domingo, 5 de abril de 2020

Isolamento social, sol e leituras


Meu filho recomendou que eu tomasse sol todas as manhãs para aumentar a dosagem de vitamina D. Em tempos de Covid-19 é importante fortalecer as defesas do organismo. A ideia é essa. E estou seguindo à risca o conselho. Fico na sacada por um tempo, tomando o sol das oito horas, escuto os pássaros, olho os morros que cercam a cidade e lembro coisas.
Hoje lembrei do sol da praia do Cassino, entre os anos 2000 e 2015, quando lá fui veranear com minha companheira. Nas últimas vezes nos hospedávamos num hotel de frente para o mar e por volta de 9 e 10 horas saíamos para a praia, com as cadeiras debaixo do braço, guarda-sol e toalhas. Atravessávamos as dunas por meio de uma ponte de madeira e logo estávamos na beira d’água.
Recordei aquele sol esquentando a pele, a areia da praia sendo ocupada pelas pessoas (acho que a maioria chegava perto do meio-dia) e as coisas que conversávamos...
Na verdade, nem lembro o que conversávamos. Em algum desses verões dividimos o romance Reparação, de Ian McEwan, e na certa falávamos do livro. Ela lia de dia (talvez até na beira da praia), eu lia quando ela largava o romance na mesa de cabeceira.
Lembrei desse sol do Cassino. E também de Castro Alves – mas não sei por onde uma coisa se juntou com a outra... Talvez por causa da descrição que o poeta faz do mar logo no início d“O navio negreiro”:

‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...

Quem leu e ouviu Castro Alves na adolescência, geralmente não esquece. Pelo menos aqueles que foram ginasianos nos anos 60 e participaram de sessões de Grêmio Literário na escola.
E esse interesse pelo Poeta Condoreiro (era assim que meus professores chamavam o poeta) foi reavivado semanas atrás ao ler Castro Alves: um poeta sempre jovem, de Alberto da Costa e Silva. Uma bela biografia.
Não recordava que o poeta morrera tão cedo, aos 24 anos. E não sabia muita e muita coisa que esse biógrafo narra.
A mãe do poeta morreu de tuberculose quando ele tinha 11 ou 12 anos, em 1859, e provavelmente foi ela quem o contaminou. Aos 16 anos, o poeta teve a primeira manifestação da doença.
Costa e Silva o descreve como homem de palco, um poeta político, que antes de mais nada queria ser “um bravo soldado da guerra para a libertação da humanidade”.
“O navio negreiro” foi recitado pela primeira vez em 1868, em São Paulo, e bem concretiza esse projeto. Um poeta político e de vanguarda. Em 68, o movimento abolicionista ainda não ganhara as ruas e era assunto especialmente de estudantes, nas escolas de ensino superior do Recife, Salvador, Rio e São Paulo.
Mas também um homem sensual, com magníficos poemas nessa linha. Aos 19 anos se tornou amante de Eugênia de Castro, atriz talentosa, beirando os 30 anos, e a mulher largou tudo para viver com o poeta. Ela “deixava-se adorar, encantada por ser musa e senhora”, diz o biógrafo. Eugênia reorganizou a sua vida de atriz e foi viver com o poeta (dois anos).
Castro Alves era estudante pouco aplicado aos estudos, vivia de mesada enviada pela madrasta (que o adorava) e a atriz não largou o palco. Nem outros amantes, cochichavam os amigos.
Lembrei do sol do Cassino e do poeta dos escravos nessa manhã de isolamento social. Enquanto o sol reforçava a taxa de vitamina D no meu organismo, minha lembrança flanava... E lembrei, depois, dessa pérola de Castro Alves, escrita para sua amada Eugênia, depois de uma das tantas discussões, em 1868:

