sábado, 3 de janeiro de 2026

Um filme erótico inesquecível

 

Em 1970 eu cursava a quarta série ginasial num colégio católico e o Irmão Heitor, professor de Língua Portuguesa, volta e meia interrompia o assunto da aula e lascava um sermão moralista. Às vezes a respeito do cinema que explorava “cenas de nudismo e carícias lascivas” e creio que foi dessa maneira que eu soube que um filme com a Brigitte Bardot estava passando num cinema próximo à escola, no Cine Colombo. Tratava-se de “Les femmes”, direção de Jean Aurel, produção franco-italiana, 1969.

O Irmão Heitor, claro, sentava o pau nesse tipo de produção cinematográfica e na sua “repercussão negativa na formação moral da juventude”. Um colega conhecia o porteiro do Cine Colombo e, durante o recreio, combinamos que iríamos assistir ao filme. Era pagar uma gorjeta ao porteiro que ele esquecia a improbidade da fita para menores de 18 anos e nos deixava entrar.

Marcamos encontro na porta do cinema (para a sessão da tarde), juntamos o dinheiro da gorjeta e ficamos esperando o sinal. Quando bateu o início da sessão, passamos correndo pela roleta e subimos para o mezanino, a sala de projeção já completamente escura, e lá ficamos “escondidos”, na maior excitação.

Não era um grande filme, mas fabuloso para os guris que nós éramos. Brigitte corria nua no campo, primeiro de costas, com os cabelos voando e a bunda saltitando, depois de frente, os peitos balançando, os cabelos novamente esvoaçando e um sorriso deslumbrante. A vegetação era alta, encobria o sexo, genitália era coisa que o cinema naquela época não focava.

Em outras cenas, ela se deitava de bruços numa cama com lençóis brancos, conversava com o amante, ele a acariciava com vagar e ela reagia com caras e bocas de inocência e sensualidade.

Brigitte era um ícone da cultura de liberação sexual muito falado naquele final de anos 60 e nós queríamos aprender sobre isso. Sexo e amor não seriam entidades distintas como ainda eram para muitos da nossa geração. Queríamos embarcar num novo estilo de vida, mais liberal, ou simplesmente "mais livre e solto", e aquela atriz e surgia como um índice dessa transformação. Um sinal da sexualidade feminina que almejava fazer valer seus desejos, seu gozo, o que para nós era completamente escandaloso (mas nem por isso menos atrativo). O desenho de uma moral sexual muito distinta (na verdade, oposta) daquela que o Irmão Heitor fazia uma defesa enfática nos seus sermões.

Inesquecível aquela sessão de cinema. Quando terminou o filme, estávamos certos de termos realizado uma proeza. Estávamos excitados com o mundo e suas possibilidades. Uma façanha para meninos católicos treinados para a contenção da sexualidade em geral e da feminina em especial.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Dedo apontado para o meu nariz

 

Certa vez uma colega de trabalho me apontou o dedo e disse que eu estava ocupando um lugar indevido no Departamento de História (naquele tempo ainda denominado “faculdade”). Isto é, estava lecionando uma disciplina no Curso de Especialização, sem ter qualificação acadêmica para isso.

Eu fiquei escutando-a, espantado. Ela veio na minha casa fazer a acusação e eu sequer desconfiava da irregularidade. Fazia ano e meio que ingressara na UFSM, a Coordenação do Curso me chamara para assumir essa disciplina e eu, apesar de achar pedreira a tarefa (era uma disciplina sobre metodologia de ensino), não titubiei e aceitei.

Tinha experiência de treze anos no Magistério Estadual e recordo que a coordenadora falou que isso me habilitava para a disciplina: a prática. As questões teóricas eu iria resolvendo com o tempo.

Eu era mestrando, estava escrevendo a dissertação, e minha rotina não era fácil. A colega colocou o dedo na frente do meu nariz e eu não disse nada. Escutei ela falar, depois ela ir embora, feliz da vida com sua atitude de defensora da legalidade acadêmica, o “respeito ao regimento do curso”, segundo ela própria. Afinal, como um reles graduado, sem um título de pós-graduação, eu não tinha mesmo qualificação para estar onde estava: lecionando uma disciplina num Curso de Pós-Graduação.

