quarta-feira, 23 de julho de 2025

As gurias do Rococó

 

No início da década de 1970, quando era estudante do Julinho (Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre), a professora de História da Arte dividiu a turma em grupos e cada um apresentou um período da arte ocidental: o Gótico, o Renascimento, o Rococó, e por aí vai. Não tenho certeza a respeito de qual escola artística meu grupo precisou dar conta (talvez o Barroco), mas as gurias que se sentavam a minha frente apresentaram o Rococó e disto jamais esqueci.

Eram quatro moças entre 16 e 18 anos (estávamos no segundo ou terceiro ano do Colegial) e duas delas eu achava excepcionalmente bonitas. Quando elas ficaram na frente da turma, na hora da apresentação, uma delas (de pele muito branca) abriu um enorme livro com reproduções de pinturas, mostrou o quadro “Madame de Pompadour”, pintado por François Boucher, e fiquei deslumbrado. Na minha fantasia de adolescente, minha colega se tornou a encarnação desse ideal de beleza aristocrática que frequenta nossos contos de fadas, romances e filmes.

"Madame de Pompadour" (1759), de François de Boucher.

Na verdade, as quatro integrantes do grupo passaram a ter atributos daquele estilo artístico que floresceu na corte de Luís XV, na França. E não apenas aos meus olhos, pois no conceito da turma elas se tornaram “as gurias do Rococó”. Eram suaves, graciosas e sensuais (como os trabalhos artísticos apresentados), cada uma ao seu jeito de simples meninas do colegial.

Estou exagerando? Certamente. No entanto foi desse modo que elas ficaram no meu imaginário. Não me apaixonei por nenhuma delas, mas como poeta aprendiz que era, aprendendo a versejar tanto quanto a admirar a Beleza (com inicial maiúscula), coloquei-as no meu panteão de beldades. Eu lia e relia Hermann Hesse e gostava muito de um conto de sua autoria, intitulado “O Poeta”, no qual o personagem preferia olhar a beleza de longe, como espectador solitário, a se envolver com ela.[1]

Dessa maneira, François Boucher, Jean-Honoré Fragonard e Antoine Watteau entraram no meu radar de interesse. Eu frequentava uma das bibliotecas da escola, numa sala no subsolo do bloco principal, com belíssimas coleções de arte, e as folheava com interesse. Alguns títulos eram em francês e eu lia com enorme dificuldade.

Hoje, é engraçado pensar que o adolescente que eu era (ainda envolvido com a Igreja Católica e, ao mesmo tempo, atraído pelo rock e a Contracultura) fosse capaz de ter interesse pela arte mais frívola do Ocidente, aquela que vicejou na França do Absolutismo, no reinado de Luís XV, e teve Boucher e Watteau como expoentes máximos. Curioso.

Quando visitei o Museu do Louvre, em 2019, passei apressado por um dos mais sensuais quadros de Boucher, “Diana no banho”, e só dei uma espiada. O museu já ia fechar, minha antiga companheira e eu estávamos no Louvre desde a abertura, faltava ver a “Monalisa” e corremos até a sua sala. Mas a divina Diana, pintada por Boucher, não me deixou passar ileso. “Estou aqui”, ela sussurrou (erguendo seu delicado pezinho nu) e eu a olhei de canto de olho.

"Diana no banho" (1742), de François Boucher.

Quando penso nisso (que pecado não ter parado e referenciado a divina deusa), lembro também das “gurias do Rococó” e das horas que passei na biblioteca do Julinho folheando livros de arte, procurando naquelas imagens um guia para desvendar o mundo. Imagens que até hoje me povoam e enfeitiçam.



