domingo, 29 de setembro de 2024

Assalto ao quartel do 7º RI

 

Lembranças são assim: chegam de supetão. Comigo isso acontece frequentemente. E nem sempre são memórias ruins, pelo contrário. É um prazer ser tomado por elas.

Pois ontem de manhã eu estava caminhando por Santa Maria (me despedindo da cidade), passo pela frente do antigo quartel do 7º RI e recordo uma madrugada do início da década de 1990, quando meu amigo Luís Eugênio e eu fomos lá, paramos na frente do prédio, e rememoramos uma história que gostávamos muito.

Quartel do antigo 7º RI, atualmente do Comando da 6ª Brigada de Infantaria Blindada.
Foto do blog de José Antônio Brenner.

Eu morava em Santa Maria há pouco tempo (viera para esta cidade para lecionar na UFSM) e um colega nosso da Universidade nos dissera ter vivido um episódio fantástico (surreal, aos meus ouvidos) a respeito de um assalto àquele quartel, para salvamento de presos políticos, no final dos anos 60. Era uma história que ouvi o professor contar uma única vez, depois de ter bebido umas e outras. Um relato à boca pequena, com muitas lacunas, que resumo em dois parágrafos:

Ele pertencera a uma organização política que fazia oposição ao Regime Militar e alguns companheiros haviam sido presos. Entre esses militantes, uma moça muito bonita... Aqueles que não haviam caído se reuniram para deliberar a respeito do que fariam em relação às prisões e ele propôs a invasão do quartel. A turma recuou e ele, corajosamente, decidiu encarar a empreitada sozinho.

O restante da história é o professor, então um jovem estudante, com um lenço vermelho no pescoço, uma Smith & Wesson de cabo de madrepérola numa mão, uma granada na outra, tomando o quartel de assalto, durante uma madrugada. Ele imobiliza o guarda do portão principal, este o leva até a cadeia, os presos são libertados e ele os conduz pelo meio do campo, de Jeep, até a fronteira com o Uruguai.

Na oportunidade em que ouvi a história, o professor não admitiu contestação. Quando Luís Eugênio questionou – “Mas como, sozinho, invadir um quartel?!” –, ele se fechou e não tocou mais no assunto.

Luís Eugênio e eu, no entanto, nunca mais esquecemos e rememoramos o “causo” diversas vezes. Certa noite, depois de um jantar e muita conversa, resolvemos ir para frente do quartel para observar “in loco” se era possível ou não aquela história toda. Eugênio tinha um Opala e estacionou o carro na frente do 7º RI. Descemos e ficamos relembrando cada detalhe do mirabolante episódio: a Smith & Wesson, a granada, o susto do soldado que fazia a guarda no portão do quartel, a libertação dos presos e a viagem de Jeep pelo meio do campo, durante uma madrugada escura, em direção ao Uruguai...

– Uma história gaudéria – resumia Luís Eugênio, lembrando o detalhe do lenço vermelho, maragato, que o então jovem estudante colocara no pescoço para realizar a sua operação de salvamento.

Eugênio e eu nunca encontramos indício algum de que ocorrera um assalto ao quartel para o salvamento de presos políticos ou por outro motivo.

 

Obs.: o quartel do 7º RI foi inaugurado em 1913 e, segundo a descrição do memorialista José Antônio Brenner, suas “platibandas têm ameias imitando os parapeitos de fortaleza e nos cunhais há miniaturas de torreões ameados”. Uma construção impactante. Em 1987, o quartel passou a abrigar o Comando da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, mas até hoje a população da cidade o designa como “Quartel do Sétimo”.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Pilcha farroupilha

