quarta-feira, 3 de abril de 2019

Peregrinação ao Templo de Ísis

         Visitei o famoso Templo de Philae, dedicado a deusa Ísis, e me senti um peregrino – um peregrino do velho Império Romano –, vá entender uma coisa dessas. Coisa de professor de História, na certa.

O Templo, ou conjunto de templos, pois são vários prédios, com a mão de diversos faraós (especialmente da dinastia ptolemaica, mais imperadores romanos), foi construído a partir do século III a.C. e se tornou um grande centro de peregrinação no Mundo Antigo. O culto a Ísis ultrapassou as fronteiras do Egito, se expandiu pelo mundo greco-romano e chegou a competir com o nascente cristianismo. A devoção só se extinguiu com a proibição do imperador Justiniano, no ano 513. Padres cristãos ocuparam o lugar, tentaram apagar a imagem da deusa, mas a coisa não deu certo.

No início do século XX, o templo estava semicoberto pelas águas de uma represa e, na década de 1960, com a criação do Lago Nasser (para uma nova e maior represa), a UNESCO coordenou um projeto de desmontagem da construção e seu restabelecimento em outro local. O Templo de Philae, construído na ilha de Philae, foi reassentado em novo local, numa ilha próxima, especialmente preparada para isso. Uma obra de engenharia impressionante. O mesmo aconteceu com outros templos e túmulos da região – inclusive o complexo templário de Abu Simbel, dedicados ao faraó Ramsés II e a sua esposa favorita, Nefertari.

O Templo de Philae, visão lateral, do lago, quando se chega de barco.
Quando avistei o templo, de dentro da lancha que conduzia meu grupo para a visita, me senti um velho romano em peregrinação... Devo ter lido sobre o culto de Ísis quando era estudante universitário, no Curso de História da UFRGS... Os romanos se encantavam com as religiões orientais, capazes de responder à inquietações (especialmente em relação à morte) que a religião oficial não dava mais conta. Acho que foi nessa época de estudante também que um amigo (hoje falecido) passou a utilizar a expressão “queimar incenso no altar de Ísis” para todas as vezes que saia para namorar. Queimar incenso, incensar Ísis, a mulher, honrar e venerar o feminino. Na Antiguidade as deusas eram sexualizadas (muito diferente do que veio acontecer com as figuras femininas da cristandade) e tal expressão não era um sacrilégio, pelo contrário, era uma possiblidade da devoção religiosa. As deusas eram mulheres que viviam a sua sexualidade, muito ao contrário das divindades cristãs.

Assim, ao entrar no espaço do Templo de Ísis, não apenas realizei uma viagem ao Mundo Antigo, mas uma volta a minha própria história. Um peregrino trilhando diversos tempos, tanto o do período da crise do Império Romano desencadeada no final do século II d.C. (Toynbee era uma referência para esse assunto), quanto o da década de 1970, vivido de forma tumultuada pelo jovem estudante que eu era. Estudante que aprendia e se surpreendia com as divindades femininas da Antiguidade – Ishtar, Ísis, Diana, Afrodite – e a tremenda mudança que aconteceu com a vitória e supremacia do cristianismo.

Ísis era filha de Nut (Céu) e de Geb (Terra), irmã de Osíris, Seth e Néftis. Ísis e Osíris se casaram e desceram ao mundo dos homens para civiliza-los. Osíris separou os homens dos animais, ensinou-lhes as técnicas agrícolas, deu-lhes leis e foi seu primeiro monarca. O irmão Seth ficou enciumado (ele também queria governar o Egito) e terminou matando Osíris e retalhando o seu corpo em diversos pedaços (14, segundo algumas versões). Ísis recolheu as diversas partes do marido morto e conseguiu reavivar a sua força vital. Morto, Osíris fecundou Ísis - em grande parte, graças as artes mágicas da esposa - e depois renasceu no Mundo dos Mortos.

Uma história e tanto, com diversas versões – inclusive a de que Ísis não encontrou o pênis do marido (que fora engolido por um peixe das águas do Nilo) e a fecundação se deu exclusivamente devido aos seus poderes mágicos da deusa. Poderes, magia e artes (propiciatórias de renascimento) que depois seriam ensinados aos iniciados nos mistérios da religião de Ísis.

Percorri as diversas salas de complexo templário lembrando as tantas leituras a respeito do mito, a religião que daí surgiu, assim como o movimento dos peregrinos que vinham adorar a deusa, queimar incenso no seu altar. Os faraós da dinastia ptolemaica deram especial destaque a esse culto e ele se expandiu pelo mundo greco-romano, com templos na Grécia, em Roma e até na distante Lusitânia. Uma devoção que atraiu a atenção do historiador Plutarco, no século I d.C., e o levou a escrever uma compilação mito osiriano. As religiões orientais penetravam com força na sociedade romana – a de Ísis, Mitra, a de Cristo também – e nós bem sabemos qual saiu vencedora. Com o predomínio cristão o Templo de Philae foi fechado – assim como o Templo de Éfeso, dedicado a Diana, outra importante deusa da Antiguidade – e nunca mais o mundo ocidental cultuou divindades femininas com atributos sexuais tão evidentes. Que longa luta em torno do feminino!

Peregrino ou não (cansado de uma longa caminhada pelos espaços do templo), encontrei a melhor evidência da grandeza da deusa Ísis numa das salas do fundo. Esculpido numa parede, vi o relevo da deusa com o filho sobre as pernas, uma imagem terna, a da Deusa Mãe e o Filho Divino (Hórus), que ela conseguiu do marido morto graças a sua determinação e arte. Uma representação certamente precursora das Madonas com o Menino que a Cristandade, séculos mais tarde, consagrou. Uma imagem reveladora das transformações - e também da continuidade - do culto às divindades femininas. Uma imagem a indicar o sonho e o desejo de muitos de nós. Uma mulher que acolhe, uma mulher que incendeia. A imagem ideal para um peregrino. Me senti realizado.

