terça-feira, 9 de junho de 2026

O que podemos narrar?

 

Quando meu amigo Pedro Brum Santos faleceu, lembrei dele no café da manhã, muitas horas antes de receber a notícia da sua morte. Falei para minha companheira desse professor extremamente culto e gentil, cuidadoso com as palavras e com o modo de conduzir a vida. Contei alguma coisa do que vivemos, conversamos, especialmente do que conversamos.

Recordei uma manhã dos anos 90 em que saímos do campus da Universidade, ele no volante, o Orlando Fonseca e eu de carona, e fomos na direção da cidade para algum evento cultural. No caminho, falamos assuntos de professor, como a situação do ensino superior, a eleição para reitor que se avizinhava, e depois pulamos para o tema dos amores, como eles se atam e desatam, como mantemos a chama acesa, como alimentamos o interesse do outro e o nosso na relação. Cada um contou algum caso vivido e, de repente, o Pedro arrematou com sua potente voz de Netuno:

– Mas há químicas que não conseguimos compreender. Elas acontecem e pronto.

Ficamos em silêncio, refletindo sobre aquela afirmação a respeito das “químicas” que instalam a loucura do amor e que não convém mexer, muito menos analisar, apenas aceitar e viver. Não lembro o restante da conversa, mas sei que a retomamos em outras oportunidades, algumas vezes até ousando destrinchar esse assunto complicado.

Pedro era um leitor sofisticado (Proust era uma das suas preferências), um crítico literário perspicaz (esclarecedor o seu comentário a respeito da poesia de Prado Veppo), pesquisador meticuloso (fez um levantamento precioso a respeito da memorialística da imigração italiana) e muito aprendi com ele.[1] O amor estava no cardápio das nossas conversas e muito comentamos a respeito de como ele aparecia nos grandes romancistas da literatura universal assim como nos autores aqui da Província, inclusive nós próprios, que tínhamos (eu ainda tenho) a pretensão de fazer literatura de ficção. Às vezes eu me metia a analisar o assunto, o Pedro arregalava o olho, indicando que eu fosse com menos sede ao pote. Menos sede, menos ousadia, seguindo as normas da linguagem e dos discursos literários, ele parecia me dizer. Nem tudo é possível narrar, seja na ficção, seja na vida.

        Lembrei dessas conversas no sábado de manhã, no sábado em que ele faleceu, horas antes de saber a respeito da sua morte. Ainda precisávamos arrematar certos assuntos... Da minha parte, compreender melhor a arte literária, como abordar o tema dos amores, o que é possível desvendar (qual química destrinchar?) e, dentro dessas limitações, o que possível dizer, o que podemos verdadeiramente narrar?


[1] A memorialística da imigração italiana no Rio Grande do Sul certamente não constituiu o seu tema de pesquisa mais relevante, mas é um dos que não esqueço. Cheguei a muitos autores por conta desse trabalho que ele e uma das suas tantas orientandas realizaram. Quanto ao comentário sobre a obra poética de Prado Veppo, basta ler o seu texto para a segunda edição da “Prado Veppo: obra completa” (Santa Maria: Ed. UFSM, 2019. p. 15-19). Pedro refinou a sua leitura a respeito desse poeta que tanto admiramos.

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