segunda-feira, 6 de maio de 2024

A primeira namorada

 

Aos 16 anos tive a primeira namorada e dançamos ao som do Creedence Cleawater Revival em algum baile de colégio. Era assim em 1971. Mas a coisa durou pouco. A guria tinha 18 ou 19 anos, estava se preparando para o vestibular, e a mãe dela não botou fé em mim. “Esse não tem futuro”, ela disse para a filha e a guria me dispensou.

Nós continuamos nos vendo, conversando sobre literatura (líamos os românticos do século XIX, mais Bandeira e Quintana, entre outros) e trocando livros. Um dia, quando eu estava saindo da sua casa (tinha ido devolver um Jorge Amado), um sujeito emparelha comigo na calçada e logo fico sabendo que ele era o seu novo namorado. Um rapaz bem apessoado, vinte e poucos anos, formado em num curso técnico voltado ao trabalho com couro (atividade em alta na indústria do calçado, na época) e com todo jeito de ser um bom partido, bem como a mãe da moça desejava.

O sujeito começa a falar, nós paramos na calçada (numa esquina, disso lembro bem) e ele diz que a guria não queria mais me ver, eu estava importunando, e era melhor deixar de procurá-la. Acrescentou que estava avisando educadamente, mas da próxima vez não seria assim.

Eu fiquei completamente zonzo e, feitas as despedidas, saí andando feito um zumbi. Meia quadra depois as lágrimas escorriam.

Cada vez que conto isso é de um jeito diferente. No entanto, um aspecto é sempre o mesmo: a sensação do pontapé na bunda. Primeiro a guria me dispensa, gentilmente (no jardim da sua casa), depois vem o namoradinho e dá o golpe final. Acho que ele disse: “Cai da boca, meu”. Mas não tenho certeza.

Um dia eu a avistei na rua, caminhando e rindo com duas amigas, e parei para observá-la. Ela estava vestida no rigor da moda (coisa que abominava até pouco tempo) e comportando-se com a frivolidade que sempre dissera considerar detestável. Ela adotava outro estilo de vida (breve estaria de casamento marcado) e me ignorou. Resolvera seguir os conselhos da mãe, da irmã (estudante de Psicologia), não questionar mais o mundo (“a sociedade e sua hipocrisia”, como falava) e ser feliz, principalmente feliz.

Naquela época eu já andava escrevendo versos e me veio um poema inteiro a respeito da mulher distante, inacessível. A mulher impossível, eu escrevi como título. Para o adolescente que eu era, todas as mulheres se tornaram inacessíveis. Eu me encolhi feito um caramujo e foi nessa toada que segui em frente. Até que numa determinada noite, depois de uma festa, uma mulher me pegou pelo braço (“Por que não?”, ela parecia dizer) e minha vida virou. Foi a segunda namorada.

Mas aí é outra história (ou outro capítulo dessa novela) e quero ficar na primeira parte. A rejeição da primeira namorada foi inesquecível. Não posso dizer que provocou um trauma, apenas que foi difícil de superar. Levou tempo, teve uma psicoterapia no meio e o troço se resolveu. No entanto ficou a marca do tombo e a indicação de uma dificuldade de compreender as mulheres. Assim como a indicação de uma idealização do feminino, coisa comum em adolescentes que leem poesia e fazem versos, dirá o leitor. Sim, isto mesmo, e que constituiu o substrato do homem que me tornei.

Detalhe de "Saudade", tela de Almeida Júnior.
Pinacoteca do Estado de São Paulo. 


sábado, 4 de maio de 2024

Histórias de enchente

 

Um amigo me contou que morou alguns anos da sua infância na fazendola dos avós, na beira do rio Santa Maria (no município de Dom Pedrito), um que rio volta e meia transbordava, quando caia uma chuva forte, e uma única vez invadiu a sua casa. Ele se acordou de madrugada, sentou na beira da cama, procurou os chinelos com os pés... e encontrou água. Tinha 8 anos de idade e levou um susto tremendo. Logo se deu conta que acordara com o chamado do avô, que estava ao lado da sua cama, com um lampião numa mão, dizendo:

– Te apressa, guri. Procura as tuas botas de borracha que o rio tá subindo. Veste um agasalho que nós vamos sair de casa.

