domingo, 15 de março de 2026

Redobrar o nó

 

No verão de 1992-93, eu era um professor de 37 anos procurando se enquadrar numa universidade, depois de treze anos na escola estadual. Tomara posse um ano antes, ainda estava em estágio probatório, cursava o mestrado e meu prazo para a defesa do trabalho final se esgotava no final de 93. Então eu tinha as aulas do departamento para ministrar mais uma dissertação para escrever. O colegiado do departamento fora compreensivo e me dera disciplinas a respeito das quais eu tinha certo domínio. Daria para eu conciliar as aulas e a escrita da dissertação, imaginava. E me joguei, naqueles dias quentes de verão, a datilografar o primeiro capítulo do meu trabalho de mestrando.[1]

Mas uma disputa política corroeu as entranhas do departamento (uma briga entre o diretor e o vice), eu me posicionei mal no conflito (assumi uma posição de neutralidade) e levei chumbo do diretor. Ele me chamou na sua sala, disse que havia revisto as minhas disciplinas e meu obrigou a lecionar História Antiga... que ele bem sabia ser um conteúdo do qual eu tinha pouco conhecimento. História da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, sem esquecer os hebreus e os fenícios. Aulas que exigiriam muita preparação e consumiria as horas que eu pensava dedicar à dissertação.

“Quem não se alinha comigo, está contra mim”, o diretor me dissera em algum momento e eu esquecera o aviso. Santa ingenuidade, a minha, não avaliara o ninho de cobras em que estava metido! Engoli em seco a paulada, arregacei as mangas e fui em frente. Encarei as aulas sobre o Mundo Antigo, escrevi a dissertação (que defendi dentro do prazo) e fiquei para sempre engasgado com os mistérios e a imensidão da Antiguidade. Incomodado com a minha ignorância a respeito desse período histórico.

Um sentimento, perplexidade e incômodo, que revivi ao visitar o Museu do Bardo, na Tunísia (viagem que realizei no mês passado), ao me deparar com belíssimos mosaicos romanos, super bem preservados. Entre eles, o famoso “Ulisses resistindo  ao canto das Sereias”, datado do século III d.C., abordando um episódio da “Odisseia”, de Homero. Ulisses preso com cordas ao mastro do navio para ouvir “a voz arrebatadora das Sereias” sem ser arrastado e morto por elas. Um episódio que certa vez um aluno me perguntou a respeito e eu me atrapalhei ao responder. Disse para ele que iria ver em casa, na biblioteca da universidade, e só algumas semanas depois consegui chegar a uma resposta satisfatória.

"Ulisses resistindo ao canto das Sereias" (séc. III d.C.)
À direita, as pérfidas Sereias, capazes de atrair com sua música os viajantes desavisados.

Tempos em que não havia Google nem IA e não se resolvia uma dúvida ou curiosidade num piscar de olhos. Tempos difíceis, aqueles. Demorei a decifrar e compreender este e tantos episódios do Mundo Antigo: a conquista do Império Persa por Alexandre, o conflito entre Otávio e Marco Antônio/Cleópatra, o declínio ou transformação do Império Romano e por aí vai. Custei a ter domínio sobre esse vasto conteúdo e não me intimidar com os questionamentos dos alunos.

No Museu do Bardo, disse para mim mesmo que não era mais o professor assustado de 37 anos e segui adiante, maravilhando com os mosaicos, tentando lembrar a passagem em que Homero canta o episódio das Sereias...

O que faço agora, tirando a tradução de Donaldo Schuler da estante e lendo em voz alta:

“Revelarei o que nos espera [diz Ulisses aos seus companheiros]. Podemos morrer ou escapar incólumes. Atenção aos perigos! Evitar a voz arrebatadora das Sereias e os campos floridos em que moram é a primeira providência. Só a mim está reservado ouvir o canto. Amarrai-me firmemente. Não deverei arredar o pé. Estarei ereto junto ao mastro. Atem-me com laços apertados. Se eu rogar que me soltem, a tarefa de vocês será redobrar o nó.”[2]

Redobrar o nó para não cair nas garras das Sereias. (As sereias da mitologia greco-romana não tinha rabo de peixe, mas pernas com garras para prender suas presas.) Redobrar as amarras para não ser engolfado pelos turbilhões da vida.



[1] Sim, eu iniciei o trabalho numa máquina de escrever. Logo um colega me emprestou o seu computador, que eu passei a utilizar à noite, nos horários em que ele não necessitava do aparelho. Minha escrita deslanchou.

