Um dos grandes quadros de El Greco, “O espólio” ou “Desnudamento
de Cristo” (1579), se encontra na sacristia da Catedral de Toledo. O Cristo com uma túnica vermelha, cercado por figuras pouco amistosas, sendo preparado para o despojamentos das vestes e o início do processo de tortura e morte a que foi condenado pelo
governador romano.
Um quadro impactante. Quando entrei na enorme
sacristia, minha atenção foi atraída pela tela. Como fazia visita guiada, logo
foi indicado o título do trabalho, feita uma breve explanação a respeito e a
pintura se tornou inteligível. O momento em que o Filho de Deus vai sofrer a espoliação
dos trajes, da dignidade e “morrer por nós”.
![]() |
Sacristia da Catedral de Toledo. |
Com meu passado de coroinha, imaginei a cena que
tantas vezes se reproduziu naquela sacristia majestosa: a dos sacristãos se
aprontando para o ritual da missa... Como eles se sentiriam diante do quadro? Que
pensamentos, que reflexões?
Recordei a modesta sacristia em que exerci minhas
funções de coroinha na infância (modesta em relação a da Catedral de Toledo) e
revivi a gravidade com que experimentava aqueles instantes que antecedem ao
ritual da missa. Menino de dez anos de idade, aquele era um momento especial. Não
havia quadros na sacristia da minha igreja (apenas uma folhinha com imagem
religiosa na parede ao lado da mesa da secretária), mas o mobiliário de madeira escura já
era o suficiente para emoldurar o ambiente. Nós, os coroinhas, vestidos
com sobrepelizes brancas, auxiliando o padre a ajeitar os paramentos litúrgicos.
O que sentiria o coroinha que eu era, se visse um
Cristo tão sofrido, com uma fulgurante veste vermelha (que parece representar
todo seu corpo e seu sangue), pouco antes de participar da “cerimônia incruenta
da missa”? Não sei. Mas ficaria abalado. Emocionado.
A visita a sacristia da Catedral de Toledo foi rápida.
Era visita de turista e segui o guia por outros caminhos dessa portentosa
igreja, riquíssima em arte de diversos períodos: gótico, renascentista, barroco
e outros. A impressão vivida diante do quadro de El Greco ficou em algum desvão
da memória e a recuperei dia desses. Estava lendo sobre o artista, sua relação
com Toledo, e lembrei do quadro na sacristia da Catedral. Junto, a cena
imaginária dos sacristãos da igreja e a associação com meu passado de coroinha.
Hoje, quando pouca coisa resta da fé católica que
embalou minha infância e juventude, chega a ser estranho lembrar (e lembrar com
satisfação) os tempos de coroinha. Dessa vivência católica – na família, na escola e na igreja – restaram alguns vínculos com as crenças que fundam a
Cristandade, em especial o Catolicismo, e também a nossa Civilização.
Na sacristia da Catedral de Toledo, não me deslumbrei apenas
com a arte de El Greco. Foi o menino católico que reagiu diante da narrativa
central da Cristandade: a Paixão de Cristo, o seu sacrifício pela Humanidade. O
menino que um dia acreditou nisso tudo que a Igreja apresenta. O menino que
cresceu e desaprendeu o que lhe foi ensinado.
Hoje, por onde anda minha cabeça? “Por onde vagam teus
pensamentos?”, diria minha mãe. Não faço ideia. Mas sem dúvida ficou alguma coisa. Um vínculo, uma ponte, que me liga às crenças que emolduraram minha infância e que vêm de longe, muito longe, conquistando impérios, reinos e estados nacionais, forjando trajetórias
de mártires e santos, construindo igrejas e catedrais, inspirando artistas de
diferentes ofícios.
Catedral de Toledo. |