segunda-feira, 16 de novembro de 2020
As voltas que o mundo dá (memórias de professor).
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Althusser e sala de aula (memórias de um tempo de formação)
O filósofo marxista Althusser era muito lido no tempo em que cursava História, na UFRGS, nos anos 70. Seus livros não faziam parte da bibliografia de nenhuma disciplina nem eram citados em sala de aula, mas liamos. O DAIU (Diretório Acadêmico dos Institutos Unificados) certa vez mimeografou um dos seus ensaios e o debatermos num grupo de estudos, aos sábados, pela manhã.
O curso de História funcionava próximo ao Parque da
Redenção, o AI-5 estava em vigor e tínhamos um colega agente do DOPS, que acompanhava
as atividades do diretório. Ele não participava desse grupo de estudos sobre
Althusser, mas nos observava com atenção (lia o mural de avisos do diretório) e
nos sinalizava a respeito do lugar que ocupávamos no mundo (não sem alguma
ironia ou mesmo deboche).
Meu entendimento de Althusser não era dos melhores, eu
seguia com dificuldade aquela conversa toda, mas nem por isso com menos entusiasmo.
Encerrada a leitura daquele ensaio (não recordo o título, mas era sobre a
leitura de O Capital), iniciei a leitura de um de seus livros mais
famoso: Os aparelhos ideológicos do Estado (que comprei na CEPAL, uma
cooperativa de estudantes que havia na Avenida André da Rocha).
O texto foi outra pedreira difícil de enfrentar, mas
creio ter entendido o sentido geral, especialmente o que se referia à escola,
essa instituição para a qual eu me preparava para atuar. O desânimo foi total. Se
Althusser estava correto na sua abordagem, o que eu iria fazer como professor:
ser mero reprodutor da ideologia do Estado burguês? Isso não estava nos planos.
Um dia, o professor Elmar Manique da Silva nos ouviu conversando
sobre isso em sala de aula, num trabalho de grupo (a respeito da Revolução Industrial,
o estabelecimento do modo de produção capitalista), puxou uma cadeira, sentou
entre nós e disse e repetiu para que entendêssemos bem:
– A escola não é uma instituição fechada como
Althusser entende. Não é simplesmente um aparelho de reprodução dos valores
capitalistas e nós, professores, meros instrumentos para a perpetuação do domínio
do Capital.
E continuou:
– A escola é uma instituição aberta a tensões e lutas entre
as mais diversas forças ideológicas, nem todas em sintonia com status quo,
e há muito o que fazer dentro da escola.
Foi um alívio.
Quando iniciei a lecionar (em 1978, num grupo escolar em
Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre), Althusser ainda era uma
referência, mas já desconfiava que a escola era muito mais do que um aparelho
ideológico monolítico.
Levei mais alguns anos a entender, de fato, a dimensão
da instituição da qual estava inserido – e professor de História ainda por cima,
isto é, de conteudos carregados de ideologia. Constatava que não era uma
simples engrenagem de um maquinário de reprodução dos valores capitalistas e,
sim, alguma coisa viva, atuante, e os alunos igualmente. A gurizada (era para a
quinta série do primeiro grau que eu lecionava) revelava-se portadora de um universo
próprio e reagia ao que era solicitado (leituras, exercícios, prova). Alguns faziam
cara feia, protestavam, e eu ia me ajustando ao ritmo que eles propunham (e
também às orientações da direção da escola, claro). Me ajustava e aprendia.
Creio que naqueles dois anos em Alvorada alguma coisa foi mudando dentro de mim. Os textos de Althusser continuavam guardados na estante, sempre incomodando, querendo me reduzir a um autômato do filme Metrópolis (do Fritz Lang, 1927), os operários que marcham e trabalham, sem expressão alguma no rosto, meras engrenagens de uma grande cidade soturna.
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Cena do filme Metrópolis. |
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Dando uma banda na Champs Elysées
Alguém já escreveu que a viagem continua, mesmo depois
de voltarmos para casa. Acho que foi o poeta Celso Gutfreind. Eu continuo
viajando. Há um ano atrás, dei uma banda pela Avenida Champs Elysées e até hoje
lembro o que vi, o que senti.