[2] HOMERO. Odisseia II: o regresso. Trad. Donaldo Schüler. POA: L&PM, 2014. P. 223. (Canto 12, versos 156 a 164.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sexualidade como campo minado

 

Aos 16 anos senti, pela primeira vez, o que era estar apaixonado. A guria tinha 19 anos, se preparava para o vestibular, e me pareceu deslumbrante. Inteligente e vivaz. Com ela tive os primeiros amassos e senti o que era excitação sexual. Que coisa surpreendente e maravilhosa! Mas jamais passamos dos abraços, beijos e carícias. Um namoro que durou pouco mais de meio ano.

Num final de semana fomos a um baile (no salão de uma paróquia) e talvez tenhamos bebido demais, isto é, passado dos dois copos de Coca-Cola com rum cada um. De repente ela sumiu e eu soube que as irmãs dela acharam que ela estava dando vexame e a levaram para casa. Uma delas falou comigo e insinuou que eu não era boa pessoa. Eu ultrapassava os limites da intimidade (amassos além da conta) e, para completar, exagerava na bebida.

Eu não me despedi da namorada e sai do baile para bater pernas sozinho pela rua. Vale destacar que era 1971 e caminhar em Porto Alegre de madrugada não oferecia riscos. Eu tinha o costume de andar pela cidade durante a noite e creio que foi aí que me dei conta de que a sexualidade era um “campo minado”. Sim, nesses termos. Era preciso tomar cuidado. Cada gesto ou atitude precisava ser dado dentro das regras, caso contrário se pisava numa bomba.

Um campo difícil de percorrer, esse da sexualidade. A mãe da guria ensinava para as filhas que sensualidade era luxúria, pecado, e não convinha a uma menina de família se entregar a esses “instintos”. Minha namorada não concordava, não era o padrão que pretendia seguir, mas não conseguia se contrapor à mãe.

Na sequência, fui dispensado (“A mãe acha que tu não serves para mim”, ela me disse) e logo encontrou um namorado equilibrado que, pelo que entendi, a tratava de modo convencional, dentro do estilo “pra casar”. Sem amassos nem bebida além da medida, imaginei.

Engraçado, lembro disso e associo com o que conheci anos depois a respeito de nossos hábitos e costumes (em especial na região campeira): a rispidez masculina na hora do sexo e o tormento das mulheres incomodadas com essa violência. Mulheres que cresciam num ambiente onde os homens faziam sexo de modo brutal (rasgando a roupa da noiva na primeira noite de núpcias, impondo seus “direitos de esposo”) e se habituavam à histórias de namoradas, noivas e casadas que eram abusadas, até estupradas. Muitas vezes suas irmãs, mães e tias, que se digladiavam com seus respectivos, às vezes cediam de má vontade, outras vezes não. “Tu estás fedendo a bebida”, a esposa falava. “Ao menos toma um banho, pra tirar essa graxa”, pedia outra. Ou, simplesmente: “Não, agora não”. 

Um contexto cultural (sempre difícil de ser enfocado) no qual o sexo era terreno perigoso, seja porque fosse “pecado”, seja porque tivesse de ser realizado sem muito diálogo e consentimento. Experiências que colaram na vida de muitas mulheres e as marcaram até a maturidade e velhice, sem que muitas conseguissem se libertar desses fantasmas. O desejo sexual e em especial a sua prática transformados em verdadeiras bombas, tal qual como eu imaginara/pensara naquela noite em que levaram a minha namorada e me deixaram sozinho no baile. Um explosivo que feriu nós dois e produziu ferimentos distintos, que eu nunca soube dimensionar.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um filme erótico inesquecível

 

Em 1970 eu cursava a quarta série ginasial num colégio católico e o Irmão Heitor, professor de Língua Portuguesa, volta e meia interrompia o assunto da aula e lascava um sermão moralista. Às vezes a respeito do cinema que explorava “cenas de nudismo e carícias lascivas” e creio que foi dessa maneira que eu soube que um filme com a Brigitte Bardot estava passando num cinema próximo à escola, no Cine Colombo. Tratava-se de “Les femmes”, direção de Jean Aurel, produção franco-italiana, 1969.

