segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os Beatles e o comunismo internacional

Cursei o ginásio em colégio católico, no final dos anos 60. Vivia em Porto Alegre naquele tempo. Um dia, o Irmão José, nosso professor de inglês, viu meus colegas e eu com um disco dos Beatles – o “Sgt. Pepper’s” – e veio nos fazer uma preleção a respeito das “mensagens subliminares” daquelas canções. Estávamos no pátio da escola, aguardando o sino tocar para o início das aulas, e o professor nos deixou de queixo caído.

Segundo ele, os rapazes de Liverpool tinham intenções subversivas em relação aos valores da Civilização Ocidental e, do ponto de vista católico, não eram recomendáveis. O professor não iria confiscar o disco, mas era melhor recolher o material e só nos entregar no final das aulas.
Eu ganhara o disco no último Natal, presente do pai (acho que aquele long-play era o meu, não recordo direito), e não entendera aquela conversa quanto aos Beatles estarem mancomunados com o comunismo internacional e favorecerem a dissolução dos valores cristãos, em especial aqueles relativos à ordem familiar: a autoridade paterna, a castidade dos jovens e coisas assim.
Foi uma conversa que nos deixou de cabelos em pé, a nós, ginasianos que “amavam os Beatles e os Rolling Stones”, mas que não deixavam de ir à missa aos domingos. Nós nos dividíamos quanto a opinião em relação ao “Sgt. Pepper’s”, diferente de tudo quanto escutáramos dos Beatles até então, mas estávamos gostando. Ainda não usávamos a expressão “baita som”, mas devia ser mais ou menos isso que falávamos.
Lembrei disso outro dia, folheando um livro num sebo de Porto Alegre, no qual havia referência a uma publicação norte-americana, de 1964, intitulada Comunismo, hipnotismo e Os Beatles, do pastor David Nobel. Talvez o Irmão José tivesse lido o livro.
Segundo o pastor David Nobel, as canções dos rapazes de Liverpool continham “mensagens subliminares” e eles tinham sido treinados em Moscou com técnicas de hipnotismo... Se a conversa do Irmão José não era essa, era parecida: os Beatles como prováveis agentes do comunismo internacional, atuando no sentido de entorpecer a mente dos jovens e dissuadi-los do bom caminho.
Hoje, isso me parece absurdo, mas era comum naquele final dos anos 60 ver subversão e/ou intenções malévolas no campo das artes. Pais e professores costumavam divagar com essas coisas, mas a maioria de nós (os jovens) nem sempre caímos na conversa.
Coisas daqueles tempos, insisto em afirmar. Mas a atual discussão sobre o que acontece no mundo das artes – a exposição queer no Santander Cultural, a performance com nudez no Museu de Arte Moderna paulista – me indicam que provavelmente estou enganado.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lisboa turística (2)

Li no Lisboa em Pessoa: guia turístico e literário da capital portuguesa, de João Correia Filho, que na Torre de Belém se encontra uma cabeça de rinoceronte esculpida. Ela é visível numa das salas da Torre, a Sala do Governador. É a cabeça do rinoceronte que serviu de modelo para a famosa gravura de Albert Dürer, segundo o autor. O animal foi um presente que Afonso de Albuquerque ganhou de um sultão do Oriente e que chegou a Lisboa em 1515. Um alemão que estava em Portugal viu o animal, desenhou o bicho e enviou a ilustração a um amigo de Dürer. Foi a partir disso que o artista realizou a sua gravura.


Eu conhecia outra versão, com elementos mais rocambolescos. O rinoceronte foi enviado pelo rei Dom Manuel para o papa, em Roma. O navio que levava o animal naufragou, o bicho morreu e seus restos chegaram até a praia. Dürer estava na Itália, viu a carcaça do animal e, a partir daí, recriou o bicho. Tenho lembrança de ter lido isso num livro de John dos Passos sobre as navegações portuguesas, com longas transcrições dos cronistas da época, mas não tenho certeza.[i] Só espero não estar inventando.
Dei uma olhada no Google e constatei que ao menos as informações a respeito do rei de Portugal enviar o rinoceronte ao papa, o navio naufragar e o rinoceronte morrer afogado são verdadeiras. O resto, quando ao modo como Albert Dürer tomou conhecimento do animal, há controvérsias. Seja como for, em nenhuma das versões Dürer bateu os olhos no rinoceronte vivo. Coisas que a gente não soluciona com guias turísticos, mas se diverte mesmo assim.
Quando estive na Torre de Belém, não visitei a Sala do Governador. Havia um grupo de adolescentes portugueses visitando o local, eles faziam uma bagunça enorme nas estreitas escadarias da Torre e me restringi ao terraço. Depois desci ao calabouço, que estava praticamente vazio, e fiquei por lá. São muito bonitas as aberturas para os canhões e a maravilhosa vista do Tejo. Fiquei me imaginando um vigia do tempo das caravelas...

Neste dia, quando sai da Torre, havia muitas crianças de escola, todas muito disciplinadas, esperando a hora da visitação.
Crianças, por sinal, são muito interessantes de serem observadas nesses locais – especialmente quando ficam quietinhas escutando as explicações da professora. No Museu Calouste Gulbenkian (também em Lisboa) acompanhei um conjunto de crianças bem pequenas, sentadas ao redor de uma escultura chamada “São Martinho a cavalo partilhando a capa com um mendigo”, do século XVI. Elas ouviam com atenção a professora e eu aprendi junto com elas a respeito desse bispo francês, São Martinho, e seu espírito caritativo.
João Correio Filho indica o Calouste Gulbenkan como visita obrigatória e destaca um quadro de Rembrandt (Retrato de um velho – ou Figura de velho, conforme catálogo do museu) e as jóias de René Lalique como pontos altos. O local não existia no tempo de Pessoa e só foi inaugurado no final dos anos 60. Entre o acervo, eu destacaria também a coleção de obras orientais (da Pérsia, Armênia, Índia) e o mobiliário francês do século XVIII, que me impressionaram bastante. Mas tem muito mais.[ii]
Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.
Na primeira vez que visitei o museu, andava lendo sobre Giacomo Casanova (Eu, Casanova, confesso - romance de Flávio Braga) e fiquei admirado com a sensualidade da arte decorativa francesa (principalmente com os quadros, muito explícitos). Cenário adequado para as aventuras de Casanova, que treinava e vendia moças educadas para os nobres da corte de Luís XV, que as usufruíam durante alguns meses e depois as descartavam. Coisas da alta cultura francesa. Coisas que a gente aprende nos museus - e se diverte.