O rio não subiu mais do que aqueles centímetros que ele sentira com os pés nus, mas foi o quanto bastou. A partir daí, começava a chover e ele se preocupava. O rio transbordava, mas nunca mais voltou a chegar dentro de casa. Muita madrugada ele passou de olho estalado, lembrando a noite em que sentira as águas debaixo da sua cama...

Meu amigo contou que boa parte da sua infância foi “roubada” pela preocupação com as águas do rio. Depois, por volta dos doze anos, voltou a morar na cidade com os pais e não teve mais que pensar nisso. Mas nunca esqueceu o susto daquela noite, com a água do rio debaixo da sua cama, e volta e meia lembra disso, quando vê na TV imagens de enchentes.

A história desse meu amigo me cala fundo, pois uma vez estava em Dom Pedrito, caia uma chuva constante e dormi tranquilamente no centro da cidade, num hotel bacana e bem acompanhado. No outro dia pela manhã, depois de um despertar maravilhoso e um bom café de hotel, fui passear nos arredores da cidade... e encontrei o pessoal dos arrabaldes atordoado com a subida das águas do rio Santa Maria naquela madrugada.

A chuva passara, o dia estava ensolarado, e as águas do rio estavam voltando ao leito normal. As pessoas, no entanto, ainda contabilizavam os estragos. Eu me aproximei de um grupo e escutei os relatos: o susto durante a madrugada, a correria para ajudar os mais velhos, procurar lugar seguro, salvar alguma coisa, diminuir o prejuízo.

Notei um menino ao meu lado, me observando (a mim e a minha máquina fotográfica), e lembrei na hora do meu amigo. Aquele menino bem poderia ser ele, nos anos 60, vivendo o mesmo drama.

Eu dormira a noite inteira, tivera um belo início de manhã com minha companheira, e súbito aquilo tudo me pareceu estranho, isto é, chocante o contraste entre a minha vida e a daqueles modestos moradores.

Um deles olhou para a minha máquina fotográfica, achou que eu era um jornalista registrando a tragédia daquela noite e na certa não entendeu quando eu respondi:

– Não, não sou jornalista. Sou apenas um visitante, estou conhecendo a cidade.

Sim, eu era um turista que saíra do hotel para dar uma banda pelos arrabaldes de Dom Pedrito e conhecer melhor o universo rústico da Campanha. Me deparara com o rescaldo de uma enchente de rio, isto não estava nos planos – meu propósito era a pampa mítica que envolve Dom Pedrito –, mas não deixei de registrar o cenário. Confesso, no entanto, que me senti constrangido.

Arredores de Dom Pedrito, maio de 2017.


segunda-feira, 8 de abril de 2024

A professora e o fazendeiro

 

A história é a da professora divorciada, 47 anos, sem filhos, que encontra o fazendeiro viúvo, 70, duas filhas casadas, e se apaixona perdidamente, refazendo fantasias antigas, que achava perdidas para sempre. O homem lhe oferece uma vida de princesa, na fazenda, longe da cidade onde ela sempre viveu, longe da escola que sempre foi o eixo da sua vida, e ela hesita. “Quero te colocar no centro da minha vida”, ele afirma, “mas aqui, aqui no meu mundo”, ele enfatiza, apontando o campo ao redor de sua casa avarandada.

