Dizer
que o mundo é desigual é chover no molhado. Mas sempre rende alguma
perplexidade quando nos deparamos com casos reais, específicos. Pois foi o que aconteceu
comigo nessa madrugada ao abrir a caixa de e-mails. Sob o título “Diárias
polpudas”, um amigo militar (coronel reformado) me enviou uma notícia relativa
a um conselheiro do TCE de Roraima, que tem recebido, há mais de um ano, diárias de R$
2.540,00 para cursar o Mestrado Profissional em Administração, na Fundação
Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. O curso iniciou em agosto do ano passado e o
conselheiro/mestrando passou a vir ao Rio uma vez por mês e ficar uma semana
para cumprir as suas obrigações acadêmicas.
Segundo
a notícia do jornal “Metrópoles”, tudo nos conformes.[1]
O TCE de Roraima pagou R$ 70.000,00 à Fundação Getúlio Vargas para o seu
funcionário cursar o mestrado e agora desembolsa o auxílio regular que a
instituição reserva a um conselheiro em viagem. Tudo dentro do que a legislação do Judiciário estabelece. No caso desse
conselheiro, a média de diárias mensais tem sido de R$ 15.000,00 e ele lidera o
ranking dos funcionários que mais tem obtido essa vantagem. Atualmente, a bolsa
que a Capes, o órgão do Ministério da Educação que trata do financiamento para a pós-graduação,
paga R$ 2.100,00 mensais para os mestrandos e eles que se virem para sobreviver
com essa grana.
Meu
amigo militar me enviou essa mensagem porque sabe que fui mestrando, que meus
amigos (muitos deles seus ex-professores) também fizeram pós-graduação com
bolsas da Capes, viajando de uma cidade a outra muitas vezes e contando os
trocos. No caso de uma querida amiga (que ele bem conhece) o périplo consistia
em viagens semanais para assistir aulas – com o dinheiro contado, mas
agradecendo a Deus por ter ter uma bolsa da Capes. Ela viajava de Santa Maria a Porto
Alegre de manhã cedo, assistia aula na PUC, dormia numa pensão de freiras (na
Rua Ramiro Barcelos), encarava mais um dia de aula e depois voltava a
rodoviária para pegar o ônibus para Santa Maria. Tudo isso sem usar táxi, era
muito caro, e, como adiantei acima, agradecendo a Deus por ter conseguido a bolsa.
Uma jornada que implicava a ginástica de carregar uma pequena mala, mais pasta
de livros e atravessar o corredor do ônibus Ipiranga-PUC de ponta a ponta. Certamente
algo que o mestrando/conselheiro do TCE de Roraima jamais saberá.
Acrescento que o meu amigo coronel não é desses que acham que os militares não tenham regalias. Ele fez carreira no Exército, ocupou cargo no Forte Apache, em Brasília, e conhece bem o padrão dos membros das Forças Armadas, seu sistema previdenciário, entre outras coisas. Volta e meia me envia e-mails com notícias escandalosas (ao menos para nós, reles civis) relativa à farra dos acepipes para os coquetéis militares, mais as aposentadorias, pensões e as "boquinhas" que centenas de oficiais conseguiram para si próprio e familiares durante o Governo Bolsonaro. Se diverte, esse meu amigo. Não acha que as coisas vão mudar – a sociedade brasileira não tem colhões para uma revolução, ele diz.
De
todos os meus amigos, foi o único que sustentou que as Forças Armadas não iriam
deixar passar barato a derrota eleitoral de Bolsonaro, seu instrumento para a retomada do
poder em 2018 e sua continuação em 2022. "O golpe é coisa certa", ele afirmava.
Acertou. Estava tudo armado. Foi por um triz que a coisa não vingou.
Meu
amigo é um homem sem ilusões. Sabe muito bem que a elite da burocracia estatal,
civil e militar, trata a si própria muito bem, tal qual a elite econômica (os
super ricos que resistem às tentativas de aumentar a taxação de seus
rendimentos pela Receita Federal). É ferro no populacho, ele diz. Sem
bolchevismo esse país não tem conserto, garante.
Escrevo isso porque habitualmente silencio a respeito das desigualdades da sociedade brasileira. Não consigo cronicar a respeito do assunto. É complicado. Muitas vezes, revoltante. E opto por assuntos agradáveis.
[1] LORRAN,
Tacio. Conselheiro de RR ganha R$ 207 mil em diárias para fazer mestrado no
Rio. Metrópoles, 09/12/2024.
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