quarta-feira, 10 de junho de 2026

Valquíria, que se tornou personagem

 

Meu amigo Eugênio batia a mão na mesa da cozinha e dizia que não confiava nas mulheres. Nós tínhamos acabado de comer uma massa que nós mesmos preparáramos, eu bebera meia garrafa de vinho e ele, que jamais bebia álcool, apenas sentira o buquê, girando a taça debaixo do nariz como se fosse um grande conhecedor. Ele gostava dessas bossas.

Nós costumávamos nos encontrar em seu apartamento para fechar alguns assuntos profissionais (éramos colegas na Universidade) e terminávamos encompridando a prosa, jantando e falando da vida, das nossas histórias e do modo como entendíamos o mundo. Ele, muito categórico nas suas opiniões, batia com a mão na mesa, e eu, para não polemizar, vazia o gênero contemporizador:

– Ora, Eugênio, não dá pra generalizar.

– Olha a Valquíria – ele exemplificava. – Ela é casada, o cara sustenta a vigarista, os dois filhos que tiveram juntos, e ela anda comigo na maior tranquilidade. Arruma um jeito de deixar os guris atendidos e até vem aqui em casa, dar pra mim. Diz que o marido é um chato, come ela muito mal, é um grosseirão, mas vive às custas do rapaz. Um corno que lhe garante uma vida confortável e ela nem pensa em largar o osso. Tu achas que eu confio numa mulher dessas? Uma mulher como tantas, podes crer.

Essa é uma conversa de mais de vinte anos, meu amigo já morreu, e eu lembro dessa história na saída do cinema, depois de assistir “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, no qual uma mulher entediada traí o marido durante umas férias numa praia ao sul da França.[1] O marido não a trata mal, apenas a relação não vive um bom momento, não a empolga, e ela está de saco cheio, se chateando na beira do mar. Então aparece um bonitão, se interessa por ela e os olhinhos da moça se acendem. O marido percebe o caso, mas não faz drama. Encara o fato como passageiro e, provavelmente, porque também não se sente autorizado a cobrar fidelidade da esposa. Ele já a traiu algumas vezes.

Lembrei do Eugênio falando da Valquíria (ela foi minha aluna), pois imagino que se passava com ela algo semelhante ao que acontecia com a personagem do filme. Valquíria estava chateada com a vidinha de mulher casada que levava, meu amigo cruzou o seu caminho, jogou uma isca e ela mordeu, isto é, topou a parada.

– Acho que as mulheres não são piores que os homens nesse quesito da fidelidade – eu falei naquela oportunidade, encompridando a conversa.

Lembro que o caso entre meu amigo e Valquíria durou alguns meses, depois a relação esfriou, cada um seguiu a sua vida, e ela continuou casada, claro. O marido nem deve ter desconfiado (não era um francês esperto e liberado como o personagem do filme) e na certa seguiu no mesmo tranco com a mulher, isto é, tratando-a do mesmo jeito, sem muita delicadeza, sem a atenção que ela desejava.

Eugênio e eu repassamos outras vezes essa história durante nossos jantares, pois Valquíria era uma mulher bonita, esbanjava charme e sabia o valor dos seus encantos. Para mim se tornou uma personagem (nem sei mais se seu nome era Valquíria mesmo) e poucos anos atrás encontrei-a numa livraria comprando os romances do vestibular para um dos filhos. Conversamos sobre livros e leituras de adolescentes, mas fiquei com vontade de perguntar se ela ainda se sentia maltratada pelo marido e fazia essa conversa com possíveis amantes...

Uma personagem, essa encantadora Valquíria. Fazia parte das conversas com meu amigo Eugênio e servia para desenvolvermos nossas ideias a respeito do mundo, das relações e das mulheres. Ele não tinha dúvida quanto à “perversidade das mulheres” e eu ponderava se isso tinha fundamento ou não. Mulheres não são piores nem melhores que os homens, eu afirmava. E assim gastávamos nosso tempo, ríamos, divagávamos, sem chegar à conclusão alguma.



