quinta-feira, 8 de outubro de 2026

No sítio arqueológico de Dougga

 

Alguém já disse que as viagens continuam, depois de voltarmos para casa, e isso já repeti várias vezes. Outro dia tirei um livro da estante a respeito da construção de cidades romanas e voltei, em pensamento, a um sítio arqueológico que visitei no início desse ano...[i]

Em fevereiro estive na Tunísia, conheci o sítio arqueológico de Dougga e é incrível como ainda se pode ver no seu traçado e nas suas construções em ruínas as características gerais do planejamento urbano do Império Romano. Não se tratava de uma cidade importante na estrutura administrativa da província romana da região, mesmo assim foi construída dentro do padrão estabelecido por Roma. Originalmente uma cidadela do reino da Numídia, conquistada pelos romanos em 46 a.C., e, a partir daí, povoada e reformada pelos romanos (sem a expulsão dos antigos habitantes).[ii]


Teatro de Dougga, construído entre 168 e 169 d.C. para 3.500 expectadores.

O sítio arqueológico fica no alto de uma colina, 570 metros acima de uma extensa planície de oliveiras e trigais, e foi impressionante estar naquele lugar. Andando pelo que restou da cidadela (considerada o melhor exemplo de cidade romana no norte da África) se pode identificar o traçado típico do urbanismo do Império (o espaço do Fórum, do Mercado, da área de lazer) e de seus prédios característico: o Capitólio (templo dedicado a Júpiter, Juno e Minerva), o teatro, as termas, um prostíbulo de alto nível e assim por diante.

Colunas do Capitóli, templo dedicado a Júpiter, Juno e Minerva,
no espaço do Fórum da cidade.

Em determinado momento fiquei para trás em relação ao meu grupo, entrei no interior de um prédio de banhos, identifiquei o local da fornalha, o caldarium, e fiquei imaginado o que devia se passar ali... Os escravos colocando lenha, esquentando a água para os cidadãos se banharem...

Quando fui professor de História Antiga no Curso de História, na UFSM, tinha dificuldade de explicar esses aspectos do cotidiano. Os alunos me perguntavam a respeito dos costumes romanos quanto aos cuidados com o corpo – Como eles se banhavam? Como funcionavam os banheiros públicos, as famosas termas? – e eu me embanava. Tinha pouca informação sobre isso. Falava das estruturas econômicas, sociais e políticas, longas explanações a respeito do modo de produção escravista. E centrava na história político-militar, em alguns personagens desse campo de atividade (os Irmãos Graco, Júlio César, Otávio, Marco Antônio, Constantino) e tocava o barco.

Certa vez, conversando com um pequeno grupo de alunos no final da aula (falando de literatura, o “Satyricon”, de Petrônio, o “Espártaco”, de Howard Fast), contei para eles como me tornei professor de História Antiga. “Foi uma imposição do diretor da faculdade”, eu disse. E devo ter narrado a novela da seguinte maneira:

– Acabei professor de História Antiga por conta de uma decisão vingativa do diretor do curso. Era início de 1993, não fazia dois anos que eu tomara posse na Universidade e tinha uma dissertação de mestrado para escrever. No final do ano anterior, na reunião de professores para a distribuição das aulas, eu solicitara disciplinas cujos conteúdos eu tinha maior domínio. Antiguidade não estava nesse rol, me daria muito trabalho planejar as aulas sobre esse período, eu tinha a dissertação para concluir... E os colegas foram compreensíveis.

E continuei:

– Duas semanas antes de iniciar o semestre, porém, o diretor me chamou na sua sala e determinou que eu assumisse História Antiga. Havia surgido uma briga entre ele e o vice-diretor, eu procurei me manter neutro em relação ao embate (o vice-diretor era meu grande amigo), não abracei a causa do meu chefe e levei nos dedos. Ouvi calado a exibição de força e arrogância do meu diretor, voltei para casa com o rabo entre as pernas e arregacei as mangas. Ministrei aquelas aulas nem sei de que jeito, escrevi a dissertação quase dentro do prazo (só atrasei um mês na entrega do texto) e depois continuei na disciplina, sempre lembrando aquele início traumático, cheio de dúvidas, e até hoje procurando resolvê-las.

            Devo ter contado isso para aquele pequeno grupo de alunos. Uma história que lembro e me persegue até hoje. E lá no sítio arqueológico de Dougga, andando por velhas ruínas, identificando o lugar da fornalha nas termas da cidade, repeti para mim mesmo a lição dos banhos públicos: primeiro os romanos se banhavam nas águas quentes do caldarium, depois repousavam nas águas mornas do tepidarium e, ao final, mergulhavam na piscina fria do frigidarium.


[i] MACAULY, David. A construção de uma cidade romana. SP: Martins Fontes, 1989. 112 p.

[ii] Os romanos conquistaram Cartago em 146 a.C., a cerca de 130 km de Dougga, só um século depois submeteram o restante da região ao seu domínio.

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