Em Pelotas, na Rua XV de Novembro, esquina com a Conde
de Porto Alegre, há uma construção imponente, de três pavimentos, com um
torreão de 12 janelas estreitas, que ganhou o título de “Castelo do Major”. Pra
castelo medieval está muito longe, mas é desse modo que é conhecida.
Na década de 1960, no caminho para o grupo escolar (na
Rua XV de Novembro) eu avistava o torreão do Castelo e o associava aos contos
de cavalaria que me empolgavam. Em 1966, um amigo foi morar próximo ao Castelo e
passei a avistá-lo regularmente. Diversas vezes parei na calçada
para admirar a construção e sondar os seus mistérios.
Tinha 10 anos de idade, tempo bom para se deixar
impressionar por histórias fabulosas e hoje (quase 60 anos depois) as resumo dessa maneira: o Castelo era muito antigo e fora construído por um
homem atormentado tanto por sonhos de grandeza quanto por terríveis pesadelos.
Uma noite, discutiu com um empregado e o matou. Transtornado, abandonou o
Castelo e foi viver muito longe. Abandonada, a casa terminou invadida por pessoas
estranhas, tão atormentadas quanto o antigo morador. Verdade isso? Não sei.
Lembrei do Castelo um dia desses (durante uma
sessão de psicoterapia) e resolvi conferir. Consultei o Google, encontrei o
blog Pelotas Cultural, de Francisco Antônio Vidal, e obtive as seguintes
informações: o prédio foi mandado construir pelo major Antônio Duarte da Costa
Vidal, por volta de 1930. Mais precisamente em 1936, segundo o historiador Mário Osório. O major
Vidal lutou na Campanha de Canudos e, ao ser reformado, estabeleceu-se em
Pelotas e mandou construir a imponente moradia. Nenhuma informação a respeito do assassinato.
Pois fui a Pelotas dias atrás, fotografei o castelo
da calçada (em completo estado de ruínas e cercado por tapumes), avistei dois
homens no local do telhado e tive a impressão de que o local se encontra em restauração.
Confere? Provavelmente.
Castelo do Major. Setembro de 2022. |
Na Livraria Mundial, encontrei um livro de Zênia de León sobre os casarões pelotenses e mais informações sobre o Castelo (mas muitas interrogações também).[1] Para a autora, o major “sofria de problemas traumáticos” ocasionado pela guerra no sertão baiano. Era homem culto, musicista, com “considerável biblioteca” e “dado a serenatas”. No Castelo, promovia reuniões festivas nas quais as netas tocavam piano (duas netas de um único filho). Mas depois a família se retirou para outra moradia, pois não conseguia se adaptar “aos cômodos da casa, divididos em três andares, com peças muito deslocadas”. Anos depois o major voltou a sua terra de origem (Itaqui) e morou numa casa também com ares de castelo, o “Chalé dos Vidal”.
Quanto ao assassinato, Zênia registra o episódio
como lenda: o major chega em casa, encontra um empregado na sua banheira
privada, se incomoda com o abuso e o afoga. Um episódio sem nenhum registro documental, diz a autora.
Parado na calçada em frente ao Castelo, lembrei do
meu amigo que morava ali perto. Um dia andávamos pela calçada, ele apontou para uma das
estreitas janelas do torreão e avisou:
– Olha lá, aquela mulher nos olhando. Tem jeito de
bruxa!
Sim, era uma mulher de cabelos desgrenhados, com aparência
de louca, os olhos cravados em nós e dizendo coisas incompreensíveis.
Ri da lembrança, mas não sei se o episódio é
verdadeiro. Talvez fosse uma fantasia do meu amigo. Afinal, costumávamos
brincar de cavaleiros medievais e bruxas e princesas não estavam longe do nosso
imaginário. Aquela era mais uma, ora. A Moura Torta? Sei lá. Sei que nos escafedemos pra dentro de casa.
[1]
LÉON, Zênia. Pelotas: casarões contam sua história – vol. 2. Pelotas:
Ed. Livraria Mundial, 2013. P. 42-53.
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