[1] “Os pequenos cavalos de Tarquínia”, direção de Matthieu Rozé, baseado num romance de Marguerite Duras. França, 2021, 104 min.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O que podemos narrar?

 

Quando meu amigo Pedro Brum Santos faleceu, lembrei dele no café da manhã, muitas horas antes de receber a notícia da sua morte. Falei para minha companheira desse professor extremamente culto e gentil, cuidadoso com as palavras e com o modo de conduzir a vida. Contei alguma coisa do que vivemos, conversamos, especialmente do que conversamos.

Recordei uma manhã dos anos 90 em que saímos do campus da Universidade, ele no volante, o Orlando Fonseca e eu de carona, e fomos na direção da cidade para algum evento cultural. No caminho, falamos assuntos de professor, como a situação do ensino superior, a eleição para reitor que se avizinhava, e depois pulamos para o tema dos amores, como eles se atam e desatam, como mantemos a chama acesa, como alimentamos o interesse do outro e o nosso na relação. Cada um contou algum caso vivido e, de repente, o Pedro arrematou com sua potente voz de Netuno:

– Mas há químicas que não conseguimos compreender. Elas acontecem e pronto.

Ficamos em silêncio, refletindo sobre aquela afirmação a respeito das “químicas” que instalam a loucura do amor e que não convém mexer, muito menos analisar, apenas aceitar e viver. Não lembro o restante da conversa, mas sei que a retomamos em outras oportunidades, algumas vezes até ousando destrinchar esse assunto complicado.

Pedro era um leitor sofisticado (Proust era uma das suas preferências), um crítico literário perspicaz (esclarecedor o seu comentário a respeito da poesia de Prado Veppo), pesquisador meticuloso (fez um levantamento precioso a respeito da memorialística da imigração italiana) e muito aprendi com ele.[1] O amor estava no cardápio das nossas conversas e muito comentamos a respeito de como ele aparecia nos grandes romancistas da literatura universal assim como nos autores aqui da Província, inclusive nós próprios, que tínhamos (eu ainda tenho) a pretensão de fazer literatura de ficção. Às vezes eu me metia a analisar o assunto, o Pedro arregalava o olho, indicando que eu fosse com menos sede ao pote. Menos sede, menos ousadia, seguindo as normas da linguagem e dos discursos literários, ele parecia me dizer. Nem tudo é possível narrar, seja na ficção, seja na vida.

        Lembrei dessas conversas no sábado de manhã, no sábado em que ele faleceu, horas antes de saber a respeito da sua morte. Ainda precisávamos arrematar certos assuntos... Da minha parte, compreender melhor a arte literária, como abordar o tema dos amores, o que é possível desvendar (qual química destrinchar?) e, dentro dessas limitações, o que possível dizer, o que podemos verdadeiramente narrar?


[1] A memorialística da imigração italiana no Rio Grande do Sul certamente não constituiu o seu tema de pesquisa mais relevante, mas é um dos que não esqueço. Cheguei a muitos autores por conta desse trabalho que ele e uma das suas tantas orientandas realizaram. Quanto ao comentário sobre a obra poética de Prado Veppo, basta ler o seu texto para a segunda edição da “Prado Veppo: obra completa” (Santa Maria: Ed. UFSM, 2019. p. 15-19). Pedro refinou a sua leitura a respeito desse poeta que tanto admiramos.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

No Monte Byrsa (registro de viagem)

 

