sábado, 3 de janeiro de 2026

Um filme erótico inesquecível

 

Em 1970 eu cursava a quarta série ginasial num colégio católico e o Irmão Heitor, professor de Língua Portuguesa, volta e meia interrompia o assunto da aula e lascava um sermão moralista. Às vezes a respeito do cinema que explorava “cenas de nudismo e carícias lascivas” e creio que foi dessa maneira que eu soube que um filme com a Brigitte Bardot estava passando num cinema próximo à escola, no Cine Colombo. Tratava-se de “Les femmes”, direção de Jean Aurel, produção franco-italiana, 1969.

O Irmão Heitor, claro, sentava o pau nesse tipo de produção cinematográfica e na sua “repercussão negativa na formação moral da juventude”. Um colega conhecia o porteiro do Cine Colombo e, durante o recreio, combinamos que iríamos assistir ao filme. Era pagar uma gorjeta ao porteiro que ele esquecia a improbidade da fita para menores de 18 anos e nos deixava entrar.

Marcamos encontro na porta do cinema (para a sessão da tarde), juntamos o dinheiro da gorjeta e ficamos esperando o sinal. Quando bateu o início da sessão, passamos correndo pela roleta e subimos para o mezzanino, a sala de projeção já completamente escura, e lá ficamos “escondidos”, na maior excitação.

Não era um grande filme, mas fabuloso para os guris que nós éramos. Brigitte corria nua no campo, primeiro de costas, com os cabelos voando e a bunda saltitando, depois de frente, os peitos balançando, os cabelos novamente esvoaçando e um sorriso deslumbrante. A vegetação era alta, encobria o sexo, genitália era coisa que o cinema naquela época não focava.

Em outras cenas, ela se deitava de bruços numa cama com lençóis brancos, conversava com o amante, ele a acariciava com vagar e ela reagia com caras e bocas de inocência e sensualidade.

Brigitte era um ícone da cultura de liberação sexual muito falado naquele final de anos 60 e nós queríamos aprender sobre isso. Sexo e amor não seriam entidades distintas como ainda eram para muitos da nossa geração. Queríamos embarcar num novo estilo de vida, mais liberal, ou simplesmente "mais livre e solto", e aquela atriz e surgia como um índice dessa transformação. Uma moral sexual muito distinta daquela que o Irmão Heitor, na sala de aula, fazia uma defesa enfática.

Inesquecível aquela sessão de cinema. Quando terminou o filme, estávamos certos de termos realizado uma proeza. Estávamos excitados com o mundo e suas possibilidades. Uma façanha para meninos católicos treinados para a contenção da sexualidade.