sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Um susto

            Domingo retrasado, acordei da sesta e não me senti bem. Um mal estar vago, corpo quente e garganta irritada. Tirei a temperatura, constatei 38 graus e disparou o alerta. Conversei com minha companheira e fomos ao hospital fazer uma consulta de emergência.

Não deu outra: o médico achou que eu estava com sintomas de covid e me receitou analgésico e remédio para a garganta. Acrescentou medicamentos para coriza e tosse, que ele disse que surgiriam nos próximos dias. Me deu requisição para exame na quarta-feira (72 horas depois dos primeiros sintomas) e, até lá, recomendou isolamento total.

Antes que eu fizesse o exame e saísse o resultado, o mal estar no corpo passara, a febre desaparecera e a garganta se normalizara. Com o resultado nas mãos, a prova: apenas um susto. O vírus não foi detectado.

Não cheguei a me preocupar (nem perdi o sono), mas teria sido diferente se tivesse vivido isso antes da vacina (da primeira, segunda e terceira doses). Antes dessa mudança no enfoque da doença (certamente como resultado da CPI da Covid, no Senado Federal) e o abandono das alardeadas hidroxocloroquina, azitromicina e outras medicações propagandeadas pelo “doutor Bolsonaro”. (Sim, juro que ouvi um bolsonarista se referir ao capitão reformado como “doutor”.)

Foram tempos duros os que vivemos no país – de forte negacionismo em relação a peste, desconfiança em relação às vacinas e com autoridades médicas endossando o gerenciamento equivocado da doença feito pelo Governo Federal, incluindo nisso um tratamento (o famoso “kit covid”) sem o devido embasamento científico. Tempos em que muitos médicos da minha pacata Santa Maria (mais de 200 profissionais) assinaram manifesto a favor do tratamento precoce e deixaram muitos de nós, leigos, temerosos. Muitos desses médicos, por sinal, atuando no hospital onde fui consultar...

         Felizmente a conjuntura mudou e até o Ministério da Saúde, em julho do ano passado, reconheceu a ineficácia do “kit covid”. Aos trambolhões a vacinação se difunde – mesmo a vacinação infantil – e entendo que vivemos um arrefecimento do negacionismo em relação a covid. Uma avaliação otimista, alguém dirá. Mas vivi com tanta naturalidade esse susto (a possibilidade de ter pego o vírus), que assino embaixo: a conjuntura nacional mudou em relação ao negacionismo. O bolsonarismo continua uma força política considerável, mas, em relação a peste, parece ter recuado.

Vista da sacada do meu apartamento, uma paisagem
que se tornou mais presente nesses tempos de peste.



quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Caminhada na Estrada do Perau

           Dias atrás (6 de fevereiro) desci com meu grupo de caminhada a Estrada do Perau, mas meu joelho direito não gostou. A Estrada tem pouco mais de cinco quilômetros, é bastante íngreme – liga a região do Planalto Central (Pinhal, atual Itaara) à Depressão Central (Santa Maria) – e exige boa musculatura nas pernas. Não foi o meu caso (faltou muque) e terminei a jornada mancando.

Fui ao reumatologista, ele não constatou nenhum problema (o início de uma artrose, talvez, coisa da idade ou do reumatismo não sei) e me mandou ao fisioterapeuta.

– Pra fortalecer a musculatura e voltar às caminhadas – ele disse.

Foi mais ou menos o que a fisioterapeuta avaliou e hoje volto para a terceira sessão. Não quero deixar essa atividade física tão prazerosa: pernear pelas ruas, estradas, desertos e praias.

A Estrada do Perau foi aberta durante o período farroupilha pelo governo republicano (por volta de 1840) e era chamada Picada do Pinhal. Tinha a largura suficiente para uma carreta e, segundo consta (informações orais, mais leitura do Diário de Santa Maria), os farroupilhas pensaram a estrada como uma via alternativa ao tradicional caminho de São Martinho da Serra (aberto no século XVIII, no tempo das Missões Jesuíticas e dos embates entre os impérios de Portugal e Espanha na região).