[i] O livro de John dos Passos talvez seja Portugal: três séculos de expansão e descobrimento (Ed. Íbis, 1970), um relato historiográfico e não um romance. John dos Passos era originário de família das Ilhas dos Açores e admirava as realizações lusitanas do período das Grandes Navegações.
[ii] Calouste Gulbenkian foi um magnata armênio da área petrolífera e grande colecionador de arte. Durante a Segunda Guerra refugiou-se em Portugal e, ao morrer (1955) “legou seus bens aos portugueses”, dando origem à Fundação que leva seu nome.

domingo, 8 de outubro de 2017

Lisboa turística

Estou lendo Lisboa em Pessoa, um roteiro turístico inspirado num texto de Fernando Pessoa e escrito por João Correia Filho (Editora Leya, 2011, 376 p.). Pessoa era um lisboeta entusiasmado por sua cidade e no início da década de 1920 preparou uma sugestão de passeio pela capital portuguesa: Lisboa: o que o turista deve ver. Com base nesse texto (que permaneceu inédito até a década de 1990), o jornalista e fotógrafo brasileiro João Correia Filho preparou este Lisboa em Pessoa, com diversas sugestões de roteiros para bater pernas e se encantar com o mundo lisboeta. Vai ser meu guia na próxima viagem.

Já estive em Lisboa mais de uma vez e confesso que não conheço nem um terço do que “o turista deve ver”. Uma vez jantei no Teatro São Carlos, no Chiado, e tinha a vaga noção de que Fernando Pessoa nascera numa casa das proximidades. Planejara que depois do jantar caminharia no entorno do teatro, procurando a tal casa, mas um doido tentou vender um quadro para minha mulher, ficou nos esperando na porta do restaurante, e tivemos que sair apressados. O garçom nos ajudou a despistar o pintor e fomos quase correndo em direção a Rua Almeida Garret para pegarmos um táxi. A casa do poeta ficou para outra oportunidade.
Voltei ao Chiado outras vezes, mas nunca mais fiz a caminhada em torno do Teatro São Carlos, procurando a casa de Pessoa – a qual, segundo Correia Filho, tem apenas uma pequena placa anunciando que ali nasceu o poeta. A Casa Fernando Pessoa, um centro cultural dedicado ao mestre de “Tabacaria”, fica mais adiante (no bairro Estrela) e dessa vez pretendo visitá-la (Rua Coelho da Rocha, nº. 16).
No itinerário que contempla a visita a Casa Fernando Pessoa, Correia Filho propõe uma longa caminhada, iniciando no Parque Eduardo VII (na frente do qual me hospedei na primeira vez que estive em Lisboa), passando pelo Aqueduto das Águas Livres e chegando até a Basílica Estrela. Uma caminhada e tanto que, ao menos agora, estou disposto a cumprir. No entanto me conheço, sou daqueles turistas que não seguem os roteiros à risca. Às vezes paro num parque e fico fotografando (o que pode acontecer no Parque Eduardo VII ou no Jardim Estrela, outro local do itinerário). Ou então entro numa igreja e divido meu olhar entre as imagens sacras, os frequentadores devotos e as pacientes faxineiras esfregando o chão ou tirando o pó dos altares. Os santos portugueses são belíssimos, muito expressivos, as Nossas Senhoras, encantadoras, que não há como não parar e se esquecer do mundo.

Anoitei o passeio na agenda – Parque Eduardo VII até a Casa Fernando Pessoa –, mas sei que posso me perder no caminho. Se não chegar antes da Casa Fernando Pessoa fechar as portas (às 18 horas), direi a mim mesmo os versos de um de seus famosos heterônimos (Álvaro de Campos): “Nada me prende a nada. / Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. / [...] / [E] vivo num sonhar irrequieto” (Lisboa revisited, 1926) – e estarei perdoado, quem sabe.

sábado, 30 de setembro de 2017

45 anos e uma notícia surpreendente

Filme para ver no Net Now: “45 anos” (2015), dirigido por Andrew Haig, com Charlotte Rampling e Tom Courtenay. Um casal vive na zona rural inglesa, os dois são saudáveis, vivem sem preocupações financeiras e a mulher está organizando uma festa para comemorar os 45 anos de casamento. Súbito chega uma notícia pelo correio que abala os dois: o corpo de uma antiga namorada do marido (de antes dele conhecer a atual esposa) é encontrado nos Alpes suíços. O marido rememora esse antigo amor e a mulher descobre a existência dessa relação antiga a respeito do qual ele nunca falou.
O filme é lento, intimista, centrado nas reações que marido e mulher têm diante da notícia, até o momento da festa de casamento. Se o leitor não assistiu e gosta de dramas intimistas, sugiro suspender a leitura e ver o filme primeiro. Vale a pena. O que eu escrevo estragará o prazer que uma história bem narrada e bem interpretada costuma causar.

 Depois de receber a notícia, o marido conta a mulher que ele e a namorada escalavam os Alpes suíços, quando ocorre um acidente. A mulher escorrega, cai numa fenda das montanhas e desaparece. 50 anos depois, é esse corpo - completamente congelado - que é encontrado.
O marido conta tudo isso para a atual esposa e ela assinala, como algo “engraçado” (ela usa essa palavra), o fato do acidente ter ocorrido na mesma data em que morreu sua mãe. Os dois se conheceram pouco depois disso e as perdas recentes parecem não terem sido comentadas por ambos.
Eu pensei que essa história da mãe fosse aparecer novamente nas conversas do casal, mas me enganei. Deve ser coisa minha (paciente antigo de psicoterapia) que acha que essas histórias de pai e mãe são importantes na construção dos relacionamentos amorosos e podem ser tematizados pelo cinema e literatura. No caso desse filme, não é assim. A perda da mãe não é retomada. Apenas citada.
A narrativa centra no ciúme que a esposa sente desse amor antigo do marido e que a leva a remexer furtivamente nas coisas do marido, folhear suas anotações e fotos de juventude. Uma noite, ela pergunta se ele teria casado com a namorada, se ela não tivesse morrido, e o marido titubeia em responder essa “pergunta teórica”. Mas acaba cedendo a insistência da esposa e diz que sim, casaria. Uma resposta que a mulher escuta com aparente serenidade, mas que depois descobrimos que a abala profundamente.
A vida do casal balança, o marido percebe, deixa as lembranças da antiga namorada de lado, se propõe a ser mais companheiro, faz discurso amoroso na festa de casamento, cai em lágrimas nessa festa (ele, um sujeito de raras lágrimas, segundo a esposa), mas não tem jeito. A mulher está desencantada. Provavelmente, mais uma prisioneira do mito do amor romântico, que acreditou que seu casamento fora um encontro de almas armado pelos deuses e não uma construção humana, marcado por esforços mútuos e contingências da vida.
Um belo filme. A cena final - da mulher no meio do salão de festas, depois de dançar com o marido, com o olhar de desamparo - é de uma humanidade assustadora. A humanidade das pequenas dores, da infelicidade miúda e devastadora.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Uma preta que gostava de livros: Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus era negra e catadora de papéis nas ruas de São Paulo. Morava na favela de Canindé, gostava de ler e escrever. Um dia, um vizinho bateu na porta do seu barraco para perguntar onde encontrava “folhas de batatas” e quis saber também o que ela tanto escrevia. “Um diário”, ela respondeu. “Nunca vi uma preta gostar tanto de livro como você”, ele comentou.