      Dois colegas de escritório, um homem e uma mulher, estão na cozinha da empresa sentados em torno de uma mesa, bebendo café, cada um com o seu celular diante dos olhos. A mulher espirra e diz:
     – Foi desse homem que eu apanhei. 
     – Apanhou muito? 
     – Apanhei essa gripe. Tive um pouco de febre, mas já passou. Só ficaram esses espirros. 
     – Me mostra ele – o colega pede. – É teu namorado? 
    – Mais ou menos – ela diz, virando o celular para o amigo, apresentando a foto de um homem de cabelos brancos e um pequena barriga se destacando por cima do cinto das calças. 
    – Vocês estão se dando bem? 
    – Acho que sim – ela repete. 
    – Mas dias atrás ele quis me levar numa festa gauchesca, me mostrou a pilcha dele e eu não me controlei. Disse que achava aquilo muito atrasado, muito sem graça, sei lá. 
    – E o homem emputeceu, foi isso? 
    – Não, mas se ofendeu. Cheguei a dizer que esse negócio de pilcha farroupilha era horrível. Nem devia ter falado desse jeito, mas escapou. Perdi o controle. 
    – Pois é, quem é chegado no tradicionalismo e se pilcha na Semana Farroupilha se ofende quando alguém critica essa coisa toda. 
    – Isso aí. Ele se ofendeu e até disse que eu não amo o Rio Grande. 
    – E que isso de olhar torto para as comemorações da Revolução Farroupilha é coisa dos comunistas que estão infestando as universidades e fazendo guerra cultural, confere? 
    – Isto mesmo. Como é que tu sabes? 
    – Pela “lata” de tiozão dele. Tem todo o jeito de um sujeito conservador. Ele acampou na frente dos quartéis pedindo intervenção militar? 
    A mulher se levanta, vai ao balcão se servir de mais café, volta para a mesa e diz: 
    – É um homem das antigas, conservador. Mas vamos pular essa parte da política – ela acentuou. – A gente não fala muito nisso. O que importa é que estou gostando de lidar com um homem desse tipo. Com outra pegada, sabe? Eu estava me controlando, mas aí ele me mostrou a tal da pilcha, disse que queria me ver vestida naquele estilo... e eu estrilei. 
   – Vocês discutiram? 
   – Não, não chegamos a esse ponto. Mas nós alteramos. Pela primeira vez eu disse que não sou uma mulher convencional, que se vestir de prenda não faz o meu estilo, o meu jeito de ser, e ele se assustou. 
   – E a festa gauchesca que ele queria te levar? 
   – Eu desconversei naquela noite. Aí veio a gripe e eu aproveitei para dizer que ia ficar em casa, na cama, vendo Netflix. 
   – A gripe que tu apanhaste dele? 
   – Hahã. 
   – Gripe oportuna, hein? 
   – Isso mesmo. Não nos vemos desde que começaram as festanças da Semana Farroupilha e nesse tempo só trocamos mensagens. 
   – O tiozão entendeu o teu estilo, o teu jeito, então? 
   – Não sei. Me mandou uma foto dele todo pilchado, dizendo que ama o Rio Grande e as suas tradições. 
   – E tu? 
   – Eu respondi que eu também. Mas que estava gripada, com febre, acamada, sem disposição para festas. Quase falei que o Rio Grande esperasse por mim, mas me controlei.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

A Imperatriz Leopoldina

 

Quem passeia por museus ou exposições de arte sabe: tem obras que puxam os olhos da gente. Pois a visita que fiz ao Museu do Ipiranga, dias atrás, não fugiu a essa regra. Entrei no Salão Nobre do museu, onde se encontra a grande tela de Pedro Américo, “Independência ou morte!”, e o que me chamou mais atenção foi um quadro da Imperatriz Leopoldina, rodeada pelas quatro filhas e com o futuro imperador D. Pedro II no colo.

Na frente da famosa tela da “Independência...” o meu olhar vagou pelas figuras solenes do então Príncipe Regente e sua comitiva, se fixou no tropeiro no canto à esquerda, que observa espantado para aquele bando de cavalarianos gritando entusiasmado, e na sequência pousou no quadro da Leopoldina.

"Retrato de D. Leopoldina de Habsburgo e seus filhos" (1921),
de Domenico Failutti.