Durante o período farroupilha, tornou-se uma alternativa para enviar tropas da região da Campanha (onde se localizaram as capitais da República Sul-Riograndense) para Cruz Alta (no Planalto). Tempo de guerra, de lutas entre gaúchos republicanos e as forças do Império do Brasil, até hoje relembrado pelos centros tradicionalistas – como bem comprovaram, naquele dia de caminhada, o grupo de gaúchos que cavalgavam na estrada e cruzaram por nós.

Grupo tradicionalista subindo a Estrada do Perau.

Em 1942, a estrada foi pavimentada por paralelepípedos, na década de 1980 abrigou um “motel ao ar livre” (estacionamento pago para o pessoal ir de carro namorar e transar) e se tornou um “território mágico” para os santa-marienses. A estrada é pitoresca, apresenta desafios para motoristas que gostam de testar suas habilidades, preserva traços da Mata Atlântica, tem vistas bonitas de Santa Maria e da Garganta do Diabo (hoje com outro nome, que eu me nego utilizar) e recentemente foi revitalizada. A estrada foi limpa, os mirantes passaram por reformas (com pintura de murais muito criativos) e aumentou a sua frequência.

A Garganta do Diabo, vista do terceiro mirante
da Estrada do Perau.

Meu grupo de caminhada se inseriu nessa revitalização da estrada e, no domingo retrasado, desceu bravamente o caminho. Minhas colegas se saíram muito bem, mas eu fraquejei. Acredito, porém, que a fisioterapia vai me restabelecer e logo as caminhadas nos espaços íngremes não serão mais problema.

sábado, 8 de janeiro de 2022

A difícil arte de registrar memórias

           Li e reli o livro de crônicas de Luiz Carlos Vaz (jornalista aposentado), intitulado A história de Abel, centrado nas suas lembranças de infância & juventude.[1] Resultado: fiquei remoendo a respeito da difícil arte de registrar memórias. Não é tarefa fácil. Numa crônica intitulada “Frases que ficam”, o autor anota uma série de frases que circulam no seu ambiente familiar, provocam boas risadas, e sabiamente comenta que, se escritas ou contadas de qualquer jeito, não tem “a menor graça e nenhum sentido”.

           Haja talento e arte para transformar os episódios lembrados em textos que realmente possibilitem os outros perceberem a graça e o sentido que têm. Uma tarefa que o autor se propõe e realiza com competência. Com uma linguagem bem humorada e doses certas de lirismo e nostalgia, Luiz Carlos consegue transformar as experiências vividas e imaginadas por ele próprio e seu círculo familiar em crônicas engraçadas, comoventes e plenas de significado. Experiências, causos e registros de um tempo pretérito que, na apresentação, o autor diz estar devendo aos filhos, netos e sobrinhos – e também aos leitores do seu blog, acrescento.

Nascido em Hulha Negra no início da década de 1950, o autor deixou a cidade com dois anos de idade com a família (pai, mãe e três irmãos) e só a relembra a partir das lembranças da mãe, dona Loracy. A mãe e o pai, por sinal, referências constantes no seu universo memorialístico e protagonistas de muitos episódios narrados. A família se estabelece em Bagé, em casa com enorme quintal, capaz de abrigar horta, árvores frutíferas e uma vaca, e o autor ali viveu até início da década de 1970, quando partiu para Pelotas, para realizar curso de Jornalismo.

Segundo o autor, suas histórias são as de muitas famílias modestas da região da Campanha. A trajetória de um pai (comerciário) e uma mãe (costureira) procurando o melhor lugar para criar os filhos, proporcionar-lhes educação formal e prepará-los para o futuro. Os “estudos” dos filhos como preocupação central da família – que o autor, caçula de quatro filhos, realizou como manda o figurino.

Famílias modestas que viveram as transformações da sociedade brasileira nos anos 50, 60 e 70, que o autor registra muito bem, utilizando-se de diversos índices. Às vezes, indicando um súbito movimento de mulheres que vêm atender os trabalhadores masculinos de polos de atividade econômica (a exploração de carvão, em Hulha Negra; a criação do Polo Naval, em Rio Grande). Às vezes falando de bens de consumo, como as “frigidaires” (geladeiras) e TVs que, nos anos 50 e início dos 60, apenas existiam nas “melhores casas” e aos poucos foram se difundindo por maior número de lares.

