segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Búfalos, jacarés e araras

Na Amazônia, a presença da natureza é enorme e as referências aos búfalos, jacarés, pirarucus, tucanos e araras são uma constante. Faz parte do roteiro turístico o contato com esses animais e tive a impressão de que eles estão ali, bem próximos de seus habitantes. Não apenas nos parques (o Parque das Garças, em Belém; o Museu Sacaca, em Macapá; o Jardim Botânico, em Manaus), mas também nas florestas que cercam as cidades, nas fazendas, criatórios de peixes, comunidades indígenas e outros. Uma riqueza da região, um dos seus cartões postais.

Em Belém, peguei uma embarcação de transporte de passageiros (devidamente refrigerada com ar-condicionado, por sinal muito refrigerada) e naveguei duas horas até a cidade de Soure, na Ilha do Marajó. Entre os atrativos locais, os famosos búfalos, que tanto avistei dentro da água (na cena clássica apresentada nos livros didáticos de Geografia) quanto numa fazenda voltada à produção de leite, muito dóceis para o toque dos visitantes, assim como nas ruas da cidade, servindo de montaria aos policiais. Não assisti esses policiais em ação, mas pelo modo deles se referirem aos animais fiquei convencido de que funcionam... para o patrulhamento nas áreas urbanas e rurais.

Búfalos como montaria para patrulhamento policial, em Macapá.

Em Manaus, fiz um passeio ao anoitecer pelo Rio Negro (devidamente untado de repelente para enfrentar a nuvem de mosquitos que me cercava) e assisti o guia paralisar pequenos jacarés com a luz da lanterna sobre seus olhos, pegá-los com as mãos e exibir aos turistas. Uma cena desconcertante para um urbanóide como eu, mas nem por isso menos fascinante. Tanto fiquei na expectativa do animal ser encontrado e exibido, quanto aliviado ao vê-lo ser recolocado dentro da água e retomar a vida normal.

Curiosos, por sinal, esses sentimentos de turista. Tanto a expectativa pelo mundo selvagem sendo revelado (o jacaré retirado das águas), quanto o desconcerto da cena (o mundo natural conspurcado) e o alívio quando o animal é solto. Emoções que dão colorido a uma excursão num território de natureza exuberante e até geram discussões acaloradas quanto às formas corretas de “explorar a natureza”.

Pirarucus eu avistei tanto no lago de um museu que recria o universo ribeirinho (o Museu Sacaca, em Macapá), quanto num criatório de peixes nas margens do Rio Negro. Peixes enormes, dos quais se aproveita tudo (a língua, a pele, etecétera) e tive o privilégio de apreciar num sofisticado prato chamado “Lâminas de pirarucu”.

No entanto a chave de ouro desse encontro com animais foi uma arara de enorme cauda vermelha avistada dentro da enorme oca de uma comunidade indígena, na qual recém fora apresentado uma série de rituais indígenas. Rituais concentrados em poucos minutos, bem entendido, pois bem se sabe que a ritualística indígena dura horas, às vezes um dia inteiro ou mais. (Indígenas tem outro modo de conceber o tempo, eles mesmo explicam. Eles não têm a pressa que nós temos.)

Arara na parede de uma oca indígena, numa ilha do Rio Negro.

           Pois assisti ao espetáculo, comprei umas peças de artesanato e, quando me retirava, avistei o animal andando pelas paredes da oca. Foi um momento de deslumbramento e fotografei o animal com meu celular, apressado, com medo de que ele saísse voando. Um desses momentos de êxtase, nervosismo, e talvez a síntese das belezas da região. Um animal de beleza estonteante, o mais lindo que eu vi. 

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