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

terça-feira, 31 de março de 2020

D. Maria I, Rainha de Portugal


      Li o último livro da historiadora Mary Del Priori, D. Maria I – as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca” (Editora Benvirá, 2019, 212 p.). Desde que visitei o Palácio de Queluz, nos arredores de Lisboa, tinha muita curiosidade a respeito dessa rainha. O palácio foi construído durante o seu reinado e, logo na entrada, há um enorme monumento dedicado a ela.
        Nos livros de História do Brasil D. Maria I é simplesmente a mãe de D. João VI e há poucas referências a seu respeito – o que a historiadora confirma. Os jornais do Rio de Janeiro, da época, quase nunca trazem notícias sobre a rainha. Quando a Família Real portuguesa foge para o Brasil, em 1808, ela já é dada como demente. Não é ela quem governa, mas seu filho, D. João – que só vai assumir como rei depois da sua morte, em 1816.
      Uma história que se repete nos livros (e que eu muitas vezes contei em sala de aula) é a do episódio que ela protagoniza durante a fuga da Família Real, no porto de Lisboa. Episódio que a historiadora confirma. Os serviçais a estão carregando numa cadeirinha, em direção ao navio que a transportará ao Brasil, e ela pede que eles não andem depressa. Afinal não está fugindo. Ao que tudo indica, ela não compreendia a gravidade da situação.
     Segundo a historiadora, D. Maria foi uma boa rainha, preocupada com os seus súditos. Era profundamente religiosa e seguiu o padrão da monarca absolutista: muito piedosa e em completa sintonia com a Igreja Católica e a aristocracia. Sucedeu ao pai, D. José I, que tinha como principal ministro o Marquês de Pombal, mas não seguiu a orientação iluminista e modernizadora desse reinado. Quando se tornou rainha, demitiu o marquês. Não chegou a desfazer as reformas implementadas por Pombal, mas restaurou o poder da velha aristocracia, afrontada por Pombal.
      Aos 20 anos, em 1759, D. Maria assiste a uma das cenas mais tenebrosas da história portuguesa: o Massacre dos Távora. Um episódio no qual diversos membros da família Távora e outros nobres são torturados e mortos em local público (próximo à Torre de Belém). Um espetáculo de vingança promovido pelo rei D. José I (pai de D. Maria) e seu poderoso ministro (o Marquês de Pombal). Uma cena de justiçamento exemplar promovida com pompa e sadismo.
       A partir daí a figura do pai se torna insuportável para a jovem princesa. No entanto, mais tarde – quando a sua saúde mental está abalada –, ela passa a assumir os atos do pai (o Massacre dos Távora, entre eles) como se fossem seus. Um sentimento de culpa pavoroso, que ela, religiosa como era, passa a entender como sinal de danação divina e busca purgar. Um entendimento que seus conselheiros religiosos (seu confessor, em especial) só reforçam. E ela, como boa católica do seu tempo de exarcebações religiosas, não tem como se defender.
     Mas segundo a autora o quadro de saúde mental de D. Maria se desequilibra a partir de sucessivas mortes de familiares entre os anos de 1786 e 88. D. Maria é uma rainha zelosa do seu papel desde a morte do pai (1777), mas a morte do marido, da filha mais próxima e do filho que vinha sendo preparado para sucede-la, uma ao cabo da outra, a abalam profundamente. As águas negras da melancolia a envolvem e ela não consegue livrar-se delas. Tristeza, culpas – pela morte dos parentes e até pelos atos do pai (o Massacre dos Távoras) – não a deixam mais em paz.
       Segundo a autora, tratava-se de uma depressão profunda – que a medicina da época (em especial a medicina orientada pela religiosidade católica) não tinha condições de identificar e, muito menos, de lidar e minimizar seus efeitos. Pouco tempo depois, então (em 1792), a rainha é considerada demente, afastada do governo, e seu filho D. João assume como regente.
      O drama da rainha, sua depressão, me tocou profundamente. Acho que o modo como a historiadora conduz a narrativa favorece isso. Mary Del Priori, como boa biógrafa, prioriza os conflitos íntimos da sua personagem. Ao final do livro ela escreve que D. Maria não foi “só uma pessoa que adoeceu”, mas também uma “esposa e mãe querida, avó e sogra generosa”, “boa rainha e adorada por seus súditos”, “uma mulher como tantas”. 

quarta-feira, 4 de março de 2020

"Leitura", de Almeida Júnior


Almeida Júnior pintou o quadro abaixo – “Leitura” – em 1892. É uma cena paulistana, segundo os historiadores da arte. Alguns chegam a identificar o Teatro São José, ao fundo, que se localizava próximo à Rua da Glória, em São Paulo, próximo também ao atelier do artista. O quadro também evidencia o engajamento do pintor à causa dos republicanos que ocupavam o governo do estado de São Paulo, preocupados com a educação das mulheres.

