segunda-feira, 8 de julho de 2019

Canta, ó Musa, o amor de Tétis, mãe de Aquiles


Li a Ilíada dias atrás e fiquei surpreso com uma cena logo nas primeiras páginas. Uma cena que não lembrava – ou que talvez nunca tenha me dado conta.

Após a conhecida discussão de Aquiles com Agamenon na assembleia dos guerreiros, na qual Aquiles perde para o seu correligionário a escrava Briseis, o herói se retira furioso para junto dos navios. Solitário, ele se senta “chorando junto à praia do cinzento mar”, estende os braços e dirige “muitas preces a sua querida mãe”.

Nunca tinha lido a Ilíada do início ao fim, mas conhecia diversos trechos (o primeiro canto, entre eles, onde se encontra a cena acima). No entanto não lembrava do herói derramando lágrimas e chamando a mãe:

– “Mãe, já que me tiveste, por mais breve que a minha vida possa ser, pelo menos a honra Zeus troante deve me ter concedido. Agora, porém, não me está honrando, de modo algum, pois o filho de Atreu [Agamenon], o rei dos homens, ultrajou-me. Tomou minha presa de guerra [Briseis] e a conserva.”

Tétis, sua mãe (uma nereida que vive no fundo do mar), o escuta e vem correndo sentar-se ao seu lado, dizendo:

– “Por que choras, meu filho? Que dor te atormenta o coração? Fala, nada escondas em teu espírito, a fim de que nós possamos saber.”

Aquiles se queixa para a mãe, fala mal de Agamenon e pede que ela o ajude a se vingar. Tétis não titubeia em atender ao filho, vai buzuzar nos ouvidos de Zeus e o resto é bem conhecido: Zeus faz a guerra virar a favor dos troianos, faz os aqueus sofrerem duras perdas humanas e Agamenon se arrepender da sua loucura contra a honra de Aquiles dos pés ligeiros.

Eu não lembrava, porém, da presença fundamental da mãe na vida de Aquiles, o mais destemido e cruel dos guerreiros. Espanto talvez seja compreensível. Afinal, no entendimento habitual que temos dos heróis, estes são solitários, movem-se sem família, e até as mães não costumam ser presentes e muito menos decisivas. E, jamais, os heróis suplicam qualquer coisa para as mães. Ora, pedir arrego para a madrecita!

No final do poema, quando Aquiles resolve voltar a lutar, novamente a mãe intervém de forma marcante. Aquiles está sem armadura e é a mãe quem providencia uma nova. A antiga fora usada por Pátroclo e, quando este foi morto por Heitor, o grande guerreiro troiano a pegou como troféu. Tétis consegue que o deus Hefesto produza uma nova de um dia para o outro e a traz para o filho.

– “Recebe esta gloriosa armadura de Hefesto: a mais bela, tal como um homem jamais trouxe sobre os ombros. (...) Convoca os guerreiros aqueus em uma assembleia, renuncia ao teu rancor contra Agamenon, pastor do povo, e arma-te, sem demora, para a guerra, revestindo-te de valor.” (Livro XIX)

 É uma figura com voz e protagonismo a madrecita de Aquiles, o herói que tanto serviu de modelo de coragem e de masculinidade na civilização greco-romano. O destemido guerreiro, arrogante e cruel (modelo para Alexandre, o Grande, conquistador da Pérsia), não escapou de uma mãe constante e devotada. (Não escapou ou teve o privilégio - faça sua escolha, prezado leitor.) E Homero, sempre humano, “demasiadamente humano” como apontam os estudiosos, não esqueceu disso.

Procurei no Google alguma obra de arte representando Tétis consolando o filho logo depois dele desentender-se com Agamenon, mas não encontrei. As cenas de Tétis e Aquiles mais tematizadas nas artes plásticas (ou mais presentes no Google) são as do banho na infância do herói e a da entrega da armadura de Hefestos. Escolhi essa última para ilustrar a crônica: o quadro de um pintor neoclássico, Benjamin West (desconhecido para mim).

É uma cena dramática e solene: Aquiles chora o amigo morto em combate (Pátroclo) e sua linda mãe (linda demais, jovem demais para ser mãe de um guapo mancebo) lhe traz a armadura e o exorta ao combate. "Canta, ó Musa, o amor de Tétis, mãe de Aquiles", compus na hora, "o amor que tanta alegria trouxe ao mais destemido dos aqueus". 

Tétis entregando a armadura a Aquiles (1805), de Benjamin West.

