segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Búfalos, jacarés e araras

Na Amazônia, a presença da natureza é enorme e as referências aos búfalos, jacarés, pirarucus, tucanos e araras são uma constante. Faz parte do roteiro turístico o contato com esses animais e tive a impressão de que eles estão ali, bem próximos de seus habitantes. Não apenas nos parques (o Parque das Garças, em Belém; o Museu Sacaca, em Macapá; o Jardim Botânico, em Manaus), mas também nas florestas que cercam as cidades, nas fazendas, criatórios de peixes, comunidades indígenas e outros. Uma riqueza da região, um dos seus cartões postais.

Em Belém, peguei uma embarcação de transporte de passageiros (devidamente refrigerada com ar-condicionado, por sinal muito refrigerada) e naveguei duas horas até a cidade de Soure, na Ilha do Marajó. Entre os atrativos locais, os famosos búfalos, que tanto avistei dentro da água (na cena clássica apresentada nos livros didáticos de Geografia) quanto numa fazenda voltada à produção de leite, muito dóceis para o toque dos visitantes, assim como nas ruas da cidade, servindo de montaria aos policiais. Não assisti esses policiais em ação, mas pelo modo deles se referirem aos animais fiquei convencido de que funcionam... para o patrulhamento nas áreas urbanas e rurais.

Búfalos como montaria para patrulhamento policial, em Macapá.

Em Manaus, fiz um passeio ao anoitecer pelo Rio Negro (devidamente untado de repelente para enfrentar a nuvem de mosquitos que me cercava) e assisti o guia paralisar pequenos jacarés com a luz da lanterna sobre seus olhos, pegá-los com as mãos e exibir aos turistas. Uma cena desconcertante para um urbanóide como eu, mas nem por isso menos fascinante. Tanto fiquei na expectativa do animal ser encontrado e exibido, quanto aliviado ao vê-lo ser recolocado dentro da água e retomar a vida normal.

Curiosos, por sinal, esses sentimentos de turista. Tanto a expectativa pelo mundo selvagem sendo revelado (o jacaré retirado das águas), quanto o desconcerto da cena (o mundo natural conspurcado) e o alívio quando o animal é solto. Emoções que dão colorido a uma excursão num território de natureza exuberante e até geram discussões acaloradas quanto às formas corretas de “explorar a natureza”.

Pirarucus eu avistei tanto no lago de um museu que recria o universo ribeirinho (o Museu Sacaca, em Macapá), quanto num criatório de peixes nas margens do Rio Negro. Peixes enormes, dos quais se aproveita tudo (a língua, a pele, etecétera) e tive o privilégio de apreciar num sofisticado prato chamado “Lâminas de pirarucu”.

No entanto a chave de ouro desse encontro com animais foi uma arara de enorme cauda vermelha avistada dentro da enorme oca de uma comunidade indígena, na qual recém fora apresentado uma série de rituais indígenas. Rituais concentrados em poucos minutos, bem entendido, pois bem se sabe que a ritualística indígena dura horas, às vezes um dia inteiro ou mais. (Indígenas tem outro modo de conceber o tempo, eles mesmo explicam. Eles não têm a pressa que nós temos.)

Arara na parede de uma oca indígena, numa ilha do Rio Negro.

           Pois assisti ao espetáculo, comprei umas peças de artesanato e, quando me retirava, avistei o animal andando pelas paredes da oca. Foi um momento de deslumbramento e fotografei o animal com meu celular, apressado, com medo de que ele saísse voando. Um desses momentos de êxtase, nervosismo, e talvez a síntese das belezas da região. Um animal de beleza estonteante, o mais lindo que eu vi. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Salvar a Amazônia

 

