domingo, 11 de setembro de 2022

O Castelo do Major

 

Em Pelotas, na Rua XV de Novembro, esquina com a Conde de Porto Alegre, há uma construção imponente, de três pavimentos, com um torreão de 12 janelas estreitas, que ganhou o título de “Castelo do Major”. Pra castelo medieval está muito longe, mas é desse modo que é conhecida.

Na década de 1960, no caminho para o grupo escolar (na Rua XV de Novembro) eu avistava o torreão do Castelo e o associava aos contos de cavalaria que me empolgavam. Em 1966, um amigo foi morar próximo ao Castelo e passei a avistá-lo regularmente. Diversas vezes parei na calçada para admirar a construção e sondar os seus mistérios.

Tinha 10 anos de idade, tempo bom para se deixar impressionar por histórias fabulosas e hoje (quase 60 anos depois) as resumo dessa maneira: o Castelo era muito antigo e fora construído por um homem atormentado tanto por sonhos de grandeza quanto por terríveis pesadelos. Uma noite, discutiu com um empregado e o matou. Transtornado, abandonou o Castelo e foi viver muito longe. Abandonada, a casa terminou invadida por pessoas estranhas, tão atormentadas quanto o antigo morador. Verdade isso? Não sei.

Lembrei do Castelo um dia desses (durante uma sessão de psicoterapia) e resolvi conferir. Consultei o Google, encontrei o blog Pelotas Cultural, de Francisco Antônio Vidal, e obtive as seguintes informações: o prédio foi mandado construir pelo major Antônio Duarte da Costa Vidal, por volta de 1930. Mais precisamente em 1936, segundo o historiador Mário Osório. O major Vidal lutou na Campanha de Canudos e, ao ser reformado, estabeleceu-se em Pelotas e mandou construir a imponente moradia. Nenhuma informação a respeito do assassinato.

Pois fui a Pelotas dias atrás, fotografei o castelo da calçada (em completo estado de ruínas e cercado por tapumes), avistei dois homens no local do telhado e tive a impressão de que o local se encontra em restauração. Confere? Provavelmente.  


Castelo do Major. Setembro de 2022.

Na Livraria Mundial, encontrei um livro de Zênia de León sobre os casarões pelotenses e mais informações sobre o Castelo (mas muitas interrogações também).[1] Para a autora, o major “sofria de problemas traumáticos” ocasionado pela guerra no sertão baiano. Era homem culto, musicista, com “considerável biblioteca” e “dado a serenatas”. No Castelo, promovia reuniões festivas nas quais as netas tocavam piano (duas netas de um único filho). Mas depois a família se retirou para outra moradia, pois não conseguia se adaptar “aos cômodos da casa, divididos em três andares, com peças muito deslocadas”. Anos depois o major voltou a sua terra de origem (Itaqui) e morou numa casa também com ares de castelo, o “Chalé dos Vidal”.

Quanto ao assassinato, Zênia registra o episódio como lenda: o major chega em casa, encontra um empregado na sua banheira privada, se incomoda com o abuso e o afoga. Um episódio sem nenhum registro documental, diz a autora.

Parado na calçada em frente ao Castelo, lembrei do meu amigo que morava ali perto. Um dia andávamos pela calçada, ele apontou para uma das estreitas janelas do torreão e avisou:

– Olha lá, aquela mulher nos olhando. Tem jeito de bruxa!

Sim, era uma mulher de cabelos desgrenhados, com aparência de louca, os olhos cravados em nós e dizendo coisas incompreensíveis.

Ri da lembrança, mas não sei se o episódio é verdadeiro. Talvez fosse uma fantasia do meu amigo. Afinal, costumávamos brincar de cavaleiros medievais e bruxas e princesas não estavam longe do nosso imaginário. Aquela era mais uma, ora. A Moura Torta? Sei lá. Sei que nos escafedemos pra dentro de casa.



[1] LÉON, Zênia. Pelotas: casarões contam sua história – vol. 2. Pelotas: Ed. Livraria Mundial, 2013. P. 42-53.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Praça Saldanha Marinho

           Cruzo de noite a praça central de Santa Maria – Praça Saldanha Marinho – e a encontro mais escura que o habitual e completamente vazia. Então recordo a primeira vez que a conheci, trinta anos atrás, e passa um filme na minha cabeça.

