sábado, 15 de abril de 2023

Pra que estudar essas coisas?

 

No final dos anos 1970, a violência urbana parecia ser um fenômeno exclusivo da periferia das cidades, especialmente das metrópoles. Em 1979, cursei uma disciplina de sociologia no Curso de Comunicações da UFRGS (estava pensando em ser jornalista, além de professor) e este foi um dos temas das aulas: o mapeamento da violência urbana. Rádio e televisão passavam a dar maior destaque aos casos e se tinha a percepção de que houvera um crescimento do fenômeno.

– Não é bem assim – afirmava o professor. – Os dados não apontam um aumento das ocorrências nem um avanço dos casos para a região central das cidades. O que acontece é um aumento do foco, da quantidade de notícias e de um certo sensacionalismo a respeito.

Seja como for, a percepção que se tinha era de que a periferia das grandes capitais, em especial as vilas populares, eram o território por excelência da violência e essa se expandia. Isto, por exemplo, era o que se comentava entre os professores, na Escola Estadual Affonso Charlier, em Canoas.

– A Mathias Velho é um exemplo disso. Aqui se formaram algumas gangs, inclusive uma que fez muitos assaltos no Litoral Norte até pouco tempo – afirmava um colega, que morava em Canoas desde muito tempo, endossando a hipótese da bandidagem como fenômeno das periferias. – Eu até conheço essa gente porque alguns foram nossos alunos.

Quando ficava na escola após o turno da tarde, aguardando as aulas da noite, conversava com esse colega e ele me atualizava as histórias da região.

– Canoas sempre recebeu gente de tudo quanto é lugar. Meus pais vieram de Santa Catarina e eu nasci aqui. O pai já tinha um pouco de conhecimento técnico, começou de baixo, fez cursos e se deu bem. Mas não havia nem há lugar para todos. Nem a maioria está preparada. Afinal, quem possui qualificação para entrar na Refinaria Alberto Pasqualini?

 Ele apontava os livros que nós utilizávamos na escola e perguntava:

– O que isso soma para a gurizada? 

– Muito pouco - ele próprio respondia. – Nós, numa escola de Primeiro Grau, somos só o ponto de partida para eles. Essa gurizada precisa de muito mais

Essa conversa se dava no contexto da abertura do Regime Militar (Governo Figueiredo), quando havia o questionamento a respeito da democracia ser a melhor alternativa para a sociedade brasileira ou não. Um tempo em que era comum alguém dizer que a “ditadura não tinha sido tão ruim”, como era o caso do meu colega. No meu entendimento, no entanto, nem havia esse questionamento. O Regime Militar era o pior dos mundos e agravara todos os índices sociais do Brasil, tradicionalmente periférico e subdesenvolvido.

Pelo que lembro, meu colega considerava hipótese de que o Poder Militar fora capaz de manter a segurança pública e tivera até bons projetos educacionais, como o PREMEM, no qual surgira aquela escola.[i] Mas isso era uma conversa dele que eu não compreendia. No que concordávamos era de que a violência se tornara um problemão e a escola poderia colaborar no sentido de, ao menos, “salvar a criançada”, preparando-a para o mundo do trabalho moderno. Mas o que fazer, como reformatar a escola? Questões que angustiavam alguns professores.

– Pra que estudar essas coisas todas? – perguntavam os adolescentes mais salientes e antenados ao modo como a roda do mundo girava, apontando os currículos oficiais.

Era nesse clima que eu entrava em sala de aula para vender o meu peixe, isto é, desenvolver o currículo mínimo: falar a respeito da emancipação das antigas colônias de Portugal e Espanha, “um fenômeno que deve ser entendido no quadro mais amplo do desenvolvimento do capitalismo europeu, suas necessidades”, etecetera.

Mais de quarenta anos depois, fico pensando: O que será que os alunos pensavam a respeito da minha conversa? O que o conteúdo das minhas aulas somava para aquela gurizada?



