quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Fortificações coloniais

 

Fui professor de História no antigo 1º Grau, atual Ensino Fundamental, e ministrava aulas sobre a colonização portuguesa na América. Muitas vezes rascunhei o litoral brasileiro no quadro-verde e apontei os principais locais de invasões francesas e holandesas no Rio de Janeiro e Nordeste. Sobrava pouco tempo para abordar as incursões militares na Região Norte e eu apenas indicava que o controle desse território fora de grande preocupação para a Coroa portuguesa. Ingleses, holandeses e franceses andavam na área e estavam de olho nas chamadas “drogas do sertão”. Lisboa mandou construir várias fortificações e duas delas eu visitei na recente viagem à Amazônia: o Forte do Presépio, em Belém, e a Fortaleza de São José, em Macapá.

O Forte do Presépio foi erguido em 1616, no rastro da luta contra os franceses recém expulsos do litoral do Maranhão e foi o primeiro marco de ocupação oficial portuguesa na Amazônia. Uma construção de madeira e palha realizada com auxílio do povo tupinambá que morava no local. (Interessante imaginar como os portugueses conseguiram o apoio indígena para a sua empreitada...) O forte passou por modificações, ganhou muralhas de pedra, fosso, portal suntuoso de entrada e hoje é um museu. Museu do Encontro, indicando pelo título a intenção atual de valorizar o congraçamento dos diversos povos que formaram a nossa sociedade. Uma tentativa de romper com a glorificação colonial. Na foto abaixo, a cara atual da fortificação com canhões ingleses do século XIX.

Forte do Presépio, em Belém do Pará.

Forte do Presépio, com destaque para o portal de entrada e fosso.

Já a Fortaleza de São José foi construída no final do século XVIII (1762-82), nas margens do Rio Amazonas, e consta como uma das maiores da América portuguesa. O guia que acompanhou o nosso grupo acentuou a participação indígena e negra na construção (colocando a liderança portuguesa em segundo plano) e disse que os canhões nunca foram utilizados militarmente. O objetivo da construção era intimidar os inimigos e este propósito foi alcançado: nenhum deles arriscou atacar.

Edificações militares costumam fazer parte de roteiros turísticos e é interessante registrar que a visita a esses locais às vezes causa certo desconforto. Afinal são locais que recordam conflitos armados e, no caso dessas fortalezas, a expansão colonial de um reino europeu arrogante, ganancioso e violento: Portugal. Reino que se deu a liberdade de dominar as terras indígenas, os converter à religião católica e também os escravizar. Não satisfeitos com isso, um reino que trouxe escravos da África e recriou a escravidão, transformando-a num dos comércios mais lucrativos entre os séculos XVI e XIX. Mas, seja como for, criou as bases econômicas, sociais e políticas sobre as quais nos constituímos como Nação.

Forte de São José, em Macapá.

Portal de entrada do Forte de São José.

Pra quem gosta de História, sempre um atrativo estimulante visitar esses locais emblemáticos da conquista colonial. A guerra é um dos temas tradicionais da historiografia (aí estão Heródoto e Tucídides que não me deixam mentir) assim como do cinema, como bem evidencia a recente versão da “Odisseia”, de Christophen Nolan. A Região Norte foi um território de disputa e no início do século XVII ingleses e holandeses fundaram fortins e feitorias na área (na foz do Xingu e na região dos tucujus, para citar alguns locais) e exigiram aplicado esforço militar da Coroa Portuguesa.[i]  Os fortes de Belém e de Macapá são pálidas lembranças dessas lutas. Não foi sem suor, sangue e lágrimas que se estabeleceu a tal Civilização Ocidental por aqui.



[i] VIANNA, Helio. História do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1970. Obra da historiografia tradicional, com farta informação política, administrativas e militar, muito recomendada nos anos 1960 e 70. Livro de consulta obrigatória para um estudante interessado em História, naquele tempo.

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