Lembranças
são assim: chegam de supetão. Comigo isso acontece frequentemente. E nem sempre
são memórias ruins, pelo contrário. É um prazer ser tomado por elas.
Pois
ontem de manhã eu estava caminhando por Santa Maria (me despedindo da cidade),
passo pela frente do antigo quartel do 7º RI e recordo uma madrugada do início
da década de 1990, quando meu amigo Luís Eugênio e eu fomos lá, paramos na
frente do prédio, e rememoramos uma história que gostávamos muito.
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Quartel do antigo 7º RI, atualmente do Comando da 6ª Brigada de Infantaria Blindada. Foto do blog de José Antônio Brenner. |
Eu
morava em Santa Maria há pouco tempo (viera para esta cidade para lecionar na
UFSM) e um colega nosso da Universidade nos dissera ter vivido um episódio fantástico
(surreal, aos meus ouvidos) a respeito de um assalto àquele quartel, para salvamento
de presos políticos, no final dos anos 60. Era uma história que ouvi o
professor contar uma única vez, depois de ter bebido umas e outras. Um relato à
boca pequena, com muitas lacunas, que resumo em dois parágrafos:
Ele
pertencera a uma organização política que fazia oposição ao Regime Militar e
alguns companheiros haviam sido presos. Entre esses militantes, uma moça muito
bonita... Aqueles que não haviam caído se reuniram para deliberar a respeito do
que fariam em relação às prisões e ele propôs a invasão do quartel. A turma
recuou e ele, corajosamente, decidiu encarar a empreitada sozinho.
O
restante da história é o professor, então um jovem estudante, com um lenço
vermelho no pescoço, uma Smith & Wesson de cabo de madrepérola numa mão,
uma granada na outra, tomando o quartel de assalto, durante uma madrugada. Ele
imobiliza o guarda do portão principal, este o leva até a cadeia, os presos são
libertados e ele os conduz pelo meio do campo, de Jeep, até a fronteira com o
Uruguai.
Na
oportunidade em que ouvi a história, o professor não admitiu contestação. Quando
Luís Eugênio questionou – “Mas como, sozinho, invadir um quartel?!” –, ele se
fechou e não tocou mais no assunto.
Luís
Eugênio e eu, no entanto, nunca mais esquecemos e rememoramos o “causo” diversas
vezes. Certa noite, depois de um jantar e muita conversa, resolvemos ir para
frente do quartel para observar “in loco” se era possível ou não aquela história toda.
Eugênio tinha um Opala e estacionou o carro na frente do 7º RI. Descemos e
ficamos relembrando cada detalhe do mirabolante episódio: a Smith & Wesson,
a granada, o susto do soldado que fazia a guarda no portão do quartel, a
libertação dos presos e a viagem de Jeep pelo meio do campo, durante uma
madrugada escura, em direção ao Uruguai...
–
Uma história gaudéria – resumia Luís Eugênio, lembrando o detalhe do lenço
vermelho, maragato, que o então jovem estudante colocara no pescoço para
realizar a sua operação de salvamento.
Eugênio e eu nunca encontramos indício algum de que ocorrera um assalto ao quartel para o salvamento de presos políticos ou por outro motivo.
Obs.: o quartel do 7º RI foi
inaugurado em 1913 e, segundo a descrição do memorialista José Antônio Brenner,
suas “platibandas têm ameias imitando os parapeitos de fortaleza e nos cunhais
há miniaturas de torreões ameados”. Uma construção impactante. Em 1987, o quartel
passou a abrigar o Comando da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, mas até hoje a população da
cidade o designa como “Quartel do Sétimo”.