"Leitura" (1892), de Almeida Júnior.
As mulheres dominavam apenas os rudimentos das letras, naquela época, e as novas autoridades estavam interessadas em incrementar a educação feminina. No quadro, uma moça mergulha na leitura de um livro e indica o seu rompimento com a postura tradicional das mulheres (mesmo de elite) de não realizar leitura de livros. A moça é uma mulher avançada, moderna, mas seu repertório de leitura seguramente era aquele indicado pelos pais e pelo marido. Não é uma mulher independente, segundo essa interpretação.

Nesse aspecto, cabe assinalar a cadeira vazia ao lado da jovem leitora. Sobre a cadeira há uma vestimenta de homem a indicar uma figura masculina que se faz ausente, mas que provavelmente a observa e registra a cena.

Existe também uma discussão a respeito de quem é a modelo: Rita de Paula Ybarra (a companheira com a qual o pintor teve um filho) ou Maria Laura (casada com um primo e com a qual o artista teve um caso por longos anos). Tudo indica que se trata de Rita de Paula, devido às fotografias que existem dela. São muito parecidas e podem ser encontradas no Google. A hipótese de a modelo ser a amante não tem muito fundamento – se bem que há certa semelhança entre uma foto da moça (também encontrável no Google) e a modelo.

A hipótese da amante ganha relevo, no entanto, quando pensamos que o caso entre os dois durou muito e as cartas da moça, encontradas pelo marido, revelam paixão intensa. Logo após a descoberta das cartas o marido trata de se separar da esposa e mata o pintor, em 1899. O crime se dá em Piracicaba (onde o marido era conhecido cafeicultor) e nessa mesma cidade ocorre o julgamento. Os jurados entendem que o autor do crime estava privado dos sentidos e da inteligência quando esfaqueou o artista e o inocentam.

Quatro anos antes do assassinato, em 1895, o quadro fora negociado pelo artista junto às autoridades paulistas e adquirido pelo Estado de São Paulo. Hoje se encontra na Pinacoteca do Estado de São Paulo e foi lá que eu o vi e revi, em lugar de honra. É um grande quadro, de um dos principais artistas paulistas.

Outro dia reparei numa reprodução desse quadro – na parede do consultório do psiquiatra – e o associei a viúva Noronha, personagem do romance Memorial de Aires, de Machado de Assis. Engraçada a associação... Estávamos conversando sobre o mundo das elites, olhei o quadro e lembrei do Machado, do seu retrato das elites do segundo reinado... Só me dei conta de que fizera uma associação equivocada (pelo menos quanto à geografia) quando saí do consultório.

“Leitura” é uma cena paulistana, apenas contemporânea ao mundo retratado por Machado no Memorial...  (ambientado nos anos 1888 e 1889, no Rio de Janeiro). Seja como for, também retrata o universo dos ricos e talvez eu não tenha errado tão feio. Mas sei lá qual o motivo de associar o quadro “Leitura” a um romance de Machado. Talvez uma dessas voltas inexplicáveis do nosso pensamento, prezado leitor, e que nem convém investigar.

A vida tem se tornado tão inexplicável e tão desnecessário explica-la, que eu apenas registro as voltas que ela dá. Procuro formatar esses pensamentos no gênero crônica (é o que eu tenho, o que sei fazer) e deixo-as voar à cata de leitores.

