Paris
é uma cidade grávida do seu passado, conclui Yves Combeau, o autor de um
pequeno livro, “Paris: uma história” (L&PM, 2024, 190 p.), que li movido
justamente por essa sensação a respeito da “Cidade Luz”. O autor entende Paris como o resultado de uma alquimia em que se misturam realidades, imagens e imaginação,
e apresenta uma síntese histórica e urbanística desde as origens, com a chegada
da tribo celta dos Parisii (no século III a.C.) até o início do século XXI, que
permitem uma visão geral do seu passado e presente.
Estive
nesta cidade durante uma semana, em 2019, e vivi justamente o que o autor
indica: a cada passo, a cada local, o encontro com uma “cidade grávida” de
passado e construções imaginárias. Quando desci do táxi, na frente do Louvre,
não foi só o antigo palácio real que eu vi, mas um cenário que me remeteu aos filmes
baseados n“Os Três Mosqueteiros” que assisti na infância... O antigo palácio
real, o atual museu e uma construção imaginária decorrente do cinema e da literatura.
Realidade e imaginação. Como separar uma coisa da outra?
O
livro não respondeu a todos os questionamentos, mas ajudou muito. Paris foi
celta nos seus primórdios (séc. III a.C.), romana a partir de Júlio César,
cristã desde o século III (com martírios numa das colinas, hoje denominada
Montmartre), ganhou muralhas, catedrais, palácios e universidade, abrigando uma
população numerosa e inquieta, que se fez protagonista de movimentos políticos como
os de 1792 (a Revolução Francesa), 1830 (a deposição de Carlos V), 1848 (um
ensaio de revolta popular) e 1871 (a Comuna de Paris). Um polo de inovações políticas
e artísticas, como aponta o autor ao enfocar a tradição revolucionária da
cidade e as suas criações artísticas (como as obras românticas do século XIX –
“O Corcunda de Notre Dame”, de Victor Hugo, e o alto-relevo, “A partida dos
voluntários”, no Arco do Triunfo – que a maioria de nós consumiu, de um modo ou
de outro).
O
breve livro não decifra todas as interrogações que afloram a um viajante, mas
(como indiquei acima) auxilia. Num entardecer, caminhando entre a Ópera Garnier
e o rio Sena, atravessei uma praça, me deparei com uma enorme coluna que me remeteu
a alguma coisa da Roma Antiga... e agora eu sei: era a Coluna Vendôme, construída
no período napoleônico, seguindo o modelo da Coluna de Trajano (narrando
episódios bélicos) e fundida com 1.200 canhões tomados dos russos e austríacos
no campo de batalha.
Rue de la Paix. Ao fundo, a Coluna de Vendôme. |
Referências militares, por sinal, é o que não faltam no universo parisiense. O Arco do Triunfo (na Avenida Champs-Elysées) e o Salão das Batalhas (no Palácio de Versalhes) que o digam. Em ambos a exaltação da guerra na formação da nação francesa, tudo de modo glorioso e eloquente. Realidade militar que o autor acentua ao historiar um roteiro interminável de conflitos armados que vêm desde a chegada dos romanos, passa pelo medievo (com muitas disputas pelo trono, mais a Guerra dos Cem Anos), as guerras religiosas no século XVI (o inacreditável Massacre de São Bartolomeu), o cerco prussiano de 1870, até a ocupação nazista.
Minha
leitura a respeito de Paris não vai encerrar por aqui e tomo este pequeno livro
como mais um incentivo, num jogo que começou há décadas, desde quando me
aventurei nas águas de Maupassant, Mérimée, Balzac, Zola, e tantos outros. Pena
não haver maior detalhamento da bibliografia final do livro, indicando o que se
encontra nas editoras brasileiras a respeito do assunto.