quinta-feira, 8 de outubro de 2026

No sítio arqueológico de Dougga

 

Alguém já disse que as viagens continuam, depois de voltarmos para casa, e isso já repeti várias vezes. Outro dia tirei um livro da estante a respeito da construção de cidades romanas e voltei, em pensamento, a um sítio arqueológico que visitei no início desse ano...[i]

Em fevereiro estive na Tunísia, conheci o sítio arqueológico de Dougga e é incrível como ainda se pode ver no seu traçado e nas suas construções em ruínas as características gerais do planejamento urbano do Império Romano. Não se tratava de uma cidade importante na estrutura administrativa da província romana da região, mesmo assim foi construída dentro do padrão estabelecido por Roma. Originalmente uma cidadela do reino da Numídia, conquistada pelos romanos em 46 a.C., e, a partir daí, povoada e reformada pelos romanos (sem a expulsão dos antigos habitantes).[ii]


Teatro de Dougga, construído entre 168 e 169 d.C. para 3.500 expectadores.

O sítio arqueológico fica no alto de uma colina, 570 metros acima de uma extensa planície de oliveiras e trigais, e foi impressionante estar naquele lugar. Andando pelo que restou da cidadela (considerada o melhor exemplo de cidade romana no norte da África) se pode identificar o traçado típico do urbanismo do Império (o espaço do Fórum, do Mercado, da área de lazer) e de seus prédios característico: o Capitólio (templo dedicado a Júpiter, Juno e Minerva), o teatro, as termas, um prostíbulo de alto nível e assim por diante.

Colunas do Capitóli, templo dedicado a Júpiter, Juno e Minerva,
no espaço do Fórum da cidade.

Em determinado momento fiquei para trás em relação ao meu grupo, entrei no interior de um prédio de banhos, identifiquei o local da fornalha, o caldarium, e fiquei imaginado o que devia se passar ali... Os escravos colocando lenha, esquentando a água para os cidadãos se banharem...

Quando fui professor de História Antiga no Curso de História, na UFSM, tinha dificuldade de explicar esses aspectos do cotidiano. Os alunos me perguntavam a respeito dos costumes romanos quanto aos cuidados com o corpo – Como eles se banhavam? Como funcionavam os banheiros públicos, as famosas termas? – e eu me embanava. Tinha pouca informação sobre isso. Falava das estruturas econômicas, sociais e políticas, longas explanações a respeito do modo de produção escravista. E centrava na história político-militar, em alguns personagens desse campo de atividade (os Irmãos Graco, Júlio César, Otávio, Marco Antônio, Constantino) e tocava o barco.

Certa vez, conversando com um pequeno grupo de alunos no final da aula (falando de literatura, o “Satyricon”, de Petrônio, o “Espártaco”, de Howard Fast), contei para eles como me tornei professor de História Antiga. “Foi uma imposição do diretor da faculdade”, eu disse. E devo ter narrado a novela da seguinte maneira:

– Acabei professor de História Antiga por conta de uma decisão vingativa do diretor do curso. Era início de 1993, não fazia dois anos que eu tomara posse na Universidade e tinha uma dissertação de mestrado para escrever. No final do ano anterior, na reunião de professores para a distribuição das aulas, eu solicitara disciplinas cujos conteúdos eu tinha maior domínio. Antiguidade não estava nesse rol, me daria muito trabalho planejar as aulas sobre esse período, eu tinha a dissertação para concluir... E os colegas foram compreensíveis.

E continuei:

– Duas semanas antes de iniciar o semestre, porém, o diretor me chamou na sua sala e determinou que eu assumisse História Antiga. Havia surgido uma briga entre ele e o vice-diretor, eu procurei me manter neutro em relação ao embate (o vice-diretor era meu grande amigo), não abracei a causa do meu chefe e levei nos dedos. Ouvi calado a exibição de força e arrogância do meu diretor, voltei para casa com o rabo entre as pernas e arregacei as mangas. Ministrei aquelas aulas nem sei de que jeito, escrevi a dissertação quase dentro do prazo (só atrasei um mês na entrega do texto) e depois continuei na disciplina, sempre lembrando aquele início traumático, cheio de dúvidas, e até hoje procurando resolvê-las.

