terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Roma - crônicas de uma aventura urbana


Mais um livro de viagem do jornalista Airton Ortiz, da coleção “Aventuras pelo mundo”:  Roma (Editora Benvirá, 2018, 166 p.). O autor passou uma temporada na Cidade Eterna, provavelmente no inverno de 2017-18, alugou um apartamento no bairro de San Giovanni junto com a irmã (conforme informações do próprio escritor numa das crônicas do livro) e narra com muito humor mais uma de suas aventuras urbanas. Com humor e muitas informações históricas, artísticas e religiosas – sem descuidar da gastronomia e especial dos vinhos. 



Não foi a primeira visita que o autor fez a Roma (foram várias, segundo indica) e esse acúmulo de experiências, vivências e leituras se traduzem em crônicas leves, agradáveis, feitas por visitante que percorre a cidade com enorme satisfação e redobrado interesse.

Texto de leitura rápida, como o próprio escritor aponta, satisfazendo assim tanto a pressa do leitor contemporâneo quanto a ansiedade que um livro sobre uma cidade de tantas possibilidades cria. Afinal, Roma é uma cidade que contém diversas camadas de história, variados estilos artísticos, variadas manifestações religiosas, que atravessar as suas ruas – a famosa Via dei Fiori Imperiali, por exemplo – é deparar-se tanto com as marcas do Império Romano, da Igreja Católica, quanto das lutas pela Unificação e o período fascista.

Essa enorme quantidade de registros de diferentes tipos dá uma certa aflição na maioria dos visitantes da cidade – e foi isso que revivi lendo o livro. Haja imaginação para dar conta do desafio de conhecer essa cidade, afirma o autor, e suas crônicas me parecer ser um auxílio nesse sentido. Um livro que propõe um exercício de imaginação, que estabelece uma série de roteiros sobre a Cidade Eterna, visando estabelecer significado para as tantas ruínas romanas que se encontra (marcas de uma civilização soterrada – tão distante de nós, cristãos ocidentais, quanto a japonesa), mais prédios renascentistas, estátuas barrocas, fontes idem, códigos e signos variados.

Respeitando essa diversidade, Ortiz divide o livro em três partes: a Roma dos romanos (do antigo Império Romano), a Roma dos italianos (do Renascimento e do Barroco, especialmente) e a Roma dos papas (do poderio da Igreja Católica). A respeito de cada um desses territórios estabelece diversos roteiros, indicando ao leitor possíveis caminhos, possíveis encantamentos com a paisagem urbana, com o interior das igrejas, dos museus, e – quando isso cansar (e cansa mesmo) – qual cafeteria, qual restaurante, prato ou vinho podem restabelecer as energias ou, simplesmente, proporcionar saborosas atividades profanas.

Arte & religião são a tônica desse conjunto de crônicas e o sublime é sempre uma possibilidade. Ao final da leitura, tenho a impressão de que o leitor tanto fica instigado a ver, apreciar (ou rever, em alguns casos) as maravilhas romanas – como prédios, igrejas, museus – como de beber os tantos Chiante a que o autor se refere.

No meu caso, ver / rever a estátua “O êxtase de Santa Teresa”, de Bernini (na igreja de Santa Maria da Vitória), e depois beber um cálice de vinho numa enoteca. Apenas um cálice, quem sabe dois, nessas pequenas enotecas romanas que tem a porta para alguma praça e que os frequentadores bebem na rua, sentados nos degraus de uma fonte, sem nenhum som automotivo estragando a imensidão da noite.


Obs.: com esse livro, Airton Ortiz se junta a outros escritores gaúchos que também escreveram sobre Roma: Luis Fernando Veríssimo (c/ ilustrações de Joaquim da Fonseca), Traçando Roma (Artes & Ofícios, 1993, 160 p.), e Joaquim da Fonseca (c/ ilustrações do autor), Roma Católica (Artes & Ofícios, 2001, 240 p.).

domingo, 6 de janeiro de 2019

Deuses, túmulos e sábios

     
          Livro escrito no final da década de 1940 por um escritor alemão – C. W. Ceram – e publicado em 1949. Desde então, editado no mundo inteiro com enorme sucesso. No Brasil, foi publicado pela Editora Melhoramentos no início dos anos 50 e, pelo menos até 2005, ainda reeditado. Colocado o título no Google, o leitor pode constatar que todos os sebos do Brasil têm um ou mais exemplares.


