No verão de 1992-93, eu era um professor de 37 anos
procurando se enquadrar numa universidade, depois de treze anos na escola estadual. Tomara posse um ano antes, ainda estava em estágio probatório,
cursava o mestrado e meu prazo para a defesa do trabalho final se esgotava no final
de 93. Então eu tinha as aulas do departamento para ministrar mais uma
dissertação para escrever. O colegiado do departamento fora compreensivo e me
dera disciplinas a respeito das quais eu tinha certo domínio. Daria para eu
conciliar as aulas e a escrita da dissertação, imaginava. E me joguei, naqueles
dias quentes de verão, a datilografar o primeiro capítulo do meu trabalho de
mestrando.[1]
Mas uma disputa política corroeu as entranhas do
departamento (uma briga entre o diretor e o vice), eu me posicionei mal no
conflito (assumi uma posição de neutralidade) e levei chumbo do diretor. Ele me
chamou na sua sala, disse que havia revisto as minhas disciplinas e meu obrigou
a lecionar História Antiga... que ele bem sabia ser um conteúdo do qual eu
tinha pouco conhecimento. História da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, sem
esquecer os hebreus e os fenícios. Aulas que exigiriam muita preparação e
consumiria as horas que eu pensava dedicar à dissertação.
“Quem não se alinha comigo, está contra mim”, o
diretor me dissera em algum momento e eu esquecera o aviso. Santa ingenuidade,
a minha, não avaliara o ninho de cobras em que estava metido! Engoli em seco a
paulada, arregacei as mangas e fui em frente. Encarei as aulas sobre o Mundo
Antigo, escrevi a dissertação (que defendi dentro do prazo) e fiquei para
sempre engasgado com os mistérios e a imensidão da Antiguidade. Incomodado com
a minha ignorância a respeito desse período histórico.
Um sentimento, perplexidade e incômodo, que revivi
ao visitar o Museu do Bardo, na Tunísia (viagem que realizei no mês passado), ao me deparar com belíssimos mosaicos romanos, super bem preservados. Entre eles,
o famoso “Ulisses resistindo ao canto das Sereias”, datado do século
III d.C., abordando um episódio da “Odisseia”, de Homero. Ulisses preso com
cordas ao mastro do navio para ouvir “a voz arrebatadora das Sereias” sem ser
arrastado e morto por elas. Um episódio que certa vez um aluno me perguntou a
respeito e eu me atrapalhei ao responder. Disse para ele que iria ver em
casa, na biblioteca da universidade, e só algumas semanas depois consegui
chegar a uma resposta satisfatória.
| "Ulisses resistindo ao canto das Sereias" (séc. III d.C.) À direita, as pérfidas Sereias, capazes de atrair com sua música os viajantes desavisados. |
Tempos em que não havia Google nem IA e não se
resolvia uma dúvida ou curiosidade num piscar de olhos. Tempos difíceis,
aqueles. Demorei a decifrar e compreender este e tantos episódios do Mundo
Antigo: a conquista do Império Persa por Alexandre, o conflito entre Otávio e
Marco Antônio/Cleópatra, o declínio ou transformação do Império Romano e por aí
vai. Custei a ter domínio sobre esse vasto conteúdo e não me intimidar com os
questionamentos dos alunos.
No Museu do Bardo, disse para mim mesmo que não era
mais o professor assustado de 37 anos e segui adiante, maravilhando com os
mosaicos, tentando lembrar a passagem em que Homero canta o episódio das
Sereias...
O que faço agora, tirando a tradução de Donaldo
Schuler da estante e lendo em voz alta:
“Revelarei o que nos espera [diz Ulisses aos seus
companheiros]. Podemos morrer ou escapar incólumes. Atenção aos perigos! Evitar
a voz arrebatadora das Sereias e os campos floridos em que moram é a primeira
providência. Só a mim está reservado ouvir o canto. Amarrai-me firmemente. Não
deverei arredar o pé. Estarei ereto junto ao mastro. Atem-me com laços
apertados. Se eu rogar que me soltem, a tarefa de vocês será redobrar o nó.”[2]
Redobrar o nó para não cair nas garras das Sereias. (As sereias da mitologia greco-romana não tinha rabo de peixe, mas pernas com garras para prender suas presas.) Redobrar as amarras para não ser engolfado pelos turbilhões da vida.
[1] Sim, eu
iniciei o trabalho numa máquina de escrever. Logo um colega me emprestou o seu
computador, que eu passei a utilizar à noite, nos horários em que ele não
necessitava do aparelho. Minha escrita deslanchou.
[2]
HOMERO. Odisseia II: o regresso. Trad. Donaldo Schüler. POA: L&PM,
2014. P. 223. (Canto 12, versos 156 a 164.)