Praça Saldanha Marinho. Foto de 2022.

Naquela noite, eu viera assistir a um show erótico no Cine Independência e saíra um pouco enojado do espetáculo. Tinha muita curiosidade em relação a esses espetáculos de sexo explícito, mas fora demais para mim. Difícil classificar: excitante por um lado, mas degradante também.

No final, duas mulheres de quatro, cada uma cima de uma cadeira com as bundas viradas para a plateia, encharcam as “partes” com vaselina e logo entram dois homens com as “ferramentas armadas”. É a cena do anal para finalizar a noite e um grupo de rapazes na primeira fila (com corte de cabelo cadete, provavelmente militares) bate palmas e incentiva os atores a irem fundo. Difícil descrever. Não dava para saber se a cena era erótica ou cômica. Acho que as duas coisas. Pornografia mistura tudo.

Viera com um colega professor assistir ao show e recordo que, depois do espetáculo, atravessamos a praça escura e ele foi fazer uma ligação interestadual de uma cabine telefônica. Eu me sentei num banco da praça e depois ele me contou, rindo, que uma prostituta viera falar comigo:

– Ela tava querendo fazer um programa e tu nem deu bola.

– Não notei – eu falei.

– Ela caminhava ao redor do banco e tu ali, parado, olhando pro chão. Deve ter te achado bêbado ou veado.

Foi essa a minha estreia na praça e me dou conta que já faz um bom tempo que não avisto prostitutas nessa área. Desde sempre cruzo a praça de noite e acho que fizeram uma “limpeza” no local. Às vezes, quando vou ao Teatro Treze de Maio, gosto de ficar pelas imediações depois do espetáculo terminar, vendo o movimento. As pessoas saem aos poucos, formam grupos na frente do teatro, conversam, riem, e vão se dispersando aos poucos. A praça tem vários públicos e ritmos, dá pra dizer.

Trinta anos atrás eu chegava na cidade, deixava o Magistério Estadual depois de treze longos anos lecionando em Alvorada, Canoas e Porto Alegre (desgostoso com o salário baixo) e apostava minhas fichas na Universidade Federal. Valeu a pena.

          O Cine Independência fechou (em 1995) e o local hoje abriga o chamado Shopping Popular (com os camelôs que antes ocupavam o canteiro central da Avenida Rio Branco) e nem sei se ainda existe uma casa que apresente espetáculos de sexo ao vivo. Deve existir, claro. Nunca mais fui. Mas tenho vontade de sentar num banco da praça e esperar o meu amigo terminar a sua ligação telefônica e depois sairmos andando pelo centro da cidade. Talvez na direção do Augusto, saudoso restaurante que fechou suas portas e onde “batíamos o cartão” seguidamente.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Mares desconhecidos e tenebrosos

            – Assim tu não vais ser feliz – disse a moça ao celular, no corredor do shopping, e não ouvi a continuação da conversa. Com uma mão ela segurava o aparelho junto ao ouvido, com a outra ela gesticulava, andando a passos lentos junto às vitrines das lojas. Nós cruzamos um pelo outro e aquela frase ficou ecoando dentro de mim.

O que será que o seu interlocutor fazia que não colaborava na construção da felicidade?, pensei. Mas quem entende dessas coisas? Ontem de noite eu atravessei a praça central da cidade, praticamente vazia, e de repente vi passar um catador puxando o seu carrinho e uma criança ao lado, pulando e gritando. Uma criança feliz, me pareceu.

Praça Saldanha Marinho.

Recordei a faxineira do meu prédio me contando a respeito da sua infância, na década de 1980, quando ajudava a mãe a catar ferro velho e ossos nas ruas da cidade. Elas catavam ossos no lixo e nem imaginava que isso pudesse ter alguma utilidade...

Será que entendi direito? Ossos? Mas tive vergonha de perguntar à faxineira e fiquei calado no corredor do prédio, escutando.

– E graças a Deus nós conseguíamos nos manter – ela acrescentava.

