O filósofo marxista Althusser era muito lido no tempo em que cursava História, na UFRGS, nos anos 70. Seus livros não faziam parte da bibliografia de nenhuma disciplina nem eram citados em sala de aula, mas liamos. O DAIU (Diretório Acadêmico dos Institutos Unificados) certa vez mimeografou um dos seus ensaios e o debatermos num grupo de estudos, aos sábados, pela manhã.
O curso de História funcionava próximo ao Parque da
Redenção, o AI-5 estava em vigor e tínhamos um colega agente do DOPS, que acompanhava
as atividades do diretório. Ele não participava desse grupo de estudos sobre
Althusser, mas nos observava com atenção (lia o mural de avisos do diretório) e
nos sinalizava a respeito do lugar que ocupávamos no mundo (não sem alguma
ironia ou mesmo deboche).
Meu entendimento de Althusser não era dos melhores, eu
seguia com dificuldade aquela conversa toda, mas nem por isso com menos entusiasmo.
Encerrada a leitura daquele ensaio (não recordo o título, mas era sobre a
leitura de O Capital), iniciei a leitura de um de seus livros mais
famoso: Os aparelhos ideológicos do Estado (que comprei na CEPAL, uma
cooperativa de estudantes que havia na Avenida André da Rocha).
O texto foi outra pedreira difícil de enfrentar, mas
creio ter entendido o sentido geral, especialmente o que se referia à escola,
essa instituição para a qual eu me preparava para atuar. O desânimo foi total. Se
Althusser estava correto na sua abordagem, o que eu iria fazer como professor:
ser mero reprodutor da ideologia do Estado burguês? Isso não estava nos planos.
Um dia, o professor Elmar Manique da Silva nos ouviu conversando
sobre isso em sala de aula, num trabalho de grupo (a respeito da Revolução Industrial,
o estabelecimento do modo de produção capitalista), puxou uma cadeira, sentou
entre nós e disse e repetiu para que entendêssemos bem:
– A escola não é uma instituição fechada como
Althusser entende. Não é simplesmente um aparelho de reprodução dos valores
capitalistas e nós, professores, meros instrumentos para a perpetuação do domínio
do Capital.
E continuou:
– A escola é uma instituição aberta a tensões e lutas entre
as mais diversas forças ideológicas, nem todas em sintonia com status quo,
e há muito o que fazer dentro da escola.
Foi um alívio.
Quando iniciei a lecionar (em 1978, num grupo escolar em
Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre), Althusser ainda era uma
referência, mas já desconfiava que a escola era muito mais do que um aparelho
ideológico monolítico.
Levei mais alguns anos a entender, de fato, a dimensão
da instituição da qual estava inserido – e professor de História ainda por cima,
isto é, de conteudos carregados de ideologia. Constatava que não era uma
simples engrenagem de um maquinário de reprodução dos valores capitalistas e,
sim, alguma coisa viva, atuante, e os alunos igualmente. A gurizada (era para a
quinta série do primeiro grau que eu lecionava) revelava-se portadora de um universo
próprio e reagia ao que era solicitado (leituras, exercícios, prova). Alguns faziam
cara feia, protestavam, e eu ia me ajustando ao ritmo que eles propunham (e
também às orientações da direção da escola, claro). Me ajustava e aprendia.
Creio que naqueles dois anos em Alvorada alguma coisa foi mudando dentro de mim. Os textos de Althusser continuavam guardados na estante, sempre incomodando, querendo me reduzir a um autômato do filme Metrópolis (do Fritz Lang, 1927), os operários que marcham e trabalham, sem expressão alguma no rosto, meras engrenagens de uma grande cidade soturna.
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Cena do filme Metrópolis. |