Ela diz para as colegas de escola que um dia vai largar tudo, mas tem medo. Ele é carinhoso, atencioso, não quer que ela se desgaste indo e vindo da cidade para a fazenda, da fazenda para a cidade, quase 120 quilômetros, que ela percorre de 15 em 15 dias, pois é difícil ele largar o controle das terras, a supervisão dos empregados. “É o olho do dono que engorda o gado”, ele diz e ela repete. As colegas babam de inveja. “Na nossa idade, chegando aos 50, isso não acontece mais, aproveita”, diz a amiga mais próxima, com a xícara de café fumegando entre as mãos. “Nenhum homem mais nos olha”, comenta outra. “Não seja boba, ele tem dinheiro, larga tudo”, insiste uma terceira, que recém chegou na sala dos professores.

O ex-marido, 50 anos, igualmente professor, escuta a mulher e diz que ela tem sorte. “Sorte?”, a ex-esposa pergunta. “Ora, uma paixão com um homem próspero é sempre uma confusão a menos”, ele explica, “comigo isso não acontece, é só bucha.” “Mas ele é tão tradicional, tão arraigado a nesse mundo da Campanha que nós lutamos tanto para nos desvencilhar”, ela argumenta. “O machismo”, ela acrescenta, “está ali, vivo, sem um esforço consistente de ser superado, e eu me assusto.” O ex-marido ri, se debruça sobre a mesa, pega um guardanapo de papel e começa a dobrá-lo em diversas partes (eles estão numa cafeteria de shopping), e diz que isso faz parte do pacote. “Nem tudo é perfeito, ora bolas”, arremata. E inicia uma frase articulando a reforma agrária que não chegou ao campo assim como não se concretizaram outros projetos progressistas no sentido da modernização da sociedade, das relações entre os sexos inclusive. A ex-mulher arregala os olhos e quase grita: “Agora não, não mete política no meio. Tô falando da minha vida, de um novo casamento, de romper com meu estilo de vida, e tu me vem com esse esquerdismo insuportável?!” “Tá bom, ele diz”, arrumando-se para ir embora, se levantando. “Não vamos começar... Eu só quero que tu te dê bem. Ele é um partidão e tu gostas dele, estás toda derretida inclusive, e é isso que importa”, enfatiza, dizendo depois que a conta é dele e seguindo na direção do caixa, enquanto ela pega o celular, pois entrou uma mensagem e ela acha que ele, é ele, quem sabe perguntando se já se decidiu.

A história é da professora, 47 anos, divorciada, que andava desesperançada e encontra o fazendeiro viúvo capaz de acender antigas fantasias: a de casar com um homem que a acolhesse e garantisse cuidar da sua vida. “Eu mereço isso”, ela diz, vendo o ex-marido andar pelo corredor do shopping, o marido que apenas lhe ofereceu uma vida amorosa juntos, compartilhando contas, aflições, sem nenhuma largueza financeira, sem possibilidades de grandes voos. A história é essa. Ou, ao menos é essa a história que ela conta para si mesma: “posso dar esse passo de bailarina, jogar para o alto tudo o que construí e cair nos braços de um velho rico? Sim, um velho rico”, ela repete para si mesma. “Posso?”

domingo, 7 de abril de 2024

Mundo gringo

Torre da igreja do Vale Vêneto, um dos núcleos
da Quarta Colônia de Imigração Italiana.

             Estou em casa e recebo a visita inesperada de um amigo. Abro uma garrafa de uma vinícola da Serra Gaúcha e, quando a coloco sobre a mesa, ele lê o rótulo em voz alta e diz:

– Conheço o proprietário dessa vinícola e te garanto: ele não bebe esse vinho que ele produz. Não esse vinho caro. Bebe os mais baratos. É um mão de vaca. Trabalha aos finais de semana e usa um carro tão velho que tu não vais acreditar.

– Só pensa em juntar dinheiro – eu digo. Conheço a cantilena do meu amigo em relação ao mundo gringo, do qual ele é proveniente, e coloco um pouco de vinho nas nossas taças para juntos iniciarmos o ritual.

– Que tal o aroma? – eu pergunto.

– Promete – ele responde. – Vamos esperar mais um pouco – ele fala. E logo comenta que namorou uma das filhas do dono. – Logo a que gosta mais de dinheiro – ele acrescenta, rindo.