[i] O PREMEM (Programa de Melhoria e Expansão do Ensino Médio) funcionou entre 1968 e 1976 e deu origem a Escola Affonso Charlier. Os professores que ingressaram no projeto falavam especialmente dos salários altos que recebiam e se queixavam do fato de terem sido colocados na vala comum do Magistério Estadual. Era um tempo (o da segunda metade da década de 1970) que se começava a discutir a respeito da “proletarização dos professores”, isto é, o rebaixamento salarial da categoria e a sua perda de controle do processo de ensino.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

"Você não soube me amar"

 

Entre 1978 e 1991, lecionei em diversas escolas estaduais, em Alvorada, Canoas e Porto Alegre. A única que eu lembro que tinha o costume de realizar quermesses era a Escola Affonso Charlier, em Canoas, e a atividade durava um sábado inteiro. A festa começava no início da tarde, ia até meia-noite (um tempo de trabalho depois trocado por turnos de folga). Trabalho extenuante, mas divertido.

Numa dessas festas, em 1982, estou no pátio interno da escola e escuto nos autofalantes a canção “Você não soube me amar”. Sucesso recente que eu desconhecia. Comentei isso com uma colega e ela me perguntou, espantada:

– Onde é que tu andas com a cabeça?

Era a canção de estreia da banda Blitz, já fazia meses que fazia sucesso no rádio e na TV, com apresentação no “Fantástico”, e eu não sabia. Por onde eu andava mesmo com a cabeça?

Capa do LP da banda Blitz, 1982,

Não escutava rádio, não assistia muita coisa na televisão e o que pretendia era isso mesmo: viver de costas para os grandes meios de comunicação. Atitude típica de intelectual daqueles tempos, crítico da alienação, dos “enlatados importados dos Estados Unidos” ou coisa parecida.

Casara em 1981 e minha mulher gostava de televisão. Ela conseguira um aparelho pequeno (de cor vermelha, portátil, com imagens P&B) e lembro dela assistir ao programa “TV Mulher”, pela manhã, e me chamar para ver a Marta Suplicy (que eu aprendi a gostar). Eu trabalhava nos turnos da tarde e da noite, e muitas vezes almocei assistindo “TV Mulher” e depois saia correndo para pegar o ônibus (eram dois ônibus) para chegar na escola de Canoas.

Em compensação, se rádio e TV não estavam no meu horizonte, eu acompanhava religiosamente a programação de cinema (pelos jornais) e não havia final de semana que não saíamos para ver um ou até dois filmes. Eu fazia reservas ao cinema hollywoodiano e isso já indica o espectador que eu era. Minha mulher era quem me carregava para os filmes de sucesso (os oscarizados, por exemplo), pois, se dependesse de mim, ficava apenas nos filmes de arte, de política, essas coisas. Ou essas chatices, alguém diria.

Nesse mesmo sábado de quermesse, de 1982, entrei na cozinha da escola e me deparei com as funcionárias cantando “Panela velha é que faz comida boa” e me surpreendi. (Eu trabalhava na tenda que vendia quentão e fora buscar mais bebida.) Achei a canção irreverente, divertida, disse que não conhecia e também estranharam a minha ignorância.

Não sabia coisa alguma do rock nacional e nem da música nativista rio-grandense. “Você não soube me amar” estourara naquele ano e também “Panela velha”, de Celmar de Moraes & Auri Silveira. Novidade demais para mim.

Eu devia ser um bicho estranho, um sujeito fora do ar. Um professor que pouco sabia além dos seus livros, filmes e jornais. Me propunha a falar para os alunos a respeito do desenvolvimento do capitalismo, alertar contra as irregularidades trabalhistas, que podiam ser minoradas se a classe trabalhadora estivesse atenta, fortalecesse seus sindicatos, patati patatá, mas não sabia o que tocava no rádio e na TV.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Sindicalismo às vezes atrapalha

 

O melhor das aulas era o que surgia espontaneamente. Eu sempre tinha um roteiro (plano de aula) escrito num caderno (ou em folhas avulsas), mas não conseguia segui-lo. Nas aulas do Curso Supletivo (na Escola Ana Néri) isso parecia ser a regra.

Certa noite, o planejamento do dia indicava a necessidade de desenvolver o período da República Velha, dominada politicamente por cafeicultores, voltados exclusivamente à exportação de seu produto, dispostos a fazerem a sociedade e o Estado brasileiros girarem em torno dos seus interesses, e, de repente, aquela conversa soou completamente sem sentido.

– Por que cargas d’águas a gurizada precisa aprender isso? – eu perguntei a um colega, durante o intervalo.

Ele me respondeu na lata:

– Porque está no currículo, porque isso vai ser cobrado deles em algum momento, em alguma prova ou concurso.

Era a resposta sabida e aceita, mas mesmo assim não invalidava o questionamento.