            Devo ter contado isso para aquele pequeno grupo de alunos. Uma história que lembro e me persegue até hoje. E lá no sítio arqueológico de Dougga, andando por velhas ruínas, identificando o lugar da fornalha nas termas da cidade, repeti para mim mesmo a lição dos banhos públicos: primeiro os romanos se banhavam nas águas quentes do caldarium, depois repousavam nas águas mornas do tepidarium e, ao final, mergulhavam na piscina fria do frigidarium.


[i] MACAULY, David. A construção de uma cidade romana. SP: Martins Fontes, 1989. 112 p.

[ii] Os romanos conquistaram Cartago em 146 a.C., a cerca de 130 km de Dougga, só um século depois submeteram o restante da região ao seu domínio.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Mundo indígena em Alter do Chão

 

Sou um cronista que ainda busca dar conta da realidade daquilo que vejo nas viagens, seja no Rio ou São Paulo, em Lisboa ou Roma, no Egito ou na Grécia. Constato que não passo de um turista, que meu entendimento dos lugares é precário e mesmo assim insisto. Procuro registrar essas experiências de vida, que sempre sonhei realizar, e também transformá-las em literatura. Como faço agora ao escrever sobre o que vivi na Amazônia.

Pois eu estava no aeroporto de Belém (na última excursão, organizada por agência de turismo) e esperava o voo para Alter do Chão, um distrito da cidade de Santarém. Uma viagem de 750 km, que duraria uma hora e meia (2 ou 3 dias, se realizada de barco). Avistei um rapaz com um livro xerocado debaixo de braço, a respeito da língua munduruku, e fui falar com ele.[i] Tratava-se de um pastor da Igreja do Véu (Congregação Cristã do Brasil), que viajava para a área indígena dos munduruku.[ii] Ele já conhecera a missão da sua igreja e agora voltava com a mulher e o filho pequeno. Disse que vinha do sul do Brasil, como eu, e era filho de mãe brasileira e pai paraguaio. Estava fascinado pelos chamados “povos originais”, tentara conversar com um grupo de índios que se encontrava na mesma área do aeroporto onde estávamos (eles também pegariam o voo para Alter do Chão) e não conseguira. O que comprovava o seu entendimento a respeito da diversidade linguística entre os indígenas. (Segundo o Google, só no estado do Pará, 126 línguas.)

Curiosamente, porém, ele não conhecia Daniel Munduruku, um importante escritor desse povo, com mais de 60 livros e considerado um precursor da literatura dos povos originais direcionada a leitores não indígenas. Um escritor publicado por poderosas editoras de São Paulo, como a FTD e a Cia. das Letras, ganhador de um prêmio Jabuti e com boa vendagem nas escolas brasileiras (pelo menos na Região Sudeste e Sul, conforme me falou um livreiro).

Loja de artesanato indígena em Alter do Chão. Peças identificadas conforme etnia.
No caso, remos da etnia Waiwai.

Em Alter do Chão, às margens do Rio Tapajós, a presença indígena é marcante, segundo os guias de viagem, mas não tive essa impressão. Mesmo ela sendo percebível nos espetáculos de carimbó na praça central do vilarejo (uma música e dança que tem origem na fusão de elementos portugueses e indígenas), nas lojas de artesanato (numa delas com as peças identificadas conforme a etnia dos artesãos), nos livros que encontrei em dois sebos e em algumas conversas. Atendido por uma garçonete nitidamente indígena (muito bonita, por sinal) perguntei qual a sua etnia e ela prontamente respondeu, falando a respeito com certo orgulho. E também no breve contato com uma dona de restaurante, que disse ser excessiva a valorização dos indígenas, pois resultava em “privilégios”, como os extensos Territórios Indígenas existentes no estado.[iii]

Num final de tarde, quando vinha da praia e cruzava o centro do vilarejo, assisti a um desfile da Escola Indígena Borari Prof. Antônio Pedroso e aquilo me chamou atenção. “Opa, agora a coisa é pra valer”, pensei. Era uma apresentação de marcha semelhante à de tantas outras de escolas brasileiras (lembrei dos meus alunos de Canoas, desfilando na Vila Mathias Velho, no início dos anos 80) com o detalhe da denominação “Escola Indígena” escrita na camiseta dos estudantes. Chamava atenção o fato da maioria dos meninos e meninas usarem chinelos de dedo, um detalhe triste, o que talvez explicasse a marcha pouco incisiva. Afinal como marchar de chinelo?

Alunos da Escola Indígena Borori marchando no centro da vila de Alter do Chão.

