabo de seu corpo debilitado, quando tinha 35.
Escrevo isso de memória, sem consultar o livro da Mary del Priore, pois quando viajamos é assim: vamos lembrando as coisas de cambulhada, muitas vezes as informações se embaralham e é esse quadro que fica na memória. Eu me utilizo de guias, folders, prospectos, mas às vezes não consigo me concentrar e fico flanando pelos lugares. Foi um pouco assim no Palácio de Queluz.
Meu amigo contou que fez um passeio rápido pelo palácio e riu muito ouvindo um colega (professor de História) comentar as fofocas da corte lusitana. Ele estava num congresso de historiadores e a visita ao palácio durou pouco tempo. Minha mulher e eu passamos boa parte de um dia andando pelos corredores, salas e jardins – praticamente vazios naquele dia de inverno –, lemos detidamente as informações de algumas peças e objetos, conversamos com os monitores, e igualmente ficamos com essa impressão de que tudo é muito rápido, efêmero e os séculos de história contidos naquelas paredes pouco ou quase nada apreendemos.
Éramos um casal plebeu, do outro lado do Atlântico, conhecendo as plagas dos antigos colonizadores e tudo aquilo era um pouco estranho. Súbito cruzamos com um casal de atores, vestidos como cortesões do século XVIII, e travou-se um diálogo engraçado.
O cortesão nos perguntou de onde vínhamos, dissemos que éramos do Brasil, e ele quis saber como estava “a Colônia”. Informado de que o Brasil não era mais colônia, o ator – muito afetado, como talvez tenham sido os cortesões do Palácio de Queluz – encenou uma perplexidade que nos fez rir e depois saiu por um salão envidraçado, a andar elegantemente com sua companheira.
- As voltas que o mundo dá - dissera o ator, encenando de forma cômica as transformações políticas e sociais que nós, professores de História, sisudamente explicamos em sala de aula, muitas vezes enfastiando os alunos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Questionando a educação brasileira

Não é pouca coisa o que propõe o professor e filósofo Ronai Rocha no seu livro “Quando ninguém educa: questionando Paulo Freire” (Editora Contexto, 2017, 153 p.): um diagnóstico da educação brasileira, um mapeamento do cenário conceitual que marca a atual discussão a respeito dos planos curriculares (a polêmica BNCC), e uma defesa do reerguimento da escola e da mística do professor. Tanto um texto de combate, que fustiga a pedagogia brasileira (em especial a de matriz freiriana), quanto de reflexão ponderada e até poética a favor da melhoria da escola, do revigoramento da atividade do professor e do engajamento do aluno. Ora é a voz do filósofo que domina o texto, esmiuçando os conceitos que orientam o debate educacional, ora é a do professor que vive a realidade escolar desde os anos 70 e tem o doloroso entendimento de que a escola foi rebaixada e não está cumprindo à contento as suas funções de ensinar os conhecimentos básicos.
Na avaliação do autor, esse rebaixamento da escola aconteceu devido a “um certo extravio de nossa cultura curricular e pedagógica", ocorrida a partir da virada da educação brasileira nos anos 70 e 80. Uma transformação explicável a partir da expansão da rede de ensino e das decorrentes discussões pedagógicas que a acompanharam, em especial uma maior atenção aos aspectos social e político da educação em detrimento das práticas pedagógicas propriamente ditas.
Quanto a esse estado da pedagogia, a obra de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, foi e é fundamental. Ronai Rocha não desconsidera o seu valor e papel históricos, mas vê como exagerada a sua influência no pensamento educacional brasileiro e compreende que a mesma se mantem “ao preço de uma leitura anacrônica”. Uma leitura descontextualizada, que minimiza o foco da obra, a alfabetização de adultos, assim como a problematização das opressões em geral e do diálogo com as camadas populares nos termos das décadas de 60 e 70. Temas candentes, claro, mas que o autor entende não serem os centrais para a construção de um modelo escolar formal.
O capítulo sobre a Pedagogia do oprimido já vale o livro, mas esse não é foco principal da reflexão de Ronai Rocha. Seus propósitos centrais são o já referido rebaixamento da escola assim como proposições de como encarar esse problema. Se a inspiração freiriana foi fundamental para a pedagogia brasileira e proporcionou ganhos consideráveis (como maior consciência política a respeito da educação), os custos foram muito maiores, segundo o autor. A instituição escolar foi abalada quanto ao seu papel de transmissora de conhecimentos consagrados (a famosa e pertinente discussão a respeito dos “aparelhos ideológicos do Estado”) e perdeu-se o sentido grandioso da escola: o de possibilitar uma espécie de segundo nascimento dos indivíduos, aquele proporcionado pelo conhecimento e usufruto do “legado que transcende as paredes que nos cercam”, das Artes e da Ciência, por exemplo, construídas pela nossa civilização.
Não é pouco coisa o que se propõe Ronai Rocha. Não sei como os teóricos da educação de orientação freiriana e desconstrutivista reagirão à provocação, mas entendo que o questionamento apresentado é pertinente. E, em especial, o diagnóstico da escola quanto as suas falhas no ensino dos conhecimentos básicos calará fundo os professores habituados ao chão da sala de aula. A partir daí, entendendo que até aqueles que ainda amam Paulo Freire lerão esse livro como uma provocação instigante. Um livro que se propõe a reorganizar os termos da discussão educacional, priorizando a revalorização do currículo e da prática pedagógica, assim como apontando as disposições necessárias para a retomada da escola das suas funções essenciais. Aparentemente uma proposta conservadora – a de recolocar a escola como capaz de organizar e transmitir o grande legado da nossa civilização (a tão mal falada Civilização Ocidental). Mas, como o autor indica, até para que prosperem propostas revolucionárias de educação e sociedade é necessário que a escola funcione, que o professor ensine e que os alunos conheçam e saibam usufruir aquilo que está muito distante de suas experiências cotidianas, como o Teorema de Pitágoras, a obra de Machado de Assis e as Bachianas de Villa Lobos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Colônia Cecília