Cheguei a Paris vindo de Roma, enturmei com um grupo de
professores e alunos da UFN (Universidade Franciscana) e cumprimos um extenso
programa de visitas a locais de moda e de arte (o objetivo da excursão). O
museu Yves Saint Laurent, a Fundação Louis Vitton, o Louvre, o D’Orsay, uma
exposição sobre Maria Antonieta, outra sobre Van Gogh, o Palácio de Versalhes e
assim por diante. A Catedral de Notre Dame estava fechada, devido ao incêndio
do ano passado.
No primeiro dia, após a visita ao antigo atelier do
estilista Yves Saint Laurent, saímos pela margem do Sena – Bebeto, Rose, Elsbeth,
Lia e eu – a ver o que a cidade oferecia, naquele ensolarado e frio dia de outono.
Guiados pelo professor Bebeto, o único que conhecia Paris, fomos descobrindo a
cidade. A ponte Alexandre III sobre o Sena, a Avenida Winston Churchill (de um
lado o Grand Palais; do outro, o Petit Palais) ocupada por sofisticados carros
de food truck, com mesas e bancos sobre o asfalto. Já passava do meio-dia e a fome
bateu.
Escolhemos pratos de frutos do mar (com camarões,
salmão, ostras) e champanhe em taças de plástico. Nada mal para brindar a Cidade
Luz, que cada um de nós enxerga a partir de um imaginário infinito, aonde cabe
uma trilha sonora de Stravinsky, outra de Gershwin, um romance de Balzac, outro
de Sartre ou Françoise Sagan, um filme de Godard, outro do Woody Allen, e por aí vai.
Terminada a refeição, seguimos em direção a Champs
Elysées e lembrei do filme Paris está em chamas, filmado em P&B, uma
ficção ambientada no final da Segunda Guerra Mundial, quando os aliados chegam a Paris...
Com cenas de documentário: Charles de Gaulle, cercado pela multidão, caminhando
pela famosa avenida. Vá entender as lembranças de um professor de História!
Filme assistido na década de 60, quando eu era guri de ginásio e cantava a
Marselhesa nas aulas de francês.
Mas viajar é assim: a imaginação vai junto; os filmes, os livros e os discos também. E apesar de vibrante, fascinante, a Avenida Champs
Elysées é também assustadora. A riqueza grita. Lojas de grifes famosas
escancaram suas vitrines (Dior, Louis Vitton), há pequenas filas para entrar, e
os seguranças (engravatados) acompanham atentos o movimento. E logo ali, quase
vazia, uma perfumaria árabe (Arabian Oud), a respeito da qual a Rose me
explica:
– Aqui se vendem frascos de mil dólares.
Paramos na vitrine, o vigilante até parece não nos
ver, olhamos, rimos (“Isso não é pra nós”) e seguimos adiante. E vemos, ajoelhada
na calçada, o corpo estendido, a cabeça coberta, uma mendiga estender um copo de
café e pedir esmolas. Chocante. A Rose pega minha máquina fotográfica e
registra a cena. A presença sombria daquilo que os estudiosos franceses
apontam: a desigualdade social se multiplica, Paris se torna um território dos
muitos ricos (decorrente da globalização, da desindustrialização, da diminuição
dos setores médios) e a massa dos muito pobres se expande, alcançando dimensões
que o Estado do Bem Estar Social desconhecia.
Mas não estávamos ali para fazer sociologia. Apenas passear,
flanar como personagens baudelairianos (“De que valem as leis do que é justo ou
injusto?”, escreveu o poeta, em "Lesbos"), e arrisco dizer que éramos como o lírico Baudelaire,
escolhidos pelos deuses para cantar os encantos do mundo.