No Google encontrei informações sobre essa escola Borari, em especial um artigo acadêmico que questionava o caráter “indígena” dessse estabelecimento de Ensino Fundamental.[iv] Segundo os autores, uma escola só nominalmente “indígena”, pois a maioria dos professores não estão engajados na proposta. No caso dos professores de História (foco principal do artigo), a maioria dava preferência aos livros didáticos distribuídos pela Secretaria de Educação, que enfatizam os acontecimentos das regiões Sudeste e Sul, pouco tratando da história local, como a origem da vila numa aldeia Borari, da qual muitos dos 7 mil moradores são descendentes. (Dessa população, 582 famílias são consideradas indígenas.)

Uma realidade instigante, essa do mundo indígena, mas que não achei fácil perceber. Talvez a dificuldade comum de um turista, claro, que passa quatro dias no local, cumpre um roteiro de passeios, andando de lancha e tomando banho de rio, e fica embasbacado com o que experimenta. Maravilhado com o cenário e, no meio do espetáculo, fica procurando decifrá-lo...

Uma das tantas praias de Alter do Chão, às margens do Rio Tapajós.


[i] “Aspectos da língua munduruku”, de Marjorie Crofts, linguista norte-americana.

[ii] A Igreja do Véu foi fundada no Paraná (1910) e segue a linha pentecostal. As mulheres frequentam o templo usando véus e deriva daí o seu apelido.

[iii] Segundo o IBGE/2022, há 80.974l indígenas no Pará (1% da pop.), 222 etnias (com destaque para os Munduruku e Kayapó) falando 129 línguas diferentes, 49 TIs (Territórios Indígenas oficialmente delimitados) com 41 mil indígenas (os demais vivem nas áreas urbanas).

[iv] SILVA, Jecilane; RODRIGUES, Gilberto. Educação Escolar Indígena: a cultura e a história do Povo Borari na escola indígena de Alter do Chão. In: REAe: Revista de Estudos Aplicados em Educação, jul/dez 2019.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Calibre .22

 

Existem assuntos a respeito dos quais eu vou falar até o fim da vida. Um deles é o suicídio do meu pai. Ele se matou em 1978, no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Foi encontrado por uma ronda da Brigada Militar e levado para o Pronto Socorro. Não trazia nenhum documento, entrou como “anônimo” no hospital e por isso não fomos avisados.

Naquela noite (30 de maio) minha mãe, meus irmãos e eu estranhamos o fato de ele não vir para casa e tratamos de procurá-lo. A mãe e meus irmãos ligaram para os hospitais e delegacias da cidade, não obtiveram nenhuma informação e ficamos esperando. Eu saí a perambular pelas ruas, fui até o Centro e lembro de entrar num bar da Avenida Salgado Filho (desses de pouca iluminação, bar de pegação) e procurar meu pai em alguma mesa...

O que me fez pensar que ele poderia estar ali, não sei. Talvez eu tenha me lembrado de algum filme dos tantos filmes que assistimos, daqueles em que o detetive sai investigando um crime nos nightclubs e nos inferninhos...

De manhã cedo, meu irmão mais velho, o Rubinho, foi no Instituto Médico Legal (junto ao Palácio da Polícia, na Avenida Ipiranga) e encontrou o velho. Ele tinha morrido de madrugada no Pronto Socorro e levado para lá. Os peritos do IML já tinham feito a autópsia e foi dessa maneira que meu irmão viu e reconheceu o nosso pai. Nem sei como ele aguentou. Que coragem! Eu só vi o corpo do pai quando ele já estava preparado pela funerária, retocado, com um capacete na cabeça (para ocultar o crânio esfacelado causado pelo tiro que ele dera em si mesmo), dentro do caixão.

A respeito dessa morte, desenvolvi uma culpa absurda que me perseguiu por vários anos e, por fim, se resolveu, se apaziguou. Uma novela a respeito da qual nunca conseguirei escrever completamente, não só pelo fato em si, mas pelos sentimentos que suscita, a culpa em especial. Uma culpa absurda, um traço muito profundo da minha personalidade: a de alimentar culpas tremendas por situações & pessoas a respeito das quais eu pouco ou nada posso fazer. Certamente um resquício da onipotência infantil não superada, uma dificuldade enorme de crescer e aceitar a minha limitação, a minha impotência diante do mundo.

