Alguém já disse que as viagens continuam, depois de
voltarmos para casa, e isso já repeti várias vezes. Outro dia tirei um livro da
estante a respeito da construção de cidades romanas e voltei, em pensamento, a
um sítio arqueológico que visitei no início desse ano...[i]
Em fevereiro estive na Tunísia, conheci o sítio
arqueológico de Dougga e é incrível como ainda se pode ver no seu traçado e nas
suas construções em ruínas as características gerais do planejamento urbano do Império
Romano. Não se tratava de uma cidade importante na estrutura administrativa da
província romana da região, mesmo assim foi construída dentro do padrão
estabelecido por Roma. Originalmente uma cidadela do reino da Numídia,
conquistada pelos romanos em 46 a.C., e, a partir daí, povoada e reformada
pelos romanos (sem a expulsão dos antigos habitantes).[ii]
| Teatro de Dougga, construído entre 168 e 169 d.C. para 3.500 expectadores. |
O sítio arqueológico fica no alto de uma colina, 570
metros acima de uma extensa planície de oliveiras e trigais, e foi
impressionante estar naquele lugar. Andando pelo que restou da cidadela
(considerada o melhor exemplo de cidade romana no norte da África) se pode identificar
o traçado típico do urbanismo do Império (o espaço do Fórum, do Mercado, da
área de lazer) e de seus prédios característico: o Capitólio (templo dedicado a
Júpiter, Juno e Minerva), o teatro, as termas, um prostíbulo de alto nível e
assim por diante.Colunas do Capitóli, templo dedicado a Júpiter, Juno e Minerva,
no espaço do Fórum da cidade.
Em determinado momento fiquei para trás em relação
ao meu grupo, entrei no interior de um prédio de banhos, identifiquei o local
da fornalha, o caldarium, e fiquei imaginado o que devia se passar
ali... Os escravos colocando lenha, esquentando a água para os cidadãos se
banharem...
Quando fui professor de História Antiga no Curso de
História, na UFSM, tinha dificuldade de explicar esses aspectos do cotidiano.
Os alunos me perguntavam a respeito dos costumes romanos quanto aos cuidados
com o corpo – Como eles se banhavam? Como funcionavam os banheiros públicos, as
famosas termas? – e eu me embanava. Tinha pouca informação sobre isso. Falava
das estruturas econômicas, sociais e políticas, longas explanações a respeito do
modo de produção escravista. E centrava na história político-militar, em alguns
personagens desse campo de atividade (os Irmãos Graco, Júlio César, Otávio,
Marco Antônio, Constantino) e tocava o barco.
Certa vez, conversando com um pequeno grupo de
alunos no final da aula (falando de literatura, o “Satyricon”, de Petrônio, o “Espártaco”,
de Howard Fast), contei para eles como me tornei professor de História Antiga.
“Foi uma imposição do diretor da faculdade”, eu disse. E devo ter narrado a
novela da seguinte maneira:
– Acabei professor de História Antiga por conta de
uma decisão vingativa do diretor do curso. Era início de 1993, não fazia dois
anos que eu tomara posse na Universidade e tinha uma dissertação de mestrado
para escrever. No final do ano anterior, na reunião de professores para a
distribuição das aulas, eu solicitara disciplinas cujos conteúdos eu tinha
maior domínio. Antiguidade não estava nesse rol, me daria muito trabalho
planejar as aulas sobre esse período, eu tinha a dissertação para concluir... E
os colegas foram compreensíveis.
E continuei:
– Duas semanas antes de iniciar o semestre, porém,
o diretor me chamou na sua sala e determinou que eu assumisse História
Antiga. Havia surgido uma briga entre ele e o vice-diretor, eu procurei me
manter neutro em relação ao embate (o vice-diretor era meu grande amigo), não abracei
a causa do meu chefe e levei nos dedos. Ouvi calado a exibição de força e arrogância
do meu diretor, voltei para casa com o rabo entre as pernas e arregacei as
mangas. Ministrei aquelas aulas nem sei de que jeito, escrevi a dissertação quase
dentro do prazo (só atrasei um mês na entrega do texto) e depois continuei na
disciplina, sempre lembrando aquele início traumático, cheio de dúvidas, e até
hoje procurando resolvê-las.
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