Ela não era uma mulher bonita e o artista que a pintou não dourou a pílula. Se bem que deu um toque de vivacidade à imperatriz, tornando-a muito simpática. Um quadro que Afonso Taunay (o diretor do Museu na época do 1º Centenário da Independência) mandou pintar em 1921 para reconfigurar a sala. Um quadro colocado na parede à esquerda da famosa tela de Pedro Américo, enquanto na outra parede, à direita, encontra-se um quadro representando Maria Quitéria. As duas, uma rainha e uma mulher-soldado, dando o toque feminino ao processo de emancipação política festejado naquela sala.

Leopoldina era uma princesa do Império Austríaco (filha do imperador Francisco I) que veio para o Brasil em 1817 (com 20 anos) casar-se com o príncipe D. Pedro (naquela altura, o futuro rei de Portugal). A mulher viveu nove anos no Brasil, engravidou nove vezes, sofreu dois abortos e pariu sete filhos. Cinco sobreviveram. Era uma princesa educada para ser rainha e sabia muito bem o papel que devia exercer, isto é, “fazer filhos”.

Li o livro da historiadora Mary Del Priore, “Leopoldina & Maria da Glória: duas rainhas: vidas e dores”, e fiquei impactado com a trajetória da imperatriz.[1] Neste livro, a autora recria a voz da filha primogênita de Leopoldina, Dona Maria da Glória (1819-1854, rainha de Portugal a partir de 1834), e faz ela narrar a vida da mãe. Uma estratégia narrativa que funciona. Tanto permite uma compreensão da trajetória íntima de Leopoldina (suas aspirações, o casamento, as frustrações) quanto da sua ação política a favor da independência do Brasil e do estabelecimento da monarquia.

Segundo a narrativa ficcional empregada, Leopoldina se colocou na posição de ter “quantos filhos pudesse” com o marido imperador. Ao casar aspirava “amor, afeto e compreensão” e o prazer sensual não estava no seu horizonte. Entendia o casamento como um sacerdócio, um encontro mais de almas do que de corpos, salvo para procriar, e mesmo frustrada devido a rudeza e indiferença do marido, não deixou de cumprir o seu dever. Em 1826, aos 29 anos, morreu de tanto engravidar. Uma trajetória, ao que tudo indica, comum às mulheres de sua época.

Quanto ao comportamento político, Leopoldina compreendeu bem as relações entre Brasil e Portugal (a emancipação política da antiga colônia era inevitável), se colocou a favor da independência e, principalmente, defendeu a adoção do sistema monárquico. Neste último aspecto, visando garantir a continuidade da sua família no poder. Pautava-se pelo ideário tradicional (o absolutismo monárquico, no qual fora criada) e seu envolvimento com o ideário liberal era apenas de fachada.

No Salão Nobre do Museu do Ipiranga, foi a Imperatriz Leopoldina que ganhou a minha atenção, deixando o ilustre marido em segundo plano (apesar de ele ser a figura central da narrativa visual apresentada como indiquei na crônica anterior). Certamente foi o livro da Mary Del Priore (que começara a ler dias antes) que ascendeu o meu interesse pela personagem. No livro, Leopoldina é descrita como uma mulher que sofria “ingratidões e desgostos” e se resignava ao seu papel de rainha: engravidar e parir sem pestanejar e fazer política quando isso fosse possível.



[1] DEL PRIORE, Mary. Leopoldina & Maria da Glória: duas rainhas: vidas e dores. RJ: José Olympio, 2024. 112 p.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Visita ao Museu do Ipiranga

 

Estive em São Paulo com minha companheira e fizemos um pouco de tudo. Sete dias de passeios intensos e variados. Batemos pernas pelo centro da cidade, pela Avenida Paulista e achamos tudo muito bonito. Só nos demos mal quando saímos do Mercado Municipal e enveredamos por uma rua muito suja, com moradores de rua revirando lixo. Assustados (eu cheguei a imaginar o pior), saímos dali o mais depressa possível.