[1] No conto citado, um poeta chinês observa uma festa do outro lado do rio, deseja estar lá, gozar a alegria, mas opta por “assistir àquilo tudo como um espectador sensível” e, mais tarde, apresentar a cena “numa poesia perfeita”. Dia do bulício da vida, ele opta por “refletir o mundo [...] na poesia.” (HESSE, Hermann. Contos. RJ: Civilização Brasileira, 1970.)

terça-feira, 22 de julho de 2025

Minha avó Aymée

 

Minha avó se chamava Aymée, mas era conhecida como Meca. Ela gostava de ouvir radionovela depois do almoço, enquanto lavava a louça na cozinha. Eu tinha dez anos idade, morava no mesmo quarteirão, ia visitá-la com frequência e ficava fascinado vendo-a absorvida pelas novelas.

O rádio, colocado em cima da geladeira, enchia a cozinha de sons e eu ouvia o ruído de três batidas numa porta e uma voz feminina e chorosa dizer: “Paulo Roberto, é você?” Escutava o som da porta sendo aberta, acompanhada de uma voz masculina: “Sim, Maria Augusta, sou eu. Vim ver como você se encontra.”

As vozes eram sempre solenes, dramáticas, eu não achava graça naquilo, não entendia, mas ficaram gravadas na minha memória. A trilha sonora de meu mundo familiar.

De noite, na minha casa, passavam novelas na TV (a televisão era uma novidade, o pai recém comprara um aparelho) e a vó Meca aparecia para assistir. Recordo da abertura d“O Sheik de Agadir”, com o herói da história empinando um cavalo branco no deserto e, na sequência, cenas de intriga e outras bem melosas, de abraços e beijos. Eu novamente não entendia grande coisa, mas me fascinava o entusiasmo da vó.

Minha mãe, por sua vez, torcia o nariz por essa preferência da sua mãe.  Na certa uma implicância pelo modo exagerado como a vó Meca conduzia a própria vida: tudo sempre pintado com cores dramáticas, a vida transformada em “fita de cinema” ou novela mexicana.

Mais tarde, soube que ela se sentia vítima de “grandes injustiças” e isto marcara a sua vida. Injustiças que, provavelmente, estavam ligadas às histórias do seu pai. Ela nascera de uma “ligação” da sua mãe Antonieta com um “jornalista mulato”, a qual durara poucos anos e resultara em dois filhos, seguida por um novo casamento da mãe com um “engenheiro italiano”. O padrasto perfilhara os filhos da nova esposa, mas estabelecera uma condição: colocar uma pedra em cima da memória do pai natural das crianças.

Minha avó foi criada desse jeito e tudo indica que sempre sentiu um certo desconforto por esse “silenciamento” em torno do seu pai biológico. Mas nunca falou claramente a respeito do assunto. Desde mocinha minha mãe lidou com esses mistérios da sua mãe e só depois dela morrer conseguiu conversar a respeito. “Tua vó Meca certamente ficou traumatizada pelas histórias em torno do seu pai natural”, a minha mãe divagava, sem ter certeza de muita coisa.

Pois lembrei da minha avó lendo o romance “Chuva de papel”, de Martha Batalha (Cia. das Letras, 2023, 220 p.), em especial ao entrar em contato com o drama da personagem Glória: o seu desejo de trazer à tona a própria história. Glória é uma velha senhora que, no tempo da pandemia do Covid 19, procura fazer da sua trajetória uma autobiografia, mas encrenca ao torná-la uma narrativa possível de ser impressa. Ela quer contar o seu drama de menina que assistiu ao pai morrer de modo dramático (uma parada cardíaca num almoço de Páscoa), de mocinha que acompanhou a mãe fazendo promessa para conseguir novo marido, do médico casado que a desvirginou e a tomou como amante durante anos, controlando a sua vida, e tem dificuldade em colocar isso em palavras. Dramas miúdos de uma menina, moça e mulher muito simples que sofreu em silêncio durante vários anos e a muito custo se tornou dona do próprio destino.