A Ilíada é um poema sem fim, uma leitura que não termina. O texto que li dessa vez foi uma tradução em prosa, feita por Fernando C. de Araújo Gomes e publicada numa coleção da Folha de S. Paulo, “Clássicos da Literatura Universal” (Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1998. 426 p.) Ao final do livro, há uma nota explicando que o tradutor pretendeu um texto acessível ao leitor médio, “o leitor de certa cultura”, e para isso fugiu do “eruditismo excessivo”. Penso que a intenção do tradutor se concretizou e o leitor mediano que sou leu com prazer essa tradução. E de todos os dramas da “maior história de guerra do mundo” foi a relação de um filho com sua mãe o que mais se impôs na leitura. Tétis, certamente, bem merecia um poema só seu.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sala Amarna, uma visita fascinante


A Sala Amarna, do Museu Egípcio (no Cairo), é de encher os olhos. Na verdade, é de revirar os olhos. Encher os olhos e o coração. Fiquei impactado.

A sala tem o nome da cidade criada pelo faraó Amenófis IV, do Novo Império, que, em função de sua devoção ao deus Aton, o Disco Solar, mudou o seu nome para Akhenaton. E também criou uma nova capital, Akhetaton, depois conhecida como Amarna (daí o nome da sala).

Amenófis tinha um projeto religioso revolucionário: a implantação de uma religião monoteísta, a transformação da religiosidade politeísta egípcia e, em especial, o fim do predomínio do culto a Amon, o fim do poder do clero de Amon (que competia com o poder dos faraós). Ao reformar a religiosidade egípcia, o faraó também pretendia a supremacia do poder real sobre novas bases, contendo não só os sacerdotes de Amon, mas também os militares (outro tradicional sustentáculo do poder real) que já se estendiam na Ásia Menor (na Palestina e Síria) e também na África (na Núbia e atual Sudão). Além de monoteísta, Akhenaton tinha um projeto pacifista (como se o poder de um império pudesse prescindir das armas). Seu projeto era religioso, político, e também ético e artístico. Era pretensão demais e os sacerdotes de Amon não tiveram dificuldade em conspirar e ganhar apoio da sociedade em geral para a retomada do poder. O faraó reinou 16 anos (de 1352 a 1336 a.C.) e se supõe que tenha sido assassinado.

Quando entrei na sala Amarna, o que chamou atenção foi a mudança no padrão artístico das peças, a transformação na representação do faraó - "as zigomas salientes, os olhos oblíquos, a boca sensual" - e de sua rainha. Depois de andar pelo museu, ver as tantas peças de faraós estáticos e hierárquicos, salta aos olhos a chamada “revolução naturalista” que Akhenaton desencadeou. A sala é um pouco confusa (como é, de modo geral, o museu inteiro), as peças estão exibidas de maneira um pouco caótica, mas nem por isso o impacto é menor. Uma grande estatua do faraó monopoliza a atenção (primeira foto abaixo) e logo sabemos que estamos diante dos registros de um reinado diferenciado dentro da civilização egípcia. Um faraó revolucionário e sua belíssima rainha, Nefertiti. A escultura da cabeça da rainha, de apenas 33 centímetros (segunda foto abaixo), me deixou maravilhado. Na sequência, uma pedra com o relevo do faraó, a rainha e as filhas adorando o Sol (terceira foto) e indicando o que talvez seja a síntese da reforma religiosa pretendida: a família real como agente principal da adoração de Aton e, dessa maneira, o vínculo entre a população egípcia e o mundo divino.

Uma sala do Museu do Cairo que é impossível esquecer.

Colosso de Akhenaton.

Cabeça de Nefertiti.


Relevo de Akhenaton, esposa e filhas adorando Aton, o disco solar.

Ao voltar da viagem, li o romance de Naguib Mahfuz, “Akhenaton, o rei herege”, que tinha guardado há anos. Também li uma peça teatral de Agatha Christie, “Akhenaton”, igualmente sobre o personagem central da Sala Amarna. Não procurei literatura especializada sobre o tema, isto é, material escrito por historiadores,  e me refestelei apenas com a produção dos ficcionistas.

Mahfuz registra diversas versões sobre o reinado do faraó e parece sintetizar o que existe sobre o tema. No seu romance, ambientado poucos anos após a morte de Akhenaton, um rapaz sai em busca da verdade a respeito do reinado recém encerrado e entrevista diversos personagens que tiveram contato com o faraó, inclusive a rainha Nefertiti. Por meio desse recurso (que não resulta num romance empolgante) o autor registra versões conflitantes a respeito do rei – inclusive a de que ele não manteve relações sexuais com a rainha, que as suas filhas são de amantes de Nefertiti (entre eles, o general Horemheb, grande amigo do faraó), e que ele apenas conseguiu transar com a mãe, a rainha Tyie, tendo uma filha com ela. O personagem investigador, no entanto, não se decide por nenhuma versão, não refuta as hipóteses conflitantes, e conclui afirmando seu "entusiasmo pelos hinos religiosos" de Akhenaton e seu "profundo amor pela belíssima senhora".