Deusa Ísis e o Filho Hórus.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Ruínas maias


Na Península de Yucatán, a 160 km da rede hoteleira de Cancún, encontra-se um dos mais famosos sítios arqueológicos maias: o de Chichén Itzá. Local da igualmente famosa Pirâmide de Kukulcan, dedicada a um deus com forma de serpente emplumada. Pirâmide de 30 metros de altura, ela própria é uma representação do calendário maia e, dessa maneira, uma das expressões máximas dessa civilização: os estudos astronômicos.


Até o ano de 2017 era permitido aos visitantes subirem as dezenas de degraus da pirâmide, mas isso deixou de ser possível devido às novas normas de preservação. Segundo o guia que conduziu meu grupo de visitantes, o grande número de turistas estava desgastando as pedras do monumento e colocando em risco a integridade da pirâmide. Além da proibição de escalar os degraus das pirâmides, também ficou proibido o ingresso nos templos. Agora, é só passear por entre os monumentos e olhar, embasbacado.

Talvez realizar o mesmo papel da antiga população maia. Afinal, a subida ao alto das pirâmides e o ingresso nos templos não era para qualquer um. Era um privilégio dos sacerdotes encarregados do culto e também dos guerreiros soberanos que detinham o poder local.

Como escreveu o historiador Paul Gendrop, os soberanos maias encenavam sua ascensão ao trono num “acontecimento revestido de caráter histórico e cósmico”. Subir os degraus da pirâmide fazia parte do ritual, dava o caráter cósmico da teatralização do poder histórico. Um ato (o de escalar até o cume do templo) que distinguia o sacerdote e o soberano dos mortais comuns – tanto dos integrantes da aristocracia quanto do povo em geral, especialmente dos camponeses. Camponeses que deviam ser subjugados regiamente, para melhor a elite abarcar o excedente da sua produção agrícola.

Ao chegar a Chichén Itzá, acho que quis imitar o sacerdote ou o soberano maia e, súbito, fui reduzido a minha condição plebeia. Levei um tempo para assimilar o impacto da notícia e a frustração.

Felizmente minha estadia em Cancún foi de uma semana e deu para explorar outros sítios arqueológicos. Fiz um outro passeio – até antiga cidade de Cobá – e lá encontrei a Pirâmide Nohoc Mul, a qual ainda é permitida escalar. Antigo espaço sagrado de 42 metros de altura, 138 degraus, com um minúsculo templo no alto. Ao contrário da Pirâmide de Kukulcan, os degraus e as paredes não estão restaurados e quadro é de ruína mesmo. Cenário de uma civilização que se desagregou, construção cercada pela floresta subtropical, lembrando as fotos tiradas pelos primeiros arqueólogos, quando eles descobriam esses monumentos, esquecidos pelos próprios descendentes dos antigos maias... Mais um elemento para fascinar o visitante.


Com todo o cuidado – e sem a performance elegante dos sacerdotes e guerreiros que subiam esse lugar sagrado com os corpos eretos – escalei os 138 degraus às vezes com ajuda das mãos e cheguei ao topo. Nenhuma sensação de ter executado uma cena cósmica, mas, sem dúvida, de ter realizado um sonho antigo, desses de leitor, de estudante de história, de professor, e percorrido o caminho das figuras históricas lidas e estudadas nos livros.

Observei a copa das árvores, abaixo de mim, e lembrei que isso fazia parte do projeto acalantado pela elite político-religiosa da antiga civilização maia: erguer suas construções acima das árvores. Criar templos monumentais e evidenciar aos membros da comunidade a sua insignificância frente aos deuses. Insignificância tão grande que até o seu sangue deveria ser dado em sacrifício aos deuses. Sangue derramado na base da pirâmide, por exemplo.
E justo quando lembrava disso, um casal fazia uma sessão de fotos na minha frente, na borda do alto da pirâmide. A moça abria mais um botão da sua blusa, insinuava uma doce sensualidade ao fotógrafo na sua frente (talvez seu namorado) e os dois pareciam em êxtase. Acho que um antigo sacerdote maia jamais entenderia essas novas apropriações do seu espaço sagrado...



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Cidade do Panamá


Passei pela Cidade do Panamá dias atrás. Passagem rápida. Desci no aeroporto da cidade, a caminho de Cancún, apenas para passar um dia. No caminho para o hotel, minha companheira acertou com o motorista do “táxi” um tour pela cidade e lá fomos nós. Primeira parada, a Estação Miraflores, a estação de uma das eclusas do famoso canal, próxima ao Oceano Pacífico. Junto à estação, um enorme prédio para visitantes, com museu a respeito do canal e uma enorme sacada para acompanhar a passagem dos navios. Minha visita se limitou a esse prédio, o museu e a sacada, mais o acompanhamento da passagem de dois navios. Uma visita de turista. Uma visita impressionante.