Engraçado que mais de trinta anos depois eu lembro disso: especialmente o dedo apontado para mim. Possivelmente porque a acusação de estar num lugar indevido me pegou. Ainda pega.

Fui criança nascida numa família de classe média (pai, bancário; mãe, professora primária), morava na Zona do Porto, em Pelotas, com muitos vizinhos proprietários de terra, e recordo meu amigo Robertinho falando a respeito das terras e gado e ovelhas que o pai dele tinha no município de Santa Vitória do Palmar (nós dois com dez anos de idade, sentados no meio fio da calçada). Achei bacana aquela grandeza toda, quis me colocar à altura e falei que meu pai trabalhava num banco, “um lugar de muito dinheiro”. Meu amigo prontamente rebateu:

– Mas nada disso é dele. Ele é empregado do banco. A terra, o gado e as ovelhas SÃO do meu pai.

Escutei calado, concordando. Meu amigo acabara de me colocar no meu lugar, uma posição que era inferior à sua família, e engoli em seco. Não deixamos de ser amigos, também não me senti muito inferiorizado, mas entendi o recado. No mundo social pelotense, ele estava melhor na foto do que eu. Eu estava fora daquele círculo privilegiado de estancieiros, matriz histórica do Rio Grande do Sul.

O que minha colega me dizia naquela tarde, me apontado o dedo para o meu nariz tinha alguma relação com aquela experiência infantil? Creio que sim. A mesma sensação de que eu estava deslocado, não estava no centro. Ou, se estava (no caso, lecionando num curso de especialização), alguma coisa tinha de errado.

Tanto Robertinho como minha colega falavam a respeito da minha condição... Mas, em relação à professora que punha o dedo no meu nariz, havia uma nota cômica na sua petulância. Ela claramente se colocava disputando espaço e posição profissional comigo. Eu ganhara o lugar que ela almejara. Atendera ao chamado da minha chefe e, sem saber, passara a perna nas suas pretensões.

Continuei a lecionar a disciplina de Metodologia do Ensino, no Curso Especialização, defendi a dissertação naquele mesmo ano e logo estava com o título e a qualificação acadêmica devida. Tudo se arranjou. Mas o dedo apontado para o meu nariz ficou. Nunca esqueci. Lembrando, talvez, que ainda devo lutar pelo lugar onde me encontro. Um território sempre conquistado, que precisa ser preservado, defendido.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Para além da política partidária

 

“Sem anistia” e “Fora Hugo Motta” eram as chamadas para a manifestação política do último domingo (14 de dezembro) marcada para acontecer no entorno do Monumento ao Expedicionário, no Parque da Redenção, em Porto Alegre assim como em outras cidades brasileiras.

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, na quarta-feira (dia 10), colocara em votação um projeto para diminuir a pena dos condenados pelo 8 de janeiro de 2023 e das lideranças golpistas e a maioria direitista dos deputados aprovou a medida.

Não deu outra e a esquerda foi para as ruas. Nem só a esquerda, por sinal, mas também pessoas que entendem que os condenados pelo STF comprovadamente atentaram contra o jogo democrático e isso não é possível admitir. Ou se defende o regramento democrático ou entramos numa zona de risco, isto é, de possibilidade de construção de nova ordem autoritária como a que vivemos durante o Regime Militar (sonho dos condenados pelo STF).

Não são inocentes os manifestantes de 8 de janeiro nem, muito menos, Bolsonaro, seus generais e delegados. Cada qual, no seu campo, operaram em favor de um golpe que, felizmente, não vingou.

Pois estive presente na manifestação de domingo, peguei os últimos pronunciamentos na Ponte de Pedra (ponto final do ato político, depois de uma passeata saída do Monumento do Expedicionário) e fiquei impressionado com a animação dos grupos de juventude, grande parte de matriz estudantil, com indumentária e gestualidade que indicavam uma diversidade sexual impressionante, muitas vezes desconhecida por mim. Mas visível naquelas agremiações políticas, à esquerda da posição conciliadora dominante no Partido dos Trabalhadores.