Na peça teatral de Agatha Christie, muito mais empolgante para o leitor de ficção, há conspiração, traição e envenenamento, e também algum romantismo. Além de dar concretude a propalada versão da conspiração dos sacerdotes de Amon e do assassinato do faraó, a famosa escritora apresenta uma Nefertiti amorosa, que não trai o marido nem o abandona quando sacerdotes e generais solapam o seu poder. Na versão da peça, Nefertitti até se suicida quando percebe que o faraó foi envenenado, como uma versão mais antiga da conhecida Cleópatra. Literariamente, a trama convence. Um bom final para quem se emocionou com as peças expostas na Sala Amarna e não consegue esquecer o seu impacto.



Livros citados:

MAHFUZ, Naguib. Akhenaton, o rei herege. Rio de Janeiro: Record, 2005. 222 p. (O autor recebeu o Prêmio Nobel da Literatura em 1988.)
CHRISTIE, Agatha. Akhenaton – uma peça em três atos. Porto Alegre: L&PM, 2018. 168 p. (Segundo informações da contracapa, a autora se baseou nas lendas que lhe foram contadas pelo arqueólogo Howard Carter.)

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Peregrinação ao Templo de Ísis

         Visitei o famoso Templo de Philae, dedicado a deusa Ísis, e me senti um peregrino – um peregrino do velho Império Romano –, vá entender uma coisa dessas. Coisa de professor de História, na certa.

O Templo, ou conjunto de templos, pois são vários prédios, com a mão de diversos faraós (especialmente da dinastia ptolemaica, mais imperadores romanos), foi construído a partir do século III a.C. e se tornou um grande centro de peregrinação no Mundo Antigo. O culto a Ísis ultrapassou as fronteiras do Egito, se expandiu pelo mundo greco-romano e chegou a competir com o nascente cristianismo. A devoção só se extinguiu com a proibição do imperador Justiniano, no ano 513. Padres cristãos ocuparam o lugar, tentaram apagar a imagem da deusa, mas a coisa não deu certo.

No início do século XX, o templo estava semicoberto pelas águas de uma represa e, na década de 1960, com a criação do Lago Nasser (para uma nova e maior represa), a UNESCO coordenou um projeto de desmontagem da construção e seu restabelecimento em outro local. O Templo de Philae, construído na ilha de Philae, foi reassentado em novo local, numa ilha próxima, especialmente preparada para isso. Uma obra de engenharia impressionante. O mesmo aconteceu com outros templos e túmulos da região – inclusive o complexo templário de Abu Simbel, dedicados ao faraó Ramsés II e a sua esposa favorita, Nefertari.

O Templo de Philae, visão lateral, do lago, quando se chega de barco.
Quando avistei o templo, de dentro da lancha que conduzia meu grupo para a visita, me senti um velho romano em peregrinação... Devo ter lido sobre o culto de Ísis quando era estudante universitário, no Curso de História da UFRGS... Os romanos se encantavam com as religiões orientais, capazes de responder à inquietações (especialmente em relação à morte) que a religião oficial não dava mais conta. Acho que foi nessa época de estudante também que um amigo (hoje falecido) passou a utilizar a expressão “queimar incenso no altar de Ísis” para todas as vezes que saia para namorar. Queimar incenso, incensar Ísis, a mulher, honrar e venerar o feminino. Na Antiguidade as deusas eram sexualizadas (muito diferente do que veio acontecer com as figuras femininas da cristandade) e tal expressão não era um sacrilégio, pelo contrário, era uma possiblidade da devoção religiosa. As deusas eram mulheres que viviam a sua sexualidade, muito ao contrário das divindades cristãs.

Assim, ao entrar no espaço do Templo de Ísis, não apenas realizei uma viagem ao Mundo Antigo, mas uma volta a minha própria história. Um peregrino trilhando diversos tempos, tanto o do período da crise do Império Romano desencadeada no final do século II d.C. (Toynbee era uma referência para esse assunto), quanto o da década de 1970, vivido de forma tumultuada pelo jovem estudante que eu era. Estudante que aprendia e se surpreendia com as divindades femininas da Antiguidade – Ishtar, Ísis, Diana, Afrodite – e a tremenda mudança que aconteceu com a vitória e supremacia do cristianismo.

