terça-feira, 28 de maio de 2024

O Velocino de Ouro

 

Dias desses postei aqui no blog uma crônica a respeito de um amigo que me disse que as cheias de rio “roubaram” muitas horas da sua infância. Ele morou na fazendola dos avós (entre os 8 e os 12 anos de idade) e o rio mais próximo costumava encher e transbordar com as chuvas. Um dia (quando tinha 9 anos) o rio invadiu o seu quarto (apenas um palmo de água) e ele nunca mais esqueceu. Passou noites e noites acordado, pensando no rio que podia subir novamente. E até hoje não esquece o episódio.

Pois lembrei dessa história e fiquei pensando que eu também já me senti roubado. Mas não pela natureza implacável, com seus excessos de água e a violência dos rios. Nem por algum ladrão que entrou na minha casa. Não, um roubo devido a uma outra circunstância da vida. No caso, a perda de alguma coisa muito própria, íntima, ao findar uma relação amorosa.

Sim, por um tempo, senti que tinha sido roubado por aquela “ingrata”, da qual, um dia, me separei. Bobagem!, ela nunca fez isso. Era e é uma mulher muito digna, honesta, no entanto, durante um tempo (curto período de tempo, felizmente), senti isso... Roubado de alguma coisa lá do fundo de mim, como a identidade e a potência de viver, vá entender! Exagero, claro. A minha tendência ao drama. Um sentimento que me atordoou até que, da noite para o dia, sumiu. Me acordei e era de novo dono da tal identidade perdida assim como recuperara a antiga capacidade de viver.

Acordei e pronto: estava de posse do Velocino de Ouro, aquela preciosidade mágica (capaz de curas milagrosas) que os Argonautas (heróis da Antiga Grécia) foram buscar no Reino da Cólquida (nas margens orientais do Mar Negro). Uma lenda que conheci no cinema, na infância, num daqueles filmes históricos da década de 1960 que hoje sou incapaz de assistir, "Jasão e os Argonautas", mas que fizeram a minha cabeça quando criança[1].

Cena do filme "Jasão e os Argonautas", na qual o herói enfrenta
uma das provas para conquistar o Velocino de Ouro.

Acordei, então, sentindo entre meus dedos o Velocino de Ouro, lembrando que nunca certa noite, num hotel em Istambul, olhei pela janela do bar e me extasiei com a vista do Estreito de Bósforo. “Foi por aqui que os Argonautas passaram”, eu lembrei na hora, sentindo uma felicidade enorme. Era como se os Argonautas estivessem ali, diante meus olhos, refazendo a sua mítica jornada em busca de uma preciosidade mágica...

Pois, quando senti ter recuperado o que achava ter sido roubado de mim (que exagero, volto a repetir), foi como se tivesse regressado da longa expedição dos Argonautas... Uma viagem que fiz sem sair de casa, mas que me custou muito. Uma ginástica tremenda.

Vivi dentro de uma fantasmagoria por um curto período de tempo e me recuperei, enfim, desses fantasmas.   

– Voltei do Reino da Cólquida – digo para mim até hoje, criando uma outra fantasia: a fantasia de que fui obrigado a cumprir uma longa trajetória para recuperar o que perdi. Um exagero, claro, mas que vivi intensamente.

Para alguns de nós, o mundo nunca é uma linha reta unindo um ponto ao outro. Estes, os que vivem assim, são os felizes racionalistas. Os outros, os dramáticos e fantasiosos, esses padecem, muitas vezes, de sofrimentos desnecessários. Uma merda, uma grande merda, da qual alguns de nós não escapam.



[1] Jasão e os Argonautas. Dir.: Don Chaffrey. EUA, 1963. 104 min.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Culpa imaginária

          

Meu avô gostava de falar do tempo dos caudilhos, da Revolução de 1923, por exemplo, do episódio em que Zeca Netto tomou Pelotas por um dia. Invadiu a cidade de madrugada, pegou os quartéis desprevenidos e os controlou após uma troca de tiros. Depois desfilou as tropas rebeldes no centro da cidade, sob aplausos da multidão.