Ato contra a anistia aos golpistas.
Praça da Ponte de Pedra, Porto Alegre.

Uma gurizada visceralmente contrária à tentativa da extrema-direita em inocentar a sua militância e lideranças, apaixonadamente comprometida com o jogo democrático liberal, entendido como o caminho possível para a acumulação de forças das classes populares e a futura transformação da ordem econômica e social.

Mas, para além da pauta político partidária (a luta contra a anistia aos golpistas), me surpreendeu a disposição revolucionária dessa juventude. Uma revolução especialmente endereçada à mudança de costumes, indicada na indumentária e na gestualidade dos militantes, claramente libertários.  Sinais de androginia, transsexualidade e sei lá mais o quê. Sinais de uma realidade sexual que nomeio com um dificuldade, mas que constato e identifico sua riqueza. Há um mundo novo, ali, querendo vir à tona.

Mais do que política partidária, essa gurizada radical me pareceu comprometida com a invenção de novas formas de se fazer presente, sentir e viver. Além da política, a transformação da vida. Os conservadores do Congresso (incluindo aí o engomadinho Hugo Motta) reduzidos, diante desse furor de juventude, à grotesca expressão política das forças econômicas e sociais que preservam esse mundo desigual e opressor, que necessita urgentemente ser transformado.

Apesar de distante das pautas radicais dessa juventude, me senti emocionado com a sua vibração e disposição de luta. Um entusiasmo contagiante.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Aplicativos de transporte

 

O jornal Zero Hora assinalou os dez anos da chegada dos aplicativos de transporte a Porto Alegre.[1] Naquele tempo (novembro de 2015), apenas o aplicativo da Uber; depois vieram outros. Eu me tornei um usuário do 99 e creio que isso facilitou muito a minha vida.  O táxi estava muito salgado para o meu bolso e as viagens com os aplicativos se revelaram mais em conta.  

Algumas das minhas últimas crônicas, por sinal, têm sido inspiradas em conversas com esses motoristas de aplicativos. Trajetórias muito interessantes das transformações no mundo do trabalho. Às vezes relatos heroicos, de trabalhadores autônomos que se enxergam como empreendedores. Pouquíssimos se vendo como trabalhadores precarizados, sem amparo na legislação trabalhista.

Na reportagem a respeito do surgimento da Uber, destaque para “carros em boas condições e oferta de balinhas e água”, mais motoristas “com trajes mais formais”. A primeira vez que utilizei esse serviço foi para ir a um show dos Rolling Stones, no Estádio Beira Rio, com meus dois filhos e a mãe deles. A minha filha chamou o carro por um aplicativo no celular e eu achei aquilo coisa d’Os Jetsons (desenho animado da década de 1960 ambientado num cenário futurista). O motorista todo alinhado ofereceu balinhas e água e eu nem sabia o que era aquilo. Minha filha me mostrou que era mais barato que um táxi (e mais acessível, mais cômodo) e fiquei espantado com as vantagens. Mas levei um bom tempo para utilizar o serviço.

De certa forma, eu reagi contra essas mudanças socioeconômicas que transformaram radicalmente o mundo do trabalho. Os motoristas de aplicativos como um emblema dessas mudanças: trabalhadores submetidos a grandes empresas, mas com roupagem de empreendedores privados. Versão urbana dos plantadores de fumo (pequenos proprietários rurais) submetidos à Souza Cruz. Um perfil novo da dominação do Capital, que tenho dificuldade em compreender. Meu entendimento do mundo está vinculado a um padrão superado (ou pelo menos colocado em cheque) pela nova ordem neoliberal.

Minhas conversas com os motoristas de aplicativo, muitas vezes, vão nesse sentido: como eles se colocam no mundo do trabalho. A maioria endossando a ideologia do empreendedorismo, um e outro lamentando o fato de serem trabalhadores sem proteção social.[2] Alguns foram operários, participaram do movimento sindical, e encaram a situação de forma diferente. Eles entendem o processo da precarização. Mas são poucos. Muito poucos.