Talvez decorrente de sua atividade profissional (o jornalismo), o autor é atento aos meios de comunicação do período: a revistas Figurino e Jornal das Moças, que orientavam sua mãe (costureira) no atendimento às freguesas; os discos com histórias infantis para escutar na eletrola (O Pequeno Príncipe, com a voz de Paulo Autran e música de Tom Jobim); os noticiários de rádio Repórter Esso e Correspondente Renner, que mantinham a família sintonizada com o mundo; a difusão da televisão e a possibilidade de assistir a chegada do homem à Lua, o Ringuedoze Liguigás e a luta de Cassus Clay versus Joe Frazer. Vários elementos para narrar uma vivência infantil e familiar numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai.

E algumas indicações preciosas sobre mudanças de comportamento, como a indicada pelo modo como a mãe recebeu o marido, tarde da noite, após ele vir de uma visita ao cabaré local. A mulher ajeitou uns pelegos no chão, fora do quarto, e disse para ele: “Hoje tu dormes aqui”. Simples assim, sem maior escândalo, indicando a tolerância que as mulheres tinham (ou eram obrigadas a ter) em relação a certas exigências dos maridos.

Registrar memórias não é tarefa fácil. Requer linguagem e arranjos especiais dos episódios a serem narrados – e o humor é geralmente uma estratégia eficaz se usada com habilidade, como no caso das crônicas do livro. Claro que um pouco de imaginação e invenção são ingredientes essenciais, como bem reconhece o autor. “Eu minto muito, mas sempre mostro as provas”, ele afirma como bom admirador de Gabriel García Márquez, que cita na epígrafe do livro: “A vida não é o que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.

Recordar, reinventar – registrar memórias é tarefa que exige empenho.



[1] VAZ, Luiz Carlos. A história de Abel – crônicas & memórias. Pelotas: Ardotempo, 2021. 144 p.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

A Fonte da Barcaça

             Tenho o costume de folhear guias de museu e de viagem, enquanto tomo café. Outro dia, na mesa da cozinha, abri um guia de Roma e dei com a Fonte da Barcaça (Fontana della Bracaccia), bela escultura de uma barca afundada, encomendada pelo Papa Urbano II, no início do século XVII. Obra dos Bernini, o pai e o filho.

Fonte da Barcaça, na Praça de Espanha.

Os papas foram responsáveis por grandes obras na cidade e muitas existem até hoje. As fontes se destacam - a Fontana della Bracaccia e, especialmente, a Fontana di Trevi, mandada construir pelo Papa Clemente XII, no século XVIII.

Quando estive em Roma pela primeira vez estava num grupo de brasileiros e um colega se incomodou com a suntuosidade das obras patrocinadas pela Igreja. Havíamos acabado de visitar a Fontana di Trevi, eu estava deslumbrado, e ele se disse enojado com a riqueza dos papas. Olhei para ele espantado e comentei que “a opção preferencial pelos pobres nunca esteve na pauta da Igreja tradicional”. Não lembro o que ele respondeu.

Meu colega é descendente de família de imigrantes italianos (da Quarta Colônia) e imagino que foi criado com uma visão muito rude da Igreja. Dessa maneira, difícil entender que o alto clero católico sempre se comportou como príncipes e barões, voltados ao poder e ao luxo.

Nos Evangelhos há uma valorização da pobreza, mas essa nunca foi a preocupação central dos bispos e papas ao longo da História. E a Igreja que vamos visitar em Roma – a Basílica de São Pedro, os Museus do Vaticano – é justamente essa do poder e do esplendor, de um poder político que se expressa em obras artísticas magníficas, feitas para embasbacar os reles mortais. Obras de um poder sem freios como o de qualquer Estado que se propõe a disputar um lugar de destaque entre as nações.

Facilmente nos esquecemos que a construção da Basílica de São Pedro (a partir do século XVI) foi financiada com a venda de indulgências – um negócio pra lá de fraudulento (vender perdão divino para garantir a vida eterna) – e nem lembramos que Júlio II, o papa que chamou Michelangelo para pintar a Capela Sixtina, era também um general que comandava pessoalmente os exércitos papais em guerras de conquista (sendo muito exitoso, por sinal, quanto ao aumento territorial dos Estados Pontifícios). Uma Igreja venal, corrupta e militarizada.