Esse episódio, Carolina registrou no seu diário, no dia 23 de julho de 1955. Tinha 41 anos e três filhos de pais diferentes. Nesse dia, Carolina escreveu: “Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler.” Além de ler, ela escrevia compulsivamente e teve a sorte de encontrar um jornalista que preparou os seus originais e publicou-os em livro – Quarto de despejo: diário de uma favelada –, em 1960.
Uma mulher admirável. Amargurada pela sua condição de excluída a um quarto de despejo (a favela de Canindé) da rica capital paulista, Carolina escrevia para xingar. Xingamentos que se escutam até hoje. Os seus registros da luta cotidiana pela sobrevivência e da presença constante da fome – inclusive da cor da fome: amarelo – são impressionantes: “Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi tudo normalizou-se aos meus olhos”.
Na década de 1950, a indústria brasileira se expandia, a migração campo-cidade se acentuava e as grandes capitais inchavam. O desenvolvimento urbano, no entanto – como é de praxe na história brasileira –, não atendia as necessidades básicas de grande parte da população e as favelas eram um fenômeno que escancarava a lógica excludente do crescimento econômico. Comentando esse período da sociedade brasileira, o historiador norte-americano John Chasteen cita o caso da favelada Carolina de Jesus: “ela acalentava mais sonhos que a maioria”. Tinha completado o segundo ano primário (em sua cidade natal, Sacramento, em Minas Gerais) e talvez isso fizesse a diferença. “Carregava em uma sacola de aniagem [os papéis velhos que coletava nas ruas] e vendia pelo equivalente a 25 centavos de dólar ao dia.” Sofria as privações que a cidade grande lhe impunha e refletia sobre isso.
Em 1959, num bate-boca com os vizinhos de favela, disse que escrevia porque precisava “mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês”. E acrescentou que contava com o apoio de um repórter, Eudálio Dantas, o jornalista que já naquele ano preparava os originais do que seria o seu primeiro livro: Quarto de despejo.
Com a vendagem do livro – um sucesso no início dos anos 60, com tradução para treze idiomas –, Carolina de Jesus conseguiu a casa de alvenaria com a qual sonhou durante anos.

O livro Quarto de despejou entrou na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS  e talvez por isso eu o tenha encontrado na vitrine de uma livraria. Conhecia-o apenas dos trechos citados nos livros de História, como um dos raros registros da miséria brasileira produzido por um miserável e não por escritores de classe média ou alta. Feita a leitura, constato que é mais do que um documento histórico, é uma obra literária de beleza áspera, que me fez lembrar outra grande escritora negra: Marilene Felinto, autora de As mulheres de Tijucopapo. Mulheres de faca na bota.
_____________
* O livro de John Chasteen citado é América Latina: uma história de sangue e fogo (RJ: Campus, 2001); o de Carolina de Jesus é Quarto de despejo: diário de uma favelada (SP: Ática, 2014 - 10 ª edição, 8 ª impressão).

domingo, 17 de setembro de 2017

Apenas um rapaz latino-americano

         Antônio Carlos Belchior se tornou um enigma para muitos dos seus fãs. Em 2007, desapareceu dos olhos do público. Algumas vezes surgiam notícias de que ele estava no Uruguai, de repente era visto em Porto Alegre, a imprensa corria atrás e novamente ele sumia. Em abril desse ano, ele morreu de um aneurisma na aorta na cidade de Santa Cruz do Sul, sem que o mistério se solucionasse. O jornalista Jotabê Medeiros, que preparava uma biografia do cantor, estava com passagem comprada para Santa Cruz, iria entrevistá-lo e tentar conseguir uma resposta para o enigma, mas não houve tempo.

A biografia de Jotabê Medeiros acaba de sair – Belchior: um rapaz latino-americano (Ed. Todavia, 200 p.) – e não poderia haver subtítulo melhor para a narrativa da trajetória desse cantor e compositor do que o seu famoso verso sobre a rapaziada latino-americana. Segundo Jotabê, o verso nasceu durante uma aula na Universidade de Brasília, em 1974 ou 75, do filósofo cearense Augusto Pontes (e também amigo e guru do compositor). O filósofo se apresentou dizendo que era “apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares” e o compositor serviu-se da frase como mote para uma canção: “Eu sou apenas um rapaz / latino-americano / sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior”.  Uma pegada comparável as de Raul Seixas, outro compositor que sacava as elaborações filosóficas complexas e as transformava em canções de grande alcance comunicativo.[i]
Nos anos 70, talvez não houvesse estudante universitário que não tivesse os versos de Eu sou apenas um rapaz... na ponta da língua. No turbilhão daqueles anos, marcados por uma ditadura militar e a aceleração do desenvolvimento capitalista, parte da juventude brasileira procurava definir uma identidade latino-americana e sentia-se acossada por conta da conjuntura política e econômica. Os versos de Belchior vinham a calhar.
Belchior teve seu primeiro LP em 1974 (Mote e glose), mas a fama só veio dois anos depois, quando Elis Regina interpretou duas de suas melhores canções – Como nossos pais e Velha roupa colorida – e lançou o seu segundo LP, o antológico Alucinação. Com voz fanhosa, anasalada, era incrível que ele conseguisse ser ouvido e comparado com as interpretações impecáveis de Elis Regina. Um fenômeno! Um cantor de poucos recursos musicais (especialmente se comparado com Elis), mas que se impunha como compositor e intérprete extremamente perspicaz das inquietações brasileiras.
A biografia de Jotabê reconstitui a trajetória de Belchior (1946 – 2017) e indica possíveis respostas para o sumiço do cantor, nos dez últimos anos de vida. Ao colocar no primeiro capítulo o período da vida (três anos) em que Belchior esteve no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga (Ceará), o biógrafo dá um peso considerável para a inclinação religiosa do cantor. No mosteiro, Belchior consolidou o seu pendor para a literatura, a filosofia, assim como adquiriu a disciplina intelectual que possibilitará a sua extensa produção poética. Da mesma maneira, exercitou o seu sonho de santidade, constatou que sua vocação religiosa era pouca e caiu fora, pegou a estrada.
Este sonho de criança Belchior teria alcançado no final da vida, segundo o seu amigo e analista Barbosa Coutinho (o famoso “analista amigo meu” da canção Divina comédia humana). Escondendo-se dos fãs e até dos familiares e amigos (protegido por uma espécie de Yoko Ono brasileira, a sua última mulher, Edna Prometheu), Belchior talvez tenha vivido o sonho de pureza dos santos e também dos velhos hippies: a não pactuação com o “Sistema” (para utilizar uma expressão dos anos 60 e 70). Uma tese para os fãs debaterem, para melhor entender esse poeta nordestino que fez a cabeça de muitos de nós.





[i] A frase completa do filósofo Augusto Pontes, segundo as anotações que deixou, é a seguinte: “Sou apenas um sul-americano sem parentes no poder, apenas a pessoa eu, no estado de mim mesmo”. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Divagações em torno da exposição de arte queer em Porto Alegre

       Visitei a Galeria Borghese este ano, em Roma, e não saberia dizer o que mais gostei. Seguramente de uma pintura de Caravaggio, “Madona com a serpente”, na Sala de Sileno, que me fisgou de um jeito que me fez esquecer tudo ao redor. Mas devo confessar que fiquei de queixo caído quando entrei na Sala do Hermafrodita e respirei o ar de sensualidade refinada que se desprende das obras ali expostas, tanto da escultura romana que dá nome a sala quanto das pinturas das paredes e do teto tematizando a trajetória do mítico Hermafrodita. Coisa impressionante.

