Fui professor de História no antigo 1º Grau, atual
Ensino Fundamental, e ministrava aulas sobre a colonização portuguesa na
América. Muitas vezes rascunhei o litoral brasileiro no quadro-verde e apontei
os principais locais de invasões francesas e holandesas no Rio de Janeiro e
Nordeste. Sobrava pouco tempo para abordar as incursões militares na Região
Norte e eu apenas indicava que o controle desse território fora de grande
preocupação para a Coroa portuguesa. Ingleses, holandeses e franceses andavam na
área e estavam de olho nas chamadas “drogas do sertão”. Lisboa mandou construir
várias fortificações e duas delas eu visitei na recente viagem à Amazônia: o
Forte do Presépio, em Belém, e a Fortaleza de São José, em Macapá.
O Forte do Presépio foi erguido em 1616, no rastro
da luta contra os franceses recém expulsos do litoral do Maranhão e foi o
primeiro marco de ocupação oficial portuguesa na Amazônia. Uma construção de
madeira e palha realizada com auxílio do povo tupinambá que morava no local.
(Interessante imaginar como os portugueses conseguiram o apoio indígena para a
sua empreitada...) O forte passou por modificações, ganhou muralhas de pedra,
fosso, portal suntuoso de entrada e hoje é um museu. Museu do Encontro,
indicando pelo título a intenção atual de valorizar o congraçamento dos
diversos povos que formaram a nossa sociedade. Uma tentativa de romper com a
glorificação colonial. Na foto abaixo, a cara atual da fortificação com canhões
ingleses do século XIX.
| Forte do Presépio, em Belém do Pará. |
| Forte do Presépio, com destaque para o portal de entrada e fosso. |
Já a Fortaleza de São José foi construída no final
do século XVIII (1762-82), nas margens do Rio Amazonas, e consta como uma das
maiores da América portuguesa. O guia que acompanhou o nosso grupo acentuou a
participação indígena e negra na construção (colocando a liderança portuguesa
em segundo plano) e disse que os canhões nunca foram utilizados militarmente. O
objetivo da construção era intimidar os inimigos e este propósito foi
alcançado: nenhum deles arriscou atacar.
Edificações militares costumam fazer parte de
roteiros turísticos e é interessante registrar que a visita a esses locais às
vezes causa certo desconforto. Afinal são locais que recordam conflitos armados
e, no caso dessas fortalezas, a expansão colonial de um reino europeu arrogante,
ganancioso e violento: Portugal. Reino que se deu a liberdade de dominar as
terras indígenas, os converter à religião católica e também os escravizar. Não
satisfeitos com isso, um reino que trouxe escravos da África e recriou a
escravidão, transformando-a num dos comércios mais lucrativos entre os séculos
XVI e XIX.
| Forte de São José, em Macapá. |
| Portal de entrada do Forte de São José. |
Pra quem gosta de História, sempre um atrativo
visitar esses locais emblemáticos da conquista colonial. A guerra é um dos
temas tradicionais da historiografia (aí estão Heródoto e Tucídides que não me
deixam mentir) assim como do cinema, como bem evidencia a recente versão da “Odisseia”,
de Christophen Nolan. A Região Norte foi um território de disputa e no início
do século XVII ingleses e holandeses fundavam fortins e feitorias na área (na
foz do Xingu, na região dos tucujus, para citar alguns locais) e exigiram
aplicado esforço militar da Coroa Portuguesa, do qual os fortes em Belém e
Macapá são pálida lembrança.[i] Não foi sem suor, sangue e lágrimas que se
estabeleceu o domínio lusitano.
[i] VIANNA,
Hélio. História do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1970. Obra da
historiografia tradicional, com farta informação política, administrativas e
militar, muito recomendada nos anos 1960 e 70. Livro de consulta obrigatória
para um estudante interessado em História, naquele tempo.
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