Afora este episódio desagradável, andamos somente pelos espaços bacanas da cidade: os museus, as casas-museus, os institutos culturais, as livrarias, as padarias e os bons restaurantes. Entre esses lugares bonitos, o Museu do Ipiranga, que reinaugurou em 2022. Um lugar que eu estava curioso para rever e saber como foram mantidas/reorganizadas as velhas narrativas criadas por Afonso Taunay, diretor do museu na época das comemorações do 1º Centenário da Independência. Narrativas centradas em grandes personalidades (como Raposo Tavares, Fernão Dias e D. Pedro I) que, com o tempo, foram consideradas “eurocêntricas, androcêntricas, etnocêntricas e elitistas”.

Prédio do Museu do Ipiranga.
No primeiro andar, o salão nobre, onde se encontra o quadro de Pedro Américo.

Uma tarefa e tanto manter as pinturas e esculturas que embasam uma visão de história (hoje contestada) e, ao mesmo tempo, indicar os contrapontos e críticas a essa narrativa. Uma empreitada levada a bom termo, me pareceu. O museu foi construído para consolidar e exaltar uma visão paulista da história brasileira, iniciada pelos bandeirantes, centrada no famoso grito do Ipiranga, e não poderia fugir disso.

“Independência ou Morte!”, o famoso quadro de Pedro Américo está exposto na sala central (o  salão nobre) e na outra extremidade (fora do museu, depois de um extenso jardim e uma alameda igualmente longa) encontra-se o colossal Monumento à Independência. Este o eixo do museu. D. Pedro I erigido como personalidade fundamental, o herói que promoveu o rompimento dos laços com a Metrópole por meio de um gesto solene (o grito do Ipiranga) e consolidou um Estado Nacional de forma negociada e pacífica. Um modo de encarar a nossa independência desconsiderando os conflitos militares ocorridos nas províncias da Cisplatina, Bahia, Piauí, Maranhão e Grão-Pará, gerados por uma expressiva resistência armada portuguesa. Não foi fácil derrotar a gente lusitana! Houve guerra, sim, não muito diferente das que ocorreram no restante da América Latina, nas colônias espanholas.

Mas a visão que se consagrou foi a de um processo pacífico protagonizado pelas elites do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, entendimento que o Museu do Ipiranga consolidou. Uma visão de História que tem a sua matriz no Instituto Histórico Geográfico, no Rio de Janeiro, durante o Segundo Reinado, mas que não vou desenvolver aqui (é conversa pra mais de metro), apenas indicar.

Jardim e alameda, caminho entre o museu e o Monumento à Independência.

Na visita que fiz ao Museu do Ipiranga, dias atrás, eu queria era cumprir o rito proposto pela historiografia tradicional. Após contemplar o famoso quadro, propus a minha companheira caminharmos até o Monumento à Independência e ela topou. Fazia um calor danado e fomos. Valeu a pena. Nas outras vezes que visitara o museu não encarara a peregrinação até o monumento e dessa vez completei o ciclo: o quadro de Pedro Américo, a caminhada pelo jardim e alameda, o monumento.

Quando cheguei diante do monumento, o fogo estava acesso na pira da pátria e D. Pedro I e seus soldados estavam lá – em bronze – montados nos seus cavalos e erguendo as espadas. Um espetáculo e tanto. Professor de História que fui durante 38 anos, me senti realizado.

Painel central do Monumento à Independência.
Recriação do grito do Ipiranga imaginado por Pedro Américo.


quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Acreditar em si mesmo

 

Cruzando a noite de Porto Alegre dentro de um carro de aplicativo, me dou conta de que, se pretendo escrever um novo livro, mudar de cidade (trocar Santa Maria por Porto Alegre), ou até voltar a dirigir, a primeira coisa a fazer é acreditar em mim mesmo. Ouvi isto ainda pouco. “Precisas acreditar que tu podes”, ela disse.

Não vou dizer quem ela é porque um cronista precisa manter certa discrição. Se sua narrativa for muito explícita, lá se vai a literariedade e o texto perde a graça. Uma narrativa que se pretenda literária tem que respeitar certas características – e algumas delas são a de não entregar tudo e criar certas lacunas... que o leitor vai preenchendo com a sua própria vida e por aí vai.