Peregrinamos até o Arco do Triunfo, devidamente
embasbacados como convém a quem chega a Paris, e depois regressamos pela mesma calçada da Champs Elysées. As mesmas vitrines, cafés. As mesmas árvores, mendigos. Voltamos a Avenida Winston Churchill (o Grand Palais de um lado, o Petit Palais
do outro), a ponte Alexandre III, e compramos bilhetes para navegar no Bateau
Mouche.
Mas isso já é outro passeio, outro filme, outras
impressões. Uma crônica para outro dia.
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
Escola partida
Não é um livro fácil, esse que o professor Ronai Rocha escreveu: Escola partida: ética e política na sala de aula (Editora Contexto, 2020, 160 p.). E a dificuldade não vem da linguagem nem da apresentação dos argumentos. Afinal, é livro de linguagem clara, elegante e precisa quanto aos conceitos, com tiradas de humor e também de poesia. Uma leitura deliciosa, que, ao menos no meu caso, provocou inusitadas gargalhadas. Difícil não rir de certas provocações do autor direcionadas aos educadores progressistas.
A dificuldade vem da disposição inicial do autor:
escutar os argumentos do Escola sem Partido e leva-los à sério. Mesmo
considerando equivocadas as premissas do movimento (o modo de articular moral e
religião), o autor considera o Escola sem Partido um sintoma do que
ocorre na escola brasileira: a presença excessiva do debate político na sala de
aula. Uma presença que provoca chateação em alguns pais de alunos e coloca
uma questão urgente: a de discutir a respeito da ética e da política em sala de
aula e, dessa maneira, a de pensar um código de ética do professor, capaz de
resguardar as crianças e os adolescentes da presença desse assunto que deve ser
exclusivo dos adultos: a política.
Um verdadeiro terreno minado, esse em que o autor
entra. Ora dar ouvidos a um movimento sabidamente instrumentalizado pelo
neofascismo! – escutei numa livraria. Ora querer afastar a política da sala de
aula e fazer da escola um campo alheio às discussões que incendeiam o País!
“O Brasil está partido”, afirma o autor, e é “no meio
dessa tragédia que estamos vivendo”. Essa divisão envolve a escola, adentra a
sala de aula e o autor entende que foi longe demais. Política é tarefa de adultos
em relações de igualdade e não entre adultos-professores e crianças-alunos,
em relações claramente assimétricas. A partir daí, Ronai Rocha postula a defesa
da escola como “um território neutro, imparcial, porque o coração das crianças
é sempre grande demais para abranger apenas uma igreja ou uma pátria”.
Em defesa da sua proposta, o autor se vale das
palavras inspiradas de Cecília Meireles (que militou a favor da Escola Nova,
nas décadas de 1930 a 50): “a escola tem de ser o território mais neutro do
mundo. Pode ser que os homens de hoje tenham o direito de combater outros
homens de hoje. Mas, porque assim é, não vai se admitir que as crianças de hoje
devam preparar-se, desde já, para, quando forem grandes, continuarem as lutas que
seus pais não tiveram tempo de concluir”.
Uma proposta polêmica, que tanto incomoda os professores progressistas (que entendem a educação como ato político) quanto os conservadores (que almejam as afirmações da moral e religião dominantes norteando a escola). Uma proposta muito distante da sensibilidade atual, tanto à esquerda quanto à direita, mas nem por isso menos necessária – caso se pretenda uma escola que cumpra o seu papel essencial: o de transmitir os conhecimentos necessários para o jovem adentrar no mundo adulto. Uma escola que ensine e eduque, antes de politizar as questões do seu tempo. Uma escola capaz de acolher as crianças e os adolescentes de diferentes orientações religiosas, morais e políticas.
sábado, 26 de setembro de 2020
O poeta John Keats (crônica de viagem e cinema)
Assisti ao filme Brilho de uma paixão, de Jane Campion, que aborda a relação amorosa vivida entre John Keats e Fanny Brawne, e lembrei de Roma, isto é, da casa em que o poeta morou em Roma. Um prédio de três andares na Piazza di Spagna, ao pé direito da Scaliata di Spagna (Escadaria Espanhola). Nessa casa, Keats viveu os últimos meses de sua vida (de novembro de 1820 a fevereiro de 1821). Tinha 25 anos quando morreu.