O universo dos descendentes de italianos é um dos nossos temas, pois ambos descendemos dessa “tribo”. Os seus antepassados vieram no final do século XIX, tiveram acesso a pequenas propriedades rurais que pagaram com sacrifício e “a família nunca conseguiu tirar toda a terra que se encrustou debaixo das unhas”. Eu também tenho antepassados imigrantes, mas eles não viveram em colônia, fizeram outra trajetória e cedo se tornaram urbanos. Quando falamos a respeito das nossas histórias, ele acentua que essa é a diferença crucial que nos separa.

– Tua família não se enraizou na colônia. Mundo gringo verdadeiro tem que ter terra, bosta de vaca e pé encardido.

Seu pai viveu na colônia, trabalhou no cabo da enxada, mas aos vinte anos largou tudo e veio para Santa Maria trabalhar e estudar. Tornou-se professor universitário, mas nunca renegou as “raízes”.

– Tu conheces o Velho – ele diz. – Conhece línguas, viajou para o exterior, mas não adianta. Se prestares atenção, é igual ao meu avô, um colono de enxada e trator. A muito custo aprendeu a tomar vinho de qualidade – acrescenta.

Eu rio, pois muitas vezes ele já contou essa mesma história: o pai dele comprando vinho de melhor qualidade para beberem no almoço de domingo, os dois conversando na mesa, terminado a garrafa e o Velho dizendo:

– Se o padre me visse com esse vinho, desse preço, diria que era um luxo desmedido. Um luxo, um verdadeiro pecado. Eu me criei assim. O padre falava, meus pais repetiam e assim girava a roda do mundo.

– Era um mundo de muito trabalho – eu comento. – Meu pai era assim. Neto de imigrante, precisava trabalhar e ascender. Só isso importava.

– Mas teu pai sabia aproveitar.

– Sim, sabia. Aprendeu.

– E a filha do dono da vinícola, aquela que foi minha namorada por um tempo, ela também sabia. Gostava de coisa boa. Achava que merecia. Que tinha nascido para isso. Mas sabia que as coisas boas não caem do céu e é preciso labutar. Assim como se associar a quem trabalha também.

Meu amigo caminha pela sala do meu apartamento, pega um CD, coloca no aparelho, escuta os primeiros acordes e diz:

– Um dia ela chegou no meu apartamento, me viu lendo um romance, acho que era O primo Basílio, eu saboreando cada frase, e me perguntou: tu não tens que terminar a tese? Eu respondi: tenho. Tu não achas que estás perdendo teu tempo com esse livro?, ela disse. Mas é o Eça, eu respondi. Ela então fez uma cara de nojo, uma cara tão feia, que acho que foi ali que tanto ela quanto eu vimos não servíamos um para o outro.

– O primo Basílio foi o ponto de virada de vocês – eu digo. E, lembrando as características do personagem, acrescentei: – Será que ela te viu demasiado aventureiro e cínico, um reles conquistador?

Mas meu amigo não me responde. Muda de assunto. Pega a garrafa, lê novamente o rótulo e comenta:

– Doze meses em barris de carvalho francês e americano não é pouca coisa.

Depois diz que a moça encontrou um fazendeiro da Campanha e se acertou com o dito cujo.

– Já tirou duas crias com o sujeito. Às vezes se queixa que o homem é grosso, muito tradicional, machista, mas não esquece que ele tem dinheiro e sabe fazer mais dinheiro.

– E não perde tempo com Eça de Queirós, não é mesmo? – eu pergunto, provocador.

Meu amigo me olha de longe, muito longe, e não me responde. Eu comento que ele precisa escrever as suas histórias (todos temos que escrever nossas histórias, outro dos nossos temas) e ele fala que cansou.

– Essa eu deixo pra ti – ele fala. – Pode usar.

