quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pelotas - Canguçu

 

No início dos anos 1960, minha família morava em Pelotas e nos meses de janeiro ou fevereiro íamos veranear em Morro Redondo. O pai, a mãe, meus dois irmãos e eu. Pegávamos o trem de manhã cedo e assistíamos a Maria Fumaça manobrando na frente da Estação, preparando-se para engatar os vagões de passageiros. O pai falava do seu pai imigrante, Vittorio Biasoli, que ascendera à posição de engenheiro-prático da Viação Férrea, e do seu trabalho nas oficinas, consertando aquelas locomotivas.

Locomotiva Maria Fumaça no pátio do Museu do Trem,
em São Leopoldo. Foto de Fernando Bassôa.

Recordei tudo isso com meu irmão mais velho (Rubens, o mesmo nome do nosso pai), conversando com ele no hospital, nessas últimas semanas, enquanto ele vivia seus últimos dias e ainda tinha lucidez. Repassamos vários assuntos, um deles esses verões, que hoje me soam míticos, passados em algum lugar... entre Atenas e Esparta, ou melhor, entre Pelotas e Canguçu.

Viagem de Maria Fumaça até uma pequena estação perdida no meio de campo. Depois, por meio de uma vagoneta, voltávamos alguns quilômetros, para o hotel onde nos hospedávamos.

“Hotel” é modo de dizer. Era uma escola desativada no verão, as salas de aula transformadas em quartos e cada um deles ocupado por um grupo familiar. Famílias que se reencontravam todos os anos naquele local, contava minha mãe, que sabia o nome de cada uma e também as suas trajetórias.

Ao lado do hotel havia uma fábrica de compotas de pêssego, da qual meu pai era contador e creio que foi assim que ele descobriu o hotel. Ele nos levava a “passear” pelo interior da fábrica, caminhávamos por um estrado de madeira entre as esteiras ocupadas pelas operárias (havia muita água escorrendo pelo chão) e me encantavam os pêssegos descascados e descaroçados (de uma amarelo vibrante) que elas preparavam para serem enlatados.

Meu pai levava apenas meu irmão mais velho e eu nesses passeios, pois a mãe achava perigoso para o menor, muito arteiro, muito levado, como se dizia. O pai pegava um e outro pêssego das esteiras, nos dava para comer e nos deliciávamos. Fruto com polpa consistente, o mais apropriado para o aproveitamento industrial.

Depois dessas visitas meu irmão saia correndo e ia com os amigos pescar, caçar passarinho e tomar banho de arroio. Ele era o mais velho, tinha liberdades que não me eram dadas e me deixavam de olho cumprido...

Eu ficava com meu irmão menor brincando no jardim, com meus soldadinhos do Forte Apache esparramados pelo chão, criando batalhas imaginárias. Um desses jardins de fantasia, com luz coada pela ramagem das árvores, muitas flores e o pai e a mãe sentados em cadeiras preguiçosas, de olho nas duas crias menores.

Um dia, num final de tarde, saí caminhando para os fundos do jardim e de repente veio um porco na minha direção. Era um porco que iriam matar, escapou das mãos dos seus algozes (entre eles, meu pai) e saiu correndo desesperado. Uma voz gritou não sei de onde:

– Sai da frente, piá de merda.

Eu pulei para o lado, pisei numa pilha de lixo e enterrei um enorme caco de vidro no pé. Não lembro a dor, apenas o sangue que escorria e deixou um rastro pelo chão, quando voltei para o jardim. O vidro ainda cravado no pé.

Meu irmão Rubens e eu, no hospital, passamos à limpo essas histórias. Ele com onze, doze anos, muito esperto, meu irmão mais velho, enquanto eu vivia a encantadora bobice dos meus sete, oito anos. Ele desbravava os campos, as matas e o arroio do entorno do hotel, enquanto eu ficava no jardim com meus soldadinhos e minhas batalhas imaginárias.

– Conta essas histórias – ele me incentivou.

Histórias de um tempo que comportava trens de passageiros, locomotivas soltando fumaça, e veranistas que desciam em pequenas estações no meio da Campanha, e se hospedavam em hotéis improvisados entre Pelotas e Canguçu.