         Ontem de noite atravessei a praça central da cidade, vindo do bar – onde me encontrei com os amigos, bebi vinho e falei de literatura, dos autores que andamos lendo: Peter Handke, Josué Guimarães, Luiz Vilela, Andrea Camilleri – e aqueles catadores (pai e filho, provavelmente) me indicaram um mundo desconhecido.

A moça que ainda pouco cruzou comigo no shopping estava destrinchando algum manual de felicidade e também me pareceu distante. Seus passos eram lentos, toda a sua atenção estava no celular e senti alguma gravidade naquela conversa.

Eu tomei um café com croissant numa lanchonete, folhei meu roteiro de viagem pela Turquia (para onde embarco daqui a uma semana) e li sobre dois castelos construídos nas margens do Estreito de Bósforo por turcos otomanos, quando eles se preparavam para conquistar Constantinopla. Construções dos sultões Yildrim Beyazit e Mehmet II.

No final da década de 1970 comecei a lecionar no Ensino de 1º Grau e todos os anos eu falava a respeito da queda de Constantinopla (1453), as mudanças que isso causou no comércio europeu e o quanto essa nova conjuntura motivou os portugueses a buscarem um novo caminho para as Índias. Eu dependurava um mapa-múndi na frente do quadro verde e apontava os locais desse mundo distante: Constantinopla, Lisboa, Calcutá. Os olhos dos alunos brilhavam e os do professor também. Acho que juntos desvendávamos aquele universo.

        Um mundo desconhecido que, nos últimos anos, vem se revelando de outra maneira para mim. Já estive em Lisboa, breve estarei em Istambul. Se felicidade é tornar o mundo mais conhecido, talvez eu esteja fazendo alguma. Mesmo assim, ainda tenho a impressão de que cruzo por mares tenebrosos e desconhecidos. Mares que me desafiam e às vezes atormentam.

domingo, 4 de setembro de 2022

Conversa sobre o mundo acadêmico

Décadas atrás, bastava o título de graduação para o sujeito se tornar professor universitário. Cursos de pós-graduação e títulos de mestre e doutor vinham com o andar da carruagem, isto é, caso o professor tivesse alguma ideia original e condições para desenvolvê-la. Caso contrário, era possível fazer carreira nas universidades federais sem investir na qualificação acadêmica.

Ao longo da década de 1980, no entanto, isso mudou. A partir de então, a pós-graduação passou a ser uma exigência para inscrição em concurso e, para os professores já efetivados, uma espécie de pressão. Se o sujeito almejasse ascender na carreira e ter salário melhor, a qualificação acadêmica era indispensável.

Creio que vivi essa mudança.

No concurso que prestei para o Departamento de História da UFSM, em 1989, não constava a exigência de título de pós-graduação e isso já não era comum na época. Foi o que possibilitou a minha inscrição. Um amigo (Ricardo Napoli) leu o edital do concurso na Zero Hora, lembrou da minha penúria no Magistério Estadual e me ligou. Eu fui na mesma hora comprar o jornal e comecei a estudar naquela noite. Animação total.

Prestei concurso, fiquei em quarto lugar e soube que, apesar do edital ser apenas para duas vagas, os terceiro, quarto e quinto candidatos aprovados seriam aproveitados. Três professores do departamento estavam aguardando aposentadoria e entraríamos nas suas vagas. Fernando Collor, no entanto, tomou posse como Presidente da República no ano seguinte (1990), embaralhou a vida dos funcionários federais e os três professores suspenderam as aposentadorias. Esperaram mais um ano e, por pouco, o concurso não dançou.

Concursos em universidades federais têm validade de um ano e, se não são renovados, caducam. Isso só não aconteceu porque um professor (Teófilo Torronteguy) encaminhou pedido de renovação do concurso. Um “detalhe” que eu sequer soube na época.

Lembrei dessas histórias nessa semana, quando fui convidado para palestrar uma faculdade local (FAPAS) a respeito do tema de minha tese de doutorado: O Catolicismo Ultramontano e a conquista de Santa Maria. Entre tantas coisas, recordei que já tive planos de me tornar um andarilho como alguns personagens de Hermann Hesse. Um andarilho como Goldmund, do romance Narciso e Goldmund, ambientado na Europa medieval. Goldumund não se adequa ao ambiente do mosteiro, o lugar do conhecimento naquele tempo, e sai a andar pelo mundo em busca de saberes, da arte inclusive e também do amor.

