quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

No Terreiro do Paço

Saí do metrô e entrei numa praça sem nenhuma árvore e com uma enorme estátua eqüestre no meio. Posicionei a máquina fotográfica para um registro do monumento e avistei, um pouco mais adiante, um majestoso arco triunfal. Era o imponente arco da entrada da Baixa, em Lisboa, cenário de reis, embaixadores e de outras tantas figuras importantes da rica história portuguesa. Por ali funcionou o Palácio Real durante quatro séculos e tudo transpirava imponência.
“Então é isto uma metrópole?”, disse para mim mesmo, no meio da praça – conhecida como Terreiro do Paço, entre os lisboetas. A pergunta não foi adequada (Portugal não é mais uma metrópole), mas foi isso que senti. É este o cenário de uma ex-metrópole colonial, que um dia dominou territórios na América, África e Ásia? São essas as construções grandiosas produzidas para tontear e apequenar um reles colonial que um dia aporta nas terras lusitanas?
Lembrei-me do meu avô materno, filho de imigrante português, do meu avô paterno, imigrante italiano, e me senti o Zé Povinho... Na verdade, um descendente do Zé Povinho, afinal meus bisavôs e avós imigrantes foram desses que ascenderam. Eles escaparam da sopa rala (alimentação habitual da população pobre do século XIX europeu) e engrossaram as refeições com legumes e carne de gado. Senti-me o guri da América (bem alimentado) que chegou à margem do Tejo e recordei meu avô, em Pelotas, me falando das glórias portuguesas...
Era tudo isso que eu imaginava? Era, sim, mas nem por isso a surpresa foi menor. Na manhã desse dia que “descobri” o Terreiro do Paço, minha mulher e eu tínhamos feito o roteiro clássico dos turistas e visitado o bairro de Belém. A Torre de Belém estava fechada e comentamos o que minha mãe diria, quando contássemos que não entramos no interior da Torre, que ficamos na porta da famosa Torre...
Revi a mãe me ajudando a colar uma gravura de D. Manuel, o Venturoso, no meu caderno de aluno do Curso Primário (uma gravura escolar do rei que mandou construir a Torre, em 1515) e parecia que eu voltava ao Grupo Escolar da infância... A mãe, que foi professora nessa escola, ensinava os alunos a respeito das “causas e conseqüências” das navegações portuguesas.
Sim, eu estava em Lisboa, atravessava o Terreiro do Paço, olhava a Torre de Belém, e não saia de Pelotas. Agitavam-se dentro de mim camadas de memória da infância e era desse jeito que me encostava-se aos balcões das confeitarias portuguesas e pedia uma queijadinha, um pastel de Belém ou uma barriga de freira. Mordia cada um desses doces e tinha a certeza de que regressava à matriz do meu sonho, que descia até o galho mais ínfimo da minha Árvore de Jessé, isto é, da minha genealogia profana e plebéia.

Um comentário:

  1. Muito bom: estar em Portugal e não sair de Pelotas. Levar Pelotas contigo.

    ResponderExcluir