domingo, 15 de março de 2026

Redobrar o nó

 

No verão de 1992-93, eu era um professor de 37 anos procurando se enquadrar numa universidade, depois de treze anos na escola estadual. Tomara posse um ano antes, ainda estava em estágio probatório, cursava o mestrado e meu prazo para a defesa do trabalho final se esgotava no final de 93. Então eu tinha as aulas do departamento para ministrar mais uma dissertação para escrever. O colegiado do departamento fora compreensivo e me dera disciplinas a respeito das quais eu tinha certo domínio. Daria para eu conciliar as aulas e a escrita da dissertação, imaginava. E me joguei, naqueles dias quentes de verão, a datilografar o primeiro capítulo do meu trabalho de mestrando.[1]

Mas uma disputa política corroeu as entranhas do departamento (uma briga entre o diretor e o vice), eu me posicionei mal no conflito (assumi uma posição de neutralidade) e levei chumbo do diretor. Ele me chamou na sua sala, disse que havia revisto as minhas disciplinas e meu obrigou a lecionar História Antiga... que ele bem sabia ser um conteúdo do qual eu tinha pouco conhecimento. História da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, sem esquecer os hebreus e os fenícios. Aulas que exigiriam muita preparação e consumiria as horas que eu pensava dedicar à dissertação.

“Quem não se alinha comigo, está contra mim”, o diretor me dissera em algum momento e eu esquecera o aviso. Santa ingenuidade, a minha, não avaliara o ninho de cobras em que estava metido! Engoli em seco a paulada, arregacei as mangas e fui em frente. Encarei as aulas sobre o Mundo Antigo, escrevi a dissertação (que defendi dentro do prazo) e fiquei para sempre engasgado com os mistérios e a imensidão da Antiguidade. Incomodado com a minha ignorância a respeito desse período histórico.

Um sentimento, perplexidade e incômodo, que revivi ao visitar o Museu do Bardo, na Tunísia (viagem que realizei no mês passado), ao me deparar com belíssimos mosaicos romanos, super bem preservados. Entre eles, o famoso “Ulisses resistindo  ao canto das Sereias”, datado do século III d.C., abordando um episódio da “Odisseia”, de Homero. Ulisses preso com cordas ao mastro do navio para ouvir “a voz arrebatadora das Sereias” sem ser arrastado e morto por elas. Um episódio que certa vez um aluno me perguntou a respeito e eu me atrapalhei ao responder. Disse para ele que iria ver em casa, na biblioteca da universidade, e só algumas semanas depois consegui chegar a uma resposta satisfatória.

"Ulisses resistindo ao canto das Sereias" (séc. III d.C.)
À direita, as pérfidas Sereias, capazes de atrair com sua música os viajantes desavisados.

Tempos em que não havia Google nem IA e não se resolvia uma dúvida ou curiosidade num piscar de olhos. Tempos difíceis, aqueles. Demorei a decifrar e compreender este e tantos episódios do Mundo Antigo: a conquista do Império Persa por Alexandre, o conflito entre Otávio e Marco Antônio/Cleópatra, o declínio ou transformação do Império Romano e por aí vai. Custei a ter domínio sobre esse vasto conteúdo e não me intimidar com os questionamentos dos alunos.

No Museu do Bardo, disse para mim mesmo que não era mais o professor assustado de 37 anos e segui adiante, maravilhando com os mosaicos, tentando lembrar a passagem em que Homero canta o episódio das Sereias...

O que faço agora, tirando a tradução de Donaldo Schuler da estante e lendo em voz alta:

“Revelarei o que nos espera [diz Ulisses aos seus companheiros]. Podemos morrer ou escapar incólumes. Atenção aos perigos! Evitar a voz arrebatadora das Sereias e os campos floridos em que moram é a primeira providência. Só a mim está reservado ouvir o canto. Amarrai-me firmemente. Não deverei arredar o pé. Estarei ereto junto ao mastro. Atem-me com laços apertados. Se eu rogar que me soltem, a tarefa de vocês será redobrar o nó.”[2]

Redobrar o nó para não cair nas garras das Sereias. (As sereias da mitologia greco-romana não tinha rabo de peixe, mas pernas com garras para prender suas presas.) Redobrar as amarras para não ser engolfado pelos turbilhões da vida.



[1] Sim, eu iniciei o trabalho numa máquina de escrever. Logo um colega me emprestou o seu computador, que eu passei a utilizar à noite, nos horários em que ele não necessitava do aparelho. Minha escrita deslanchou.

[2] HOMERO. Odisseia II: o regresso. Trad. Donaldo Schüler. POA: L&PM, 2014. P. 223. (Canto 12, versos 156 a 164.)