A reportagem do jornal também destaca uma “queda de qualidade”, mas isto os aplicativos resolveram criando várias categorias de serviço. A mais popular, claro, perdeu o charme de dez anos atrás. Então, se o usuário quer um carro melhor (pra não sujar sua roupitcha ou entrar em contato com o mundo mais rude da classe trabalhadora) pede uma categoria mais alta e está tudo resolvido.

É impressionante a capacidade de reinvenção do Capitalismo.



[1] AIRES, Anderson. Transporte: o app que mudou a mobilidade urbana na capital. In: Zero Hora, P. Alegre, 21/11/2025. P. 16-17.

[2] Quando escuto um desses trabalhadores falarem das vantagens da “flexibilização” e criticando a Legislação Trabalhista, lembro do Fernando Henrique Cardoso propondo o desmantelamento da herança varguista, na década de 1990. FHC conseguiu.

domingo, 30 de novembro de 2025

O Velho

           O Velho morreu quando eu tinha três anos de idade. De tanto o pai e a mãe contarem como eram as visitas que fazíamos quando ele estava doente, parece que vejo tudo. Vejo o corredor cumprido da casa do Velho e nós caminhando até o quarto dele. Vejo a cama no meio do quarto, o Velho estendido, de barriga para cima, ofegante, olhando o teto. Depois vamos para a cozinha e a tia nos serve salada de frutas. Eu choro porque quero só o caldo da salada de frutas, não quero as frutas, e os adultos fazem a minha vontade. A mãe conta que faziam isto para eu parar de incomodar.

Então eu fico olhando pela porta da cozinha e vejo meu irmão correndo pelo pátio. Ele pára na frente de um puxadinho construído pelo avô – um pequeno telhado escorado por dois dormentes da estrada de ferro, com um tanque de lavar roupa embaixo – e ele fica olhando aquela pequena obra com uma espécie de veneração. Mais tarde eu também vou andar pelo pátio e parar na frente do tanque e passar a mão nos dormentes. Aquilo foi obra do Velho nos tempos áureos, isto é, quando era um homem vigoroso. O Velho pertencera aos quadros da Viação Férrea e trouxera os dormentes para casa, justamente para aquela obra. As tias sempre contavam essa história.

Na última vez que visitei a casa, poucos anos atrás, fiquei caminhando pelo pátio e lembrei do Velho. Ele chegou ao Brasil no final do século XIX. Meu sobrinho foi a São Paulo, vasculhou nos documentos da Hospedaria do Imigrante e descobriu a data certa: 20 de agosto de 1888. A abolição dos escravos acontecera naquele ano, meses antes. O avô chegou com o pai, a mãe, uma irmã menor e foram trabalhar numa fazenda de café, em Sorocaba, substituindo a mão-de-obra escrava.

Quando meu sobrinho enviou por e-mail os documentos, lembrei do que o pai contava:

– Os italianos chegavam para trabalhar nas fazendas e descobriam que, antes deles, quem fazia o serviço eram negros escravizados. 

A história do Velho foi toda contada aos pedaços. Há anos venho juntando as partes e cada vez o resultado sai diferente. O Velho – que começou a trabalhar quando era criança – colheu café em fazenda paulista, depois foi para a cidade e começou a atuar numa companhia de navegação. Os navios subiam o rio Tietê, entravam no Mato Grosso e ele pegou malária. O médico falou que ele não podia ter malária novamente e o mandou para um lugar onde não houvesse a doença. Por isso ele veio para o Rio Grande do Sul

Na década de 1920, o Velho chegou a Santa Maria e se tornou funcionário da Viação Férrea. Na década seguinte, estava estabelecido em Pelotas. Ascendeu ao posto de Engenheiro Prático – um tipo de engenheiro que não tinha diploma universitário (depois esses engenheiros foram substituídos pelos diplomados) – e se aposentou nos anos 50.