O vô falava como se estivesse lá, assistindo a tudo, mas depois eu soube que a vó não o deixou sair de casa naquele dia. Quando ela soube que a revolução chegara na cidade, proibiu ele de sair.

Acho que a vó teve razão. Meia dúzia de civis foram feridos, dois ou três morreram e o vô contava que um dos mortos era uma mulher recém-casada. Ela abriu a janela da sua casa e recebeu um tiro na testa. O marido ficou inconsolado. Durante anos se culpou pela morte da esposa porque achava que ele tinha pedido para ela ir à janela ver o que estava acontecendo... e por isso ela morrera. Anos mais tarde ele ouviu a sogra contando a sua versão dos fatos:

– Naquele dia eu fui correndo na casa da Aninha para ver se ela e o marido estavam bem. Bati na janela, ela veio atender e aconteceu aquela desgraça.

O vô contava essa história. Ele o conhecera. Talvez tenham sido colegas nas Ferragens Viana (em Pelotas), ambos trabalhando como comerciários. Lembro do vô desfiando esse caso, sentado numa espreguiçadeira na calçada, na frente de casa, nas noites de verão. Mas não tenho mais certeza se o episódio foi de fato em Pelotas ou em Bagé ou mesmo em Santa Maria (neste último caso, durante a greve dos ferroviários de 1917). Seja como for, foi coisa de política & revolução ou movimento social. E o viúvo ficou inconsolado, se achando o culpado da morte. E foi desta maneira que ele se tornou parte da minha galeria de personagens: a dos homens atormentados por uma culpa imaginária. Culpado por algo pelo qual não foi responsável.

Estava presente na cena do crime, apenas isso, não participou de coisa alguma, mas se sentia como se tivesse comandado o show. Uma culpa decorrente de um sentimento de onipotência, pois o tiro não foi dado por ele e, sim, por uma das partes beligerantes, um rebelde maragato ou um chimango legalista. Mas na sua imaginação, o tiro foi disparado por ele, quando mandou a mulher abrir a janela... Que poder, hein?!

Quem tem propensão a se sentir culpado, sempre arranja um jeito de puxar a culpa para o seu lado. Eu faço parte desse time, é terrível. Fácil, fácil me sinto responsável pelas dores do mundo. As pessoas se dão mal ao meu redor, eu fico achando que podia ajudá-las, poderia fazer alguma coisa para minorar seu sofrimento... Uma merda! E custo a perceber que não há coisa alguma que eu possa fazer. Vá dormir com um barulho desses!

Quando o vô contava essa história, terminava mais ou menos assim:

– Ele nunca esqueceu aquela desgraça. Casou de novo com mulher bonita, teve filhos saudáveis e de vez quando puxava essa história do fundo do baú. Acho que, se esposa não tivesse levado um tiro, inventaria outra coisa pra desgraçar a sua vida. Nunca se deu conta que a peleia era entre maragatos e chimangos. Foi um desses filhos da puta quem sentou o balaço nas fuças da mulher, ele não. Ele nunca passou de um reles civil desarmado. Um infeliz.

Passado mais de cinquenta anos dessas conversas do meu avô na calçada, em noites de verão, desconfio que minha memória recriou muito coisa. Inventou mesmo. Mas o essencial ficou: meu avô descortinando o mundo para o guri que eu era e, entre as figuras apontadas, a desses desgraçados que sofrem por culpas imaginárias.  

domingo, 19 de maio de 2024

Mãos grossas (conto)

 

Duas mulheres estão em torno de uma mesa, numa confeitaria. Elas aparentam 50, 54 anos no máximo, mas já passaram dos 60. São mulheres cuidadosas com o corpo, muita academia, cremes, algumas intervenções estéticas e enganam bem. Uma delas fala sem parar, a outra apenas escuta e bebe chá.