Escrevo essa crônica para organizar o impacto que o passeio causou. Fui professor de História da América Contemporânea durante vários anos e o Canal do Panamá sempre foi um tópico importante. O “duvidoso negócio”, como escreveu o historiador norte-americano John Chasteen a respeito da construção e administração do canal pelos Estados Unidos. Afinal, o ponto de partida do canal foi um acordo, em 1903, no qual não participou nenhum panamenho nativo. Pelo Panamá, assinou o engenheiro francês Philippe Varilla (responsável pela companhia francesa que havia iniciado a construção do canal décadas antes) e o recém-criado governo panamenho teve de aceitar as cláusulas do tratado imposto pelos norte-americanos. O Panamá transformado num protetorado norte-americano e o canal sob controle absoluto dos Estados Unidos. Um dos exemplos clássicos do chamado neocolonialismo. Só na década de 1970, após muita luta, os termos do tratado foram revistos.

Quando o “táxi” entrou na Zona do Canal e avistei os enormes prédios que antes serviam para a ocupação militar norte-americana, lembrei o episódio dos estudantes panamenhos invadindo a área para colocar bandeiras do Panamá, em maio de 1958. Uma pauleira danada. As tropas de ocupação norte-americana não aceitavam a contestação do seu domínio e revidaram com brutalidade. Essa manifestação estudantil (que hoje tem 60 anos) foi o início de uma luta mais agressiva pelo controle nacional do canal. O motorista, que era de poucas palavras, na hora em que passávamos na frente dos prédios, disse que eles já foram dos norte-americanos e hoje são prédios públicos – um deles uma universidade. Em poucas palavras, ele resumiu a passagem de um período histórico e, talvez, de um ainda vigente orgulho nacional.

Em 1939, o Panamá perdeu a condição de protetorado norte-americano. E, em meados da década de 50, incentivado pelo controle egípcio do Canal do Suez (conquistado por Nasser), o movimento estudantil panamenho abraçou a causa do canal e pouco a pouco a proposta ganhou o conjunto da sociedade e até da sua classe dirigente. Na década de 70, o presidente militar Omar Torrijos forçou a abertura das negociações com os Estados Unidos e, em 1977, um tratado reviu os termos da concessão. Em 1999, enfim, o canal passou a ser administrado por uma agência do governo panamenho, a Autoridad del Canal de Panamá (ACP).

Durante a maior parte da luta pelo controle do canal, um projeto de desenvolvimento nacional empolgou os panamenhos. Um projeto desenvolvimentista (daqueles que se tornaram dominantes na América Latina desde os anos 50) que visava o crescimento industrial, a inclusão dos trabalhadores, muito além da atividade de prestação de serviços ao comércio internacional. A partir de 1990, no entanto, os governos panamenhos passaram a endossar o ideário neoliberal e a argumentar que o país devia se especializar na prestação de serviços, pois essa era a atividade tradicional do país. Junto com isso, políticas de desregulamentação, flexibilização e privatização foram implementadas. O antigo projeto nacional ruiu e, seguramente, o Panamá que eu vi não foi aquele que era almejado nos anos 70, quando o acordo de 1903 passou por séria revisão.

Nos últimos anos, a capital ganhou ares extremamente modernos (ver foto abaixo), a ponto de ser chamada de “Miami da América Central” e/ou a “Dubai das Américas”. Para o turista que passeia pela cidade, um cenário impactante de prédios arrojados e sofisticados shoppings com as grifes mais famosas do mundo. Um território internacionalizado.



Foi essa a Cidade do Panamá que visitei. Encostado na murada da sacada de Miraflores vi passar um veleiro de passageiros e logo depois um petroleiro. No museu, peguei um informativo chamado “El Faro” (Revista Informativa del Canal do Panamá) que propagandeava os recentes acordos com os chineses para os seus navios cruzarem o canal e alcançarem a Europa. Os chineses desistiram de construir um canal próprio (na Nicarágua) e, pelo que entendi, já são parceiros dos grandes negócios que se realizam na capital panamenha. Negócios e mais negócios. Entre eles, a da nova rota da seda marítima unindo a China e a Europa, conforme propôs o presidente Xin Jinping. O Panamá como país neutro, negociando tanto com os norte-americanos quanto os chineses...

Bacana poder assistir aos navios cruzando as eclusas de Miraflores e constatar as mudanças que ocorreram no Canal. As mudanças que não vingaram (aquelas de orientação nacionalista) e as mudanças que foram vitoriosas (aquela de caráter neoliberal e internacionalizante).

Naquele dia, já tarde da noite, terminei o passeio numa mesa de bar, numa calçada da praça Simon Bolívar, junto com o motorista e minha companheira. Tomei uma taça de sangria, o motorista e minha companheira beberam refrescos, e conversamos amenidades sobre a cidade panamenha. Estávamos no território antigo da Cidade do Panamá – um bairro chamado Casca Vieja – com prédios de aspecto colonial muito bem restaurados. Uma paisagem urbana caribenha muito semelhante à de Havana – mas muito melhor conservada. E não pude deixar de lembrar que os projetos nacionais desenvolvimentistas dos anos 50, 60 e 70 não sucumbiram. Nem mesmo o projeto radical instaurado pela Revolução Cubana não deu todos os frutos almejados. Vitoriosa foi essa onda neoliberal que não é favorável às classes populares, tanto do Panamá quanto da América Latina em geral, mas que constrói cenários deslumbrantes para os endinheirados.

Naquela noite, hablando espanhol precariamente, paguei em dólares a conta das bebidas na mesa de calçada de Casca Vieja. No outro dia de manhã, antes de embarcar para Cancún, dei uma banda num enorme shopping center cheio de marcas famosas. E, apenas de longe, avistei o Panamá popular – das habitações populares – que não foi contemplado com a modernização excludente e neoliberal.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Roma - crônicas de uma aventura urbana


Mais um livro de viagem do jornalista Airton Ortiz, da coleção “Aventuras pelo mundo”:  Roma (Editora Benvirá, 2018, 166 p.). O autor passou uma temporada na Cidade Eterna, provavelmente no inverno de 2017-18, alugou um apartamento no bairro de San Giovanni junto com a irmã (conforme informações do próprio escritor numa das crônicas do livro) e narra com muito humor mais uma de suas aventuras urbanas. Com humor e muitas informações históricas, artísticas e religiosas – sem descuidar da gastronomia e especial dos vinhos. 



