Sou um cronista que ainda busca dar conta da
realidade daquilo que vejo nas viagens, seja no Rio ou São Paulo, em Lisboa ou Roma,
no Egito ou na Grécia. Constato que não passo de um turista, que meu
entendimento dos lugares é precário e mesmo assim insisto. Procuro registrar
essas experiências de vida, que sempre sonhei realizar, e também transformá-las
em literatura. Como faço agora ao escrever sobre o que vivi na Amazônia.
Pois eu estava no aeroporto de Belém (na última excursão,
organizada por agência de turismo) e esperava o voo para Alter do Chão, um
distrito da cidade de Santarém. Uma viagem de 750 km, que duraria uma hora e
meia (2 ou 3 dias, se realizada de barco). Avistei um rapaz com um livro
xerocado debaixo de braço, a respeito da língua munduruku, e fui falar com ele.[i]
Tratava-se de um pastor da Igreja do Véu (Congregação Cristã do Brasil), que
viajava para a área indígena dos munduruku.[ii]
Ele já conhecera a missão da sua igreja e agora voltava com a mulher e o filho
pequeno. Disse que vinha do sul do Brasil, como eu, e era filho de mãe
brasileira e pai paraguaio. Estava fascinado pelos chamados “povos originais”,
tentara conversar com um grupo de índios que se encontrava na mesma área do
aeroporto onde estávamos (eles também pegariam o voo para Alter do Chão) e não
conseguira. O que comprovava o seu entendimento a respeito da diversidade linguística
entre os indígenas. (Segundo o Google, só no estado do Pará, 126 línguas.)
Curiosamente, porém, ele não conhecia Daniel
Munduruku, um importante escritor desse povo, com mais de 60 livros e
considerado um precursor da literatura dos povos originais direcionada a
leitores não indígenas. Um escritor publicado por poderosas editoras de São
Paulo, como a FTD e a Cia. das Letras, ganhador de um prêmio Jabuti e com boa
vendagem nas escolas brasileiras (pelo menos na Região Sudeste e Sul, conforme
me falou um livreiro).
| Loja de artesanato indígena em Alter do Chão. Peças identificadas conforme etnia. No caso, remos da etnia Waiwai. |
Em Alter do Chão, às margens do Rio Tapajós, a
presença indígena é marcante, segundo os guias de viagem, mas não tive essa
impressão. Mesmo ela sendo percebível nos espetáculos de carimbó na praça
central do vilarejo (uma música e dança que tem origem na fusão de elementos
portugueses e indígenas), nas lojas de artesanato (numa delas com as peças
identificadas conforme a etnia dos artesãos), nos livros que encontrei em dois
sebos e em algumas conversas. Atendido por uma garçonete nitidamente indígena
(muito bonita, por sinal) perguntei qual a sua etnia e ela prontamente
respondeu, falando a respeito com certo orgulho. E também no breve contato com
uma dona de restaurante, que disse ser excessiva a valorização dos indígenas,
pois resultava em “privilégios”, como os extensos Territórios Indígenas
existentes no estado.[iii]
Num final de tarde, quando vinha da praia e cruzava
o centro do vilarejo, assisti a um desfile da Escola Indígena Borari Prof.
Antônio Pedroso e aquilo me chamou atenção. “Opa, agora a coisa é pra valer”,
pensei. Era uma apresentação de marcha semelhante à de tantas outras de escolas
brasileiras (lembrei dos meus alunos de Canoas, desfilando na Vila Mathias
Velho, no início dos anos 80) com o detalhe da denominação “Escola Indígena” escrita
na camiseta dos estudantes. Chamava atenção o fato da maioria dos meninos e
meninas usarem chinelos de dedo, um detalhe triste, o que talvez explicasse a
marcha pouco incisiva. Afinal como marchar de chinelo?
| Alunos da Escola Indígena Borori marchando no centro da vila de Alter do Chão. |
No Google encontrei informações sobre essa escola
Borari, em especial um artigo acadêmico que questionava o caráter “indígena” dessse
estabelecimento de Ensino Fundamental.[iv]
Segundo os autores, uma escola só nominalmente “indígena”, pois a maioria dos
professores não estão engajados na proposta. No caso dos professores de História
(foco principal do artigo), a maioria dava preferência aos livros didáticos
distribuídos pela Secretaria de Educação, que enfatizam os acontecimentos das
regiões Sudeste e Sul, pouco tratando da história local, como a origem da vila
numa aldeia Borari, da qual muitos dos 7 mil moradores são descendentes. (Dessa
população, 582 famílias são consideradas indígenas.)
Uma realidade instigante, essa do mundo indígena,
mas que não achei fácil perceber. Talvez a dificuldade comum de um turista,
claro, que passa quatro dias no local, cumpre um roteiro de passeios, andando
de lancha e tomando banho de rio, e fica embasbacado com o que experimenta. Maravilhado
com o cenário e, no meio do espetáculo, fica procurando decifrá-lo...
| Uma das tantas praias de Alter do Chão, às margens do Rio Tapajós. |
[i]
“Aspectos da língua munduruku”, de Marjorie Crofts, linguista norte-americana.
[ii] A
Igreja do Véu foi fundada no Paraná (1910) e segue a linha pentecostal. As
mulheres frequentam o templo usando véus e deriva daí o seu apelido.
[iii]
Segundo o IBGE/2022, há 80.974l indígenas no Pará (1% da pop.), 222 etnias (com
destaque para os Munduruku e Kayapó) falando 129 línguas diferentes, 49 TIs
(Territórios Indígenas oficialmente delimitados) com 41 mil indígenas (os
demais vivem nas áreas urbanas).
[iv]
SILVA, Jecilane; RODRIGUES, Gilberto. Educação Escolar Indígena: a cultura e a
história do Povo Borari na escola indígena de Alter do Chão. In: REAe:
Revista de Estudos Aplicados em Educação, jul/dez 2019.