O livro de um jornalista inglês me acompanhou durante a recente viagem ao Pará, Macapá e Amazonas. Obra de um inglês que se enamorou pela floresta amazônica, se preocupou com a sua devastação e procurou soluções. Trata-se de “Como salvar a Amazônia”, de Dominic Phillips, assassinado no estado do Amazonas, junto com o indigenista Bruno Pereira, em 2022.[i] Os dois estavam envolvidos na defesa do território indígena do Vale do Javari e foram mortos por invasores dessa área. Como Dominic (ou Dom, seu apelido) era um estrangeiro branco, sua morte teve repercussão internacional e a polícia foi obrigada a se mexer. O crime foi desvendado, os assassinos presos, ao contrário do que geralmente ocorre na região. Dom deixou o seu livro incompleto e os amigos o concluíram a partir de suas anotações. Um conjunto de artigos de denúncia e de escuta de diferentes setores da população amazônica com o propósito de encontrar soluções para a devastação ambiental, com destaque para os povos indígenas pois o autor entendia que estes possuem as melhores propostas já que convivem com a floresta há séculos, adaptando-se a ela e também a moldando (segundo o novo paradigma para a compreensão dos povos originários).[ii]

Embarcação típica da Região Amazônica.

Eu li o livro no hotel, intercalando-o com os passeios. Era uma viagem turística, mas a dona da agência (antenada para as questões ambientais) colocara no roteiro locais que remetem à luta travada na região, isto é, aos projetos de economia sustentável (bioeconomia, agroflorestas) que se contrapõem ao modelo econômico predatório hegemônico. Uma hegemonia que está longe de ser prerrogativa da região e apenas reflete o que é dominante no país e no mundo. No caso da Amazônia, porém, com a sua floresta entendida como central para o equilíbrio climático do planeta, a devastação ambiental ganha contornos dramáticos. A rigor, porém, não menos dramática que a devastação das matas no Vale do Jacuí, aqui no Rio Grande do Sul, que favoreceu o acúmulo das águas das chuvas no Lago Guaíba (maio de 2024) e, dessa maneira, a catastrófica enchente da cidade de Porto Alegre.

Lancha utilizada nos passeios em torno de Belém.

Com essas caraminholas na cabeça eu andei de lancha pelos rios e canais do entorno de Belém (na ilha do Combu e adjacências), junto com meus colegas de excursão, visitando polos de produção de chocolate assim como a casa de uma família de guardiões da floresta. O cultivo do cacau (planta nativa) é visto como uma alternativa aos cultivos predatórios (como o de soja) e há vários empreendimentos de ecoeconomia explorando esse novo vetor. Comprei e comi chocolate de diferentes qualidades e constatei a pujança do negócio. Não sei se capaz de deter a força do agronegócio predatório, mas certamente uma alternativa para a população ribeirinha.

Mais adiante andamos pela mata, conhecemos a samaúma (ou sumaúma, a rainha-mãe das florestas) e ouvimos aqueles que assumiram o compromisso de preservar a flora e a fauna locais. Desse jeito urbanóide que tenho (com o corpo untado de repelente contra insetos) presenciei um rapaz descascar castanhas de modo tradicional e passar pedaços para que nós a comêssemos junto com o papagaio da casa (numa confraternização semelhante a de uma roda de chimarrão). Vi a aranha caranguejeira que ele apresentou na palma na sua mão, me assustei feito um guri e constatei a enorme distância que me separa desse universo ribeirinho com o qual mal consigo interagir, apesar da enorme curiosidade a respeito.

Ribeirinhos guardiões da floresta limpando castanhas para oferecer aos visitantes.

Seja como for, lá estava eu, encantado com o que via: o modo “como os ribeirinhos manejam recursos da natureza para empreender, produzir alimentos e cuidar da saúde” (conforme texto do folder da fábrica de chocolate Aroma do Combu, um dos locais visitados). Se contasse isso para minha mãe (a vivência com os ribeirinhos e as minhas divagações a respeito das questões ambientais que afetam o planeta), ela certamente me diria pra largar de mão dessas “minhocas” e comesse chocolate. Apreciasse os diferentes tipos de chocolates, que, por sinal, são excelentes.



