Aos 16 anos senti, pela primeira vez, o que era
estar apaixonado. A guria tinha 19 anos, se preparava para o vestibular, e me pareceu deslumbrante. Inteligente e vivaz. Com ela tive os primeiros amassos e senti o que
era excitação sexual. Que coisa surpreendente e maravilhosa! Mas jamais
passamos dos abraços, beijos e carícias. Um namoro que durou pouco mais de meio
ano.
Num final de semana fomos a um baile (no salão de
uma paróquia) e talvez tenhamos bebido demais, isto é, passado dos dois copos
de Coca-Cola com rum cada um. De repente ela sumiu e eu soube que as irmãs dela
acharam que ela estava dando vexame e a levaram para casa. Uma delas falou
comigo e insinuou que eu não era boa pessoa. Eu ultrapassava os limites da
intimidade (amassos além da conta) e, para completar, exagerava na bebida.
Eu não me despedi da namorada e sai do baile para
bater pernas sozinho pela rua. Vale destacar que era 1971 e caminhar em Porto
Alegre de madrugada não oferecia riscos. Eu tinha o costume de andar pela
cidade durante a noite e creio que foi aí que me dei conta de que a sexualidade
era um “campo minado”. Sim, nesses termos. Era preciso tomar cuidado. Cada
gesto ou atitude precisava ser dado dentro das regras, caso contrário se pisava numa
bomba.
Um campo difícil de percorrer, esse da sexualidade.
A mãe da guria ensinava para as filhas que sensualidade era luxúria, pecado, e
não convinha a uma menina de família se entregar a esses “instintos”. Minha namorada
não concordava, não era o padrão que pretendia seguir, mas não conseguia se
contrapor à mãe.
Na sequência, fui dispensado (“A mãe acha que tu
não serves para mim”, ela me disse) e logo encontrou um namorado equilibrado
que, pelo que entendi, a tratava de modo convencional, dentro do estilo “pra casar”. Sem amassos nem bebida além da medida, imaginei.
Engraçado, lembro disso e associo com o que conheci
anos depois a respeito de nossos hábitos e costumes (em especial na região
campeira): a rispidez masculina na hora do sexo e o tormento das mulheres incomodadas com
essa violência. Mulheres que cresciam num ambiente onde os homens faziam sexo
de modo brutal (rasgando a roupa da noiva na primeira noite de núpcias, impondo
seus “direitos de esposo”) e se habituavam à
histórias de namoradas, noivas e casadas que eram abusadas, até estupradas. Muitas vezes
suas irmãs, mães e tias, que se digladiavam com seus respectivos, às vezes cediam de má vontade, outras vezes não.
“Tu estás fedendo a bebida”, a esposa falava. “Ao menos toma um banho, pra tirar
essa graxa”, pedia outra. Ou, simplesmente: “Não, agora não”.
Um contexto cultural (sempre difícil de ser enfocado) no qual o sexo era terreno perigoso, seja porque fosse “pecado”, seja porque tivesse de ser realizado sem muito diálogo e consentimento. Experiências que colaram na vida de muitas mulheres e as marcaram até a maturidade e velhice, sem que muitas conseguissem se libertar desses fantasmas. O desejo sexual e em especial a sua prática transformados em verdadeiras bombas, tal qual como eu imaginara/pensara naquela noite em que levaram a minha namorada e me deixaram sozinho no baile. Um explosivo que feriu nós dois e produziu ferimentos distintos, que eu nunca soube dimensionar.