O Irmão Heitor, claro, sentava o pau nesse tipo de produção cinematográfica e na sua “repercussão negativa na formação moral da juventude”. Um colega conhecia o porteiro do Cine Colombo e, durante o recreio, combinamos que iríamos assistir ao filme. Era pagar uma gorjeta ao porteiro que ele esquecia a improbidade da fita para menores de 18 anos e nos deixava entrar.

Marcamos encontro na porta do cinema (para a sessão da tarde), juntamos o dinheiro da gorjeta e ficamos esperando o sinal. Quando bateu o início da sessão, passamos correndo pela roleta e subimos para o mezanino, a sala de projeção já completamente escura, e lá ficamos “escondidos”, na maior excitação.

Não era um grande filme, mas fabuloso para os guris que nós éramos. Brigitte corria nua no campo, primeiro de costas, com os cabelos voando e a bunda saltitando, depois de frente, os peitos balançando, os cabelos novamente esvoaçando e um sorriso deslumbrante. A vegetação era alta, encobria o sexo, genitália era coisa que o cinema naquela época não focava.

Em outras cenas, ela se deitava de bruços numa cama com lençóis brancos, conversava com o amante, ele a acariciava com vagar e ela reagia com caras e bocas de inocência e sensualidade.

Brigitte era um ícone da cultura de liberação sexual muito falado naquele final de anos 60 e nós queríamos aprender sobre isso. Sexo e amor não seriam entidades distintas como ainda eram para muitos da nossa geração. Queríamos embarcar num novo estilo de vida, mais liberal, ou simplesmente "mais livre e solto", e aquela atriz e surgia como um índice dessa transformação. Um sinal da sexualidade feminina que almejava fazer valer seus desejos, seu gozo, o que para nós era completamente escandaloso (mas nem por isso menos atrativo). O desenho de uma moral sexual muito distinta (na verdade, oposta) daquela que o Irmão Heitor fazia uma defesa enfática nos seus sermões.

Inesquecível aquela sessão de cinema. Quando terminou o filme, estávamos certos de termos realizado uma proeza. Estávamos excitados com o mundo e suas possibilidades. Uma façanha para meninos católicos treinados para a contenção da sexualidade em geral e da feminina em especial.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Dedo apontado para o meu nariz

 

Certa vez uma colega de trabalho me apontou o dedo e disse que eu estava ocupando um lugar indevido no Departamento de História (naquele tempo ainda denominado “faculdade”). Isto é, estava lecionando uma disciplina no Curso de Especialização, sem ter qualificação acadêmica para isso.

Eu fiquei escutando-a, espantado. Ela veio na minha casa fazer a acusação e eu sequer desconfiava da irregularidade. Fazia ano e meio que ingressara na UFSM, a Coordenação do Curso me chamara para assumir essa disciplina e eu, apesar de achar pedreira a tarefa (era uma disciplina sobre metodologia de ensino), não titubiei e aceitei.

Tinha experiência de treze anos no Magistério Estadual e recordo que a coordenadora falou que isso me habilitava para a disciplina: a prática. As questões teóricas eu iria resolvendo com o tempo.

Eu era mestrando, estava escrevendo a dissertação, e minha rotina não era fácil. A colega colocou o dedo na frente do meu nariz e eu não disse nada. Escutei ela falar, depois ela ir embora, feliz da vida com sua atitude de defensora da legalidade acadêmica, o “respeito ao regimento do curso”, segundo ela própria. Afinal, como um reles graduado, sem um título de pós-graduação, eu não tinha mesmo qualificação para estar onde estava: lecionando uma disciplina num Curso de Pós-Graduação.

Engraçado que mais de trinta anos depois eu lembro disso: especialmente o dedo apontado para mim. Possivelmente porque a acusação de estar num lugar indevido me pegou. Ainda pega.

Fui criança nascida numa família de classe média (pai, bancário; mãe, professora primária), morava na Zona do Porto, em Pelotas, com muitos vizinhos proprietários de terra, e recordo meu amigo Robertinho falando a respeito das terras e gado e ovelhas que o pai dele tinha no município de Santa Vitória do Palmar (nós dois com dez anos de idade, sentados no meio fio da calçada). Achei bacana aquela grandeza toda, quis me colocar à altura e falei que meu pai trabalhava num banco, “um lugar de muito dinheiro”. Meu amigo prontamente rebateu:

– Mas nada disso é dele. Ele é empregado do banco. A terra, o gado e as ovelhas SÃO do meu pai.