– Eu deveria ter dito “sim”, quem sabe ter aceito a proposta do Daniel, mas optei pelo contrário e não me arrependo, sabe? Nós estávamos viajando pela Campanha numa espécie de reconciliação, sentindo se retornávamos ou não o nosso casamento, e paramos em Dom Pedrito para dormir. Um hotel muito bonito, uma espécie de hotel butique, sabe?, e tivemos um amanhecer com sexo bom, o Daniel com toda corda, como sempre, e eu ali, pagando pra ver. Tomamos um rico de um café e ele queria voltar pra cama, mas eu pensei, sei lá, senti, que com aquele céu azul o melhor era sair, dar uma volta. Então eu falei: “quero ver as terras que foram dos meus avós”. As terras que meu pai perdeu para o primo mais esperto da família, não sei como, uma perda que me incomoda até hoje. Dói, sabe?

A mulher morde um pedaço de quindim, mastiga apressadamente e volta ao assunto:

– O Daniel sempre foi assim: colocou o sexo em primeiro lugar, eu não. Acho que foi isso que me fez dizer “não”, naquela manhã. A velha história de sempre, e ele entendeu. Ele já ganhara o suficiente e eu estava assada. Ah, meu Deus, esse sempre foi um problema pra mim e não seria desse jeito que nos reconciliaríamos. Não, não mais. Então eu inventei a história das terras dos meus avós e ele topou. Veio o roteiro completo na cabeça e eu recordei aquela confusão toda de quando o pai ficou sem nada, a minha mãe furiosa com a incompetência dele. Eu disse “não” para o meu ex-marido e me senti trocando (a minha reconciliação, quero dizer) por esse passado que me atordoa. Acho que eu poderia ter vivido de outra maneira, muito melhor, se tivesse herdado alguma coisa. O Daniel sempre soube disso e falou a respeito enquanto nós enveredávamos por terras de chão batido. Ele não ficou contrariado, sabia que dessa toca não sai mais coelho, nosso casamento acabou, ficou essa amizade, sabe?, algum sexo ocasional, depende. Acho que nossa viagem era só para terminar a nossa vida em comum com uma chave de ouro, uma coisa assim. “Tá bom”, ele falou, lá pelas tantas, “tudo por esse passado que te atormenta, não é mesmo?” Eu não respondi e fui dizendo pra ele o caminho, fui lembrando de tudo na hora, dobra aqui, segue por ali, é logo adiante. Se eu tivesse dito “sim”, talvez teríamos mais uma tentativa de vida comum frustrada, não ia ser bom. Se tivesse dito “sim”, não teria conhecido o Alfredo... Os caminhos que a vida dá!

A outra mulher arregala os olhos, comenta que os acasos constroem a vida, ninguém nunca vai entender, mas a amiga não escuta e continua:

– Ah!, o Alfredo, talvez ele não entrasse na minha história se eu tivesse dito “sim”. Pois nós giramos e giramos, o Daniel e eu, e, quando bati o olho no casarão antigo, gritei como se fosse uma adolescente, tu acreditas? O Daniel dirigiu até a porteira, falou em abri-la para nós irmos até o casarão (completamente em ruínas, claro, abandonado) e eu não quis. Achei que era demais. Aquela era a casa que meus avós viveram, meu pai também se criou ali, e eu via que não era um casarão coisa nenhuma. Não tinha opulência e eu não quis chegar mais perto daquela casa que, na minha imaginação, fora semelhante àquelas de “E o vento levou”. Eu sempre me senti uma Scarlett O’Hara, o Daniel sabe disso. E então nós ficamos parados na porteira, olhando de longe, tirando fotos, e foi aí que apareceu o Alfredo. Surgiu nem sei de onde, parecia caído do céu, e perguntou se nós queríamos entrar, visitar a fazenda. “Sou o proprietário atual”, ele falou, “se vocês quiserem, não custa nada”. Custa tudo eu pensei, já naquela hora sentindo que aquele homem queria me comer. Ele gesticulava, as suas mãos apontavam o campo, a casa, faziam menção de abrir a porteira, e eu logo notei aquelas mãos grossas, de homem do campo. Ele, um sujeito sofisticado, via-se pelas roupas, os óculos, o relógio, mas com esse jeito de campeiro que conheço desde menina. Mãos de proprietário de terra, desses que colocam a mão na massa... Eu não sabia que gostava disso, mas gosto, ou melhor, estou gostando. Os homens que eu tive não eram assim. Ele passou a ser o dono das terras dos meus avós, tomou o lugar do meu tio... Como isso aconteceu?, pensei, mas logo esqueci.