[i] DOMINIC, Phillips; e outros autores. Como salvar a Amazônia: uma busca mortal por soluções. SP: Cia. das Letras, 2025. 380 p.

[ii] Para a compreensão desse novo paradigma, ver os estudos do arqueólogo Eduardo Góes Neves, citado pelo autor: “Em vez do conceito colonial (...) que via a Amazônia como uma área selvagem escassamente povoada, a reconstituição de Neves revela sociedades complexas que criaram uma infraestrutura natural e uma floresta diversificada que foram muito mais influenciadas pelos seres humanos do que pensa a maioria das pessoas” (p. 343).

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Fortificações coloniais

 

Fui professor de História no antigo 1º Grau, atual Ensino Fundamental, e ministrava aulas sobre a colonização portuguesa na América. Muitas vezes rascunhei o litoral brasileiro no quadro-verde e apontei os principais locais de invasões francesas e holandesas no Rio de Janeiro e Nordeste. Sobrava pouco tempo para abordar as incursões militares na Região Norte e eu apenas indicava que o controle desse território fora de grande preocupação para a Coroa portuguesa. Ingleses, holandeses e franceses andavam na área e estavam de olho nas chamadas “drogas do sertão”. Lisboa mandou construir várias fortificações e duas delas eu visitei na recente viagem à Amazônia: o Forte do Presépio, em Belém, e a Fortaleza de São José, em Macapá.

O Forte do Presépio foi erguido em 1616, no rastro da luta contra os franceses recém expulsos do litoral do Maranhão e foi o primeiro marco de ocupação oficial portuguesa na Amazônia. Uma construção de madeira e palha realizada com auxílio do povo tupinambá que morava no local. (Interessante imaginar como os portugueses conseguiram o apoio indígena para a sua empreitada...) O forte passou por modificações, ganhou muralhas de pedra, fosso, portal suntuoso de entrada e hoje é um museu. Museu do Encontro, indicando pelo título a intenção atual de valorizar o congraçamento dos diversos povos que formaram a nossa sociedade. Uma tentativa de romper com a glorificação colonial. Na foto abaixo, a cara atual da fortificação com canhões ingleses do século XIX.

Forte do Presépio, em Belém do Pará.

Forte do Presépio, com destaque para o portal de entrada e fosso.

Já a Fortaleza de São José foi construída no final do século XVIII (1762-82), nas margens do Rio Amazonas, e consta como uma das maiores da América portuguesa. O guia que acompanhou o nosso grupo acentuou a participação indígena e negra na construção (colocando a liderança portuguesa em segundo plano) e disse que os canhões nunca foram utilizados militarmente. O objetivo da construção era intimidar os inimigos e este propósito foi alcançado: nenhum deles arriscou atacar.

Edificações militares costumam fazer parte de roteiros turísticos e é interessante registrar que a visita a esses locais às vezes causa certo desconforto. Afinal são locais que recordam conflitos armados e, no caso dessas fortalezas, a expansão colonial de um reino europeu arrogante, ganancioso e violento: Portugal. Reino que se deu a liberdade de dominar as terras indígenas, os converter à religião católica e também os escravizar. Não satisfeitos com isso, um reino que trouxe escravos da África e recriou a escravidão, transformando-a num dos comércios mais lucrativos entre os séculos XVI e XIX. Mas, seja como for, criou as bases econômicas, sociais e políticas sobre as quais nos constituímos como Nação.

Forte de São José, em Macapá.

Portal de entrada do Forte de São José.

Pra quem gosta de História, sempre um atrativo estimulante visitar esses locais emblemáticos da conquista colonial. A guerra é um dos temas tradicionais da historiografia (aí estão Heródoto e Tucídides que não me deixam mentir) assim como do cinema, como bem evidencia a recente versão da “Odisseia”, de Christophen Nolan. A Região Norte foi um território de disputa e no início do século XVII ingleses e holandeses fundaram fortins e feitorias na área (na foz do Xingu e na região dos tucujus, para citar alguns locais) e exigiram aplicado esforço militar da Coroa Portuguesa.[i]  Os fortes de Belém e de Macapá são pálidas lembranças dessas lutas. Não foi sem suor, sangue e lágrimas que se estabeleceu a tal Civilização Ocidental por aqui.