Escutei calado, concordando. Meu amigo acabara de me colocar no meu lugar, uma posição que era inferior à sua família, e engoli em seco. Não deixamos de ser amigos, também não me senti muito inferiorizado, mas entendi o recado. No mundo social pelotense, ele estava melhor na foto do que eu. Eu estava fora daquele círculo privilegiado de estancieiros, matriz histórica do Rio Grande do Sul.

O que minha colega me dizia naquela tarde, me apontado o dedo para o meu nariz tinha alguma relação com aquela experiência infantil? Creio que sim. A mesma sensação de que eu estava deslocado, não estava no centro. Ou, se estava (no caso, lecionando num curso de especialização), alguma coisa tinha de errado.

Tanto Robertinho como minha colega falavam a respeito da minha condição... Mas, em relação à professora que punha o dedo no meu nariz, havia uma nota cômica na sua petulância. Ela claramente se colocava disputando espaço e posição profissional comigo. Eu ganhara o lugar que ela almejara. Atendera ao chamado da minha chefe e, sem saber, passara a perna nas suas pretensões.

Continuei a lecionar a disciplina de Metodologia do Ensino, no Curso Especialização, defendi a dissertação naquele mesmo ano e logo estava com o título e a qualificação acadêmica devida. Tudo se arranjou. Mas o dedo apontado para o meu nariz ficou. Nunca esqueci. Lembrando, talvez, que ainda devo lutar pelo lugar onde me encontro. Um território sempre conquistado, que precisa ser preservado, defendido.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Para além da política partidária

 

“Sem anistia” e “Fora Hugo Motta” eram as chamadas para a manifestação política do último domingo (14 de dezembro) marcada para acontecer no entorno do Monumento ao Expedicionário, no Parque da Redenção, em Porto Alegre assim como em outras cidades brasileiras.

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, na quarta-feira (dia 10), colocara em votação um projeto para diminuir a pena dos condenados pelo 8 de janeiro de 2023 e das lideranças golpistas e a maioria direitista dos deputados aprovou a medida.

Não deu outra e a esquerda foi para as ruas. Nem só a esquerda, por sinal, mas também pessoas que entendem que os condenados pelo STF comprovadamente atentaram contra o jogo democrático e isso não é possível admitir. Ou se defende o regramento democrático ou entramos numa zona de risco, isto é, de possibilidade de construção de nova ordem autoritária como a que vivemos durante o Regime Militar (sonho dos condenados pelo STF).

Não são inocentes os manifestantes de 8 de janeiro nem, muito menos, Bolsonaro, seus generais e delegados. Cada qual, no seu campo, operaram em favor de um golpe que, felizmente, não vingou.

Pois estive presente na manifestação de domingo, peguei os últimos pronunciamentos na Ponte de Pedra (ponto final do ato político, depois de uma passeata saída do Monumento do Expedicionário) e fiquei impressionado com a animação dos grupos de juventude, grande parte de matriz estudantil, com indumentária e gestualidade que indicavam uma diversidade sexual impressionante, muitas vezes desconhecida por mim. Mas visível naquelas agremiações políticas, à esquerda da posição conciliadora dominante no Partido dos Trabalhadores.

Ato contra a anistia aos golpistas.
Praça da Ponte de Pedra, Porto Alegre.

Uma gurizada visceralmente contrária à tentativa da extrema-direita em inocentar a sua militância e lideranças, apaixonadamente comprometida com o jogo democrático liberal, entendido como o caminho possível para a acumulação de forças das classes populares e a futura transformação da ordem econômica e social.

Mas, para além da pauta político partidária (a luta contra a anistia aos golpistas), me surpreendeu a disposição revolucionária dessa juventude. Uma revolução especialmente endereçada à mudança de costumes, indicada na indumentária e na gestualidade dos militantes, claramente libertários.  Sinais de androginia, transsexualidade e sei lá mais o quê. Sinais de uma realidade sexual que nomeio com um dificuldade, mas que constato e identifico sua riqueza. Há um mundo novo, ali, querendo vir à tona.

Mais do que política partidária, essa gurizada radical me pareceu comprometida com a invenção de novas formas de se fazer presente, sentir e viver. Além da política, a transformação da vida. Os conservadores do Congresso (incluindo aí o engomadinho Hugo Motta) reduzidos, diante desse furor de juventude, à grotesca expressão política das forças econômicas e sociais que preservam esse mundo desigual e opressor, que necessita urgentemente ser transformado.