Não foi a primeira visita que o autor fez a Roma (foram várias, segundo indica) e esse acúmulo de experiências, vivências e leituras se traduzem em crônicas leves, agradáveis, feitas por visitante que percorre a cidade com enorme satisfação e redobrado interesse.

Texto de leitura rápida, como o próprio escritor aponta, satisfazendo assim tanto a pressa do leitor contemporâneo quanto a ansiedade que um livro sobre uma cidade de tantas possibilidades cria. Afinal, Roma é uma cidade que contém diversas camadas de história, variados estilos artísticos, variadas manifestações religiosas, que atravessar as suas ruas – a famosa Via dei Fiori Imperiali, por exemplo – é deparar-se tanto com as marcas do Império Romano, da Igreja Católica, quanto das lutas pela Unificação e o período fascista.

Essa enorme quantidade de registros de diferentes tipos dá uma certa aflição na maioria dos visitantes da cidade – e foi isso que revivi lendo o livro. Haja imaginação para dar conta do desafio de conhecer essa cidade, afirma o autor, e suas crônicas me parecer ser um auxílio nesse sentido. Um livro que propõe um exercício de imaginação, que estabelece uma série de roteiros sobre a Cidade Eterna, visando estabelecer significado para as tantas ruínas romanas que se encontra (marcas de uma civilização soterrada – tão distante de nós, cristãos ocidentais, quanto a japonesa), mais prédios renascentistas, estátuas barrocas, fontes idem, códigos e signos variados.

Respeitando essa diversidade, Ortiz divide o livro em três partes: a Roma dos romanos (do antigo Império Romano), a Roma dos italianos (do Renascimento e do Barroco, especialmente) e a Roma dos papas (do poderio da Igreja Católica). A respeito de cada um desses territórios estabelece diversos roteiros, indicando ao leitor possíveis caminhos, possíveis encantamentos com a paisagem urbana, com o interior das igrejas, dos museus, e – quando isso cansar (e cansa mesmo) – qual cafeteria, qual restaurante, prato ou vinho podem restabelecer as energias ou, simplesmente, proporcionar saborosas atividades profanas.

Arte & religião são a tônica desse conjunto de crônicas e o sublime é sempre uma possibilidade. Ao final da leitura, tenho a impressão de que o leitor tanto fica instigado a ver, apreciar (ou rever, em alguns casos) as maravilhas romanas – como prédios, igrejas, museus – como de beber os tantos Chiante a que o autor se refere.

No meu caso, ver / rever a estátua “O êxtase de Santa Teresa”, de Bernini (na igreja de Santa Maria da Vitória), e depois beber um cálice de vinho numa enoteca. Apenas um cálice, quem sabe dois, nessas pequenas enotecas romanas que tem a porta para alguma praça e que os frequentadores bebem na rua, sentados nos degraus de uma fonte, sem nenhum som automotivo estragando a imensidão da noite.


Obs.: com esse livro, Airton Ortiz se junta a outros escritores gaúchos que também escreveram sobre Roma: Luis Fernando Veríssimo (c/ ilustrações de Joaquim da Fonseca), Traçando Roma (Artes & Ofícios, 1993, 160 p.), e Joaquim da Fonseca (c/ ilustrações do autor), Roma Católica (Artes & Ofícios, 2001, 240 p.).

domingo, 6 de janeiro de 2019

Deuses, túmulos e sábios

     
          Livro escrito no final da década de 1940 por um escritor alemão – C. W. Ceram – e publicado em 1949. Desde então, editado no mundo inteiro com enorme sucesso. No Brasil, foi publicado pela Editora Melhoramentos no início dos anos 50 e, pelo menos até 2005, ainda reeditado. Colocado o título no Google, o leitor pode constatar que todos os sebos do Brasil têm um ou mais exemplares.


Conforme explica o autor, o livro inspirou-se em “Caçadores de micróbios” (1927), no qual a evolução da bacteriologia é apresentada com elementos de narrativa policial. Para Ceram, a arqueologia também é passível de tal abordagem e “Deuses, túmulos e sábios” traz um significativo subtítulo: “o romance da arqueologia”. Intencionalmente, então, o autor se propõe a abordar de forma romanceada o modo como as antigas civilizações – sumeriana, egípcia, babilônica, assíria, cretense, grega, romana, e também maia e asteca – surgiram aos olhos do Ocidente Moderno. E faz de arqueólogos-aventureiros – como o alemão Heinrich Schliemann (que descobriu a cidade de Tróia) e o norte-americano Edward Thompson (que descobriu a cidade maia de Chichen-Itzá) – os heróis da sua narrativa. Um livro empolgante que coloca o leitor diante das escavações que trouxeram à tona vestígios da história humana que foram esquecidas ou consideradas apenas lendas durante séculos – as escavações e as posteriores interpretações do material coletado.

          Faço esse comentário lembrando as conversas que tive com Saul Milder, colega no Departamento de História da UFSM. Eu indicava esse livro aos alunos de História Antiga e Saul Milder, professor de arqueologia, me criticava por isso, dizendo que se tratava de uma obra que representava a arqueologia colonialista, dominante na Europa e Estados Unidos desde o século XIX, além de estar superada neste ou naquele aspecto histórico. Mas isso, me parece, não é motivo para deixar de ler o livro – desde que compreendidas as intenções do autor, claramente expostas no prefácio e no último capítulo, e considerando também a época em que foi escrito.