Entre 1890 e 1894, funcionou uma colônia anarquista no município de Palmeira, no Paraná, a cem quilômetros de Curitiba. Aparentemente, era uma colônia como tantas outras, criada por emigrantes europeus, que atravessavam o Atlântico subsidiados pelo Governo brasileiro para substituir a mão-de-obra escrava ou ocupar as regiões consideradas despovoadas.
As colônias de imigrantes europeus tinham como base a propriedade privada e a organização familiar, mas essa – batizada Colônia Cecília – norteava-se por outros princípios: a propriedade coletiva e a família comunal. Uma sociedade anárquico-comunista, criada com a pretensão de desconstruir “toda forma doméstica de relações sexuais”, estabelecer o amor livre, visto que a família era considerada “o principal sustentáculo do regime capitalista” (do egoísmo e da apropriação privada de riquezas) e “incompatível com a vida socialista”.
Seguramente um caso único entre as colônias criadas no Brasil, na época da Grande Imigração Europeia. Um belo e fracassado empreendimento experimental, que durou quase quatro anos. Chegou a comportar 300 colonos, mas a debandada era constante e geral. Poucos aguentavam. A situação material era precária, a produção coletiva não dava conta do recado, as assembleias deliberativas eram constantes e, ao que tudo indica, havia necessidade de muito apego ao ideário anarquista para aguentar o rojão.
O projeto de família comunal não se concretizou e, em 1893, num relatório a respeito da vida na colônia, apenas dois casos de amor livre foram registrados – os dois devidamente apresentados e discutidos em assembleia. Um deles – entre Giovanni, Eleda e Aníbal – apresentado minuciosamente num instigante texto intitulado “Uma história de amor na Colônia Cecília”, de autoria de um dos participantes do caso, Giovanni Rossi (por sinal, o principal líder e ideólogo da colônia). Texto instigante, ao menos, para aqueles que acham (santa ingenuidade, dirão alguns) que é possível transformar as relações amorosas, consolidadas pela tradição e pelas características psicológicas dominantes de homens e mulheres.
Encontrei o texto, nesse último final de semana, bem guardado em uma das minhas estantes – bem guardado para uma leitura num dia que nem sabia qual. O texto faz parte de um conjunto de quatro opúsculos escritos por Giovanni Rossi, traduzidos e organizados por Mariza Vicentini e Miguel Sanches Neto, publicados pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2000. Miguel Sanches Neto, por sinal, em 2005, lançou um fabuloso romance chamado “Um amor anarquista”, baseado nesse episódio.
Elucidativos e instigantes os textos de Giovanni Rossi, em especial o que enfoca a sua história amorosa com Eleda (do qual extraí os trechos colocados entre aspas apresentados nesta crônica). Giovanni narra seu caso amoroso com objetividade e o vê também como um experimento científico. Para ele, a revolução social provocaria a emancipação econômica e, obrigatoriamente, a emancipação afetiva. A colônia anárco-comunista propiciaria essa emancipação e, dessa maneira, o “problema do amor” se encaminhava para “uma solução espontânea, lógica e necessária”.
Um otimista (e talvez um simplista em relação à natureza humana), esse Giovanni Rossi, agrônomo e militante anarquista. Viveu a experiência da Colônia Cecília até 1894 (quando esta se enquadrou ao padrão normal das colônias) e depois passou a exercer carreira de agrônomo no Rio Grande do Sul (em Taquari) e Santa Catarina. Voltou para a Itália em 1907, junto com Eleda e duas filhas, e talvez tenha continuado apostando na possibilidade do socialismo democrático, do amor livre, da família comunal, e de outros delírios do gênero. Morreu em 1943, aos 86 anos de idade, e não consegui informações sobre essa fase final da sua vida.

Após publicar o comentário acima, um leitor me indicou o esclarecedor artigo de Isabelle Felice, "A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi" (1998), facilmente encontrável no Google. Entre outras coisas, fica-se sabendo que no triângulo amoroso Giovanni, Eleda & Anibal havia uma quarta pessoa, o jovem Jean Géléac, pai do primeiro filho de Eleda - e que o anarquista Giovanni, após voltar a Itália, jamais comentava com os filhos o ousado empreendimento que tentara no Brasil.

sábado, 15 de julho de 2017

O ronco do búgio

No início dos anos 70, acampei diversas vezes na Praia do Tigre – uma pequena praia no atual Parque Estadual de Itapuã, na beira da Lagoa dos Patos. Naquela época, o parque não existia. Era um projeto. Na Praia Grande, apenas uma casa. Um bar. E o dono prevendo grandes oportunidades. Era o lugar onde comprávamos cachaça.
Depois da Praia Grande, entrávamos mato a dentro e caminhávamos um tempão até chegarmos à Praia do Tigre. Um lugar só acessível a mochileiros. Ou, pelo menos, era assim quando fui lá pela última vez (no verão de 1976). Deve ter mudado muito de lá para cá.
No alto dos morros de Itapuã, havia acampamentos de guarani e os índios não eram de muita conversa. Um dia nos perdemos no mato, pedimos auxílio a eles e o preço foi muito alto: todas as nossas facas e mais alguma coisa. Achamos caro demais e fomos buscar ajuda nos pescadores da Praia do Sítio – que prontamente nos levaram até o nosso acampamento. Não lembro o que cobraram em troca. Lembro que sentaram conosco, em torno do fogo, e beberam, conversaram e depois foram embora.
Como se vê, lugar de muita aventura para a garotada urbana que éramos. Às vezes os bugios faziam um barulhão danado no mato, saíamos para encontrá-los e eles fugiam. Animais ariscos, nos contaram. Os índios costumavam caçá-los. Os bugios sentiam de longe o cheiro dos humanos (índios e outros) e escapuliam.
No último final de semana, matei a vontade de ver os bugios em estado selvagem (ou próximo disso), no Parque Witeck, no município de Novo Cabrais (perto de Cachoeira do Sul). O parque é conhecido pela sua riqueza vegetal e, realmente, é magnífico. Mas os bugios roubaram a cena. Me conquistaram. Faziam uma barulheira tão grande que cheguei a pensar que fossem ruído de máquinas trabalhando. Não eram. Os bugios roncavam intensamente em cima das árvores e pude fotografá-los. Uma realização.


