sexta-feira, 27 de setembro de 2024
Pilcha farroupilha
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
A Imperatriz Leopoldina
Quem
passeia por museus ou exposições de arte sabe: tem obras que puxam os olhos da
gente. Pois a visita que fiz ao Museu do Ipiranga, dias atrás, não fugiu a essa
regra. Entrei no Salão Nobre do museu, onde se encontra a grande tela de Pedro
Américo, “Independência ou morte!”, e o que me chamou mais atenção foi um
quadro da Imperatriz Leopoldina, rodeada pelas quatro filhas e com o futuro
imperador D. Pedro II no colo.
Na
frente da famosa tela da “Independência...” o meu olhar vagou pelas figuras
solenes do então Príncipe Regente e sua comitiva, se fixou no tropeiro no canto
à esquerda, que observa espantado para aquele bando de cavalarianos gritando
entusiasmado, e na sequência pousou no quadro da Leopoldina.
![]() |
| "Retrato de D. Leopoldina de Habsburgo e seus filhos" (1921), de Domenico Failutti. |
Ela
não era uma mulher bonita e o artista que a pintou não dourou a pílula. Se bem
que deu um toque de vivacidade à imperatriz, tornando-a muito
simpática. Um quadro que Afonso Taunay (o diretor do Museu na época do 1º
Centenário da Independência) mandou pintar em 1921 para reconfigurar a sala. Um
quadro colocado na parede à esquerda da famosa tela de Pedro Américo, enquanto
na outra parede, à direita, encontra-se um quadro representando Maria Quitéria.
As duas, uma rainha e uma mulher-soldado, dando o toque feminino ao processo de
emancipação política festejado naquela sala.
Leopoldina
era uma princesa do Império Austríaco (filha do imperador Francisco I) que veio
para o Brasil em 1817 (com 20 anos) casar-se com o príncipe D. Pedro (naquela
altura, o futuro rei de Portugal). A mulher viveu nove anos no Brasil, engravidou
nove vezes, sofreu dois abortos e pariu sete filhos. Cinco sobreviveram. Era
uma princesa educada para ser rainha e sabia muito bem o papel que devia exercer,
isto é, “fazer filhos”.
Li
o livro da historiadora Mary Del Priore, “Leopoldina & Maria da Glória:
duas rainhas: vidas e dores”, e fiquei impactado com a trajetória da
imperatriz.[1] Neste
livro, a autora recria a voz da filha primogênita de Leopoldina, Dona Maria da
Glória (1819-1854, rainha de Portugal a partir de 1834), e faz ela narrar a
vida da mãe. Uma estratégia narrativa que funciona. Tanto permite uma compreensão
da trajetória íntima de Leopoldina (suas aspirações, o casamento, as frustrações)
quanto da sua ação política a favor da independência do Brasil e do
estabelecimento da monarquia.
Segundo
a narrativa ficcional empregada, Leopoldina se colocou na posição de ter
“quantos filhos pudesse” com o marido imperador. Ao casar aspirava “amor, afeto
e compreensão” e o prazer sensual não estava no seu horizonte. Entendia o
casamento como um sacerdócio, um encontro mais de almas do que de corpos, salvo
para procriar, e mesmo frustrada devido a rudeza e indiferença do marido, não
deixou de cumprir o seu dever. Em 1826, aos 29 anos, morreu de tanto engravidar.
Uma trajetória, ao que tudo indica, comum às mulheres de sua época.
Quanto
ao comportamento político, Leopoldina compreendeu bem as relações entre Brasil
e Portugal (a emancipação política da antiga colônia era inevitável), se
colocou a favor da independência e, principalmente, defendeu a adoção do
sistema monárquico. Neste último aspecto, visando garantir a continuidade da
sua família no poder. Pautava-se pelo ideário tradicional (o absolutismo
monárquico, no qual fora criada) e seu envolvimento com o ideário liberal era
apenas de fachada.
No
Salão Nobre do Museu do Ipiranga, foi a Imperatriz Leopoldina que ganhou a
minha atenção, deixando o ilustre marido em segundo plano (apesar de ele ser a
figura central da narrativa visual apresentada como indiquei na crônica anterior). Certamente foi o livro da Mary
Del Priore (que começara a ler dias antes) que ascendeu o meu interesse pela
personagem. No livro, Leopoldina é descrita como uma mulher que sofria
“ingratidões e desgostos” e se resignava ao seu papel de rainha: engravidar e
parir sem pestanejar e fazer política quando isso fosse possível.