Na década de 1960, o Papa Paulo VI (com a herança do Concílio Vaticano II a lhe pesar nas costas) chegou a se referir a uma mudança da Igreja em relação à riqueza e ostentação. Preocupou-se quanto ao modo crítico como o mundo observava a Igreja “com relação à pobreza e à simplicidade de viver” e pareceu dar prosseguimento às propostas estabelecidas pelo Vaticano II, mas não foi muito longe.[1] Difícil mudar uma instituição milenar que, mesmo com tantos vícios, foi e é plenamente exitosa do ponto de vista político e financeiro. Talvez nem o Papa Francisco consiga.

Mas essa crônica não é para dar conta da complexa história da Igreja. É apenas sobre uma das suas construções magníficas, a Fonte da Barcaça, na Praça de Espanha, no centro histórico de Roma. Reza a lenda que, numa das inundações do Rio Tibre, uma barca afundou no local e ali ficou encalhada. A escultura dos Bernini – de Pietro (o pai) e Gian Lorenzo (o filho) – concretiza essa lenda. Uma das tantas fontes da cidade. Belíssima. Hoje, no entanto, muitos turistas passam por ali e nem dão bola, deslumbrados que estão com as lojas de grife no entorno da praça: Dior, Valentino e outras, que nem lembro.

Vitrine da Dior, na Praça de Espanha.










[1] O trecho entre aspas faz parte de uma frase de Paulo VI, citada nas resoluções do Congresso de Medellin (1968), o congresso do episcopado latino-americano que pretendeu avançar quanto ao Concílio Vaticano II e instituiu a opção preferencial pelos pobres.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Plástico zero

             Não é exagero dizer que a maioria da população brasileira não se preocupa com o lixo – em especial com os resíduos plásticos, que tem sido uma das pragas de nossas praias. Anos atrás, assisti a um grupo de estudantes do Curso de Oceanografia (da FURGS) realizar uma coleta de lixo na praia do Cassino e me impressionei com o que eles juntaram. Pelo que entendi, além de lixo deixado por veranistas, era também material que a tripulação dos navios joga ao mar e as ondas trazem até a areia da praia.

No arquipélago de Fernando de Noronha, porém, esse cuidado com o lixo – em especial com o plástico – é alvo de preocupação extremada e desde abril de 2019 vigora um decreto que proíbe o uso de “plásticos descartáveis, como copos, pratos, canudos, sacolas, talheres e garrafas com menos de 500 ml”. Um decreto que deu origem a uma campanha denominada "Plástico zero".

No aeroporto, presenciei um funcionário chamando a atenção de um turista que desembarcava com sacolas plásticas e senti o vigor da campanha. O funcionário pediu que o visitante se desfizesse do material e senti que estava ingressando num espaço diferenciado do território brasileiro.

Mais tarde, na fala dos guias, no passeio ao Memorial Noronhense (que privilegia a história da Ilha, mas também reserva um setor para o lixo coletado nas praias e no mar), fui me dando conta de que o tema não é apenas preocupação das autoridades, mas é abraçado pela população em geral. Durante um passeio de barco no entorno da ilha, esse cuidado ficou bem explicitado.

Devido ao vento forte do alto mar, uma senhora perdeu a viseira de proteção solar e logo um tripulante do barco veio resgatá-la. A senhora disse que se tratava de um simples chapéu de praia e que ele não se preocupasse. Todos nós vimos a viseira boiar sobre as ondas do mar e acho que ninguém considerou que fosse importante retirá-la das águas. Mas o marujo, gentilmente, disse que era material estranho ao mar e que poderia causar dando a fauna e flora marinhas. A senhora ficou de queixo caído com as explicações (literalmente de queixo caído – era uma senhora muito divertida, com expressões e dizeres exagerados e engraçados) e concordou completamente com o homem.