 

Lembrei da morte do meu pai essa semana ao rever o filme “Serpico”, no qual um policial é baleado por um traficante de drogas, com uma arma calibre .22, o mesmo tipo de revólver que, durante anos, eu imaginei que meu pai utilizara. Engano meu. Ele se matou com um revólver calibre .38. 22 era a minha idade naquela época. A idade de um recém-formado em História, iniciando a lecionar, um típico jovem professor de escola, desses que se acham capazes de tudo, de reinventar o mundo inclusive.

A morte do pai me colocou contra a parede.

O filme “Serpico” entrou na programação da Netflix recentemente. É uma película de Sidney Lumet, com Al Pacino no papel principal, lançado em 1973, e aborda a história verídica de um policial (Francesco Vicent Serpico) em Nova Iorque, na década de 1960, que não aceita propina e resolve denunciar o esquema de corrupção na qual polícia está envolvida. O episódio na qual ele é baleado foi armado por seus colegas, com o propósito de dar cabo "naquele tira inoportuno". Eles o colocaram na linha de frente de uma abordagem a traficantes, não deram cobertura e o deixaram ser alvejado. A bala do pequeno revólver .22 do traficante atingiu a sua mandíbula e se instalou próximo ao nervo auditivo e ao cérebro. Serpico sobreviveu, perdeu a audição de um dos ouvidos, saiu da polícia e até hoje e vive recluso.

Era um desses filmes que meu pai gostava, não perdia, e a respeito do qual chegamos a conversar.


Obs.: a forma técnica de escrever o calibre de uma arma é a de colocar o ponto antes do número (calibre .22) para indicar a medida em polegadas da balas. Um jeito pedante de escrever ao qual resolvi aderir.  

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Búfalos, jacarés e araras

Na Amazônia, a presença da natureza é enorme e as referências aos búfalos, jacarés, pirarucus, tucanos e araras são uma constante. Faz parte do roteiro turístico o contato com esses animais e tive a impressão de que eles estão ali, bem próximos de seus habitantes. Não apenas nos parques (o Parque das Garças, em Belém; o Museu Sacaca, em Macapá; o Jardim Botânico, em Manaus), mas também nas florestas que cercam as cidades, nas fazendas, criatórios de peixes, comunidades indígenas e outros. Uma riqueza da região, um dos seus cartões postais.

Em Belém, peguei uma embarcação de transporte de passageiros (devidamente refrigerada com ar-condicionado, por sinal muito refrigerada) e naveguei duas horas até a cidade de Soure, na Ilha do Marajó. Entre os atrativos locais, os famosos búfalos, que tanto avistei dentro da água (na cena clássica apresentada nos livros didáticos de Geografia) quanto numa fazenda voltada à produção de leite, muito dóceis para o toque dos visitantes, assim como nas ruas da cidade, servindo de montaria aos policiais. Não assisti esses policiais em ação, mas pelo modo deles se referirem aos animais fiquei convencido de que funcionam... para o patrulhamento nas áreas urbanas e rurais.

Búfalos como montaria para patrulhamento policial, em Macapá.

Em Manaus, fiz um passeio ao anoitecer pelo Rio Negro (devidamente untado de repelente para enfrentar a nuvem de mosquitos que me cercava) e assisti o guia paralisar pequenos jacarés com a luz da lanterna sobre seus olhos, pegá-los com as mãos e exibir aos turistas. Uma cena desconcertante para um urbanóide como eu, mas nem por isso menos fascinante. Tanto fiquei na expectativa do animal ser encontrado e exibido, quanto aliviado ao vê-lo ser recolocado dentro da água e retomar a vida normal.

Curiosos, por sinal, esses sentimentos de turista. Tanto a expectativa pelo mundo selvagem sendo revelado (o jacaré retirado das águas), quanto o desconcerto da cena (o mundo natural conspurcado) e o alívio quando o animal é solto. Emoções que dão colorido a uma excursão num território de natureza exuberante e até geram discussões acaloradas quanto às formas corretas de “explorar a natureza”.

Pirarucus eu avistei tanto no lago de um museu que recria o universo ribeirinho (o Museu Sacaca, em Macapá), quanto num criatório de peixes nas margens do Rio Negro. Peixes enormes, dos quais se aproveita tudo (a língua, a pele, etecétera) e tive o privilégio de apreciar num sofisticado prato chamado “Lâminas de pirarucu” (no restaurante do hotel, em Manaus).