[1]
DEL PRIORE, Mary. Leopoldina & Maria da Glória: duas rainhas: vidas
e dores. RJ: José Olympio, 2024. 112 p.
segunda-feira, 23 de setembro de 2024
Visita ao Museu do Ipiranga
Estive
em São Paulo com minha companheira e fizemos um pouco de tudo. Sete dias de
passeios intensos e variados. Batemos pernas pelo centro da cidade, pela
Avenida Paulista e achamos tudo muito bonito. Só nos demos mal quando saímos do
Mercado Municipal e enveredamos por uma rua muito suja, com moradores de rua
revirando lixo. Assustados (eu cheguei a imaginar o pior), saímos dali o mais
depressa possível.
Afora
este episódio desagradável, andamos somente pelos espaços bacanas da cidade: os
museus, as casas-museus, os institutos culturais, as livrarias, as padarias e
os bons restaurantes. Entre esses lugares bonitos, o Museu do Ipiranga, que
reinaugurou em 2022. Um lugar que eu estava curioso para rever e saber como
foram mantidas/reorganizadas as velhas narrativas criadas por Afonso Taunay, diretor
do museu na época das comemorações do 1º Centenário da Independência.
Narrativas centradas em grandes personalidades (como Raposo Tavares, Fernão
Dias e D. Pedro I) que, com o tempo, foram consideradas “eurocêntricas,
androcêntricas, etnocêntricas e elitistas”.
| Prédio do Museu do Ipiranga. No primeiro andar, o salão nobre, onde se encontra o quadro de Pedro Américo. |
Uma
tarefa e tanto manter as pinturas e esculturas que embasam uma visão de
história (hoje contestada) e, ao mesmo tempo, indicar os contrapontos
e críticas a essa narrativa. Uma empreitada levada a bom termo, me pareceu. O
museu foi construído para consolidar e exaltar uma visão paulista da história
brasileira, iniciada pelos bandeirantes, centrada no famoso grito do Ipiranga, e
não poderia fugir disso.
“Independência
ou Morte!”, o famoso quadro de Pedro Américo está exposto na sala central (o salão nobre) e na
outra extremidade (fora do museu, depois de um extenso jardim e uma alameda igualmente
longa) encontra-se o colossal Monumento à Independência. Este o eixo do museu. D.
Pedro I erigido como personalidade fundamental, o herói que promoveu o
rompimento dos laços com a Metrópole por meio de um gesto solene (o grito do
Ipiranga) e consolidou um Estado Nacional de forma negociada e pacífica. Um
modo de encarar a nossa independência desconsiderando os conflitos militares
ocorridos nas províncias da Cisplatina, Bahia, Piauí, Maranhão e Grão-Pará,
gerados por uma expressiva resistência armada portuguesa. Não foi fácil
derrotar a gente lusitana! Houve guerra, sim, não muito diferente das que
ocorreram no restante da América Latina, nas colônias espanholas.
Mas
a visão que se consagrou foi a de um processo pacífico protagonizado pelas
elites do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, entendimento que o Museu do
Ipiranga consolidou. Uma visão de História que tem a sua matriz no Instituto
Histórico Geográfico, no Rio de Janeiro, durante o Segundo Reinado, mas que não vou
desenvolver aqui (é conversa pra mais de metro), apenas indicar.
| Jardim e alameda, caminho entre o museu e o Monumento à Independência. |
Na
visita que fiz ao Museu do Ipiranga, dias atrás, eu queria era cumprir o rito
proposto pela historiografia tradicional. Após contemplar o famoso quadro, propus
a minha companheira caminharmos até o Monumento à Independência e ela topou. Fazia
um calor danado e fomos. Valeu a pena. Nas outras vezes que visitara o museu
não encarara a peregrinação até o monumento e dessa vez completei o ciclo: o
quadro de Pedro Américo, a caminhada pelo jardim e alameda, o monumento.