Ísis era filha de Nut (Céu) e de Geb (Terra), irmã de Osíris, Seth e Néftis. Ísis e Osíris se casaram e desceram ao mundo dos homens para civiliza-los. Osíris separou os homens dos animais, ensinou-lhes as técnicas agrícolas, deu-lhes leis e foi seu primeiro monarca. O irmão Seth ficou enciumado (ele também queria governar o Egito) e terminou matando Osíris e retalhando o seu corpo em diversos pedaços (14, segundo algumas versões). Ísis recolheu as diversas partes do marido morto e conseguiu reavivar a sua força vital. Morto, Osíris fecundou Ísis - em grande parte, graças as artes mágicas da esposa - e depois renasceu no Mundo dos Mortos.

Uma história e tanto, com diversas versões – inclusive a de que Ísis não encontrou o pênis do marido (que fora engolido por um peixe das águas do Nilo) e a fecundação se deu exclusivamente devido aos seus poderes mágicos da deusa. Poderes, magia e artes (propiciatórias de renascimento) que depois seriam ensinados aos iniciados nos mistérios da religião de Ísis.

Percorri as diversas salas de complexo templário lembrando as tantas leituras a respeito do mito, a religião que daí surgiu, assim como o movimento dos peregrinos que vinham adorar a deusa, queimar incenso no seu altar. Os faraós da dinastia ptolemaica deram especial destaque a esse culto e ele se expandiu pelo mundo greco-romano, com templos na Grécia, em Roma e até na distante Lusitânia. Uma devoção que atraiu a atenção do historiador Plutarco, no século I d.C., e o levou a escrever uma compilação mito osiriano. As religiões orientais penetravam com força na sociedade romana – a de Ísis, Mitra, a de Cristo também – e nós bem sabemos qual saiu vencedora. Com o predomínio cristão o Templo de Philae foi fechado – assim como o Templo de Éfeso, dedicado a Diana, outra importante deusa da Antiguidade – e nunca mais o mundo ocidental cultuou divindades femininas com atributos sexuais tão evidentes. Que longa luta em torno do feminino!

Peregrino ou não (cansado de uma longa caminhada pelos espaços do templo), encontrei a melhor evidência da grandeza da deusa Ísis numa das salas do fundo. Esculpido numa parede, vi o relevo da deusa com o filho sobre as pernas, uma imagem terna, a da Deusa Mãe e o Filho Divino (Hórus), que ela conseguiu do marido morto graças a sua determinação e arte. Uma representação certamente precursora das Madonas com o Menino que a Cristandade, séculos mais tarde, consagrou. Uma imagem reveladora das transformações - e também da continuidade - do culto às divindades femininas. Uma imagem a indicar o sonho e o desejo de muitos de nós. Uma mulher que acolhe, uma mulher que incendeia. A imagem ideal para um peregrino. Me senti realizado.

Deusa Ísis e o Filho Hórus.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Ruínas maias


Na Península de Yucatán, a 160 km da rede hoteleira de Cancún, encontra-se um dos mais famosos sítios arqueológicos maias: o de Chichén Itzá. Local da igualmente famosa Pirâmide de Kukulcan, dedicada a um deus com forma de serpente emplumada. Pirâmide de 30 metros de altura, ela própria é uma representação do calendário maia e, dessa maneira, uma das expressões máximas dessa civilização: os estudos astronômicos.


Até o ano de 2017 era permitido aos visitantes subirem as dezenas de degraus da pirâmide, mas isso deixou de ser possível devido às novas normas de preservação. Segundo o guia que conduziu meu grupo de visitantes, o grande número de turistas estava desgastando as pedras do monumento e colocando em risco a integridade da pirâmide. Além da proibição de escalar os degraus das pirâmides, também ficou proibido o ingresso nos templos. Agora, é só passear por entre os monumentos e olhar, embasbacado.

Talvez realizar o mesmo papel da antiga população maia. Afinal, a subida ao alto das pirâmides e o ingresso nos templos não era para qualquer um. Era um privilégio dos sacerdotes encarregados do culto e também dos guerreiros soberanos que detinham o poder local.

Como escreveu o historiador Paul Gendrop, os soberanos maias encenavam sua ascensão ao trono num “acontecimento revestido de caráter histórico e cósmico”. Subir os degraus da pirâmide fazia parte do ritual, dava o caráter cósmico da teatralização do poder histórico. Um ato (o de escalar até o cume do templo) que distinguia o sacerdote e o soberano dos mortais comuns – tanto dos integrantes da aristocracia quanto do povo em geral, especialmente dos camponeses. Camponeses que deviam ser subjugados regiamente, para melhor a elite abarcar o excedente da sua produção agrícola.