A galeria em questão foi criação do Cardeal Borghese, no início do século XVII. O cardeal era sobrinho do Papa Paulo V e ambos estavam sintonizados com a tradição da alta hierarquia católica de recuperação da arte greco-romana. O cardeal e o papa não pouparam esforços para incentivar as artes (com verbas da Igreja) e coube ao Cardeal Borghese a construção de um palácio (matriz da atual galeria) com o propósito de reunir algumas obras e promover a criação artística.  
Era o tempo da Contra Reforma e não deixa de causar perplexidade o fato de uma escultura representativa da sexualidade “excêntrica” – o Hermafrodita – tivesse acolhida nesse palácio eclesiástico. A escultura fora descoberta durante a construção dos alicerces da igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma, e o cardeal pagara uma alta soma de dinheiro para adquiri-la. A peça permaneceu na galeria até o início do século XIX (época da invasão napoleônica), quando foi levada para a França. Hoje se encontra no Louvre e o que se vê na galeria é outra cópia romana da mesma escultura grega.
Milhares de turistas visitam essas obras em Roma e Paris, são conquistados pelos encantos da representação artística do hermafroditismo – da sexualidade estranha à normativa heterossexual – e poucos se escandalizam com isso. Afinal, a arte que tematiza a sexualidade, tanto a sexualidade heterossexual quanto outras, é daquelas que mais fascina. Se o tema da sexualidade se fundir com o da religiosidade, então, o resultado geralmente é de grande impacto. O Hermafrodita tinha conteúdo sagrado na Antiguidade (ele era filho de Hermes e Afrodite), mas perdeu esse caráter ao se tornar parte de uma coleção católica e ser fonte inspiradora de um novo estilo artístico: o barroco romano.
Lembrei da Galeria Borghese e de sua Sala do Hermafrodita, quando tive conhecimento das manifestações contrárias à exposição de temática LGBT – “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira” – no Santander Cultural, em Porto Alegre. Afinal, se os protestos se deram devido à tematização de sexualidades contrárias a normatividade heterossexual, já era hora dos manifestantes saberem que é esse tipo de arte é antiga e que provoca muita satisfação ao público. Se os manifestantes se incomodaram com a utilização de temas religiosos, na certa também desconsideraram que essa é uma das matérias-primas da arte.
Quando visitei a exposição no Santander, em agosto, imaginei que o material ali apresentado fosse causar polêmica. Mas supus uma polêmica inteligente, tanto a respeito da linguagem artística das obras quanto da temática abordada, inclusive quando utilizava elementos religiosos. Afinal, tratava-se de uma exposição provocativa, com muitas peças criadas nos termos da questionada estética conceitual (ou pós-moderna), ainda não assimilada, e apresentadas em diálogo com obras de outros períodos da arte, a instigar comparações, questionamentos e muitas vezes desconcertar.

Algumas peças utilizavam elementos do imaginário católico – como o caso da escultura “Cristo Nosso de Cada Dia” (1978), de Roberto Cidade (um dramático Cristo na cruz com o pênis ereto), e da pintura “Last Resort” (2016), de Felipe Scandelari (uma Madona com um desconcertante chipanzé de fraldas no colo) – e a polêmica era inevitável. Mas polêmica civilizada, como é costume no meio cultural, polêmica que considerasse os termos da arte e avaliasse as obras a partir do seu potencial conceitual, expressivo ou outro.
Mas me enganei. O que ocorreu – os manifestantes zombando dos visitantes, atacando o curador, ameaçando o museu, clamando pelo fechamento da exposição – fugiu completamente aos termos do debate de ideias, mesmo quando impregnado de paixões. Até no campo da arte estamos longe da discussão civilizada.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Irmão Antônio e a busca da Terra Sem Males

       Foi lançado na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, um livro em homenagem ao Irmão Antônio Cecchin, uma personalidade que é referência para os movimentos sociais no Brasil e, em especial, no Rio Grande do Sul. Sua prática política-religiosa esteve vinculada à criação da Comissão Pastoral da Terra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da Romaria da Terra e da Pastoral da Ecologia. É de sua autoria também o processo de canonização do índio guarani Sepé Tiaraju.
         Irmão Antônio nasceu em Santa Maria, em 1927, e tornou-se religioso Marista em 1946. Em novembro do ano passado, faleceu. Lecionou no Colégio Rosário, em Porto Alegre, foi membro da Ação Católica e talvez essas duas atividades – a de professor de escola confessional e a de católico engajado – sejam as definidoras da sua vida.
Nos anos 1950, alinhado à orientação de D. Helder Câmara, participou da transformação da Ação Católica, a qual adotou o método “Ver, Julgar e Agir”, uma mudança ideológica que correspondia aos novos ventos que agitavam a Igreja Católica, conduzindo-a ao Concílio Vaticano II, à Conferência de Medelin e à “opção preferencial pelos pobres”.
         Enquanto professor nas escolas maristas (entre o final da década de 1940 até o início dos anos 70), Irmão Antônio criou as Fichas Catequéticas (material para a formação religiosa de adolescentes), as quais considerou um “divisor de águas” na sua vida. As Fichas se tornaram alvo de grande polêmica no Brasil e foram condenadas pelo Ministro da Educação Jarbas Passarinho, em 1970, durante o Governo Médici. A partir daí (e também devido às prisões que sofreu, em 1969 e 1972) sua prática religiosa passou a se dar junto às populações desfavorecidas e não mais entre os jovens de classe média e alta atendidos pelas escolas maristas. É a partir daí que sua prática religiosa se vincula aos setores sociais marginalizados do campo e da cidade, como os agricultores sem terra, os migrantes nas periferias urbanas e os catadores de lixo, e à criação de organizações capazes de levar a cabo suas demandas.
Irmão Antônio realizou uma ação política sempre vinculada à fé católica, voltada à “conscientização libertadora dos excluídos” (nos termos estabelecidos pelas Comunidades Eclesiais de Base), e capaz de articular-se com outras religiosidades, como as de matriz indígena e africana.
Quem acompanhou o seu trabalho sabe dessa capacidade de aglutinação das diferentes religiosidades em torno de uma proposta teológica católica. O título do livro – “Irmão Antônio Cecchin: ‘seguindo o caminho’ (At 9,2) em busca da Terra Sem Males” – é indicativo disso. Reúne – a partir do seu nome, o nome de um militante religioso – a fusão entre uma passagem bíblica (do Atos dos Apóstolos, “seguindo o caminho”) com o cerne da crença religiosa guarani (a busca da Terra Sem Males). Em resumo, a articulação da religiosidade do colonizador católico com a religiosidade de uma das populações mais antigas da sociedade sul-rio-grandense. Uma fusão religiosa visando a melhoria das condições de vida das populações mais carentes e que deu resultado. Afinal, estão aí os assentamentos de pequenos agricultores realizados pelo MST (movimento social que ajudou a criar) e também a organização de vilas populares em Canoas (das quais foi liderança fundamental).
Trata-se de um livro, organizado por Matilde Cecchin, feito de depoimentos que lembram e celebram a dimensão grandiosa e também de humildade desse excepcional militante político-religioso. Um livro que também aponta um realidade social - a dos excluídos de muitos dos benefícios proporcionados pela nossa sociedade - que está longe de ser equacionada de forma civilizada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O coronel Fawcett e as minas de prata do Moribeca