Eram animais habituados aos humanos. O cheiro de gente não os assustava, pois, diferente dos guarani que habitavam os morros de Itapuã, os humanos do Parque Witeck não os caçam para comer. Eles são parte da belíssima paisagem, reconstruída e ajardinada pelos proprietários. Os bugios podem roncar à vontade – para demarcar território, me explicaram – e não se importam que um fotógrafo amador prepare o zum de sua máquina para captá-los.
Levei mais de quarenta anos para fazer a foto de um bugio.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Histórias de viajantes e de peregrinos

Histórias de viagem tem me fascinado. Histórias de peregrinos também.
Outro dia, navegando na Internet, li o relato de uma viajante que achou admirável o guia turístico falar horas à fio pelas estradas da Escócia. Não entendi, porém, se a admiração era algo elogioso ou não. Afinal, um guia de viagem falando sem parar, comentando a paisagem, os costumes locais, fazendo piadas, é insuportável. Já vivi isso e não gostei. Felizmente era depois do almoço e dormi. Nem ouvi metade da chatíssima conversa, explanação e anedotário que durou entre Cáceres e Sevilha, no sul da Espanha.
Estávamos numa caminhonete de três bancos, não passávamos de oito turistas e durante o almoço combináramos que não deixaríamos o homem falar. Mas, na hora em que a viagem recomeçou, as duas argentinas que estavam no primeiro banco junto ao guia (que também era o motorista) não mantiveram o trato e deram trela ao homem. Foi uma desgraça. Minha mulher chegou zonza em Sevilha e, por intervenção dela junto à agência de viagem, dois dias depois seguimos nosso percurso pela Andaluzia com um guia mais educado, comedido nas informações e comentários.
Quanto aos peregrinos, admirei (positivamente) a criatividade de Alexandre Pires, que decidiu refazer os caminhos de São Francisco de Assis, entre as cidades de Dovadola e Assis, de skate, dois anos atrás. Um modo original de peregrinação. Claro que ele não fez todo o caminho de skate, mas, quando dava, lá estava ele em cima do seu “aparelho esportivo” deslizando pelas estradas italianas. Um percurso de quase 300 quilômetros, como ele registra no livro 18.4, o caminho: nos passos de São Francisco de Assis (Porto Alegre, BesouroBox, 2015), junto com excelentes fotos. Uma viagem com objetivos de reflexão espiritual e também de captação de recursos financeiros para fins caritativos – no caso, para a Casa de Acolhimento FASC, em Porto Alegre.
Alexandre Pires conta que viveu uma crise profunda a partir dos 35 anos, decorrente de excesso de trabalho e descuido com a vida conjugal, e que um livro sobre São Francisco o ajudou a encontrar rumos mais humanitário para sua vida. Decidiu, então, que no dia do seu aniversário de 40 anos (o 18.04 do título do livro) ele o comemoraria nas trilhas de São Francisco. Com a experiência de empresário que era, contatou jornalistas e fotógrafos, utilizou de marketing nas redes sociais e criou um projeto compartilhado com milhares de pessoas. Sua peregrinação não era para ser solitária e contou com fotos e filmagens de profissionais da área. Na primavera europeia de 2015 ele concretizou o seu projeto, dividindo-o com seus apoiadores. Segundo ele, o resultado foi a conquista de “certo equilíbrio”, além de ganhos financeiros para a Casa de Acolhimento FASC e palestras sobre o fomento turístico na região central da Itália.
Uma peregrinação original, essa de Alexandre Pires – que, segundo ele, provocou uma “transformação única” em sua vida. Não sei se a maioria dos peregrinos conseguem isso.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Disciplinar e restringir

Assisti no noticiário da TV que a jovem prefeita de Roma, Virginia Raggi, estabeleceu um regulamento a respeito do uso das fontes históricas da cidade com pesadas multas aos infratores. Segundo as notícias que busquei no Google, está proibido o acampamento ao redor das fontes, assim como o consumo de bebidas, alimentos, banhos, lavagem de roupas, e também a utilização das fontes como lixeira ou local para escalar. A medida vem acompanhada da intenção de restringir o acesso de imigrantes e estrangeiros à capital da Itália e, pelo jeito, não visa apenas disciplinar os inquietos turistas. “Impossível pensar em mais estruturas de acolhimento”, disse a prefeita, indicando a sua preocupação com os imigrantes africanos que ocupam as ruas da capital da Itália.
Quando visitei as famosas fontes históricas de Roma – Fontana de Trevi, della Barcaccia, dei Quattro Fiumi (Quatro Rios) –, era inverno e não havia ninguém nadando ou dando banho no cachorrinho. Nem vi ninguém acampado nas imediações. Na Fontana de Trevi, o número de visitantes era enorme – visivelmente turistas – e nem pensei em cumprir o ritual de chegar na borda e jogar uma moedinha. Meus colegas que fizeram isso precisaram de muita paciência para chegar até a beira da fonte. Eu fiquei de longe, fotografando.



Numa outra ocasião, batendo pernas pelo bairro Salustiano – procurando a Igreja de Santa Maria della Vittoria, local da escultura de Bernini, “Êxtase de Santa Teresa” –, me deparei com a Fontana dei Mosè e penso ter visto o modo como os nativos utilizam suas fontes. Era início da noite e um bando de adolescentes estava sentado nas bordas da “piscina” da fonte, rindo, brincando, e alguns dando voltas em torno das esculturas dos felinos, para beber a água que sai de suas bocas. Águas cristalina, limpíssima, imaginei.
Fiquei de longe observando e aqui abaixo reproduzo foto que catei no Google, onde se vê a majestosa fonte e suas leoas. Um frio danado (era final de inverno) e aqueles jovens se comportavam como se estivessem numa noite de verão. Adolescentes parecem ser iguais em todos os recantos do mundo, pensei.

As medidas da Prefeitura bem indicam a preocupação de preservar o patrimônio de Roma - uma intenção louvável, quando se sabe que aumenta o número de depredações causadas por turistas -, mas parece que o novo regulamento está embutido num projeto mais amplo de organização do espaço público. Não apenas disciplinar o seu uso, mas restringir também a "qualidade" dos usuários. Um problema e tanto quando lembramos - e muitos italianos lembram disso - que a Itália resolveu os seus problemas sociais, no final do século XIX e ao longo do XX, exportando seus pobres para outros países. Na maioria dos casos, esses emigrantes italianos foram acolhidos - como ocorreu nos Estados Unidos, Brasil e Argentina - e puderam dar origem à proles numerosas.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Pompéia

Alguém já escreveu que as viagens continuam depois que chegamos em casa. O sujeito vai a Roma, Nápoles, Pompéia, e volta lembrando os lugares visitados, lendo e relendo os folders e livros adquiridos, vendo e revendo as fotos, e por aí vai, semanas e meses afora. É o meu caso. Estive em Pompéia numa única manhã, em fevereiro desse ano, e continuo caminhando pela Via dell’Abbondanza, tentando entender o que vi.
A Via dell’Abbondanza (Rua da Abundância) é uma das importantes artérias dessa cidade romana, soterrada por uma erupção vulcânica em 79 d.C. Fiz uma visita guiada com meu grupo de colegas de Campus Magnoli (onde estávamos estudando língua e cultura italianas) e nesta rua visitamos uma morada (domus) da elite local. Não sei se era a casa de Paquio Proculo ou do Sacerdos Amandus. Meu italiano trôpego não entendeu direito o guia e hoje, examinando o catálogo da cidade e o mapa com a localização das moradias, suspeito tratar-se da casa do Sacerdos Amandus. Tirei algumas fotos da casa, inclusive a de um afresco, que entendi como sendo uma representação de Andrômeda sendo salva por Perseu – como se vê na foto abaixo, no detalhe à direita. Este afresco se encontra no átrio da casa do Sacerdos Amandus (segundo o catálogo) e daí conclui que foi essa moradia que visitei. 