Conforme explica o autor, o livro inspirou-se em “Caçadores de micróbios” (1927), no qual a evolução da bacteriologia é apresentada com elementos de narrativa policial. Para Ceram, a arqueologia também é passível de tal abordagem e “Deuses, túmulos e sábios” traz um significativo subtítulo: “o romance da arqueologia”. Intencionalmente, então, o autor se propõe a abordar de forma romanceada o modo como as antigas civilizações – sumeriana, egípcia, babilônica, assíria, cretense, grega, romana, e também maia e asteca – surgiram aos olhos do Ocidente Moderno. E faz de arqueólogos-aventureiros – como o alemão Heinrich Schliemann (que descobriu a cidade de Tróia) e o norte-americano Edward Thompson (que descobriu a cidade maia de Chichen-Itzá) – os heróis da sua narrativa. Um livro empolgante que coloca o leitor diante das escavações que trouxeram à tona vestígios da história humana que foram esquecidas ou consideradas apenas lendas durante séculos – as escavações e as posteriores interpretações do material coletado.

          Faço esse comentário lembrando as conversas que tive com Saul Milder, colega no Departamento de História da UFSM. Eu indicava esse livro aos alunos de História Antiga e Saul Milder, professor de arqueologia, me criticava por isso, dizendo que se tratava de uma obra que representava a arqueologia colonialista, dominante na Europa e Estados Unidos desde o século XIX, além de estar superada neste ou naquele aspecto histórico. Mas isso, me parece, não é motivo para deixar de ler o livro – desde que compreendidas as intenções do autor, claramente expostas no prefácio e no último capítulo, e considerando também a época em que foi escrito.

Dividida em quatro partes, a obra abarca as escavações e investigações do mundo greco-romano, Egito, Mesopotâmia e das civilizações pré-colombianas da América Central e México. Como o eixo da narrativa é constituída pelos arqueólogos-aventureiros, os estudos a respeito das antigas civilizações da China, Índia e América do Sul (Incas) são deixados de lado, pois a arqueologia aventureira pouco contribuiu no avanço desses povos, segundo o autor. Se o leitor compreender isso, insisto, um livro fascinante a respeito de como a História se colocou aos olhos do Ocidente Moderno, desde Winckelmann, no século XVIII, com seus estudos de Arte Antiga, feitos a partir das recém descobertas Herculano e Pompéia.

“Os arqueólogos são muito chatos”, eu dizia para o meu colega Saul Milder, “os divulgadores científicos são muito melhores”. Mesmo falando isso, Saul Milder me convidava para as bancas de monografia de seus alunos de Arqueologia (trabalhos na maioria das vezes descritivos, a respeito de sítios arqueológicos indígenas ou outros, datados do período colonial ou das estâncias do século XIX) e eu aprendia muito com a leitura, com a exposição dos alunos e com os comentários do professor. “Ciência é isso aí”, ele afirmava, “um processo de investigação lento e cumulativo”. Mas eu retrucava que os leitores comuns precisam é de um Ceram para se empolgarem com esse conhecimento. Uma conversa onde sempre havia um tanto de provocação e outro de boas gargalhadas.

Assim, se o leitor não for tão rigoroso, tão científico, é empolgante a leitura de “Deuses, túmulos e sábios: o romance da arqueologia”, pois possibilita conhecer – por meio de personagens que encarnam o tipo investigador-aventureiro – como a Europa escavou as cidades de Herculano e Pompéia, criou a egiptologia (a partir da expedição militar de Napoleão ao Egito) e a assiriologia, assim como a maneira como os Estados Unidos trouxeram à tona as relíquias do mundo pré-colombiano. Nessa aventura pela história antiga, Heinrich Schliemann (1822-1890) talvez seja a figura exemplar. Jovem, se encantou com a poesia de Homero e acreditou que a Guerra de Tróia fosse uma verdade histórica, quando todos os cientistas de sua época afirmavam não passar de uma lenda. Homem adulto, se fez comerciante de êxito e depois empenhou sua fortuna para realizar o sonho juvenil: descobrir Tróia. Escavou no local indicado por Homero e talvez tenha descoberto a cidade destruída pelos aqueus – assunto que até hoje os historiadores discutem. Mas, seja qual for o resultado da discussão, a história grega nunca mais foi a mesma depois que Schliemann seguiu a senda de lendas, poemas e de seu sonho juvenil.

