sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A noite roxa

“A noite roxa” é o título de uma novela de Urbano Tavares Rodrigues. Na narrativa, um jovem português relembra o curto namoro com uma jovem florentina e se desespera. Ele está em Paris e aguarda notícias da moça, que voltou para Florença. O personagem vive no tempo das cartas – a novela é ambientada na década de 1950 – e não chega nenhuma carta. O desespero aumenta, os olhos do personagem enchem-se de “lágrimas de fraqueza” durante uma madrugada (a noite roxa do título) e o rapaz resolve se suicidar. Dilui Gardenal num copo de água, prepara-se para beber, mas sente que está “ainda verde” para aquele gesto. Que “mesmo suja, conspurcada, essa vida, tinha de a cumprir. (...) Tinha de aceitar-se, com humildade, e continuar...” E decide continuar.
O texto faz parte do volume A noite roxa, junto com mais quatro novelas. Meu exemplar é da Editora Europa-América, 1972, e tem um autógrafo do autor, datado de 1998, quando ele esteve em Santa Maria para uma palestra no Curso de Letras da UFSM. O volume ficou na minha prateleira durante anos – imagino que o adquiri na década de 70 – e só esta semana fui lê-lo. Me tocou a densidade da narrativa e a clareza como é desenhada a fraqueza do personagem, seu desespero, e a súbita resolução de sustar o gesto suicida.
Humildemente, o personagem se aceita e decide viver. A vida, mesmo suja e conspurcada, precisava ser vivida até o fim. “Se a morte viesse, a morte limpa, na lâmina duma espada, no clarão dum tiro (...) seria diferente”, conclui o rapaz.
Entendo que o suicídio é uma perspectiva possível diante do horror, do absurdo ou do vazio que a vida é capaz de assumir. E que, nesses casos, continuar vivendo é um gesto de coragem. De humilde coragem. De aceitação da insignificância de nossas vidas e de recusa de soluções extremas – que às vezes parecem razoáveis. E então, feito Jô (o personagem do Livro de Jó) fazer “penitência no pó e na cinza” e recomeçar.

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