Andrômeda fora acorrentada para ser devorada por um monstro, Perseu passava pelo alto (voando em cima do seu cavalo Pégaso), quando avista a princesa e se encanta. Retira da bolsa a cabeça da Medusa (que recém havia matado e decapitado) e a apresenta ao monstro, petrificando-o. Vencido o terrível adversário, Perseu se inclina diante da bela Andrômeda.
O leitor mais bem informado poderá dizer se me enganei ou não. Da minha parte, continuo andando pelas ruínas de Pompéia, tentando decifrar os seus mistérios e encontrar os vestígios da cultura e da vida romanas ali escondidos, camuflados. Caminho pela Via dell’Abbondanza, entro no Fórum – a praça dos antigos prédios públicos para o exercício da política, da justiça, da religião e do comércio – e lembro que fui professor de História Antiga durante muitos anos.
Era um lugar como esse que eu tentava enfocar nas minhas aulas: um local onde as práticas da religião e do Estado se intercambiavam e forjavam um grande império e uma grande civilização (uma de nossas matrizes culturais). Vejo meus colegas alegres e falantes – somos felizes nessa manhã ensolarada e fria – e sinto que a algazarra da antiga praça romana se recria quase dois mil anos depois.
O Sacerdos Amandus caminha ao meu lado e pergunto a ele se aquele afresco de Perseu e Andrômeda lhe pertence. E arrisco:
- A bela Andrômeda foi inspirada na sua esposa, senhor Amandus?


segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Coluna de Trajano

A Coluna de Trajano se encontra na Via dei Fori Imperiali, em Roma. Sobreviveu ao tempo. Quase dois mil anos. Foi mandada construir pelo imperador Trajano, que governou Roma entre 98 e 117 d.C. e conquistou a Dácia (atual Romênia). A coluna foi construída para comemorar esse feito militar.


Além da Dácia, as legiões de Trajano também conquistaram a Arábia Petreia – cuja capital era Petra, importante centro de caravanas para o Oriente – e isso rendeu dinheiro suficiente para realizar “um grandioso programa de edificação, embelezando Roma com esplêndidos palácios e monumentos, cujas ruínas ainda hoje podem ser admiradas”.
São essas ruínas que admirei no último mês de março, encostado num gradil, olhando o que os arqueólogos conseguiram desencavar das antigas construções de Trajano. O imperador mandou construir um novo fórum e ainda se pode ver os vestígios desse "grandioso projeto de edificações", em especial as lojas do antigo mercado e a enorme coluna.
Como os romanos da época olhavam a coluna e liam o extenso relevo contando as realizações do imperador?, pensei. Ficavam dando voltas em torno da coluna, para acompanhar a narrativa? Conseguiam visualizá-la com clareza? Eu olho e não consigo ver os detalhes. Naquele tempo a coluna era colorida e isso ajudava a leitura. Eu foco o zoom da máquina fotográfica e posso, então, visualizar melhor os legionários. Mas os contemporâneos do imperador, como eles faziam?



Paolo Liverani, professor da Universidade de Florença, explica que os antigos romanos não ficavam dando voltas em torno das colunas. Que eles estavam habituados a elas, conheciam seus temas, os códigos como eram abordados, e, ao olhá-las, tinham uma ideia geral do que se tratava. Não precisavam ler quadro por quadro do extenso relevo esculpido. Diante de uma coluna como a de Trajano, era claro aos contemporâneos que ela abordava a eficácia militar das legiões romanas, a derrota dos bárbaros e a exaltação das competências de Trajano e de Roma. Um monumento à poderosa civilização greco-romana, a qual o restante do mundo se submetia, e ponto final.
Mas eu sou um reles latino-americano, vindo das lonjuras do Extremo Ocidente e tenho dificuldade de compreender. Apenas isso: dificuldade. Por mais que tenha lido a respeito dessa civilização - durante anos fui professor de História Antiga, na escola fundamental e na universidade - é como se tudo fosse novidade. A Coluna de Trajano me indica isso. Revivo a emoção juvenil das primeiras leituras sobre a Roma Antiga assim como a avassaladora dificuldade de ter um entendimento claro dessa civilização. Nem por isso, no entanto, é menor a emoção. Desconfio que sou um bárbaro da Dácia, embasbacado com a grandeza de Roma e seus imperadores.

domingo, 28 de maio de 2017

Os Guinle: a história de uma dinastia

A família Guinle construiu no Brasil uma legenda de sofisticação que dificilmente algum brasileiro ignora. No imaginário brasileiro, essa áurea está ligada ao Copacabana Palace e ao playboy Jorginho Guinle (1916-2004). O historiador Clóvis Bulcão, numa abordagem muito agradável da história dessa família – em Os Guinle: a história de uma dinastia (Intrínseca, 2015, 250 p.) –, explica, no entanto, que o famoso hotel e o esbanjador Jorginho foram apenas os sinais mais visíveis, talvez pitorescos, desse clã.