Quando
cheguei diante do monumento, o fogo estava acesso na pira da pátria e D. Pedro
I e seus soldados estavam lá – em bronze – montados nos seus cavalos e erguendo
as espadas. Um espetáculo e tanto. Professor de História que fui durante 38
anos, me senti realizado.
| Painel central do Monumento à Independência. Recriação do grito do Ipiranga imaginado por Pedro Américo. |
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
Acreditar em si mesmo
Cruzando
a noite de Porto Alegre dentro de um carro de aplicativo, me dou conta de que,
se pretendo escrever um novo livro, mudar de cidade (trocar Santa Maria por
Porto Alegre), ou até voltar a dirigir, a primeira coisa a fazer é acreditar em
mim mesmo. Ouvi isto ainda pouco. “Precisas acreditar que tu podes”, ela disse.
Não
vou dizer quem ela é porque um cronista precisa manter certa discrição. Se sua
narrativa for muito explícita, lá se vai a literariedade e o texto perde a graça.
Uma narrativa que se pretenda literária tem que respeitar certas
características – e algumas delas são a de não entregar tudo e criar certas
lacunas... que o leitor vai preenchendo com a sua própria vida e por aí vai.
Pois
uma mulher me provocou com as frases típicas de um coach, os clichês que eles
utilizam para incentivar o seu público desejoso de lições de vida, e me dei
conta de que ela... pode ter razão. “O começo de tudo é acreditar em si próprio”,
eu repito, lembrando o que ela disse. “Isso é uma bobagem”, ela falou, “mas às
vezes funciona.”
Eu
enumero os desafios que enfrento no momento (entre eles o de mudar de
apartamento) e me dou conta de que Porto Alegre é uma cidade aonde eu cheguei
em 1967, com onze anos de idade, junto com meus pais e dois irmãos. Uma cidade
da qual eu saí, vinte e quatro anos depois, para morar em Santa Maria, e
para a qual estou voltando.
Em
Porto Alegre eu passei a adolescência, fiz o Curso de História e iniciei a carreira
no Magistério Estadual. Também me casei pela primeira vez e tive dois filhos.
Não aguentei o salário de professor do Estado, busquei várias alternativas e
aquela que colou foi um concurso na Universidade Federal de Santa Maria.
Assim,
em 1991 fui lecionar no “Coração do Rio Grande” (um dos apelidos de Santa Maria),
levei a esposa e os dois filhos, e praticamente reconstruí minha vida nesta cidade.
Uma possibilidade que a Universidade me proporcionou.
Me
separei poucos anos depois, me casei novamente com outra mulher, da qual também
terminei me separando. Me aposentei depois de 38 anos de magistério e agora
volto. “Será que acredito em mim o suficiente para me reconstruir na capital do
Estado?”
Cruzando
a cidade dentro de um carro de aplicativo, sinto que “acreditar em mim é
o primeiro passo”. Vou apostar nisso. Estou me exercitando nesse sentido:
acreditar, ter fé, essas coisas. Sou um homem retornando a alguma coisa muito
antiga e me sentindo novamente inteiro: raiz, tronco, folhas e frutos. Inteiro,
apesar de velho (beirando os 70 anos).
Uma
mulher me incentiva a confiar em mim mesmo, diz palavras encantadoras aos meus
ouvidos e eu sigo em frente. É como se retomasse a alguma coisa muito antiga...
Sim,
acreditarei em mim. Alguma coisa é possível.
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
Briga de casal
Simone (vou chamar assim essa mulher que criei com alguns dados da realidade e outros tantos da imaginação) foi visitar o ex-marido, para acertar alguma coisa a respeito da filha adolescente de ambos, e a conversa saiu dos trilhos. A mulher resolveu dizer “umas verdades”.
“Tu
nunca me valorizou como mulher”, ela começou. “Os homens são assim: querem
dizer o que as mulheres devem fazer e arrasam com a autoestima delas”,
argumentou. “Casamento é uma merda, as mulheres sempre saem perdendo. Mas eu
não vou deixar barato. Nesses seis anos que estamos separados, eu me reconstruí,
recuperei a minha autoestima e hoje sou uma nova mulher”, anunciou.
Ele deixou que ela dissesse o que precisava dizer. “Não vou pôr mais lenha na fogueira”, justificou em voz baixa, sem saber se a mulher o escutava ou não. Viu a ex-esposa caminhar de uma ponta a outra da pequena sala do apartamento em que morava (um apartamento menor do que aquele em que viveram juntos, no qual ela ainda morava com a filha) e se surpreendeu com o fato dela ter ainda viva as queixas de quando estavam casados. Perguntou o que ele determinara que ela fizesse, o que ele impediu ela fazer. “Como é que eu te desvalorizava?”, insistiu. E a ex-mulher puxou um rol de episódios que explicitavam as agressões e humilhações do ex-marido.
