Quando era guri de ginásio, fui fisgado pela História
de Roma e comecei a ler sobre o tema. Um dos assuntos: as Guerras Púnicas, os
conflitos entre Roma e Cartago, nos séculos III e II antes de Cristo. Cartago
era um império marítimo consolidado, Roma uma potência em expansão, e as duas
cidades bateram de frente. Os cartagineses, liderados por Aníbal, chegaram a invadir
a Itália, colocaram Roma em perigo, mas perderam a oportunidade de tomá-la. Décadas
depois os romanos desembarcaram no litoral africano e realizaram um “dos mais
famosos [cercos] que oferecem os anais do gênero humano, quer pelo genial
talento que mostrou o cônsul [romano], quer pelo heroísmo desesperado dos
infelizes sitiados” e não deixaram pedra sobre pedra da cidade inimiga.[1]
Ainda guri, li um poema de profunda melancolia sobre as
ruínas da antiga cidade fenícia... e fiquei fascinado. Queria conhecer o local.
Pois conheci. Em fevereiro deste, do alto do Monte
Byrsa, avistei o território que séculos atrás abrigava a antiga cidade... e o
que vi foi principalmente uma metrópole contemporânea. Esta colina era outrora o centro religioso e político da cidade, mas não restou nenhum sinal desse antigo esplendor. No miradouro do monte uma placa reproduz a
área ocupada pela antiga cidade, inclusive seus grandiosos portos comercial e
militar (ver foto abaixo), e é isso que impacta o visitante. Nenhum ar de
melancolia, como naquele poema que li na adolescência.
| Cartaz, no miradouro do Monte Byrsa, indicando a Cartago no período púnico. |
Na chamada Terceira Guerra Púnica, Cartago foi
cercada por três anos (149 a 146 a.C.) e, ao final, invadida, queimando num
incêndio de vários dias e destruída metodicamente por pás e picaretas romanas.
O local chegou a levar uma cobertura de sal, indicando ser um espaço maldito
que jamais deveria ser reocupado. Tempos depois, no entanto, os próprios
romanos construíram uma cidade no local. Deste período restauram muitas ruínas, entre elas a de
um grandioso conjunto de banho (construção do século II d.C.) conhecido como
as Termas de Antonino.
| As Termas de Antonino. |
É verdade que o Monte Byrsa abriga contemporaneamente
algumas escavações que buscam resquícios do mundo cartaginês, mas a excursão
que eu participava não incluiu esses locais no roteiro. Apenas os jardins e a
catedral que os franceses ali construíram, quando dominaram o norte da África, em
homenagem a um dos seus santos, São Luís (o rei Luís IX, morto no local em
1270, vindo das Cruzadas).
Seja como for, ficar no miradouro dessa colina, olhando
a antiga cidade de Aníbal Barca, possibilitou retomar o imaginário do ginasiano
que eu fui... Dialogar com as fantasias daquele guri de 15 anos que se encantou
com a História Antiga, a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, sua violência
militar e, ao mesmo tempo, a construção de uma potente civilização, um dos pilares
da chamada Civilização Ocidental, da qual fazemos parte, queiramos ou não.
[1] IRMÃOS
MARISTAS. História Geral: 1º ano colegial. SP: FTD, s/
data. P. 247. (Um dos livros lidos no tempo do Ginásio e guardado até hoje.)