As salas de aula na Escola Ana Néri eram pequenas, atulhadas de classes e cadeiras, com pouco espaço para circulação, e muitas vezes me senti acuado, de pé, diante dos alunos (espremido entre os alunos e o quadro verde). Seguia o roteiro oficial (o currículo e as avaliações recomendadas) e certa noite, ainda tratando da República Velha, abordei o surgimento do mundo fabril, a nascente classe operária, a ausência de legislação trabalhista e a formação dos primeiros sindicatos.

– Sindicatos são fundamentais para a classe trabalhadora, pois asseguram melhores salários e também boas condições de trabalho – enfatizei. – Olhem o que está ocorrendo no ABC paulista: um novo sindicalismo está proporcionando ganhos concretos para os operários das montadoras de automóveis. Um exemplo para o País.

Uma aluna na primeira fila fez uma careta e acrescentou:

– Mas nem sempre é assim. Sindicalismo às vezes atrapalha. Vê só o meu caso. Meu namorado trabalha no sindicato dos comerciários, me viu lavando a vitrine da loja e denunciou o meu patrão. Eu fui contratada para trabalhar no balcão e meu namorado disse que não era correto me mandarem fazer serviço de limpeza. A loja pagou a multa e me mandou embora na mesma hora. O que eu ganhei com o sindicato?

Fiquei parado escutando a guria, não sabendo como encaixar a sua história na minha aula. Uma baita história, claro, um caso concreto de ação sindical na vida de um trabalhador, mas não servia ao que eu pretendia.

– Não é um bom exemplo – deu disse.

No entanto, a turma inteira concordava com ela. Sindicalismo era coisa que aqueles jovens adultos – muitos deles empregados em lojas e escritórios – não viam com simpatia. Pagavam o imposto sindical, mas pouco sabiam dos tais sindicatos. Uma realidade distante das suas vivências cotidianas, enquanto eu, um professor entusiasticamente associado ao CPERS, vivia integralmente o mundo sindical.[i]

– Mas o exemplo da colega não invalida o que estou dizendo – eu afirmava, reafirmava, com a impressão que estava pregando no vazio.


[i] Naquele tempo, o CEPRS (Centro dos Professores do Rio Grande do Sul) ainda não era um sindicato e, sim, uma associação. Só se tornou sindicato com a Constituição de 1988. Mas para muitos de nós, “professores engajados”, era como se fosse. A entidade vivia uma grande transformação e crescimento, assumindo cada vez mais uma postura de defesa dos “professores enquanto trabalhadores da educação”, rompendo com a ideia do magistério como sacerdócio (ideia muito comum, mesmo entre os professores), e colocando a categoria no “quadro mais amplo da luta da classe trabalhadora”.

domingo, 2 de abril de 2023

Mundo do trabalho

 

Foram as notícias de superexploração de trabalhadores na colheita da uva que desencadearam essas memórias a respeito da minha trajetória no Magistério Estadual. Não, eu não vivi situação semelhante na minha atividade profissional. Apenas me interessava, como professor, por esta realidade cruel – a da existência de relações de trabalho à revelia da legislação, motivo de sofrimento e humilhação para muitos – e a tematizava em sala de aula.

Dito de outra maneira, mais ao estilo de um professor de História, meu foco era a permanência de práticas arcaicas de trabalho, enquanto a economia se encaminhava para formas modernas de relações trabalhistas. Isto acontecia na década de 1970, continua ocorrendo hoje (em pleno século XXI) e, não sei porque cargas d’águas, me surpreendi.

Minha situação, no entanto, sempre foi amena, se comparada com o quadro vivido pelos trabalhadores baianos no “moderno território do capitalismo da Serra Gaúcha”. Quando, no início da minha atividade como professor, me deparei com uma situação irregular, questionável do ponto de vista da Legislação Trabalhista, tive o luxo de encarar a questão judicialmente.

Naquela época (1980), eu soube de um advogado (Tarso Fernando Genro) que entrara com ações trabalhistas contra o Governo do Estado, requerendo os direitos da CLT para os professores com “contrato emergencial” (meu caso), e fui consulta-lo com um grupo de colegas.[i]

O advogado nos explicou:

– Frente à Legislação Trabalhista, só existem dois casos: ou o sujeito é estatutário ou é regido pela CLT. Vocês, professores contratados, não são uma coisa nem outra e isto é irregular. Vou requerer o enquadramento de vocês como celetistas e, desta maneira, o ganho de uma série de benefícios legais.