Quando era guri de ginásio, fui fisgado pela História de Roma e comecei a ler sobre o tema. Um dos assuntos: as Guerras Púnicas, os conflitos entre Roma e Cartago, nos séculos III e II antes de Cristo. Cartago era um império marítimo consolidado, Roma uma potência em expansão, e as duas cidades bateram de frente. Os cartagineses, liderados por Aníbal, chegaram a invadir a Itália, colocaram Roma em perigo, mas perderam a oportunidade de tomá-la. Décadas depois os romanos desembarcaram no litoral africano e realizaram um “dos mais famosos [cercos] que oferecem os anais do gênero humano, quer pelo genial talento que mostrou o cônsul [romano], quer pelo heroísmo desesperado dos infelizes sitiados” e não deixaram pedra sobre pedra da cidade inimiga.[1]

Ainda guri, li um poema de profunda melancolia sobre as ruínas da antiga cidade fenícia... e fiquei fascinado. Queria conhecer o local.

Pois conheci. Em fevereiro deste, estive na Tunísia e, do alto do Monte Byrsa, avistei o território que séculos atrás abrigava a antiga cidade... No entanto, o que avistei foi principalmente uma metrópole contemporânea. Pouca coisa restou da Antiguidade. Na colina de Byrsa, que outrora fora o centro religioso e político da cidade, não restou nenhum sinal desse antigo esplendor. No miradouro do monte uma placa reproduz a área ocupada pela antiga cidade, inclusive seus grandiosos portos comercial e militar (ver foto abaixo), e é isso que impacta o visitante. Nenhum ar de melancolia, como naquele poema que li na adolescência.

Cartaz, no miradouro do Monte Byrsa, indicando a Cartago
no período púnico.

Na chamada Terceira Guerra Púnica, Cartago foi cercada por três anos (149 a 146 a.C.) e, ao final, invadida, queimada num incêndio de vários dias e destruída metodicamente por pás e picaretas romanas. O local chegou a levar uma cobertura de sal, indicando ser um espaço maldito que jamais deveria ser reocupado. Tempos depois, no entanto, os próprios romanos construíram uma cidade no local. Deste período restaram alguns vestígios, entre eles as ruínas de um grandioso conjunto de banhos (construção do século II d.C.) conhecido como as Termas de Antonino.

As Termas de Antonino.

É verdade que o Monte Byrsa abriga contemporaneamente algumas escavações que buscam resquícios do mundo cartaginês, mas a excursão da qual eu participava não incluiu esses locais no roteiro. Apenas os jardins e a catedral que os franceses, quando dominaram o norte da África, ali construíram em homenagem a um dos seus santos, São Luís (o rei Luís IX, morto no local em 1270, vindo das Cruzadas).

Seja como for, ficar no miradouro dessa colina, olhando a antiga cidade de Aníbal Barca, possibilitou retomar o imaginário do ginasiano que eu fui... Dialogar com as fantasias daquele guri de 15 anos que se encantou com a História Antiga, a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, sua violência militar e, ao mesmo tempo, a construção de uma potente civilização, um dos pilares da chamada Civilização Ocidental, da qual fazemos parte, queiramos ou não.


Obs.: Depois de escrever a crônica acima, lembrei que antes de chegarmos ao Monte Byrsa, o roteiro do passeio turístico incluiu a visita a um sítio arqueológico denominado "Sanctvaire Pvniqve", na área da antiga Cartago. O local foi apresentado pelo guia como um local de sacrifícios de crianças (bebes, na sua maioria), uma prática ritual que eu acreditava inexistente, fruto de propaganda negativa de gregos e romanos contra seus inimigos cartagineses. Fiquei completamente aturdido com o fato de estar equivocado/desatualizado pelos novos estudos/interpretações arqueológicas e ainda não consegui assimilar a informação. Dificuldade minha em aceitar tal barbaridade, que talvez só Freud explique. Seja como for, segundo artigo de historiadores da Faculdade de Estudos Clássicos da Universidade de Oxford, "está ficando cada vez mais claro que as histórias de sacrifícios de crianças pelos cartagineses são verdadeiras". (Ver sítio da Univ. de Oxford, de 23/01/2024.)

Santuário Púnico, em Cartago.