A mulher interrompe para mais uma mordida no quindim e seus olhos se enchem de lágrimas. Ela pega um lenço, seca:

– Acho que foi ali que eu comecei a me sentir uma menina diante daquele homem, mas não tenho certeza. Acho que só intui que ele era uma ponte com aquele passado que eu perdi, perdi quando meu pai não soube manter a propriedade do campo, sei lá. Só percebi isso quando estava com ele na cama e as mãos dele passavam pelo meu corpo. Mãos rudes, ásperas, que não lembro de um dia ter conhecido desse jeito, na intimidade, acariciando minhas coxas, meus seios... Um tipo de mãos que eu não sabia... mas hoje eu sei, sempre me atraíram. Não sei explicar. Elas estavam na minha memória, em algum canto, e eu me tornei menina diante do Alfredo por causa daquelas mãos, tu acreditas? Me senti uma adolescente encantada. Tô apaixonada por ele. Mas naquela hora, na porteira da antiga casa dos meus avós, eu apenas conversei educadamente, agradeci a gentileza, disse para o Daniel que estava bom assim e voltamos. Regressamos para Santa Maria sem que eu conseguisse falar grande coisa. Daniel queria conversar, mas percebeu que tudo fora demais para mim e calou. Deve ter achado que fora a visita ao casarão e eu até achei, no princípio. Mas depois, olhando aqueles campos ao redor da estrada, a tarde caindo, o pampa maravilhoso na minha frente, eu me dei conta que estava fisgada. Como faria para encontrá-lo? Dois dias depois, qual não foi a minha surpresa, chega uma mensagem pelo Whats. Não sei como ele soube meu número. Um homem muito capaz, homem do campo, com alguma rudeza e também sofisticação. Tem curso superior, é super viajado, eu soube depois. Um sedutor. Mas Daniel não percebeu e até comentou: “como é que esse grosso pegou a terra dos teus parentes, hein? Deve ser esperto.” Espertíssimo, eu digo agora. Mas isso não me interessa. Com ele eu estou voltando ao campo, com ele eu estou enfeitiçada, mesmo que ele esteja longe do meu padrão e talvez a coisa não se mantenha. Ele é recém separado, a ex não sai de cima, ainda não acertaram a partilha dos bens, essa coisa toda, mas tá bom assim. Aconteceu e eu estou deixando rolar. Enquanto ele quiser, eu vou ficar com ele. É assim que estou me sentindo: uma mulher das antiga. Ele é quem manda e eu aceito.

Ela come o último pedaço de quindim, olhando o movimento do shopping, e percebe que o chá está gelado. Segura a xícara com as duas mãos:

– Gelou, viu? – ela diz para a amiga. – Não bebi na hora certa, deu nisso. Tem coisas que precisamos fazer na hora. Se eu tivesse dito “sim” para o Daniel e voltado para a cama com ele, não estaria aqui com essa história toda.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A serventia da raiva (conto)

 

Raul e Inês foram casados dezoito anos, isto até o dia em que a mulher pegou a pasta do marido em cima do balcão da sala, a pasta não estava bem fechada e caiu um embrulho de presente. Inês pegou o pequeno volume, viu o selo da loja (de acessórios femininos), apalpou o pacote e pensou: “É uma echarpe. Raul comprou uma echarpe pra mim? Não pode.”

O casal andava distante um do outro e pouco falavam entre si. Quando Raul abria uma garrafa de vinho e pedia para ela vir beber com ele, ela torcia o nariz.

– Olha, esse é dos bons – ele insistia, com o nariz enfiado na taça, fazendo pose de entendido no assunto, o que estava longe de ser.

Inês perdia a paciência, explicava “pela milésima vez” que não gostava de álcool, vinha de família de alcoólatras, e ia para o quarto ver TV.

Mas com o pacote de presente nas mãos, Inês cravou os olhos no marido, quando viu ele chegando na sala. Estava interessadíssima em desvendar aquele mistério.

– O que é isso? – ela perguntou.

Raul empalideceu, ficou parado no meio da sala, enquanto Inês repetia a pergunta e acrescentava:

– Vamos logo.