[i] VIANNA, Helio. História do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1970. Obra da historiografia tradicional, com farta informação política, administrativas e militar, muito recomendada nos anos 1960 e 70. Livro de consulta obrigatória para um estudante interessado em História, naquele tempo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

No cais de Belém

 

Estive em Belém do Pará duas semanas atrás. Quando cheguei na beira do cais, olhei aquela enormidade de água e fiquei surpreso ao saber que aquilo não era o Rio Amazonas. Estava numa excursão de gaúchos e o guia local nos explicou que a cidade é banhada pela Baía de Guajará e o famoso Rio Amazonas se encontra muito longe dali. Só depois, examinando um mapa, descobri que para alcançá-lo por via fluvial seria necessário contornar a Ilha de Marajó por centenas de quilômetros (cerca de 517, segundo o Google).

O cais tradicional de Belém, com o Mercado Ver-o-Peso
e as águas da Baía de Guajará.

Constatei que meus conhecimentos de geografia não eram grande coisa, apesar do entusiasmo com que estudei Geografia no Ginásio (o Ensino Fundamental, nos anos 1960). O professor ministrava as aulas em cima de um estrado, colocava um mapa do Brasil em frente ao quadro (preso em um pequeno prego) e soltava o verbo a respeito da riqueza hidrográfica da Região Norte, a extensão e o volume das águas do Rio Amazonas, as suas centenas de afluentes, e não exagero ao dizer que eu navegava por aqueles rios... Os afluentes da margem esquerda, o Rio Negro, Japurá e Trombetas; os afluentes da margem direita, o Madeira, Purus, Tapajós e Xingu. O assunto era cobrado nas provas de final de mês e não lembro de ter saído mal.

Observando aquela imensidão de águas banhando a cidade, no entanto, eu precisei reorganizar meus conhecimentos. “Rever os conceitos”, como se diz. Não achei fácil entender aquele emaranhando de caminhos fluviais. Mas fui aprendendo. No segundo dia em Belém, estava numa lancha em direção à Ilha de Combu, e, no terceiro, em direção a Ilha de Marajó. Baías, lagoas, rios e igarapés foram se apresentando diante meus olhos e estabeleci um diálogo não só com a paisagem circundante, mas também com o ginasiano que eu fui, um estudante que decorava o nome dos afluentes do Rio Amazonas e achava que estava sabendo tudo a respeito da Região Norte.

Esse território era tema de conversa entre meus amigos e seu exotismo certamente era o que nos atraia: a floresta exuberante, com árvores grandiosas, a fauna muito rica, os rios majestosos e a quantidade de indígenas que ainda mantinham o padrão de vida tradicional (ao menos segundo as informações da época). Um amigo viera fazer trabalho religioso no Pará (em 1969, numa missão da Igreja Católica) e voltou com muitas histórias. Nós, a gurizada, nos sentávamos ao redor dele e o escutávamos contar a respeito de uma população que vivia em palafitas na beira dos rios, se locomovia exclusivamente de barco, pescava peixes enormes, caçava jacarés, adentrava a mata fechada, caçava macacos (comia carne de macaco) e vivia de uma maneira muito diferente daquela que nós experimentávamos no espaço urbano de Porto Alegre.

Caminhando na beira do cais, tanto nas docas renovadas e transformadas em bares e hotel sofisticados, quanto no espaço mais popular das imediações do Mercado Ver-o-Peso, senti a imensidão do complexo amazonense. A Baía de Guajará e as instalações portuárias de Belém como uma espécie de amostragem da região. “Temos várias Amazônias”, nos avisara o guia local, anunciando que estávamos só no início de uma excursão que ia nos revelar outras faces da região, em Marajó, Macapá, Alter do Chão e Manaus. Um universo bastante diversificado, assunto para muita conversa, um desafio para transformar em crônica.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Valquíria, que se tornou personagem

 

Meu amigo Eugênio batia a mão na mesa da cozinha e dizia que não confiava nas mulheres. Nós tínhamos acabado de comer uma massa que nós mesmos preparáramos, eu bebera meia garrafa de vinho e ele, que jamais bebia álcool, apenas sentira o buquê, girando a taça debaixo do nariz como se fosse um grande conhecedor. Ele gostava dessas bossas.