terça-feira, 3 de março de 2020

A Menina do Regimento

           Em 1998, no livro coletivo Quarteto in prosa e verso, o poeta Prado Veppo publicou um poema dedicado a Maria Sem Queixo: A porta-estandarte.
“Maria Sem Queixo / Só não é / Letra de samba / Por que não foi / Contemporânea / de Noel // Pois se ela fosse / Ele teria / Certamente / Posto sua vida / Numa folha / De Papel // E ela seria / Com as cores / Da Bandeira / Porta-estandarte / Da Poesia / Brasileira”[i]
O poema integrava um conjunto que tematizava figuras populares de Santa Maria – mendigos, professores, médicos, poetas, jornalistas e um cabeleireiro –, todas pessoas  mortas – uma e outra de forma violenta, como Luizinho De Grandi (morto num assalto):
“O Luizinho morreu cedo / Como morrem os toureiros / Sangrando dentro da arena / De algum domingo em Granada.”
 Os poemas enfocavam a trajetória dessas pessoas (ou suas mortes) e desenhavam também uma espécie de cartografia de Santa Maria: um mapa das suas gentes, ruas e histórias. Um roteiro que utilizo até hoje para entender nossa cidade.
Eu não sabia coisa alguma a respeito da Maria Sem Queixo, na época, e essa crônica é para suprir essa falta de informação.
Na Feira do Livro de Santa Maria do ano passado encontrei um livro com o título A Menina do Regimento e a associação com o poema do Veppo foi inevitável, afinal Maria Sem Queixo era também conhecida como Menina do Regimento (do 7º Regimento de Infantaria – quando esse ainda se localizava na Avenida Borges de Medeiros). O livro foi lançado na mesma Feira do Livro, mesma praça, vinte anos depois do Quarteto in prosa e verso, e, para mim, foi como se completasse o poema d’A porta estandarte.
O livro, de autoria de Carlinhos Bortoluzzi[ii], tem enfoque memorialístico, priorizando as vivências do autor no NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais Regulares), no final dos anos 60 e início da década de 70, e a figura da Menina do Regimento serve como uma espécie de eixo condutor da narrativa. O NPOR funcionava no 7º Regimento e, em 1969, no primeiro dia em que o autor chega ao quartel, ele se depara com a Maria Sem Queixa. Ela vem entrando pelo portão principal, gritando e fazendo espalhafato.
O autor conhecia a mulher desde guri – quando assistia aos desfiles de 7 de Setembro e a via marchando ao lado do regimento –, mas se surpreende com o modo como ela era tratada. O guarda do portão, por exemplo, a cumprimenta formalmente, isto é, com uma caprichada continência.  

Maria Sem Queixo preparada para desfilar junto ao 7º RI.
Foto obtida na Casa de Memória Edmundo Cardoso.
 Segue daí uma série de informações sobre a Maria Sem Queixo que eu não conhecia. Nos dias de desfile, ela usava um vestido verde amarelado, com uma faixa no peito escrito “Ordem e Progresso”, e um cabo de vassoura no ombro. Na cabeça, um bico de pato (boné militar) verde oliva e, dessa maneira, compunha as cores da bandeira brasileira a que o Veppo se referia no poema.
Naquele tempo, a Avenida Borges de Medeiros era um projeto de rua (não tinha calçamento) e as casas da Vila Militar estavam começando a ser construídas. Maria sem Queixo morava por ali, num "chalezinho" (conforme diz o autor) e usufruía da maior liberdade dentro do prédio do Sétimo.
Segundo Carlinho Bortoluzzi, a história da Maria Sem Queixo remonta ao período da Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Brasileiro criou um Batalhão de Carros de Combate (3º BCC), em Santa Maria. Os tanques de guerra vieram do Rio de Janeiro, chegaram no porto de Rio Grande e seguiram de trem para Santa Maria. Os carros alcançaram a cidade em setembro de 1944 e dentro de um deles foi encontrado uma menina magrinha, com cabelo desgrenhado, malvestida, descalça e sem queixo. Ela tinha provavelmente 16 anos e disse se chamar Maria Martins. Os militares não conseguiram saber se ela viera do Rio de Janeiro, de Rio Grande, de alguma parada do trem ou de Santa Maria mesmo. Houve tentativas de localizar familiares, mas ninguém foi encontrado. Enquanto isso o comandante do batalhão providenciou acomodações para a moça e ela foi instalada num barraco nos fundos de um terreno próximo.
Em 1948 o 3º BCC mudou-se para o Boi Morto, Maria Sem Queixo foi proibida de acompanhar o batalhão e ficou instalada num chalezinho abandonado no local da atual Vila Militar. Fez amizades com os guardas do 7º RI e se tornou “integrante do Regimento”.
Com alguns percalços essa história se desenrolou até 1972, quando Maria Sem Queixo morreu. Sua moradia pegou fogo e nunca se soube se foi acidente ou crime. O comandante da 3ª Divisão, general Tácito Theóphilo de Oliveira, determinou que o comandante do 7º RI, coronel Weiss, tomasse as providências e assim foi adquirido um túmulo individual no Cemitério Municipal. No registro do cemitério ela está identificada como “menina do regimento”, sob o nome de “Maria Martins – Sem Queixo”, sem pai, sem mãe, mas com a proteção do Exército Brasileiro.
Prado Veppo tinha razão, se Noel Rose vivesse em Santa Maria, ela seria personagem de uma canção.