E é o que estou fazendo, alinhavando mais um registro do mundo gringo, esse curioso universo no qual trabalho & dinheiro têm uma centralidade brutal e às vezes corrói os viventes sem que eles percebam.

sábado, 6 de abril de 2024

Na Vinícola Campestre

 

No domingo de Páscoa fiz uma visita guiada a Vinícola Campestre, em Vacaria, e fiquei admirado com a beleza do local. Andei pelos parreirais, pelos espaços da produção, pela adega, finalizando com uma degustação de seus vinhos finos, muito bons. Mas fui informado que o carro-chefe da empresa são os vinhos de mesa, mais populares, com uma produção de garrafas muito superior ao dos vinhos de qualidade que bebi.

A vinícola também oferece um sofisticado salão para festas (300 pessoas sentadas) e muitos casamentos são comemorados ali. Por exigência das noivas foi construída uma capela, com uma pequena torre e um sino. Sino este que a guia liberou para quem quisesse tocar e eu me escalei para dar umas badaladas.

Quando tinha 10 e 11 anos de idade fui coroinha na Igreja do Porto, em Pelotas, e recordei isso ao tocar o sino. Nós, os coroinhas, subíamos até o coro da igreja, onde estavam as cordas dos sinos, e lá nos dependurávamos (literalmente) nas cordas para fazê-los soar, sem grande preocupação de ritmo. Tocávamos chamando os fiéis para a missa de domingo de manhã e nunca ouvi o padre reclamar da falta de precisão das badaladas. Às vezes um sacristão mais experiente dizia como a coisa devia ser feita – o modo correto, controlando o badalo para dar um ritmo mais rápido ou mais lento – e nós, os pequenos, procurávamos aprender.

Na visitação à vinícola tentei controlar o badalo, mas não obtive bom resultado. Seja como for, voltei a ser um guri... como era na Igreja do Porto, em Pelotas.

As igrejas foram parte importante da minha infância & juventude e reviver isso não é ruim. Fui coroinha na infância, integrante de grupo de jovens entre os 15 e 17 anos, e durante anos não perdi missa de domingo.

Meses atrás estive em Pelotas, fui passear na Zona do Porto e de repente me vi dentro da igreja onde fui coroinha, assistindo a uma missa. Não fui até o final (atualmente sinto cansaço enorme com as cerimônias religiosas), mas devo dizer que me emocionei.

Quando saí da igreja, senti como se um manto de tecido grosseiro fosse colocado sobre meus ombros, o manto “da minha culpa, minha máxima culpa”, e me senti rezando o Ato de Contrição, pedindo perdão por não sei quais pecados... Caminhei meia dúzia de quadras revivendo antigos tormentos e sentindo que eles ainda são capazes de pesar dentro de mim. Ao final, após alguma ginástica mental, me livrei daquele manto, daquela lembrança opressiva, e respirei aliviado.

Tocar os sinos da Igreja do Porto, aos domingos, podia ser divertido, mas viver aquele mundo católico não era fácil. Era o meu mundo, no entanto.

Ao ensaiar as badaladas na capela da Vinícola Campestre, porém, não revivi nenhuma angústia. Nem manto grosseiro nem tormento algum me alfinetando. Segui a visita prestando atenção a guia, compartilhando pequenos comentários com minha companheira, com meus colegas de excursão e, na hora da degustação, apreciei cada gole dos vinhos oferecidos.

Mas reconheço: o mundo católico está dentro de mim. Nem precisa cavar muito. Volto e meia a coisa vem à tona e estou dialogando com elementos desse universo religioso. Com uma história de santo, um quadro religioso ou com alguma lenda de milagre ou aparição. E, como num poema de Alphonsus de Guimaraens, volta e meia escuto um sino gemer em “lúgubres responsos” ou algum outro “dobrar num torreão” abandonado.