Nós costumávamos nos encontrar em seu apartamento para fechar alguns assuntos profissionais (éramos colegas na Universidade) e terminávamos encompridando a prosa, jantando e falando da vida, das nossas histórias e do modo como entendíamos o mundo. Ele, muito categórico nas suas opiniões, batia com a mão na mesa, e eu, para não polemizar, vazia o gênero contemporizador:

– Ora, Eugênio, não dá pra generalizar.

– Olha a Valquíria – ele exemplificava. – Ela é casada, o cara sustenta a vigarista, os dois filhos que tiveram juntos, e ela anda comigo na maior tranquilidade. Arruma um jeito de deixar os guris atendidos e até vem aqui em casa, dar pra mim. Diz que o marido é um chato, come ela muito mal, é um grosseirão, mas vive às custas do rapaz. Um corno que lhe garante uma vida confortável e ela nem pensa em largar o osso. Tu achas que eu confio numa mulher dessas? Uma mulher como tantas, podes crer.

Essa é uma conversa de mais de vinte anos, meu amigo já morreu, e eu lembro dessa história na saída do cinema, depois de assistir “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, no qual uma mulher entediada traí o marido durante umas férias numa praia ao sul da França.[1] O marido não a trata mal, apenas a relação não vive um bom momento, não a empolga, e ela está de saco cheio, se chateando na beira do mar. Então aparece um bonitão, se interessa por ela e os olhinhos da moça se acendem. O marido percebe o caso, mas não faz drama. Encara o fato como passageiro e, provavelmente, porque também não se sente autorizado a cobrar fidelidade da esposa. Ele já a traiu algumas vezes.

Lembrei do Eugênio falando da Valquíria (ela foi minha aluna), pois imagino que se passava com ela algo semelhante ao que acontecia com a personagem do filme. Valquíria estava chateada com a vidinha de mulher casada que levava, meu amigo cruzou o seu caminho, jogou uma isca e ela mordeu, isto é, topou a parada.

– Acho que as mulheres não são piores que os homens nesse quesito da fidelidade – eu falei naquela oportunidade, encompridando a conversa.

Lembro que o caso entre meu amigo e Valquíria durou alguns meses, depois a relação esfriou, cada um seguiu a sua vida, e ela continuou casada, claro. O marido nem deve ter desconfiado (não era um francês esperto e liberado como o personagem do filme) e na certa seguiu no mesmo tranco com a mulher, isto é, tratando-a do mesmo jeito, sem muita delicadeza, sem a atenção que ela desejava.

Eugênio e eu repassamos outras vezes essa história durante nossos jantares, pois Valquíria era uma mulher bonita, esbanjava charme e sabia o valor dos seus encantos. Para mim se tornou uma personagem (nem sei mais se seu nome era Valquíria mesmo) e poucos anos atrás encontrei-a numa livraria comprando os romances do vestibular para um dos filhos. Conversamos sobre livros e leituras de adolescentes, mas fiquei com vontade de perguntar se ela ainda se sentia maltratada pelo marido e fazia essa conversa com possíveis amantes...

Uma personagem, essa encantadora Valquíria. Fazia parte do repertório das conversas com meu amigo Eugênio e servia para desenvolvermos nossas ideias a respeito do mundo, das relações e das mulheres. Ele não tinha dúvida quanto à “perversidade do mulherio” e eu ponderava se isso tinha fundamento ou não. Mulheres não são piores nem melhores que os homens, eu afirmava. E assim gastávamos nosso tempo, ríamos, divagávamos, sem chegar à conclusão alguma.