[i] ZANATTA, Humberto (org.), FONSECA, Orlando; PRADO VEPPO; e BIASOLI, Vitor. Quarteto in prosa e verso. Santa Maria: s/ editora, 1998.
[ii] BORTOLUZZI, Carlinhos. A Menina do Regimento: Maria Sem Queixo, Mula Sem Cabeça e outras histórias da caserna. Santa Maria: s/ editora, 2019.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Visita a San Marino


O Facebook postou três fotos minhas, tiradas na República de San Marino, três anos atrás. Fotos de fevereiro de 2017. Tinha esquecido que visitara esse pequeno país, encravado no meio do território italiano, e fiquei surpreso. Naquela época, estava com uma turma de brasileiros fazendo um programa de língua e cultura italianas em Campus Magnoli, na cidade de Castelraimondo, e San Marino fazia parte do nosso roteiro. Eu próprio fiz a postagem, na época.

Sede do governo da República de San Marino.
Naquele dia tive aula pela manhã e, à tarde, com o grupo, fui a San Marino. Pouco mais de uma hora de viagem. Era uma tarde fria e ouvira que o local era muito bom para comprar produtos eletrônicos, especialmente relógios. E de armas também, ouvi alguém dizer, rindo, e acentuando: qualquer tipo de armas.

Então chegamos, fizemos um tour pela piccola città – encarapinhada no alto de uma montanha, cercada de muralhas – e só depois fomos às compras. Escutara que o comércio ficava até tarde e não me preocupei. Mas não foi o que ocorreu naquele dia. Havia poucos turistas (talvez devido ao frio) e a maioria dos comerciantes fecharam as portas mais cedo.

Encontrei uma e outra loja de produtos eletrônicos abertas, olhei os relógios, nenhum me agradou e fiquei espantado com armas. Algumas vitrinas estavam atulhadas de armas de todos os tipos, especialmente pistolas, alguma metralhadoras – essas, as que me chamaram mais atenção. Pequenas metralhadoras capazes de fazer muito estrago.

Quem compra isso?, perguntei. E, caso compre, como cruza a fronteira da República de San Marino e anda pela Itália carregando essas armas? Ninguém soube responder.

Voltamos para a escola (os alojamentos ficavam próximos a escola) e aquele foi um dos assuntos da noite, no meu apartamento, em torno de uma garrafa de vinho: as armas.

Tinha esquecido tudo isso. Olhei ainda pouco as fotos que tirei naquele dia em San Marino e nenhuma delas foi de uma vitrine de armas. Que pena! Cheguei a pensar que era imaginação minha: ora vender metralhadoras em lojinhas de uma cidade turística!

Mas não é delírio. Apesar de não ter encontrado muita coisa no Google a respeito – nenhum dos blogs de viagem que consultei aprofunda o assunto “comércio de armas em San Marino” –, as armas estão lá. Minha memória não está me enganando. 

É isso – mais do que por qualquer outro motivo –, é por causa da memória que estou escrevendo essas linhas. Estou esquecendo. Estou embaralhando as coisas. Os exemplos são vários: essa visita a San Marino, uma visita a Igreja do Carmo, na cidade do Porto, um passeio pelo Carnaval de Veneza, e por aí vai.

Por isso escrevo: para registrar. Para não deixar o tempo roer minhas lembranças e tudo se apagar.
Vista do entorno da montanha onde se localiza San Marino.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Poeta romântico (lembrança de viagem)