A partir daí, todos nós assistimos ao marujo pegar uma vara com um gancho na ponta e “pescar” a viseira. Ele gritava para o condutor do barco manobrar, dar uma ré, colocar a embarcação próximo ao boné para ele alcançá-lo com a vara. Uma operação que realizou com muita calma e pleno êxito: a viseira foi apreendida pelo gancho da sua vara.

Cena do mar, durante o passeio.

Ao final, aplausos gerais e risos (para a "vara do marujo"). Uma aula de cuidados ambientais. Uma experiência digna da preocupação ecológica que domina o arquipélago e é abraçada tanto pelas autoridades quanto pela população local. Não é de graça que o local é considerado um paraíso.


Adendo: após escrever essa entusiástica crônica a respeito do preservacionismo ambiental em Fernando de Noronha, assisti a trecho de um vídeo de funcionário do Ministério do Turismo ironizando as preocupações do ICMBio quanto ao arquipélago (e provocando gargalhadas do auditório). Procurei mais informações e constatei que as orientações do ministérios do Meio Ambiente, da Agricultura (por meio da secretaria da pesca) e também da EMBRATUR são no sentido de reverter as políticas ambientais no arquipélago: liberar a pesca da sardinha (espécie-chave da cadeia alimentar da fauna marinha) e permitir a atracagem de cruzeiros com 600 passageiros, por exemplo. 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Viagem a Fernando de Noronha

 

A pandemia não terminou e me encorajei a atravessar o país e visitar a ilha Fernando de Noronha. Para um sujeito que encarou o isolamento social de forma radical, foi uma áfrica e tanto. Apresentei comprovação de vacinas para ingressar na ilha, segui os protocolos de segurança recomendados e deu tudo certo, isto é, apesar de vivenciar algumas situações de aglomeração (nos aeroportos), não houve contaminação nem preocupação excessiva. Até agora, tudo bem.

A opção pela viagem foi repentina e ainda me espanto com a decisão. No início de outubro entrei em contato com uma agente de turismo para obter informações sobre futura viagem (no próximo ano), ela me apresentou uma excursão a ilha e não resisti. Era a hora, uma oportunidade e tanto, e fui. Cinco dias na ilha. Voltei ontem de madrugada.

A chegada no aeroporto de Fernando de Noronha.

Não imaginei fazer esse preâmbulo para narrar uma viagem. Quando iniciou a pandemia, pensei que seria por curto período de tempo e logo a normalidade seria recuperada. Doce ilusão. Volto às atividades normais com o vírus ainda disseminado, causando mortes, com a vacinação lenta (no Brasil, ainda não foi alcançado 70% da população, que entendi ser o mínimo para uma situação segura) e tem sido um exercício e tanto encarar essa situação.

Sentado numa cadeira na Praia de Santo Antônio, depois de um banho num mar de águas límpidas e calmas (tendo ao fundo o porto da ilha), fiquei pensando em como faria o registro da viagem... Uma viagem de turismo em tempos de peste. Os números relativos às contaminações, doentes e mortos em queda no País, mas ainda uma situação que requer cuidados especiais, segundo às autoridades médico-sanitárias sérias (Conselho Federal de Medicina fora, pois está atolado no bolsonarismo).

Naquela tarde, estirado numa cadeira de praia, eu estava exaurido pelas trilhas e passeios (de barco inclusive, com direito a flutuar no mar e olhar os peixes por meio de máscara) e procurava reunir as impressões da viagem. Os cenários paradisíacos, o aspecto bucólico das vilas (com 6 mil moradores no total), os relatos dos habitantes, as experiências vividas.

Praia de Santo Antônio com o porto ao fundo,

Quanto ao relato dos moradores, escutara pontos de vistas diversos em relação a viver na ilha. Segundo Carlinhos (um divertido guia de passeios), Fernando de Noronha é um lugar tranquilo, sem registro de violências como roubo, assalto e assassinato, e só isso justifica a satisfação em viver no local. Ele é natural da ilha e ali fez a sua vida, desde cedo envolvido com turismo. Só se assustou no ano passado, quando a pandemia interrompeu o fluxo de viajantes e criou uma situação desesperadora (que se normalizou a partir do final do ano passado).