Demos autorização para o ingresso das ações (alguns professores desistiram no meio do caminho, acho que ficaram com medo) e eu acompanhei o processo com vivo interesse. No meu entendimento, uma aula a respeito de como o mundo funcionava.

Me recordo de uma noite, na escola em Canoas, quando vieram uns técnicos (acho que da Justiça do Trabalho) para medir a intensidade da luz na sala de aula. Examinar se as condições de trabalho seguiam as exigências legais, se a luz era adequada ou não.

O processo levou quatro anos para chegar ao final e o resultado foi o esperado: vitória. Só não valeu a questão da qualidade ou intensidade da luz, pois não havia legislação a respeito, como existia para o trabalho dos bancários. O ganho financeiro possibilitou a compra de uma máquina de lavar, um utensílio doméstico caro e super útil para um casal de professores (como era meu caso) que acabava de ter uma filha. Afora isso, aprendi, na prática, que há um front legal para enfrentar as irregularidades e/ou explorações do mundo do trabalho. Nem tudo está perdido “no mundo regido pela lógica do Capital”.

De certa forma, era o que eu tematizava na sala de aula: a realidade do mundo do trabalho, tão injusta para a maioria dos trabalhadores, pode ser enfrentada, existem possibilidades de enfrentamento. Alguns – os homens de vida amarga, do poema de Ferreira Gullar – vivem completamente à margem da legislação, enquanto outros podem dispor da Justiça do Trabalho... Uma realidade muito difícil de articular, mas que eu arriscava, provocando os alunos (crianças, adolescentes e jovens adultos) a também falarem sobre o assunto.



[i] Quando entrei na sala, Tarso estava falando com o pai por telefone – o seu Adelmo, como eu viria conhecer e chamar nos anos 90, em Santa Maria, na Associação Santa-Mariense de Letras, e com o qual faria livros coletivos de crônicas (“Da Boca do Monte”, 2000; “O apito do trem”, 2002).

quinta-feira, 30 de março de 2023

Almoço com sonhos

 

Um dia, quando lecionava em Canoas, fui almoçar na casa de dois alunos na Mathias Velho. Dois irmãos, um guri e uma guria, alunos de séries diferentes (quinta e sexta, se não me engano) e muito pequenos, menores que seus colegas da mesma idade (acho que sofriam de nanismo). Ele, com um sorriso maroto e muito conversador; ela, com uns olhos de cachorrinho pidão e tímida. Insistiram no convite diversas vezes, eu protelei o que pude, até que não deu mais.

Eles moravam numa casa de madeira, erguida um pouco acima do chão (três ou quatro degraus) para enfrentar a água das enchentes. A terra era muito escura ao redor da casa e eles me mostraram a horta. Explicaram que a terra não era boa, mas o pai e a mãe insistiam, pois “sempre foram de plantar”. Depois apontaram para umas gaiolas pequenas, com alguns coelhos, e disseram que a criação dos bichos era “invenção do pai”. Os animais, espremidos nas gaiolas, pareciam assustados.

Não, eles não me serviram carne de coelho, naquele dia. Os pais estavam “no serviço, na cidade”, eles próprios tinham preparado a comida e colocaram as panelas com muito orgulho sobre a mesa. Acho que comemos arroz e feijão, com verduras da horta, e eles falaram muito a respeito dos seus planos de crescerem e fazerem sucesso na TV. Ela seria apresentadora de noticiário de TV; ele, o jornalista que “escreveria as notícias”. Hoje, tenho a impressão de que o motivo do convite era este: me perguntar se este sonho era possível. Eles, filhos de uma família do campo, recém chegados ao mundo da cidade, tinham chance de fazer sucesso na televisão? Menti com toda a delicadeza que estava ao meu alcance.

– Sim, bastava estudar. A televisão estava crescendo. Na verdade, os meios de comunicação em geral se expandiam, exigiam muitos profissionais... Vai surgir uma oportunidade pra vocês.

De modo algum falei algo que murchasse a bola das crianças. Pelo contrário. Eu cursara alguns semestres de Jornalismo, trabalhara numa rádio de Porto Alegre e conhecia alguma coisa da área de Comunicações. Hoje, acho que devo ter falado sobre isso na sala de aula e eles me pegaram para conferir.

Preconceituosamente ou não, achei os seus sonhos mirabolantes. Mas quem vive no mundo escolar geralmente participa do ideário de que “se a pessoa quer, basta estudar, se esforçar” e eu segui o roteiro.

