Ontem (19 de outubro) encarei novamente a caminhada
da petezada em Porto Alegre. Dessa vez com o candidato Lula presente. O ponto
de partida era o Largo dos Açorianos e peguei um aplicativo para ir até lá. Conversei
com o motorista e ele disse que era de Livramento, estava trabalhando na
Capital há 20 anos e nunca transferiu seu título de eleitor.
Para mim, incompreensível alguém não ter interesse
em participar do jogo eleitoral. Mas isso, claro, não é raro. O meu barbeiro, um
jovem de 26 anos, tem o mesmo comportamento. Natural de Soledade, morador de
Canoas há alguns anos, também não transferiu o título, pois acha “todos os
políticos corruptos” e não vê motivo para gastar seu tempo com o assunto. Como alguém
pode viver assim, não sei.
Pois cheguei no Largo dos Açorianos pensando essas
coisas. Eram cinco da tarde, a juventude já marcava a sua presença (a passeata
estava marcada para iniciar às 18 horas) e também muita gente velha. A
juventude provavelmente porque tem ojeriza ao conservadorismo da extrema-direita
(impressionante a visibilidade que ganhou a população LGBT nas manifestações de
esquerda), a velharada porque enxerga com clareza o risco que o ideário neoliberal
do bolsonarismo representa para os “direitos previdenciários”. Afinal, neste último
caso, Daniella Marques, a assessora econômica de Flávio, inclusive cotada para
o Ministério da Fazenda, já deu a letra: Javier Milei, o atual presidente argentino,
é um “ótimo exemplo”[i]. O
tal ajuste fiscal tão desejado pelos bolsonaristas tem no governo argentino a
sua principal inspiração. Aposentados, então, se cuidem!
| Caminhada com Lula na Avenida Borges de Medeiros. |
Manifestações públicas de apoio a um candidato servem para cada um organizar as suas motivações políticas e era isso que eu exercitava, caminhando com a multidão. Como entender essa encruzilhada eleitoral em que estamos? Segui a passeata pela Avenida Borges, subi as escadas do Viaduto Otávio Rocha para melhor fotografar e fiquei admirado com o tamanho da manifestação. Impossível uma foto que desse conta da dimensão do acontecimento (200 mil pessoas, segundo os organizadores)!
| Caminhada com Lula atravessando o Viaduto Otávio Rocha. |
Eu era apenas uma gota naquele oceano e isso não me
incomodava. Mas uma moça passou mal na minha frente, foi amparada pelas amigas,
carregada por ela para fora da multidão, e fiquei imaginando o que a abalara...
Qual emoção? O entusiasmo em relação ao candidato progressista (o que era
perceptível na multidão) ou o medo quanto ao que pode vir com a possível vitória
conservadora?
Não sei. Provavelmente as duas coisas. Entusiasmo e
medo são sentimentos que povoam o coração de quem optou pela frente ampla construída
por Lula & Alckmin. O encantamento com o projeto social-democrata petista e
o horror frente à avalanche bolsonarista, que reinventou o fascismo.[ii]
Duas forças político-sociais que se digladiam nessa semana e não sei qual vingará
no próximo dia 25.
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No
final da passeata (que terminou no Mercado Público), caminhei pela Avenida
Independência e peguei um ônibus lotado. A maioria vinha da manifestação e
cantava palavras de ordens e jingles da campanha lulista. Um jovem bolsonarista
manifestou a sua contrariedade e foi obrigado a engolir em silêncio as
acusações ao seu candidato (como o de ser a “putinha do Vorcaro”, segundo uma
das canções). O meu entusiasmo não me levava a cantar com a companheirada, mas
eu me sentia como integrante da mesma torcida. Uma torcida de futebol que
voltava para casa, de um jogo que ainda não terminara, e trazia altas doses de
esperança... na vitória.
[i] https://www.condsef.org.br/noticias/coordenadora-economica-flavio-bolsonaro-vamos-nos-inspirar-nas-reformas-que-milei-fez.
Em agosto do ano passado estive na Argentina, cruzei por manifestações de
aposentados e de pessoas que recebiam benefícios assistenciais (para casos de
saúde), e o quadro era assustador.
[ii] A
definição do bolsonarismo é problemática e o conceito “neofascismo”, uma
possibilidade. Uma reinvenção do fascismo, misturando elementos tradicionais
dessa ideologia, como a desconfiança em relação à democracia liberal e a sedução
autoritária, com características modernas, como o neoliberalismo extremado e a submissão
neocolonial nos termos propostos por Donald Trump.
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