Era uma tarde de chuva fina e tínhamos descido no cais da Marinha, no Rio de Janeiro, após visitar a Ilha Fiscal. Deviam ser catorze e trinta e achamos que poderíamos pegar o almoço na Confeitaria Colombo. Não era perto, não era longe. Provavelmente um táxi nos fizesse dar muitas voltas e resolvemos ir a pé. Pegar a Rua 1º de Março, dobrar na Rua do Ouvidor e, mais adiante, virar à esquerda, numa rua que tinha o nome de um poeta, um poeta... que eu não lembrava o nome. Um poeta romântico, eu tinha certeza.
Eu havia deixado o guia de viagem no hotel, estava sem mapa, e nos abrigávamos da chuva fina debaixo de uma sombrinha. A água molhava nossos tênis e a Rose me perguntava:
– Tu sabes mesmo o caminho?
– Ora, como não. Já andamos por aqui diversas vezes – eu respondia. Mas eu não lembrava o nome da rua, o nome do poeta que dava nome à rua...
Quando dobramos uma rua (eu achava que era aquela), um camelô me disse: “É essa, sim, a rua da confeitaria”. Eu li o nome na placa e tudo me veio de cambulhada: o nome do poeta e seus versos. Gonçalves Dias e o canto do índio infeliz, prisioneiro de uma tribo inimiga: “Meu canto de morte, / Guerreiro, ouvi: / Sou filho das selvas, / Nas selvas cresci; / Guerreiros, descendo / Da tribo tupi.”
Minha mãe recitava trechos desse poema (I-juca-pirama). Complexo poema de temática indigenista. Um índio tupi é preso pelos timbiras, colocado para ser morto ritualmente e depois banqueteado. Mas ele implora para ser solto, para poder ajudar o pai – velho e cego, que está perdido na floresta – e, quando o pai sabe disso – que ele não se deixou ser sacrificado –, o pai sente profundo desgosto pelo filho. Que covarde!, grita o pai.
Ao me sentar diante de uma das mesas da confeitaria e saber que o almoço tinha terminado – “Só lanches a partir de agora”, avisou o garçom –, o poema ainda ecoava dentro de mim. Na verdade, era minha mãe recitando  o poema que eu lembrava. Era a sua voz.
“Tu choraste em presença da morte?” – grita o pai para o filho que implorou pela vida para ajuda-lo. “Na presença de estranhos choraste? / Não descende o cobarde do forte; / Pois choraste, meu filho não és!”
Eu ria lembrando da mãe, as diferentes ênfases que ela dava à voz de cada um dos personagens do poema, e pedi um conhaque (um brandy, estava escrito no cardápio) em homenagem a ela. Ela aprovaria na certa e talvez dissesse que era a pedida certa para aquecer o corpo depois da chuva.
Pedimos sanduíches que valiam uma refeição (o meu – um beirute – seguramente uma refeição) e nos refestelamos. Observamos as pessoas que nos rodeavam – um casal de alemães que se deliciavam com sorvetes coloridos, um casal gay que se mirava gulosamente (na verdade, o homem mais velho olhava o jovem parceiro de maneira intensa, quase engolindo-o, enquanto o rapaz não se desprendia do celular) e conversamos sobre a Ilha Fiscal.


Guarita e cais da Ilha Fiscal. Ao fundo, o Rio de Janeiro.
Divertido ser turista numa cidade com tantas camadas de história, ritmos e sabores. Na Ilha Fiscal, chegamos a ficar emocionados com o fim do Império brasileiro e a Rose lembrou sua professora de História do Brasil comentando “o último baile da monarquia”. Eu tentei falar de Gonçalves Dias, do seu romantismo – o seu modo idealizado de abordar o mundo – e do quanto tudo isso me moldou, mas desisti. 
– Sou um pouco de tudo isso, esse romantismo, essa idealização. Ou era, sei lá. – Tentei falar. Mas tudo muito complicado. Complicado demais para um dia de turistagem no Rio de Janeiro. E fomos caminhar pelo centro da cidade. Agora sem precisar abrir a sombrinha, pois havia parado de chover.
Pegamos o metrô na Estação Carioca, descemos na Arco Verde. A Rose queria comprar uma bolsa, numa sorveteria colada ao Copacabana Palace, e eu não esquecia Gonçalves Dias.
Naquele dia, catei o poema no Google e o reli. E, ao meu modo, o recriei lembrando minha mãe: Um velho professor, de poucas glórias, / Guardou na memória um antigo poema. / E nos lugares mais inusitados – na Confeitaria Colombo – / Ele o repete para quem quiser ouvir: / Meninos, eu ouvi / Minha mãe cantar esses versos.
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Para quem não lembra o final do poema (eu não lembrava), conto aqui o final. O pai leva o filho de volta a tribo dos timbiras e o rapaz arma um escarcéu – “A taba se alborota, os golpes descem, / (...) / Vozes, gemidos, estertor de morte”. O chefe timbira se convence que ele é valente e diz que ele merece ser honrado em morte ritual e depois ser devorado pelos guerreiros. “Este, sim, que é meu filho muito amado!”, diz o pai.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Considerações a respeito da greve do Magistério Estadual de 1987


Quem foi professor do Magistério Estadual do Rio Grande do Sul dificilmente esquece a greve de 1987. Durou mais de três meses. No meio desse movimento, para demarcar o espírito de luta da categoria, o comando de greve decidiu fazer um acampamento na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini. Era o primeiro ano do Governo Pedro Simon e os professores cobravam o cumprimento de um acordo de greve, feito durante o governo anterior (de Jair Soares), o qual estabelecia que o piso salarial da categoria seria de 2,5 salários mínimos. Em números de hoje, seria um piso de R$ 2.597,00 (considerando o salário mínimo nacional de R$ 1.039,00), abaixo do piso nacional do magistério estabelecido em janeiro desse ano (R$ 2.886,00).

