Defendi tese de doutorado a respeito da Igreja Católica
numa região de colonização italiana (no caso, na região central do Estado, no
município de Santa Maria, o qual, no final do século XIX, abrigou um núcleo de
colonização, denominado Quarta Colônia, hoje dividido em vários municípios). Assim,
durante muito tempo, frequentei eventos acadêmicos relativos aos estudos de
imigração. Assisti a painéis, comunicações e palestras muito interessantes, mas
do que lembro com mais intensidade são as conversas ao final dos encontros. No bar,
em torno de xícaras de café, ou nas alamedas dos campis universitários, batendo
pernas e falando a respeito de como viviam os colonos.
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Imigrantes italianos na Serra Gaúcha. Fonte: mulhersingular.com.br/2015/12 |
Um tema recorrente era o do papel da mulher nessas
regiões de colonização (na Serra Gaúcha, em especial), a inserção feminina no
modelo de economia centrado na pequena propriedade rural (que os colonos tinham
acesso pela política de colonização e que pagavam a longo prazo). Lote de terra
que exigia exploração intensiva para garantir a sobrevivência familiar, com uso
de mão-de-obra constituída por pai, mãe e quantos filhos eles pudessem ter.
Nesse projeto, então, a mulher tinha um papel fundamental.
Em primeiro lugar, cabia a ela prover a família de filhos, no maior número
possível. Em segundo, garantir a sobrevivência dos mesmos e manter unidade da
família com o seu trabalho.
Nos anos 90 orientei um trabalho a respeito do
trabalho feminino nos primórdios da Quarta Colônia e me surpreendi com os dados
que o aluno trouxe. Como as mulheres trabalhavam! No serviço doméstico, na
roça, na horta, no estábulo de animais. E ainda pariam um filho atrás do outro:
oito, dez, doze e até vinte. Um número que não estava na conta das suas mães e
a avós, na Itália, pois lá as condições não eram propícias para uma família
numerosa.
As autoridades civis e religiosas aprovavam tal
projeto de economia e sociedade assim como o papel da mulher nesse modelo. Até
a década de 1960 houve bonificação estatal para as crianças até os três anos de
idade e a Igreja, por sua vez, dava reforço à estrutura familiar e estabelecia as
normas morais, tanto exaltando a família numerosa quanto colocando a atividade
sexual restrita à reprodução. Que os casais tivessem filhos, sim, muitos, mas
que não se refestelassem com as delícias da carne.
As conversas das quais eu lembro eram justamente
sobre isso: os desdobramentos comportamentais da adoção desse modelo de
colonização. Muitos dos meus interlocutores tinham o pé na colônia, com avós e
pais nascidos na região e, muitas vezes, até eles mesmos com vivência infantil
nas colônias. Então falavam de suas famílias com muitos irmãos e nas mães se
queixavam e se orgulhavam da quantidade de filhos. Contavam da trabalhareira, das
diversas atividades domésticas e como as mães dividiam esses afazeres entre as
crianças (as irmãs mais velhas se responsabilizando pelos mais novos, por
exemplo), assim como do trabalho produtivo, comandado pelo pai.
A tirania dos pais era assunto recorrente (mas não
abordado nos trabalhos acadêmicos apresentados nos congressos), um
autoritarismo repartido entre pai e mãe. Muitas vezes, cabendo à mãe o exercício
do poder de forma mais crua, isto é, era ela quem surrava, ficando ao pai algo
simbólico de ser o suporte dessa estrutura doméstica.
Recordo em especial de uma pesquisadora esbelta e
refinada relatando as surras monumentais que as mães praticavam no lombo dos
filhos (em especial das filhas mulheres), enquadrando-as no serviço doméstico,
para aliviá-las das tantas tarefas que eram obrigadas a exercer. Surras nas
quais uma vara de marmelo muitas vezes era o instrumento. A pobre da menina
apanhando da mãe e o pai ali perto, distante, como se isso não tivesse relação
com ele. Afinal o mundo doméstico era espaço do poder feminino e o homem pouco
se intrometia nessa esfera.
Lembro dessas conversas. E também do espanto que
tive quando descobri que minha colega professora estava relatando também a sua
vivência infantil: mulher que na infância foi surrada pela mãe, com a
complacência do pai. Experiência de criança que sofreu os desdobramentos do
modelo econômico da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Tudo em prol da
pequena propriedade rural, base de um projeto socioeconômico exitoso!
Nem sei os
danos que isso acarretou para a guria. Nem sei que feridas (emocionais) ela carregou
o resto da vida, mas tenho a certeza de que elas ficaram sem cicatrização por
muito tempo. Se é que um dia cicatrizaram. Não esqueço a sua expressão, o que
seus olhos gritavam.
– As coisas eram assim naquele tempo – dizia ela. –
Minha mãe foi criada desse jeito. O pai, idem. Todos apanharam. E eles seguiram
batendo nos filhos. Ninguém achava isso ruim. Meus irmãos até hoje me olham
feio, quando eu digo o contrário. Eles dizem que desmereço a criação dada pelos
nossos pais, que tanto se sacrificaram pelos filhos.