terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Mundo desigual

 

Dizer que o mundo é desigual é chover no molhado. Mas sempre rende alguma perplexidade quando nos deparamos com casos reais, específicos. Pois foi o que aconteceu comigo nessa madrugada ao abrir a caixa de e-mails. Sob o título “Diárias polpudas”, um amigo militar (coronel reformado) me enviou uma notícia relativa a um conselheiro do TCE de Roraima, que tem recebido, há mais de um ano, diárias de R$ 2.540,00 para cursar o Mestrado Profissional em Administração, na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. O curso iniciou em agosto do ano passado e o conselheiro/mestrando passou a vir ao Rio uma vez por mês e ficar uma semana para cumprir as suas obrigações acadêmicas.

Segundo a notícia do jornal “Metrópoles”, tudo nos conformes.[1] O TCE de Roraima pagou R$ 70.000,00 à Fundação Getúlio Vargas para o seu funcionário cursar o mestrado e agora desembolsa o auxílio regular que a instituição reserva a um conselheiro em viagem. Tudo dentro do que a legislação do Judiciário estabelece. No caso desse conselheiro, a média de diárias mensais tem sido de R$ 15.000,00 e ele lidera o ranking dos funcionários que mais tem obtido essa vantagem. Atualmente, a bolsa que a Capes, o órgão do Ministério da Educação que trata do financiamento para a pós-graduação, paga R$ 2.100,00 mensais para os mestrandos e eles que se virem para sobreviver com essa grana.

Meu amigo militar me enviou essa mensagem porque sabe que fui mestrando, que meus amigos (muitos deles seus ex-professores) também fizeram pós-graduação com bolsas da Capes, viajando de uma cidade a outra muitas vezes e contando os trocos. No caso de uma querida amiga (que ele bem conhece) o périplo consistia em viagens semanais para assistir aulas – com o dinheiro contado, mas agradecendo a Deus por ter ter uma bolsa da Capes. Ela viajava de Santa Maria a Porto Alegre de manhã cedo, assistia aula na PUC, dormia numa pensão de freiras (na Rua Ramiro Barcelos), encarava mais um dia de aula e depois voltava a rodoviária para pegar o ônibus para Santa Maria. Tudo isso sem usar táxi, era muito caro, e, como adiantei acima, agradecendo a Deus por ter conseguido a bolsa. Uma jornada que implicava a ginástica de carregar uma pequena mala, mais pasta de livros e atravessar o corredor do ônibus Ipiranga-PUC de ponta a ponta. Certamente algo que o mestrando/conselheiro do TCE de Roraima jamais saberá.

Acrescento que o meu amigo coronel não é desses que acham que os militares não tenham regalias. Ele fez carreira no Exército, ocupou cargo no Forte Apache, em Brasília, e conhece bem o padrão dos membros das Forças Armadas, seu sistema previdenciário, entre outras coisas. Volta e meia me envia e-mails com notícias escandalosas (ao menos para nós, reles civis) relativa à farra dos acepipes para os coquetéis militares, mais as aposentadorias, pensões e as "boquinhas" que centenas de oficiais conseguiram para si próprio e familiares durante o Governo Bolsonaro. Se diverte, esse meu amigo. Não acha que as coisas vão mudar – a sociedade brasileira não tem colhões para uma revolução, ele diz. 

De todos os meus amigos, foi o único que sustentou que as Forças Armadas não iriam deixar passar barato a derrota eleitoral de Bolsonaro, seu instrumento para a retomada do poder em 2018 e sua continuação em 2022. "O golpe é coisa certa", ele afirmava. Acertou. Estava tudo armado. Foi por um triz que a coisa não vingou.

Meu amigo é um homem sem ilusões. Sabe muito bem que a elite da burocracia estatal, civil e militar, trata a si própria muito bem, tal qual a elite econômica (os super ricos que resistem às tentativas de aumentar a taxação de seus rendimentos pela Receita Federal). É ferro no populacho, ele diz. Sem bolchevismo esse país não tem conserto, garante.

Escrevo isso porque habitualmente silencio a respeito das desigualdades da sociedade brasileira. Não consigo cronicar a respeito do assunto. É complicado. Muitas vezes, revoltante. E opto por assuntos agradáveis. 


[1] LORRAN, Tacio. Conselheiro de RR ganha R$ 207 mil em diárias para fazer mestrado no Rio. Metrópoles, 09/12/2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário