quarta-feira, 4 de março de 2020

"Leitura", de Almeida Júnior


Almeida Júnior pintou o quadro abaixo – “Leitura” – em 1892. É uma cena paulistana, segundo os historiadores da arte. Alguns chegam a identificar o Teatro São José, ao fundo, que se localizava próximo à Rua da Glória, em São Paulo, próximo também ao atelier do artista. O quadro também evidencia o engajamento do pintor à causa dos republicanos que ocupavam o governo do estado de São Paulo, preocupados com a educação das mulheres.

"Leitura" (1892), de Almeida Júnior.
As mulheres dominavam apenas os rudimentos das letras, naquela época, e as novas autoridades estavam interessadas em incrementar a educação feminina. No quadro, uma moça mergulha na leitura de um livro e indica o seu rompimento com a postura tradicional das mulheres (mesmo de elite) de não realizar leitura de livros. A moça é uma mulher avançada, moderna, mas seu repertório de leitura seguramente era aquele indicado pelos pais e pelo marido. Não é uma mulher independente, segundo essa interpretação.

Nesse aspecto, cabe assinalar a cadeira vazia ao lado da jovem leitora. Sobre a cadeira há uma vestimenta de homem a indicar uma figura masculina que se faz ausente, mas que provavelmente a observa e registra a cena.

Existe também uma discussão a respeito de quem é a modelo: Rita de Paula Ybarra (a companheira com a qual o pintor teve um filho) ou Maria Laura (casada com um primo e com a qual o artista teve um caso por longos anos). Tudo indica que se trata de Rita de Paula, devido às fotografias que existem dela. São muito parecidas e podem ser encontradas no Google. A hipótese de a modelo ser a amante não tem muito fundamento – se bem que há certa semelhança entre uma foto da moça (também encontrável no Google) e a modelo.

A hipótese da amante ganha relevo, no entanto, quando pensamos que o caso entre os dois durou muito e as cartas da moça, encontradas pelo marido, revelam paixão intensa. Logo após a descoberta das cartas o marido trata de se separar da esposa e mata o pintor, em 1899. O crime se dá em Piracicaba (onde o marido era conhecido cafeicultor) e nessa mesma cidade ocorre o julgamento. Os jurados entendem que o autor do crime estava privado dos sentidos e da inteligência quando esfaqueou o artista e o inocentam.

Quatro anos antes do assassinato, em 1895, o quadro fora negociado pelo artista junto às autoridades paulistas e adquirido pelo Estado de São Paulo. Hoje se encontra na Pinacoteca do Estado de São Paulo e foi lá que eu o vi e revi, em lugar de honra. É um grande quadro, de um dos principais artistas paulistas.

Outro dia reparei numa reprodução desse quadro – na parede do consultório do psiquiatra – e o associei a viúva Noronha, personagem do romance Memorial de Aires, de Machado de Assis. Engraçada a associação... Estávamos conversando sobre o mundo das elites, olhei o quadro e lembrei do Machado, do seu retrato das elites do segundo reinado... Só me dei conta de que fizera uma associação equivocada (pelo menos quanto à geografia) quando saí do consultório.

“Leitura” é uma cena paulistana, apenas contemporânea ao mundo retratado por Machado no Memorial...  (ambientado nos anos 1888 e 1889, no Rio de Janeiro). Seja como for, também retrata o universo dos ricos e talvez eu não tenha errado tão feio. Mas sei lá qual o motivo de associar o quadro “Leitura” a um romance de Machado. Talvez uma dessas voltas inexplicáveis do nosso pensamento, prezado leitor, e que nem convém investigar.

A vida tem se tornado tão inexplicável e tão desnecessário explica-la, que eu apenas registro as voltas que ela dá. Procuro formatar esses pensamentos no gênero crônica (é o que eu tenho, o que sei fazer) e deixo-as voar à cata de leitores.

terça-feira, 3 de março de 2020

A Menina do Regimento

           Em 1998, no livro coletivo Quarteto in prosa e verso, o poeta Prado Veppo publicou um poema dedicado a Maria Sem Queixo: A porta-estandarte.
“Maria Sem Queixo / Só não é / Letra de samba / Por que não foi / Contemporânea / de Noel // Pois se ela fosse / Ele teria / Certamente / Posto sua vida / Numa folha / De Papel // E ela seria / Com as cores / Da Bandeira / Porta-estandarte / Da Poesia / Brasileira”[i]
O poema integrava um conjunto que tematizava figuras populares de Santa Maria – mendigos, professores, médicos, poetas, jornalistas e um cabeleireiro –, todas pessoas  mortas – uma e outra de forma violenta, como Luizinho De Grandi (morto num assalto):
“O Luizinho morreu cedo / Como morrem os toureiros / Sangrando dentro da arena / De algum domingo em Granada.”
 Os poemas enfocavam a trajetória dessas pessoas (ou suas mortes) e desenhavam também uma espécie de cartografia de Santa Maria: um mapa das suas gentes, ruas e histórias. Um roteiro que utilizo até hoje para entender nossa cidade.
Eu não sabia coisa alguma a respeito da Maria Sem Queixo, na época, e essa crônica é para suprir essa falta de informação.
Na Feira do Livro de Santa Maria do ano passado encontrei um livro com o título A Menina do Regimento e a associação com o poema do Veppo foi inevitável, afinal Maria Sem Queixo era também conhecida como Menina do Regimento (do 7º Regimento de Infantaria – quando esse ainda se localizava na Avenida Borges de Medeiros). O livro foi lançado na mesma Feira do Livro, mesma praça, vinte anos depois do Quarteto in prosa e verso, e, para mim, foi como se completasse o poema d’A porta estandarte.
O livro, de autoria de Carlinhos Bortoluzzi[ii], tem enfoque memorialístico, priorizando as vivências do autor no NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais Regulares), no final dos anos 60 e início da década de 70, e a figura da Menina do Regimento serve como uma espécie de eixo condutor da narrativa. O NPOR funcionava no 7º Regimento e, em 1969, no primeiro dia em que o autor chega ao quartel, ele se depara com a Maria Sem Queixa. Ela vem entrando pelo portão principal, gritando e fazendo espalhafato.
O autor conhecia a mulher desde guri – quando assistia aos desfiles de 7 de Setembro e a via marchando ao lado do regimento –, mas se surpreende com o modo como ela era tratada. O guarda do portão, por exemplo, a cumprimenta formalmente, isto é, com uma caprichada continência.  

Maria Sem Queixo preparada para desfilar junto ao 7º RI.
Foto obtida na Casa de Memória Edmundo Cardoso.
 Segue daí uma série de informações sobre a Maria Sem Queixo que eu não conhecia. Nos dias de desfile, ela usava um vestido verde amarelado, com uma faixa no peito escrito “Ordem e Progresso”, e um cabo de vassoura no ombro. Na cabeça, um bico de pato (boné militar) verde oliva e, dessa maneira, compunha as cores da bandeira brasileira a que o Veppo se referia no poema.
Naquele tempo, a Avenida Borges de Medeiros era um projeto de rua (não tinha calçamento) e as casas da Vila Militar estavam começando a ser construídas. Maria sem Queixo morava por ali, num "chalezinho" (conforme diz o autor) e usufruía da maior liberdade dentro do prédio do Sétimo.
Segundo Carlinho Bortoluzzi, a história da Maria Sem Queixo remonta ao período da Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Brasileiro criou um Batalhão de Carros de Combate (3º BCC), em Santa Maria. Os tanques de guerra vieram do Rio de Janeiro, chegaram no porto de Rio Grande e seguiram de trem para Santa Maria. Os carros alcançaram a cidade em setembro de 1944 e dentro de um deles foi encontrado uma menina magrinha, com cabelo desgrenhado, malvestida, descalça e sem queixo. Ela tinha provavelmente 16 anos e disse se chamar Maria Martins. Os militares não conseguiram saber se ela viera do Rio de Janeiro, de Rio Grande, de alguma parada do trem ou de Santa Maria mesmo. Houve tentativas de localizar familiares, mas ninguém foi encontrado. Enquanto isso o comandante do batalhão providenciou acomodações para a moça e ela foi instalada num barraco nos fundos de um terreno próximo.
Em 1948 o 3º BCC mudou-se para o Boi Morto, Maria Sem Queixo foi proibida de acompanhar o batalhão e ficou instalada num chalezinho abandonado no local da atual Vila Militar. Fez amizades com os guardas do 7º RI e se tornou “integrante do Regimento”.
Com alguns percalços essa história se desenrolou até 1972, quando Maria Sem Queixo morreu. Sua moradia pegou fogo e nunca se soube se foi acidente ou crime. O comandante da 3ª Divisão, general Tácito Theóphilo de Oliveira, determinou que o comandante do 7º RI, coronel Weiss, tomasse as providências e assim foi adquirido um túmulo individual no Cemitério Municipal. No registro do cemitério ela está identificada como “menina do regimento”, sob o nome de “Maria Martins – Sem Queixo”, sem pai, sem mãe, mas com a proteção do Exército Brasileiro.
Prado Veppo tinha razão, se Noel Rose vivesse em Santa Maria, ela seria personagem de uma canção.



[i] ZANATTA, Humberto (org.), FONSECA, Orlando; PRADO VEPPO; e BIASOLI, Vitor. Quarteto in prosa e verso. Santa Maria: s/ editora, 1998.
[ii] BORTOLUZZI, Carlinhos. A Menina do Regimento: Maria Sem Queixo, Mula Sem Cabeça e outras histórias da caserna. Santa Maria: s/ editora, 2019.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Visita a San Marino


O Facebook postou três fotos minhas, tiradas na República de San Marino, três anos atrás. Fotos de fevereiro de 2017. Tinha esquecido que visitara esse pequeno país, encravado no meio do território italiano, e fiquei surpreso. Naquela época, estava com uma turma de brasileiros fazendo um programa de língua e cultura italianas em Campus Magnoli, na cidade de Castelraimondo, e San Marino fazia parte do nosso roteiro. Eu próprio fiz a postagem, na época.

Sede do governo da República de San Marino.
Naquele dia tive aula pela manhã e, à tarde, com o grupo, fui a San Marino. Pouco mais de uma hora de viagem. Era uma tarde fria e ouvira que o local era muito bom para comprar produtos eletrônicos, especialmente relógios. E de armas também, ouvi alguém dizer, rindo, e acentuando: qualquer tipo de armas.

Então chegamos, fizemos um tour pela piccola città – encarapinhada no alto de uma montanha, cercada de muralhas – e só depois fomos às compras. Escutara que o comércio ficava até tarde e não me preocupei. Mas não foi o que ocorreu naquele dia. Havia poucos turistas (talvez devido ao frio) e a maioria dos comerciantes fecharam as portas mais cedo.

Encontrei uma e outra loja de produtos eletrônicos abertas, olhei os relógios, nenhum me agradou e fiquei espantado com armas. Algumas vitrinas estavam atulhadas de armas de todos os tipos, especialmente pistolas, alguma metralhadoras – essas, as que me chamaram mais atenção. Pequenas metralhadoras capazes de fazer muito estrago.

Quem compra isso?, perguntei. E, caso compre, como cruza a fronteira da República de San Marino e anda pela Itália carregando essas armas? Ninguém soube responder.

Voltamos para a escola (os alojamentos ficavam próximos a escola) e aquele foi um dos assuntos da noite, no meu apartamento, em torno de uma garrafa de vinho: as armas.

Tinha esquecido tudo isso. Olhei ainda pouco as fotos que tirei naquele dia em San Marino e nenhuma delas foi de uma vitrine de armas. Que pena! Cheguei a pensar que era imaginação minha: ora vender metralhadoras em lojinhas de uma cidade turística!

Mas não é delírio. Apesar de não ter encontrado muita coisa no Google a respeito – nenhum dos blogs de viagem que consultei aprofunda o assunto “comércio de armas em San Marino” –, as armas estão lá. Minha memória não está me enganando. 

É isso – mais do que por qualquer outro motivo –, é por causa da memória que estou escrevendo essas linhas. Estou esquecendo. Estou embaralhando as coisas. Os exemplos são vários: essa visita a San Marino, uma visita a Igreja do Carmo, na cidade do Porto, um passeio pelo Carnaval de Veneza, e por aí vai.

Por isso escrevo: para registrar. Para não deixar o tempo roer minhas lembranças e tudo se apagar.
Vista do entorno da montanha onde se localiza San Marino.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Poeta romântico (lembrança de viagem)


Era uma tarde de chuva fina e tínhamos descido no cais da Marinha, no Rio de Janeiro, após visitar a Ilha Fiscal. Deviam ser catorze e trinta e achamos que poderíamos pegar o almoço na Confeitaria Colombo. Não era perto, não era longe. Provavelmente um táxi nos fizesse dar muitas voltas e resolvemos ir a pé. Pegar a Rua 1º de Março, dobrar na Rua do Ouvidor e, mais adiante, virar à esquerda, numa rua que tinha o nome de um poeta, um poeta... que eu não lembrava o nome. Um poeta romântico, eu tinha certeza.
Eu havia deixado o guia de viagem no hotel, estava sem mapa, e nos abrigávamos da chuva fina debaixo de uma sombrinha. A água molhava nossos tênis e a Rose me perguntava:
– Tu sabes mesmo o caminho?
– Ora, como não. Já andamos por aqui diversas vezes – eu respondia. Mas eu não lembrava o nome da rua, o nome do poeta que dava nome à rua...
Quando dobramos uma rua (eu achava que era aquela), um camelô me disse: “É essa, sim, a rua da confeitaria”. Eu li o nome na placa e tudo me veio de cambulhada: o nome do poeta e seus versos. Gonçalves Dias e o canto do índio infeliz, prisioneiro de uma tribo inimiga: “Meu canto de morte, / Guerreiro, ouvi: / Sou filho das selvas, / Nas selvas cresci; / Guerreiros, descendo / Da tribo tupi.”
Minha mãe recitava trechos desse poema (I-juca-pirama). Complexo poema de temática indigenista. Um índio tupi é preso pelos timbiras, colocado para ser morto ritualmente e depois banqueteado. Mas ele implora para ser solto, para poder ajudar o pai – velho e cego, que está perdido na floresta – e, quando o pai sabe disso – que ele não se deixou ser sacrificado –, o pai sente profundo desgosto pelo filho. Que covarde!, grita o pai.
Ao me sentar diante de uma das mesas da confeitaria e saber que o almoço tinha terminado – “Só lanches a partir de agora”, avisou o garçom –, o poema ainda ecoava dentro de mim. Na verdade, era minha mãe recitando  o poema que eu lembrava. Era a sua voz.
“Tu choraste em presença da morte?” – grita o pai para o filho que implorou pela vida para ajuda-lo. “Na presença de estranhos choraste? / Não descende o cobarde do forte; / Pois choraste, meu filho não és!”
Eu ria lembrando da mãe, as diferentes ênfases que ela dava à voz de cada um dos personagens do poema, e pedi um conhaque (um brandy, estava escrito no cardápio) em homenagem a ela. Ela aprovaria na certa e talvez dissesse que era a pedida certa para aquecer o corpo depois da chuva.
Pedimos sanduíches que valiam uma refeição (o meu – um beirute – seguramente uma refeição) e nos refestelamos. Observamos as pessoas que nos rodeavam – um casal de alemães que se deliciavam com sorvetes coloridos, um casal gay que se mirava gulosamente (na verdade, o homem mais velho olhava o jovem parceiro de maneira intensa, quase engolindo-o, enquanto o rapaz não se desprendia do celular) e conversamos sobre a Ilha Fiscal.


Guarita e cais da Ilha Fiscal. Ao fundo, o Rio de Janeiro.
Divertido ser turista numa cidade com tantas camadas de história, ritmos e sabores. Na Ilha Fiscal, chegamos a ficar emocionados com o fim do Império brasileiro e a Rose lembrou sua professora de História do Brasil comentando “o último baile da monarquia”. Eu tentei falar de Gonçalves Dias, do seu romantismo – o seu modo idealizado de abordar o mundo – e do quanto tudo isso me moldou, mas desisti. 
– Sou um pouco de tudo isso, esse romantismo, essa idealização. Ou era, sei lá. – Tentei falar. Mas tudo muito complicado. Complicado demais para um dia de turistagem no Rio de Janeiro. E fomos caminhar pelo centro da cidade. Agora sem precisar abrir a sombrinha, pois havia parado de chover.
Pegamos o metrô na Estação Carioca, descemos na Arco Verde. A Rose queria comprar uma bolsa, numa sorveteria colada ao Copacabana Palace, e eu não esquecia Gonçalves Dias.
Naquele dia, catei o poema no Google e o reli. E, ao meu modo, o recriei lembrando minha mãe: Um velho professor, de poucas glórias, / Guardou na memória um antigo poema. / E nos lugares mais inusitados – na Confeitaria Colombo – / Ele o repete para quem quiser ouvir: / Meninos, eu ouvi / Minha mãe cantar esses versos.
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Para quem não lembra o final do poema (eu não lembrava), conto aqui o final. O pai leva o filho de volta a tribo dos timbiras e o rapaz arma um escarcéu – “A taba se alborota, os golpes descem, / (...) / Vozes, gemidos, estertor de morte”. O chefe timbira se convence que ele é valente e diz que ele merece ser honrado em morte ritual e depois ser devorado pelos guerreiros. “Este, sim, que é meu filho muito amado!”, diz o pai.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Considerações a respeito da greve do Magistério Estadual de 1987


Quem foi professor do Magistério Estadual do Rio Grande do Sul dificilmente esquece a greve de 1987. Durou mais de três meses. No meio desse movimento, para demarcar o espírito de luta da categoria, o comando de greve decidiu fazer um acampamento na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini. Era o primeiro ano do Governo Pedro Simon e os professores cobravam o cumprimento de um acordo de greve, feito durante o governo anterior (de Jair Soares), o qual estabelecia que o piso salarial da categoria seria de 2,5 salários mínimos. Em números de hoje, seria um piso de R$ 2.597,00 (considerando o salário mínimo nacional de R$ 1.039,00), abaixo do piso nacional do magistério estabelecido em janeiro desse ano (R$ 2.886,00).

Foi uma greve de enorme adesão. Eu morava em Porto Alegre, lecionava em duas escolas estaduais (uma na Cidade Baixa, outra no bairro Rubem Berta), e participei das manifestações na Praça da Matriz, inclusive passei algumas noites no acampamento. Tinha certeza de que sairíamos vitoriosos, mas fomos derrotados. Na verdade, destroçados. Se pensarmos o amplo movimento do magistério desde o final dos anos 70 (a partir da greve de 79), foi um ponto de virada. A categoria nunca mais foi a mesma. Para a minha geração, que ingressou no Magistério e na luta sindical no final dos anos 70 – e acreditou que a redemocratização era também a recuperação econômica dos assalariados em geral –, foi uma dura aprendizagem.

Relembro esse episódio porque o jornal Zero Hora tocou no assunto dias atrás, ao publicar uma longa reportagem sobre os 90 anos de Pedro Simon.[i] Como não podia deixar de ser, a greve de 1987 foi abordada. Segundo a reportagem, “o magistério entrou em greve por mais de 90 dias devido ao não pagamento de um aumento salarial deixado pelo antecessor Jair Soares”. Nas palavras de Cezar Schirmer (que era Secretário da Fazenda em 87), “[v]incularam o piso dos professores a dois salários mínimos e meio. Era impagável e inconstitucional”. E, para arrematar, Pedro Simon declarou ao jornalista: “a Assembleia [Legislativa] votou aumento salarial [dos professores] que não tinha como pagar. (...) Não paguei e a greve estourou.”

Página do jornal Zero Hora a respeito da greve de 1987 e do governador do Estado.

Escrevi e-mail ao jornalista afirmando que o entendimento de quem  viveu o movimento grevista não é o configurado pela reportagem. O Magistério Estadual não cobrava um pagamento deixado por Jair Soares. Cobrava um acordo de greve, aprovado pela Assembleia Legislativa, com amplo apoio da bancada peemedebista. A vinculação do piso da categoria a 2,5 salários mínimos foi uma reivindicação dos professores que teve endosso do PMDB, inclusive com um inflamado discurso do então deputado Cezar Schirmer no plenário da Assembleia. Durante a greve, trechos desse discurso foram escritos num cartaz e pregado numa árvore da Praça da Matriz.

Em 87, quando o PMDB se tornou governo, o partido mudou o entendimento a respeito das reivindicações do Magistério e Pedro Simon expressou isso de forma brutal. Não pagou e pronto. Deixou o Magistério ir à greve, não cedeu e venceu. Como me disse um peemedebista tempos depois: “o governo não podia ficar refém do Magistério”. Que derrota! Que derrota a categoria viveu!

Enviei um e-mail ao jornalista da Zero Hora, autor da reportagem, expressando esse entendimento de velho professor. Não recebi resposta e provavelmente não receberei. Não importa. Jamais esquecerei o que vivi naquele tempo e entendo que meu entendimento não está errado.
No dia em que a categoria encerrou a greve, voltei a Praça da Matriz com meus colegas e desarmamos o acampamento. Ao meu lado, um colega aguerrido continha as lágrimas com muito esforço e me lembro disso até hoje. Seu esforço para controlar a emoção, conter a dor e manter a dignidade me parece um retrato do Magistério Estadual. Da sua constante humilhação e do seu incontido idealismo. O outro lado da lógica brutal que os governos do Rio Grande do Sul têm utilizado para lidar com as demandas dos professores.

Obs.: Ao contrário do que escrevi acima, o jornalista que entrevistou Pedro Simon respondeu ao meu e-mail. E endossou o entendimento do velho político, segundo o qual o seu governo não tinha compromisso algum com a demanda do Magistério quanto ao piso de 2,5 salários mínimos. 


[i] ROLLSING, Carlos. 90 anos de conciliação. Zero Hora, Porto Alegre, 1º e 2 de fev. 2020, p. 14-16.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Piazza Navona Underground


O ano de 2019 me proporcionou belas surpresas, alguma delas vividas em museus e sítios arqueológicos. Experiências que até agora procuro assimilar. Uma delas ocorreu na chamada “Piazza Navona Underground”, isto é, nos subterrâneos da famosa praça. Um sítio arqueológico que permite conhecer parte do Estádio de Domiciano, construído no final do século I d.C. 

Entrada do sítio arqueológico.

O visitante desce alguns degraus e pronto: pode circular pelos arcos e paredes da antiga construção romana. Foi ali, num dos arcos desse estádio, que a jovem Inês foi sacrificada por sua adesão ao Cristianismo (a jovem transformada em santa e até hoje homenageada numa grande igreja na praça).

O estádio foi construído no então Campo de Marte (região da cidade que abrigava os exercícios militares no tempo da Roma Republicana) e consta que foi a primeira construção feita especialmente para a prática e exibição atléticas. Tinha uma arena de 200 metros ou mais (ver foto da maquete), o espaço hoje ocupado pela Piazza Navona. 

Maquete do Estádio de Domiciano.
O visitante pode alugar um audiofone em língua portuguesa e se deliciar. Foi o que fiz, tentando imaginar o que foi a Roma Imperial que usufruiu esse espaço (que comportava uma plateia de 15 a 20 mil pessoas) e o que aconteceu com o local ao longo do tempo.

No final do Império o estádio já não era mais utilizado para práticas atléticas e foi ocupado por lojas e habitações. Ao longo da Idade Média e do Renascimento sofreu lenta deterioração e grande parte de suas pedras serviram para as mais diversas construções, como igrejas e palácios da Igreja Católica. Depois as ruínas foram sendo soterradas e sobre elas se ergueram as habitações, palácios e igreja, que constituem o entorno da praça.

Um prazer enorme esse de acompanhar as transformações ao longo do tempo, isto é, as construções da Roma Imperial no subsolo da praça e, subindo à superfície, visitar os prédios do Mundo Moderno, como a Igreja de Sant’Agnese in Agone e o Museu de Roma (antigo palácio de uma família papal, do papa Pio VI). Um prazer que a cidade se esmera em proporcionar.

Ainda dentro do sítio arqueológico dedicado ao “Stadio de Domiziano” encontrei uma exposição temporário curiosa: “L’arte dell’amore non violento nell’antica Roma”. Roma não se caracterizou por práticas sexuais amorosas segundo alguns historiadores (devido ao fato dos casamentos serem realizados por homens maduros com mulheres jovens, essas obrigadas ao contrato matrimonial), mas os curadores da exposição aventam outra hipótese: a de que a Roma Antiga tem muito a ensinar ao mundo contemporâneo em relação às práticas sexuais. Para evidenciar isso, a exposição de reproduções e de algumas peças da arte erótica greco-romana.

Sem dúvida alguma um tema instigante. O Mundo Antigo não tinha os pudores que a Cristandade instaurou em relação à sexualidade e fartou-se em produzir representações de corpos nus para serem exibidos e admirados. A Vênus Calipígia, a deusa “dal bel sedere” (da bunda bonita), é uma comprovação disso. Uma cultura que valoriza as nádegas de mulheres e homens é, se pensarmos do ponto de vista da Civilização Ocidental (marcada pela rígida moralidade cristã) algo admirável.

Vênus Calipígia.
E, nesse sentido, concordo com os curadores da exposição: a Roma Antiga ainda tem muito a nos ensinar. Ao que tudo indica, sua arte erótica tinha ampla circulação, não estava restrita ao submundo, e isso deve ter proporcionado bons resultados. Até na esfera religiosa estava presente esse erotismo, como demonstra a famosa Vênus que, na escultura, dá uma viradinha para apreciar sua “sedere”. Algo muito distante na mitologia cristã, na qual as divindades femininas são todas virginais – ou, se um dia praticaram sexo, se arrependeram (como a lendária Maria Madalena).

"Scena di accopiamento da una caupona [restaurante] pompeiana."

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Santa Inês em chamas


O rapaz era zen budista e estávamos conversando num café, numa sessão de lançamento de livro, aqui em Santa Maria. Falávamos sobre religiões, a respeito do filme do Scorsese, “Silêncio”, que trata da introdução do Cristianismo no Japão, por jesuítas portugueses. De repente, ele diz que os cristãos carregam no peito um símbolo de tortura e não se dão conta disso. Sorrio (acho que sorrio) e penso (mas não chego a falar) que não é bem assim.

Penso que talvez a maioria dos cristãos não tenha clareza quanto a cruz ser um instrumento de tortura do tempo do Império Romano. Mas que sabem, sim, que carregam no peito a sombra de um martírio, os ecos de um sacrifício. Afinal, essa referência ao martírio, ao sacrifício, isso é uma obrigação do cristão.

No entanto, não disse nada disso. Ou não falei com essa ênfase. Era conversa de café. O rapaz só queria dizer que o cristianismo tem esse aspecto mórbido, de apego a um símbolo de sofrimento e por isso ele era zen budista. Eu não quis aprofundar o assunto e falei, vagamente, que o martírio é central na história da Cristandade. Taí o filme do Scorsese, o drama de seus personagens missionários, que não me deixa mentir, e trocamos de assunto.

Mas saí do café pensando no tema. Lembrando. Estive na igreja de Santa Inês (Sant’Agnese in Agone), em Roma, no mês de outubro, e fui tocado pela história de martírio da santa.

Estava sentado num banco da igreja, na nave central, e sorvia a magnífica luz do ambiente. A igreja tem forma circular, com uma cúpula enorme abrigando a nave central, e aberturas muito grandes, no alto, que proporcionam uma luz abundante. Era o final de um dia de outono e a luz era suave, quase divina. Eu tinha um folheto da igreja nas mãos (em espanhol) e seguia com os olhos as esculturas, os relevos e as pinturas do entorno. Estava embevecido.

De repente, fui capturado pela escultura de Santa Inês entre as chamas. Uma escultura do século XVII, barroca, num altar lateral. A jovem Inês (13 anos, segundo a tradição) era uma aristocrata do tempo do Império Romano e foi jogada numa grande fogueira, condenada por ser cristã. A escultura representa justamente esse momento. A santa com uma expressão serena, sublime, num momento de extrema dor, vivendo a sua cruz. O fogo não foi capaz de matá-la e um soldado a golpeou no pescoço com uma espada. O ano era o de 304, segundo a tradição.

"Santa Inês em chamas", de Ercole Ferrata.
Naquela hora, no centro da igreja de Santa Inês, fui banhado pela agonia da jovem romana. Pelo seu martírio. Ela se negou à vida profana, a um casamento com um jovem aristocrata e disse ao rapaz que amava alguém “muito mais nobre e de melhor linhagem” (Cristo).

A jovem Inês morreu por conta disso. Recusou um pretendente nobre e foi posta à prova. Obrigada a prestar homenagem aos deuses romanos, afirmou a sua fé cristã e as autoridades a condenaram. A igreja foi construída no local do martírio.

Saí desse templo católico cansado e fiquei por um tempo sentado na Piazza Navona (em frente da igreja). Era entardecer e depois fui caminhar pela cidade até noite adentro. E beber vinho também. Certo de que tinha vivido uma das experiências que Roma sabe proporcionar: a de nos colocar no centro do mundo. Ou, no caso, no centro da Cristandade.

E talvez fosse isso que eu gostaria de dizer ao meu interlocutor zen budista: o fascínio pelo martírio está no eixo do Cristianismo tradicional. Por isso a Cruz, a terrível Cruz, símbolo da tortura que Cristo sofreu e que os santos procuraram simular. E as igrejas católicas romanas, as barrocas especialmente, são pródigas em abordar e exaltar esse assunto. E abordar com um requinte artístico e uma sensualidade que acredito não poder vivenciar em nenhum outro lugar.

Mas isso não dava para falar num café. Talvez apenas numa crônica. Uma estranha crônica de viagem. Dessas em que o viajante relembra as suas visitas às igrejas e procura reviver as emoções provocadas pela grandeza desses templos. Os templos romanos, no caso. Especialmente os barrocos, plenos de representações artísticas do sofrimento sublime vivido pelos santos – Santa Inês, Santa Teresa de Ávila – centrais na história da Cristandade, centrais na nossa tradição ocidental.


Obs.: além do folheto da igreja, conferi informações sobre Santa Inês no livro clássico da hagiografia, escrito no século XIII, por Jacopo de Varazze: Legenda áurea: vida dos santos (Companhia das Letras, 2003, 1.040 p.).