Pois uma mulher me provocou com as frases típicas de um coach, os clichês que eles utilizam para incentivar o seu público desejoso de lições de vida, e me dei conta de que ela... pode ter razão. “O começo de tudo é acreditar em si próprio”, eu repito, lembrando o que ela disse. “Isso é uma bobagem”, ela falou, “mas às vezes funciona.”

Eu enumero os desafios que enfrento no momento (entre eles o de mudar de apartamento) e me dou conta de que Porto Alegre é uma cidade aonde eu cheguei em 1967, com onze anos de idade, junto com meus pais e dois irmãos. Uma cidade da qual eu saí, vinte e quatro anos depois, para morar em Santa Maria, e para a qual estou voltando.

Em Porto Alegre eu passei a adolescência, fiz o Curso de História e iniciei a carreira no Magistério Estadual. Também me casei pela primeira vez e tive dois filhos. Não aguentei o salário de professor do Estado, busquei várias alternativas e aquela que colou foi um concurso na Universidade Federal de Santa Maria.

Assim, em 1991 fui lecionar no “Coração do Rio Grande” (um dos apelidos de Santa Maria), levei a esposa e os dois filhos, e praticamente reconstruí minha vida nesta cidade. Uma possibilidade que a Universidade me proporcionou.

Me separei poucos anos depois, me casei novamente com outra mulher, da qual também terminei me separando. Me aposentei depois de 38 anos de magistério e agora volto. “Será que acredito em mim o suficiente para me reconstruir na capital do Estado?”

Cruzando a cidade dentro de um carro de aplicativo, sinto que “acreditar em mim é o primeiro passo”. Vou apostar nisso. Estou me exercitando nesse sentido: acreditar, ter fé, essas coisas. Sou um homem retornando a alguma coisa muito antiga e me sentindo novamente inteiro: raiz, tronco, folhas e frutos. Inteiro, apesar de velho (beirando os 70 anos).

Uma mulher me incentiva a confiar em mim mesmo, diz palavras encantadoras aos meus ouvidos e eu sigo em frente. É como se retomasse a alguma coisa muito antiga...

Sim, acreditarei em mim. Alguma coisa é possível.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Briga de casal

             Simone (vou chamar assim essa mulher que criei com alguns dados da realidade e outros tantos da imaginação) foi visitar o ex-marido, para acertar alguma coisa a respeito da filha adolescente de ambos, e a conversa saiu dos trilhos. A mulher resolveu dizer “umas verdades”.

“Tu nunca me valorizou como mulher”, ela começou. “Os homens são assim: querem dizer o que as mulheres devem fazer e arrasam com a autoestima delas”, argumentou. “Casamento é uma merda, as mulheres sempre saem perdendo. Mas eu não vou deixar barato. Nesses seis anos que estamos separados, eu me reconstruí, recuperei a minha autoestima e hoje sou uma nova mulher”, anunciou.

Ele deixou que ela dissesse o que precisava dizer. “Não vou pôr mais lenha na fogueira”, justificou em voz baixa, sem saber se a mulher o escutava ou não. Viu a ex-esposa caminhar de uma ponta a outra da pequena sala do apartamento em que morava (um apartamento menor do que aquele em que viveram juntos, no qual ela ainda morava com a filha) e se surpreendeu com o fato dela ter ainda viva as queixas de quando estavam casados. Perguntou o que ele determinara que ela fizesse, o que ele impediu ela fazer. “Como é que eu te desvalorizava?”, insistiu. E a ex-mulher puxou um rol de episódios que explicitavam as agressões e humilhações do ex-marido.

“Um dia tu ficou furioso porque eu comprei lençóis novos para nossa cama, lençóis belíssimos, de fio egípcio, e bateste com a cabeça no espelho do banheiro. Bateste de raiva. Achaste que eu fizera uma compra inútil. Um absurdo, tu falavas e quebraste o vidro do armário do banheiro. Eu tive que repor. Tu nem pensaste nisso. No prejuízo que me causaste.” 