No entanto a chave de ouro desse encontro com animais foi uma arara de cauda vermelha avistada dentro da enorme oca de uma comunidade indígena, na qual recém fora apresentado uma série de rituais indígenas. Rituais concentrados em poucos minutos, bem entendido, pois bem se sabe que a ritualística indígena dura horas, às vezes um dia inteiro ou mais. (Indígenas tem outro modo de conceber o tempo, eles mesmo explicam. Eles não têm a pressa que nós temos.)

Arara na parede de uma oca indígena, numa ilha do Rio Negro.

           Pois assisti ao espetáculo, comprei umas peças de artesanato e, quando me retirava, avistei o animal andando pelas paredes da oca. Foi um momento de deslumbramento e fotografei o animal com meu celular, apressado, com medo de que ele saísse voando. Um desses momentos de êxtase, nervosismo, e talvez a síntese das belezas da região. Um animal de beleza estonteante, o mais lindo que vi. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Salvar a Amazônia

 

O livro de um jornalista inglês me acompanhou durante a recente viagem ao Pará, Macapá e Amazonas. Obra de um inglês que se enamorou pela floresta amazônica, se preocupou com a sua devastação e procurou soluções. Trata-se de “Como salvar a Amazônia”, de Dominic Phillips, assassinado no estado do Amazonas, junto com o indigenista Bruno Pereira, em 2022.[i] Os dois estavam envolvidos na defesa do território indígena do Vale do Javari e foram mortos por invasores dessa área. Como Dominic (ou Dom, seu apelido) era um estrangeiro branco, sua morte teve repercussão internacional e a polícia foi obrigada a se mexer. O crime foi desvendado, os assassinos presos, ao contrário do que geralmente ocorre na região. Dom deixou o seu livro incompleto e os amigos o concluíram a partir de suas anotações. Um conjunto de artigos de denúncia e de escuta de diferentes setores da população amazônica com o propósito de encontrar soluções para a devastação ambiental, com destaque para os povos indígenas pois o autor entendia que estes possuem as melhores propostas já que convivem com a floresta há séculos, adaptando-se a ela e também a moldando (segundo o novo paradigma para a compreensão dos povos originários).[ii]

Embarcação típica da Região Amazônica.

Eu li o livro no hotel, intercalando-o com os passeios. Era uma viagem turística, mas a dona da agência (antenada para as questões ambientais) colocara no roteiro locais que remetem à luta travada na região, isto é, aos projetos de economia sustentável (bioeconomia, agroflorestas) que se contrapõem ao modelo econômico predatório hegemônico. Uma hegemonia que está longe de ser prerrogativa da região e apenas reflete o que é dominante no país e no mundo. No caso da Amazônia, porém, com a sua floresta entendida como central para o equilíbrio climático do planeta, a devastação ambiental ganha contornos dramáticos. A rigor, porém, não menos dramática que a devastação das matas no Vale do Jacuí, aqui no Rio Grande do Sul, que favoreceu o acúmulo das águas das chuvas no Lago Guaíba (maio de 2024) e, dessa maneira, a catastrófica enchente da cidade de Porto Alegre.

Lancha utilizada nos passeios em torno de Belém.

Com essas caraminholas na cabeça eu andei de lancha pelos rios e canais do entorno de Belém (na ilha do Combu e adjacências), junto com meus colegas de excursão, visitando polos de produção de chocolate assim como a casa de uma família de guardiões da floresta. O cultivo do cacau (planta nativa) é visto como uma alternativa aos cultivos predatórios (como o de soja) e há vários empreendimentos de ecoeconomia explorando esse novo vetor. Comprei e comi chocolate de diferentes qualidades e constatei a pujança do negócio. Não sei se capaz de deter a força do agronegócio predatório, mas certamente uma alternativa para a população ribeirinha.

Mais adiante andamos pela mata, conhecemos a samaúma (ou sumaúma, a rainha-mãe das florestas) e ouvimos aqueles que assumiram o compromisso de preservar a flora e a fauna locais. Desse jeito urbanóide que tenho (com o corpo untado de repelente contra insetos) presenciei um rapaz descascar castanhas de modo tradicional e passar pedaços para que nós a comêssemos junto com o papagaio da casa (numa confraternização semelhante a de uma roda de chimarrão). Vi a aranha caranguejeira que ele apresentou na palma na sua mão, me assustei feito um guri e constatei a enorme distância que me separa desse universo ribeirinho com o qual mal consigo interagir, apesar da enorme curiosidade a respeito.