A riqueza da família foi construída a partir de uma concessão do Governo Imperial, em 1888, para a construção do porto de Santos. A licitação foi ganha pelos sócios Eduardo Palassim Guinle e Cândido Gaffrée, numa associação muito esperta com ilustres figuras do Império. A concessão para a exploração do porto era, segundo o edital, de 39 anos, mas rapidamente eles a expandiram para 92. A partir daí, remodelando as atividades do porto, expandindo a área de concessão, os sócios constituíram a Companhia das Docas de Santos e, feito um polvo, estenderam os negócios por outras áreas – como a imobiliária, bancária (criação do Banco Boavista) e siderúrgica –, sempre em sintonia com o poder público.
Eduardo Palassim e Cândido Gaffrée atravessaram incólumes a passagem da Monarquia para a República e mantiveram boas relações com os presidentes da República Velha. Depois, seus herdeiros da primeira geração conseguiram a mesma coisa com Getúlio Vargas (tanto na fase da ditadura do Estado Novo quanto no período democrático) e com Juscelino Kubitschek. Com o Regime Militar, porém, as coisas mudaram, ganharam poder os seus inimigos, os benefícios até então concedidos passaram a ser revistos e não houve a habilidade política por parte dos gestores da Cia. das Docas em deter os adversários. A partir daí, iniciou-se a ruína. Os herdeiros da terceira geração não puderam gastar dinheiro à rodo, como haviam feito o avô e os pais. Jorginho Guingle (terceira geração) bem exemplificou essa situação: depois de gastar ao longo da vida 20 milhões de dólares (segundo seus próprios cálculos) foi acolhido de favor no Anexo do Copacabana.
O Copacabana Palace, fundado por Octavio Guingle (filho de Eduardo, o fundador da riqueza do clã), não era a atividade mais lucrativa da família, mas um dos tentáculos do “polvo” (expressão usada na época para designar os negócios da família), sem dúvida, a mais visível e charmosa. Durante muito tempo, desde a sua fundação em 1923, o Copacabana ocupou o lugar de maior hotel de luxo do Rio de Janeiro.  Entrou em crise após a morte do seu fundador, em 1968, e terminou vendido a um empresário norte-americano, em 1989.

Tem boas histórias esse livro de Clóvis Bulcão. Negócios, criatividade, esperteza, muita gastança e luxo, mas também financiamento de atividades esportivas, culturais e educacionais. Como alguns membros da família eram católicos, houve auxílio para a fundação de uma universidade católica (a PUC do Rio de Janeiro) e também de uma editora católica de larga influência nacional (a Editora Agir). Histórias para animar uma boa leitura, agradável (graças à habilidade do autor) e muito elucidativa a respeito dos caminhos do dinheiro e dos espaços sofisticados desse nosso país.

sábado, 27 de maio de 2017

O que cabe na crônica

Nem tudo cabe na crônica. Talvez não caiba na crônica a mulher que chora numa mesa de canto, nesse saguão de café de um hotel, nessa manhã de domingo. Ela acabou de entrar junto com um rapaz, os dois são tão jovens que nem arrisco dizer que são casados. Talvez sejam namorados. Os dois escolheram uma mesa de canto, sentaram-se um na frente do outro, o rapaz esticou o braço e segurou a mão da moça. Ele está visivelmente preocupado, mas não traz nenhum sinal de lágrimas nos olhos. Depois a moça se livra da mão do rapaz e vai servir-se de café. Ele fica sentado, a jovem volta com um prato de doces, uma xícara de café, e o rapaz a assiste comer.
Por que motivo ela chora?, me pergunto. Eu também estou acompanhado e minha companheira não chora. Penso se está tudo bem entre nós e imagino que sim. Não somos casados, talvez sejamos namorados, e pergunto se ela viu a moça chorosa. Ela diz que não notou, disfarça, observa o casal e comenta:
– Olha como ela come. O choro deve ser pra impressionar o namorado. – E acrescenta que a cozinha do hotel serve doces muito bons, me aponta uma fatia de bolo no seu prato e diz para eu provar.
Eu pego um pedaço do bolo e penso que casais são assim: às vezes passam a discutir por qualquer coisa e a vida se torna um inferno. Eu já cumpri esse roteiro, já fui casado e entrei nesse cipoal de discussões.
– É bom mesmo – eu digo à minha amiga, me referindo a fatia de bolo que acabei de comer.
Nem tudo cabe na crônica. Não cabe a mulher chorando na mesa ao lado, nesse saguão de hotel, não cabem as histórias complicadas dos casais que um dia se amaram, se desentenderam e foram tragados por discussões intermináveis. Na crônica, o melhor é escrever sobre assuntos que possam ser tratados sem muitos rodeios. Por exemplo, dizer que uma moça chora e o namorado estende a mão para acalmá-la, sem esmiuçar as razões disso tudo. De preferência, dando a entender que tudo vai passar, que tudo é possível quando existe a possibilidade do toque de duas mãos.
A crônica geralmente pede uma pegada leve e o bom cronista talvez seja aquele que não esquenta com as profundidades da alma humana e esbanja bom humor e otimismo. Eu observo os olhos da minha amiga e noto que eles estão claros e serenos como a manhã de céu azul do outro lado dos vidros desse saguão de hotel. É isso que cabe na crônica. Ao menos hoje, é apenas isso que cabe na crônica. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

12 livros que abalaram o Rio Grande

“Um país se faz com homens e livros”, disse Monteiro Lobato. Dessa maneira, de vez em quando, é necessário apontar quais homens e quais livros são esse que fazem a diferença na construção de um país. O jornalista Luiz Antônio Araujo realizou essa tarefa, anos atrás, no caderno Cultura de Zero Hora. Durante o ano de 2012, todos os meses, Luiz Antônio publicou entrevistas com alguns escritores que fizeram a cabeça desse pequeno país chamado Rio Grande do Sul. Escolheu 12 livros e entrevistou os seus autores.
Em ordem cronológica, eis os livros selecionados: Manual das danças gaúchas (1956), de Paixão Côrtes e Barbosa Lessa; Júlio de Castilhos e sua época (1967), de Sergio da Costa Franco; A política rio-grandense no II Império (1868-1882) (1974), de Helga Piccolo; O regionalismo gaúcho e as origens da Revolução de 30 (1975), de Joseph Love; Modelo político dos farrapos (1978), de Moacyr Flores; Raízes sócio-econômicas da Guerra dos Farrapos (1979), de Spencer Leitman; Poder Legislativo e autoritarismo no Rio Grande do Sul (1891-1937) (1979), de Helgio Trindade; A literatura no Rio Grande do sul (1980), de Regina Zilberman; Missões: uma utopia política (1982), de Arno Kern; Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (1962), de Fernando Henrique Cardoso; A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil nação (1992), de Ruben Oliver; e Erico Verissimo, o escritor e seu tempo (2001), de Flávio Loureiro Chaves.
Em 2015, as entrevistas com os autores foram reunidas em livro – 12 livros que abalaram o Rio Grande – publicado pela Editora da Universidade de Santa Cruz (UNISC). Um livro instigante. Os autores falam de suas origens familiares, trajetórias de vida, das condições em que escreveram e publicaram suas obras, e ficamos sabendo uma pouco da história de cada uma delas.