Uma fantasia juvenil, claro, que felizmente não realizei. Me diplomei, encarei o Magistério Estadual e me submeti ao regramento do mundo – buscar o conhecimento nos marcos da academia, no caso. Quando tive oportunidade, prestei concurso para lecionar em universidade e fiz o que manda o figurino. Deu certo.

Com meu colega Luiz Eugênio Véscio (nós dois aprovados no mesmo concurso), na sala que dividíamos na UFSM, conversávamos a respeito das nossas trajetórias e eu contava que tivera a fantasia de ser andarilho. Luiz Eugênio ria muito. Gargalhava. Juntos, nós concluímos nossas dissertações de mestrado e, na sequência, procuramos ideias que nos possibilitassem ingressar no doutorado.

Antigo Prédio de Apoio da UFSM. Local onde funcionava
o Depto. de História na década de 1990. Foto de 2022.

Não foi um caminho fácil. Luiz Eugênio construiu sua tese a partir da morte de um padre na região de colonização italiana – supostamente agredido por maçons, no ano de 1900.[1] Eu bispei que o filão era rico – a história da Igreja Católica e suas transformações no final do século XIX – e por aí construí o meu projeto de doutorado.[2]

       Estávamos mergulhados na vida acadêmica dos anos 90, sentíamos a pressão para nos qualificarmos e procuramos responder a isso. Lemos muito, batemos ponto em arquivos eclesiásticos, tivemos boas conversas entre nós e também com diversos religiosos – inclusive com D. Ivo Lorscheiter, então bispo de Santa Maria, que me deu carta verde para pesquisar em alguns arquivos. Lembrei disso ao iniciar a palestra.


[1] Padre Antônio Sório foi um dos primeiros sacerdotes a atuar na 4ª Colônia de Imigração Italiana, no RGS. Teve conflitos com os colonos da região, vindo a ser agredido por um grupo e falecendo por conta dos ferimentos. Alguns dizem que os agressores eram maçons contrários à Igreja; outros, que eram familiares de uma moça que perdera a virgindade com o padre.

[2] No século XIX, a Igreja Católica passou por transformações devido à adoção do Ultramontanismo (Concílio Vaticano I, 1869-70). Isso implicou em reformas internas e novas relações com os leigos, inclusive no RGS, na cidade de Santa Maria (foco do meu estudo, no período de 1870 a 1920).

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Oftpred - colírio

           Oftpred é o colírio que me acompanha nos últimos tempos. Um colírio para uso específico: inflamação na íris. Já usei Maxidex, Predfort; agora é este. Tive a primeira inflamação nos olhos em 1977, com 21 anos, e deste então sou um usuário constante desse tipo de medicamento. Afinal tenho essa doença todos os anos, às vezes mais de uma vez – mas felizmente (na maioria das vezes) debelada apenas com colírio.

Já escrevi um poema tematizando as inflamações nos olhos, mas nunca consegui enfocar o colírio, como fez João Cabral Melo Neto com a aspirina. Em 1966, em Educação pela pedra, o poeta publicou “Num monumento a aspirina” e comparou o remédio com “o mais prático dos sóis”, “sol imune às leis da meteorologia”, pois “a toda hora em que se necessita dele, levanta e vem (...) para secar a aniagem da alma.”

Na segunda estrofe do poema, o poeta faz uma analogia da aspirina com a lente, mas com a peculiaridade de ser “de uso interno”, de funcionar “por detrás da retina” e ser capaz de reenfocar “para o corpo inteiro (...) o borroso de ao redor.”

Sempre gostei desse sol cabralino que lava a dureza da alma e dissolve o borroso ao redor. Utilizando as mesmas imagens para o colírio, diria que suas águas de cor leitosa, que podemos dispor a qualquer hora, afogam a dor e desanuviam a visão. A dor e visão nublada que irrompem nos olhos inflamados. desenhando uma coroa vermelha em torno da íris. Pequeno tormento da minha vida inteira a apontar as fragilidades do corpo.