[1] IRMÃOS MARISTAS. História Geral: 1º ano colegial. SP: FTD, s/ data. P. 247. (Um dos livros lidos no tempo do Ginásio e guardado até hoje.)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pelotas - Canguçu

 

No início dos anos 1960, minha família morava em Pelotas e nos meses de janeiro ou fevereiro íamos veranear em Morro Redondo. O pai, a mãe, meus dois irmãos e eu. Pegávamos o trem de manhã cedo e assistíamos a Maria Fumaça manobrando na frente da Estação, preparando-se para engatar os vagões de passageiros. O pai falava do seu pai imigrante, Vittorio Biasoli, que ascendera à posição de engenheiro-prático da Viação Férrea, e do seu trabalho nas oficinas, consertando aquelas locomotivas.

Locomotiva Maria Fumaça no pátio do Museu do Trem,
em São Leopoldo. Foto de Fernando Bassôa.

Recordei tudo isso com meu irmão mais velho (Rubens, o mesmo nome do nosso pai), conversando com ele no hospital, nessas últimas semanas, enquanto ele vivia seus últimos dias e ainda tinha lucidez. Repassamos vários assuntos, um deles esses verões, que hoje me soam míticos, passados em algum lugar... entre Atenas e Esparta, ou melhor, entre Pelotas e Canguçu.

Viagem de Maria Fumaça até uma pequena estação perdida no meio de campo. Depois, por meio de uma vagoneta, voltávamos alguns quilômetros, para o hotel onde nos hospedávamos.

“Hotel” é modo de dizer. Era uma escola desativada no verão, as salas de aula transformadas em quartos e cada um deles ocupado por um grupo familiar. Famílias que se reencontravam todos os anos naquele local, contava minha mãe, que sabia o nome de cada uma e também as suas trajetórias.

Ao lado do hotel havia uma fábrica de compotas de pêssego, da qual meu pai era contador e creio que foi assim que ele descobriu o hotel. Ele nos levava a “passear” pelo interior da fábrica, caminhávamos por um estrado de madeira entre as esteiras ocupadas pelas operárias (havia muita água escorrendo pelo chão) e me encantavam os pêssegos descascados e descaroçados (de uma amarelo vibrante) que elas preparavam para serem enlatados.

Meu pai levava apenas meu irmão mais velho e eu nesses passeios, pois a mãe achava perigoso para o menor, muito arteiro, muito levado, como se dizia. O pai pegava um e outro pêssego das esteiras, nos dava para comer e nos deliciávamos. Fruto com polpa consistente, o mais apropriado para o aproveitamento industrial.

Depois dessas visitas meu irmão saia correndo e ia com os amigos pescar, caçar passarinho e tomar banho de arroio. Ele era o mais velho, tinha liberdades que não me eram dadas e me deixavam de olho cumprido...

Eu ficava com meu irmão menor brincando no jardim, com meus soldadinhos do Forte Apache esparramados pelo chão, criando batalhas imaginárias. Um desses jardins de fantasia, com luz coada pela ramagem das árvores, muitas flores e o pai e a mãe sentados em cadeiras preguiçosas, de olho nas duas crias menores.

Um dia, num final de tarde, saí caminhando para os fundos do jardim e de repente veio um porco na minha direção. Era um porco que iriam matar, escapou das mãos dos seus algozes (entre eles, meu pai) e saiu correndo desesperado. Uma voz gritou não sei de onde:

– Sai da frente, piá de merda.

Eu pulei para o lado, pisei numa pilha de lixo e enterrei um enorme caco de vidro no pé. Não lembro a dor, apenas o sangue que escorria e deixou um rastro pelo chão, quando voltei para o jardim. O vidro ainda cravado no pé.

Meu irmão Rubens e eu, no hospital, passamos à limpo essas histórias. Ele com onze, doze anos, muito esperto, meu irmão mais velho, enquanto eu vivia a encantadora bobice dos meus sete, oito anos. Ele desbravava os campos, as matas e o arroio do entorno do hotel, enquanto eu ficava no jardim com meus soldadinhos e minhas batalhas imaginárias.