“Um dia tu ficou furioso porque eu comprei lençóis novos para nossa cama, lençóis belíssimos, de fio egípcio, e bateste com a cabeça no espelho do banheiro. Bateste de raiva. Achaste que eu fizera uma compra inútil. Um absurdo, tu falavas e quebraste o vidro do armário do banheiro. Eu tive que repor. Tu nem pensaste nisso. No prejuízo que me causaste.”
Ele falou que não lembrava, que achava que não fora bem desse jeito, mas não insistiu nesse argumento. Não se defendeu. “Mas se tu tá dizendo...", falou. E ela retomou o assunto da autoestima ferida e recuperada, disse que
estava encontrando homens melhores e, com a voz baixa, inclinando a cabeça e escondendo o rosto (não olhando diretamente para o ex-marido), falou: “O Roberto até que fazia a coisa bem feita.
Fazia bem. Não deu certo porque ele é difícil. Um egoísta, um egocêntrico, um
horror.”
O
ex-marido sentiu alguma coisa batendo no osso do peito, apertando, doendo.
“Olha, aí já é demais”, quis dizer. “Ele trepa melhor do que eu, é isso?” Mas as
palavras não saiam da sua boca ("Não vou pôr querosene nessa história", pensou, se contendo), enquanto ela continuava falando sobre os novos
homens na sua vida. Ele conhecia dois ("Seriam mais de dois?"), com o Roberto ele conversara tempos atrás e o outro fora seu vizinho. Ela caminhava de uma ponta a outra da sala. “A vida continua, a fila anda”, ela dizia. E perguntava: “E tu, estás encontrando mulheres que te satisfaçam mais?”, conjugando os verbos corretamente e parando na frente dele, as duas mãos nos
quadris, e por fim levantando-as para o alto, num gesto de enfado. “Tá, tu não
vai falar, eu sei. Tu nunca quiseste conversar comigo de verdade”, ela disse. E
pegou a bolsa e uma sacola que deixara sobre o sofá, se preparando para sair.
O ex-marido se levantou, abriu a porta para ela ir embora. “Era isso que eu tinha para dizer, infelizmente era isso”, ela disse bem perto dele, olho no olho, cruzando a porta sem qualquer sinal de despedida (mesmo separados, costumavam se beijar no rosto) e tomando o rumo do corredor do prédio. Ele ficou olhando-a caminhar até a porta do elevador, tocar no botão para chamá-lo, esperar, entrar. Ouviu a porta do elevador se fechar, a máquina estalar para o elevador descer (a vida continuar, a fila andar), e perguntou a sim mesmo se também guardava tanto ressentimento... Se também tinha um discurso pronto a respeito da vida que tiveram juntos e do seu processo de reconstrução pessoal...
Enquanto ele se questionava, Simone saiu do prédio, pegou a chave do carro dentro da bolsa, abriu a porta, se sentou na frente da direção, com os olhos cheios de lágrimas. “Eu tô chorando, que merda!”, ela disse para si mesma, sem saber se estava aliviada ou não, afinal dissera tudo, mas não dissera tudo também, talvez fosse melhor não ter falado, mas agora já tinha dito e era melhor assim. “Foda-se.” Precisava dizer, mas talvez não devesse dizer. “Pronto, mas agora tá feito”, disse, dando a partida no automóvel, tomando o rumo da sua casa e da sua nova vida.segunda-feira, 2 de setembro de 2024
Trauma de araque
Alberto
teve um acidente de carro durante a juventude. Tinha 23 anos, bebeu demais numa
festa (eram os anos 80, não havia esse negócio de não dirigir alcoolizado),
estava com o carro do pai, com duas gurias dentro (uma ao seu lado, no banco da
frente, a outra no banco de trás), perdeu o controle numa curva (talvez
estivesse em alta velocidade, nunca soube direito, estava embriagado mesmo) e
bateu num caminhão. Os três ficaram feridos, o caminhoneiro não sofreu coisa
alguma. A guria que estava no lugar do carona fraturou a perna direita, a que
estava atrás bateu com a boca no banco da frente, ficou toda inchada, um dente
frouxo, ele bateu com a cabeça no parabrisa e perdeu muito sangue. Apenas isso, nenhuma morte.