Foi uma greve de enorme adesão. Eu morava em Porto Alegre, lecionava em duas escolas estaduais (uma na Cidade Baixa, outra no bairro Rubem Berta), e participei das manifestações na Praça da Matriz, inclusive passei algumas noites no acampamento. Tinha certeza de que sairíamos vitoriosos, mas fomos derrotados. Na verdade, destroçados. Se pensarmos o amplo movimento do magistério desde o final dos anos 70 (a partir da greve de 79), foi um ponto de virada. A categoria nunca mais foi a mesma. Para a minha geração, que ingressou no Magistério e na luta sindical no final dos anos 70 – e acreditou que a redemocratização era também a recuperação econômica dos assalariados em geral –, foi uma dura aprendizagem.

Relembro esse episódio porque o jornal Zero Hora tocou no assunto dias atrás, ao publicar uma longa reportagem sobre os 90 anos de Pedro Simon.[i] Como não podia deixar de ser, a greve de 1987 foi abordada. Segundo a reportagem, “o magistério entrou em greve por mais de 90 dias devido ao não pagamento de um aumento salarial deixado pelo antecessor Jair Soares”. Nas palavras de Cezar Schirmer (que era Secretário da Fazenda em 87), “[v]incularam o piso dos professores a dois salários mínimos e meio. Era impagável e inconstitucional”. E, para arrematar, Pedro Simon declarou ao jornalista: “a Assembleia [Legislativa] votou aumento salarial [dos professores] que não tinha como pagar. (...) Não paguei e a greve estourou.”

Página do jornal Zero Hora a respeito da greve de 1987 e do governador do Estado.

Escrevi e-mail ao jornalista afirmando que o entendimento de quem  viveu o movimento grevista não é o configurado pela reportagem. O Magistério Estadual não cobrava um pagamento deixado por Jair Soares. Cobrava um acordo de greve, aprovado pela Assembleia Legislativa, com amplo apoio da bancada peemedebista. A vinculação do piso da categoria a 2,5 salários mínimos foi uma reivindicação dos professores que teve endosso do PMDB, inclusive com um inflamado discurso do então deputado Cezar Schirmer no plenário da Assembleia. Durante a greve, trechos desse discurso foram escritos num cartaz e pregado numa árvore da Praça da Matriz.

Em 87, quando o PMDB se tornou governo, o partido mudou o entendimento a respeito das reivindicações do Magistério e Pedro Simon expressou isso de forma brutal. Não pagou e pronto. Deixou o Magistério ir à greve, não cedeu e venceu. Como me disse um peemedebista tempos depois: “o governo não podia ficar refém do Magistério”. Que derrota! Que derrota a categoria viveu!

Enviei um e-mail ao jornalista da Zero Hora, autor da reportagem, expressando esse entendimento de velho professor. Não recebi resposta e provavelmente não receberei. Não importa. Jamais esquecerei o que vivi naquele tempo e entendo que meu entendimento não está errado.
No dia em que a categoria encerrou a greve, voltei a Praça da Matriz com meus colegas e desarmamos o acampamento. Ao meu lado, um colega aguerrido continha as lágrimas com muito esforço e me lembro disso até hoje. Seu esforço para controlar a emoção, conter a dor e manter a dignidade me parece um retrato do Magistério Estadual. Da sua constante humilhação e do seu incontido idealismo. O outro lado da lógica brutal que os governos do Rio Grande do Sul têm utilizado para lidar com as demandas dos professores.

Obs.: Ao contrário do que escrevi acima, o jornalista que entrevistou Pedro Simon respondeu ao meu e-mail. E endossou o entendimento do velho político, segundo o qual o seu governo não tinha compromisso algum com a demanda do Magistério quanto ao piso de 2,5 salários mínimos. 


[i] ROLLSING, Carlos. 90 anos de conciliação. Zero Hora, Porto Alegre, 1º e 2 de fev. 2020, p. 14-16.