Está disponível no Net Now um filme a respeito do coronel Percy Fawcett. Chama-se Z, a cidade perdida, dirigida por James Gray, produção norte-americana de 2016. Imperdível para quem gosta de histórias de exploradores das potências europeias em busca de civilizações perdidas em territórios inexplorados e habitados por selvagens.
Percy Fawcett (1867-1925?), oficial do exército britânico, foi uma das inspirações para a criação de Indiana Jones, mas o filme está longe das narrativas trepidantes de Caçadores da Arca Perdida e de outros com o mesmo personagem. É um filme lento – com excelentes atores, fotografia primorosa – que investe nas motivações pessoais de Fawcett para se embrenhar na selva amazônica, assim como no ritmo vagaroso, exasperante (mas nem por isso menos apaixonante), das expedições exploratórias do início do século XX. Não segue à risca o gênero “filme de ação”, porém, a sua maneira, é um filme de herói explorador.
Segundo o filme, Fawcett busca a glória (encontrar uma civilização perdida) com o propósito de limpar o nome da família – enlameada pelo pai viciado em jogo e bebida – e cumpre com rigor esse objetivo. A esposa o apoia e chega a se revelar disposta a participar das expedições. Diante da negativa do marido, ela protesta pelo fato dele não aceitar a igualdade entre homens e mulheres e o bate-boca entre o casal esquenta. Mas ela acaba assumindo o padrão tradicional (mulheres não têm treinamento para se embrenharem na selva, mulheres ficam em casa cuidando dos filhos) e o herói segue sozinho para a selva, isto é, apenas com os seus companheiros homens.
A narrativa é muito simpática em relação a esposa de Fawcett e a mostra encontrando um manuscrito, escrito por um “soldado português do século XVIII”, que indica a existência de uma cidade perdida no interior da América do Sul. Seguramente, trata-se do famoso “Documento 512” - que guiou Fawcett pelo interior do Brasil - relativo a uma bandeira realizada no período colonial que foi em busca das minas de prata indicada por outro bandeirante, o Moribeca, e encontrou as ruínas de uma povoação antiga. Segundo o manuscrito, foi descoberta uma “oculta e grande povoação antiquíssima sem moradores”, com entrada formada por “três arcos de grande altura” e muitas casas “com seus telhados descobertos e sem telhas”.
O Documento 512 foi encontrado na Livraria Pública da Corte (atual Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro), em 1839, e, ao que consta, não saiu de lá até hoje. O manuscrito foi publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico, ainda no século XIX, e teve ampla circulação. Serviu de inspiração para o romancista José de Alencar escrever As minas de prata (1865) e era conhecida por Rider Haggard (As minas do rei Salomão, 1886) e Arthur Conan Doyle (O mundo perdido, 1912) – esses dois últimos, figuras que Percy Fawcett conhecia pessoalmente.
Segundo pesquisadores, Fawcett começou a se interessar por civilizações perdidas quando servia no Ceilão e conheceu o Documento 512 por meio da tradução feita por um membro da Real Sociedade Geográfica de Londres, o explorador Richard Burton (personagem de outro filme fabuloso sobre exploradores ingleses, Montanhas da Lua, a respeito da busca das nascentes do Rio Nilo). Seja como for, ao apresentar a mulher de Fawcett descobrindo o manuscrito, o filme delineia uma esposa amorosa e engajada na obsessão do marido – o que ela foi até o final da vida.
É uma bela história, a que protagonizou o coronel Percy Fawcett - e o filme dá conta disso. Porém, resta a observação: no século XVIII, os bandeirantes saíram em busca das minas de prata indicadas pelo Moribeca e "descobriram" as ruínas de uma antiga civilização. Isso criou uma longa tradição, que incendiou a imaginação de pesquisadores, romancistas, exploradores e também cineastas. Mas o documento dessa expedição é apenas indicado de passagem no filme em questão. Um filme brasileiro - como o que estava para sair, feito a partir do livro Coronel Fawcett: a verdadeira história de Indiana Jones (1996), de Hermes Leal –, talvez desse outro tratamento a essa tradição criada pelo Documento 512. Mas o cinema norte-americano, que conhece melhor o caminho das pedras (ou das minas), correu na frente.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Leitura na escola

        Quando eu era guri de ginásio, ouvi um professor dizer em sala de aula que um bom exercício para escrever era a feitura de um diário. Comecei, fiz um diário das minhas férias de inverno daquele ano (1969), peguei o “vício” e passei a escrever diariamente.
Na década de 90, reencontrei esse material e o utilizei para uma novela juvenil, que denominei Jorge encontra Lilian. Eu andava escrevendo livros paradidáticos para a Editora FTD e achei que poderia emplacar um texto ficcional também. Apresentei os originais para a editoria de literatura juvenil, mas não rolou. A literatura juvenil havia mudado e eu não percebera. Os textos publicados enfocavam temas contundentes – devastação do meio ambiente, consumo de drogas ilegais, AIDS – e a minha história passava longe de tudo isso. Não tinha nenhum apelo dramático. Era a simples narrativa de um menino introspectivo, de classe média, descobrindo o mundo e, especialmente, o sexo oposto. A editora publicara um livro do gênero e não se arriscaria em mais um título.  “Isso vende pouco”, a editora me disse.
Eu não apresentei os originais para outra editora e tratei de encarar a coisa de forma independente. Contratei um diagramador profissional, ele fez o projeto gráfico, a capa, e mandei imprimir. Fiz mil exemplares e vendi mais da metade nas escolas de Ensino Fundamental de Santa Maria e região, entre alunos de sétima e oitava séries. Contei com a colaboração de professores de Língua Portuguesa, que adotavam a novela nas suas turmas, e a coisa funcionou. Era início dos anos 2000 e fui em várias escolas conversar com meus leitores.
Nesse ano, soube que o livro ainda é adotado numa escola de Santa Maria e fui novamente conversar com os alunos. Constatei que a novela continua sendo lida, compreendida, mas não senti grande entusiasmo por parte da gurizada. Eles estão noutra, pensei. Um menino me perguntou sobre a literatura fantástica, por que eu não enveredava por esse caminho, e percebi que não estou em sintonia com os novos leitores. O livro que entusiasma os leitores jovens é alguma coisa que envolva elementos sobrenaturais e não sei fazer isso. Se quisesse emplacar meu Jorge encontra Lilian, imagino que o Jorge deveria ser a encarnação de um viking do século IX, navegando numa nau interespacial, em busca de um amor redentor em alguma megalópole sul-americana. O imaginário juvenil me parece que anda por aí. O jovem leitor que me questionou talvez seja representativo desse público leitor.
E voltei para casa pensando que aquele rapazinho - de modo semelhante ao que eu fazia nos final dos anos 60 - está escrevendo diariamente. Mas na certa não produz um diário e, sim, um texto no qual um jovem herói viaja no tempo, desafia os limites da vida e da morte, e se utiliza de tecnologias não acessíveis aos mortais comuns. Outros tempos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Palácio de Queluz - coisas que vivemos quando viajamos