Raul pediu que ela se sentasse no sofá e, mal ela se acomodou, lascou:

– Tenho outra. Aconteceu. Eu não aguentava mais.

A mulher ficou calada, depois se levantou, foi na direção do banheiro e, antes de entrar, perguntou:

– Tu vais embora hoje ou amanhã?

– Hoje mesmo – ele respondeu e foi na direção do quarto fazer as malas e depois no escritório, juntar o notebook e alguns livros.

Uma semana depois Inês continuava no quarto, chorando, e a irmã chegou dizendo que ela precisava reagir, pois os dois filhos adolescentes precisavam dela.

Inês mal tirou a cabeça das cobertas, olhou para a irmã e falou que preferia ficar na cama.

– Eu não tenho vontade de nada, só de chorar. Tô morrendo de raiva daquele filho da puta, mal caráter – ela disse.

A irmã não titubeou e afirmou:

– Então pega essa raiva, te levanta e usa esse ódio pra mandar a merda do filho da puta e tu retomares a tua vida. Ou vai deixar que ele te arruíne?

Inês levou ainda mais um dia para sair da cama, tomar banho, se ajeitar e começar a retomar a sua rotina, inclusive o trabalho que tinha deixado completamente, com apenas um e outro e-mail enviado para a chefe.

Os filhos, que estavam administrando a casa, fazendo almoço, colocando roupa na máquina, tratando com faxineira semanal, respiraram aliviados. O cotidiano iria se restabelecer. Mas se enganaram. A mãe se aprumou, voltou a trabalhar (gerenciava uma loja num shopping), mas nem sempre voltava para casa no final do dia.

Neste período, se enfiava dentro dos cinemas do shopping e assistia filmes sem muita atenção, a cabeça a mil. Também bebeu um pouco além da conta, mas não fez mais do que isso. Às vezes dava longas voltas cidade, descobriu o apartamento da amante do marido e passou a cruzar pela frente do prédio. Um dia, estacionou em frente ao quarto da “paraguaia” (no segundo andar), e jogou a garrafa de vinho que acabara de beber.

Um vizinho abriu a janela:

– O que é isso, tá louca? Quer que eu chame a polícia.

– Vai de foder – ela gritou. – O meu marido tá trepando com uma vadia atrás dessa janela e eu quero a cabeça dele.

O vizinho se calou, fechou a janela e ficou espiando-a por uma fresta.

– Aparece, Raul, filho da puta.

O marido apareceu na porta do prédio, de cara amarrada, procurando uma solução conciliadora:

– Te acalma, mulher. Tu tá bêbada? Nós podemos nos entender como pessoas civilizadas.

– Pessoas civilizadas, o cacete.

– Nosso casamento era um desastre. Qualquer um via, tu não percebeste?

– Que desastre o quê?! Nós éramos casados, porra! Tu devia ter me falado e não fazer essa merda que tu acabou fazendo.

Raul ergueu a mão, sentiu que iria esbofeteá-la e se conteve. Pensou novamente em algo conciliatório, mas conhecia Inês. “Nessas horas, ela é impossível”, pensou. Mesmo assim perguntou:

– O que é isso, Inês? Vamos com calma.

– É raiva, Raul, muito raiva – e avançou com a mão na cara de Raul, ele a segurou pelo pulso, ela revidou com a outra e o tapa jogou os seus óculos no chão.

Raul se abaixou, ficou aliviado por encontrar os óculos inteiros, lembrou que já levara um sopapo da mulher em outra ocasião (por muito menos que um caso de traição) e disse para si mesmo que “dessa vez, não”. Tomou dois passos para trás, protegendo-se, pensando o que fazer, enquanto a mulher fervia de ódio e falava sem parar. Raul sentiu algo vir do seu estômago, temeu que fosse vomitar e colocou a mão na boca. Estava enojado. O mundo era um nojo.

– Eu também tenho raiva, Inês, raiva pelo que vivemos nos últimos anos. – Mas não disse que sentia nojo também. Raiva e nojo. Nojo de uma mulher que se distanciara dele, de um casamento que esfriara, e dele mesmo, que se acomodara a tudo aquilo.

