quarta-feira, 6 de maio de 2026

No Monte Byrsa (registro de viagem)

 

Quando era guri de ginásio, fui fisgado pela História de Roma e comecei a ler sobre o tema. Um dos assuntos: as Guerras Púnicas, os conflitos entre Roma e Cartago, nos séculos III e II antes de Cristo. Cartago era um império marítimo consolidado, Roma uma potência em expansão, e as duas cidades bateram de frente. Os cartagineses, liderados por Aníbal, chegaram a invadir a Itália, colocaram Roma em perigo, mas perderam a oportunidade de tomá-la. Décadas depois os romanos desembarcaram no litoral africano e realizaram um “dos mais famosos [cercos] que oferecem os anais do gênero humano, quer pelo genial talento que mostrou o cônsul [romano], quer pelo heroísmo desesperado dos infelizes sitiados” e não deixaram pedra sobre pedra da cidade inimiga.[1]

Um dia li um poema de profunda melancolia sobre as ruínas da antiga cidade fenícia... e fiquei fascinado. Queria conhecer o local.

Pois conheci. Em fevereiro deste, do alto do Monte Byrsa, avistei o território que séculos atrás abrigava a antiga cidade... e o que vi foi principalmente uma metrópole contemporânea. Este monte (ou colina) era outrora o centro religioso e político da cidade, mas não restou nenhum sinal lembrando esse antigo esplendor. No miradouro da colina uma placa reproduz a área ocupada pela antiga cidade, inclusive seus grandiosos portos comercial e militar (ver foto abaixo), e é isso que impacta o visitante. Nenhum ar de melancolia, como naquele poema que li na adolescência.

Cartaz, no miradouro do Monte Byrsa, indicando a Cartago
no período púnico.

Na chamada Terceira Guerra Púnica, Cartago foi cercada por três anos (149 a 146 a.C.) e, ao final, invadida, queimando num incêndio por vários dias e destruída metodicamente por pás e picaretas romanas. O local chegou a levar uma cobertura de sal, indicando ser um espaço maldito que jamais deveria ser reocupado. Tempos depois, no entanto, os próprios romanos construíram uma cidade no local. Deste período restauram as ruínas de um grandioso conjunto de banho (construção do século II d.C.), conhecido como as Termas de Antonino.

As Termas de Antonino.

É verdade que o Monte Byrsa abriga contemporaneamente algumas escavações que buscam resquícios do mundo cartaginês, mas a excursão que eu participava não incluiu esses locais no roteiro. Apenas os jardins e a catedral que os franceses ali construíram, quando dominaram o norte da África, em homenagem a um dos seus santos, São Luís (o rei Luís IX, morto no local em 1270, vindo das Cruzadas).

Seja como for, ficar no miradouro dessa colina, olhando a antiga cidade de Aníbal Barca, possibilitou retomar o imaginário do ginasiano que eu fui... Dialogar com as fantasias daquele guri de 15 anos que se encantou com a História Antiga, a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, sua violência militar e, ao mesmo tempo, a construção de uma potente civilização, um dos pilares da chamada Civilização Ocidental, da qual fazemos parte, queiramos ou não.



[1] IRMÃOS MARISTAS. História Geral: 1º ano colegial. São Paulo: Editora FTD, s/ data. P. 247. (Um dos livros lidos no tempo de Ginásio e guardado até hoje.)

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