Voltei a morar em Porto Alegre, depois de 33 anos
em Santa Maria, e preciso dizer isso a mim mesmo.
Nasci em Pelotas, morei onze anos naquela cidade, e
vim com a família para a Capital, em 1967. Um exemplo da migração das
populações das cidades do interior para as grandes capitais que ocorria no
país inteiro. A busca por alternativas de ascensão econômico-social que o
interior não tinha condições de oferecer.
No caso de meu pai, pesava a sua situação de
bancário, categoria que estava com os salários arrochados e da qual ele se
desiludira. Recordo que ele era vinculado a uma iniciativa cooperativista no
banco em que era empregado e essa ação dera com os burros n’água.
A mãe era professora do Magistério Estadual e
permaneceria como tal. Ela resistia a mudança, mas entendia que Porto Alegre era
melhor para o marido e os filhos (neste último caso, um tratamento mais adequado para o
filho mais velho, diagnosticado com reumatismo juvenil).
A família não se deu mal. Creio que os novos ares
foram bons para todos.
Cursei o primeiro ano do Ginásio no Colégio Rosário
e pegava o bonde todos os dias. Uma novidade completa para mim. O Túnel da
Conceição não existia (as obras iniciariam em 1970), mas os moradores antigos já
falavam que a cidade estava deixando de ser uma província. Havia um clima de
modernidade que se refletia nos costumes (“Novos valores, novos
comportamentos”, dizia a prima Carmen Lúcia) e logo os bondes seriam tirados de circulação.
Enquanto isso, na política, os militares dominavam
e conduziam o país para uma ditadura, o que ocorreu de fato em dezembro do ano
seguinte, com a promulgação do AI-5. Eu não sabia o que era autoritarismo, mas começava a entender o que era repressão. Certo dia, andando
pelo centro da cidade, assisti de longe a polícia lançar bombas de gás
lacrimogênio numa passeata de estudantes e descobri que protestar era perigoso.
Logo me avisaram para manter distância em relação aos “subversivos” e segui o
conselho.
Completei o Ginásio no Colégio São Pedro, no qual não se falava em Grêmio Estudantil, apenas em Grêmio Literário, do qual eu
participava com entusiasmo, apresentando, entre outros, o famoso poema de
Machado de Assis a respeito da sua visita ao túmulo da esposa: “Trago-te
flores, restos arrancados / Da terra que nos viu passar unidos”.
Depois fui fazer o Curso Clássico no Colégio Júlio
de Castilhos e lá, sim, descobri que existia política estudantil, porém isso
estava proibido aos estudantes. O Grêmio Estudantil da escola fora fechado e
vivíamos “tempos bicudos”, diziam os estudantes bem-informados.
Na mesma época (1971) ingressei no movimento de
juventude da Igreja São Pedro (no bairro Floresta, onde morava) e ali iniciou o
meu letramento político. O nosso padre-orientador comentava as resoluções do
Congresso Episcopal de Medellin (aquele que estabelecera a opção preferencial
pelos pobres), nos orientava para um Cristianismo com compromisso social, e
aquilo me desvendou um novo mundo. Sim, política era possível. Necessária
inclusive.[1]
Rua de Porto Alegre - Bairro Boa Vista. |
Rememoro isso sem saber onde vai dar. Depois de três décadas regresso a Porto Alegre como professor universitário aposentado e certamente cumpro outro roteiro, diferente daquele que seguiu meu pai. Não busco novas alternativas econômicas. Minha carreira profissional está encerrada. Busco alternativas prazerosas numa cidade grande e me preparo para envelhecer.
As lembranças da Porto Alegre do final dos anos 60
me vêm quando subo no ônibus (como estão diferentes, alguns até com ar-condicionado)
e sinto que elas marcam um início de uma nova etapa que ainda não sei como nomear. Mas vou recordando e registrando.
[1] O
movimento de juventude que existia na Igreja São Pedro se chamava Movimento
Estudantil Floresta (MEF). Fora fundado por remanescentes de organizações
católicas (JEC e JUC especialmente) desmanteladas pelo Regime Militar. Tinha
uma orientação progressista, mas a política não era o seu eixo. Esse era apenas
um dos assuntos. Valia mesmo eram os Evangelhos, lidos por uma chave
“libertadora”.
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