Meu amigo Eugênio batia a mão na mesa da cozinha e
dizia que não confiava nas mulheres. Nós tínhamos acabado de comer uma massa
que nós mesmos preparáramos, eu bebera meia garrafa de vinho e ele, que jamais
bebia álcool, apenas sentira o buquê, girando a taça debaixo do nariz como se
fosse um grande conhecedor. Ele gostava dessas bossas.
Nós costumávamos nos encontrar em seu apartamento
para fechar alguns assuntos profissionais (éramos colegas na Universidade) e
terminávamos encompridando a prosa, jantando e falando da vida, das nossas
histórias e do modo como entendíamos o mundo. Ele, muito categórico nas suas
opiniões, batia com a mão na mesa, e eu, para não polemizar, vazia o gênero
contemporizador:
– Ora, Eugênio, não dá pra generalizar.
– Olha a Valquíria – ele exemplificava. – Ela é
casada, o cara sustenta a vigarista, os dois filhos que tiveram juntos, e ela
anda comigo na maior tranquilidade. Arruma um jeito de deixar os guris
atendidos e até vem aqui em casa, dar pra mim. Diz que o marido é um chato, come
ela muito mal, é um grosseirão, mas vive às custas do rapaz. Um corno que lhe
garante uma vida confortável e ela nem pensa em largar o osso. Tu achas que eu
confio numa mulher dessas? Uma mulher como tantas, podes crer.
Essa é uma conversa de mais de vinte anos, meu
amigo já morreu, e eu lembro dessa história na saída do cinema, depois de
assistir “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, no qual uma mulher entediada traí
o marido durante umas férias numa praia ao sul da França.[1]
O marido não a trata mal, apenas a relação não vive um bom momento, não a
empolga, e ela está de saco cheio, se chateando na beira do mar. Então aparece
um bonitão, se interessa por ela e os olhinhos da moça se acendem. O marido
percebe o caso, mas não faz drama. Encara o fato como passageiro e,
provavelmente, porque também não se sente autorizado a cobrar fidelidade da
esposa. Ele já a traiu algumas vezes.
Lembrei do Eugênio falando da Valquíria (ela foi
minha aluna), pois imagino que se passava com ela algo semelhante ao que
acontecia com a personagem do filme. Valquíria estava chateada com a vidinha de
mulher casada que levava, meu amigo cruzou o seu caminho, jogou uma isca e ela
mordeu, isto é, topou a parada.
– Acho que as mulheres não são piores que os homens
nesse quesito da fidelidade – eu falei naquela oportunidade, encompridando a
conversa.
Lembro que o caso entre meu amigo e Valquíria durou
alguns meses, depois a relação esfriou, cada um seguiu a sua vida, e ela
continuou casada, claro. O marido nem deve ter desconfiado (não era um francês
esperto e liberado como o personagem do filme) e na certa seguiu no mesmo
tranco com a mulher, isto é, tratando-a do mesmo jeito, sem muita delicadeza,
sem a atenção que ela desejava.
Eugênio e eu repassamos outras vezes essa história
durante nossos jantares, pois Valquíria era uma mulher bonita, esbanjava charme
e sabia o valor dos seus encantos. Para mim se tornou uma personagem (nem sei
mais se seu nome era Valquíria mesmo) e poucos anos atrás encontrei-a numa
livraria comprando os romances do vestibular para um dos filhos. Conversamos sobre
livros e leituras de adolescentes, mas fiquei com vontade de perguntar se ela
ainda se sentia maltratada pelo marido e fazia essa conversa com possíveis
amantes...
Uma personagem, essa encantadora Valquíria. Fazia
parte das conversas com meu amigo Eugênio e servia para desenvolvermos nossas
ideias a respeito do mundo, das relações e das mulheres. Ele não tinha dúvida
quanto à “perversidade das mulheres” e eu ponderava se isso tinha fundamento ou
não. Mulheres não são piores nem melhores que os homens, eu afirmava. E assim
gastávamos nosso tempo, ríamos, divagávamos, sem chegar à conclusão alguma.
[1] “Os
pequenos cavalos de Tarquínia”, direção de Matthieu Rozé, baseado num romance
de Marguerite Duras. França, 2021, 104 min.