quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Santa Inês em chamas


O rapaz era zen budista e estávamos conversando num café, numa sessão de lançamento de livro, aqui em Santa Maria. Falávamos sobre religiões, a respeito do filme do Scorsese, “Silêncio”, que trata da introdução do Cristianismo no Japão, por jesuítas portugueses. De repente, ele diz que os cristãos carregam no peito um símbolo de tortura e não se dão conta disso. Sorrio (acho que sorrio) e penso (mas não chego a falar) que não é bem assim.

Penso que talvez a maioria dos cristãos não tenha clareza quanto a cruz ser um instrumento de tortura do tempo do Império Romano. Mas que sabem, sim, que carregam no peito a sombra de um martírio, os ecos de um sacrifício. Afinal, essa referência ao martírio, ao sacrifício, isso é uma obrigação do cristão.

No entanto, não disse nada disso. Ou não falei com essa ênfase. Era conversa de café. O rapaz só queria dizer que o cristianismo tem esse aspecto mórbido, de apego a um símbolo de sofrimento e por isso ele era zen budista. Eu não quis aprofundar o assunto e falei, vagamente, que o martírio é central na história da Cristandade. Taí o filme do Scorsese, o drama de seus personagens missionários, que não me deixa mentir, e trocamos de assunto.

Mas saí do café pensando no tema. Lembrando. Estive na igreja de Santa Inês (Sant’Agnese in Agone), em Roma, no mês de outubro, e fui tocado pela história de martírio da santa.

Estava sentado num banco da igreja, na nave central, e sorvia a magnífica luz do ambiente. A igreja tem forma circular, com uma cúpula enorme abrigando a nave central, e aberturas muito grandes, no alto, que proporcionam uma luz abundante. Era o final de um dia de outono e a luz era suave, quase divina. Eu tinha um folheto da igreja nas mãos (em espanhol) e seguia com os olhos as esculturas, os relevos e as pinturas do entorno. Estava embevecido.

De repente, fui capturado pela escultura de Santa Inês entre as chamas. Uma escultura do século XVII, barroca, num altar lateral. A jovem Inês (13 anos, segundo a tradição) era uma aristocrata do tempo do Império Romano e foi jogada numa grande fogueira, condenada por ser cristã. A escultura representa justamente esse momento. A santa com uma expressão serena, sublime, num momento de extrema dor, vivendo a sua cruz. O fogo não foi capaz de matá-la e um soldado a golpeou no pescoço com uma espada. O ano era o de 304, segundo a tradição.

"Santa Inês em chamas", de Ercole Ferrata.
Naquela hora, no centro da igreja de Santa Inês, fui banhado pela agonia da jovem romana. Pelo seu martírio. Ela se negou à vida profana, a um casamento com um jovem aristocrata e disse ao rapaz que amava alguém “muito mais nobre e de melhor linhagem” (Cristo).

A jovem Inês morreu por conta disso. Recusou um pretendente nobre e foi posta à prova. Obrigada a prestar homenagem aos deuses romanos, afirmou a sua fé cristã e as autoridades a condenaram. A igreja foi construída no local do martírio.

Saí desse templo católico cansado e fiquei por um tempo sentado na Piazza Navona (em frente da igreja). Era entardecer e depois fui caminhar pela cidade até noite adentro. E beber vinho também. Certo de que tinha vivido uma das experiências que Roma sabe proporcionar: a de nos colocar no centro do mundo. Ou, no caso, no centro da Cristandade.

E talvez fosse isso que eu gostaria de dizer ao meu interlocutor zen budista: o fascínio pelo martírio está no eixo do Cristianismo tradicional. Por isso a Cruz, a terrível Cruz, símbolo da tortura que Cristo sofreu e que os santos procuraram simular. E as igrejas católicas romanas, as barrocas especialmente, são pródigas em abordar e exaltar esse assunto. E abordar com um requinte artístico e uma sensualidade que acredito não poder vivenciar em nenhum outro lugar.