Dividida em quatro partes, a obra abarca as escavações e investigações do mundo greco-romano, Egito, Mesopotâmia e das civilizações pré-colombianas da América Central e México. Como o eixo da narrativa é constituída pelos arqueólogos-aventureiros, os estudos a respeito das antigas civilizações da China, Índia e América do Sul (Incas) são deixados de lado, pois a arqueologia aventureira pouco contribuiu no avanço desses povos, segundo o autor. Se o leitor compreender isso, insisto, um livro fascinante a respeito de como a História se colocou aos olhos do Ocidente Moderno, desde Winckelmann, no século XVIII, com seus estudos de Arte Antiga, feitos a partir das recém descobertas Herculano e Pompéia.

“Os arqueólogos são muito chatos”, eu dizia para o meu colega Saul Milder, “os divulgadores científicos são muito melhores”. Mesmo falando isso, Saul Milder me convidava para as bancas de monografia de seus alunos de Arqueologia (trabalhos na maioria das vezes descritivos, a respeito de sítios arqueológicos indígenas ou outros, datados do período colonial ou das estâncias do século XIX) e eu aprendia muito com a leitura, com a exposição dos alunos e com os comentários do professor. “Ciência é isso aí”, ele afirmava, “um processo de investigação lento e cumulativo”. Mas eu retrucava que os leitores comuns precisam é de um Ceram para se empolgarem com esse conhecimento. Uma conversa onde sempre havia um tanto de provocação e outro de boas gargalhadas.

Assim, se o leitor não for tão rigoroso, tão científico, é empolgante a leitura de “Deuses, túmulos e sábios: o romance da arqueologia”, pois possibilita conhecer – por meio de personagens que encarnam o tipo investigador-aventureiro – como a Europa escavou as cidades de Herculano e Pompéia, criou a egiptologia (a partir da expedição militar de Napoleão ao Egito) e a assiriologia, assim como a maneira como os Estados Unidos trouxeram à tona as relíquias do mundo pré-colombiano. Nessa aventura pela história antiga, Heinrich Schliemann (1822-1890) talvez seja a figura exemplar. Jovem, se encantou com a poesia de Homero e acreditou que a Guerra de Tróia fosse uma verdade histórica, quando todos os cientistas de sua época afirmavam não passar de uma lenda. Homem adulto, se fez comerciante de êxito e depois empenhou sua fortuna para realizar o sonho juvenil: descobrir Tróia. Escavou no local indicado por Homero e talvez tenha descoberto a cidade destruída pelos aqueus – assunto que até hoje os historiadores discutem. Mas, seja qual for o resultado da discussão, a história grega nunca mais foi a mesma depois que Schliemann seguiu a senda de lendas, poemas e de seu sonho juvenil.

Obs.: A edição que eu li é a da Melhoramentos, 1964, e não traz nenhuma informação sobre o autor. Mas feita uma pesquisa no Google, encontrei o seguinte: C.W. Ceram era o pseudônimo de Kurt Wilhelm Market (Berlim, 1915 - Hamburgo, 1972). O autor fora importante propagandista do Nazismo e, depois da guerra, quis esconder o seu passado.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Filmes que marcaram (2)


Dou continuidade à lista e comentários dos dez filmes que me marcaram. E acrescento: não são necessariamente as produções mais geniais do cinema, mas os filmes que me emocionaram, me empolgaram e, por uma razão ou outra, não esqueci. Às vezes foi devido à temática (um tema histórico, por exemplo), à eficácia da narrativa, ao desempenho dos atores, ao erotismo e assim por diante. Ou tudo isso junto.

Curiosamente, os cinco primeiros filmes listados (na crônica anterior) foram assistidos quando eu era criança e morava em Pelotas. Em 1967, com 11 anos de idade, minha família veio para Porto Alegre e foi nos cinemas dessa cidade que assisti os filmes abaixo. Filmes da minha adolescência e juventude. Todos eles inesquecíveis.



6. “Les femmes”. Direção de Jean Aurel. Com Brigitte Bardot. França/Itália, 1969. 86 min.
 Filme erótico. Não lembro a trama. Brigitte Bardot corre nua pelo campo. Brigitte Bardot rola na cama com o seu amante, os dois insinuando relações sexuais – nada muito explícito, mas o suficiente para excitar as plateias dos anos 60. (Escrevo baseado apenas na memória, nunca mais revi o filme.) A câmera percorre lentamente o corpo da atriz deitada de bruços (fotografia acima) e o amante a acaricia e beija com vagar e delicadeza. Eu tinha 14 ou 15 anos e cursava o ginásio numa escola católica. O professor de Língua Portuguesa fazia discursos furibundos na sala de aula, criticando os filmes “com cenas de nudez e carícias lascivas” e “Les femmes” parecia ser uma dessas fitas que ele atacava. Justamente o filme que o Cine Colombo, a quatro quadras do colégio, estava exibindo e que todos nós, alunos, tínhamos visto os cartazes. Um amigo conhecia porteiro do cinema e nos garantiu que conseguiríamos entrar desde que pagássemos uma gorjeta ou algo assim. Entramos no cinema. Corremos para o mezanino e lá ficamos “escondidos”, extasiados. Não, não lembro de algum de nós utilizando uma das mãos para dar continuidade à empolgação. Tudo no maior respeito. Isso fazia parte do acordo com o porteiro.

7. "Toda nudez será castigada". Direção de Arnaldo Jabor. Com Darlene Glória, Paulo Porto e Paulo César Pereio. Brasil, 1973.

