domingo, 8 de outubro de 2017

Lisboa turística

Estou lendo Lisboa em Pessoa, um roteiro turístico inspirado num texto de Fernando Pessoa e escrito por João Correia Filho (Editora Leya, 2011, 376 p.). Pessoa era um lisboeta entusiasmado por sua cidade e no início da década de 1920 preparou uma sugestão de passeio pela capital portuguesa: Lisboa: o que o turista deve ver. Com base nesse texto (que permaneceu inédito até a década de 1990), o jornalista e fotógrafo brasileiro João Correia Filho preparou este Lisboa em Pessoa, com diversas sugestões de roteiros para bater pernas e se encantar com o mundo lisboeta. Vai ser meu guia na próxima viagem.

Já estive em Lisboa mais de uma vez e confesso que não conheço nem um terço do que “o turista deve ver”. Uma vez jantei no Teatro São Carlos, no Chiado, e tinha a vaga noção de que Fernando Pessoa nascera numa casa das proximidades. Planejara que depois do jantar caminharia no entorno do teatro, procurando a tal casa, mas um doido tentou vender um quadro para minha mulher, ficou nos esperando na porta do restaurante, e tivemos que sair apressados. O garçom nos ajudou a despistar o pintor e fomos quase correndo em direção a Rua Almeida Garret para pegarmos um táxi. A casa do poeta ficou para outra oportunidade.
Voltei ao Chiado outras vezes, mas nunca mais fiz a caminhada em torno do Teatro São Carlos, procurando a casa de Pessoa – a qual, segundo Correia Filho, tem apenas uma pequena placa anunciando que ali nasceu o poeta. A Casa Fernando Pessoa, um centro cultural dedicado ao mestre de “Tabacaria”, fica mais adiante (no bairro Estrela) e dessa vez pretendo visitá-la (Rua Coelho da Rocha, nº. 16).
No itinerário que contempla a visita a Casa Fernando Pessoa, Correia Filho propõe uma longa caminhada, iniciando no Parque Eduardo VII (na frente do qual me hospedei na primeira vez que estive em Lisboa), passando pelo Aqueduto das Águas Livres e chegando até a Basílica Estrela. Uma caminhada e tanto que, ao menos agora, estou disposto a cumprir. No entanto me conheço, sou daqueles turistas que não seguem os roteiros à risca. Às vezes paro num parque e fico fotografando (o que pode acontecer no Parque Eduardo VII ou no Jardim Estrela, outro local do itinerário). Ou então entro numa igreja e divido meu olhar entre as imagens sacras, os frequentadores devotos e as pacientes faxineiras esfregando o chão ou tirando o pó dos altares. Os santos portugueses são belíssimos, muito expressivos, as Nossas Senhoras, encantadoras, que não há como não parar e se esquecer do mundo.

Anoitei o passeio na agenda – Parque Eduardo VII até a Casa Fernando Pessoa –, mas sei que posso me perder no caminho. Se não chegar antes da Casa Fernando Pessoa fechar as portas (às 18 horas), direi a mim mesmo os versos de um de seus famosos heterônimos (Álvaro de Campos): “Nada me prende a nada. / Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. / [...] / [E] vivo num sonhar irrequieto” (Lisboa revisited, 1926) – e estarei perdoado, quem sabe.

Um comentário:

  1. Lisboa é ótima, por isso, segundo os alfacinhas, é Lisbótima.
    Bom seria nos encontrarmos por lá.
    Um abraço
    Vaz

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