Um motorista de táxi, no entanto, me disse que a tranquilidade da ilha tem um preço alto: custo de vida caro, com gasolina (neste início de novembro) a R$ 9,60. Relato ampliado por uma vendedora, numa loja: local tranquilo, sim, mas tedioso. “Só trabalho e praia”, ela disse, de modo desanimador. E concluiu não ver a hora de voltar a morar em Recife (cidade em que nasceu). Ela e o marido estão ilha só para fazer um pé de meia, explicou. Ilha tranquila, cara, mas com alternativas de ganho financeiro.

Seria a ilha um cenário paradisíaco apenas para os turistas? Pergunta que não arrisco responder. Sou um turista e vejo a ilha desta perspectiva. Sempre entendi as áreas portuárias como locais de muita sujeira e me espantei ao tomar banho próximo aos navios ancorados, como fiz nessa prainha chamada Santo Antônio. As águas são cristalinas (com água pelo pescoço, enxerguei meus pés) e me espanto com os cuidados em relação ao lixo. Tema para outros textos desse cronista que está se arriscando a sair de casa e habituando-se aos novos tempos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Breve "verão" da militância (1978-79)

            A reforma partidária proposta oficialmente pelo Governo Figueiredo, no primeiro ano do seu governo, foi vista com surpresa por muitos de nós, jovens que abriram os olhos para a política ao longo dos anos 70. Uma surpresa positiva. Uma possibilidade instigante. O bipartidarismo era uma artificialidade completa – coisa de governo autoritário – e precisava ser extinto.

Mas o tema se colocou para mim antes da proposta oficial do Governo. Em meados de 78 (ainda no Governo Geisel) o jornal Versus propôs e festejou a ideia de um Partido Socialista. Creio que até o Fernando Henrique Cardoso estava entre os que apoiavam a ideia – mas isso preciso conferir. Hoje, essa memória me parece absurda.  

FHC, naquele tempo, tinha enorme credibilidade entre os intelectuais de esquerda e sua obra sociológica (a Teoria da Dependência inclusive) era lida e respeitada. Seus livros constavam na bibliografia dos cursos de Ciências Humanas e, no Curso de História da UFRGS, recordo que alguns de seus títulos constavam entre as leituras obrigatórias das disciplinas de História do Brasil e História da América Latina.

Mas a ideia de um Partido Socialista anunciada pelo Versus foi apenas um cometa que passou no céu da pátria, naquele instante. Logo foi superada por outras propostas político-partidárias. A lembrança que eu tenho é de que tudo mudava rapidamente naquele final de 78 e início de 79. Em janeiro ou fevereiro o jornal Em tempo fez uma reportagem sobre o tema e penso que ali já estava colocada a ideia de um partido dos trabalhadores, nascido do novo sindicalismo paulista. O jornal Movimento expressava uma certa desconfiança em relação ao Lula e as coisas iam por aí.

Nesse mesmo verão recebo o convite de um amigo (Adeli Sell) para participar de uma reunião sobre o assunto. Uma reunião numa das salas do Teatro de Câmara, na Rua da República, em Porto Alegre. A ideia, se não me falha a memória, era de criar um partido classista, um partido da classe operária e fiquei pensando se essa proposta ainda era cabível, tendo em vista as mudanças do capitalismo, a diminuição quantitativa do operariado industrial e coisas assim. Um questionamento bem próprio de quem era formado em História e estudara sobre as mudanças da economia e sociedade capitalistas, como era meu caso.

E aqui cabe um registro de como eu me inseria no mundo, na época. Em janeiro de 1979, eu era um jovem de 23 anos, que se formara em História pela UFRGS, em 1977,  lecionava no Grupo Escolar Júlio Cézar Ribeiro de Souza, em Alvorada, e trabalhava na Rádio Capital, em Porto Alegre (na função de rádio-escuta). O ingresso no Magistério Estadual (na condição de contratado, 12 horas) se dera por indicação de um “pistolão” (um vereador da ARENA, Rafael Santos, amigo da minha família) e isso não me incomodara. Com o cartão do vereador eu fora na Delegacia de Educação de Gravataí e, na mesma tarde, saíra com o “fono” para a escola de Alvorada. Acho que foi assim.