Apesar de distante das pautas radicais dessa juventude, me senti emocionado com a sua vibração e disposição de luta. Um entusiasmo contagiante.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Aplicativos de transporte

 

O jornal Zero Hora assinalou os dez anos da chegada dos aplicativos de transporte a Porto Alegre.[1] Naquele tempo (novembro de 2015), apenas o aplicativo da Uber; depois vieram outros. Eu me tornei um usuário do 99 e creio que isso facilitou muito a minha vida.  O táxi estava muito salgado para o meu bolso e as viagens com os aplicativos se revelaram mais em conta.  

Algumas das minhas últimas crônicas, por sinal, têm sido inspiradas em conversas com esses motoristas de aplicativos. Trajetórias muito interessantes das transformações no mundo do trabalho. Às vezes relatos heroicos, de trabalhadores autônomos que se enxergam como empreendedores. Pouquíssimos se vendo como trabalhadores precarizados, sem amparo na legislação trabalhista.

Na reportagem a respeito do surgimento da Uber, destaque para “carros em boas condições e oferta de balinhas e água”, mais motoristas “com trajes mais formais”. A primeira vez que utilizei esse serviço foi para ir a um show dos Rolling Stones, no Estádio Beira Rio, com meus dois filhos e a mãe deles. A minha filha chamou o carro por um aplicativo no celular e eu achei aquilo coisa d’Os Jetsons (desenho animado da década de 1960 ambientado num cenário futurista). O motorista todo alinhado ofereceu balinhas e água e eu nem sabia o que era aquilo. Minha filha me mostrou que era mais barato que um táxi (e mais acessível, mais cômodo) e fiquei espantado com as vantagens. Mas levei um bom tempo para utilizar o serviço.

De certa forma, eu reagi contra essas mudanças socioeconômicas que transformaram radicalmente o mundo do trabalho. Os motoristas de aplicativos como um emblema dessas mudanças: trabalhadores submetidos a grandes empresas, mas com roupagem de empreendedores privados. Versão urbana dos plantadores de fumo (pequenos proprietários rurais) submetidos à Souza Cruz. Um perfil novo da dominação do Capital, que tenho dificuldade em compreender. Meu entendimento do mundo está vinculado a um padrão superado (ou pelo menos colocado em cheque) pela nova ordem neoliberal.

Minhas conversas com os motoristas de aplicativo, muitas vezes, vão nesse sentido: como eles se colocam no mundo do trabalho. A maioria endossando a ideologia do empreendedorismo, um e outro lamentando o fato de serem trabalhadores sem proteção social.[2] Alguns foram operários, participaram do movimento sindical, e encaram a situação de forma diferente. Eles entendem o processo da precarização. Mas são poucos. Muito poucos.

A reportagem do jornal também destaca uma “queda de qualidade”, mas isto os aplicativos resolveram criando várias categorias de serviço. A mais popular, claro, perdeu o charme de dez anos atrás. Então, se o usuário quer um carro melhor (pra não sujar sua roupitcha ou entrar em contato com o mundo mais rude da classe trabalhadora) pede uma categoria mais alta e está tudo resolvido.

É impressionante a capacidade de reinvenção do Capitalismo.



[1] AIRES, Anderson. Transporte: o app que mudou a mobilidade urbana na capital. In: Zero Hora, P. Alegre, 21/11/2025. P. 16-17.

[2] Quando escuto um desses trabalhadores falarem das vantagens da “flexibilização” e criticando a Legislação Trabalhista, lembro do Fernando Henrique Cardoso propondo o desmantelamento da herança varguista, na década de 1990. FHC conseguiu.

domingo, 30 de novembro de 2025

O Velho

           O Velho morreu quando eu tinha três anos de idade. De tanto o pai e a mãe contarem como eram as visitas que fazíamos quando ele estava doente, parece que vejo tudo. Vejo o corredor cumprido da casa do Velho e nós caminhando até o quarto dele. Vejo a cama no meio do quarto, o Velho estendido, de barriga para cima, ofegante, olhando o teto. Depois vamos para a cozinha e a tia nos serve salada de frutas. Eu choro porque quero só o caldo da salada de frutas, não quero as frutas, e os adultos fazem a minha vontade. A mãe conta que faziam isto para eu parar de incomodar.