Era um homem severo, o pai contava. Chegava do trabalho sujo de graxa e jogava a roupa para as filhas lavarem. Queria tudo bem limpo. Gostava de camisas brancas, com punhos e colarinho engomados, e essas eram as peças que primeiro sujavam. As filhas se revezavam no tanque e depois passavam e engomavam. Deve ter sido por isso que ele trouxe os dormentes da estrada de ferro e fez aquele puxadinho no quintal da casa. Ali, as minhas tias penavam, inverno e verão. Não era fácil tirar o encardido das roupas, elas contavam.

O Velho gostava de se vestir bem. Dizia que era assim que um Engenheiro Prático precisava se apresentar, principalmente depois que os engenheiros diplomados começaram a ocupar os lugares de mando. O Velho sabia que estava perdendo espaço e lutava, com unhas e dentes, para manter sua posição. Fora assim que deixara de ser trabalhador rural e se tornara operador de máquinas, trabalhando em navio, e depois em locomotivas da Viação Férrea.

– Teu avô era um homem severo e intransigente – o pai contava, com orgulho. E com os olhos marejados de lágrimas. Afinal, a dureza do Velho não se refletia apenas no trabalho. Em casa, ele era rígido na educação dos filhos. Batia por qualquer falha que alguém cometesse. Tirava o cinto das calças e o sentava no laço no lombo dos filhos. Mas cuidava para não bater com a fivela, o pai observava. Dobrava a cinta para que a fivela ficasse presa na sua mão.

 – Quando alguma coisa não era feita como ele queria, o Velho gritava e batia – o pai explicava. – Mas depois envelheceu, enviuvou e ficou manso como um cordeirinho. Gostava que as noras sentassem ao seu lado e conversassem com ele. A tua mãe chegava perto da cama, te levantava e mostrava pra ele. “Este é teu neto mais novo”, ela dizia.

           Eu na certa esperneava. Não gostava daquele homem velho, feio e doente. Minha mãe me colocava no chão e eu corria para a cozinha. Chorava pedindo isto e aquilo e os adultos me atendiam para que eu me calasse e não atordoasse os ouvidos do Velho. Pois o Velho tinha muita dor. Ficava deitado de barriga pra cima, as mãos em cima do peito, os olhos fixos no teto.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Visconde de Taunay

 

Visconde de Taunay (Alfredo d’Escragnolle de Taunay) foi um aristocrata brasileiro, militar, político e escritor, nascido no Rio de Janeiro, em 1843, e falecido na mesma cidade, em 1899. Neto de um dos principais pintores da Missão Artística francesa de 1818, foi criado em ambiente muito culto e destacou-se pelo seu refinamento nas artes. Militar, participou da Guerra do Paraguai e deixou relatos famosos a respeito dos episódios em que se envolveu. Fazia parte do repertório de autores/historiadores que comecei a ler na juventude, mas, naquela época, não li do início ao fim o seu clássico A retirada da Laguna, muito complicado para o leitor de 15 anos que eu era. Descrição de operações militares não são fáceis de compreender.

Pois durante a última Feira do Livro de Porto Alegre, passei pelo estande do Senado Federal, encontrei um volume do famoso Visconde e me veio à lembrança o adolescente que fui, com a cabeça enfiada em livros sobre campanhas militares: a Guerra da Cisplatina, os embates com Rosas, a Guerra do Paraguai.

O livro que me chamou atenção foi Recordações de guerra e de viagem, de Taunay, e trouxe para casa. Tive que ler para pagar a conta das minhas pretensões juvenis: a de entender o mundo militar, o assombroso universo das guerras.

TAUNAY, Visconde de. Recordações de guerra e de viagem.
Brasília: Senado Federa, 2008. 174 p.

O livro é composto de duas partes: a primeira, com as reminiscências do autor da Campanha da Cordilheira (a última operação militar na Guerra do Paraguai) e, a segunda, constituída por crônicas feitas durante uma longa viagem pela Europa. Um aristocrata brasileiro refinado descrevendo com elegância tanto a fase final de uma brutal guerra sul-americana quanto as suas andanças pelos espaços da cultura (galerias de arte) e da inovação industrial (Exposição Universal de Paris) na Europa de 1878 e 79. O horror da guerra e os requintes da Civilização Ocidental.

