Em 1970 eu cursava a quarta série ginasial num
colégio católico e o Irmão Heitor, professor de Língua Portuguesa, volta e meia
interrompia o assunto da aula e lascava um sermão moralista. Às vezes a
respeito do cinema que explorava “cenas de nudismo e carícias lascivas” e creio
que foi dessa maneira que eu soube que um filme com a Brigitte Bardot estava
passando num cinema próximo à escola, no Cine Colombo. Tratava-se de “Les
femmes”, direção de Jean Aurel, produção franco-italiana, 1969.
O Irmão Heitor, claro, sentava o pau nesse tipo de
produção cinematográfica e na sua “repercussão negativa na formação moral da
juventude”. Um colega conhecia o porteiro do Cine Colombo e, durante o recreio,
combinamos que iríamos assistir ao filme. Era pagar uma gorjeta ao porteiro que
ele esquecia a improbidade da fita para menores de 18 anos e nos deixava
entrar.
Marcamos encontro na porta do cinema (para a sessão
da tarde), juntamos o dinheiro da gorjeta e ficamos esperando o sinal. Quando
bateu o início da sessão, passamos correndo pela roleta e subimos para o
mezzanino, a sala de projeção já completamente escura, e lá ficamos
“escondidos”, na maior excitação.
Não era um grande filme, mas fabuloso para os guris
que nós éramos. Brigitte corria nua no campo, primeiro de costas, com os
cabelos voando e a bunda saltitando, depois de frente, os peitos balançando, os
cabelos novamente esvoaçando e um sorriso deslumbrante. A vegetação era alta, encobria
o sexo, genitália era coisa que o cinema naquela época não focava.
Em outras cenas, ela se deitava de bruços numa cama
com lençóis brancos, conversava com o amante, ele a acariciava com vagar e ela
reagia com caras e bocas de inocência e sensualidade.
Brigitte era um ícone da cultura de liberação
sexual muito falado naquele final de anos 60 e nós queríamos aprender sobre
isso. Sexo e amor não seriam entidades distintas como ainda eram para muitos da
nossa geração. Queríamos embarcar num novo estilo de vida, mais liberal, ou simplesmente "mais livre e solto", e
aquela atriz e surgia como um índice dessa transformação. Uma moral sexual
muito distinta daquela que o Irmão Heitor, na sala de aula, fazia uma defesa
enfática.
Inesquecível aquela sessão de cinema. Quando
terminou o filme, estávamos certos de termos realizado uma proeza. Estávamos excitados
com o mundo e suas possibilidades. Uma façanha para meninos católicos treinados
para a contenção da sexualidade.