Momento da visitação: a guia oferece uma taça
de sauvignon blanc tirada diretamente da pipa.


quarta-feira, 3 de abril de 2024

São Francisco de Paula

            Dias atrás visitei a cidade de São Francisco de Paula na Serra Gaúcha. Fiz um tour pelo local, passei pela Igreja Matriz e a guia destacou a existência de uma relíquia do santo (colocada numa das paredes do templo) assim como a sua estátua, erguida no lado de fora da igreja. Tudo isso me fez lembrar da Catedral de Pelotas, dedicada ao santo, que tantas vezes visitei, desde criança.

A Catedral pelotense fica defronte ao Colégio Gonzaga, no qual fiz a quinta série do Primário, e muitas vezes, antes ou depois das aulas, andei pela igreja instigado pelos afrescos dedicados ao santo, pintados por Aldo Locatelli. Certamente vem desse tempo o meu interesse por essa figura religiosa.

A Caridade de São Francisco de Paula.

O afresco principal do altar mor é denominado “A Caridade de São Francisco de Paula” (representando o santo entre os doentes) e não há católico pelotense que não tenha, ao assistir uma missa na Catedral, contemplado a pintura com algum interesse. A cúpula também é ornamentada com afrescos dedicados ao santo, no caso referindo-se ao episódio da sua apoteose, com o santo chegando aos Céus e os anjos tocando instrumentos musicais e cantando. Isso sem contar um outro afresco, que trata da visita do santo a corte do rei Francisco de Aragão, em Nápoles, onde realiza um milagre.

Apoteose de São Francisco de Paula.

Histórias é que não faltam para alguém que se criou frequentando a catedral pelotense e ouvindo a sua mãe falar do impacto que Aldo Locatelli causou na cidade, quando veio da Itália realizar as pinturas na igreja, no final da década de 1940.[1]

Pois lembrei do santo justamente do modo como ele não é representado tanto por Locatelli, que o pinta como um homem robusto, quanto pela hagiografia católica, que o exalta pela “prática heroica da Caridade, da Humildade e da Penitência”. Lembrei o jovem Francisco que, por volta dos 18 anos, se enfurnou numa gruta nas montanhas e foi mortificar o seu corpo. Um religioso extremado que se esmerou no “lento suicídio do ascetismo”, prolongando a sua existência com o propósito de sofrer privações, como indicam os psicanalistas ao analisarem o comportamento dos santos. Um religioso que se dedicava a jejuns prolongados, vivendo numa “quaresma perpétua”, o que na certa não lhe garantia uma compleição forte e saudável como Locatelli apresenta e que só a arte religiosa, com sua tendência à idealização do ascetismo, é capaz de fazer.

Lembrei desse santo que tanto maltratou o seu corpo e, como outros ascetas da Igreja, ocupou espaço privilegiado no meu imaginário. Acho que nunca, como nesses últimos dias, desejei tanto me afastar desse modelo de vida. Tive até vontade de sentar na beira da calçada e chorar de raiva – o que seria um exagero, claro, mas expressivo do modo como hoje percebo o mundo.

Fui moldado na tradição católica e demorei a me dar conta do modo como a hagiografia e a arte religiosa embalam a trajetória dos santos, “ornamentando-as com as mais altas dignidades e aspirações”, escondendo as mazelas dos processos de autodestruição.[2] Nunca me senti tão distante desse modelo de santidade.

Dizem os psicanalistas que não há cultura que não tenha elementos de encorajamento das tendências autodestrutivas da humanidade, não sendo essa uma primazia da Cristandade. Mas foi dentro desta cultura religiosa que me criei e é com ela que dialogo. Desde criança andei pelo interior da Catedral de Pelotas e aquele robusto São Francisco de Paula, pintado no fundo do altar, certamente foi uma armadilha, da qual hoje desejo me livrar. Um herói da mortificação, moldado no exercício da “quaresma perpétua”, do sofrimento constante.

 

Obra consultada: BRAMBATTI, Luiz Ernesto. Locatelli no Brasil. Caxias do Sul / RS: Belas Letras / Instituto Vêneto, 2008.