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Piazza di Spagna. Ao fundo, a Scaliata di Spagna. À direita, o prédio onde morou John Keats. |
Atualmente, funciona no local o Keats-Shelley Memorial
House. Segundo o texto de divulgação do Memorial, o seu quarto é um “santuário”
dedicado à sua trágica história e extraordinário talento. Um santuário
recriado, pois nenhum dos móveis é original do período em que o poeta ali
esteve – doente e acamado na maioria dos dias, devido à tuberculose.
Não visitei a casa. A Piazza di Spagna era um dos meus
caminhos, mas quando decidi entrar, estava fechada. Não acertei o horário. Deu,
no entanto, para ir ao Caffè Greco, ali perto, que o poeta frequentou. O café
(em funcionamento desde 1760) é muito requisitado por turistas (vi dezenas de
japoneses fazendo fila na porta) e aprendi a esperar o final do dia para
frequentá-lo, hora em que diminui consideravelmente o público. Tomava café no
balcão, acompanhado de um doce delicioso que não lembro o nome.
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Caffè Greco, na Via Condotti. |
O filme de Jane Campion é uma reconstituição belíssima (e ficcional, claro) da relação entre Keats e Fanny e me foi indicado (num curso virtual sobre
história da arte) como exemplar do ideal de amor romântico: platônico e
idealizado. Keats conhece Fanny em 1818 (ele com 22 anos; ela, 18) e o rapaz acaba
de publicar Endymion. Os poemas provocam profundo impacto na moça e ela
lê, extasiada, versos como esses:
“O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve
Cheio de sonhos de calmo alento.”
Keats não era de família rica, havia deixado a
Medicina para se dedicar à literatura e não tinha rendimentos para sustentar
uma família. A mãe de Fanny avisa a filha da condição do poeta, desencorajando-a
de se afeiçoar ao rapaz. Mas a moça insiste e a mãe deixa rolar. Um amigo
também avisa o poeta que ele não tem dinheiro para casar (para prover a moça de
renda francesa, segundo o personagem do filme), porém não é ouvido. O jovem
casal se deixa embalar pelas afeições, amores (sempre platônico), idealizações de felicidade, muita poesia e
não tem volta. É comovente.
A mãe, da sua parte, manobra ternamente a filha, protela
o casamento para depois da viagem do poeta a Roma (tudo isso segundo o filme,
mas de acordo com o que indicam os biógrafos), intuindo que o rapaz de saúde
delicada não durará muito tempo.
No filme, o poeta não parece muito frágil de saúde
(está até bem corado), mas, em 1820, quando noiva secretamente com Fanny, a tuberculose
está avançada e os amigos temem o pior. Tanto é verdade que são esses amigos
que financiam sua viagem e estadia em Roma, com esperanças de que o inverno
menos rigoroso da Itália ajude o rapaz.
Doce ilusão dos amigos. A doença avança durante a
viagem e a poeta morre quatro meses depois. No filme, nenhuma alusão à consumação do casamento e a ultrapassagem da barreira platônica. Na cena final, num plano geral da Piazza di Spagna, quatro homens de roupas escuras carregam um caixão sobre os ombros, descem alguns degraus da Escadaria Espanhola e conduzem o corpo até um carro fúnebre.
Na Piazza di Spagna, caminhando entre o Memorial dedicado
a Keats e o Caffè Greco, eu imaginava que o poeta fora um desses ingleses que
gozaram as delícias das viagens culturais pela Itália, o famoso Grand Tour... Ledo engano. Eu só conhecia a sua poesia e o filme me deu outra
visão da sua trajetória.
Em Roma, Keats pouco gozou os prazeres da cidade. Definhou
(passou boa parte do tempo, acamado), escreveu e sonhou. E talvez tenha escrito
uma daquelas cartas maravilhosas endereçadas a Fanny, que certa vez escutei uma
colega de mestrado (numa disciplina de Teoria da Literatura) se referir.