Mas sofrimento capaz de ser contornado e combatido. Quando tive a primeira vez, o oculista (Rivadávia Corrêa Meyer) chegou a pensar que eu ficaria com a visão prejudicada. Recordo que fui atendido de emergência (por insistência da mãe), o médico pingou um colírio para dilatar a pupila, outro para combater a uveíte (outro nome para a inflamação na íris) e me mandou para casa. Voltei horas depois, ele me viu no corredor de espera e veio me examinar. Observou o olho doente, sorriu e disse:

– Reagiu.

Depois, no consultório, me examinando com uma daquelas máquinas de ver o fundo do olho, contou a sua preocupação, isto é, que tivera receio da inflamação (que era extremamente forte e demorara para ser medicada) me deixasse com sequelas irreversíveis: uma visão anuviada e a dificuldade de discernir as cores.

           Lembro de que falei do meu interesse em pintura e ele sorriu novamente. Também respirei aliviado, mas nunca fiz um poema para os colírios Maxidex, Predfort, Oftpred (entre outros), fundamentais para combater essa teia conflituosa que tantas vezes apunhala meus olhos e me deixa com a visão turva e borrosa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Caio Fernando Abreu

 

Acompanhei a repercussão em torno da demolição da casa onde o escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) viveu seus últimos anos, no Bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Há anos havia uma pequena mobilização para que a casa fosse preservada e se transformasse em casa-museu ou centro cultural, mas não vingou. A casa nunca foi inventariada como bem cultural ou patrimônio histórico e, quando o novo proprietário decidiu colocá-la abaixo (como ocorreu semanas atrás), não houve como detê-lo.

Mas é bom que se ressalve que o acervo cultural do escritor está preservado e organizado num centro de estudos literários da PUCRS: o Delfos, espaço de documentação e memória cultural. Mais de 500 itens do autor catalogados, junto com os acervos de outros escritores sul-rio-grandenses como Pedro Geraldo Escosteguy, Lila Ripoll e Vera Karam. (Quando escrevia minha dissertação de mestrado, no início dos anos 90, presenciei o início da catalogação do acervo de Pedro Geraldo Escosteguy.)

Pois acompanhei a mobilização em torno da preservação da casa dos pais do escritor, afinal, aluno do Julinho (Colégio Júlio de Castilhos), os livros do Caio estavam entre os que circulavam na minha turma, junto com os de Fernando Sabino, Gabriel Garcia Marques, Dürrenmartt e Clarice Lispector. Foi um colega de aula quem me passou o Limite branco, que fora publicado naquela época (RJ, Ed. Expressão e Cultura, 1971). O personagem central é um rapaz na Porto Alegre do final dos anos 60, com muitos questionamentos a respeito da vida, que bate pernas pela Ponta do Gasômetro, no local onde havia as ruínas de um presídio recém posto abaixo. Um local decadente que fazia parte do roteiro de caminhada de meus colegas e eu.

 Poucos anos depois, em 1975, conheci o Caio no campus da UFRGS (no Parque da Redenção). Ele tentava retomar o Curso de Letras, tínhamos um amigo comum e conversamos diversas vezes no Bar do Antônio (no campus) e também nos bares da Esquina Maldita (esquina da Sarmento Leite com Osvaldo Aranha). Caio e meu amigo Alex Borloz (já falecido) haviam vivido em comunidade hippie, usado drogas alucinógenas, participado de festas orgiásticas e isso, para um jovem careta como eu, era fascinante. Um mundo que eu desconhecia.

O Alex (meu colega no Curso de História) passara por clínica psiquiátrica para desintoxicação e procurava ter uma “vida normal” (assim mesmo, com aspas, tentativa de fugir do modelo contracultural que o encantara). O Caio, por sua vez, mesmo reconhecendo que “o sonho acabou”, mantinha a cabeça nesse universo cultural e seus contos reproduziam isso de forma magnífica. Naquele ano de 75 ele lançava O ovo apunhalado (Editora Globo) e o acompanhamos em alguns eventos – o mais inusitado num show de rock, num cinema na praia de Atlântida. Caio deu um exemplar do livro para o vocalista da banda e, do palco, o rapaz fez o “lançamento da obra”, isto é, jogou-o na direção da plateia.