Lembrei da minha avó e de suas histórias nebulosas, ambas sofrendo em silêncio suas dores de mulher em relação ao pai e aos homens em geral. Glória procurando colocá-las em palavras, transformá-las em texto escrito na velhice, enquanto minha avó as levou para o túmulo... deixando para o neto o “compromisso” de um dia esclarecer o que houve. O neto que sintonizou com o seu olhar enfeitiçado, seus ares às vezes distantes e chorosos, enquanto escutava radionovelas na cozinha, lavando a louça.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Galeria dos Lanceiros

 

Quem foi a Florença certamente andou pela Piazza della Signoria, bateu os olhos nas esculturas da Loggia dei Lanzi (Galeria dos Lanceiros) e talvez tenha se espantado com a violência das esculturas. São impactantes, belas e inesquecíveis.

Galeria dos Lanceiros. Ao fundo, "Perseu", de Cellini.

Perseu com a cabeça decapitada da Medusa, Hércules sentando o porrete no centauro Nessus (que antes tentara seduzir a sua esposa Dejanira), Pirro sequestrando Polixena, com o irmão dela morto aos seus pés, enquanto Hécuba (a mãe da jovem) se arrasta agarrada às pernas do guerreiro aqueu, mais o fabuloso conjunto escultórico do rapto de uma sabina. Um romano agarra e ergue no ar uma jovem sabina (para depois levá-la para sua cama, na sua humilde choupana, como eram as habitações dos primitivos habitantes de Roma), enquanto um musculoso sabino se prosta, vencido, aos seus pés.

"Rapto da Sabina", de Giombologna. 

Violência pra mais de metro, se poderia dizer. Heróis da mitologia greco-romano se movimentando sem freios e cumprindo trajetórias de crueldade, representados por brilhantes artistas: Benvenuto Cellini, em “Perseu” (1554), Pio Fedi, em “Rapto de Polixena” (1865), Giambologna, em “Hércules em luta com o centauro Nessus” (1599) e “Rapto da Sabina” (1583).

"Hércules em luta com o centauro Nessus", de Giombologna
e Pietro Francavilla.

Em “Hércules em luta com o centauro”, Giambologna teve a colaboração de Pietro Francavilla, uma informação geralmente esquecida nos livros de história da arte, mas não no quadro/legenda da galeria, indicando títulos, datas e autorias das esculturas.

Pois eu visitei Florença num dia frio e ensolarado de fevereiro de 2017, entrei nessa galeria, ergui os olhos justo para o “Rapto da sabina” e levei um susto. A beleza da escultura (os corpos nus em movimento, em luta, em completa tensão) me fisgou e demorei a entender o que estava vendo. Várias lembranças, como um thriller de filme, passaram pela minha cabeça. Muito além de apreciar uma obra-prima da arte ocidental eu estava contemplando a representação de uma lenda da fundação da Roma antiga... dessas que os guris da minha geração, criados na sala escura dos cinemas, tomaram conhecimento na infância.

“Rapto das sabinas” (1961) foi um desses filmes do cinema italiano (pródigo, naquela época, em enfocar temas do Mundo Antigo) que passava nas matinês do Cine Guarany, em Pelotas, e que eu assistia com a maior seriedade. Eu ia a essas sessões de cinema com meu pai e o cravava de perguntas na saída. Queria saber detalhes da trama, dos personagens, do registro histórico, e o pai se esmerava em responder. Quando chegávamos em casa, ele ia na estante consultar alguma enciclopédia, abria o volume na minha frente, lia trechos, me mostrava gravuras e minha imaginação alucinava. Um mundo inteiro se desenhava aos meus olhos, indicando o início de uma viagem que venho realizando até hoje.