Mas isso não dava para falar num café. Talvez apenas numa crônica. Uma estranha crônica de viagem. Dessas em que o viajante relembra as suas visitas às igrejas e procura reviver as emoções provocadas pela grandeza desses templos. Os templos romanos, no caso. Especialmente os barrocos, plenos de representações artísticas do sofrimento sublime vivido pelos santos – Santa Inês, Santa Teresa de Ávila – centrais na história da Cristandade, centrais na nossa tradição ocidental.


Obs.: além do folheto da igreja, conferi informações sobre Santa Inês no livro clássico da hagiografia, escrito no século XIII, por Jacopo de Varazze: Legenda áurea: vida dos santos (Companhia das Letras, 2003, 1.040 p.).

domingo, 8 de dezembro de 2019

A estátua do imperador Constantino


Passei um mês na Europa e ainda estou procurando entender o que vivi. Andei por Roma, Paris e Lisboa, e cada cidade descortinou um universo diferente. Cada cidade um perfil (na verdade, vários perfis) e haja fôlego, paciência e inteligência para decifrá-los. Não chegarei a tanto, isto é, a distinguir as várias faces dessas cidades, mas vou tentando.

No pátio interno do Palazzo dei Conservatori (Palácio dos Conservadores, um dos dois prédios que formam os Museus Capitolinos, em Roma) encontrei a cabeça do imperador Constantino “encontrei” num pátio interno e levei um susto. A cabeça (2,5 metros), uma das mãos e outros fragmentos de uma estátua de mármore de 12 metros do imperador, construída no século IV.

Fragmentos da estátua de Constantino no Palazzo dei Conservatori.
O fundador da Cristandade “jogado” num pátio?, me perguntei. Uma reação exagerada, claro, mas justificável. Constantino foi o imperador romano que acabou de vez as perseguições e trouxe os cristãos para a órbita do Estado. O imperador percebeu que a religião cristã servia aos propósitos das reformas que vinha realizando, no sentido de centralizar a monarquia e não titubeou. O monoteísmo cristão servia como uma luva para a construção do poder absoluto no imperador (uma única divindade, um único soberano) e ele adotou essa visão de mundo.

Constantino não era um piedoso cristão e sim um estadista, o qual, diante da crise e anarquia vividas pelo Império, propôs a sua reestruturação política, administrativa, militar e também religiosa. Costumeiramente, os historiadores leem no rosto dessa estátua – nos grandes olhos, na expressão endurecida – a modulação rigorosa de um imperador que soube projetar o Império para o futuro, tendo o cristianismo como um dos seus pilares. E a Cristandade (o predomínio político-religioso da religião cristã) tem início no seu governo. Os primeiros passos da Igreja como instituição organizada e, décadas depois, seu estabelecimento como religião oficial do Estado romano.

E a famosa cabeça de Constantino, essa figura central para o mundo cristão, estava ali, no pátio do museu – aparentemente exibida sem destaque, como tanta coisa em Roma. Uma peculiaridade romana que tonteia um visitante como eu, embasbacado com a importância histórica dessa cidade e do seu acervo. Peças de valor inestimável – como a cabeça de Constantino (no pátio do Museu), o Discóbolo (no canto de uma sala do Museu do Vaticano), o “Repouso durante a fuga para o Egito”, de Caravaggio (numa simples parede do Palazzo Doria Pamphilj) – exibidas com alguma displicência, com um à vontade, que a chega a tontear.

Ao centro, "O repouso durante a fuga para o Egito", no Palazzo Doria Pamphily.
Mas isso é Roma, conclui. Uma cidade que abriga uma variedade tão grande de objetos e marcas e signos – a Roma dos imperadores, dos papas, dos Renascimento, do barroco, do neoclassicismo, do Risorgimento (para ficar apenas nas camadas que prenderam minha atenção) – que acaba não destacando apropriadamente cada uma delas e as apresentando simplesmente. Certas salas dos museus do Vaticano, dos Capitolinos, do Palácio Doria Pampihly me pareceram assim: com obras exibidas de qualquer maneira, num à vontade, uma naturalidade, que me espantou. Uma percepção exagerada da minha parte (nem sei explicar), talvez fruto da emoção com que vivi esse passeio, experimentando surpresas a cada momento.

A estátua de Constantino foi apenas a porta de entrada no acervo magnífico dos Museus Capitolinos. Uma sucessão de maravilhas, de histórias, de belezas, de deslumbramentos. Quando fui fazer um lanche no meio da tarde – um panini, um cálice de vinho – e encontrei algumas pombas sobre as mesas do restaurante, não estranhei. Elas estavam ali como a estátua de Constantino, a Vênus Capitolina, a Vênus Esquilina, e eu que convivesse – sem estardalhaço nem espanto – com a beleza e a graça que as caracterizam. Pois foi o que fiz – eu, um reles mortal, que teve sorte de cair naquele local.

Na lancheria do Palazzo dei Conservatori.

sábado, 30 de novembro de 2019

Galerias Lafayette


Fazem parte do roteiro turístico lugares que não são para o nosso bico. No Rio de Janeiro, certa vez, entrei no Copacabana Palace, me instalei numa das mesas do pergolado da piscina, tomei um cálice de vinho branco e me senti uma espécie de penetra. Mas só entrei por conta da insistência da minha companheira.

Fomos atendidos por um rapaz argentino que tinha curso de graduação em Arqueologia e acho que ele sacou que não pertencíamos àquele território. Nem por isso deixou de nos tratar bem e até disse que o vinho que eu pedira era uma boa escolha.

Então é esse o mundo dos bacanas?, pensei, lembrando a leitura de “Os Guinle: a história de uma dinastia”, um belo trabalho historiográfico a respeito dessa família que se expandiu a partir da exploração do porto de Santos, concessão adquirida no final do século XIX. Um dos rebentos da família resolveu investir na hotelaria de luxo e o resto faz parte do folclore glamuroso do Rio. Hoje o hotel não pertence mais aos Guinle, mas os novos donos mantem o charme do local.

Conto essa história porque na recente viagem a Paris também me aventurei num território que não é o meu: fui visitar as Galerias Lafayette, o templo da moda parisiense. Fui por insistência da Rose, minha companheira, claro, e acabei gostando. Nem sabia que as tais galerias existiam, pois, afinal, o que sei de produtos da Dior, Louis Vuitton, Saint Laurent e coisas do gênero?

Mesmo assim, com toda a minha ignorância a respeito do mundo da moda e do luxo, uma visita que valeu a pena. Vencido algum constrangimento, achei divertido flanar pelos corredores repletos de grifes famosas, olhar os preços e também as filas diante das lojas, filas de 10 a 15 pessoas, a maioria mulheres – algumas delas milionárias chinesas, essas figuras peculiares criadas pelo socialismo de mercado chinês.

E, diferente do que vivi no Copacabana Palace, não me senti um penetra. Provavelmente porque ali os simples visitantes (isto é, aqueles que não são consumidores potenciais) estão previstos na dinâmica da casa. Para visitar a famosa cúpula (ver fotos abaixo) há uma plataforma que avança pelo espaço, um local para a fila, um funcionário administrando os visitantes e batendo palmas quando termina o tempo da visita. Talvez o mesmo período de tempo permitido pelos guardas do Louvre aos visitantes da “Mona Lisa”. Deleite-se, mas com tempo marcado.

Seja como for, um espetáculo que enche os olhos, não custa nada nem se paga ingresso, como escreveu uma jornalista de turismo que leio regularmente.

Espaço interno da cúpula das galerias, com a plataforma para visitantes.

A plataforma com os visitantes extasiados.

Na primeira vez que fui às Galerias, fiz o roteiro de praxe (entrar no plataforma, tirar fotos) e depois sentei num café no entorno para apreciar melhor a cúpula secular e a infinidade de “lojinhas”, o território pujante do consumo de luxo. Não houve jeito de não lembrar de um filósofo contemporâneo se referindo ao capitalismo como um extraordinário sistema de produção de riquezas – mas também de misérias. No caso, porém, eu estava apenas diante das riquezas. Um grande espetáculo, a Paris dos cartões postais, da moda e do esplendor (como nos tempos do Rei Sol, exagerando).
Observando atentamente o local, minha companheira comentou que nunca vira tanta gente vestida de grife por metro quadrado. E não qualquer grife, mas as mais caras. Achei a observação ótima, talvez a síntese das Galerias ou, ao menos, dos seus personagens principais, os consumidores potenciais. Um território fascinante, distante do bolso da maioria dos turistas, mas nem por isso descartável num roteiro parisiense. Quem sabe o tipo de local que muitos de nós procuram quando viajam ao exterior. O território das fotos deslumbrantes das revistas, das reportagens de TV, que nós vemos sentados no sofá da sala de casa e nos perguntamos: será que existe? 

sábado, 23 de novembro de 2019

O Palácio de Versalhes e o Petit Trianon


Visitei o Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris, no mês passado, e o passeio ainda não me saiu da cabeça. Fiquei mais de duas horas na fila, debaixo da chuva fina, e talvez isso tenha colaborado. Que expectativa! Me senti personagem de filme, naquelas cenas onde a plebe ignara se comprime diante das grades do Palácio Real e olha (furiosa, indignada e cheia de inveja) a riqueza e o luxo dos poderosos.

Quando entrei no palácio, no entanto, errei o caminho. Cabeça formada pelo cinema, disse para a minha companheira que fossemos pela porta central (atravessando o Pátio de Mármore) e ela aceitou. No seriado que vimos no Netflix, “Versalhes”, é por ali que o rei entrava... Mas isso no seriado. Na verdade, os aposentos reais estavam à direita (Ala Norte), os aposentos, a capela e a famosa Galeria dos Espelhos. E o que nos pareceu a principal porta de ingresso é uma porta que conduz aos quartos das princesas (menos impactante que as salas das alas norte e sul) e não o melhor percurso para iniciar a visita.

Pois é, cometi um erro típico de quem tem a cabeça formada pelo cinema (isto é, que tem mais presente na memória os filmes do que os livros de História) e me dei mal. Mas logo acertei o passo, encontrei o roteiro certo e o palácio se revelou na sua grandeza. É de encher os olhos. O absolutismo monárquico era mesmo tudo o que diziam. Luís XIV e seus sucessores sugaram as energias da nação, construíram maravilhas e o Terceiro Estado teve todas as razões do mundo para se rebelar.

Mas pularei a parte do palácio (sobre o qual escrevi na crônica anterior e a respeito do qual há muito mais a falar) e irei para os jardins. Se um dia tiver a oportunidade de visitar novamente Versalhes, darei mais tempo aos jardins.

Caminhei do Parterre das Águas (os lagos logo atrás do palácio) até o Petit Trianon (a residência particular de Maria Antonieta) e me senti realizado. Havia caixas de som escondidas entre os arbustos e elas enchiam o ar de uma música solene, com muito som de metais, que imaginei serem do repertório de Haendel (o compositor de "Música Aquática" e "Música para os Fogos de Artifício Reais"), mas posso estar enganado. Seja como for eram músicas adequadas para compor cenas majestosas, dessas que o Rei Sol protagonizava nos jardins.

Alameda central dos Jardins de Versalhes. Ao fundo, o Palácio.
Nessa hora, andando pelos jardins do Palácio, era a imaginação que me guiava. Estávamos na Fonte de Latona e convidei minha companheira para sairmos da alameda central e nos enfiarmos pelos corredores laterais, como talvez fizessem os aristocratas do passado. Avançamos por esses caminhos, de alamedas cercadas por árvores (onde a música desaparecia e o número de visitantes também) e ela me perguntou se eu sabia o caminho. Eu disse que não, mas que encontraríamos. Era um jardim francês (da França racionalista de Racine, pensei, e não um labirinto para iniciados), e o caminho iria surgir. Surgiu.

Continuava caindo uma chuva fina e talvez por isso as alamedas laterais estavam vazias e só se ouvia o farfalhar das folhas. Tive a impressão de ver a Condessa de Lafayette (autora de “A Princesa de Clèves”) conversando com Molière... mas isso na certa nunca aconteceu. Pura imaginação. Eles foram contemporâneos (ao menos nasceram no século XVII), mas brilharam no mundo literário em períodos distintos.

Minha companheira e eu andamos até o Petit Trianon, entramos no “pequeno château” pouco antes dele fechar (a funcionária nos avisando para entrarmos logo) e foi o melhor momento do dia. Uma dessas coisas que a gente vive e não sabe explicar. Pequenos momentos de satisfação, talvez de encontro com alguma fantasia, sei lá.

Olhei para minha companheira e tive certeza de que ela estava contente. Comparado com Versalhes (mas só comparado, como se vê na foto abaixo), o Petit Trianon é modesto e aconchegante (não tão cerimonial como o Palácio Real) e acho que é isso que encanta. 

Uma das salas do Petit Trianon.
Naquele momento, tivemos a impressão de estarmos no cenário dos amores privados de uma rainha que era obrigada a se sujeitar a um casamento político. O território, o ambiente e o climão das cenas de histórias de rainha que sempre nos fascinam.
Jardim privado do Petit Trianon.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A vitrina da França de Luís XIV


É com a expressão acima que o historiador Jacques Wilhelm apresenta o famoso palácio de Versalhes no seu livro “Paris no tempo do Rei Sol”. Nesse palácio, Luís XIV (que reinou entre os anos 1643 e 1715) concentrou o melhor das artes do seu tempo – em especial, o melhor do espetáculo, do cerimonial e da pompa.

Em torno de Versalhes e também da sua figura, Luís XIV fez girar o mundo francês. O Rei pretendia submeter a nobreza ao seu poder e, para isso, passou a abriga-la ao seu redor, primeiramente no Louvre, em Paris, e, quando isso não foi mais possível, num novo palácio, nos arredores da capital.

Deu certo. A nobreza passou a gravitar em torno do Rei e o mundo do espetáculo, das artes e do cerimonial foram instrumentos importantes para dominar esse setor social que representava o maior obstáculo para a consolidação do poder da monarquia. Como o Rei escreveu mais tarde (em "Instruções ao Delfim"), o espetáculo é o melhor meio de prender o espírito e o coração das pessoas, melhor até que recompensas e favores.

Paralelo a essa política do espetáculo, o Rei expandiu a economia (por meio de forte dirigismo estatal), consolidou um poderoso exército profissional, promoveu inúmeras guerras e colocou a França como potência hegemônica na Europa. 

Escrevo as linhas acima como preâmbulo para falar do passeio que fiz recentemente a esse palácio. Fiquei mais de duas horas na fila, às vezes debaixo de uma chuva fina, e creio que foi essa memória glamurosa da França – a da centralidade da arte e do refinamento – que me reteve ali. Quando, ao final, entrei no palácio, devo confessar que fiquei impactado negativamente e não sei precisar o que foi. Talvez a precariedade de algumas salas, a ausência de móveis... Demorei a lembrar que por ali passara o vendaval da Revolução de 1789, os saques, a transferência de importantes obras de artes (como a "Monalisa") e até o leilão de objetos variados para financiar as tropas revolucionárias.

A Revolução Francesa é o nosso paradigma de ruptura violenta da ordem sociopolítica e ali o Antigo Regime foi destruído a marteladas e golpes de guilhotina. Em Portugal a mesma mudança se deu de forma menos violenta e isso se vê no estado do Palácio de Queluz (construído a partir do modelo francês), muito melhor conservado.

Por momentos, então, senti saudade da minha visita a Queluz – menos grandioso, quase modesto se comparado a Versalhes, mas com muitos móveis e objetos que remontam ao período em que foi construído. Com uma cara muito mais simpática, arrisco dizer.

Engraçado o que um turista sente visitando os espaços privilegiados da História. Em Versalhes, quis encontrar o fausto do Antigo Regime e senti, em primeiro lugar, os ecos da Revolução que desmantelou essa estrutura de dominação construída pelo Rei Sol. Custei para perceber os vestígios da antiga pompa imperial – a vitrina da França tão meticulosamente construída por Luís XIV, como citei no início da crônica.

Mas percebi, claro, a grandiosidade da obra – curiosamente, não na famosa Sala dos Espelhos, mas na chamada Sala de Hércules. Entrei e a pintura do teto ("Apoteose de Hércules") puxou meus olhos: o famoso herói grego numa carruagem, no espaço etéreo, com a famosa clava na mão. Virei para uma das paredes e novamente um enorme quadro capturou minha atenção: um grandioso Veronese representando uma cena bíblica: “A ceia na casa de Simão” – Cristo sentado diante de uma mesa, uma perna estirada para o lado e uma mulher ajoelhada junto a ele, lavando o seu pé e secando-o com seus cabelos.

Fiquei encantado. A recriação de cenas das mitologias greco-romana e cristã com muita pompa e circunstância me pegaram. Tudo grandioso e teatral, como mandava o figurino. Espetáculo para prender o espírito e o coração da elite francesa (nobreza, alto clero, alta burguesia) e até de latino-americanos que se aventuram no espaço europeu. 

Sala de Hércules, com a pintura no teto, de Lemoyne, que dá nome ao local.


Quadro de Veronese: "A ceia na casa de Simão".

Detalhe do quadro de Veronese: uma mulher lava e seca os pés de Cristo.


Só a visita dessa sala valeu o passeio. Da minha perspectiva, estava comprovada intenção do Rei: um palácio para embasbacar, seduzir, ganhar corações & mentes. Não sem razão a multidão plebeia fica horas na fila para visitar o palácio, mesmo debaixo de chuva.




Observação: O quadro de Veronese foi presente da República de Veneza a Luís XIV, mas só foi colocado nessa sala pelo seu sucessor, Luís XV, quando foi concluída a pintura do teto (1736), feita por François Lemoyne. Como se vê, um espaço finalizado no reinado do sucessor do Rei Sol. Mesmo assim não retiro o que escrevi: foi nessa sala, diante dessas obras, que vivenciei a grandeza da “vitrina da França de Luís XIV”. Nossas emoções (ou as emoções de um reles turista) nem sempre batem com o rigor dos registros da História.

sábado, 2 de novembro de 2019

Na Piazza della Rotonda


Desconfiava que a recente estadia que passei em Roma pudesse ser impactante... e foi. Passei dezessete dias na chamada Cidade Eterna e tenho a impressão de que ocorreu de tudo. Um exagero, claro. Nenhum acontecimento extraordinário, mas, ao mesmo tempo, experiências raras, ricas de emoção.

Uma tarde, sentado no degrau de uma casa na Piazza della Rotonda (a praça na qual se encontra o antigo Panteão romano, construído pelo imperador Adriano), observava o movimento dos turistas e acompanhei a chegada de um rapaz paraplégico numa cadeira de rodas. Ele vinha acompanhado por quatro mulheres, alegres e falantes, e parecia apresentar algum retardo mental. Tinha os movimentos das mãos e da cabeça travados e logo as mulheres posicionaram a sua cadeira para que ele apreciasse o monumento. Ao arrumarem a cadeira, o rapaz virou a cabeça para mim, sorriu e pude perceber a sua felicidade. Estava radiante. Tanto quanto eu, estava feliz.


Tive a impressão de entende-lo e também a de que ele me compreendia. Ou, ao menos, que sintonizávamos na mesma emoção (cada um ao seu modo), o sentimento prazeroso de estar em Roma, naquela praça, diante de um dos cartões postais da cidade, diante de uma das grandes realizações do Império Romano e assim por diante.

As mulheres continuavam falando entre si, rindo, enquanto o rapaz gesticulava, mexia a cabeça, não dizia uma palavra (acho que não falava) e parecia estar em êxtase. Deslumbrado, pensei eu, tão deslumbrado quanto eu ao contemplar o antigo templo romano, transformado em igreja católica, transformado em ponto turístico.

É a esse tipo de experiência que me referi no início da crônica. Nada de grandioso, de extraordinário, mas uma experiência simples, comum, e ao mesmo tempo profunda, arrasadora, de amplitude colossal.