Então eu fico olhando pela porta da cozinha e vejo meu irmão correndo pelo pátio. Ele pára na frente de um puxadinho construído pelo avô – um pequeno telhado escorado por dois dormentes da estrada de ferro, com um tanque de lavar roupa embaixo – e ele fica olhando aquela pequena obra com uma espécie de veneração. Mais tarde eu também vou andar pelo pátio e parar na frente do tanque e passar a mão nos dormentes. Aquilo foi obra do Velho nos tempos áureos, isto é, quando era um homem vigoroso. O Velho pertencera aos quadros da Viação Férrea e trouxera os dormentes para casa, justamente para aquela obra. As tias sempre contavam essa história.

Na última vez que visitei a casa, poucos anos atrás, fiquei caminhando pelo pátio e lembrei do Velho. Ele chegou ao Brasil no final do século XIX. Meu sobrinho foi a São Paulo, vasculhou nos documentos da Hospedaria do Imigrante e descobriu a data certa: 20 de agosto de 1888. A abolição dos escravos acontecera naquele ano, meses antes. O avô chegou com o pai, a mãe, uma irmã menor e foram trabalhar numa fazenda de café, em Sorocaba, substituindo a mão-de-obra escrava.

Quando meu sobrinho enviou por e-mail os documentos, lembrei do que o pai contava:

– Os italianos chegavam para trabalhar nas fazendas e descobriam que, antes deles, quem fazia o serviço eram negros escravizados. 

A história do Velho foi toda contada aos pedaços. Há anos venho juntando as partes e cada vez o resultado sai diferente. O Velho – que começou a trabalhar quando era criança – colheu café em fazenda paulista, depois foi para a cidade e começou a atuar numa companhia de navegação. Os navios subiam o rio Tietê, entravam no Mato Grosso e ele pegou malária. O médico falou que ele não podia ter malária novamente e o mandou para um lugar onde não houvesse a doença. Por isso ele veio para o Rio Grande do Sul

Na década de 1920, o Velho chegou a Santa Maria e se tornou funcionário da Viação Férrea. Na década seguinte, estava estabelecido em Pelotas. Ascendeu ao posto de Engenheiro Prático – um tipo de engenheiro que não tinha diploma universitário (depois esses engenheiros foram substituídos pelos diplomados) – e se aposentou nos anos 50.

Era um homem severo, o pai contava. Chegava do trabalho sujo de graxa e jogava a roupa para as filhas lavarem. Queria tudo bem limpo. Gostava de camisas brancas, com punhos e colarinho engomados, e essas eram as peças que primeiro sujavam. As filhas se revezavam no tanque e depois passavam e engomavam. Deve ter sido por isso que ele trouxe os dormentes da estrada de ferro e fez aquele puxadinho no quintal da casa. Ali, as minhas tias penavam, inverno e verão. Não era fácil tirar o encardido das roupas, elas contavam.

O Velho gostava de se vestir bem. Dizia que era assim que um Engenheiro Prático precisava se apresentar, principalmente depois que os engenheiros diplomados começaram a ocupar os lugares de mando. O Velho sabia que estava perdendo espaço e lutava, com unhas e dentes, para manter sua posição. Fora assim que deixara de ser trabalhador rural e se tornara operador de máquinas, trabalhando em navio, e depois em locomotivas da Viação Férrea.

– Teu avô era um homem severo e intransigente – o pai contava, com orgulho. E com os olhos marejados de lágrimas. Afinal, a dureza do Velho não se refletia apenas no trabalho. Em casa, ele era rígido na educação dos filhos. Batia por qualquer falha que alguém cometesse. Tirava o cinto das calças e o sentava no laço no lombo dos filhos. Mas cuidava para não bater com a fivela, o pai observava. Dobrava a cinta para que a fivela ficasse presa na sua mão.

 – Quando alguma coisa não era feita como ele queria, o Velho gritava e batia – o pai explicava. – Mas depois envelheceu, enviuvou e ficou manso como um cordeirinho. Gostava que as noras sentassem ao seu lado e conversassem com ele. A tua mãe chegava perto da cama, te levantava e mostrava pra ele. “Este é teu neto mais novo”, ela dizia.

           Eu na certa esperneava. Não gostava daquele homem velho, feio e doente. Minha mãe me colocava no chão e eu corria para a cozinha. Chorava pedindo isto e aquilo e os adultos me atendiam para que eu me calasse e não atordoasse os ouvidos do Velho. Pois o Velho tinha muita dor. Ficava deitado de barriga pra cima, as mãos em cima do peito, os olhos fixos no teto.