– Eu não vou deixar tu saíres lépido e faceiro da minha vida e vir foder com esta sirigaita. Não vou não – repetia a mulher, sem se dar conta da vizinhança nas janelas, assistindo ao espetáculo.

Raul também não percebia, apenas se sentia enojado e com medo de vomitar. A amante abriu a janela do quarto e gritou para que ele não desse conversa pra vagabunda.

– Ela quer barraco, Raul, só barraco.

– Não te mete, Denilse, por favor. Isso é conversa entre eu e ela.

– Me meto, sim. Tu está comigo ou não?

Raul começou a discutir com a amante, pedir novamente para ela deixar ele resolver os seus problemas sozinhos, e Inês achou graça. “Tô botando fogo na vida desses dois”, pensou.

Então virou as costas, foi na direção do seu carro e, antes entrar, gritou:

– Vão a merda. Os dois. Vocês se merecem.

Sentiu que era bom xingar, pôr a raiva para fora e lembrou da irmã. “A raiva tem serventia mesmo. É um instrumento poderoso”, concluiu.

“Vão se foder”, ela disse para si mesma, enquanto ligava o carro, repetindo várias vezes o xingamento. Depois riu porque se deu conta de era isso mesmo que eles estavam fazendo: fodendo. “Filhos da puta, filhos da puta, filhos da puta”, saiu murmurando. A raiva tomando conta de todos os poros do seu corpo e Inês começando a se sentir bem. Passou a vida sufocando a raiva, “um  sentimento tão feio”, mas agora via que era bom.

– Bem que a minha irmã tem razão. A raiva pode me ajudar.

domingo, 12 de maio de 2024

Um passado muito distante

 

Encontrei Susana no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Eu estava sentado num banco, olhando não sei pra onde, ela passou, me viu e se sentou ao meu lado para perguntar a respeito de um amigo comum, Rafael, a respeito do qual ela anda preocupada. Eu disse que nos vemos pouco ultimamente, só trocamos e-mails, geralmente sobre os livros, e sei pouco a respeito da sua vida pessoal. Meu amigo é publicitário e poeta, mas sem livro publicado.

Então ela me contou que ele não consegue se recuperar da separação, o que eu sei mais ou menos, pois homens não costumam se estender em confissões entre si.

– Ele deixou a Vani há quatro anos e tá sozinho até hoje. Não engata coisa alguma – ela disse. – Só biscate e olhe lá. Um dia a ex se desentendeu com um namorado e foi dar com os costados no apartamento dele. Se aboletou por lá duas semanas, ferida e magoada, segundo ela mesma.

– Eu soube – falei. – Até pensei que ela tivesse apanhado do cara, mas não foi nada disso. Foi morar com o sujeito e arrepiou. Se desgostou do sujeito, que era velho e cheio de manias, conforme ela contou.

– Pois é, e aí ele recebeu a ex, uma safada, deu colinho, fez sopinha e deixou ela dormindo por lá.

– O Rafa é assim: um coração generoso – falei.

– Um paspalhão, isso sim. A Vani sempre pintou e bordou, ele deixou ela por conta disso, mas tá aí: não consegue encerrar o ciclo. Ou a ópera, pois é uma ópera esse casamento e a separação deles. – Fez uma pausa e arrematou: – Tu não queres ir lá, dar um toque pra ele? A Vani vai manter ele na rédea curta até o fim da vida e ele vai servir de estepe por muito e muito tempo, escreve o que tô te dizendo.

– E eu vou lá fazer o quê? – pergunto.

– Fazer ele bancar o homem, ora bolas. Mas tem outra coisa – e Susana me explicou a história do vaso. Um vaso que a ex deu para ele, num período de reconciliação. – Acho que dentro daquele vaso, escondido entre as raízes da planta, tem um sapo morto. Só pode.

Eu ri, mas prometi que iria lá, sim. Não moro mais em Porto Alegre, mas tenho viajado para a Capital frequentemente e, assim, dei um jeito de aparecer na casa do meu amigo poeta. E convenci ele a se desfazer da planta – uma Crássula Ovata – que está num canto da sacada. Bonita planta, por sinal, bem vistosa. Vingou na sacada do meu amigo.