Não era a primeira vez que eu estava em Roma nem a primeira vez que vinha até a Piazza della Rotonda visitar o Panteão. Nessa temporada romana, o Panteão estava no meu roteiro e várias vezes cruzei pela praça, em diferentes horários do dia e da noite.

Às vezes nem entrava no templo e ficava apenas na praça, sentado nos degraus da fonte ou, como naquela tarde, no degrau de uma porta. E, justo nessa tarde, o encontro com o paraplégico, um encontro sem palavras, apenas de olhares e sorrisos. Um pequeno grande momento.

Tenho a impressão de que o imperador Adriano compreenderia – ou, ao menos, o imperador recriado por Marguerite Yourcenar no seu romance Memórias de Adriano (livro que um dia dei de presente para minha mãe).

Minha estadia em Roma foi assim, marcada por esse tipo de vivência. Momentos muito ricos de emoção. Coisas de um turista atrapalhado (com enormes limitações na compreensão da língua italiana), um turista que foi professor de História e, principalmente, que foi um menino que achava que Roma era o centro do mundo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Roma Antiga & infância


Meninos gostam de histórias de guerra. Eu gostava. Meninos desconhecem a crueldade das batalhas e veem apenas a coragem, a ação, a habilidade com as armas. Eu era assim. Meninos são assim.

Legionários em campanha militar. Coluna de Trajano.
Guri nos meados dos anos 60, eu frequentava as matinês com meu pai todos os finais de semana e os filmes ambientados no Mundo Antigo estavam entre os preferidos. Por meio deles eu tomava conhecimento dos Argonautas, de Rômulo & Remo e da expansão do Império Romano. Quando o filme terminava, voltávamos a pé para casa, e eu cravava meu pai de perguntas. Queria saber mais. Principalmente se o tema nas telas fora a história romana.

Numa dessas conversas, ouvi pela primeira vez a respeito do combate entre os irmãos Horácios e os irmãos Curiáceos. Um episódio que aconteceu no tempo em que Roma ainda era um povoado de pastores, no governo de Túlio Ostílio, o terceiro rei romano.

Túlio Ostílio declarou guerra a Alba Longa e enfileirou seus soldados diante das tropas inimigas. Os dois reis conversaram e estabeleceram que os seus campeões decidiriam o resultado do confronto. Da parte de Roma, se apresentaram os três irmãos Horácios; de Alba Longa, os três irmãos Curiáceos; e iniciou a luta. A briga foi violenta e ao final restou apenas um Horácio. Roma venceu.

A história tem mais detalhes, mas o essencial é esse: restou apenas o campeão romano, os guerreiros de Alba Longa ficaram mortos no campo de batalha. Alba Longa foi destruída e a sua população incorporada à romana.

Relembro essa história lendária e revivo as emoções do menino que eu fui. Que gostava de histórias de guerra, que não sabia o que era crueldade, que não entendia a complexidade humana. Apenas um menino, com a pureza e a ignorância típicas da infância saudável.

Depois aprendi que essa fórmula narrativa - centrada nos heróis - é apenas um modo de contar a história. Os acontecimentos político-sociais, as guerras inclusive, não cabem em esquemas tão simples. Principalmente, entendi a respeito da crueldade humana e minha compreensão do mundo mudou.

Meninos, no entanto, não entendem nada disso. Meninos gostam de histórias de guerra. Gostam de lendas e heróis, simples e brutais. Eu gostava. Muitas delas aprendi com meu pai, conversando sobre cinema.

Às vésperas de embarcar para Roma e passar nessa cidade duas semanas, reencontro essa história lendária a respeito da Roma Antiga e me emociono. Revivo o entusiasmo do menino que eu fui. Revejo uma das tantas camadas de história que a Roma atual é capaz de proporcionar aos seus visitantes - as ruínas do Monte Palatino, por exemplo, o local da primitiva Roma dos pastores - e tremo de emoção. Uma explosão de emoções conflitantes. A sedutora possibilidade de reencontrar o menino, a infância, o pai.