Mas foi o suficiente. “Deu pra mim, escapamos por um triz”, falou. Nunca mais
retomou a direção. O carro ficou destruído, mas felizmente havia seguro total e
não deu prejuízo pro Velho. “Só as gurias se ferraram.”
Vinte
anos depois, casado, dois filhos, fez menção de comprar um carro para si
próprio e voltar a dirigir. “Fazer autoescola novamente”, disse, “começar do
zero”. Mas a mulher, motorista exemplar (dessas que nunca cometeram uma
infração), pôs objeções. “Tu precisa mudar, então”, ela falou, “tu é muito
distraído”. Já tinha visto ele pegar o carro dela, na praia, e não ficara
segura. Alberto levou em consideração o comentário da esposa (“Ela me conhece”)
e disse que iria pensar. “Tenho que encarar isso, mudar”, disse para a mulher. “Será
que fiquei traumatizado?”, perguntou para a esposa e ela falou: “Pode ser”. Mas
deixou o tempo passar, não encarou coisa nenhuma.
Pouco
tempo depois, numa conversa com a mulher na cozinha, os dois bebendo vinho,
ouviu ela dizer, brincando, que não queria ver ele andando sozinho dentro de um
carro. “Tu tá muito enxuto, ainda”, ela falou, rindo, “e, se a mulherada te ver
sozinho num carro, cai em cima”. Ele achou graça. “Não tô com tudo isso”, disse,
e deixou passar. Mas ficou com uma pulga atrás da orelha: “Será que é por isso
que ela não quer me ver dirigindo?”
Novamente
o tempo passou e Alberto não fez nada. Nenhuma atitude para mudar. Não pegou o
carro da mulher para se experimentar nem encarou a tal autoescola como
prometera. Viu os dois filhos tirarem carteira de motorista e, um dia, quando o
mais velho lhe dava uma carona, ouviu ele perguntar: “Pai, por que tu te
mixou?” Estavam apenas os dois dentro do Fiat do guri e ele não soube o que
responder. Pensou em dizer que ficara traumatizado com o acidente que teve na
juventude. “Deixei duas gurias machucadas”, começou a falar e desistiu. Não era
verdade. “Eu não fiquei traumatizado porra nenhuma”, pensou. “Um trauma de
araque, isso sim. Tenho 52 anos e me conheço um pouco. Posso enganar os
outros, mas não a mim mesmo.”
Naquele
dia, não conseguiu mais falar com o filho e pediu para ele deixá-lo na próxima quadra.
“Vê onde é melhor para tu parar”, falou. Depois saiu caminhando a esmo,
esqueceu o que tinha que fazer e repetiu para si mesmo várias vezes: “Sou um
cagão. E ainda por cima um marido obediente. Um merda.” E disse para si mesmo
que dessa vez iria mudar de verdade. Não ia se esconder atrás de um trauma de
araque, como chegara pensar e até a dizer.
Mas
fez a coisa de modo enviesado. Teve um
caso com uma colega de serviço, a esposa descobriu (depois se deu conta que
deixou o rabo de fora – “Inconscientemente, claro”, falou para o
psiquiatra) e quebraram os pratos. Ele saiu de casa. “Nosso casamento deu o que
tinha pra dar”, justificou, e tratou de reorganizar a vida. A colega foi apenas
um caso passageiro (“Carne nova para possibilitar uma vida nova”, falou na
psicoterapia) e uma das primeiras mudanças foi se conscientizar que não sofrera
trauma algum. Era um sujeito inseguro, submisso no casamento (“Porra, por que
eu sou assim?”, se questionou durante a psicoterapia) e pediu para o filho mais
velho lhe ensinar a dirigir novamente. “Talvez isso seja um negócio simbólico,
o jeito de eu me reconstruir”, falou para o psiquiatra, “ganhar autonomia ou
coisa assim”. O terapeuta achou que era um caminho.
“Acho
que ainda dá tempo”, disse para o filho, sentado na direção do Fiat do guri. O garotão riu, disse para o pai arrancar, fazer as mudanças adequadas. “Assim mesmo, Velhão”,
encorajou. E garantiu: “Tu ainda lembra como fazer. É como andar de
bicicleta. A gente não esquece.”
domingo, 1 de setembro de 2024
Viajar para sair da aldeia
Li
outro dia que viajamos para construir lembranças. Na hora concordei. Mas depois
fiquei pensando e conclui que não. Viajamos para conhecer o mundo, sair do espaço restrito da nossa aldeia e alargar nossos horizontes. E, nesse
processo, adquirimos/construímos lembranças.
