terça-feira, 20 de outubro de 2026

Caminhada com Lula em Porto Alegre

 

Ontem (19 de outubro) encarei novamente a caminhada da petezada em Porto Alegre. Dessa vez com o candidato Lula presente. O ponto de partida era o Largo dos Açorianos e peguei um aplicativo para ir até lá. Conversei com o motorista e ele disse que era de Livramento, estava trabalhando na Capital há 20 anos e nunca transferiu seu título de eleitor.

Para mim, incompreensível alguém não ter interesse em participar do jogo eleitoral. Mas isso, claro, não é raro. O meu barbeiro, um jovem de 26 anos, tem o mesmo comportamento. Natural de Soledade, morador de Canoas há alguns anos, também não transferiu o título, pois acha “todos os políticos corruptos” e não vê motivo para gastar seu tempo com o assunto. Como alguém pode viver assim, não sei.

Pois cheguei no Largo dos Açorianos pensando essas coisas. Eram cinco da tarde, a juventude já marcava a sua presença (a passeata estava marcada para iniciar às 18 horas) e também muita gente velha. A juventude provavelmente porque tem ojeriza ao conservadorismo da extrema-direita (impressionante a visibilidade que ganhou a população LGBT nas manifestações de esquerda), a velharada porque enxerga com clareza o risco que o ideário neoliberal do bolsonarismo representa para os “direitos previdenciários”. Afinal, neste último caso, Daniella Marques, a assessora econômica de Flávio, inclusive cotada para o Ministério da Fazenda, já deu a letra: Javier Milei, o atual presidente argentino, é um “ótimo exemplo”[i]. O tal ajuste fiscal tão desejado pelos bolsonaristas tem no governo argentino a sua principal inspiração. Aposentados, então, se cuidem!

Caminhada com Lula na Avenida Borges de Medeiros.

Manifestações públicas de apoio a um candidato servem para cada um organizar as suas motivações políticas e era isso que eu exercitava, caminhando com a multidão. Como entender essa encruzilhada eleitoral em que estamos? Segui a passeata pela Avenida Borges, subi as escadas do Viaduto Otávio Rocha para melhor fotografar e fiquei admirado com o tamanho da manifestação. Impossível uma foto que desse conta da dimensão do acontecimento (200 mil pessoas, segundo os organizadores)!

Caminhada com Lula atravessando o Viaduto Otávio Rocha.

Eu era apenas uma gota naquele oceano e isso não me incomodava. Mas uma moça passou mal na minha frente, foi amparada pelas amigas, carregada por ela para fora da multidão, e fiquei imaginando o que a abalara... Qual emoção? O entusiasmo em relação ao candidato progressista (o que era perceptível na multidão) ou o medo quanto ao que pode vir com a possível vitória conservadora?

Não sei. Provavelmente as duas coisas. Entusiasmo e medo são sentimentos que povoam o coração de quem optou pela frente ampla construída por Lula & Alckmin. O encantamento com o projeto social-democrata petista e o horror frente à avalanche bolsonarista, que reinventou o fascismo.[ii] Duas forças político-sociais que se digladiam nessa semana e não sei qual vingará no próximo dia 25.

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         No final da passeata (que terminou no Mercado Público), caminhei pela Avenida Independência e peguei um ônibus lotado. A maioria vinha da manifestação e cantava palavras de ordens e jingles da campanha lulista. Um jovem bolsonarista manifestou a sua contrariedade e foi obrigado a engolir em silêncio as acusações ao seu candidato (como o de ser a “putinha do Vorcaro”, segundo uma das canções). O meu entusiasmo não me levava a cantar com a companheirada, mas eu me sentia como integrante da mesma torcida. Uma torcida de futebol que voltava para casa, de um jogo que ainda não terminara, e trazia altas doses de esperança... na vitória.



[i] https://www.condsef.org.br/noticias/coordenadora-economica-flavio-bolsonaro-vamos-nos-inspirar-nas-reformas-que-milei-fez. Em agosto do ano passado estive na Argentina, cruzei por manifestações de aposentados e de pessoas que recebiam benefícios assistenciais (para casos de saúde), e o quadro era assustador.

[ii] A definição do bolsonarismo é problemática e o conceito “neofascismo”, uma possibilidade. Uma reinvenção do fascismo, misturando elementos tradicionais dessa ideologia, como a desconfiança em relação à democracia liberal e a sedução autoritária, com características modernas, como o neoliberalismo extremado e a submissão neocolonial nos termos propostos por Donald Trump.

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