Obs.:
O filme Brilho de uma paixão tem como título original “Bright Star” e remete
a um poema de Keats, endereçado a Fanny. O roteiro e a direção (primorosos) são
Jane de Campion, com Abbie Cornish e Ben Whishaw nos papéis principais.
Austrália / Reino Unido, 2009, 119 min. No catálogo do Now, dublado.
Os
versos de John Keats citados na crônica são tradução de Augusto de Campos.
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
Rua da Praia
David Coimbra produziu uma bela crônica sobre a Rua da Praia de décadas atrás – “Uma nostalgia de Porto Alegre” –, na edição de Zero Hora do último final de semana (dias 12 e 13 de setembro). Suas lembranças de menino passeando com a mãe, professora do Magistério Estadual, no centro da cidade e os dois indo lanchar nas Lojas Americanas, por volta de 1970. Comer um sanduíche cortado em triângulos e beber o suco de laranjas espremidas na hora.
Naquela época, a escada rolante das Americanas ainda
era novidade, a Galeria Malcon, um local chique (“onde as gatinhas ondulavam de
minissaia”, diz o cronista), a Casa Masson tinha fama de classuda e a Livraria
do Globo reunia os intelectuais ilustres da cidade.
Acho que conheci essa Rua da Praia glamurosa que o
cronista descreve. Cheguei a Porto Alegre em 1967, com onze anos de idade e me
embasbaquei com tudo isso. Cumpri o roteiro obrigatório de todos os
interioranos e fui conhecer a escada rolante das Americanas. Passeei pela Rua
da Praia com pai, mãe e irmãos, tal qual fazíamos em Pelotas, na Rua XV de Novembro,
mas logo meus pais perceberam que as duas cidades tinham ritmos diferentes. Não
dava para repetir os mesmos hábitos.
Porto Alegre ganhava um novo padrão urbano e os
porto-alegrenses logo nos avisaram disso. Em 1970, a Carris retirou os bondes de
circulação e penso que esse foi um ponto de virada. Os bondes indicavam uma Porto
Alegre tradicional, provinciana, e não se adequavam aos ares de metrópole que a
cidade pretendia.
“Uma cidade que não existe mais”, conclui David Coimbra.
Existe uma outra Porto Alegre, acrescento, não menos fascinante. Diferente,
isso sim. Uma Porto Alegre e uma Rua da Praia que eu acompanhei mudar ao longo
dos anos 70 e 80.
Vim para Santa Maria em 1991 e penso que essa distância
me permitiu ver a Capital com olhos de simpatia. Sem viver o seu cotidiano, me
tornei um visitante ocasional e sou desses que não perdem a oportunidade de
descer “a colina da Praça Dom Feliciano” (expressão usada pelo cronista) e
cruzar a Rua da Praia até a Casa de Cultura Mário Quintana.
Frequento o café do segundo andar da antiga Livraria
do Globo (hoje o prédio é ocupado por uma filial das Lojas Renner) e gosto de
observar a rua através das suas janelas. Observar, lembrar e constatar: Porto
Alegre se reinventa.
A fauna humana continua variada e tanto se vê os
apressados, os molambentos quanto os que caminham calmamente (talvez flanando como antigamente) e os engravatados, as senhora bem vestidas, as jovens
faceiras. Na esquina da Rua da Praia com a Borges – a Esquina Democrática (ainda
se usa essa expressão?) – pode-se observar o vendedor ambulante e o militante
político, ambos vendendo o seu peixe. E arrisco dizer que tudo continua
acontecendo na rua da Praia. Inclusive crianças de mãos com a mãe ou o pai,
embasbacadas com o movimento, os prédios, as vitrines, sonhando com um
sanduíche e um suco de frutas... numa lancheria que eu sequer faço ideia.
terça-feira, 8 de setembro de 2020
A eterna Inês de Castro (crônica de viagem)
Em 2017, visitei o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e fiquei impactado com o quadro “Súplica de Inês de Castro”, de Vieira Portuense, um pintor lusitano. Uma tela que tematiza um dos episódios do caso político-amoroso vivido por Inês de Castro e D. Pedro, no século XIV.
