sexta-feira, 4 de setembro de 2026

No cais de Belém

 

Estive em Belém do Pará duas semanas atrás. Quando cheguei na beira do cais, olhei aquela enormidade de água e fiquei surpreso ao saber que aquilo não era o Rio Amazonas. Estava numa excursão de gaúchos e o guia local nos explicou que a cidade é banhada pela Baía de Guajará e o famoso Rio Amazonas se encontra muito longe dali. Só depois, examinando um mapa, descobri que para alcançá-lo por via fluvial seria necessário contornar a Ilha de Marajó por centenas de quilômetros (cerca de 517, segundo o Google).

O cais tradicional de Belém, com o Mercado Ver-o-Peso
e as águas da Baía de Guajará.

Constatei que meus conhecimentos de geografia não eram grande coisa, apesar do entusiasmo com que estudei Geografia no Ginásio (o Ensino Fundamental, nos anos 1960). O professor ministrava as aulas em cima de um estrado, colocava um mapa do Brasil em frente ao quadro (preso em um pequeno prego) e soltava o verbo a respeito da riqueza hidrográfica da Região Norte, a extensão e o volume das águas do Rio Amazonas, as suas centenas de afluentes, e não exagero ao dizer que eu navegava por aqueles rios... Os afluentes da margem esquerda, o Rio Negro, Japurá e Trombetas; os afluentes da margem direita, o Madeira, Purus, Tapajós e Xingu. O assunto era cobrado nas provas de final de mês e não lembro de ter saído mal.

Observando aquela imensidão de águas banhando a cidade, no entanto, eu precisei reorganizar meus conhecimentos. “Rever os conceitos”, como se diz. Não achei fácil entender aquele emaranhando de caminhos fluviais. Mas fui aprendendo. No segundo dia em Belém, estava numa lancha em direção a Ilha de Combu, e, no terceiro, em direção a Ilha de Marajó. Baias, lagoas, rios e igarapés foram se apresentando diante meus olhos e estabeleci um diálogo não só com a paisagem circundante, mas também com o ginasiano que eu fui, um estudante que decorava o nome dos afluentes do Rio Amazonas e achava que estava sabendo tudo a respeito da Região Norte.

Esse território era tema de conversa entre meus amigos e seu exotismo certamente era o que nos atraia: a floresta exuberante, com árvores grandiosas, a fauna muito rica, os rios majestosos e a quantidade de indígenas que ainda mantinham o padrão de vida tradicional (ao menos segundo as informações da época). Um amigo viera fazer trabalho religioso no Pará (em 1969, numa missão da Igreja Católica) e voltou com muitas histórias. Nós, a gurizada, nos sentávamos ao redor dele e o escutávamos contar a respeito de uma população que vivia em palafitas na beira dos rios, se locomovia exclusivamente de barco, pescava peixes enormes, caçava jacarés, adentrava a mata fechada, caçava macacos (comiam carne de macaco) e viviam de uma maneira muito diferente daquela nós experimentávamos no espaço urbano de Porto Alegre.

Caminhando na beira do cais, tanto nas docas renovadas e transformadas em bares e hotel sofisticados, quanto no espaço mais tradicional das imediações do Mercado Ver-o-Peso, senti a imensidão do complexo amazonense. A Baia de Guajará e as instalações portuárias de Belém como uma espécie de amostragem da região. “Temos várias Amazônias”, nos avisara o guia local, anunciando que estávamos só no início de uma excursão que ia nos revelar outras faces da região, em Marajó, Macapá, Alter do Chão e Manaus. Um universo bastante diversificado, assunto para muita conversa, um desafio para transformar em crônica.