No caso do rapto das sabinas, o impacto foi tremendo. Um episódio brutal, dado como verdadeiro pelo historiador Tito Lívio (e assim entendido pelo menino que eu era), mas inegavelmente uma lenda. Roma vivia os seus primórdios, era governada por Rômulo, o primeiro dos seus reis, e faltavam mulheres para aquele bando de homens selvagens que queriam formar um reino. Precisavam de mulheres que servissem de esposas, mães, e que garantissem a consolidação e crescimento do povoado. A solução foi realizar uma festa, convidar as famílias das aldeias próximas (habitadas pelos Sabinos) e, a um sinal determinado de Rômulo, capturar as mulheres e expulsar os seus pais, maridos e irmãos. Um rapto, uma violência. A formação de uma grande cidade (de um dos esteios da nossa civilização) a partir do aprisionamento de várias mulheres que, ao final (ao menos na lenda, na conversa de Tito Lívio) aceitaram a sua nova condição e passaram a conviver pacificamente com os novos maridos.

Na Galeria dos Lanceiros, em Florença, esse filme me passou pela cabeça. Me tocou o conjunto das violências representadas – cabeças decepadas, centauros massacrados, mulheres raptadas, violentadas – e fiquei fascinado. Embasbacado com o modo maravilhoso, artístico, como todo esse universo de fúrias & paixões ganhou vida naquele espaço. Por séculos e séculos, gerações de homens e mulheres se escandalizaram e se deliciaram com aquelas representações e eu era mais um nessa multidão, vivendo o espetáculo dos horrores dos primórdios da nossa civilização...

"Rapto de Polixena", de Pio Fedi.

Afinal, monstros precisaram ser vencidos, sacrifícios tiveram de ser realizados (Prolixena foi morta para que os navios aqueus tivessem bons ventos no regresso à Grécia) e mulheres sabinas urgiam ser raptadas de seus pais ou maridos para que Roma se erguesse. Ou, pelo menos, assim foi escrita e desenhada a História no nosso imaginário.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Malinowski na Avenida Osvaldo Aranha

 

Os trobriandeses, habitantes do arquipélago das Trobriand (no Oceano Pacífico, próximo à Nova Guiné), não estabeleciam nenhuma relação entre o esperma e a concepção dos bebês. Eles acreditavam que as crianças nasciam de um processo que hoje chamamos de partenogênese, isto é, sem que o óvulo feminino fosse fecundado. Segundo suas crenças, os filhos entravam pela cabeça das mulheres, encarnados num espírito chamado Waiwaia, desciam até o ventre e, a partir daí, iniciavam a gestação. Os homens eram dispensáveis nesse processo.

Isso é o que relata Bronislaw Malinowski, que estudou esse povo na década de 1910 (durante a Primeira Guerra Mundial), e que tomei conhecimento nas aulas de Antropologia, quando era estudante de História. Malinowski se propôs a entender o ponto de vista dos nativos, procurou reproduzir o seu entendimento do mundo e a professora dava aulas apaixonadas a respeito do método criado por ele: a etnografia. Um método que pretendia um mergulho no universo cultural dos povos analisados. Ou, ao menos, uma tentativa de aproximação e envolvimento com as culturas encontradas fora do eixo da Civilização Ocidental.

Malinowisk com os nativos de Tronbriand.
Fonte: Wikipédia. 

Encerrada as aulas, eu saia com um colega (Aléxis Borloz) a caminhar pela Avenida Osvaldo Aranha (o curso funcionava no Parque da Redenção, só se transferiu para o Campus de Viamão em 1977) e divagávamos a respeito do assunto. Os povos primitivos (“selvagens”, como muitas vezes se falava) nos encantavam. Nós nos sentíamos atraídos por tudo que se distanciasse da nossa civilização de matriz europeia, visto por nós como “decadente”. Além do mais, esses povos primitivos encontrados pelos europeus ao longo dos séculos XIX e XX (como os trobriandeses) se tornaram referência para conhecer os grupos caçadores-coletores do Paleolítico. Funcionavam como uma espécie de guia para outras formas de organização sociopolítica, anteriores à Grécia e Roma. Indicavam, por exemplo, sistemas matriarcais, modelos de organização de poder nos quais as mulheres não estavam excluídas. E crenças como essas, que omitiam a participação dos homens na gestação dos bebês, colaboravam para estabelecer a centralidade das mulheres na organização familiar e política.