"Súplica de Inês de Castro", de Vieira Portuense. |
Na tela, Inês suplica ao rei Afonso IV (avô de seus
filhos) pela vida das crianças. Essa é a explicação colocada ao lado do quadro.
Inês é amante do príncipe herdeiro (D. Pedro), vive em Coimbra (no Paço de
Santa Clara) e tem três filhos. Na cena do quadro, ela não pede pela sua vida, pois
na certa entende que foi considerada uma ameaça à Coroa, sua morte está decidida
(pelo rei e seus conselheiros) e dessa ela não escapa.
A pintura é de 1803, “afetada” por uma “teatralidade
quase operática” (texto da legenda do quadro, no museu), as roupas e a mobília
não correspondem ao período dos acontecimentos (o século XIV, o ano de 1355),
mas a dramaticidade é tocante.
Os olhos e as mãos de Inês são veementes, o rei está
comovido, e ao fundo dois homens sombrios observam a cena. Provavelmente dois
aristocratas, conselheiros do rei, que, com suas espadas, darão cabo da vida da
mulher. Os filhos serão poupados.
Não sei o motivo desse quadro ter me impressionado tanto
e de não o esquecer esses anos todos. Talvez porque represente uma das
histórias mais famosas do repertório lusitano. Dessas que escutei na juventude (no colegial, na universidade) e sobre a qual conversei com minha mãe (neta de português e que muito cultivava as coisas do mundo luso).
Parei diante do quadro e a comoção que vivi deve ter
sido semelhante à que os portugueses experimentaram, quando a tela foi
reapresentada em Lisboa, depois de décadas sumida. O quadro constou entre os
tantos objetos que a Família Real levou para o Brasil e ficou por
muito tempo no palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, inclusive durante o reinado de D.
Pedro II. Depois sumiu.
Reapareceu em Paris, num leilão, e foi arrematado pelo
Estado português pelo valor de 257 mil euros. Quando foi exposto pela primeira
vez no Museu de Arte Antiga, em 2009, teve 8.200 visitantes no primeiro mês - o que bem revela a permanência da comoção dos portugueses com o destino da infeliz amante.
Essa semana, li o romance de João Aguiar, Inês de Portugal,
que aborda o episódio e lembrei do quadro. É mais uma das tantas obras de ficção (desde Os
Lusíadas) que tematiza o caso. Adquiri o livro de João Aguiar logo após
sair do museu e não tinha lido até então.
Romance curto, enfoca a fúria de D. Pedro já estabelecido
como rei (com o título de D. Pedro I), disposto a vingar a morte da amante e obrigar
a corte (a mesma corte que concordou com o assassinato) a reconhecer Inês como
rainha. O translado do corpo da amante de Coimbra a Alcobaça, o enterramento em
local oficial de reis e rainhas, a perplexidade dos poderosos de então, os aristocratas e o alto clero. Mas sem a cena do beija-mão do cadáver (episódio talvez
improvável).
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
O Capa Preta, o Coisa Ruim: Satanás
Em 1972 tive um encontro com Satanás. Ou melhor, o Coisa Ruim surgiu diante de mim como uma possibilidade real.
– O Demônio existe – me disse a Irmã Janete numa
conversa privada, no pátio do Colégio Santa Clara, em Porto Alegre.
Ela me contou como ele tentara diversas freiras num
convento da região colonial do Rio Grande do Sul. Ele, o Capa Preta, até deixara
alguns arranhões nas religiosas. Mas não lembro se a Irmã Janete fora uma delas. A conversa
era séria. A irmã estava falando para o meu bem, ela garantiu diversas vezes. Me
avisando dos perigos da vida. Que eu não me arriscasse em questionar a existência
das entidades malignas.