Ao chegar a Chichén Itzá, acho que quis imitar o sacerdote ou o soberano maia e, súbito, fui reduzido a minha condição plebeia. Levei um tempo para assimilar o impacto da notícia e a frustração.

Felizmente minha estadia em Cancún foi de uma semana e deu para explorar outros sítios arqueológicos. Fiz um outro passeio – até antiga cidade de Cobá – e lá encontrei a Pirâmide Nohoc Mul, a qual ainda é permitida escalar. Antigo espaço sagrado de 42 metros de altura, 138 degraus, com um minúsculo templo no alto. Ao contrário da Pirâmide de Kukulcan, os degraus e as paredes não estão restaurados e quadro é de ruína mesmo. Cenário de uma civilização que se desagregou, construção cercada pela floresta subtropical, lembrando as fotos tiradas pelos primeiros arqueólogos, quando eles descobriam esses monumentos, esquecidos pelos próprios descendentes dos antigos maias... Mais um elemento para fascinar o visitante.


Com todo o cuidado – e sem a performance elegante dos sacerdotes e guerreiros que subiam esse lugar sagrado com os corpos eretos – escalei os 138 degraus às vezes com ajuda das mãos e cheguei ao topo. Nenhuma sensação de ter executado uma cena cósmica, mas, sem dúvida, de ter realizado um sonho antigo, desses de leitor, de estudante de história, de professor, e percorrido o caminho das figuras históricas lidas e estudadas nos livros.

Observei a copa das árvores, abaixo de mim, e lembrei que isso fazia parte do projeto acalantado pela elite político-religiosa da antiga civilização maia: erguer suas construções acima das árvores. Criar templos monumentais e evidenciar aos membros da comunidade a sua insignificância frente aos deuses. Insignificância tão grande que até o seu sangue deveria ser dado em sacrifício aos deuses. Sangue derramado na base da pirâmide, por exemplo.
E justo quando lembrava disso, um casal fazia uma sessão de fotos na minha frente, na borda do alto da pirâmide. A moça abria mais um botão da sua blusa, insinuava uma doce sensualidade ao fotógrafo na sua frente (talvez seu namorado) e os dois pareciam em êxtase. Acho que um antigo sacerdote maia jamais entenderia essas novas apropriações do seu espaço sagrado...



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Cidade do Panamá


Passei pela Cidade do Panamá dias atrás. Passagem rápida. Desci no aeroporto da cidade, a caminho de Cancún, apenas para passar um dia. No caminho para o hotel, minha companheira acertou com o motorista do “táxi” um tour pela cidade e lá fomos nós. Primeira parada, a Estação Miraflores, a estação de uma das eclusas do famoso canal, próxima ao Oceano Pacífico. Junto à estação, um enorme prédio para visitantes, com museu a respeito do canal e uma enorme sacada para acompanhar a passagem dos navios. Minha visita se limitou a esse prédio, o museu e a sacada, mais o acompanhamento da passagem de dois navios. Uma visita de turista. Uma visita impressionante.



Escrevo essa crônica para organizar o impacto que o passeio causou. Fui professor de História da América Contemporânea durante vários anos e o Canal do Panamá sempre foi um tópico importante. O “duvidoso negócio”, como escreveu o historiador norte-americano John Chasteen a respeito da construção e administração do canal pelos Estados Unidos. Afinal, o ponto de partida do canal foi um acordo, em 1903, no qual não participou nenhum panamenho nativo. Pelo Panamá, assinou o engenheiro francês Philippe Varilla (responsável pela companhia francesa que havia iniciado a construção do canal décadas antes) e o recém-criado governo panamenho teve de aceitar as cláusulas do tratado imposto pelos norte-americanos. O Panamá transformado num protetorado norte-americano e o canal sob controle absoluto dos Estados Unidos. Um dos exemplos clássicos do chamado neocolonialismo. Só na década de 1970, após muita luta, os termos do tratado foram revistos.

Quando o “táxi” entrou na Zona do Canal e avistei os enormes prédios que antes serviam para a ocupação militar norte-americana, lembrei o episódio dos estudantes panamenhos invadindo a área para colocar bandeiras do Panamá, em maio de 1958. Uma pauleira danada. As tropas de ocupação norte-americana não aceitavam a contestação do seu domínio e revidaram com brutalidade. Essa manifestação estudantil (que hoje tem 60 anos) foi o início de uma luta mais agressiva pelo controle nacional do canal. O motorista, que era de poucas palavras, na hora em que passávamos na frente dos prédios, disse que eles já foram dos norte-americanos e hoje são prédios públicos – um deles uma universidade. Em poucas palavras, ele resumiu a passagem de um período histórico e, talvez, de um ainda vigente orgulho nacional.