Ele falou que não lembrava, que achava que não fora bem desse jeito, mas não insistiu nesse argumento. Não se defendeu. “Mas se tu tá dizendo...", falou. E ela retomou o assunto da autoestima ferida e recuperada, disse que estava encontrando homens melhores e, com a voz baixa, inclinando a cabeça e escondendo o rosto (não  olhando diretamente para o ex-marido), falou: “O Roberto até que fazia a coisa bem feita. Fazia bem. Não deu certo porque ele é difícil. Um egoísta, um egocêntrico, um horror.”

O ex-marido sentiu alguma coisa batendo no osso do peito, apertando, doendo. “Olha, aí já é demais”, quis dizer. “Ele trepa melhor do que eu, é isso?” Mas as palavras não saiam da sua boca ("Não vou pôr querosene nessa história", pensou, se contendo), enquanto ela continuava falando sobre os novos homens na sua vida. Ele conhecia dois ("Seriam mais de dois?"), com o Roberto ele conversara tempos atrás e o outro fora seu vizinho. Ela caminhava de uma ponta a outra da sala. “A vida continua, a fila anda”, ela dizia. E perguntava: “E tu, estás encontrando mulheres que te satisfaçam mais?”, conjugando os verbos corretamente e parando na frente dele, as duas mãos nos quadris, e por fim levantando-as para o alto, num gesto de enfado. “Tá, tu não vai falar, eu sei. Tu nunca quiseste conversar comigo de verdade”, ela disse. E pegou a bolsa e uma sacola que deixara sobre o sofá, se preparando para sair.

O ex-marido se levantou, abriu a porta para ela ir embora. “Era isso que eu tinha para dizer, infelizmente era isso”, ela disse bem perto dele, olho no olho, cruzando a porta sem qualquer sinal de despedida (mesmo separados, costumavam se beijar no rosto) e tomando o rumo do corredor do prédio. Ele ficou olhando-a caminhar até a porta do elevador, tocar no botão para chamá-lo, esperar, entrar. Ouviu a porta do elevador se fechar, a máquina estalar para o elevador descer (a vida continuar, a fila andar), e perguntou a sim mesmo se também guardava tanto ressentimento... Se também tinha um discurso pronto a respeito da vida que tiveram juntos e do seu processo de reconstrução pessoal...

          Enquanto ele se questionava, Simone saiu do prédio, pegou a chave do carro dentro da bolsa, abriu a porta, se sentou na frente da direção, com os olhos cheios de lágrimas. “Eu tô chorando, que merda!”, ela disse para si mesma, sem saber se estava aliviada ou não, afinal dissera tudo, mas não dissera tudo também, talvez fosse melhor não ter falado, mas agora já tinha dito e era melhor assim. “Foda-se.” Precisava dizer, mas talvez não devesse dizer. “Pronto, mas agora tá feito”, disse, dando a partida no automóvel, tomando o rumo da sua casa e da sua nova vida.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Trauma de araque

 

Alberto teve um acidente de carro durante a juventude. Tinha 23 anos, bebeu demais numa festa (eram os anos 80, não havia esse negócio de não dirigir alcoolizado), estava com o carro do pai, com duas gurias dentro (uma ao seu lado, no banco da frente, a outra no banco de trás), perdeu o controle numa curva (talvez estivesse em alta velocidade, nunca soube direito, estava embriagado mesmo) e bateu num caminhão. Os três ficaram feridos, o caminhoneiro não sofreu coisa alguma. A guria que estava no lugar do carona fraturou a perna direita, a que estava atrás bateu com a boca no banco da frente, ficou toda inchada, um dente frouxo, ele bateu com a cabeça no parabrisa e perdeu muito sangue. Apenas isso, nenhuma morte. Mas foi o suficiente. “Deu pra mim, escapamos por um triz”, falou. Nunca mais retomou a direção. O carro ficou destruído, mas felizmente havia seguro total e não deu prejuízo pro Velho. “Só as gurias se ferraram.”