Fernando Henrique, ao abordar a escravidão nas charqueadas pelotenses, em Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, possibilitou um novo entendimento da realidade sócia-econômica da antiga Província do Rio Grande. Foi obra obrigatória nos cursos de História e, hoje – talvez em função das novas abordagens sobre escravidão, talvez devido ao seu engajamento político –, se encontra esquecida no mundo acadêmico. Helga Picollo produziu a primeira tese de doutorado sobre história sul-rio-grandense e seu trabalho foi lido, estudado e discutido pela maioria dos seus alunos (inclusive eu, que tive o privilégio de assistir suas aulas). Seu estudo sobre política sul-rio-grandense tornou-se uma obra de referência nos estudos sobre o período imperial – um período histórico que continua atraindo atenções, pois nele se encontra um episódio central na nossa formação social e também no nosso imaginário: a Revolução Farroupilha.
Nas entrevistas, ficamos sabendo que FHC achou as cidades de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande muito agradáveis, quando veio ao RS, na década de 50, realizar suas pesquisas. Pelo seu depoimento, até parece que era um estudante em férias. Sabemos também que a professora Helga estudou no Colégio Júlio de Castilhos, nos anos 40, e seus professores de História não tinham formação acadêmica nessa área. Um dado importante quando lembramos que Helga Piccolo teve papel importante na formação de gerações de professores, assim como na consolidação da historiografia sul-rio-grandense como atividade acadêmica.
Um país se faz com homens, mulheres e livros. Esses homens e mulheres têm histórias, trajetórias pessoais e, para leitores que prezam os autores que escrevem os livros que os empolgam, muitas vezes é bom saber como eles descobriram seus objetos de estudos, que tiveram pais que facilitaram sua formação e, muitas vezes, os aproximaram ou indicaram os temas que, mais tarde, se dedicaram como intelectuais.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Crônicas pelotenses (1990) - Praça Coronel Pedro Osório

Atravesso a Praça Coronel Pedro Osório e não encontro o menino que eu fui correndo pelos canteiros. A voz de minha mãe recomendava que eu não pisasse no barro, mas não lembro os caminhos que eu percorria. Recordo minhas calças curtas, minhas pernas magras, e o sorriso dela me envolvendo e me acariciando suavemente. Constato os patos nadando no laguinho, mas não escuto as risadas de meus irmãos nem vejo as pipocas que jogávamos.
Onde aquele espanto e perplexidade que tomou conta de nós, quando o pai nos trouxe aqui na praça para assistir a um show de equilibrismo? Onde o fio de metal no qual andava o artista e sua bicicleta? Estaria o fio estendido muito cima das árvores, confundindo-se com o céu, como a minha memória insiste em afirmar?
Meu pescoço doeu ao acompanhar o percurso do equilibrista. Eu não enxergava o fio, temia que o homem caísse e perguntei ao pai:
– Ele vai cair? Vai cair?
– Cala a boca, guri, presta atenção.
A voz do pai às vezes descia severa até meus ouvidos e dizia:
– Agora vai brincar, vai, deixa o teu pai e tua mãe conversarem.
E eles ficavam sentados num banco da praça, enquanto eu caminhava entre os canteiros e os observava de longe.
Certa vez, tive a ideia de enterrar um tesouro na praça: dois botões de braguilha, um soldadinho de chumbo, três tampinhas de Fanta. Tinha esperança de que, depois do ano 2000, quando a Terra não existisse mais, um ser de outro planeta o desenterraria. Então ele descobriria – imagino hoje – os segredos daquele menino de calças curtas. Decifraria seus sonhos e a névoa cinzenta que volta e meia embaçava seus dias.
Que dentes usava aquele guri para morder os pêssegos que a cidade produzia? O guri sabia descascar camarão e comer peixe sem se engasgar com as espinhas? Que sonhos ele tinha, quando carregava a sua pasta e caminha em direção ao grupo escolar?
O vô falava que um dia os cavalos de bronze do chafariz sairiam aos pinotes pela praça e ninguém conseguiria detê-los. Me sento num banco, fecho os olhos e escuto seus cascos martelando o chão.
Para vencer a peste na Antiga Grécia, foi necessário buscar do Velocino de Ouro. Irei buscá-lo?, me pergunto. Assisti a esse filme no Cine Guarany, depois desci com o pai a Rua Álvaro Chaves em direção ao porto. Passamos pela Faculdade de Odontologia e falei que não seria mais dentista quando crescesse. Seria argonauta e escreveria livros que se transformariam em filmes. No porto, nos aguardava um navio de guerra e eu apostava que ganharíamos o mar.
– Vens comigo, pai?
E como não escuto a sua resposta, abro os olhos para a praça e sinto que não poderei sair enquanto não ver um menino desenterrar seu tesouro.

Crônicas pelotenses (1990) - Infância

Quantas quadras separam a Rua XV de Novembro da Rua Santa Cruz? Não realidade, não mais de quatro. Mas não tenho mapa de Pelotas para conferir, é meia-noite e há uma coruja piando no quarteirão. Ainda pouco estava na janela do apartamento, bebia um café, olhava os morros que cercam Porto Alegre, quando me vi prisioneiro de uma lembrança dos tempos de guri. Me enxerguei sentado nos degraus de um casarão da Rua XV, que servia de grupo escolar, olhando a torre dos bombeiros, assistindo o dia escurecer – cinzento, muito cinzento – e meu irmão menor de castigo na sala da diretora. Os degraus de mármore esfriavam minhas nádegas, a cerração envolvia a torre dos bombeiros e um medo estranho crescia dentro de mim. O entardecer multiplicava as quadras que separavam minha casa do grupo escolar e eu me sentia como se estivesse perdido no mar, cada vez mais longe da praia.
“Está bem, podes ir”, ouvi a diretora dizer ao meu irmão. “Amanhã eu falo com a tua mãe”, ela completou. Ele apareceu na porta da escola, caminhou na minha direção, os olhos brilhando, a pasta dançando numa das  mãos. “Vamos”, ordenou. E nós atravessamos a Rua XV, passamos pelos bombeiros e descemos a Rua Gomes Carneiro. Eu avistava o armazém do seu Inácio, lá na esquina da Santa Cruz, perdendo-se na névoa, e sentia que nunca conseguiria chegar em casa. Era esse o destino dos navegadores, delirava: perder-se na cerração. Meu irmão falava da briga que tivera no recreio – motivo do castigo na sala da diretora – e garantia que batera em todos. Ria, exibia os dentes, como hoje ri atrás dos bigodes, a alegria envolvendo quem está ao redor.
Kiko, eu me pego murmurando nessa madrugada, quando iremos pescar no Canal São Gonçalo? Quando iremos jogar nossas linhas e experimentar as chumbadas que preparamos no quintal? É noite, a cidade dorme, nossos filhos crescem, nós usamos barba, bigode e não vestimos mais as pesadas capas de inverno Renner, como naquele entardecer. Tu caminhavas ao meu lado, confiante dos teus braços, enquanto meu coração se oprimia.
Depois nós chegamos em casa e nada falei para a mãe, como pediras. Ainda te vejo sentado junto a mesa, envolto na luz amarelada da copa, tomando sopa e sorrindo. E penso: te devo um chope, meu irmão, um chope para retribuir aquela caminhada na cerração, vivendo a confiança que sentias em ti, aprendendo contigo, enquanto meu coração se oprimia.