Nessa época, não tinha experiência política partidária (como não tenho até hoje) e todo meu contato com o tema se dera após o ingresso na UFRGS, em 1974. Cursara o colegial no Julinho (Colégio Júlio de Castilho, em Porto Alegre) e nesse período (1971-73) o grêmio estudantil estava fechado e todo o passado de agitações políticas da escola era ignorado pela estudantada. Que tempos estranhos aqueles! Na Universidade, entrei em contato o movimento estudantil, por meio do Diretório Acadêmico dos Institutos Unificados (DAIU), acompanhei com entusiasmo os debates político-ideológicos do período e me tornei um leitor assíduo dos jornais Movimento, Versus e Em tempo.

Na Rádio Capital (onde comecei a trabalhar naquele verão de 79), fui convidado por uma colega jornalista (Neusa Ribeiro) a participar das reuniões do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP) e essa foi minha única experiência de participação num grupo político. Mas não fui longe. Não passei de um tarefeiro que levava o jornal da organização (O Companheiro) para vender na escola e em eventos políticos, como no 1º de Maio de 1979. No caso desse 1º de Maio, um ato político num campo da Zona Norte de Porto Alegre, no qual havia mais vanguarda e policiais do que trabalhadores. Tentei vender um jornal para um sujeito que me pareceu ser um “rato”, mas ele não quis. Vendi pela metade do preço um exemplar para um vendedor de amendoim (um sujeito que lia com dificuldade as manchetes do jornal) e essa é a melhor lembrança.

A organização tinha reunião todos os sábados à tarde e, na metade do ano de 79, interessou-se pelo movimento que organizava o futuro Partido dos Trabalhadores. Eu participei de algumas reuniões nesse sentido e foi uma experiência curta. Não aguentei muito tempo.

Não recordo a posição do MEP em relação ao novo partido, mas penso que, de modo geral, a organização se colocava como uma tendência independente, muito crítica em relação às posições moderadas (não revolucionárias) que pareciam ser dominantes no novo partido. Pouco a pouco, porém, fui simpatizando com o tom da esquerda petista, distante do marxismo-leninismo que orientava o MEP. Mas não sei propriamente quando isso se deu, isto é, quando tomei consciência disso. Provavelmente foi muito depois.

Na época, o que havia era empolgação. Muita discussão, conversas de horas à fio, e pouca leitura realmente atenta dos tantos textos, análises, abordagens diversas e conflitantes. No meu caso, faltava competência e maturidade. Eu lia e interpretava tudo à luz do meu raso conhecimento de História e marxismo e era difícil chegar a alguma conclusão. Me sentia no olho do furacão, com o sentimento de estar vivendo um momento importante do Regime Militar: o da sua derrocada (ou, pelo menos, era assim que eu percebia a conjuntura). E estava feliz por isso. Eu era jovem, achava que o mundo poderia mudar e que um partido que se propusesse a defender a pauta dos trabalhadores era tudo que a sociedade brasileira precisava.

E, assim como mantinha contato com a esquerda radical, tinha conhecimento pessoal também da esquerda moderada alojada dentro do MDB. Recordo que essas pessoas entendiam que não era hora de se desfazer da grande frente política que era esse partido, pois isso só enfraqueceria a oposição. Opinião, claro, que eu ignorava solenemente. Entre essas pessoas, mais tarde, vim a saber que algumas eram vinculadas aos partidos comunistas (PCB e PCdoB) e isso me faz concluir (hoje) que eu pouco entendia da vida real da política brasileira. Era um jovem professor e ainda vivia o clima eufórico muito comum aos estudantes. Me faltava senso de realidade e eu procurava compensar isso me entrosando com as atividades do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS). Através do CPERS, eu pretendia uma experiência mais concreta do mundo do trabalho e, dessa maneira, uma superação do meu idealismo. O mundo da política partidária me parecia muito difícil de compreender e o mundo do trabalho, algo mais tangível.

Nesse contato com os integrantes do Magistério Estadual, recordo que conheci o professor Clóvis Oliveira, fui a uma reunião no seu apartamento, e me impressionei ao ouvi-lo dizer que a classe operária brasileira já tinha o seu partido e que o PT não iria substituí-lo. Talvez não fossem essas as suas palavras, mas recordo que o novo partido não lhe interessava. Os trabalhadores já tinham a sua organização partidária.