Chegar em Lisboa pela primeira vez, por exemplo, foi um deslumbramento completo. Parecia que eu estava adentrando no "vasto mundo" (aquele indicado por Drummond). Foi como se eu voltasse no tempo e recuperasse a minha vivência de estudante, as fantasias que criei quando guri (no Primário, no Ginásio) estudando as Grandes Navegações, a monarquia lusitana, o domínio português sobre o Brasil...
Naquela oportunidade, em janeiro de 2012, num determinado dia, eu almocei com minha antiga companheira não lembro onde, ela voltou para o hotel e eu fui visitar o Castelo de São Jorge. Nós tínhamos , à noite, um espetáculo de fado no Chiado, um jantar no restaurante São Carlos, e eu precisava estar no hotel por volta das 18 horas. Então visitei o castelo, depois peguei um bonde (eu queria passear de bonde), desci na Praça do Comércio e procurei um táxi.
Quando desci do bonde e me vi na famosa praça, entre o Arco do Triunfo da Rua Augusta de um lado e a estátua equestre de D. José I do outro, desbundei. Uma série de lembranças (livrescas, claro) me vieram a mente (o Terremoto de 1755 e a reconstrução de Lisboa, a formação do Império português e a dominação sobre as colônias) e pensei: "Então era aqui o centro do Império que tanto construiu como massacrou o Brasil?" Me dei conta de que era um brasileiro, originário de um país colonizado... Um país que, até hoje, se digladia com a herança do colonialismo...
Não foi uma sensação ruim. Foi muito boa. De certa maneira, eu estava no centro do mundo... do mundo que tanto estudara, imaginara e fantasiara. Sensacional!
Seguiu-se uma noite de fado e, depois, uma caminhada de três quadras até o Teatro São Carlos, por volta das dez da noite, as ruas da Misericórdia e Almeida Garret vazias, só o barulho dos nossos passos. Uma noite fria, escura e desafiante. Eu tinha o caminho na cabeça, estava com receio de me perder (era a primeira vez no Chiado), mas acertei a direção e chegamos lépidos e faceiros no restaurante do teatro.
Fernando Pessoa morara quando criança num prédio em frente, mas, naquela hora, eu não tinha clareza quanto a isso. Um pintor embriagado veio até nossa mesa, tentou nos vender uns quadros terríveis. Era um homem em estado deplorável (os dentes estragados) que nos contou a sua vida de privações, morando em Paris, voltando a Lisboa, morando mal, tentando viver da sua arte... e nos achando ricos para ajudá-lo. Que situação! Só nos livramos do artista porque o garçom interviu.
Voltei
anos depois ao Chiado, sozinho, igualmente à noite, batendo pernas pelo entorno
do teatro (sim, Fernando Pessoa morara no prédio em frente ao Teatro São Carlos)
e creio que cruzei com o mesmo artista com seus quadros de baixo do
braço, visivelmente alterado e
temi que me reconhecesse. Mas cruzamos um pelo outro na noite silenciosa, cada
um seguindo o seu destino.
Acho
que viajar é isso: ter essas experiências em lugares distantes, às vezes
exóticos, lugares que muitas vezes tomamos conhecimento primeiramente pela
literatura, pelo cinema, pela historiografia... e de repente nos vemos dentro
dele.
Não
viajamos para construir lembranças. Mas para sair da aldeia, ganhar o mundo ou,
ao menos, tentar ganhar, conhecer. Nesse processo, temos momentos especiais, que se
destacam do nosso cotidiano na aldeia em que vivemos, como um passeio de
bonde entre o Castelo de São Jorge e a Praça do Comércio, um espetáculo de fado
no Chiado, um jantar no Teatro São Carlos e o encontro com um pintor desvairado tentando nos
vender a sua arte horrorosa.
| Teatro Nacional de São Carlos (2017). |
Obs.: procurei uma foto dessa primeira viagem a Portugal, em 2012, e não encontrei nenhuma. Alguma coisa houve no meu computador. Perdi esse arquivo de fotos.