Crônicas pelotenses (1990) - Regresso

Visitei Pelotas depois de anos. Desci na nova rodoviária [nos limites do perímetro urbano da cidade] e senti falta da antiga rodoviária na Rua Marechal Deodoro, próxima ao centro. Estranhei o fato dos ônibus não estacionarem mais em perpendicular numa rua de paralelepípedos sujos de óleo. Mas era uma manhã de céu limpo – azul, muito azul – que logo esqueci disso tudo e saí caminhando. Fui andando por uma avenida sem moradias, que nem sabia onde ia dar, e deixei o sol e o vento escreverem no meu corpo as histórias da cidade. Quando dei por mim, estava diante do Ginásio Pelotense.
Lembrei, então, de um desfile escolar nos anos 60, no qual eu marchava nos batalhões do Colégio Gonzaga. Desfilávamos naquela avenida [Bento Gonçalves], enquanto os alunos do Pelotense jogavam milho em nossas pernas. Sorri pensando se Pelotas ainda abrigava essas brincadeiras de estudantes e me vi – guri de onze anos – orgulhoso no meu uniforme de calça azul-marinho e casaco vermelho.
Com esse uniforme, eu também caminhava com meu pai pelo centro da cidade e ele contava histórias da Revolução de 1923, quando Zeca Netto invadiu a cidade e deixou umas balas cravadas numa árvore em frente ao Colégio Gonzaga.
– É verdade essa história? – eu perguntava. Ele respondia que sim e explicava que era o que contavam quando era menino. [Nasceu em 1924, um ano depois da Revolução.]
– Fala mais, pai – eu incentivava. E ele se entusiasmava repetindo que a invasão começara de madrugada, pelos lados do Fragata, e que logo os rebeldes tomaram os quartéis e avançaram para o centro da cidade, onde foram ovacionados.
– Por que nunca fizeram um filme sobre isso? – eu perguntava. Mas não lembro o que ele respondia.
Nós íamos ao cinema todos os finais de semana – Cine Capitólio, Sete de Abril, Guarany, Pelotense – e depois passávamos no Café Aquarius. Ele bebia um cafezinho, eu tomava um guaraná. Ele se encostava no balcão e eu o observava beber numa minúscula xícara sem derramar uma gota.
Mas nesse dia que voltei a Pelotas não havia desfile de colegiais na Avenida Bento Gonçalves. A cidade se movimentava no ritmo lento dos domingos e fiquei parado numa esquina, me dando conta de que a cidade que eu procurava não existia mais. A banda do Colégio Gonzaga não desfilaria naquele domingo e ninguém me contaria histórias da Revolução de 1923.
Tratei de tomar alguma atitude e entrei numa farmácia para comprar fichas de orelhão. Liguei para uma tia e me senti abençoado quando ela me reconheceu e convidou para almoçar. A cidade se reconfigurou naquele instante. Retomei meus passos, caminhei até uma casa de porta e janela na Rua Santos Dumont – a casa dos meus avós paternos, falecidos há décadas – e a tia estava na porta. Na cozinha, um cheio de galinha se desprendia da panela e logo abrimos a primeira cerveja.
Não sei o que conversamos, mas uma longa teia de lembranças e risos nos envolveram – e quase esqueci que estava indo a Pelotas para um velório.

Obs.: O símbolo do Colégio Gonzaga era uma galinha gorda e por isso os estudantes do colégio rival – Ginásio Pelotense – jogavam milho em nós.

domingo, 14 de maio de 2017

Dom Pedrito

Estive em Dom Pedrito nesse final de semana. Passeio de turista. Fui conhecer a Estância Guatambu, uma estância especial, dedicada à produção de vinhos. Visita agendada, com guia especializado no assunto. Fiz passeio pelas instalações industriais da estância – impecáveis, sofisticadíssimas – e terminei degustando alguns vinhos no restaurante da vinícola. Já conhecia o tannat produzido pela casa – Rastros do Pampa – e descobri outros. Sai maravilhado.

No outro dia, no saguão do hotel (em Dom Pedrito), soube que as chuvas dos últimos dias causaram a subida das águas do rio Santa Maria, nos arredores da cidade. Fui ver. Novamente com atitude de turista, isto é, como quem vai apreciar um espetáculo. A chuva tinha parado, abrira um tímido sol e imaginei que o cenário poderia proporcionar boas fotos.
Mas fiquei chocado. A água subira vários metros – seis, fiquei sabendo depois, consultando página de notícias na Internet – e invadira as casas da população da periferia. Dos bairros de Santa Maria, Sagrada Família e Vila Geni. Dezenas de pessoas tiveram de sair de casa. Não era esse o espetáculo que imaginara.
A foto abaixo é de uma rua do Bairro Santa Maria e não dá uma ideia da enchente. Conversei com dois homens e eles me contaram que a água entrou em suas casas. Água acima do joelho, na casa de um; acima da cintura, na casa de outro.


Eles me viram com máquina fotográfica em punho e acharam que eu era jornalista. Perguntaram sobre o jornal onde eu publicava, se eu conhecia os políticos da região e ficaram decepcionados ao saber que eu não tenho vinculações com a imprensa nem acesso às autoridades. Que sou apenas um curioso, fotógrafo amador, cronista amador. O drama daqueles homens me chocou e não sei o que concluir disso tudo.