Motivado por essa comoção em torno da casa onde Caio viveu seus últimos anos de vida (já debilitado pela Aids) fui reler a biografia Caio Fernando Abreu, inventário de um escritor irremediável, de Jeanne Callegari (São Paulo, Ed. Seoman, 2008). Como aponta José Castello no prefácio, um perfil de Caio Abreu que se lê como um romance. A autora encarna a perspectiva do escritor e apresenta a sua trajetória de forma muito viva, enfatizando suas inquietações, ousadias, bom humor, depressões e a serenidade com que enfrentou o final de sua vida.


         No início dos anos 90, ela indica que Caio se apresentava “meio bruxo, meio mago” – o que talvez explique o modo como muitos o encaram atualmente. O escritor Caio Abreu parece ter adquirido um outro significado além do literário – no qual sempre teve reconhecimento, sendo publicado por grandes editoras (Globo, Brasiliense, Cia. das Letras, L&PM), com aval da crítica e instituições literárias (incluído na coleção “Autores Gaúchos”, do Instituto Estadual do Livro, em 1988).

Os novos leitores, no entanto, agregaram outros sentidos a sua literatura, que não alcanço. Tempos atrás, num evento acadêmico na UFSM, soube de uns estudantes que foram acender velas no seu túmulo (no Cemitério João XXIII, em Porto Alegre). Achei muito estranho e uma professora do Curso de Letras me disse: “Não é o Caio que tu conheces, é outro”. Lembrei disso acompanhando as repercussões da demolição da casa do escritor.

 Obs: em 1975, Caio Abreu estava retomando o Curso de Letras na UFRGS. Mas não aguentou, achou o ambiente terrível e fez meu amigo Alex e eu reconhecermos que, para concluir um curso universitário, só sendo um pouco careta também. Deve ter concluído, com a sua voz forte e muitas vezes irreverente, que "isso não é para mim".

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Um catador de lixo na minha rua

 

Fui surpreendido nesta manhã por um homem revirando o lixo. Não é cena rara na minha rua. Mas dessa vez me espantei. Fui na sacada, uma xícara de café na mão, e lá estava o sujeito, inclinado sobre a lixeira de um prédio, conferindo o material. A máquina fotográfica estava à mão e, com algum constrangimento, registrei a cena. Um espetáculo degradante e comum que volta e meia me atinge feito um soco.

Fiquei olhando o homem da sacada e logo o identifiquei. Volta e meia ele passa por aqui. Tem uma bicicleta, com um engradado de plástico preso ao bagageiro, onde vai colocando o que acha que vale à pena. Um catador criterioso. Barbudo e asseado, acho que está na faixa dos 60 anos e nos cumprimentamos quando cruzamos a mesma calçada. Impressionante a naturalidade como ele realiza a sua função de catador.

– Bom dia – ele disse certa vez, quando revirava a lixeira do meu prédio, e precisei fazer um esforço para responder. Parei na calçada, conversamos sobre o tempo e não percebi revolta nem indignação na sua voz. Era um homem pobre buscando o seu sustento numa atividade inusitada para a classe média asseada que represento.

Ele tem sempre vários cachorros ao redor e já ouvi um dos meus vizinhos perguntar como cuida de tantos animais e se não se preocupa com a possibilidade deles serem atropelados por motoristas imprudentes. O catador explicou que são bichos muito bons e que atendem ao seu comando. Nas sinaleiras, por exemplo, ele faz sinais com as mãos os avisando a respeito da hora de parar e de atravessar. Naquela ocasião em que o vizinho perguntou, reproduziu os gestos e nos permitiu ver o modo atento como os cães o acompanham. Uma bicharada que lhe dá muito orgulho, ele disse, e concordamos, ao observar os olhos doces dos cães.

Não sei o nome do catador de lixo que volta e meia cruza a minha rua e apenas assinalo a sua presença. A velha má consciência se ouriça dentro de mim e, mais uma vez, exercito o olhar sobre a pobreza extrema que se apresenta diante de mim com a maior naturalidade. A pobreza que se desnuda da sacada do apartamento, numa manhã fria e ensolarada de agosto.