Conversas empolgantes, ao longo da Avenida Osvaldo Aranha, na saída das aulas. Verdadeiras discussões a respeito das quais mais recordo o entusiasmo do que qualquer outra coisa. Eu andava a ler “O segundo sexo”,  de Simone de Beauvoir (sem concluir o último volume), folheava “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, de Engels, e, de forma mais sistemática, estudava as abordagens de Gordon Childe (autor obrigatório nas disciplinas de Pré-história e Antiguidade) a respeito das revoluções Neolítica, Urbana e o surgimento das Civilizações. Misturava isso com Malinoswski (sem ler “Os Argonautas do Pacífico” do início ao fim) e falava, discutia, polemizava com meu amigo.

Os homens demoraram a compreender que o sêmen que eles ejaculavam durante a relação sexual tinha papel na gestação e isso teve consequência na organização social. Eles só descobriram a sua função quando passaram a domesticar os animais (durante a Revolução Neolítica), observá-los em cativeiro e se dar conta de que, se não acontecesse o acasalamento, nada de surgir novas ovelhas, novos cabritos e bezerros. Uma observação que contribuiu para reorganizar a estrutura de poder nas sociedades de agricultores que então construíam aldeias, cidades, estabeleciam distinções sociais e desigualdades. Um processo muito complexo no qual os homens se impuseram perante as mulheres, subordinando-as, tornando-as inferiores a eles, e “se achando”. Aos poucos, substituindo o matriarcado pelo patriarcalismo...

Conversa que não tinha fim entre os jovens estudantes que éramos. Até Érico Veríssimo entrava em pauta, por meio da crítica de Floriano Cambará, personagem de “O tempo e o vento”, a respeito da sociedade machista do Rio Grande do Sul. Uma paixão que compartilhávamos, isto é, o gosto pela obra de Veríssimo.

No início dos anos 80, o meu amigo defendeu dissertação no Mestrado de Antropologia, na UFRGS, sobre a Contracultura em Porto Alegre e o surgimento dos "malucos", jovens de comportamentos desviantes (como ele procurara ser). Eu tentei ingresso no mesmo curso, não fui classificado e encarei o Mestrado em Letras, na PUC, defendendo dissertação sobre o Grupo Quixote, um grupo literário porto-alegrense. Caminhos diferentes, mas que, de alguma maneira, tiveram origem nas observações de Malinowski a respeito dos trobriandeses, nas suas crenças sobre a gestação de bebês e as diferentes formas de se inventar a vida. Caminhos que fomos criando, enquanto batíamos pernas e conversávamos pela Avenida Osvaldo Aranha.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Sonhar com Paris

 

João Alberto completou 70 anos e pertence a uma geração que estudou francês no Ginásio e no Curso Clássico. Cedo ganhou familiaridade com o imaginário francês e passou a admirar seus artistas. Leu Baudelaire, Flaubert e Maupassant (em tradução), assistiu aos filmes de Godard e Truffaut, e sonhou em ser poeta. Até fez alguns poemas e ganhou concurso literário quando estudante. Mas um primo escritor lhe avisou que a coisa não era fácil e ele guardou a literatura para os finais de semana e, por fim, a esqueceu.

Dedicou-se a advocacia, abriu escritório e ganhou dinheiro, o suficiente para possuir um apartamento na cidade, uma casa na praia, trocar de carro regularmente e até financiar o da esposa. Deu vida boa para os três filhos e eles puderam cursar a universidade sem trabalhar e só sair de casa só quando tiveram renda para bancar a própria sobrevivência. Com o seu talento para as letras jamais conseguiria coisa igual.