Vinte anos depois, casado, dois filhos, fez menção de comprar um carro para si próprio e voltar a dirigir. “Fazer autoescola novamente”, disse, “começar do zero”. Mas a mulher, motorista exemplar (dessas que nunca cometeram uma infração), pôs objeções. “Tu precisa mudar, então”, ela falou, “tu é muito distraído”. Já tinha visto ele pegar o carro dela, na praia, e não ficara segura. Alberto levou em consideração o comentário da esposa (“Ela me conhece”) e disse que iria pensar. “Tenho que encarar isso, mudar”, disse para a mulher. “Será que fiquei traumatizado?”, perguntou para a esposa e ela falou: “Pode ser”. Mas deixou o tempo passar, não encarou coisa nenhuma.

Pouco tempo depois, numa conversa com a mulher na cozinha, os dois bebendo vinho, ouviu ela dizer, brincando, que não queria ver ele andando sozinho dentro de um carro. “Tu tá muito enxuto, ainda”, ela falou, rindo, “e, se a mulherada te ver sozinho num carro, cai em cima”. Ele achou graça. “Não tô com tudo isso”, disse, e deixou passar. Mas ficou com uma pulga atrás da orelha: “Será que é por isso que ela não quer me ver dirigindo?”

Novamente o tempo passou e Alberto não fez nada. Nenhuma atitude para mudar. Não pegou o carro da mulher para se experimentar nem encarou a tal autoescola como prometera. Viu os dois filhos tirarem carteira de motorista e, um dia, quando o mais velho lhe dava uma carona, ouviu ele perguntar: “Pai, por que tu te mixou?” Estavam apenas os dois dentro do Fiat do guri e ele não soube o que responder. Pensou em dizer que ficara traumatizado com o acidente que teve na juventude. “Deixei duas gurias machucadas”, começou a falar e desistiu. Não era verdade. “Eu não fiquei traumatizado porra nenhuma”, pensou. “Um trauma de araque, isso sim. Tenho 52 anos e me conheço um pouco. Posso enganar os outros, mas não a mim mesmo.”

Naquele dia, não conseguiu mais falar com o filho e pediu para ele deixá-lo na próxima quadra. “Vê onde é melhor para tu parar”, falou. Depois saiu caminhando a esmo, esqueceu o que tinha que fazer e repetiu para si mesmo várias vezes: “Sou um cagão. E ainda por cima um marido obediente. Um merda.” E disse para si mesmo que dessa vez iria mudar de verdade. Não ia se esconder atrás de um trauma de araque, como chegara pensar e até a dizer.

Mas fez a coisa de modo enviesado.  Teve um caso com uma colega de serviço, a esposa descobriu (depois se deu conta que deixou o rabo de fora – “Inconscientemente, claro”, falou para o psiquiatra) e quebraram os pratos. Ele saiu de casa. “Nosso casamento deu o que tinha pra dar”, justificou, e tratou de reorganizar a vida. A colega foi apenas um caso passageiro (“Carne nova para possibilitar uma vida nova”, falou na psicoterapia) e uma das primeiras mudanças foi se conscientizar que não sofrera trauma algum. Era um sujeito inseguro, submisso no casamento (“Porra, por que eu sou assim?”, se questionou durante a psicoterapia) e pediu para o filho mais velho lhe ensinar a dirigir novamente. “Talvez isso seja um negócio simbólico, o jeito de eu me reconstruir”, falou para o psiquiatra, “ganhar autonomia ou coisa assim”. O terapeuta achou que era um caminho.

“Acho que ainda dá tempo”, disse para o filho, sentado na direção do Fiat do guri. O garotão riu, disse para o pai arrancar, fazer as mudanças adequadas. “Assim mesmo, Velhão”, encorajou. E garantiu: “Tu ainda lembra como fazer. É como andar de bicicleta. A gente não esquece.”

domingo, 1 de setembro de 2024

Viajar para sair da aldeia

 

Li outro dia que viajamos para construir lembranças. Na hora concordei. Mas depois fiquei pensando e conclui que não. Viajamos para conhecer o mundo, sair do espaço restrito da nossa aldeia e alargar nossos horizontes. E, nesse processo, adquirimos/construímos lembranças.