Desta vez li um relato militar de Taunay do início ao fim (paguei a conta que abri quando adolescente), mas recomendo apenas para aficcionados em História. É uma memória bem escrita, mas um pouco chata quanto ao registro militar, deslocamento de tropas e batalhas. Trata-se da fase mais sombria da Guerra do Paraguai (a caçada ao ditador Solano Lopez), quando o inimigo estava destroçado, tanto a população civil quanto o efetivo militar (os civis reduzidos “ao último grão da miséria” e as tropas compostas em grande número por adolescentes, devido à diminuição do número de homens adultos). Quanto à segunda parte, o registro do deslumbramento de um homem de cultura em relação as maravilhas europeias, em especial a sua produção artística. Assuntos que só agradam a estudantes e professores de História e olhe lá.

Em 1869, o Conde d’Eu foi nomeado pelo imperador para encerrar o conflito com o Paraguai (ir atrás de Solano Lopez) e o conde convidou Taunay para ser seu secretário particular. São dessa campanha as reminiscências narradas no livro, 26 anos depois. Em 1878-79, o autor viajou pela França, Alemanha e Itália e de lá enviou para um jornal brasileiro crônicas a respeito dos seus passeios e divagações culturais. A guerra e a arte numa composição muito original.

Na Campanha da Cordilheira, o autor se comoveu com os meninos que viu mortos no campo de batalha por bala e lança. Um dia, após a tomada de uma vila, é encontrado numa casa um piano “bastante bom e afinado” e o autor se põe a tocar durante mais de duas horas. Havia um cadáver paraguaio na sala e ele manda retirá-lo para não empestar o seu momento de distração.

Como sempre teve um interesse especial por pintura, comenta o episódio que inspirou Pedro Américo para compor o seu quadro A batalha de Campo Grande: o momento em que o Conde d’Eu é surpreendido pelo ataque de um batalhão paraguaio e investe contra o inimigo montado no seu cavalo branco com a espada desembainhada. No quadro, a investida do conde é arrojada, expressa tanto no seu porte imponente quanto no corpo do cavalo empinado. O autor comenta, no entanto, que o animal era manso, “calmo no meio do fogo [das balas]” e não se empinaria da maneira como o pintor o representou. “Enfim exagerações do artista”, conclui Taunay.

Nas crônicas a respeito da sua viagem à Europa chama atenção o seu encantamento com a pintura: a produção dos artistas festejados nos salões de arte oficial de Paris (como J.G. Vilbert, com Apotheose de Thiers) e a dos renascentistas (vistos como fundadores da civilização moderna). Rafael é seu pintor predileto e ele vai à Dresden apreciar a famosa Madona de São Xisto, a qual descreve como “de uma beleza imensa, puríssima, etérea, toda ideal”. Seu entendimento de arte privilegiava a representação do Ideal, “a maior aspiração humana”, e ele vê na pintura de Rafael a maior concretização desse projeto.[1]

Um dia é convidado a um baile no Palácio de Versailles, um evento com cerca de vinte mil convidados, e vai com mais quatro companheiros. O palácio está transformado num “aperto (...) [de] proporções assustadoras” e a festa vira um suplício. Quando, enfim, chega à Sala dos Espelhos, onde acontecia a dança, o local estava tão cheio “que os valsistas giravam no mesmo lugar” e não dava para ficar. Ele e os amigos desistem do baile e voltam para o hotel arrependidos de terem aceito o convite.

O registro de uma vida que circulou por realidades contrastantes da nossa civilização: tanto os horrores de uma campanha militar quanto os requintes de uma exposição de arte na “capital artística do universo” (Paris). A morte de meninos no campo de batalha e o prazer de apreciar a arte acadêmica do século XIX e também as pinturas que marcaram a fundação da nossa civilização, as “criações puras” de Giotto e Rafael.