Em 1939, o Panamá perdeu a condição de protetorado norte-americano. E, em meados da década de 50, incentivado pelo controle egípcio do Canal do Suez (conquistado por Nasser), o movimento estudantil panamenho abraçou a causa do canal e pouco a pouco a proposta ganhou o conjunto da sociedade e até da sua classe dirigente. Na década de 70, o presidente militar Omar Torrijos forçou a abertura das negociações com os Estados Unidos e, em 1977, um tratado reviu os termos da concessão. Em 1999, enfim, o canal passou a ser administrado por uma agência do governo panamenho, a Autoridad del Canal de Panamá (ACP).

Durante a maior parte da luta pelo controle do canal, um projeto de desenvolvimento nacional empolgou os panamenhos. Um projeto desenvolvimentista (daqueles que se tornaram dominantes na América Latina desde os anos 50) que visava o crescimento industrial, a inclusão dos trabalhadores, muito além da atividade de prestação de serviços ao comércio internacional. A partir de 1990, no entanto, os governos panamenhos passaram a endossar o ideário neoliberal e a argumentar que o país devia se especializar na prestação de serviços, pois essa era a atividade tradicional do país. Junto com isso, políticas de desregulamentação, flexibilização e privatização foram implementadas. O antigo projeto nacional ruiu e, seguramente, o Panamá que eu vi não foi aquele que era almejado nos anos 70, quando o acordo de 1903 passou por séria revisão.

Nos últimos anos, a capital ganhou ares extremamente modernos (ver foto abaixo), a ponto de ser chamada de “Miami da América Central” e/ou a “Dubai das Américas”. Para o turista que passeia pela cidade, um cenário impactante de prédios arrojados e sofisticados shoppings com as grifes mais famosas do mundo. Um território internacionalizado.



Foi essa a Cidade do Panamá que visitei. Encostado na murada da sacada de Miraflores vi passar um veleiro de passageiros e logo depois um petroleiro. No museu, peguei um informativo chamado “El Faro” (Revista Informativa del Canal do Panamá) que propagandeava os recentes acordos com os chineses para os seus navios cruzarem o canal e alcançarem a Europa. Os chineses desistiram de construir um canal próprio (na Nicarágua) e, pelo que entendi, já são parceiros dos grandes negócios que se realizam na capital panamenha. Negócios e mais negócios. Entre eles, a da nova rota da seda marítima unindo a China e a Europa, conforme propôs o presidente Xin Jinping. O Panamá como país neutro, negociando tanto com os norte-americanos quanto os chineses...

Bacana poder assistir aos navios cruzando as eclusas de Miraflores e constatar as mudanças que ocorreram no Canal. As mudanças que não vingaram (aquelas de orientação nacionalista) e as mudanças que foram vitoriosas (aquela de caráter neoliberal e internacionalizante).

Naquele dia, já tarde da noite, terminei o passeio numa mesa de bar, numa calçada da praça Simon Bolívar, junto com o motorista e minha companheira. Tomei uma taça de sangria, o motorista e minha companheira beberam refrescos, e conversamos amenidades sobre a cidade panamenha. Estávamos no território antigo da Cidade do Panamá – um bairro chamado Casca Vieja – com prédios de aspecto colonial muito bem restaurados. Uma paisagem urbana caribenha muito semelhante à de Havana – mas muito melhor conservada. E não pude deixar de lembrar que os projetos nacionais desenvolvimentistas dos anos 50, 60 e 70 não sucumbiram. Nem mesmo o projeto radical instaurado pela Revolução Cubana não deu todos os frutos almejados. Vitoriosa foi essa onda neoliberal que não é favorável às classes populares, tanto do Panamá quanto da América Latina em geral, mas que constrói cenários deslumbrantes para os endinheirados.