Esse filme foi minha porta de entrada na obra literária de Nelson Rodrigues – que eu conhecia apenas das crônicas (Confissões) que o jornal “Folha da Tarde” publicava. Fiquei fascinado com o retrato debochado, trágico-cômico, da tradicional família brasileira apresentada no filme. Uma família regida por padrões de moralidade sexual extremamente rígidos e com forte marca católica. Muita repressão sexual e muita culpa. De certa forma, uma abordagem dos dramas humanos semelhante ao do romance “O casamento", no qual um padre afirma: "Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva". A mesma exacerbação das paixões e da culpa. No filme, um viúvo transtornado pelo recente falecimento da esposa, promete ao filho nunca mais conhecer outra mulher. Depois, induzido pelo irmão malandro e aproveitador (interpretado por Pereio), conhece a prostituta Geni (interpretada maravilhosamente por Darlene Glória) e gama (fotografia acima). Ele se casa com a prostituta, traz a mulher para morar com a sua família e ela se envolve com o filho do viúvo. Geni desperta as paixões de pai e filho, vira ao avesso a família, desmonta os seus valores e ela própria também se desestrutura. Os principais personagens se afundam na culpa (Geni se suicida) e nada se salva – mas a plateia do cinema se diverte. Visto hoje, uma interpretação demasiadamente cômica da tragicomédia rodriguiana. Um filme datado – não consegui rever até o final. Mas sem dúvida impactante naquele início dos anos 70: uma leitura ousada da sociedade brasileira do período, que, apesar da modernidade capitalista promovida à força pelo Regime Militar, ainda estava mergulhada em valores arcaicos (do tempo da República Velha e muito mais).


8. “O amuleto de Ogum”. Direção de Nelson Pereira dos Santos. Brasil, 1974. 112 min.

Um violeiro cego (interpretado por Jards Macalé – foto acima - também autor da trilha sonora) canta a história de um retirante nordestino que vêm para o município de Caxias (no estado do Rio de Janeiro) e se transforma num pistoleiro de bicheiro (este último, interpretado por Jofre Soares). Detalhe importante: quando criança, o futuro pistoleiro viu o pai ser assassinado e foi levado pela mãe a um terreiro de Umbanda para ter o corpo fechado. A narrativa reúne a tradicional violência rural nordestina com a nova violência das vertiginosas metrópoles do Sul Maravilha. Vinculação entre os dois espaços sociais (o rural tradicional e o urbano moderno) por meio de um personagem com atributos sobrenaturais. A cena da ressurreição do pistoleiro – o rapaz salta do fundo das águas com armas em punho – é inesquecível. Um enfoque surpreendente do universo religioso e social das classes populares. A religiosidade de matriz africana e as condições de vida das classes populares na periferia da megalópole carioca. Para o estudante de História que eu era na época, uma narrativa cinematográfica que inovava as abordagens da realidade brasileira, na medida em que era mais dinâmica e mais vinculada ao ponto de vista popular – diferente das narrativas de outros filmes do Cinema Novo (que eu andava assistindo nas sessões de cineclube). Me parece que o filme é um ponto de virada na abordagem do universo popular. Mas nunca mais revi o filme. Escrevo com a lembrança do grande prazer que o filme me proporcionou. “E quem não gostou dessa história vá pra puta que pariu”, canta o violeiro cego na última cena do filme.

9. “Último tango em Paris”. Direção de Bernardo Bertolucci. Com Marlon Brando, Maria Schneider e Jean-Pierre Léaud. Música de Gato Barbiere. Itália/França, 1972. 129 min.
O filme foi um sucesso na Europa e censurado no Brasil. Enquanto não chegava às telas brasileiras, li o romance que deu origem ao filme e não gostei. Quando a película foi liberada e entrou na programação do Cine Cacique (ou será que foi no Scala?), fui dos primeiros a assistir (em dezembro de 79, provavelmente). O desempenho dos atores, a trilha sonora jazzística, a fotografia, a trama, os diálogos, tudo funciona muito bem. A princípio parece apenas uma aventura erótica entre um homem maduro (Paul) e uma mulher jovem (Jeanne) – homem e mulher que recusam revelar suas identidades e apenas viver seus impulsos sexuais –, mas logo a trama entre o casal se revela muito mais complexa, de uma densidade impressionante. O ponto de virada talvez seja o monólogo de Paul (Marlon Brando) diante do corpo da sua esposa, que havia se suicidado. Fica explicado o desespero e a desesperança do personagem. Enquanto Paul quer distância da lembrança da esposa morta, Jeanne (Maria Schneider) parece quer algo mais vital que a sua relação com um noivo enlouquecido por cinema (Jean-Pierre Léaud). Jeanne e Paul se relacionam como se apenas o sexo bastasse. Quando Paul tenta mudar o padrão da relação e revelar a sua identidade, Jeanne recua. No final, a cena do assassinato de Paul é um tango argentino desesperador, trágica e debochada. Paul entra no apartamento de Jeanne, a moça pega o revólver do pai, dispara e o amante morre na sacada, diante da paisagem parisiense. Antes de cair no chão, Paul sorri, tira o chiclete da boca e o gruda no parapeito da sacada. Enquanto isso, a moça murmura o que dirá para a polícia: que ela não conhecia aquele homem, que ele a perseguiu pela rua, invadiu sua casa e tentou violenta-la. A mocinha vence o homem madurão, cínico e debochado – e talvez vá casar com seu noivinho alucinado por cinema. Assisti várias vezes esse filme e sempre me surpreendi. Uma obra-prima.