Naquele tempo eu recém completara 17 anos e há pouco mais de um ano integrava um grupo de jovens que se reunia nos fundos da igreja São
Pedro, no bairro Floresta, em Porto Alegre. A Irmã Janete e o Padre Candinho eram
os responsáveis pelo grupo; ela, representando a Igreja tradicional (freira do Colégio Santa Clara, que ficava na rua atrás da igreja), o
Padre Candinho, a Igreja progressista.
A Irmã Janete com um discurso onde cabia o Satanás
como representação do Mal e agente sobrenatural que se intromete entre os homens para os
tentar e desencaminhar. O Padre Candinho, por sua vez, citando as resoluções da
Conferência de Medellín (1968) e indicando uma teologia que se confrontava com
a da Igreja tradicional. Uma teologia que refletia os dramas das sociedades latino-americanas
(as desigualdades sociais, a opressão às classes populares, a existência dos
regimes militares) e na qual o Mal não ganhava a representação do Satanás. O Mal
era constituída pelas estruturas político-sociais que obstaculizavam a
libertação dos homens.
O grupo de jovens a que eu pertencia se formara no
final dos anos 60, no vácuo criado pela desestruturação das antigas
organizações de juventude católicas (JOC, JUC, JEC) devido ao embate com o
Regime Militar. Essas organizações se posicionaram contra o Golpe de 64, os
governos militares e por isso foram desmanteladas. Nessa conjuntura surgiu o
Movimento Estudantil Floresta (MEF), despretensioso grupo de jovens, sem
maiores vinculações político-religiosas além da sua ligação com a paróquia São
Pedro.
Segundo a Irmã Janete eu apresentava indícios de estar
me desencaminhando e me chamara para uma conversa séria (sábado de tarde,
no pátio do Colégio Santa Clara). Não recordo os detalhes da sua fala (o que ela entendia como o meu desencaminhamento) e ficou apenas a história do
Coisa Ruim tentando as freiras e a ameaça de que ele bem poderia aparecer para um adolescente que estava questionando o caminho do bem.
Resisti bravamente à conversa da Irmã e nem sei como fiz isso. Lembro apenas que prendi o olho em algum ponto do pátio do colégio, iluminado pela luz da tarde, e ouvi calado. Não aceitei os argumentos da freira, mas não refutei. Saí de lá zonzo, as pernas bambas.
E talvez tenha sido ali a minha ruptura com a juventude católica e, com o tempo, com a própria Igreja.
No ano seguinte, 1973, o Padre Candinho deixou a paróquia, veio um novo sacerdote, Padre Zeno, que não se afinou com o que ainda existia do grupo de jovens da paróquia. Eu não participava mais e ouvia as notícias de longe.
Era um padre conservador e entrou em conflito com os jovens remanescentes. Deixou o grupo morrer, como escreveu mais tarde: “Era um grupo que já não servia mais e que era impossível reformar. Aplicamos a técnica da eutanásia (...) fizemos o grupo morrer lentamente, sem dor.”
No meu entendimento, era a Igreja tradicional que
estava ocupando o espaço. Uma Igreja mais afinada com aquela que a Irmã Janete representava. Uma Igreja que talvez encampasse o discurso da existência de Satanás e o utilizasse como instrumento pedagógico.
sexta-feira, 31 de julho de 2020
Na sacristia da Catedral de Toledo
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Sacristia da Catedral de Toledo. |
Catedral de Toledo. |
Agora somos todos mascarados
Obs.: crônica postada na página da SEDUFSM (Seção Sindical dos Docentes da UFSM), em 20/07/2020.
domingo, 5 de julho de 2020
O rei Silco, da Nobádia
Pátio interno do Templo de Kalabsha e porta de entrada da sala hipostila. |
Grafite do rei Silco. |
Silco enfrentou os blêmios, expulsou-os para o deserto oriental e expandiu o território da Nobádia. A deusa Nice veio saudá-lo, glorificando sua vitória sobre os inimigos do reino e alguém tratou de eternizá-lo na parede de um templo.
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Histórias de família (última crônica)
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Histórias de família (16)
sábado, 23 de maio de 2020
Histórias de família (15)
Túmulo de Júlio II, na igreja de San Pietro in Vincoli. |