Quando meu amigo Pedro Brum Santos faleceu, lembrei
dele no café da manhã, muitas horas antes de receber a notícia da sua morte.
Falei para minha companheira desse professor extremamente culto e gentil,
cuidadoso com as palavras e com o modo de conduzir a vida. Contei alguma coisa
do que vivemos, conversamos, especialmente do que conversamos.
Recordei uma manhã dos anos 90 em que saímos do
campus da Universidade, ele no volante, o Orlando Fonseca e eu de carona, e
fomos na direção da cidade para algum evento cultural. No caminho, falamos
assuntos de professor, como a situação do ensino superior, a eleição para
reitor que se avizinhava, e depois pulamos para o tema dos amores, como eles se
atam e desatam, como mantemos a chama acesa, como alimentamos o interesse do
outro e o nosso na relação. Cada um contou algum caso vivido e, de repente, o Pedro
arrematou com sua potente voz de Netuno:
– Mas há químicas que não conseguimos compreender.
Elas acontecem e pronto.
Ficamos em silêncio, refletindo sobre aquela
afirmação a respeito das “químicas” que instalam a loucura do amor e que não
convém mexer, muito menos analisar, apenas aceitar e viver. Não lembro o
restante da conversa, mas sei que a retomamos em outras oportunidades, algumas
vezes até ousando destrinchar esse assunto complicado.
Pedro era um leitor sofisticado (Proust era uma das
suas preferências), um crítico literário perspicaz (esclarecedor o seu
comentário a respeito da poesia de Prado Veppo), pesquisador meticuloso (fez um
levantamento precioso a respeito da memorialística da imigração italiana) e
muito aprendi com ele.[1]
O amor estava no cardápio das nossas conversas e muito comentamos a respeito de
como ele aparecia nos grandes romancistas da literatura universal assim como
nos autores aqui da Província, inclusive nós próprios, que tínhamos (eu ainda
tenho) a pretensão de fazer literatura de ficção. Às vezes eu me metia a analisar
o assunto, o Pedro arregalava o olho, indicando que eu fosse com menos sede ao
pote. Menos sede, menos ousadia, seguindo as normas da linguagem e dos
discursos literários, ele parecia me dizer. Nem tudo é possível narrar, seja na ficção, seja na vida.
[1] A
memorialística da imigração italiana no Rio Grande do Sul certamente não constituiu
o seu tema de pesquisa mais relevante, mas é um dos que não esqueço. Cheguei a
muitos autores por conta desse trabalho que ele e uma das suas tantas
orientandas realizaram. Quanto ao comentário sobre a obra poética de Prado
Veppo, basta ler o seu texto para a segunda edição da “Prado
Veppo: obra completa” (Santa Maria: Ed. UFSM, 2019. p. 15-19). Pedro refinou a sua leitura a respeito desse poeta que tanto admiramos.
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