[1] Junto com Locatelli (pintor) vieram Emilio Sessa (decorador) e Adolfo Gardoni (estucador e dourador), os três contratados pelo bispo D. Antônio Zatterra, que conhecera os artistas na Itália. Com a chegada desses artistas toma fôlego e é criada a Escola de Belas Artes de Pelotas.

[2] Muitos santos morreram cedo, completamente debilitados, como São Francisco de Assis, aos 44 anos, cego inclusive. São Francisco de Paula morreu aos 91 anos e certamente não fugiu à regra quanto ao seu estado de saúde, dado que era famosa a sua disposição ao jejum, comendo (muitas vezes) apenas uma vez por semana.  

terça-feira, 2 de abril de 2024

Pedagogia da surra (2)

 

Volto ao tema das surras, de histórias que me impressionam muito, apesar de eu nunca ter apanhado pra valer. Apenas algumas palmadas.

Meu pai era um homem alegre, brincalhão, mas às vezes extremamente furioso. Na minha lembrança (ele morreu quando eu tinha 22 anos) talvez caiba dizer que era um homem de paixões extremas e várias vezes presenciei tanto a sua alegria contagiante quanto a sua raiva “desmedida”, que ele controlava com muito esforço.[1]

Meu pai foi criando num contexto familiar no qual a surra era um instrumento pedagógico e chegamos a conversar sobre isso. Seus pais achavam impossível educar sem utilizar o castigo físico – por meio de cascudos, tapas, chineladas e até mesmo com cinta - e acrescentava que cresceu pensando assim até conhecer “a mãe de vocês”.

Professora formada na Escola Complementar de Pelotas, como ela gostava de destacar, minha mãe não tinha o castigo físico como parte do seu repertório educacional. Quando o pai se alterava conosco (especialmente com o meu irmão mais velho), ela protestava e essas situações geravam embates terríveis entre eles. À muito custo o pai se continha.

Meu irmão mais velho certamente foi o que apanhou mais (não lembro direito), eu levei uma palmada e outra e acredito que meu irmão menor também. Com clareza, lembro apenas das brigas acaloradas que o pai e a mãe mantinham a respeito do modo de repreender e até castigar os filhos... Nessas discussões, minha mãe chorava, abraçada ao filho caçula, e meu pai parecia sair de si, contendo-se para não surrar os filhos desobedientes, malcriados, petulantes ou coisa semelhante.

“Impossível educar sem bater”, os seus pais diziam, nascidos em famílias camponesas na Itália, com passagem por fazendas de café paulistas, no Brasil, e depois uma lenta migração para o mundo urbano. Mas sempre a brutalidade do mundo rural os acompanhando...

Meus avós paternos tiveram catorze filhos e o castigo físico foi um instrumento (talvez o único ao seu alcance) para “colocar os filhos nos eixos”, como muitas vezes ouvi meu pai e seus irmãos e irmãs comentarem.

“Teu pai foi criado dessa maneira e foi difícil fazê-lo mudar de ideia”, minha mãe contava.

Poderia escrever sobre isso apenas como se registrasse uma característica das famílias de matriz camponesa e italiana, mas não consigo. É uma lembrança que ainda incomoda,

Estou lá, dentro da casa em que vivi com meus pais na década de 1960 (em Pelotas), e revivo tudo com os mesmos sentimentos infantis exagerados. Em pânico com o que assistia, me colocava como uma peça fundamental para que aquilo acontecesse, isto é, a fúria do pai e o desespero da mãe. Pior, me colocava culpado pela cena!

Sessenta anos me separam desses episódios e eu sou capaz de revivê-los com muita intensidade. Tudo é extremamente vivo. Eu ainda não completara dez anos de idade e a vida me parecia impossível de suportar. Escandalosamente contraditória e dramática.



[1] A referência à raiva de meu pai como desmedida é certamente um exagero. Mas não vou corrigir, apenas colocar a palavra entre aspas.