segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Questionando a educação brasileira

Não é pouca coisa o que propõe o professor e filósofo Ronai Rocha no seu livro “Quando ninguém educa: questionando Paulo Freire” (Editora Contexto, 2017, 153 p.): um diagnóstico da educação brasileira, um mapeamento do cenário conceitual que marca a atual discussão a respeito dos planos curriculares (a polêmica BNCC), e uma defesa do reerguimento da escola e da mística do professor. Tanto um texto de combate, que fustiga a pedagogia brasileira (em especial a de matriz freiriana), quanto de reflexão ponderada e até poética a favor da melhoria da escola, do revigoramento da atividade do professor e do engajamento do aluno. Ora é a voz do filósofo que domina o texto, esmiuçando os conceitos que orientam o debate educacional, ora é a do professor que vive a realidade escolar desde os anos 70 e tem o doloroso entendimento de que a escola foi rebaixada e não está cumprindo à contento as suas funções de ensinar os conhecimentos básicos.
Na avaliação do autor, esse rebaixamento da escola aconteceu devido a “um certo extravio de nossa cultura curricular e pedagógica", ocorrida a partir da virada da educação brasileira nos anos 70 e 80. Uma transformação explicável a partir da expansão da rede de ensino e das decorrentes discussões pedagógicas que a acompanharam, em especial uma maior atenção aos aspectos social e político da educação em detrimento das práticas pedagógicas propriamente ditas.
Quanto a esse estado da pedagogia, a obra de Paulo Freire, Pedagogia do oprimido, foi e é fundamental. Ronai Rocha não desconsidera o seu valor e papel históricos, mas vê como exagerada a sua influência no pensamento educacional brasileiro e compreende que a mesma se mantem “ao preço de uma leitura anacrônica”. Uma leitura descontextualizada, que minimiza o foco da obra, a alfabetização de adultos, assim como a problematização das opressões em geral e do diálogo com as camadas populares nos termos das décadas de 60 e 70. Temas candentes, claro, mas que o autor entende não serem os centrais para a construção de um modelo escolar formal.
O capítulo sobre a Pedagogia do oprimido já vale o livro, mas esse não é foco principal da reflexão de Ronai Rocha. Seus propósitos centrais são o já referido rebaixamento da escola assim como proposições de como encarar esse problema. Se a inspiração freiriana foi fundamental para a pedagogia brasileira e proporcionou ganhos consideráveis (como maior consciência política a respeito da educação), os custos foram muito maiores, segundo o autor. A instituição escolar foi abalada quanto ao seu papel de transmissora de conhecimentos consagrados (a famosa e pertinente discussão a respeito dos “aparelhos ideológicos do Estado”) e perdeu-se o sentido grandioso da escola: o de possibilitar uma espécie de segundo nascimento dos indivíduos, aquele proporcionado pelo conhecimento e usufruto do “legado que transcende as paredes que nos cercam”, das Artes e da Ciência, por exemplo, construídas pela nossa civilização.
Não é pouco coisa o que se propõe Ronai Rocha. Não sei como os teóricos da educação de orientação freiriana e desconstrutivista reagirão à provocação, mas entendo que o questionamento apresentado é pertinente. E, em especial, o diagnóstico da escola quanto as suas falhas no ensino dos conhecimentos básicos calará fundo os professores habituados ao chão da sala de aula. A partir daí, entendendo que até aqueles que ainda amam Paulo Freire lerão esse livro como uma provocação instigante. Um livro que se propõe a reorganizar os termos da discussão educacional, priorizando a revalorização do currículo e da prática pedagógica, assim como apontando as disposições necessárias para a retomada da escola das suas funções essenciais. Aparentemente uma proposta conservadora – a de recolocar a escola como capaz de organizar e transmitir o grande legado da nossa civilização (a tão mal falada Civilização Ocidental). Mas, como o autor indica, até para que prosperem propostas revolucionárias de educação e sociedade é necessário que a escola funcione, que o professor ensine e que os alunos conheçam e saibam usufruir aquilo que está muito distante de suas experiências cotidianas, como o Teorema de Pitágoras, a obra de Machado de Assis e as Bachianas de Villa Lobos.

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