O livro de um jornalista inglês me acompanhou
durante a recente viagem ao Pará, Macapá e Amazonas. Obra de um inglês que se
enamorou pela floresta amazônica, se preocupou com a sua devastação e procurou
soluções. Trata-se de “Como salvar a Amazônia”, de Dominic Phillips,
assassinado no estado do Amazonas, junto com o indigenista Bruno Pereira, em
2022.[i]
Os dois estavam envolvidos na defesa do território indígena do Vale do Javari e
foram mortos por invasores dessa área. Como Dominic (ou Dom, seu apelido) era um
estrangeiro branco, sua morte teve repercussão internacional e a polícia foi
obrigada a se mexer. O crime foi desvendado, os assassinos presos, ao contrário
do que geralmente ocorre na região. Dom deixou o seu livro incompleto e os
amigos o concluíram a partir de suas anotações. Um conjunto de artigos de
denúncia e de escuta de diferentes setores da população amazônica com o
propósito de encontrar soluções para a devastação ambiental, com destaque para
os povos indígenas pois o autor entendia que estes possuem as melhores
propostas já que convivem com a floresta há séculos, adaptando-se a ela e
também a moldando (segundo o novo paradigma para a compreensão dos povos
originários).[ii]
| Embarcação típica da Região Amazônica. |
Eu li o livro no hotel, intercalando-o com os passeios. Era uma viagem turística, mas a dona da agência (antenada para as questões ambientais) colocara no roteiro locais que remetem à luta travada na região, isto é, aos projetos de economia sustentável (bioeconomia, agroflorestas) que se contrapõem ao modelo econômico predatório hegemônico. Uma hegemonia que está longe de ser prerrogativa da região e apenas reflete o que é dominante no país e no mundo. No caso da Amazônia, porém, com a sua floresta entendida como central para o equilíbrio climático do planeta, a devastação ambiental ganha contornos dramáticos. A rigor, porém, não menos dramático que a devastação das matas no Vale do Jacuí, aqui no Rio Grande do Sul, que favoreceu o acúmulo das águas das chuvas no Lago Guaíba (maio de 2024) e, dessa maneira, a catastrófica enchente da cidade de Porto Alegre.
| Lancha utilizada nos passeios em torno de Belém. |
Com essas caraminholas na cabeça eu andei de lancha
pelos rios e canais do entorno de Belém (na ilha do Combu e adjacências), junto
com meus colegas de excursão, visitando polos de produção de chocolate assim
como a casa de uma família de guardiões da floresta. O cultivo do cacau (planta
nativa) é visto como uma alternativa aos cultivos predatórios (como o de soja)
e há vários empreendimentos de ecoeconomia explorando esse novo vetor. Comprei
e comi chocolate de diferentes qualidades e constatei a pujança do negócio. Não
sei se capaz de deter a força do agronegócio predatório, mas certamente uma
alternativa para a população ribeirinha.
Mais adiante andamos pela mata, conhecemos a
samaúma (ou sumaúma, a rainha-mãe das florestas) e ouvimos aqueles que assumiram
o compromisso de preservar a flora e a fauna locais. Desse jeito urbanóide que
tenho (com o corpo untado de repelente contra insetos) presenciei um rapaz
descascar castanhas de modo tradicional e passar pedaços para que nós a
comêssemos junto com o papagaio da casa (numa confraternização semelhante a de
uma roda de chimarrão). Vi a aranha caranguejeira que ele apresentou na palma
na sua mão, me assustei feito um guri e constatei a enorme distância que me
separa desse universo ribeirinho com o qual mal consigo interagir, apesar da
enorme curiosidade a respeito.
| Ribeirinhos guardiões da floresta limpando castanhas para oferecer aos visitantes. |
Seja como for, lá estava eu, encantado com o que
via: o modo “como os ribeirinhos manejam recursos da natureza para empreender,
produzir alimentos e cuidar da saúde” (conforme texto do folder da fábrica de
chocolate Aroma do Combu, um dos locais visitados). Se contasse isso para minha
mãe (a relação dessa experiência com os ribeirinhos a associação com as
questões ambientais que afetam o planeta), ela certamente me diria pra largar
de mão essas “minhocas” e comesse chocolate. Apreciasse os diferentes tipos de
chocolates, que, por sinal, são excelentes.
[i]
DOMINIC, Phillips; e outros autores. Como salvar a Amazônia: uma busca
mortal por soluções. SP: Cia. das Letras, 2025. 380 p.
[ii]
Para a compreensão desse novo paradigma, ver os estudos do arqueólogo Eduardo
Góes Neves, citado pelo autor: “Em vez do conceito colonial (...) que via a
Amazônia como uma área selvagem escassamente povoada, a reconstituição de Neves
revela sociedades complexas que criaram uma infraestrutura natural e uma
floresta diversificada que foram muito mais influenciadas pelos seres humanos
do que pensa a maioria das pessoas” (p. 343).