– Conta essas histórias – ele me incentivou.

Histórias de um tempo que comportava trens de passageiros, locomotivas soltando fumaça, e veranistas que desciam em pequenas estações no meio da Campanha, e se hospedavam em hotéis improvisados entre Pelotas e Canguçu.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Costurando lembranças de viagem

 

Uma viagem não termina depois de voltarmos para casa. Ela continua de outras maneiras, por meio das lembranças que trazemos e do modo como as reviramos.

No meu caso, enumero vários momentos dessas andanças que, volta e meia, retornam à minha memória. Uma delas, durante uma excursão pela Grécia e Turquia, em maio de 2023, privilegiando os sítios arqueológicos e museus da civilização greco-romana. Uma viagem muito especial, guiada pelo professor Francisco Marshall, iniciando por Atenas, passando por Mileto, Éfeso, Troia, Macedônia, Delfos, isto só para citar alguns locais.

Quando chegamos ao norte da Grécia, andamos pelo sítio arqueológico de Pella (capital do antigo reino da Macedônia) e, na sequência, o seu museu. O professor Marshall parou na frente de um enorme mapa do Oriente Médio, reproduzindo a trajetória de Alexandre, o Grande, sua travessia pelo antigo Império Persa, desde o Helesponto (o Estreito de Dardanelos) até o Egito, passando pela Babilônia e alcançando a Índia, e expôs de forma sintética a trajetória do grande conquistador... Ouvindo-o, vivi uma espécie de epifania.

Sim, um encontro com uma divindade, pois, afinal, era sobre um herdeiro de Aquiles que o professor estava falando, um homem que se percebia descendente do grande herói da "Ilíada", por parte de mãe, assim como de Hércules, por parte de pai. Uma figura que explorei nas minhas aulas de História Antiga por mais de vinte anos, sem nunca esgotar.

Fiz a visita ao museu com essa emoção, com a pretensão de decifrar aquele mundo tragado pelo tempo e sentindo, em cada peça da exposição, a atualização da Antiguidade, como no caso dos artefatos encontrados nos túmulos de guerreiros da época (foto abaixo).

Vitrines com artefatos bélicos encontrados nos túmulos
de guerreiros macedônios. Museu de Pella.

Não, nunca compreenderei o Mundo Antigo. Mas sempre o olharei com espanto e admiração, mantendo uma curiosidade enorme por esse território povoado por homens e mulheres incompreensíveis e admiráveis.[1]

Muitas viagens que realizo me fazem reviver esse sentimento nascido na infância, quando assistia filmes de temática histórica e folheava livros com gravuras sobre o tema. Recentemente, no Museu do Bardo (Tunísia), admirando mosaicos romanos que enfocavam temas gregos, revivi essa emoção...

Os romanos, nos gloriosos tempos de seu império, não esqueceram o mundo grego e o tematizaram em seus mosaicos, desenhando Dionísio, Hércules e Alexandre, entre outros. Figuras mitológicas e históricas, todas embaladas na mesma toada épica e/ou mágico-religiosa. Percorrendo as salas do museu, sintonizei com essa mesma memória e admiração... e, quando voltei para casa, ainda estava embalado nesse sonho (devaneio de quem se deixou fascinar pela cultura clássica). Resultado: passei três semanas envolvido na leitura da trilogia “Aléxandros”, de Valerio Manfredi. Um romance de 1.070 páginas abordando de forma realista a trajetória do rei macedônico, apresentando soluções muito interessantes para aspectos polêmicos da vida do herói, “sem prejuízo da fidelidade às fontes literárias e materiais” (segundo o próprio autor).[2]

  Terminado o romance, não tenho claro o que concluí em relação ao famoso guerreiro e criador de uma nova fase da História Antiga, a dos chamados reinos helenísticos, que fundiram as culturas grega e persa.[3] Certamente uma figura importante pelos seus feitos político-militares e deplorável por seus caprichos, megalomania e rompantes de crueldade, como a tortura ao rei da cidade de Gaza (amarrado vivo ao seu carro de combate) ou como o incêndio de Persépolis (militarmente desnecessário).