Uma leitura instigante, que me colocou diante do adolescente que eu fui, que se iniciou na leitura da História a partir dos registros de guerra, uma realidade que o Visconde de Taunay conhecia muito bem.

A única nota triste da edição lida é a revisão. Péssima. Incrível a editora do Senado Federal não investir nesse trabalho tão importante.



[1] Curiosamente, ao comentar a forma idealizada como Pedro Américo representou a disposição guerreira do Conde d’Eu, na Batalha de Campo Grande, o mesmo procedimento artístico lhe pareceu inadequado, exagerado.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Vida de professor

 

Gilmar era professor de educação física e fomos colegas numa escola estadual no Bairro Harmonia, na divisa com o Bairro Mathias Velho (Escola Afflonso Charlier), em Canoas, no início da década de 1980. Ele era um jovem de menos de 30 anos, já lecionava no local há um bom tempo e o conhecia muito bem. Me falava da direção, dos colegas, dos alunos, e também do entorno da escola, que era enorme, tinha um campo de futebol, e, lá nos fundos (por trás da tela de arame), abrigava um ponto de encontro de drogados. Um problemão. Gurizada que se injetava uma medicação comprada nas farmácias da cidade de forma clandestina e a polícia não sabia o que fazer. Essa gurizada arrebentara a tela de arame que servia de muro e às vezes andava pelo pátio causando problemas. Um mundo que eu desconhecia. Certa vez reparei nos pés de uns desses drogados e eles eram deformados pelas picadas das seringas de drogas, uma imagem do Inferno de Dante. A droga também envolvia a economia da cidade e Gilmar me passava informações a respeito de como circulava o produto. Algumas farmácias faturavam com o comércio da medicação.

Pois dia desses peguei um aplicativo, comecei conversando com o motorista a respeito da enchente de 2024, comentamos a respeito da situação dramática do Bairro Mathias Velho, que literalmente submergiu com as águas, e ele me disse que teve um tio que lecionou educação física a vida inteira numa escola estadual da região. “Na Escola Affonso Charlier?”, eu perguntei. “Sim”, ele respondeu. “O Gilmar?”, eu arrisquei. E o motorista confirmou: “Sim, meu tio se chamava Gilmar”. A lembrança do antigo colega me veio como um filme e eu o revi chegando de moto na escola. As alunas mais salientes faziam um círculo em torno dele, pediam carona e às vezes ele carregava uma e outra. Uma tarde, depois da aula, uma delas propôs que fossem a um motel (ela devia ter uns 15 anos) e ele contava que chegou a dirigir em direção a um desses estabelecimentos, a guria sentada na garupa da moto, abraçando-o decididamente. Mas ele arrepiou ao chegar perto do motel e preferiu deixá-la em casa. A guria não entendeu a desistência (“deve ter pensado mal de mim”, ele me falou), mas o Gilmar achou que assim foi melhor. Eram uma tentação aquelas gurias, nós comentávamos. Volta e meia alguma se aproximava, se insinuava, e ele, solteiro, era um alvo aparentemente fácil. A pedofilia não era um tema muito abordado naquele tempo, a relação entre um homem maduro e uma adolescente não era vista como inadequada e/ou “estupro de vulnerável” desde que houvesse consentimento da guria, mas não era fácil encarar.

Lembrei disso cruzando Porto Alegre e falei para o motorista. O episódio casava com a imagem que ele fazia do tio, “ele não era muito namorador”, e disse que ele casara uma única vez e a coisa não durou muito tempo. Teve uma filha que na separação perdeu para a mulher, “ela a levou para a Bahia”, e viveu sozinho o resto da vida. Dedicava-se inteiramente à escola e depois à vida sindical, ao Cpers, até morrer repentinamente.

Vida simples de professor estadual, mas certamente de pequenas realizações, eu pensei, lembrando a alegria com que ele reunia a gurizada no pátio da escola e coordenava as mais variadas atividades esportivas. Os alunos o adoravam e isso todos nós, seus colegas, sabiam e até invejavam.