Uma viagem não termina depois de voltarmos para
casa. Ela continua de outras maneiras, por meio das lembranças que trazemos e
revivemos posteriormente.
No meu caso, enumero vários momentos dessas
andanças que, volta e meia, retornam a minha memória. Uma delas, durante uma
excursão pela Grécia e Turquia, em maio de 2023, privilegiando os sítios
arqueológicos e museus da civilização greco-romana. Uma viagem muito especial,
guiada pelo professor Francisco Marshall, iniciando por Atenas, passando por
Mileto, Éfeso, Troia, Macedônia, Delfos, isto só para citar alguns locais.
Quando chegamos ao norte da Grécia, andamos pelo
sítio arqueológico de Pella (capital do antigo reino da Macedônia) e, na
sequência, o seu museu. O professor Marshall parou na frente de um enorme mapa
do Oriente Médio, reproduzindo a trajetória de Alexandre, o Grande, sua
travessia pelo antigo Império Persa, desde o Helesponto (o Estreito de Dardanelos, na atual Turquia) até
o Egito, passando pela Babilônia e alcançando a Índia, expôs de forma sintética
a trajetória do grande conquistador... e vivi uma espécie de epifania.
Sim, um encontro com uma divindade, pois, afinal,
era sobre um herdeiro de Aquiles que professor estava falando, um homem que se percebia
descendente do grande herói da Ilíada, por parte de mãe, assim como de
Hércules, por parte de pai. Uma figura que explorei nas minhas aulas de
História Antiga por mais de vinte anos, sem nunca esgotar.
Fiz a visita ao museu com essa emoção, com a
pretensão de decifrar aquele mundo tragado pelo tempo e sentindo, em cada peça
da exposição, a atualização da Antiguidade, como no caso dos artefatos encontrados
nos túmulos de guerreiros da época (foto abaixo).
| Vitrines com artefatos bélicos encontrados nos túmulos de guerreiros macedônios. Museu de Pella. |
Não, nunca compreenderei o Mundo Antigo. Mas sempre o olharei com espanto e admiração, mantendo uma curiosidade enorme por esse território povoado por homens e mulheres incompreensíveis e admiráveis.[1]
Muitas viagens que realizo me fazem reviver esse
sentimento nascido na infância, quando assistia filmes de temática histórica na
matiné e folheava livros com gravuras sobre o tema. Recentemente, no Museu do
Bardo (Tunísia), admirando mosaicos romanos que enfocavam temas gregos, revivi
essa emoção...
Os romanos, nos gloriosos tempos de seu império, não
esqueceram o mundo grego e o tematizaram em seus mosaicos, desenhando Dionísio,
Hércules e Alexandre, entre outros. Figuras mitológicas e históricas, todas
embaladas na mesma toada épica e/ou mágico-religiosa. Percorrendo as salas do
museu, sintonizei com essa mesma memória e admiração... e, quando voltei para casa, ainda estava embalado nesse sonho (devaneio de quem se deixou fascinar pela cultura clássica). Resultado: passei três semanas envolvido na leitura da trilogia
“Aléxandros”, de Valerio Manfredi. Um romance de 1.070 páginas abordando de
forma realista a trajetória do rei macedônico, apresentando soluções muito
interessantes para aspectos polêmicos da vida do herói, “sem prejuízo da
fidelidade às fontes literárias e materiais” (segundo o próprio autor).[2]
Terminado o
romance, não tenho claro o que concluí em relação ao famoso guerreiro e criador de uma
nova fase da História Antiga, a dos chamados reinos helenísticos, que fundiram
as culturas grega e persa.[3]
Certamente uma figura importante pelos seus feitos político-militares e deplorável por seus
caprichos, megalomania e rompantes de crueldade, como a tortura ao rei da
cidade de Gaza (amarrado vivo ao seu carro de combate) ou como o incêndio de
Persépolis (militarmente desnecessário).
Seja como for, cheguei à última página com a certeza de estar cumprindo um destino forjado para todos aqueles que foram enfeitiçados pelo mundo clássico e cultivaram um interesse especial por esse rei macedônico que encarnou a figura de Aquiles e foi admirado por outras figuras notáveis, como Aníbal e Júlio Cesar.[4] Ou, simplesmente, terminei o livro tecendo as lembranças de um viajante que um dia andou pelo sítio de Pella e por outros locais com marcas da Antiguidade Clássica, admirando ruínas de templos, palácios e túmulos, mais mosaicos, esculturas, armaduras e armas que remetiam ao grande conquistador. Viajar, afinal, não termina quando regressamos a nossa casa.
| Cabeça de mármore de Alexandre, o Grande (325-300 a.C.), encontrada por acaso na região de Giannista (na Macedônia). |
[1] Geralmente
imagino os homens e mulheres do Mundo Antigo de modo muito semelhante ao que vi
no filme “O retorno” (2024), baseado na “Odisseia” e dirigido por Uberto
Pasolini. Na cena final, depois de Ulisses (interpretado por Ralph Fiennes) ter
massacrado todos os pretendentes à mão de Penélope (Juliette Binoche), ele é banhado
pela esposa e os dois mantem um diálogo que me emocionou até o fundo da alma.
Uma recriação magnífica da cena criada por Homero. Penélope querendo
compreender a estranha trajetória do marido na volta de Troia e ele respondendo
que não sabia o que fizera. Apenas cumprira o que os deuses haviam determinado
para ele. Um modo certamente fantasioso de ver os homens e as mulheres da
Antiguidade, mas coerente com as suas estaturas míticas. Personagens capazes de
viver e aceitar os seus destinos de modo integral e intenso.
[2]
MANFREDI, Valerio. Aléxandros. 3 volumes: O sonho de Olympias, As
areias de Amon, Os confins do mundo. RJ: Editora Rocco, 1999. O
autor nasceu em 1943, na Itália, é graduado em línguas clássicas pela
Universidade de Bolonha, especializado em topografia do Mundo Antigo, dirigiu
escavações em várias localidades do Mediterrâneo e tem vasta obra ficcional
sobre temas da Antiguidade.
[3] Reinos
surpreendentes, como o de Commagene (no interior da atual Turquia), que deixou
no alto do Monte Nemrut enormes cabeças de pedra com figuras que fundem
elementos dos mundos grego e persa. Monumento mandado construir pelo rei
Antióquio I Epifânio, no século I a.C. (possivelmente seu túmulo), e que
visitei, embasbacado, num alvorecer de 2019.
[4] No
segundo volume da trilogia “Aléxandros”, Alexandre visita um templo da cidade
de Ílion, herdeira da antiga Troia, e encontra a armadura e as armas de
Aquiles. Dizendo-se herdeiro do herói homérico, ele se apossa desses “objetos
sagrados” e ordena que eles sejam levados para serem erguidos diante do
exército como “estandarte antes de cada batalha”. (MANFREDI, V. Aléxandros: as areias de Amon. RJ:
Rocco, 1999. P. 9-14.)
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