Mas aos 70 anos se deu conta que um velho sonho não desaparecera: conhecer Paris. Navegar pelo Sena como os personagens de Maupassant, cruzar na rua por mulheres fascinantes como nos poemas de Baudelaire, amar num quartinho minúsculo como num filme de Godard. Viajara pouco, sendo Buenos Aires e Cancún os seus únicos destinos no exterior, esse último devido à insistência da esposa, que dissera que “todo mundo conhece, é maravilhoso”.

Naquela viagem a Cancún, aos 60 anos, se deu conta que perdera a paixão pela vida e entrara em outra etapa da existência. Gostava de trabalhar, isso sim, e eventualmente lia algum romance. Naquela temporada mexicana, fizera um sexo protocolar com a esposa e depois a assistira caminhar pelo quarto, abrir as cortinas para o mar do Caribe e a ouvir falar de outras viagens que precisavam realizar.

– A Europa, João Alberto, aquele tour que sonhamos tantas vezes: Lisboa, Madri, Paris.

– Não, eu não sirvo para isso – ele disse, sentando-se na cama, servindo-se de uma garrafa de vinho branco mergulhada num balde de gelo. – Vai com as amigas, tu vais te divertir mais. Eu virei um chato.

– Um acomodado, isso sim. Um velho, muito antes da hora. Tu podias reagir.

Ele riu e não falaram mais no assunto. Ela viajou para a França, Itália e Egito, sempre com as amigas, enviando cartões postais no princípio (como ele pedira) e depois apenas fotos pelo WhatsApp.

Agora, com 70 anos nas costas, João Alberto retoma um velho sonho de estudante, mas não quer a companhia da esposa. “Uma viagem romântica”, ele imagina, com uma companhia que lhe acenda antigos ardores. Pensou encontrar isso em Rosângela, uma cliente de 47 anos, que ele atendeu num caso de separação litigiosa, e tem conversado com ela a respeito. Uma noite eles beberam espumante no apartamento dela, fizeram amor e ele recitou Baudelaire. O francês saiu estropiado, mas lembrou-se da tradução e ela o abraçou com um carinho inédito para ele.

“Minha doce irmã, / Pensa na manhã / Em que iremos, numa viagem / Amar a valer, / Amar e morrer. / No país que é a tua imagem! / (...) / Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor.”[1]

Assistindo a um filme na Netflix descobriu que há congressos acadêmicos na área do Direito, na Universidade de Sorbonne, e inventou que é este o seu próximo passo: a inscrição num evento universitário, o pretexto para a almejada viagem. Falou com um dos sócios do escritório e ele, que é professor universitário, ficou de lhe acertar os detalhes.

– Claro que não iremos juntos – ele avisou Rosangela. – Eu irei primeiro e te esperarei no Charles De Gaulle. Reservarei um quarto num hotel de Montemartre, um passeio no Bateaux Mouches, um jantar na Torre Eiffel e as obrigatórias visitas ao Louvre e ao D’Orsay.

Rosangela riu e não soube se devia acreditar ou não. “É um farsante tirando onda comigo”, ela pensou, “mas vou embarcar na fantasia. Por que não?” Sentiu que aqueles planos o entusiasmavam, o tornavam mais ardente na cama e era disso que precisava. Rosangela explicou que não estudara francês na escola – “Uma disciplina que a reforma educacional suprimiu” –, que sempre preferiu o universo da língua inglesa, conheceu Nova Iorque, Miami, mas apreciava a cultura europeia.

– Tudo que tu falas é novidade para mim. Estou aprendendo contigo.