Juntos, então, meu amigo e eu cortamos a planta em pedaços, revolvemos a terra do vaso e colocamos tudo dentro de sacos, sem encontrar nenhum sapo. “Nenhuma mandinga”, escrevi para Susana.

Meu amigo até ficou emocionado, disse que era presente da ex, não gosta de se desfazer dos signos do passado, mas compreendia minha preocupação.

- Às vezes há sinais no mundo que ignoramos, não sabemos ler - ele filosofou.

– O caso é que não consigo esquecer a Vani - ele continuou. - Não consigo deixar de me preocupar com ela. – Fez uma pausa e concluiu, olhando para os próprios pés: – Agora ela anda com outro velho rico, esta jogando só com essa clientela e me preocupo com isso.

Sentados nós dois na sacada, bebendo vinho, meu amigo fala que sente como se existissem amarras dentro dele prendendo-o a um passado muito distante.

– Não é a Vani que me segura – ele poetiza. Sim, meu amigo é poeta. – É coisa de outras eras, do "cosmopolitismo das moneras", como diria Augusto dos Anjos. É esse mundo arcaico que me puxa para o fundo.

Eu aponto os sacos com a planta e a terra e digo para ele que, quando aquilo estiver no caminhão do lixo, não haverá mais nada pesando na sua vida. Nós dois não acreditamos disso, mas rimos da piada fraca.



segunda-feira, 6 de maio de 2024

A primeira namorada

 

Aos 16 anos tive a primeira namorada e dançamos ao som do Creedence Cleawater Revival em algum baile de colégio. Era assim em 1971. Mas a coisa durou pouco. A guria tinha 18 ou 19 anos, estava se preparando para o vestibular, e a mãe dela não botou fé em mim. “Esse não tem futuro”, ela disse para a filha e a guria me dispensou.

Nós continuamos nos vendo, conversando sobre literatura (líamos os românticos do século XIX, mais Bandeira e Quintana, entre outros) e trocando livros. Um dia, quando eu estava saindo da sua casa (tinha ido devolver um Jorge Amado), um sujeito emparelha comigo na calçada e logo fico sabendo que ele era o seu novo namorado. Um rapaz bem apessoado, vinte e poucos anos, formado em num curso técnico voltado ao trabalho com couro (atividade em alta na indústria do calçado, na época) e com todo jeito de ser um bom partido, bem como a mãe da moça desejava.

O sujeito começa a falar, nós paramos na calçada (numa esquina, disso lembro bem) e ele diz que a guria não queria mais me ver, eu estava importunando, e era melhor deixar de procurá-la. Acrescentou que estava avisando educadamente, mas da próxima vez não seria assim.

Eu fiquei completamente zonzo e, feitas as despedidas, saí andando feito um zumbi. Meia quadra depois as lágrimas escorriam.

Cada vez que conto isso é de um jeito diferente. No entanto, um aspecto é sempre o mesmo: a sensação do pontapé na bunda. Primeiro a guria me dispensa, gentilmente (no jardim da sua casa), depois vem o namoradinho e dá o golpe final. Acho que ele disse: “Cai da boca, meu”. Mas não tenho certeza.

Um dia eu a avistei na rua, caminhando e rindo com duas amigas, e parei para observá-la. Ela estava vestida no rigor da moda (coisa que abominava até pouco tempo) e comportando-se com a frivolidade que sempre dissera considerar detestável. Ela adotava outro estilo de vida (breve estaria de casamento marcado) e me ignorou. Resolvera seguir os conselhos da mãe, da irmã (estudante de Psicologia), não questionar mais o mundo (“a sociedade e sua hipocrisia”, como falava) e ser feliz, principalmente feliz.

Naquela época eu já andava escrevendo versos e me veio um poema inteiro a respeito da mulher distante, inacessível. A mulher impossível, eu escrevi como título. Para o adolescente que eu era, todas as mulheres se tornaram inacessíveis. Eu me encolhi feito um caramujo e foi nessa toada que segui em frente. Até que numa determinada noite, depois de uma festa, uma mulher me pegou pelo braço (“Por que não?”, ela parecia dizer) e minha vida virou. Foi a segunda namorada.