Naquela noite, hablando espanhol precariamente, paguei em dólares a conta das bebidas na mesa de calçada de Casca Vieja. No outro dia de manhã, antes de embarcar para Cancún, dei uma banda num enorme shopping center cheio de marcas famosas. E, apenas de longe, avistei o Panamá popular – das habitações populares – que não foi contemplado com a modernização excludente e neoliberal.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Roma - crônicas de uma aventura urbana


Mais um livro de viagem do jornalista Airton Ortiz, da coleção “Aventuras pelo mundo”:  Roma (Editora Benvirá, 2018, 166 p.). O autor passou uma temporada na Cidade Eterna, provavelmente no inverno de 2017-18, alugou um apartamento no bairro de San Giovanni junto com a irmã (conforme informações do próprio escritor numa das crônicas do livro) e narra com muito humor mais uma de suas aventuras urbanas. Com humor e muitas informações históricas, artísticas e religiosas – sem descuidar da gastronomia e especial dos vinhos. 



Não foi a primeira visita que o autor fez a Roma (foram várias, segundo indica) e esse acúmulo de experiências, vivências e leituras se traduzem em crônicas leves, agradáveis, feitas por visitante que percorre a cidade com enorme satisfação e redobrado interesse.

Texto de leitura rápida, como o próprio escritor aponta, satisfazendo assim tanto a pressa do leitor contemporâneo quanto a ansiedade que um livro sobre uma cidade de tantas possibilidades cria. Afinal, Roma é uma cidade que contém diversas camadas de história, variados estilos artísticos, variadas manifestações religiosas, que atravessar as suas ruas – a famosa Via dei Fiori Imperiali, por exemplo – é deparar-se tanto com as marcas do Império Romano, da Igreja Católica, quanto das lutas pela Unificação e o período fascista.

Essa enorme quantidade de registros de diferentes tipos dá uma certa aflição na maioria dos visitantes da cidade – e foi isso que revivi lendo o livro. Haja imaginação para dar conta do desafio de conhecer essa cidade, afirma o autor, e suas crônicas me parecer ser um auxílio nesse sentido. Um livro que propõe um exercício de imaginação, que estabelece uma série de roteiros sobre a Cidade Eterna, visando estabelecer significado para as tantas ruínas romanas que se encontra (marcas de uma civilização soterrada – tão distante de nós, cristãos ocidentais, quanto a japonesa), mais prédios renascentistas, estátuas barrocas, fontes idem, códigos e signos variados.

Respeitando essa diversidade, Ortiz divide o livro em três partes: a Roma dos romanos (do antigo Império Romano), a Roma dos italianos (do Renascimento e do Barroco, especialmente) e a Roma dos papas (do poderio da Igreja Católica). A respeito de cada um desses territórios estabelece diversos roteiros, indicando ao leitor possíveis caminhos, possíveis encantamentos com a paisagem urbana, com o interior das igrejas, dos museus, e – quando isso cansar (e cansa mesmo) – qual cafeteria, qual restaurante, prato ou vinho podem restabelecer as energias ou, simplesmente, proporcionar saborosas atividades profanas.

Arte & religião são a tônica desse conjunto de crônicas e o sublime é sempre uma possibilidade. Ao final da leitura, tenho a impressão de que o leitor tanto fica instigado a ver, apreciar (ou rever, em alguns casos) as maravilhas romanas – como prédios, igrejas, museus – como de beber os tantos Chiante a que o autor se refere.

No meu caso, ver / rever a estátua “O êxtase de Santa Teresa”, de Bernini (na igreja de Santa Maria da Vitória), e depois beber um cálice de vinho numa enoteca. Apenas um cálice, quem sabe dois, nessas pequenas enotecas romanas que tem a porta para alguma praça e que os frequentadores bebem na rua, sentados nos degraus de uma fonte, sem nenhum som automotivo estragando a imensidão da noite.


Obs.: com esse livro, Airton Ortiz se junta a outros escritores gaúchos que também escreveram sobre Roma: Luis Fernando Veríssimo (c/ ilustrações de Joaquim da Fonseca), Traçando Roma (Artes & Ofícios, 1993, 160 p.), e Joaquim da Fonseca (c/ ilustrações do autor), Roma Católica (Artes & Ofícios, 2001, 240 p.).

domingo, 6 de janeiro de 2019

Deuses, túmulos e sábios

     
          Livro escrito no final da década de 1940 por um escritor alemão – C. W. Ceram – e publicado em 1949. Desde então, editado no mundo inteiro com enorme sucesso. No Brasil, foi publicado pela Editora Melhoramentos no início dos anos 50 e, pelo menos até 2005, ainda reeditado. Colocado o título no Google, o leitor pode constatar que todos os sebos do Brasil têm um ou mais exemplares.