Seja como for, cheguei à última página com a certeza de estar cumprindo um destino forjado para todos aqueles que foram enfeitiçados pelo mundo clássico e cultivaram um interesse especial por esse rei macedônico que encarnou a figura de Aquiles e foi admirado por outras figuras notáveis, como Aníbal e Júlio Cesar.[4] Ou, simplesmente, terminei o livro costurando as lembranças de um viajante que um dia andou pelo sítio de Pella e por outros locais com marcas da Antiguidade Clássica, admirando ruínas de templos, palácios e túmulos, mais mosaicos, esculturas, armaduras e armas que remetiam ao grande conquistador. Viajar, afinal, não termina quando regressamos a nossa casa.

Cabeça de mármore de Alexandre, o Grande (325-300 a.C.),
encontrada por acaso na região de Giannista (na Macedônia).



[1] Geralmente imagino os homens e mulheres do Mundo Antigo de modo muito semelhante ao que vi no filme “O retorno” (2024), baseado na “Odisseia” e dirigido por Uberto Pasolini. Na cena final, depois de Ulisses (interpretado por Ralph Fiennes) ter massacrado todos os pretendentes à mão de Penélope (Juliette Binoche), ele é banhado pela esposa e os dois mantem um diálogo emocionante. Uma recriação magnífica da cena criada por Homero. Penélope querendo compreender a estranha trajetória do marido na volta de Troia e ele respondendo que não sabia o que fizera. Apenas cumprira o que os deuses haviam determinado para ele. Um homem e uma mulher capazes de viver e aceitar os seus destinos de modo integral e intenso.

[2] MANFREDI, Valerio. "Aléxandros". 3 volumes: "O sonho de Olympias", "As areias de Amon", "Os confins do mundo". RJ: Editora Rocco, 1999. O autor nasceu em 1943, na Itália, é graduado em línguas clássicas pela Universidade de Bolonha, especializado em topografia do Mundo Antigo, dirigiu escavações em várias localidades do Mediterrâneo e tem vasta obra ficcional sobre temas da Antiguidade.

[3] Reinos surpreendentes, como o de Commagene (no interior da atual Turquia), que deixou no alto do Monte Nemrut enormes cabeças de pedra com figuras que fundem elementos dos mundos grego e persa. Monumento mandado construir pelo rei Antióquio I Epifânio, no século I a.C. (possivelmente seu túmulo), e que visitei, embasbacado, num alvorecer de 2019.

[4] No segundo volume da trilogia “Aléxandros”, Alexandre visita um templo da cidade de Ílion, herdeira da antiga Troia, e encontra a armadura e as armas de Aquiles. Dizendo-se herdeiro do herói homérico, ele se apossa desses “objetos sagrados” e ordena que eles sejam levados para serem erguidos diante do exército como “estandarte antes de cada batalha”. (MANFREDI, V. "Aléxandros: as areias de Amon". RJ: Rocco, 1999. P. 9-14.)

domingo, 15 de março de 2026

Redobrar o nó, juntar as pontas

 

No verão de 1992-93, eu era um professor de 37 anos procurando se enquadrar numa universidade, depois de treze anos na escola estadual. Tomara posse um ano antes, ainda estava em estágio probatório, cursava o mestrado e meu prazo para a defesa do trabalho final se esgotava no final de 93. Então eu tinha as aulas do departamento para ministrar mais uma dissertação para escrever. O colegiado do departamento fora compreensivo e me dera disciplinas a respeito das quais eu tinha certo domínio. Daria para eu conciliar as aulas e a escrita da dissertação, imaginava. E me joguei, naqueles dias quentes de verão, a datilografar o primeiro capítulo do meu trabalho de mestrando.[1]