Mas aí é outra história (ou outro capítulo dessa novela) e quero ficar na primeira parte. A rejeição da primeira namorada foi inesquecível. Não posso dizer que provocou um trauma, apenas que foi difícil de superar. Levou tempo, teve uma psicoterapia no meio e o troço se resolveu. No entanto ficou a marca do tombo e a indicação de uma dificuldade de compreender as mulheres. Assim como a indicação de uma idealização do feminino, coisa comum em adolescentes que leem poesia e fazem versos, dirá o leitor. Sim, isto mesmo, e que constituiu o substrato do homem que me tornei.

Detalhe de "Saudade", tela de Almeida Júnior.
Pinacoteca do Estado de São Paulo. 


sábado, 4 de maio de 2024

Histórias de enchente

 

Um amigo me contou que morou alguns anos da sua infância na fazendola dos avós, na beira do rio Santa Maria (no município de Dom Pedrito), um que rio volta e meia transbordava, quando caia uma chuva forte, e uma única vez invadiu a sua casa. Ele se acordou de madrugada, sentou na beira da cama, procurou os chinelos com os pés... e encontrou água. Tinha 8 anos de idade e levou um susto tremendo. Logo se deu conta que acordara com o chamado do avô, que estava ao lado da sua cama, com um lampião numa mão, dizendo:

– Te apressa, guri. Procura as tuas botas de borracha que o rio tá subindo. Veste um agasalho que nós vamos sair de casa.

O rio não subiu mais do que aqueles centímetros que ele sentira com os pés nus, mas foi o quanto bastou. A partir daí, começava a chover e ele se preocupava. O rio transbordava, mas nunca mais voltou a chegar dentro de casa. Muita madrugada ele passou de olho estalado, lembrando a noite em que sentira as águas debaixo da sua cama...

Meu amigo contou que boa parte da sua infância foi “roubada” pela preocupação com as águas do rio. Depois, por volta dos doze anos, voltou a morar na cidade com os pais e não teve mais que pensar nisso. Mas nunca esqueceu o susto daquela noite, com a água do rio debaixo da sua cama, e volta e meia lembra disso, quando vê na TV imagens de enchentes.

A história desse meu amigo me cala fundo, pois uma vez estava em Dom Pedrito, caia uma chuva constante e dormi tranquilamente no centro da cidade, num hotel bacana e bem acompanhado. No outro dia pela manhã, depois de um despertar maravilhoso e um bom café de hotel, fui passear nos arredores da cidade... e encontrei o pessoal dos arrabaldes atordoado com a subida das águas do rio Santa Maria naquela madrugada.

A chuva passara, o dia estava ensolarado, e as águas do rio estavam voltando ao leito normal. As pessoas, no entanto, ainda contabilizavam os estragos. Eu me aproximei de um grupo e escutei os relatos: o susto durante a madrugada, a correria para ajudar os mais velhos, procurar lugar seguro, salvar alguma coisa, diminuir o prejuízo.

Notei um menino ao meu lado, me observando (a mim e a minha máquina fotográfica), e lembrei na hora do meu amigo. Aquele menino bem poderia ser ele, nos anos 60, vivendo o mesmo drama.

Eu dormira a noite inteira, tivera um belo início de manhã com minha companheira, e súbito aquilo tudo me pareceu estranho, isto é, chocante o contraste entre a minha vida e a daqueles modestos moradores.

Um deles olhou para a minha máquina fotográfica, achou que eu era um jornalista registrando a tragédia daquela noite e na certa não entendeu quando eu respondi:

– Não, não sou jornalista. Sou apenas um visitante, estou conhecendo a cidade.

Sim, eu era um turista que saíra do hotel para dar uma banda pelos arrabaldes de Dom Pedrito e conhecer melhor o universo rústico da Campanha. Me deparara com o rescaldo de uma enchente de rio, isto não estava nos planos – meu propósito era a pampa mítica que envolve Dom Pedrito –, mas não deixei de registrar o cenário. Confesso, no entanto, que me senti constrangido.

Arredores de Dom Pedrito, maio de 2017.