É dessa forma que lembro as coisas daquele período. Não há precisão nessa memória. Eu era um tarefeiro do MEP e nunca formalizei o meu ingresso na organização. Acho que integrava a organização de um modo um pouco irresponsável, sem vínculos formais, sem um compromisso mais forte.

Um dia, participei manhã e tarde de uma plenária do futuro PT (no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora de Pompeia, em P. Alegre) e a experiência foi definitiva. Na véspera, no sábado, passara a tarde inteira discutindo com meus companheiros do MEP a respeito da posição da organização em relação ao novo partido e foi com essa orientação que fui para a plenária. Era uma posição bem fechada, exigindo que o novo partido se comprometesse com uma perspectiva obreira, com o socialismo e uma futura agenda revolucionária. Quando chegou no domingo, assisti os dirigentes da organização arrefecerem suas posições para conquistarem algum lugar nas comissões que eram formados.

Saí da reunião cansado, com dor de cabeça, chateado com o que assistira e me esforçando muito para compreender. Pragmaticamente, entendia o que os dirigentes da organização haviam feito – mas tinha dificuldade de aceitar. Teoricamente, as coisas não se encaixavam e eu não sabia como conciliar a visão revolucionária do MEP com o pragmatismo político das principais lideranças (sindicalistas, na maior parte) do novo partido. Mas não sei se eu colocava o assunto nesses termos. Possivelmente não. Levei anos pensando sobre isso e acho que esse foi um dos assuntos que pautaram o PT até os anos 90: a difícil relação entre as tendências revolucionárias e a direção partidária, mais moderada.

No entanto, o que me incomodava mais é que gastara o final de semana inteiro nessa atividade política e não sabia se era isso que queria para a minha vida. Uma semana de trabalho me esperava – aulas no grupo escolar pela manhã, jornadas das 18 às 24 horas na Rádio Capital – e eu estava cansado depois daquela plenária. Exaurido. Daria o meu couro para a política partidária?, para uma prática política na qual eu era atropelado, não compreendia direito? Essas eram as questões.

Devo acrescentar que nesse mesmo final de 1979 conhecera uma moça, estava apaixonado e logo começamos a fazer planos de morar juntos, de casar oficialmente inclusive (o que ocorreu em fevereiro de 81). Estava, então, sob o signo da paixão e tudo mais foi se tornando secundário. Centrei minha atividade no trabalho, na vida prática, e logo tive uma surpresa: fui demitido da Rádio Capital. Não conseguiria me sustentar apenas com o contrato de 12 horas no Magistério Estadual e precisava de outra atividade. E o problema, mais uma vez, foi resolvido por meio de pistolão: minha madrinha tinha uma amiga na Delegacia de Educação, em Canoas, e essa funcionária conseguiu um novo contrato numa escola próxima à Vila Mathias Velho. Mais uma vez fui trabalhar na periferia de Porto Alegre.

Dessa maneira, dei uma basta na minha experiência político partidária. Deixei o MEP (nem recordo o que conversei com meus antigos companheiros) e decidi que voltaria minha atenção para o campo sindical, o CPERS (que naquele tempo ainda não era sindicato) – um campo muito mais fácil de compreender e atuar.

          De certa forma, foi uma atitude individualista: me voltei para a vida privada, para a vida mais concreta, tangível. O mundo político partidário era demais para mim. Acompanhei de longe a fundação do PT e confesso que gostei do modo como o partido se apresentou: sem os signos da esquerda tradicional (sem referências a Marx e Lênin nos documentos oficiais) e se colocando aberto para discutir os rumos da classe trabalhadora e, inclusive, a questão do socialismo. Um socialismo que, me parece, ainda é um projeto daqueles que se alinham ao campo do Trabalho – um projeto que não está fechado, um sonho talvez, mas um sonho que ainda vale a pena ser sonhado.

Obs.: esse texto foi escrito a pedido do meu amigo Adeli Sell e está incluído no seu livro "Memórias do PT gaúcho - vol. 1" (PoA, Ed. Documenta, 2021).