Ribeirinhos guardiões da floresta limpando castanhas para oferecer aos visitantes.

Seja como for, lá estava eu, encantado com o que via: o modo “como os ribeirinhos manejam recursos da natureza para empreender, produzir alimentos e cuidar da saúde” (conforme texto do folder da fábrica de chocolate Aroma do Combu, um dos locais visitados). Se contasse isso para minha mãe (a vivência com os ribeirinhos e as minhas divagações a respeito das questões ambientais que afetam o planeta), ela certamente me diria pra largar de mão essas “minhocas” e comesse chocolate. Apreciasse os diferentes tipos de chocolates, que, por sinal, são excelentes.



[i] DOMINIC, Phillips; e outros autores. Como salvar a Amazônia: uma busca mortal por soluções. SP: Cia. das Letras, 2025. 380 p.

[ii] Para a compreensão desse novo paradigma, ver os estudos do arqueólogo Eduardo Góes Neves, citado pelo autor: “Em vez do conceito colonial (...) que via a Amazônia como uma área selvagem escassamente povoada, a reconstituição de Neves revela sociedades complexas que criaram uma infraestrutura natural e uma floresta diversificada que foram muito mais influenciadas pelos seres humanos do que pensa a maioria das pessoas” (p. 343).

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Fortificações coloniais

 

Fui professor de História no antigo 1º Grau, atual Ensino Fundamental, e ministrava aulas sobre a colonização portuguesa na América. Muitas vezes rascunhei o litoral brasileiro no quadro-verde e apontei os principais locais de invasões francesas e holandesas no Rio de Janeiro e Nordeste. Sobrava pouco tempo para abordar as incursões militares na Região Norte e eu apenas indicava que o controle desse território fora de grande preocupação para a Coroa portuguesa. Ingleses, holandeses e franceses andavam na área e estavam de olho nas chamadas “drogas do sertão”. Lisboa mandou construir várias fortificações e duas delas eu visitei na recente viagem à Amazônia: o Forte do Presépio, em Belém, e a Fortaleza de São José, em Macapá.

O Forte do Presépio foi erguido em 1616, no rastro da luta contra os franceses recém expulsos do litoral do Maranhão e foi o primeiro marco de ocupação oficial portuguesa na Amazônia. Uma construção de madeira e palha realizada com auxílio do povo tupinambá que morava no local. (Interessante imaginar como os portugueses conseguiram o apoio indígena para a sua empreitada...) O forte passou por modificações, ganhou muralhas de pedra, fosso, portal suntuoso de entrada e hoje é um museu. Museu do Encontro, indicando pelo título a intenção atual de valorizar o congraçamento dos diversos povos que formaram a nossa sociedade. Uma tentativa de romper com a glorificação colonial. Na foto abaixo, a cara atual da fortificação com canhões ingleses do século XIX.

Forte do Presépio, em Belém do Pará.

Forte do Presépio, com destaque para o portal de entrada e fosso.

Já a Fortaleza de São José foi construída no final do século XVIII (1762-82), nas margens do Rio Amazonas, e consta como uma das maiores da América portuguesa. O guia que acompanhou o nosso grupo acentuou a participação indígena e negra na construção (colocando a liderança portuguesa em segundo plano) e disse que os canhões nunca foram utilizados militarmente. O objetivo da construção era intimidar os inimigos e este propósito foi alcançado: nenhum deles arriscou atacar.

Edificações militares costumam fazer parte de roteiros turísticos e é interessante registrar que a visita a esses locais às vezes causa certo desconforto. Afinal são locais que recordam conflitos armados e, no caso dessas fortalezas, a expansão colonial de um reino europeu arrogante, ganancioso e violento: Portugal. Reino que se deu a liberdade de dominar as terras indígenas, os converter à religião católica e também os escravizar. Não satisfeitos com isso, um reino que trouxe escravos da África e recriou a escravidão, transformando-a num dos comércios mais lucrativos entre os séculos XVI e XIX. Mas, seja como for, criou as bases econômicas, sociais e políticas sobre as quais nos constituímos como Nação.

Forte de São José, em Macapá.

Portal de entrada do Forte de São José.