10. “Sonata de outono”. Direção de Ingmar Bergman. Com Ingrid Bergman e Liv Ullmann. Suécia, 1978. 99 min.
         No meio da enxurrada de filmes de temática histórica, social e política que assisti nos anos 70, a cinematografia de Bergman era um aviso de que havia muito mais a investigar e entender que “o mundo determinado pelas condições materiais da existência”. Mais do que a realidade sócio-política, havia a complexidade da “alma humana”, sua psicologia e também sua inquietação com o sobrenatural. O primeiro filme que assisti desse cineasta foi “A hora do amor” (1971), considerado menor na sua produção, mas com uma cena que me marcou: um arqueólogo descobre uma estátua de Nossa Senhora esculpida em madeira e identifica nela uma colônia de insetos que a estão devorando. Em determinado momento ele a ilumina com uma lanterna e diz para a mulher a seu lado (com quem está tendo um caso) que aquela representação do sagrado, como tudo, está com data marcada. As palavras não são essas, claro, mas creio que o sentido é esse. O adolescente que eu era ficou impactado: o mundo do sagrado também era devorado pelo tempo, o implacável tempo. “Sonata de outono”, por sua vez, é um dos títulos mais elogiados de Bergman. Relembrei tudo outro dia revendo o filme no Telecine. Liguei a TV e peguei justamente na cena da fotografia acima: uma filha (Liv Ullmann) dialoga com a mãe, célebre pianista (Ingrid Bergman). As duas estão diante de um piano. A filha toca uma peça de Chopin para a mãe constatar o seu progresso e a mãe não é nada condescendente. Até tenta ser compreensiva com a filha, mas logo assume seu papel de exímia pianista e pouco a pouco corrige a filha e a ensina a interpretar corretamente aquela peça musical. Nem naquela hora, na intimidade de uma conversa com a filha, Charlotte (esse é o nome da exímia pianista) consegue ser uma mãe amorosa. Os olhos de Helena, a filha, vão se transformando (na medida em que a mãe fala e corrige), os olhos vão deixando aflorar as mágoas que a filha traz desde criança. “Eu te amava, mamãe, era uma questão de vida ou morte (...). Quando eu era criança, eu a sentia no meu corpo todo. Mas eu sentia que você não falava com o coração”. A mãe continua não falando com o coração. O filme é isso: uma tentativa de acerto de contas entre uma filha madura e sua mãe. Elas se dizem praticamente tudo que é possível dizer (muito mais do que a maioria das filhas e mães conseguem se dizer, imagino) e as coisas não se resolvem. Se a trilogia “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo, me ensinou a respeito do lugar do Pai na vida de um filho (por meio da relação entre Floriano e seu pai, o doutor Rodrigo Cambará), acho que esse filme me ensinou a respeito do lugar da Mãe. Especialmente quando a mãe não desempenha o papel amoroso que os filhos desejam. Tudo nesse filme é primoroso – as atrizes, então, excepcionais. Revendo o filme na TV, tive a certeza de que o cinema ocupa uma posição especial na minha vida. Diversão, aprendizagem, reflexão, prazer.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Filmes que marcaram (1)


Um amigo me propôs uma brincadeira: postar durante dez dias, no Facebook, uma imagem de cada um dos dez filmes que mais me impactaram. Topei. A regra do jogo era não fazer comentários. Apenas postar imagens. Segui o roteiro proposto, mas retomo aqui a lista com um pequeno comentário a respeito de cada um dos títulos.
Fiz a escolha entre os filmes que assisti na infância e juventude. Só aqueles que me fascinaram. Não necessariamente os melhores. Mas os que marcaram, conquistaram meu coração & mente e me constituíram. Narrativas cinematográficas, personagens, paisagens, atores e trilhas sonoras que forjaram meu imaginário.

1. “Os 300 de Esparta”. Direção de Rudolph Maté. EUA, 1962.


Filme ambientado na Grécia antiga, no período das lutas contra os invasores persas. Os exércitos de diversas cidades-estados gregas se comprometem a deter os persas no desfiladeiro das Termópilas, mas na hora H só os espartanos - com uma tropa de elite de 300 homens - aguentam o rojão. Mesmo sabendo que não terão reforços, que não terão chance de vitória, os espartanos não recuam e optam pela morte heroica. O filme me pegou por aí: a opção pelo sacrifício. A grandeza do sacrifício por uma causa grandiosa. O guri de calças curtas que eu era ficou fascinado. O filme foi a minha porta de entrada para esse importante episódio da Antiguidade e também do tradicional elogio do martírio. Adulto, li e reli o longo capítulo do livro de Heródoto em que essa batalha é abordada e sempre lembrei do filme, da emoção que tive ao assisti-lo. Contei isso diversas vezes para os meus alunos de História Antiga.

2. “O Vigilante Rodoviário”. Direção de Ary Fernandes. Brasil, 1962.


O menino que eu era ia ao cinema todos os finais de semana e não se alimentava apenas de épicos norte-americanos. Devo ter visto mais de uma vez esse filme do inspetor Carlos e seu fiel auxiliar, o cão Lobo. Hoje sei que a fita reunia episódios de um seriado da TV Tupi, mas na época era apenas uma das poucas opções de filme nacional que havia (junto com os de Oscarito e Grande Hotel). O Vigilante Rodoviário ficou na memória como garantia de um prazer semelhante ao das histórias em quadrinhos: a certeza da vitória do mocinho contra qualquer malfeitor – e ainda ajudado pela esperteza de um cachorro muito especial.

 3. “O Rei dos Reis”. Direção de Nicholas Ray. Roteiro de Philip Yordan e Ray Bradbury. EUA, 1961. 168 min.