Mas uma disputa política corroeu as entranhas do departamento (uma briga entre o diretor e o vice), eu me posicionei mal no conflito (assumi uma posição de neutralidade) e levei chumbo do diretor. Ele me chamou na sua sala, disse que havia revisto as minhas disciplinas e meu obrigou a lecionar História Antiga... que ele bem sabia ser um conteúdo do qual eu tinha pouco conhecimento. História da Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, sem esquecer os hebreus e os fenícios. Aulas que exigiriam muito preparo e consumiriam as horas que eu pensava dedicar à dissertação.

“Quem não se alinha comigo, está contra mim”, o diretor me dissera em algum momento e eu esquecera o aviso. Santa ingenuidade, a minha, não avaliara o ninho de cobras em que estava metido! Engoli em seco a paulada, arregacei as mangas e fui em frente. Encarei as aulas sobre o Mundo Antigo, escrevi a dissertação (que defendi dentro do prazo) e fiquei para sempre engasgado com os mistérios e a imensidão da Antiguidade. Incomodado com a minha ignorância a respeito desse período histórico.

Um sentimento, de perplexidade e incômodo, que revivi ao visitar o Museu do Bardo, na Tunísia (viagem que realizei no mês passado), ao me deparar com belíssimos mosaicos romanos, super bem preservados. Entre eles, o famoso “Ulisses resistindo  ao canto das Sereias”, datado do século III d.C., abordando um episódio da “Odisseia”, de Homero. Ulisses preso com cordas ao mastro do navio para ouvir “a voz arrebatadora das Sereias” sem ser arrastado e morto por elas. Um episódio a respeito do qual um aluno me perguntou certa vez, em sala de aula, e eu não soube responder. Disse que iria consultar em casa, na biblioteca da universidade, e só algumas semanas depois consegui chegar a uma resposta satisfatória.

"Ulisses resistindo ao canto das Sereias" (séc. III d.C.)
À direita, as pérfidas Sereias, capazes de atrair com sua música os viajantes desavisados.

Tempos em que não havia Google nem IA e não se resolvia uma dúvida ou curiosidade num piscar de olhos. Tempos difíceis, aqueles. Para mim, período de grandes desafios. Demorei a compreender os grandes momentos do Mundo Antigo (a conquista do Império Persa por Alexandre, o conflito entre Otávio e Marco Antônio/Cleópatra, o declínio ou transformação do Império Romano) e muitas vezes empacava nos pequenos acontecimentos (Ulisses e as Sereias, a tomada de Tiro por Alexandre, a Campanha da Gália). Custei a ter domínio sobre o vasto conteúdo da Antiguidade e a não me intimidar com os questionamentos dos alunos.

No Museu do Bardo, disse para mim mesmo que não era mais o professor assustado de 37 anos e procurei lembrar a passagem em que Homero canta o episódio das Sereias... O que faço agora, tirando a tradução de Donaldo Schuler da estante e lendo em voz alta:

“Revelarei o que nos espera [diz Ulisses aos seus companheiros]. Podemos morrer ou escapar incólumes. Atenção aos perigos! Evitar a voz arrebatadora das Sereias e os campos floridos em que moram é a primeira providência. Só a mim está reservado ouvir o canto. Amarrai-me firmemente. Não deverei arredar o pé. Estarei ereto junto ao mastro. Atem-me com laços apertados. Se eu rogar que me soltem, a tarefa de vocês será redobrar o nó.”[2]

Redobrar o nó para não cair nas garras das Sereias. As sereias da mitologia greco-romana, que possuíam garras como aves de rapina e não eram as figuras encantadoras, de rabo de peixe, que se transformaram tempos depois. Redobrar o nó, juntar as pontas das cordas de tempos e experiências distintas: as dos desafios de um jovem professor de História Antiga com a tranquilidade de professor aposentado que vivo hoje.