[1] “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, direção de Matthieu Rozé, baseado em romance homônimo de Marguerite Duras. França, 2021, 104 min.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Pedro Brum Santos

 

Quando meu amigo Pedro Brum Santos faleceu, lembrei dele no café da manhã, muitas horas antes de receber a notícia da sua morte. Falei para minha companheira desse professor extremamente culto e gentil, cuidadoso com as palavras e com o modo de conduzir a vida. Contei alguma coisa do que vivemos, conversamos, especialmente do que conversamos.

Recordei uma manhã dos anos 90 em que saímos do campus da Universidade, ele no volante, o Orlando Fonseca e eu de carona, e fomos na direção da cidade para algum evento cultural. No caminho, falamos assuntos de professor, como a situação do ensino superior, a eleição para reitor que se avizinhava, e depois pulamos para o tema dos amores, como eles se atam e desatam, como mantemos a chama acesa, como alimentamos o interesse do outro e o nosso na relação. Cada um contou algum caso vivido e, de repente, o Pedro arrematou com sua potente voz de Netuno:

– Mas há químicas que não conseguimos compreender. Elas acontecem e pronto.

Ficamos em silêncio, refletindo sobre aquela afirmação a respeito das “químicas” que instalam a loucura do amor e que não convém mexer, muito menos analisar, apenas aceitar e viver. Não lembro o restante da conversa, mas sei que a retomamos em outras oportunidades, algumas vezes até ousando destrinchar esse assunto complicado.

Pedro era um leitor sofisticado (Proust era uma das suas preferências), um crítico literário perspicaz (esclarecedor o seu comentário a respeito da poesia de Prado Veppo), pesquisador meticuloso (fez um levantamento precioso a respeito da memorialística da imigração italiana) e muito aprendi com ele.[1] O amor estava no cardápio das nossas conversas e muito comentamos a respeito de como ele aparecia nos grandes romancistas da literatura universal assim como nos autores aqui da Província, inclusive nós próprios, que tínhamos (eu ainda tenho) a pretensão de fazer literatura de ficção. Às vezes eu me metia a escrever alguma ficção sobre o assunto e o Pedro arregalava o olho, indicando que eu fosse com menos sede ao pote. Menos sede, menos ousadia, seguindo as normas dos discursos literários e dos pudores/hipocrisias tão necessários a boa convivência social, ele parecia me dizer. Nem tudo é possível narrar, seja na ficção, seja na vida.

        Lembrei dessas conversas no sábado de manhã, no sábado em que ele faleceu, horas antes de saber a respeito da sua morte. Ainda precisávamos arrematar certos assuntos... Da minha parte, compreender melhor a arte literária, como abordar o tema dos amores, o que é possível desvendar (qual química destrinchar?) e, dentro dessas limitações, o que é possível dizer, o que podemos verdadeiramente narrar.


[1] A memorialística da imigração italiana no Rio Grande do Sul certamente não constituiu o seu tema de pesquisa mais relevante, mas é um dos que não esqueço. Cheguei a muitos autores por conta desse trabalho que ele e uma das suas tantas orientandas realizaram. Quanto ao comentário sobre a obra poética de Prado Veppo, basta ler o seu texto para a segunda edição da “Prado Veppo: obra completa” (Santa Maria: Ed. UFSM, 2019. p. 15-19). Pedro refinou a sua leitura a respeito desse poeta que tanto conhecíamos quanto admirávamos.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

No Monte Byrsa (registro de viagem)

 

Quando era guri de ginásio, fui fisgado pela História de Roma e comecei a ler sobre o tema. Um dos assuntos: as Guerras Púnicas, os conflitos entre Roma e Cartago, nos séculos III e II antes de Cristo. Cartago era um império marítimo consolidado, Roma uma potência em expansão, e as duas cidades bateram de frente. Os cartagineses, liderados por Aníbal, chegaram a invadir a Itália, colocaram Roma em perigo, mas perderam a oportunidade de tomá-la. Décadas depois os romanos desembarcaram no litoral africano e realizaram um “dos mais famosos [cercos] que oferecem os anais do gênero humano, quer pelo genial talento que mostrou o cônsul [romano], quer pelo heroísmo desesperado dos infelizes sitiados” e não deixaram pedra sobre pedra da cidade inimiga.[1]

Ainda guri, li um poema de profunda melancolia sobre as ruínas da antiga cidade fenícia... e fiquei fascinado. Queria conhecer o local.