João Alfredo se alvoroçava se imaginando em Paris e lembrava o adolescente que fora frequentando a biblioteca da escola para ler a respeito da cultura francesa. Sentia voltar a antiga admiração pelos assuntos tradicionais do universo francês – o escândalo provocado por “Flores do Mal”, o processo judicial causado por “Madame Bovary”, a revolução desencadeada pelos impressionistas – e achava graça que isso ainda fazia sentido para ele... Sentia também a força do sexo lhe vir renovada (turbinada, é claro, por um comprimido azul) e racionalmente decidiu manter a fantasia da viagem até quando pudesse suportar. Talvez fosse o último delírio da sua vida e não se impediria de sonhar. Cultivaria com zelo e carinho esse projeto de viagem com a amante, cuidando para não abalar seu casamento, a vida que construíra com empenho e sacrifício. Nem a esposa gostaria disso e lhe agradeceria muito se a mantivesse ignorante em relação ao assunto.



[1] “O convite à viagem”, tradução de Ivan Junqueira.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

A criança da casa

 

Tornei-me um usuário de aplicativos de transporte e às vezes converso com os motoristas. Nem sempre. Não tenho um padrão para isso. Mas gosto quando acontece uma conversa e pintam boas histórias.

Semana atrás foram os córregos que existiam em Porto Alegre e, hoje, estão canalizados. No bairro Boa Vista, por exemplo (onde moro atualmente), até o início dos anos 1980 havia um pequeno arroio com peixes e a gurizada usava para tomar banho, me garantiu um motorista. Ele era um desses garotos. Depois veio o Shopping Iguatemi, a abertura da Avenida Nilo Peçanha, o fim dos chalezinhos de madeira, a construção de edifícios bacanas, a canalização do arroio e tudo mudou. Difícil rastrear por onde passava esse “veio de água” a que o motorista se referiu.

Outro dia foram as novas relações que se estabeleceram entre os humanos e os animais domésticos. “Hoje é o gato que manda lá em casa”, afirmou o motorista. “Ninguém doma um bicho desses, é diferente dos cachorros”, ele adiantou, dizendo que tem três cães, um gato, e sabe bem o que é isso. “Os cachorros são mais obedientes”, garantiu.

Eu perguntei se ele era casado, se morava em casa e tinha filhos e ele respondeu item por item. Era casado, morava numa casa com pátio e não tinha filho. “Eu sou a criança da casa”, ele disse, “não tenho jeito pra cuidar um pentelho e a mulher entende isso”, arrematou.

A criança da casa... Puxa vida. Um homem que aparenta 40 anos e, ao que tudo indica, se nega a crescer. Eu não soube mais o que falar e ele continuou conversando. Perguntou se podia parar numa casa veterinária (precisava pegar um remédio para o cachorro salsichinha, que estava com dor na coluna) e eu disse que não tinha problema. “Não tenho pressa”, garanti. Ele estacionou, levou dois minutos para descer e trazer o medicamento, e depois continuou falando dos animais domésticos da sua casa. Adorava a bicharada.

“Com eles eu não me incomodo de dar toda a atenção do mundo. Mas com um filho eu não teria paciência. Criança é muito exigente. Já basta eu”, concluiu. E eu não prestei mais atenção no que ele falava. Fiquei imaginando qual seria a conversa da mulher. Que mulher aguenta um cara desses?, me perguntei. Deve ser outra apaixonada por cães e gatos, imaginei, senão não ia dar liga. Iam viver brigando.

Mas lembrei de uma tese de doutorado a respeito do comportamento feminino (de mulheres paulistanas de classe média) que apresenta uma série de casos de mulheres que nem perguntaram aos maridões se eles queriam ou não ter filhos. Engravidaram e pronto, os homens que assumissem os rebentos e aí que se tornassem pais ausentes, os desnaturados. Talvez a mulher do motorista, um dia, siga esse roteiro e, numa tacada, o destrone da sua condição de criança da casa. O homem vai enlouquecer.

domingo, 4 de maio de 2025

Sala de espera de exames médicos

 

Estou na sala de espera do setor de medicina nuclear do Hospital Moinhos de Vento para exames de cintilografia. Exames que investigam o funcionamento do coração, pulmão, rins, tireoide e outros órgãos. Somos quatro homens idosos na sala de espera e não conversamos a respeito de nossos problemas de saúde. Falamos de política. Melhor dizendo, um de nós fala, os outros escutam. Ele comenta a política do tarifaço que o presidente Trump realiza para intimidar diversos países do mundo.   