Chegar em Lisboa pela primeira vez, por exemplo, foi um deslumbramento completo. Parecia  que eu estava adentrando no "vasto mundo" (aquele indicado por Drummond). Foi como se eu voltasse no tempo e recuperasse a minha vivência de estudante, as fantasias que criei quando guri (no Primário, no Ginásio) estudando as Grandes Navegações, a monarquia lusitana, o domínio português sobre o Brasil...

Naquela oportunidade, em janeiro de 2012, num determinado dia, eu almocei com minha antiga companheira não lembro onde, ela voltou para o hotel e eu fui visitar o Castelo de São Jorge. Nós tínhamos , à noite, um espetáculo de fado no Chiado, um jantar no restaurante São Carlos, e eu precisava estar no hotel por volta das 18 horas. Então visitei o castelo,  depois peguei um bonde (eu queria passear de bonde), desci na Praça do Comércio e procurei um táxi.

Quando desci do bonde e me vi na famosa praça, entre o Arco do Triunfo da Rua Augusta de um lado e a estátua equestre de D. José I do outro, desbundei. Uma série de lembranças (livrescas, claro) me vieram a mente (o Terremoto de 1755 e a reconstrução de Lisboa, a formação do Império português e a dominação sobre as colônias) e pensei: "Então era aqui o centro do Império que tanto construiu como massacrou o Brasil?" Me dei conta de que era um brasileiro, originário de um país colonizado... Um país que, até hoje, se digladia com a herança do colonialismo...

Não foi uma sensação ruim. Foi muito boa. De certa maneira, eu estava no centro do mundo... do mundo que tanto estudara, imaginara e fantasiara. Sensacional!

Seguiu-se uma noite de fado e, depois, uma caminhada de três quadras até o Teatro São Carlos, por volta das dez da noite, as ruas da Misericórdia e Almeida Garret vazias, só o barulho dos nossos passos. Uma noite fria, escura e desafiante. Eu tinha o caminho na cabeça, estava com receio de me perder (era a primeira vez no Chiado), mas acertei a direção e chegamos lépidos e faceiros no restaurante do teatro.

Fernando Pessoa morara quando criança num prédio em frente, mas, naquela hora, eu não tinha clareza quanto a isso. Um pintor embriagado veio até nossa mesa, tentou nos vender uns quadros terríveis. Era um homem em estado deplorável (os dentes estragados) que nos contou a sua vida de privações, morando em Paris, voltando a Lisboa, morando mal, tentando viver da sua arte... e nos achando ricos para ajudá-lo. Que situação! Só nos livramos do artista porque o garçom interviu.

Voltei anos depois ao Chiado, sozinho, igualmente à noite, batendo pernas pelo entorno do teatro (sim, Fernando Pessoa morara no prédio em frente ao Teatro São Carlos) e creio que cruzei com o mesmo artista com seus quadros de baixo do braço, visivelmente alterado e temi que me reconhecesse. Mas cruzamos um pelo outro na noite silenciosa, cada um seguindo o seu destino.

Acho que viajar é isso: ter essas experiências em lugares distantes, às vezes exóticos, lugares que muitas vezes tomamos conhecimento primeiramente pela literatura, pelo cinema, pela historiografia... e de repente nos vemos dentro dele.

Não viajamos para construir lembranças. Mas para sair da aldeia, ganhar o mundo ou, ao menos, tentar ganhar, conhecer. Nesse processo, temos momentos especiais, que se destacam do nosso cotidiano na aldeia em que vivemos, como um passeio de bonde entre o Castelo de São Jorge e a Praça do Comércio, um espetáculo de fado no Chiado, um jantar no Teatro São Carlos e o encontro com um pintor desvairado tentando nos vender a sua arte horrorosa.

Teatro Nacional de São Carlos (2017).

Obs.: procurei uma foto dessa primeira viagem a Portugal, em 2012, e não encontrei nenhuma. Alguma coisa houve no meu computador. Perdi esse arquivo de fotos.