Um amigo me enviou pelo correio eletrônico uma foto do famoso Quarto D. Quixote, no Palácio de Queluz, em Portugal, no qual D. Pedro I morreu em 1834. A foto centraliza a cama com dossel – onde também nasceu o futuro imperador – iluminada por uma forte luz vinda das janelas. Muito diferente da imagem que tenho do mesmo quarto.
Visitei o palácio em 2014, num dia de inverno, e o quarto estava sombrio. Não lembro se as janelas estavam abertas ou não. Era um dia chuvoso. Minha mulher e eu ficamos parados no meio do quarto e a monitora da sala nos contou que os brasileiros gostam muito de visitar o lugar, alguns vêm especialmente para ver onde "o imperador do Brasil morreu" e pouco dão atenção às demais peças.
Achei a observação curiosa e fiquei até tomado de alguma emoção retroativa àquele momento dramático da morte de um rei, que, segundo os livros de História, muitas vezes desencadeia uma fase de tensão política e até de instabilidade social. Há um quadro representando os últimos momentos de D. Pedro e creio que ele está reproduzido em miniatura na ficha explicativa colocada na frente da cama. Emocionado ou coisa parecida, não tirei nenhuma foto do local (apesar de permitido).
Quando D. Pedro faleceu, ele abdicara a coroa do Império brasileiro e se tornara Rei de Portugal com o título de D. Pedro IV. Pelo que narra a historiadora Mary del Priore em A carne e o sangue (biografia de D. Pedro com ênfase nos seus amores), ele estava com a saúde bem ruinzinha aos 30 anos e uma tuberculose acabou dando cabo de seu corpo debilitado, quando tinha 35.
Escrevo isso de memória, sem consultar o livro da Mary del Priore, pois quando viajamos é assim: vamos lembrando as coisas de cambulhada, muitas vezes as informações se embaralham e é esse quadro que fica na memória. Eu me utilizo de guias, folders, prospectos, mas às vezes não consigo me concentrar e fico flanando pelos lugares. Foi um pouco assim no Palácio de Queluz.
Meu amigo contou que fez um passeio rápido pelo palácio e riu muito ouvindo um colega (professor de História) comentar as fofocas da corte lusitana. Ele estava num congresso de historiadores e a visita ao palácio durou pouco tempo. Minha mulher e eu passamos boa parte de um dia andando pelos corredores, salas e jardins – praticamente vazios naquele dia de inverno –, lemos detidamente as informações de algumas peças e objetos, conversamos com os monitores, e igualmente ficamos com essa impressão de que tudo é muito rápido, efêmero e os séculos de história contidos naquelas paredes pouco ou quase nada apreendemos.
Éramos um casal plebeu, do outro lado do Atlântico, conhecendo as plagas dos antigos colonizadores e tudo aquilo era um pouco estranho. Súbito cruzamos com um casal de atores, vestidos como cortesões do século XVIII, e travou-se um diálogo engraçado.
O cortesão nos perguntou de onde vínhamos, dissemos que éramos do Brasil, e ele quis saber como estava “a Colônia”. Informado de que o Brasil não era mais colônia, o ator – muito afetado, como talvez tenham sido os cortesões do Palácio de Queluz – encenou uma perplexidade que nos fez rir e depois saiu por um salão envidraçado, a andar elegantemente com sua companheira.
- As voltas que o mundo dá - dissera o ator, encenando de forma cômica as transformações políticas e sociais que nós, professores de História, sisudamente explicamos em sala de aula, muitas vezes enfastiando os alunos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Questionando a educação brasileira

Não é pouca coisa o que propõe o professor e filósofo Ronai Rocha no seu livro “Quando ninguém educa: questionando Paulo Freire” (Editora Contexto, 2017, 153 p.): um diagnóstico da educação brasileira, um mapeamento do cenário conceitual que marca a atual discussão a respeito dos planos curriculares (a polêmica BNCC), e uma defesa do reerguimento da escola e da mística do professor. Tanto um texto de combate, que fustiga a pedagogia brasileira (em especial a de matriz freiriana), quanto de reflexão ponderada e até poética a favor da melhoria da escola, do revigoramento da atividade do professor e do engajamento do aluno. Ora é a voz do filósofo que domina o texto, esmiuçando os conceitos que orientam o debate educacional, ora é a do professor que vive a realidade escolar desde os anos 70 e tem o doloroso entendimento de que a escola foi rebaixada e não está cumprindo à contento as suas funções de ensinar os conhecimentos básicos.
Na avaliação do autor, esse rebaixamento da escola aconteceu devido a “um certo extravio de nossa cultura curricular e pedagógica", ocorrida a partir da virada da educação brasileira nos anos 70 e 80. Uma transformação explicável a partir da expansão da rede de ensino e das decorrentes discussões pedagógicas que a acompanharam, em especial uma maior atenção aos aspectos social e político da educação em detrimento das práticas pedagógicas propriamente ditas.
Quanto a esse estado da pedagogia, a obra de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, foi e é fundamental. Ronai Rocha não desconsidera o seu valor e papel históricos, mas vê como exagerada a sua influência no pensamento educacional brasileiro e compreende que a mesma se mantem “ao preço de uma leitura anacrônica”. Uma leitura descontextualizada, que minimiza o foco da obra, a alfabetização de adultos, assim como a problematização das opressões em geral e do diálogo com as camadas populares nos termos das décadas de 60 e 70. Temas candentes, claro, mas que o autor entende não serem os centrais para a construção de um modelo escolar formal.
O capítulo sobre a Pedagogia do oprimido já vale o livro, mas esse não é foco principal da reflexão de Ronai Rocha. Seus propósitos centrais são o já referido rebaixamento da escola assim como proposições de como encarar esse problema. Se a inspiração freiriana foi fundamental para a pedagogia brasileira e proporcionou ganhos consideráveis (como maior consciência política a respeito da educação), os custos foram muito maiores, segundo o autor. A instituição escolar foi abalada quanto ao seu papel de transmissora de conhecimentos consagrados (a famosa e pertinente discussão a respeito dos “aparelhos ideológicos do Estado”) e perdeu-se o sentido grandioso da escola: o de possibilitar uma espécie de segundo nascimento dos indivíduos, aquele proporcionado pelo conhecimento e usufruto do “legado que transcende as paredes que nos cercam”, das Artes e da Ciência, por exemplo, construídas pela nossa civilização.
Não é pouco coisa o que se propõe Ronai Rocha. Não sei como os teóricos da educação de orientação freiriana e desconstrutivista reagirão à provocação, mas entendo que o questionamento apresentado é pertinente. E, em especial, o diagnóstico da escola quanto as suas falhas no ensino dos conhecimentos básicos calará fundo os professores habituados ao chão da sala de aula. A partir daí, entendendo que até aqueles que ainda amam Paulo Freire lerão esse livro como uma provocação instigante. Um livro que se propõe a reorganizar os termos da discussão educacional, priorizando a revalorização do currículo e da prática pedagógica, assim como apontando as disposições necessárias para a retomada da escola das suas funções essenciais. Aparentemente uma proposta conservadora – a de recolocar a escola como capaz de organizar e transmitir o grande legado da nossa civilização (a tão mal falada Civilização Ocidental). Mas, como o autor indica, até para que prosperem propostas revolucionárias de educação e sociedade é necessário que a escola funcione, que o professor ensine e que os alunos conheçam e saibam usufruir aquilo que está muito distante de suas experiências cotidianas, como o Teorema de Pitágoras, a obra de Machado de Assis e as Bachianas de Villa Lobos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Colônia Cecília