Ao final da refeição, caminhamos juntos até a escola e eles me pareciam felizes. Talvez eu dissera o que eles queriam ouvir e o almoço fora um sucesso, do ponto de vista deles. Mas eu estava incomodado. Não tinha sido honesto e não gostara. Sabia que professor é, muitas vezes, uma espécie de ator de radionovela – “Está bem, Maria Augusta. Se isso que você deseja, farei tudo para que dê certo.” –, mas eu ainda não estava conformado ao papel. No fundo, queria ser o professor que “desenvolve o espírito crítico dos alunos”, uma cantilena que me acompanhou por décadas.

quarta-feira, 29 de março de 2023

O personagem

 

Releio as últimas crônicas do blog (a respeito do início da minha trajetória de professor) e percebo que falta definir melhor o personagem que eu fui. Uma história não fica boa, se o personagem não é bem apresentado.

Pois bem, esse professor era um jovem recém formado, magro, cabeludo e barbudo. Vestia calça de brim, camiseta, e calçava tênis. No verão, sandálias franciscanas. Muitos usavam bolsas de couro, mas ele sempre preferia as pastas. Não sei quando descobriu as pastas com alças. Ou quando elas ficaram mais acessíveis e ele passou a usá-las.

O personagem nas areias da Praia Grande.
Itapuã, Viamão / RS.

Quanto ao universo mental, acho que a nota principal era a posição contrária “aos militares e a todas as formas de autoritarismo”, a começar pela “estrutura autoritária da tradicional família brasileira”. Anticapitalista, desconfiava do modelo soviético e apostava em possíveis reformas. Neste sentido, a criação do Sindicato Solidariedade configurou-se numa espécie de norte, isto é, uma esperança de democratização do sistema soviético ou algo assim.

Tinha uma admiração desbragada pela Revolução Cubana, em especial quanto ao seu caráter anti-imperialista, mas fazia ressalvas quanto ao modelo político (que, na verdade, não compreendia).[i] Neste aspecto, o modo como o PT se construía, rompendo com a esquerda tradicional (o PCB e o PCdoB) caia feito uma luva nas esperanças e ingenuidades do jovem professor. Um novo partido que era tema para discussões intermináveis.[ii]

Acho que isso dá o tom da cabeça desse personagem que pegava o ônibus para Alvorada, de manhã cedo, e ia lecionar numa escolinha de madeira, na beira da estrada, nos anos 1978 e 79.

Só fica faltando indicar o lugar do Catolicismo na sua formação. Afinal, ele foi coroinha quando guri (em Pelotas, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus) e, entre os 15 e 16 anos, integrante da juventude católica (em Porto Alegre, na Igreja São Pedro). No último caso, teve um padre-orientador que citava as resoluções da Conferência de Medelin (aquela da “opção preferencial pelos pobres”), o que o colocou (sem nenhuma contrariedade) nos marcos do Catolicismo reformado a partir do Concílio Vaticano II.

Apesar de ter rompido com a Igreja aos 17/18 anos, sua sensibilidade continuou profundamente católica e só se deu conta disso muito tempo depois. No entanto, volta e meia percebia que seu ateísmo era mais teórico do que qualquer outra coisa.[iii]

Em poucas linhas, penso que está aí o personagem que eu era: um esquerdista de classe média, com tinturas católicas. Entrava em sala de aula, pegava um pedaço de giz e não apenas colocava no quadro as características da nossa formação social – a marca europeia dominante, o combate à população indígena, a escravização de negros africanos – como se indignava com o nosso passado histórico e sonhava com a “transformação radical” do nosso presente.

         – É isso que precisamos compreender – dizia... para uma cambada de crianças das quintas séries, com petulância e ingenuidade, naquela escolinha de madeira, na periferia de Porto Alegre, no final da década de 1970. Depois foi abrandando, abaixando o tom, algo assim.


[i] Não preciso dizer que fui mais um, entre os milhares, de jovens leitores de “A Ilha”, livro reportagem de Fernando Morais a respeito de Cuba (Editora Alfa Omega, 1976).

[ii] Em 79, me integrei de modo informal ao Movimento de Emancipação dos Trabalhadores (MEP) e, por meio dessa organização, participei de reuniões preparatórias do Partido dos Trabalhadores (PT). Mas isso durou um ano. Logo me dei conta que não tinha perfil para a militância partidária.