Pra quem gosta de História, sempre um atrativo estimulante visitar esses locais emblemáticos da conquista colonial. A guerra é um dos temas tradicionais da historiografia (aí estão Heródoto e Tucídides que não me deixam mentir) assim como do cinema, como bem evidencia a recente versão da “Odisseia”, de Christophen Nolan. A Região Norte foi um território de disputa e no início do século XVII ingleses e holandeses fundaram fortins e feitorias na área (na foz do Xingu e na região dos tucujus, para citar alguns locais) e exigiram aplicado esforço militar da Coroa Portuguesa.[i]  Os fortes de Belém e de Macapá são pálidas lembranças dessas lutas. Não foi sem suor, sangue e lágrimas que se estabeleceu a tal Civilização Ocidental por aqui.



[i] VIANNA, Helio. História do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1970. Obra da historiografia tradicional, com farta informação política, administrativas e militar, muito recomendada nos anos 1960 e 70. Livro de consulta obrigatória para um estudante interessado em História, naquele tempo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

No cais de Belém

 

Estive em Belém do Pará duas semanas atrás. Quando cheguei na beira do cais, olhei aquela enormidade de água e fiquei surpreso ao saber que aquilo não era o Rio Amazonas. Estava numa excursão de gaúchos e o guia local nos explicou que a cidade é banhada pela Baía de Guajará e o famoso Rio Amazonas se encontra muito longe dali. Só depois, examinando um mapa, descobri que para alcançá-lo por via fluvial seria necessário contornar a Ilha de Marajó por centenas de quilômetros (cerca de 517, segundo o Google).

O cais tradicional de Belém, com o Mercado Ver-o-Peso
e as águas da Baía de Guajará.

Constatei que meus conhecimentos de geografia não eram grande coisa, apesar do entusiasmo com que estudei Geografia no Ginásio (o Ensino Fundamental, nos anos 1960). O professor ministrava as aulas em cima de um estrado, colocava um mapa do Brasil em frente ao quadro (preso em um pequeno prego) e soltava o verbo a respeito da riqueza hidrográfica da Região Norte, a extensão e o volume das águas do Rio Amazonas, as suas centenas de afluentes, e não exagero ao dizer que eu navegava por aqueles rios... Os afluentes da margem esquerda, o Rio Negro, Japurá e Trombetas; os afluentes da margem direita, o Madeira, Purus, Tapajós e Xingu. O assunto era cobrado nas provas de final de mês e não lembro de ter saído mal.

Observando aquela imensidão de águas banhando a cidade, no entanto, eu precisei reorganizar meus conhecimentos. “Rever os conceitos”, como se diz. Não achei fácil entender aquele emaranhando de caminhos fluviais. Mas fui aprendendo. No segundo dia em Belém, estava numa lancha em direção à Ilha de Combu, e, no terceiro, em direção a Ilha de Marajó. Baías, lagoas, rios e igarapés foram se apresentando diante meus olhos e estabeleci um diálogo não só com a paisagem circundante, mas também com o ginasiano que eu fui, um estudante que decorava o nome dos afluentes do Rio Amazonas e achava que estava sabendo tudo a respeito da Região Norte.

Esse território era tema de conversa entre meus amigos e seu exotismo certamente era o que nos atraia: a floresta exuberante, com árvores grandiosas, a fauna muito rica, os rios majestosos e a quantidade de indígenas que ainda mantinham o padrão de vida tradicional (ao menos segundo as informações da época). Um amigo viera fazer trabalho religioso no Pará (em 1969, numa missão da Igreja Católica) e voltou com muitas histórias. Nós, a gurizada, nos sentávamos ao redor dele e o escutávamos contar a respeito de uma população que vivia em palafitas na beira dos rios, se locomovia exclusivamente de barco, pescava peixes enormes, caçava jacarés, adentrava a mata fechada, caçava macacos (comia carne de macaco) e vivia de uma maneira muito diferente daquela que nós experimentávamos no espaço urbano de Porto Alegre.

Caminhando na beira do cais, tanto nas docas renovadas e transformadas em bares e hotel sofisticados, quanto no espaço mais popular das imediações do Mercado Ver-o-Peso, senti a imensidão do complexo amazonense. A Baía de Guajará e as instalações portuárias de Belém como uma espécie de amostragem da região. “Temos várias Amazônias”, nos avisara o guia local, anunciando que estávamos só no início de uma excursão que ia nos revelar outras faces da região, em Marajó, Macapá, Alter do Chão e Manaus. Um universo bastante diversificado, assunto para muita conversa, um desafio para transformar em crônica.