        Entre os filmes de temática católica que assisti na infância (entre eles, “Marcelino, pão e vinho”) esse soou completamente diferente. Um épico hollywoodiano, certo – mas nem um pouco sentimental como era o padrão dos filmes religiosos. Criança, levei à sério a representação da Palestina no tempo de Cristo apresentada pela produção. Não sei como entendi a questão política apresentada, isto é, a do domínio romano sobre a Palestina e as várias opções para enfrenta-lo: o colaboracionismo do rei Herodes, a luta de libertação nacional liderada por Barrabás, a proposta pacifista de Jesus Cristo. Filme político-religioso, a película claramente leva a plateia a simpatizar com a doutrina de Cristo e o seu exemplo. É ele quem tem a melhor proposta e atitude para se contrapor a crueldade da dominação do Império Romano e também de transformar o mundo para melhor. O menino que eu era (que não perdia a missa aos domingos) de alguma maneira percebeu isso: o poder da mensagem cristã para o estabelecimento de um marco civilizatório. Mas não compreendeu, claro, que esse marco civilizatório implicava no reconhecimento do domínio do Império Norte-Americano. Decifrar os truques do cinema seria exigir demais de um menino que ainda não terminara o Curso Primário.

4. “Rastros de ódio”. Direção de John Ford. Com John Wayne e Natalie Wood. EUA, 1956. 120 min.


Assisti a esse faroeste quando criança, junto com tantos outros de John Ford, como “No tempo das diligências”, “Forte Apache” e “Rio Bravo”. Eu era parceiro de cinema de meu pai e ele adorava western, especialmente aqueles com John Wayne. Ele deve ter assistido a maioria dos filmes que esse ator encenou e não deixava de revê-los quando eram reprisados – e geralmente me levava junto. “Rastros de ódio” me caiu como um filme estranho – talvez devido ao aspecto sombrio do personagem interpretado por John Wayne – e só percebi a sua grandeza quando era estudante universitário, num memorável ciclo de faroeste no auditório da Assembleia Legislativa, em Porto Alegre. Memorável porque nesse ciclo de cinema vi filmes de John Ford que havia assistido quando criança, gostado, e jamais imaginado que fossem tão prestigiados pela crítica. Em “Rastros de ódio”, uma dupla de cowboys procura durante anos umas meninas raptadas por índios. Ao final, descobrem que apenas uma sobrevive e um deles (o sombrio cowboy interpretado por John Wayne) deseja matá-la, pois não admite um familiar aculturado pelos indígenas. A cena em que o cowboy é conquistado pela mocinha e ele enfim decide salva-la é impactante (fotografia acima) e talvez indique um emblemático e esperançoso episódio de superação do ódio racial. Provavelmente o maior de todos os faroestes. O embate do homem de fronteira (o cowboy) com seus sentimentos de repulsa e ódio diante do que lhe estranho (o mundo indígena, a cultura e a presença dos nativos que vivem no território que os brancos lutam para ocupar e dominar). Seguramente uma grande reflexão sobre o expansionismo norte-americano tanto no Velho Oeste quanto no mundo após a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos de um espectador latino-americano, o drama contundente das figuras que protagonizam o imperialismo ianque – figuras que são, ao final, conquistadas por uma proposta humanista, o convívio com o diferente. Para o estudante de esquerda que me tornei nos anos 70, uma película imperialista genial. Filme impecável - desses que vou continuar revendo.

5. “El Cid”. Direção de Anthony Mann. Com Charlton Heston e Sophia Loren. EUA/Itália, 1961. 182 min. 


Assisti no Cine Pelotense e saí em estado de êxtase. Talvez eu tivesse 10 anos de idade. Vivi, naquela tarde, uma das maiores emoções que o cinema me proporcionou. Fiquei fascinado com a bravura do herói e impactado com a utilização da figura do guerreiro cristão morto, encaixado em cima do cavalo, empolgando seus soldados na batalha decisiva contra os mouros, para garantir a conquista da cidade de Valência. Mas estranhei o fato do herói ter matado o pai da mocinha, sua amada, e ela ainda assim ter ficado com ele. Devo ter cravado o meu pai de perguntas a respeito do filme. Fiz o álbum de figurinhas que foi lançado na época e o guardei por vários anos. Mas terminei perdendo-o. O épico dos épicos. Recordo de um colega de aula, no Curso de História, afirmando que o filme foi a maior criação mítica do cinema norte-americano. Um símbolo da luta contra os adversários da Cristandade. Anos mais tarde li o “Poema de Mio Cid”, uma das referências para a construção do roteiro, e fiquei decepcionado. A conquista de Valência está no meio do poema e não ocupa o lugar central que tem na narrativa cinematográfica. Nem a luta com os mouros é o tema central do poema. A criação hollywoodiana é muito melhor. Também tive contato com a peça teatral de Corneille – “El Cid”, 1637 – e entendi que foi dali que os roteiristas se inspiraram para criar o conflito do herói com o pai da mocinha, Ximena (fotografia acima). Conflito que resultou em duelo, morte do pai de Ximena e banimento do herói para fora de reino de Castela. Descobri, então, que minha cabeça foi feita pelo cinema hollywoodiano. Afinal, durante anos, achei que a filme era a história verdadeira de Rodrigues Dias de Bivar ou coisa assim. Me enganei redondamente. Mas não deixei de gostar do filme e me comover com as lutas do Ocidente Cristão. Em especial, com o romance entre o bravo guerreiro e a delicada e também determinada Ximena. Que mulher – ou melhor, que interpretação brilhante a da atriz Sophia Loren.