[1] Sim, eu iniciei o trabalho numa máquina de escrever. Logo um colega me emprestou o seu computador, que eu passei a utilizar à noite, nos horários em que ele não necessitava do aparelho. Minha escrita deslanchou.

[2] HOMERO. Odisseia II: o regresso. Trad. Donaldo Schüler. POA: L&PM, 2014. P. 223. (Canto 12, versos 156 a 164.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sexualidade como campo minado

 

Aos 16 anos senti, pela primeira vez, o que era estar apaixonado. A guria tinha 19 anos, se preparava para o vestibular, e me pareceu deslumbrante. Inteligente e vivaz. Com ela tive os primeiros amassos e senti o que era excitação sexual. Que coisa surpreendente e maravilhosa! Mas jamais passamos dos abraços, beijos e carícias. Um namoro que durou pouco mais de meio ano.

Num final de semana fomos a um baile (no salão de uma paróquia) e talvez tenhamos bebido demais, isto é, passado dos dois copos de Coca-Cola com rum cada um. De repente a guria sumiu e eu soube que as irmãs dela acharam que ela estava dando vexame e a levaram para casa. Uma delas falou comigo e insinuou que eu não era boa pessoa. Eu ultrapassava os limites da intimidade (beijos e carícias além da conta) e, para completar, exagerava na bebida.

Eu não me despedi da namorada e sai do baile para bater pernas sozinho pela rua. Vale destacar que era 1971 e caminhar em Porto Alegre de madrugada não oferecia riscos. Eu tinha o costume de andar pela cidade durante a noite e creio que foi aí que me dei conta de que a sexualidade era um “campo minado”. Sim, nesses termos. Era preciso tomar cuidado. Cada gesto ou atitude precisava ser dado dentro das regras, caso contrário se pisava numa bomba.

Um campo difícil de percorrer, esse da sexualidade. A mãe da guria ensinava para as filhas que sensualidade era luxúria, pecado, e não convinha a uma menina de família se entregar a esses “instintos”. Minha namorada não concordava, não era o padrão que pretendia seguir, mas não conseguia se contrapor à mãe.

Na sequência, fui dispensado (“A mãe acha que tu não serves para mim”, ela me disse) e logo encontrou um namorado equilibrado que, pelo que entendi, a tratava de modo convencional, dentro do estilo “pra casar”. Sem amassos nem bebida além da medida, imaginei.

Engraçado, lembro disso e associo com o que conheci anos depois a respeito de nossos hábitos e costumes (em especial na região campeira): a rispidez masculina na hora do sexo e o tormento das mulheres incomodadas com essa violência. Mulheres que cresciam num ambiente onde os homens faziam sexo de modo brutal (rasgando a roupa da noiva na primeira noite de núpcias, impondo seus “direitos de esposo”) e se habituavam à histórias de namoradas, noivas e casadas que eram abusadas, até estupradas. Muitas vezes suas irmãs, mães e tias, que se digladiavam com seus respectivos, às vezes cediam de má vontade, outras vezes não. “Tu estás fedendo a bebida”, a esposa falava. “Ao menos toma um banho, pra tirar essa graxa”, pedia outra. Ou, simplesmente: “Não, agora não”. 

Um contexto cultural (sempre difícil de ser enfocado) no qual o sexo era terreno perigoso, seja porque fosse “pecado”, seja porque tivesse de ser realizado sem muito diálogo e consentimento. Experiências que colaram na vida de muitas mulheres e as marcaram até a maturidade e velhice, sem que muitas conseguissem se libertar desses fantasmas. O desejo sexual e em especial a sua prática transformados em verdadeiras bombas, tal qual como eu imaginara/pensara naquela noite em que levaram a minha namorada e me deixaram sozinho no baile. Um explosivo que feriu nós dois e produziu ferimentos distintos, que eu nunca soube dimensionar.