Pois conheci. Em fevereiro deste, estive na Tunísia e, do alto do Monte Byrsa, avistei o território que séculos atrás abrigava a antiga cidade... No entanto, o que avistei foi principalmente uma metrópole contemporânea. Pouca coisa restou da Antiguidade. Na colina de Byrsa, que outrora fora o centro religioso e político da cidade, não restou nenhum sinal desse antigo esplendor. No miradouro do monte uma placa reproduz a área ocupada pela antiga cidade, inclusive seus grandiosos portos comercial e militar (ver foto abaixo), e é isso que impacta o visitante. Nenhum ar de melancolia, como naquele poema que li na adolescência.

Cartaz, no miradouro do Monte Byrsa, indicando a Cartago
no período púnico.

Na chamada Terceira Guerra Púnica, Cartago foi cercada por três anos (149 a 146 a.C.) e, ao final, invadida, queimada num incêndio de vários dias e destruída metodicamente por pás e picaretas romanas. O local chegou a levar uma cobertura de sal, indicando ser um espaço maldito que jamais deveria ser reocupado. Tempos depois, no entanto, os próprios romanos construíram uma cidade no local. Deste período restaram alguns vestígios, entre eles as ruínas de um grandioso conjunto de banhos (construção do século II d.C.) conhecido como as Termas de Antonino.

As Termas de Antonino.

É verdade que o Monte Byrsa abriga contemporaneamente algumas escavações que buscam resquícios do mundo cartaginês, mas a excursão da qual eu participava não incluiu esses locais no roteiro. Apenas os jardins e a catedral que os franceses, quando dominaram o norte da África, ali construíram em homenagem a um dos seus santos, São Luís (o rei Luís IX, morto no local em 1270, vindo das Cruzadas).

Seja como for, ficar no miradouro dessa colina, olhando a antiga cidade de Aníbal Barca, possibilitou retomar o imaginário do ginasiano que eu fui... Dialogar com as fantasias daquele guri de 15 anos que se encantou com a História Antiga, a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, sua violência militar e, ao mesmo tempo, a construção de uma potente civilização, um dos pilares da chamada Civilização Ocidental, da qual fazemos parte, queiramos ou não.


Obs.: Depois de escrever a crônica acima, lembrei que antes de chegarmos ao Monte Byrsa, o roteiro do passeio turístico incluiu a visita a um sítio arqueológico denominado "Sanctvaire Pvniqve", na área da antiga Cartago. O local foi apresentado pelo guia como um local de sacrifícios de crianças (bebes, na sua maioria), uma prática ritual que eu acreditava inexistente, fruto de propaganda negativa de gregos e romanos contra seus inimigos cartagineses. Fiquei completamente aturdido com o fato de estar equivocado/desatualizado pelos novos estudos/interpretações arqueológicas e ainda não consegui assimilar a informação. Dificuldade minha em aceitar tal barbaridade, que talvez só Freud explique. Seja como for, segundo artigo de historiadores da Faculdade de Estudos Clássicos da Universidade de Oxford, "está ficando cada vez mais claro que as histórias de sacrifícios de crianças pelos cartagineses são verdadeiras". (Ver sítio da Univ. de Oxford, de 23/01/2024.)

Santuário Púnico, em Cartago.


[1] IRMÃOS MARISTAS. História Geral: 1º ano colegial. SP: FTD, s/ data. P. 247. (Um dos livros lidos no tempo do Ginásio e guardado até hoje.)