terça-feira, 29 de setembro de 2026

Calibre .22

 

Existem assuntos a respeito dos quais eu vou falar até o fim da vida. Um deles é o suicídio do meu pai. Ele se matou em 1978, no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Foi encontrado por uma ronda da Brigada Militar e levado para o Pronto Socorro. Não trazia nenhum documento, entrou como “anônimo” no hospital e por isso não fomos avisados.

Naquela noite (30 de maio) minha mãe, meus irmãos e eu estranhamos o fato de ele não vir para casa e tratamos de procurá-lo. A mãe e meus irmãos ligaram para os hospitais e delegacias de polícia, não obtiveram nenhuma informação e ficamos esperando. Eu saí a andar pelas ruas da cidade, perambulei pelo Centro e lembro de entrar num bar da Avenida Salgado Filho (desses de pouca iluminação, bar de pegação) e procurar meu pai em alguma mesa...

O que me fez pensar que ele poderia estar ali, não sei. Talvez eu tenha me lembrado de algum filme dos tantos filmes que assistimos, daqueles em que o detetive sai investigando um crime nos nightclubs e nos inferninhos...

De manhã cedo, meu irmão mais velho, o Rubinho, foi no Instituto Médico Legal (junto ao Palácio da Polícia, na Avenida Ipiranga) e encontrou o velho. Ele tinha morrido de madrugada no Pronto Socorro e levado para lá. Os peritos do IML já tinham feito a autópsia e foi dessa maneira que meu irmão viu e reconheceu o nosso pai. Nem sei como ele aguentou. Que coragem! Eu só vi o corpo do pai quando ele já estava preparado pela funerária, retocado, com um capacete na cabeça (para ocultar o crânio esfacelado causado pelo tiro que ele dera em si mesmo), dentro do caixão.

A respeito dessa morte, desenvolvi uma culpa absurda que me perseguiu por vários anos e, por fim, se resolveu, se apaziguou. Uma novela a respeito da qual nunca conseguirei escrever completamente, não só pelo fato em si, mas pelos sentimentos que suscita, a culpa em especial. Uma culpa absurda, um traço muito profundo da minha personalidade: a de alimentar culpas tremendas por situações & pessoas a respeito das quais eu pouco ou nada posso fazer. Certamente um resquício da onipotência infantil não superada, uma dificuldade enorme de crescer e aceitar a minha limitação, a minha impotência diante do mundo.

 

Lembrei da morte do meu pai essa semana ao rever o filme “Serpico”, no qual um policial é baleado por um traficante de drogas, com uma arma calibre .22, o mesmo tipo de revólver que, durante anos, eu imaginei que meu pai utilizara. Engano meu. Ele se matou com um revólver calibre .38. 22 era a minha idade naquela época. A idade de um jovem recém-formado em História, iniciando a lecionar, um típico jovem professor de escola, desses que se acham capazes de tudo, de reinventar o mundo inclusive.

A morte do pai me colocou contra a parede.

O filme “Serpico” entrou na programação da Netflix recentemente. É uma película de Sidney Lumet, com Al Pacino no papel principal, lançado em 1973, e aborda a história verídica de um policial (Francesco Vicent Serpico) em Nova Iorque, na década de 1960, que não aceita propina e resolve denunciar o esquema de corrupção na qual polícia está envolvida. O episódio na qual ele é baleado foi armado por seus colegas, com o propósito de dar cabo naquele tira inoportuno. Eles o colocaram na linha de frente de uma abordagem a traficantes, não deram cobertura e o deixaram ser alvejado. A bala do pequeno revólver .22 do traficante atingiu a sua mandíbula e se instalou próximo ao nervo auditivo e ao cérebro. Serpico sobreviveu, perdeu a audição de um dos ouvidos, saiu da polícia e até hoje e vive recluso.

Era um desses filmes que meu pai gostava, não perdia, e a respeito do qual chegamos a conversar.

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