Entre 1890 e 1894, funcionou uma colônia anarquista no município de Palmeira, no Paraná, a cem quilômetros de Curitiba. Aparentemente, era uma colônia como tantas outras, criada por emigrantes europeus, que atravessavam o Atlântico subsidiados pelo Governo brasileiro para substituir a mão-de-obra escrava ou ocupar as regiões consideradas despovoadas.
As colônias de imigrantes europeus tinham como base a propriedade privada e a organização familiar, mas essa – batizada Colônia Cecília – norteava-se por outros princípios: a propriedade coletiva e a família comunal. Uma sociedade anárquico-comunista, criada com a pretensão de desconstruir “toda forma doméstica de relações sexuais”, estabelecer o amor livre, visto que a família era considerada “o principal sustentáculo do regime capitalista” (do egoísmo e da apropriação privada de riquezas) e “incompatível com a vida socialista”.
Seguramente um caso único entre as colônias criadas no Brasil, na época da Grande Imigração Europeia. Um belo e fracassado empreendimento experimental, que durou quase quatro anos. Chegou a comportar 300 colonos, mas a debandada era constante e geral. Poucos aguentavam. A situação material era precária, a produção coletiva não dava conta do recado, as assembleias deliberativas eram constantes e, ao que tudo indica, havia necessidade de muito apego ao ideário anarquista para aguentar o rojão.
O projeto de família comunal não se concretizou e, em 1893, num relatório a respeito da vida na colônia, apenas dois casos de amor livre foram registrados – os dois devidamente apresentados e discutidos em assembleia. Um deles – entre Giovanni, Eleda e Aníbal – apresentado minuciosamente num instigante texto intitulado “Uma história de amor na Colônia Cecília”, de autoria de um dos participantes do caso, Giovanni Rossi (por sinal, o principal líder e ideólogo da colônia). Texto instigante, ao menos, para aqueles que acham (santa ingenuidade, dirão alguns) que é possível transformar as relações amorosas, consolidadas pela tradição e pelas características psicológicas dominantes de homens e mulheres.
Encontrei o texto, nesse último final de semana, bem guardado em uma das minhas estantes – bem guardado para uma leitura num dia que nem sabia qual. O texto faz parte de um conjunto de quatro opúsculos escritos por Giovanni Rossi, traduzidos e organizados por Mariza Vicentini e Miguel Sanches Neto, publicados pela Imprensa Oficial do Paraná, em 2000. Miguel Sanches Neto, por sinal, em 2005, lançou um fabuloso romance chamado “Um amor anarquista”, baseado nesse episódio.
Elucidativos e instigantes os textos de Giovanni Rossi, em especial o que enfoca a sua história amorosa com Eleda (do qual extraí os trechos colocados entre aspas apresentados nesta crônica). Giovanni narra seu caso amoroso com objetividade e o vê também como um experimento científico. Para ele, a revolução social provocaria a emancipação econômica e, obrigatoriamente, a emancipação afetiva. A colônia anárco-comunista propiciaria essa emancipação e, dessa maneira, o “problema do amor” se encaminhava para “uma solução espontânea, lógica e necessária”.
Um otimista (e talvez um simplista em relação à natureza humana), esse Giovanni Rossi, agrônomo e militante anarquista. Viveu a experiência da Colônia Cecília até 1894 (quando esta se enquadrou ao padrão normal das colônias) e depois passou a exercer carreira de agrônomo no Rio Grande do Sul (em Taquari) e Santa Catarina. Voltou para a Itália em 1907, junto com Eleda e duas filhas, e talvez tenha continuado apostando na possibilidade do socialismo democrático, do amor livre, da família comunal, e de outros delírios do gênero. Morreu em 1943, aos 86 anos de idade, e não consegui informações sobre essa fase final da sua vida.

Após publicar o comentário acima, um leitor me indicou o esclarecedor artigo de Isabelle Felice, "A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi" (1998), facilmente encontrável no Google. Entre outras coisas, fica-se sabendo que no triângulo amoroso Giovanni, Eleda & Anibal havia uma quarta pessoa, o jovem Jean Géléac, pai do primeiro filho de Eleda - e que o anarquista Giovanni, após voltar a Itália, jamais comentava com os filhos o ousado empreendimento que tentara no Brasil.

sábado, 15 de julho de 2017

O ronco do búgio

No início dos anos 70, acampei diversas vezes na Praia do Tigre – uma pequena praia no atual Parque Estadual de Itapuã, na beira da Lagoa dos Patos. Naquela época, o parque não existia. Era um projeto. Na Praia Grande, apenas uma casa. Um bar. E o dono prevendo grandes oportunidades. Era o lugar onde comprávamos cachaça.
Depois da Praia Grande, entrávamos mato a dentro e caminhávamos um tempão até chegarmos à Praia do Tigre. Um lugar só acessível a mochileiros. Ou, pelo menos, era assim quando fui lá pela última vez (no verão de 1976). Deve ter mudado muito de lá para cá.
No alto dos morros de Itapuã, havia acampamentos de guarani e os índios não eram de muita conversa. Um dia nos perdemos no mato, pedimos auxílio a eles e o preço foi muito alto: todas as nossas facas e mais alguma coisa. Achamos caro demais e fomos buscar ajuda nos pescadores da Praia do Sítio – que prontamente nos levaram até o nosso acampamento. Não lembro o que cobraram em troca. Lembro que sentaram conosco, em torno do fogo, e beberam, conversaram e depois foram embora.
Como se vê, lugar de muita aventura para a garotada urbana que éramos. Às vezes os bugios faziam um barulhão danado no mato, saíamos para encontrá-los e eles fugiam. Animais ariscos, nos contaram. Os índios costumavam caçá-los. Os bugios sentiam de longe o cheiro dos humanos (índios e outros) e escapuliam.
No último final de semana, matei a vontade de ver os bugios em estado selvagem (ou próximo disso), no Parque Witeck, no município de Novo Cabrais (perto de Cachoeira do Sul). O parque é conhecido pela sua riqueza vegetal e, realmente, é magnífico. Mas os bugios roubaram a cena. Me conquistaram. Faziam uma barulheira tão grande que cheguei a pensar que fossem ruído de máquinas trabalhando. Não eram. Os bugios roncavam intensamente em cima das árvores e pude fotografá-los. Uma realização.


