quarta-feira, 10 de junho de 2026

Valquíria, que se tornou personagem

 

Meu amigo Eugênio batia a mão na mesa da cozinha e dizia que não confiava nas mulheres. Nós tínhamos acabado de comer uma massa que nós mesmos preparáramos, eu bebera meia garrafa de vinho e ele, que jamais bebia álcool, apenas sentira o buquê, girando a taça debaixo do nariz como se fosse um grande conhecedor. Ele gostava dessas bossas.

Nós costumávamos nos encontrar em seu apartamento para fechar alguns assuntos profissionais (éramos colegas na Universidade) e terminávamos encompridando a prosa, jantando e falando da vida, das nossas histórias e do modo como entendíamos o mundo. Ele, muito categórico nas suas opiniões, batia com a mão na mesa, e eu, para não polemizar, vazia o gênero contemporizador:

– Ora, Eugênio, não dá pra generalizar.

– Olha a Valquíria – ele exemplificava. – Ela é casada, o cara sustenta a vigarista, os dois filhos que tiveram juntos, e ela anda comigo na maior tranquilidade. Arruma um jeito de deixar os guris atendidos e até vem aqui em casa, dar pra mim. Diz que o marido é um chato, come ela muito mal, é um grosseirão, mas vive às custas do rapaz. Um corno que lhe garante uma vida confortável e ela nem pensa em largar o osso. Tu achas que eu confio numa mulher dessas? Uma mulher como tantas, podes crer.

Essa é uma conversa de mais de vinte anos, meu amigo já morreu, e eu lembro dessa história na saída do cinema, depois de assistir “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, no qual uma mulher entediada traí o marido durante umas férias numa praia ao sul da França.[1] O marido não a trata mal, apenas a relação não vive um bom momento, não a empolga, e ela está de saco cheio, se chateando na beira do mar. Então aparece um bonitão, se interessa por ela e os olhinhos da moça se acendem. O marido percebe o caso, mas não faz drama. Encara o fato como passageiro e, provavelmente, porque também não se sente autorizado a cobrar fidelidade da esposa. Ele já a traiu algumas vezes.

Lembrei do Eugênio falando da Valquíria (ela foi minha aluna), pois imagino que se passava com ela algo semelhante ao que acontecia com a personagem do filme. Valquíria estava chateada com a vidinha de mulher casada que levava, meu amigo cruzou o seu caminho, jogou uma isca e ela mordeu, isto é, topou a parada.

– Acho que as mulheres não são piores que os homens nesse quesito da fidelidade – eu falei naquela oportunidade, encompridando a conversa.

Lembro que o caso entre meu amigo e Valquíria durou alguns meses, depois a relação esfriou, cada um seguiu a sua vida, e ela continuou casada, claro. O marido nem deve ter desconfiado (não era um francês esperto e liberado como o personagem do filme) e na certa seguiu no mesmo tranco com a mulher, isto é, tratando-a do mesmo jeito, sem muita delicadeza, sem a atenção que ela desejava.

Eugênio e eu repassamos outras vezes essa história durante nossos jantares, pois Valquíria era uma mulher bonita, esbanjava charme e sabia o valor dos seus encantos. Para mim se tornou uma personagem (nem sei mais se seu nome era Valquíria mesmo) e poucos anos atrás encontrei-a numa livraria comprando os romances do vestibular para um dos filhos. Conversamos sobre livros e leituras de adolescentes, mas fiquei com vontade de perguntar se ela ainda se sentia maltratada pelo marido e fazia essa conversa com possíveis amantes...

Uma personagem, essa encantadora Valquíria. Fazia parte das conversas com meu amigo Eugênio e servia para desenvolvermos nossas ideias a respeito do mundo, das relações e das mulheres. Ele não tinha dúvida quanto à “perversidade das mulheres” e eu ponderava se isso tinha fundamento ou não. Mulheres não são piores nem melhores que os homens, eu afirmava. E assim gastávamos nosso tempo, ríamos, divagávamos, sem chegar à conclusão alguma.



[1] “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, direção de Matthieu Rozé, baseado num romance de Marguerite Duras. França, 2021, 104 min.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O que podemos narrar?

 

Quando meu amigo Pedro Brum Santos faleceu, lembrei dele no café da manhã, muitas horas antes de receber a notícia da sua morte. Falei para minha companheira desse professor extremamente culto e gentil, cuidadoso com as palavras e com o modo de conduzir a vida. Contei alguma coisa do que vivemos, conversamos, especialmente do que conversamos.

Recordei uma manhã dos anos 90 em que saímos do campus da Universidade, ele no volante, o Orlando Fonseca e eu de carona, e fomos na direção da cidade para algum evento cultural. No caminho, falamos assuntos de professor, como a situação do ensino superior, a eleição para reitor que se avizinhava, e depois pulamos para o tema dos amores, como eles se atam e desatam, como mantemos a chama acesa, como alimentamos o interesse do outro e o nosso na relação. Cada um contou algum caso vivido e, de repente, o Pedro arrematou com sua potente voz de Netuno:

– Mas há químicas que não conseguimos compreender. Elas acontecem e pronto.

Ficamos em silêncio, refletindo sobre aquela afirmação a respeito das “químicas” que instalam a loucura do amor e que não convém mexer, muito menos analisar, apenas aceitar e viver. Não lembro o restante da conversa, mas sei que a retomamos em outras oportunidades, algumas vezes até ousando destrinchar esse assunto complicado.

Pedro era um leitor sofisticado (Proust era uma das suas preferências), um crítico literário perspicaz (esclarecedor o seu comentário a respeito da poesia de Prado Veppo), pesquisador meticuloso (fez um levantamento precioso a respeito da memorialística da imigração italiana) e muito aprendi com ele.[1] O amor estava no cardápio das nossas conversas e muito comentamos a respeito de como ele aparecia nos grandes romancistas da literatura universal assim como nos autores aqui da Província, inclusive nós próprios, que tínhamos (eu ainda tenho) a pretensão de fazer literatura de ficção. Às vezes eu me metia a analisar o assunto, o Pedro arregalava o olho, indicando que eu fosse com menos sede ao pote. Menos sede, menos ousadia, seguindo as normas da linguagem e dos discursos literários, ele parecia me dizer. Nem tudo é possível narrar, seja na ficção, seja na vida.

        Lembrei dessas conversas no sábado de manhã, no sábado em que ele faleceu, horas antes de saber a respeito da sua morte. Ainda precisávamos arrematar certos assuntos... Da minha parte, compreender melhor a arte literária, como abordar o tema dos amores, o que é possível desvendar (qual química destrinchar?) e, dentro dessas limitações, o que possível dizer, o que podemos verdadeiramente narrar?


[1] A memorialística da imigração italiana no Rio Grande do Sul certamente não constituiu o seu tema de pesquisa mais relevante, mas é um dos que não esqueço. Cheguei a muitos autores por conta desse trabalho que ele e uma das suas tantas orientandas realizaram. Quanto ao comentário sobre a obra poética de Prado Veppo, basta ler o seu texto para a segunda edição da “Prado Veppo: obra completa” (Santa Maria: Ed. UFSM, 2019. p. 15-19). Pedro refinou a sua leitura a respeito desse poeta que tanto admiramos.