[iii] Em 1985 ou 6, ao final das aulas noturnas na Escola Ana Néri, me recordo de dizer a um colega que “devíamos colaborar para a redenção da classe operária”. Ele riu e eu me dei conta: estava na cara a minha disposição religiosa, ainda.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Os leões da Assíria

 

Em 1983, após aprovação em Concurso Público, fui nomeado em duas escolas de Porto Alegre – uma no Bairro Minuano (Escola Estadual Ana Néri); outra no Bairro Rubem Berta (Escola Técnica José Feijó) – e iniciei uma outra etapa como professor. Estava mais calejado e passei a lidar melhor com os alunos. Não lecionava mais para crianças, mas para adolescentes e jovens adultos, e isso me oferecia melhores condições de diálogo. Era possível perguntar e ouvir os alunos sem dar muitas voltas, sem precisar adivinhar o que eles estavam dizendo.[i]

Na Escola Ana Néri, me designaram as turmas da noite (Ensino Supletivo), com um número expressivo de alunos que trabalhavam e chegavam cansados na aula. Não era raro um e outro cochilarem sentados. A maioria com grande dificuldade de leitura e interpretação de texto, mas sempre muito bom ouvi-los falar.

Esses alunos desvendavam mundos e também formas de pensar e sentir que eram uma surpresa para mim. Trabalhavam em lojas, oficinas, bares e hotéis (não recordo de nenhum no mundo fabril), e muitas vezes se sentiam assustados com a realidade que enfrentavam. A grande maioria viera de pequenas cidades do interior do estado, com grandes esperanças (às vezes tremendas ilusões) e Porto Alegre era um desafio enorme. Muitas vezes maior que suas forças, eu tinha impressão. (Havia também alunos vindos da zona rural, mas esses não falavam, sei lá, talvez se intimidassem diante do professor que eu era.)

Pouco sabiam da cidade onde estavam morando, não conheciam os seus prédios importantes (a Catedral, o Palácio Piratini, p.ex.) e muitos ficavam restritos ao trajeto entre as suas casas, o trabalho e a escola. Falavam de jornadas de trabalho extensas, horas cansativas nos ônibus, correria para as refeições e finais de semana nos quais dormiam, lavavam roupa, tentavam estudar e se esparramavam no sofá para assistir televisão (quando havia TV em casa). Às vezes eu ficava espantado com a pequenez de suas vidas.

Leão do palácio de Nimrud (Assíria, séc. IX a.C.)
Museu Glyptoteket (Copenhague)

Uma noite, numa aula de História Antiga, me referi aos leões da Assíria (leões esculpidos nos palácios da Assíria), mostrei a gravura no livro didático (que resumia todo o material visual que eu dispunha) e fiz uma analogia com os leões colocados nas laterais das escadarias da Prefeitura Velha.

– Estes leões estão colocados ali também como símbolos de poder – expliquei. – Vocês já viram quando foram ao centro da cidade?

Ninguém tinha visto, mesmo os que trabalhavam no centro. E acharam estranho eu vincular tempos e realidades históricas tão distantes.

Leão da Prefeitura Velha (P. Alegre)
Fonte: Wikipédia

Não havia celular para acessar o Google e, na mesma hora, todo mundo tomar conhecimento dos leões dos palácios da Assíria, os da Prefeitura de Porto Alegre ou os de algum prédio oficial de Londres ou Madri. Visto de hoje, um quadro de pobreza extrema, mas acho que era assim, de modo geral, o mundo das escolas estaduais. E, na Escola Ana Néri, não exagero ao afirmar que a situação era franciscana, expressada na construção de madeira dos prédios escolares – muito bem conservados e limpos, por sinal –, nas salas pequenas, com classes muito próximas umas das outras, pouco espaço para circular, e iluminação fraca. Dava dó acompanhar o esforço dos alunos para ler e escrever nos cadernos.

Mas era assim. E, neste universo precário, um professor presunçoso queria que os alunos se interessassem pelos leões da Assíria e estabelecessem relações como os leões da Prefeitura da cidade onde viviam...



[i] Escrevo isso e repiso a importância tremenda de professores bem preparados para lidar com as crianças. Assim como relembro o horror, o horror (era assim que eu sentia e ainda sinto), que é o modo como o sistema de ensino trata os professores das primeiras sérias, o quanto não os valoriza, etecetera, etecetera.