Eram animais habituados aos humanos. O cheiro de gente não os assustava, pois, diferente dos guarani que habitavam os morros de Itapuã, os humanos do Parque Witeck não os caçam para comer. Eles são parte da belíssima paisagem, reconstruída e ajardinada pelos proprietários. Os bugios podem roncar à vontade – para demarcar território, me explicaram – e não se importam que um fotógrafo amador prepare o zum de sua máquina para captá-los.
Levei mais de quarenta anos para fazer a foto de um bugio.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Histórias de viajantes e de peregrinos

Histórias de viagem tem me fascinado. Histórias de peregrinos também.
Outro dia, navegando na Internet, li o relato de uma viajante que achou admirável o guia turístico falar horas à fio pelas estradas da Escócia. Não entendi, porém, se a admiração era algo elogioso ou não. Afinal, um guia de viagem falando sem parar, comentando a paisagem, os costumes locais, fazendo piadas, é insuportável. Já vivi isso e não gostei. Felizmente era depois do almoço e dormi. Nem ouvi metade da chatíssima conversa, explanação e anedotário que durou entre Cáceres e Sevilha, no sul da Espanha.
Estávamos numa caminhonete de três bancos, não passávamos de oito turistas e durante o almoço combináramos que não deixaríamos o homem falar. Mas, na hora em que a viagem recomeçou, as duas argentinas que estavam no primeiro banco junto ao guia (que também era o motorista) não mantiveram o trato e deram trela ao homem. Foi uma desgraça. Minha mulher chegou zonza em Sevilha e, por intervenção dela junto à agência de viagem, dois dias depois seguimos nosso percurso pela Andaluzia com um guia mais educado, comedido nas informações e comentários.
Quanto aos peregrinos, admirei (positivamente) a criatividade de Alexandre Pires, que decidiu refazer os caminhos de São Francisco de Assis, entre as cidades de Dovadola e Assis, de skate, dois anos atrás. Um modo original de peregrinação. Claro que ele não fez todo o caminho de skate, mas, quando dava, lá estava ele em cima do seu “aparelho esportivo” deslizando pelas estradas italianas. Um percurso de quase 300 quilômetros, como ele registra no livro 18.4, o caminho: nos passos de São Francisco de Assis (Porto Alegre, BesouroBox, 2015), junto com excelentes fotos. Uma viagem com objetivos de reflexão espiritual e também de captação de recursos financeiros para fins caritativos – no caso, para a Casa de Acolhimento FASC, em Porto Alegre.
Alexandre Pires conta que viveu uma crise profunda a partir dos 35 anos, decorrente de excesso de trabalho e descuido com a vida conjugal, e que um livro sobre São Francisco o ajudou a encontrar rumos mais humanitário para sua vida. Decidiu, então, que no dia do seu aniversário de 40 anos (o 18.04 do título do livro) ele o comemoraria nas trilhas de São Francisco. Com a experiência de empresário que era, contatou jornalistas e fotógrafos, utilizou de marketing nas redes sociais e criou um projeto compartilhado com milhares de pessoas. Sua peregrinação não era para ser solitária e contou com fotos e filmagens de profissionais da área. Na primavera europeia de 2015 ele concretizou o seu projeto, dividindo-o com seus apoiadores. Segundo ele, o resultado foi a conquista de “certo equilíbrio”, além de ganhos financeiros para a Casa de Acolhimento FASC e palestras sobre o fomento turístico na região central da Itália.
Uma peregrinação original, essa de Alexandre Pires – que, segundo ele, provocou uma “transformação única” em sua vida. Não sei se a maioria dos peregrinos conseguem isso.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Disciplinar e restringir

Assisti no noticiário da TV que a jovem prefeita de Roma, Virginia Raggi, estabeleceu um regulamento a respeito do uso das fontes históricas da cidade com pesadas multas aos infratores. Segundo as notícias que busquei no Google, está proibido o acampamento ao redor das fontes, assim como o consumo de bebidas, alimentos, banhos, lavagem de roupas, e também a utilização das fontes como lixeira ou local para escalar. A medida vem acompanhada da intenção de restringir o acesso de imigrantes e estrangeiros à capital da Itália e, pelo jeito, não visa apenas disciplinar os inquietos turistas. “Impossível pensar em mais estruturas de acolhimento”, disse a prefeita, indicando a sua preocupação com os imigrantes africanos que ocupam as ruas da capital da Itália.
Quando visitei as famosas fontes históricas de Roma – Fontana de Trevi, della Barcaccia, dei Quattro Fiumi (Quatro Rios) –, era inverno e não havia ninguém nadando ou dando banho no cachorrinho. Nem vi ninguém acampado nas imediações. Na Fontana de Trevi, o número de visitantes era enorme – visivelmente turistas – e nem pensei em cumprir o ritual de chegar na borda e jogar uma moedinha. Meus colegas que fizeram isso precisaram de muita paciência para chegar até a beira da fonte. Eu fiquei de longe, fotografando.



Numa outra ocasião, batendo pernas pelo bairro Salustiano – procurando a Igreja de Santa Maria della Vittoria, local da escultura de Bernini, “Êxtase de Santa Teresa” –, me deparei com a Fontana dei Mosè e penso ter visto o modo como os nativos utilizam suas fontes. Era início da noite e um bando de adolescentes estava sentado nas bordas da “piscina” da fonte, rindo, brincando, e alguns dando voltas em torno das esculturas dos felinos, para beber a água que sai de suas bocas. Águas cristalina, limpíssima, imaginei.
Fiquei de longe observando e aqui abaixo reproduzo foto que catei no Google, onde se vê a majestosa fonte e suas leoas. Um frio danado (era final de inverno) e aqueles jovens se comportavam como se estivessem numa noite de verão. Adolescentes parecem ser iguais em todos os recantos do mundo, pensei.

As medidas da Prefeitura bem indicam a preocupação de preservar o patrimônio de Roma - uma intenção louvável, quando se sabe que aumenta o número de depredações causadas por turistas -, mas parece que o novo regulamento está embutido num projeto mais amplo de organização do espaço público. Não apenas disciplinar o seu uso, mas restringir também a "qualidade" dos usuários. Um problema e tanto quando lembramos - e muitos italianos lembram disso - que a Itália resolveu os seus problemas sociais, no final do século XIX e ao longo do XX, exportando seus pobres para outros países. Na maioria dos casos, esses emigrantes italianos foram acolhidos - como ocorreu nos Estados Unidos, Brasil e Argentina - e puderam dar origem à proles numerosas.