terça-feira, 6 de dezembro de 2022

O legado dos jesuítas em Uruguaiana

 

Estive em Uruguaiana no último final de semana, junto com outros escritores de Santa Maria, para sessão de autógrafos dos livros da Editora Memorabilia na Feira do Livro local. A sessão de autógrafos foi fraca e nem se comparou com a que fizemos em Santa Maria, neste ano de 2022. Mesmo assim foi bom ir até essa cidade da fronteira e conviver com os escritores locais – entre eles, o patrono da Feira, o historiador Dagoberto Clos. Uma conversa ótima, numa das alamedas da Praça Barão do Rio Branco (onde aconteceu a Feira), a respeito dos indígenas da Campanha e das ações jesuíticas na região durante os séculos XVII e XVIII.

Dagoberto Clos tem pesquisado e escrito a respeito da história local e um dos resultados é o livro A mão dos jesuítas: a herança jesuítica no Município de Uruguaiana (2012, 88 p.). Denso trabalho enfocando a atuação da Companhia de Jesus junto aos indígenas e o que restou dessa experiência histórica.

Em 1626, os jesuítas fundaram a Redução de N. Sra. dos Três Reis Magos de Japeju, na margem ocidental do Rio Uruguai (na atual Argentina), próximo à foz do Rio Ibicuí, de frente para o atual estado do Rio Grande do Sul. Anos mais tarde, em 1657, os padres criaram a Estância Santiago no lado oriental, em terras que hoje pertencem ao município de Uruguaiana. Nessa oportunidade, dois padres e vários índios atravessaram mil cabeças de gado por meio de um baixio que existe na região (hoje chamado de Passo do Aferidor) e introduziram a pecuária no sudoeste do Rio Grande do Sul.

Ignorante que sou da geografia local e das práticas campeiras, fiquei espantado com a empreitada dos padres, isto é, cruzar uma “gadaria” (termo da época) por um rio de grande largura como é o caso do Rio Uruguai. O autor acentua o número reduzido de padres nesse empreendimento (eram dois ou três por redução) e a enorme capacidade desses religiosos em coordenar os índios em atividades até então distantes do seu horizonte cultural. Os guaranis (principal grupo indígena catequisado pelos jesuítas) conheciam e praticavam a agricultura, mas só tiveram contato com a pecuária por meio dos padres. E logo se habilitaram a exercer com competência as lides de vaqueano.

A partir dessa Estância Santiago a pecuária se consolidou no sudoeste rio-grandense e, junto com ela, foram erguidas várias construções de pedra (de capelas, currais e poços de água). A pecuária missioneira se expandiu em outras estâncias e postos de pastoreio e, no final do século XVII, se formou a Estância Japeju, com 65 quilômetros quadrados e mais de 80 mil cabeças de gado, a maior das estâncias da “Nação Jesuítica” (grande parte dela nas terras do atual município de Uruguaiana).

Estância Japeju. Fonte: Wikipédia.

Em 1768 os jesuítas foram expulsos da América Espanhola (por determinação do rei) e a Estância Japeju passou para a administração militar. Em 1801 ocorreu a conquista portuguesa da região (por Borges do Canto e outros) e a área começou a ser dividida em sesmarias e entregue a militares, padres e tropeiros luso-brasileiros.

O autor identificou as ruínas das construções jesuíticas – sistemas construtivos sofisticados, com paredes de pedra, arcos e abóbadas – e quais estâncias luso-brasileiras passaram a ocupar esses locais. Uma herança que assombrou e em grande parte foi destruída (inclusive por caçadores do lendário “tesouro dos jesuítas”) ao longo dos séculos XIX e XX, mas que ainda pode ser reconstituída e até aproveitada do ponto de vista turístico.

Restou pouca coisa do legado material jesuítico, conclui o autor. Seja como for, a Estância Japeju foi um empreendimento exitoso e deitou raízes no território hoje ocupado pelo município de Uruguaiana. No entendimento do autor, é a partir dessa estância que a história local deve ser contada e não da criação do Porto de Santana pelo Governo Farroupilha, em 1838. Uma provocação boa: quando estabelecer o marco fundador de uma cidade da Campanha rio-grandense? Na ação de jesuítas espanhóis e índios guaranis ou nas forças militares farroupilhas?

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