No último domingo, dia das eleições do segundo turno, eu saí
de casa por volta das oito horas, pois queria ser dos primeiros a votar.
Caia uma chuva fina e nem pensei em voltar para buscar um guarda-chuva. Tinha
pressa. Era só uma chuvinha e eu precisava garantir o meu voto no candidato Lula,
tal como faço desde 1989...
Naquele tempo, era bem outro o meu entendimento de
Lula e do Partido dos Trabalhadores. Se tivesse que resumir em poucas palavras diria que o via como uma possibilidade de promover “reformas
estruturais profundas”, “reforma agrária em primeiro lugar”, uma figura revolucionária. Hoje, nem sei mais o que é isso e estou pacificado em relação às transformações ocorridas ao longo da Era Lula (desde a campanha que o levou
à primeira vitória eleitoral para a Presidência da República, em 2002, até hoje)
e nem me incomodo mais com o caráter conciliador que ele adquiriu.
Hoje, diante da consolidação da extrema-direita
bolsonarista, já acho um grande avanço a garantia da democracia liberal, tal qual estabelecida pela Constituição de 1988, e da soberania nacional frente ao
domínio imperial norte-americano nos termos anunciados pelo Governo Trump.
Reformas radicais, mudança na estrutura da propriedade fundiária, ampliação de direitos trabalhistas, poder
operário nos locais de trabalho ou qualquer outra proposta do gênero... delírios
esquerdistas. O atual estágio da luta de classes é tão favorável às forças do
Capital que, se os trabalhadores conseguirem barrar o bolsonarismo, sua sanha
autoritária e seu neoliberalismo extremado, já está de bom tamanho.
Pois eu gastei poucos minutos para votar (éramos
apenas três os eleitores na minha seção, naquela hora), fiquei um tempo olhando
a imagem do Presidente Lula na tela da urna eletrônica... e voltei para casa
lembrando de alguns ex-colegas de universidade que se bandearam para a direita
e hoje abraçam a candidatura do Clã Bolsonaro entusiasticamente. Repetem as lições delirantes
do anticomunismo olavista e são capazes de esquecer tudo que aprenderam nos
livros de Ciência Política e afirmarem que lutam contra o “comunismo petista”.
Um deles postou no Facebook que, neste governo, a população está sujeita à
“dependência do Estado, preços exorbitantes nos supermercados, altos impostos e
partidarização do Judiciário”, “criminalidade incontrolável, sequestro das
liberdades fundamentais, censura, perseguição política”, “inocentes presos e
bandidos soltos”. Para ele, vivemos, uma completa decadência econômica,
política e moral, que será regenerada pela figura honesta e competente... de Flávio Bolsonaro, o irmãozão do Vorcaro.
Ou ele ou eu está profundamente equivocado, pensei, enquanto
voltava para casa, afinal não percebo a população oprimida por um governo
petista que censura e persegue, prende inocentes e pactua com organizações
criminosas. Coisa que soa à Olavo de Carvalho, isso sim, que via o PT como
organização criminosa, instrumento do marxismo cultural e do comunismo internacional. Olavo, o
teórico do bolsonarismo, que fez uma leitura esdrúxula de Gramsci e afundava em
delírios, insultos e teorias da conspiração.
Quanto ao candidato bolsonarista ser “honesto e competente”, pulo essa parte. O que Ministério Público do Rio Janeiro disse a respeito do que se passava no seu gabinete de deputado estadual, o que a Polícia Federal levantou quanto às suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro... já são suficientes para indiciá-lo como criminoso. Mas isso é conversa que ainda não tem fim.
![]() |
| Vitória de Samotrácia: escultura grega representando a deusa da vitória (século II a.C.), no Museu do Louvre. |
Seja como for, foi um domingo que valeu a pena
viver. Um desses dias que nos põe à prova. Passei manhã e tarde aflito. À noite,
me acomodei na frente da TV, assisti a lenta contagem das urnas e fui vendo,
aliviado, a candidatura petista ir aumentando a diferença de votos em relação
ao candidato adversário. Mais de quatro milhões de votos, ao final.[i]
A hidra neofascista derrotada eleitoralmente, mas mostrando que permanece viva
e vigorosa.
Ao contrário do esperado, o candidato vencido não
aceitou a resposta das urnas, anunciou que as eleições “deveriam ser anuladas”,
“impossível reconhecer o [seu] resultado”, e deixou a bola picando.
Provavelmente repita o roteiro do seu pai, ao ser derrotado em 2022, e ensaie
uma tentativa de golpe. Vamos esperar.
[i] Resultado da votação: 64.256.232 votos para Lula (51.79% dos votos válidos); 59.826.041 para Flávio Bolsonaro (48,21% dos votos válidos).