– Não há racionalidade alguma – ele afirma. Fala de um parente que mora numa pequena cidade dos Estados Unidos e da corrida da população para comprar smartfones e eletrodomésticos. – Esses produtos irão escassear nas prateleiras, ficar muito mais caros e o pessoal está enlouquecido, comprando. Um tiro no pé essas medidas malucas que o presidente vem implementando.

Diz que o seu parente era um admirador da sociedade americana e tudo fez para morar lá. Vendeu o que tinha, apartamento e carro, e foi com a mulher. Agora tem um filho e uma pequena empresa prestadora de serviços (manutenção de aparelhos de ar-condicionado) que se utiliza de mão-de-obra imigrante. Acha que sua situação é estável, mas não tem certeza.

– Agora não sabe em que pé as coisas vão ficar – ele comenta. – Incerteza total em relação à economia, isto é, ao abastecimento de produtos industriais, a maioria produzida no exterior, e quanto ao mercado de trabalho movido com mão-de-obra imigrante.

Estou num espaço da classe média alta porto-alegrense, uma camada social que tem a economia e a sociedade norte-americana como referenciais positivos, e penso que agora já é possível criticar os Estados Unidos. Algo inimaginável há pouco tempo. Um ano atrás, alguém sairia em defesa dos States, na hora. Não admitira falarem mal do “paraíso”. Agora não.

Lembro de um parente que morava em Miami e vivia trombeteando que “aqui as coisas funcionam”, “é um país decente, com regras”. Uma chatice a sua conversa. Nós mantivemos contato via Messenger por um tempo e eu pedi para ele largar de mão de me enviar vídeos para convencer a respeito das maravilhas do capitalismo estadunidense em contraponto ao caos brasileiro (agravado pelos governos petistas, segundo ele). “Tu não vais me convencer”, eu escrevi, “não me manda mais esses vídeos de propaganda direitista, alguns deles de muito baixo nível, quando não fake news descaradas”. Expliquei que estávamos campos político distintos, mas que éramos primos e seria legal não perdermos o contato”. Insisti, mas não deu certo. Ele só queria fazer conversa política e eu larguei de mão.

Depois ele adoeceu e veio se tratar no Brasil. A medicina de lá na certa não funciona tão bem quanto a economia e a sociedade, sei lá. As regras do atendimento médico não foram favoráveis a ele e isso que ele garantia que ganhava a uma boa grana. “Um dinheiro que não levantaria no Brasil com esses políticos corruptos que tem por aí.” Enchia o saco esse meu primo. Uma hora dessas preciso procurar esse primo.

Tenho vontade de contar essa história ao meu colega de exame de cintilografia, mas me calo. Só escuto. Qual o órgão interno que ele irá avaliar: coração, pulmão ou tireoide? Nós dois temos obstruções de coronárias ou hipertiroidismo? O que o futuro nos aguarda? Conseguiremos administrar nossas respectivas doenças? Não sei, não falamos disso. Ele fala do Trump e eu concordo: é um político da pior espécie. Um bravateiro arrogante que declarou que os dirigentes do mundo inteiro virão “lamber o meu traseiro” (sim, o chefe da Casa Branca usou essa expressão) para negociar o valor de tarifas comerciais, mas não é isso que vem ocorrendo. O líder da segunda potência mundial, Xi-Jinping, nem se coçou para conversar com o topetudo de Washington.

E, na sala de espera de um hospital frequentado pela classe média tão admiradora dos States, ninguém defende o seu atual mandatário. Um sinal dos novos tempos: já dá pra falar mal dos Estados Unidos. Não é mais o país onde tudo funciona, regido por uma lógica invejável. A extrema direita brasileira parece que está estupefata com o seu grande líder no Norte.