Estive em Dom Pedrito nesse final de semana. Passeio de turista. Fui conhecer a Estância Guatambu. Conhecer as belezas que a Campanha sul-rio-grandense é capaz de produzir. E me deparei também com as pequenas tragédias que esse mesmo cenário abriga. Duas realidades difíceis de articular.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Livros que impactaram

O poeta Escobar Nogueira me convidou para participar, na semana passada, de um evento na Feira do Livro de Santa Maria. Convidou a mim e a outros escritores e professores. A ideia era a de que cada um de nós falasse de um livro importante em nossas histórias pessoais, um livro que nos impactou. Para alguns convidados, esses livros foram “As aventuras de Robin Hood”, de Monteiro Lobato, “Contos plausíveis”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Os miseráveis”, de Vitor Hugo. Eu escolhi “Contos”, de Guy de Maupassant, traduzido por Mário Quintana, uma publicação da Editora Globo, de 1955. Livro que encontrei na estante da sala de casa, quando tinha 15 anos de idade.
A maioria de nós falou pouco dos livros em si, dos seus autores, e mais sobre as condições em que as obras entraram em suas vidas e o quanto impactou, emocionou e por aí afora. Eu não fugi ao roteiro e abordei pouco a obra literária de Guy de Maupassant, esse importante contista francês da segunda metade do século XIX, uma referência na construção do conto clássico, com começo, meio e fim, personagens com nome e endereço, história redondinha e final surpreendente. Falei, isso sim, do menino que eu era quando me deparei com os contos de Maupassant, que retratam de forma realista a sociedade francesa, com ênfase nos aspectos sórdidos, cruéis, e nos personagens sem escrúpulos e até perversos.
Falei do menino ingênuo que terminava o Ginásio, estava no final do ano letivo e que ficara em exame de Língua Portuguesa por  alguns décimos, provavelmente uma decisão do professor da disciplina para dar uma lição ao aluno presunçoso que eu era. A matéria a ser estudada era a famosa análise sintática, eu não estava muito interessado no assunto e ocupei meu tempo lendo Maupassant. Uma surpresa total para o leitor que até então tinha Júlio Verne e José de Alencar como referências principais. Enfrentei o exame, passei com oito ou nove, e segui a leitura de Maupassant. Minha mãe achava que não era livro para mim – "não era apropriado para a formação de um jovem”, esse o pensamento da mãe – e o pai me defendeu dizendo que o livro era bom e era melhor que eu lesse coisas boas. “Deixa o guri”, ele disse. A mãe gostava de Maupassant, “O colar de diamantes” era um dos seus contos prediletos, e aceitou que eu me emancipasse de sua tutela ao menos em assuntos literários.
O menino que eu era ficou deslumbrado com as personagens de Maupassant – as prostitutas (“Bola de Sebo”), os militares cruéis (“Mademoiselle Fifi”), as mulheres volúveis, os homens sem escrúpulos – e aquela leitura significou uma guinada na minha vida, na minha compreensão do mundo. A partir daí, creio que passei a me aventurar mais no campo da literatura. Descobri Machado de Assis, Tolstói, a literatura policial norte-americana – mas nem sempre entendi muito bem o que lia. Era um menino ingênuo e romântico, comprometido com o catolicismo ainda por cima. Logo ingressei na Juventude Católica, não perdia a missa dos domingos e, na verdade, na verdade, demorei muito a crescer.
Mas Maupassant ficou como referência. Um marco. Uma leitura impactante. E, feito um personagem do conto "Mosca", eu era bem capaz de dizer que, "no tempo em que eu remava [nas águas do Sena], vi muita coisa gozada e gozadíssimas raparigas". Na literatura, ao menos, eu me emancipei a partir de então.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Eça de Queirós

Terminei de ler Eça de Queirós e o século XIX, de Vianna Moog (Rio de Janeiro, Editora Delta, 1966, 358 p.). Encontrei o livro num sebo e me entusiasmei. Lembrei que meu primeiro contato com Eça se deu quando cursava o ensino médio, numa edição de Contos em formato de jornal (São Paulo, Jornalivro, 1972). Li e reli esses contos. Demorei muito até concluir Os Maias, a sua obra-prima, e creio que nunca darei conta da sua obra completa.
Quando vim morar em Santa Maria, no início dos anos 90, conheci uma professora de Letras – Glorinha, companheira de um colega de departamento – e conversávamos muito sobre literatura. Ela tinha um gosto especial por Eça de Queirós e falava com entusiasmo sobre ele. Eu tinha uma ideia de Eça apenas como crítico social, disposto a transformar a realidade sócio-política portuguesa, e ela falava da mudança que ele passara no final da vida, quando fez as pazes com a tradição lusitana, com a monarquia e a religião. Ela apontava um Eça que eu desconhecia. Conversávamos muito sobre isso porque nos interessava o engajamento dos escritores e também o nosso, de professores.
“Por que essa fissura em querer mudar a realidade social e política?”, nos perguntávamos. “Por que não aceitar as coisas como são? E por que alguns mudam no meio do caminho?” Não nos interessavam as razões objetivas de transformar o sistema econômico-social (que para mim eram – e ainda são – claríssimas), mas entender as motivações pessoais de quem se propõe a fazer isso ou deixa essa preocupação de lado. A trajetória de Eça se prestava a essas elucubrações.
Lendo a biografia feita por Vianna Moog, retomei esses velhos assuntos. Eça viveu a agitação cultural da Universidade de Coimbra (no início da década de 1860) e, a partir daí, forjou um ideário de combate em relação à sociedade portuguesa, monárquica e católica. O crime do padre Amaro é exemplar nesse sentido; Os Maias, igualmente, com muito maior requinte e perfeição. Mas por volta dos 43 anos de idade, pouco tempo depois de casar-se com uma aristocrata portuguesa e vivendo como diplomata em Paris (uma das grandes aspirações da sua vida), ele tinha outra cabeça e não lhe arrebatavam mais as novidades tecnológicas e filosóficas do seu século, marcadas pela Revolução Industrial e a derrubada da Bastilha.
À época da Grande Exposição Internacional de Paris (1889), dedicada a comemorar o centenário da Revolução Francesa, “as maravilhas do século XIX” começaram a lhe causar “tédio e desconfiança”, segundo Vianna Moog. No mesmo ano, morreu o rei de Portugal, D. Luís, e Eça compôs um necrológio muito elogioso ao rei, que valeu como uma espécie de conciliação com a monarquia lusitana.
O que diria minha amiga Glorinha, se eu retomasse essa conversa e utilizasse os dados apresentados por Vianna Moog? Não nos vemos há duas décadas e só posso imaginar... Talvez ela dissesse que Eça fora apaziguado pela esposa aristocrática, os filhos, uma quinta na região do Douro, e passara a sentir o mundo de outra maneira. Imagino que comentaríamos comentaríamos a respeito das pessoas do nosso círculo de relações que migraram do campo da esquerda para a direita de forma ruidosa e selvagem - e suponho que ela sustentaria que Eça fez essa passagem de forma civilizada, mantendo o estilo elegante de sua escrita, assim como argumentos sólidos, como se lê em A Cidade e as Serras.