Conforme explica o autor, o livro inspirou-se em “Caçadores de micróbios” (1927), no qual a evolução da bacteriologia é apresentada com elementos de narrativa policial. Para Ceram, a arqueologia também é passível de tal abordagem e “Deuses, túmulos e sábios” traz um significativo subtítulo: “o romance da arqueologia”. Intencionalmente, então, o autor se propõe a abordar de forma romanceada o modo como as antigas civilizações – sumeriana, egípcia, babilônica, assíria, cretense, grega, romana, e também maia e asteca – surgiram aos olhos do Ocidente Moderno. E faz de arqueólogos-aventureiros – como o alemão Heinrich Schliemann (que descobriu a cidade de Tróia) e o norte-americano Edward Thompson (que descobriu a cidade maia de Chichen-Itzá) – os heróis da sua narrativa. Um livro empolgante que coloca o leitor diante das escavações que trouxeram à tona vestígios da história humana que foram esquecidas ou consideradas apenas lendas durante séculos – as escavações e as posteriores interpretações do material coletado.

          Faço esse comentário lembrando as conversas que tive com Saul Milder, colega no Departamento de História da UFSM. Eu indicava esse livro aos alunos de História Antiga e Saul Milder, professor de arqueologia, me criticava por isso, dizendo que se tratava de uma obra que representava a arqueologia colonialista, dominante na Europa e Estados Unidos desde o século XIX, além de estar superada neste ou naquele aspecto histórico. Mas isso, me parece, não é motivo para deixar de ler o livro – desde que compreendidas as intenções do autor, claramente expostas no prefácio e no último capítulo, e considerando também a época em que foi escrito.

Dividida em quatro partes, a obra abarca as escavações e investigações do mundo greco-romano, Egito, Mesopotâmia e das civilizações pré-colombianas da América Central e México. Como o eixo da narrativa é constituída pelos arqueólogos-aventureiros, os estudos a respeito das antigas civilizações da China, Índia e América do Sul (Incas) são deixados de lado, pois a arqueologia aventureira pouco contribuiu no avanço desses povos, segundo o autor. Se o leitor compreender isso, insisto, um livro fascinante a respeito de como a História se colocou aos olhos do Ocidente Moderno, desde Winckelmann, no século XVIII, com seus estudos de Arte Antiga, feitos a partir das recém descobertas Herculano e Pompéia.

“Os arqueólogos são muito chatos”, eu dizia para o meu colega Saul Milder, “os divulgadores científicos são muito melhores”. Mesmo falando isso, Saul Milder me convidava para as bancas de monografia de seus alunos de Arqueologia (trabalhos na maioria das vezes descritivos, a respeito de sítios arqueológicos indígenas ou outros, datados do período colonial ou das estâncias do século XIX) e eu aprendia muito com a leitura, com a exposição dos alunos e com os comentários do professor. “Ciência é isso aí”, ele afirmava, “um processo de investigação lento e cumulativo”. Mas eu retrucava que os leitores comuns precisam é de um Ceram para se empolgarem com esse conhecimento. Uma conversa onde sempre havia um tanto de provocação e outro de boas gargalhadas.

Assim, se o leitor não for tão rigoroso, tão científico, é empolgante a leitura de “Deuses, túmulos e sábios: o romance da arqueologia”, pois possibilita conhecer – por meio de personagens que encarnam o tipo investigador-aventureiro – como a Europa escavou as cidades de Herculano e Pompéia, criou a egiptologia (a partir da expedição militar de Napoleão ao Egito) e a assiriologia, assim como a maneira como os Estados Unidos trouxeram à tona as relíquias do mundo pré-colombiano. Nessa aventura pela história antiga, Heinrich Schliemann (1822-1890) talvez seja a figura exemplar. Jovem, se encantou com a poesia de Homero e acreditou que a Guerra de Tróia fosse uma verdade histórica, quando todos os cientistas de sua época afirmavam não passar de uma lenda. Homem adulto, se fez comerciante de êxito e depois empenhou sua fortuna para realizar o sonho juvenil: descobrir Tróia. Escavou no local indicado por Homero e talvez tenha descoberto a cidade destruída pelos aqueus – assunto que até hoje os historiadores discutem. Mas, seja qual for o resultado da discussão, a história grega nunca mais foi a mesma depois que Schliemann seguiu a senda de lendas, poemas e de seu sonho juvenil.

Obs.: A edição que eu li é a da Melhoramentos, 1964, e não traz nenhuma informação sobre o autor. Mas feita uma pesquisa no Google, encontrei o seguinte: C.W. Ceram era o pseudônimo de Kurt Wilhelm Market (Berlim, 1915 - Hamburgo, 1972). O autor fora importante propagandista do Nazismo e, depois da guerra, quis esconder o seu passado.