Obs.: A edição que eu li é a da Melhoramentos, 1964, e não traz nenhuma informação sobre o autor. Mas feita uma pesquisa no Google, encontrei o seguinte: C.W. Ceram era o pseudônimo de Kurt Wilhelm Market (Berlim, 1915 - Hamburgo, 1972). O autor fora importante propagandista do Nazismo e, depois da guerra, quis esconder o seu passado.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Filmes que marcaram (2)


Dou continuidade à lista e comentários dos dez filmes que me marcaram. E acrescento: não são necessariamente as produções mais geniais do cinema, mas os filmes que me emocionaram, me empolgaram e, por uma razão ou outra, não esqueci. Às vezes foi devido à temática (um tema histórico, por exemplo), à eficácia da narrativa, ao desempenho dos atores, ao erotismo e assim por diante. Ou tudo isso junto.

Curiosamente, os cinco primeiros filmes listados (na crônica anterior) foram assistidos quando eu era criança e morava em Pelotas. Em 1967, com 11 anos de idade, minha família veio para Porto Alegre e foi nos cinemas dessa cidade que assisti os filmes abaixo. Filmes da minha adolescência e juventude. Todos eles inesquecíveis.



6. “Les femmes”. Direção de Jean Aurel. Com Brigitte Bardot. França/Itália, 1969. 86 min.
 Filme erótico. Não lembro a trama. Brigitte Bardot corre nua pelo campo. Brigitte Bardot rola na cama com o seu amante, os dois insinuando relações sexuais – nada muito explícito, mas o suficiente para excitar as plateias dos anos 60. (Escrevo baseado apenas na memória, nunca mais revi o filme.) A câmera percorre lentamente o corpo da atriz deitada de bruços (fotografia acima) e o amante a acaricia e beija com vagar e delicadeza. Eu tinha 14 ou 15 anos e cursava o ginásio numa escola católica. O professor de Língua Portuguesa fazia discursos furibundos na sala de aula, criticando os filmes “com cenas de nudez e carícias lascivas” e “Les femmes” parecia ser uma dessas fitas que ele atacava. Justamente o filme que o Cine Colombo, a quatro quadras do colégio, estava exibindo e que todos nós, alunos, tínhamos visto os cartazes. Um amigo conhecia porteiro do cinema e nos garantiu que conseguiríamos entrar desde que pagássemos uma gorjeta ou algo assim. Entramos no cinema. Corremos para o mezanino e lá ficamos “escondidos”, extasiados. Não, não lembro de algum de nós utilizando uma das mãos para dar continuidade à empolgação. Tudo no maior respeito. Isso fazia parte do acordo com o porteiro.

7. "Toda nudez será castigada". Direção de Arnaldo Jabor. Com Darlene Glória, Paulo Porto e Paulo César Pereio. Brasil, 1973.

Esse filme foi minha porta de entrada na obra literária de Nelson Rodrigues – que eu conhecia apenas das crônicas (Confissões) que o jornal “Folha da Tarde” publicava. Fiquei fascinado com o retrato debochado, trágico-cômico, da tradicional família brasileira apresentada no filme. Uma família regida por padrões de moralidade sexual extremamente rígidos e com forte marca católica. Muita repressão sexual e muita culpa. De certa forma, uma abordagem dos dramas humanos semelhante ao do romance “O casamento", no qual um padre afirma: "Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva". A mesma exacerbação das paixões e da culpa. No filme, um viúvo transtornado pelo recente falecimento da esposa, promete ao filho nunca mais conhecer outra mulher. Depois, induzido pelo irmão malandro e aproveitador (interpretado por Pereio), conhece a prostituta Geni (interpretada maravilhosamente por Darlene Glória) e gama (fotografia acima). Ele se casa com a prostituta, traz a mulher para morar com a sua família e ela se envolve com o filho do viúvo. Geni desperta as paixões de pai e filho, vira ao avesso a família, desmonta os seus valores e ela própria também se desestrutura. Os principais personagens se afundam na culpa (Geni se suicida) e nada se salva – mas a plateia do cinema se diverte. Visto hoje, uma interpretação demasiadamente cômica da tragicomédia rodriguiana. Um filme datado – não consegui rever até o final. Mas sem dúvida impactante naquele início dos anos 70: uma leitura ousada da sociedade brasileira do período, que, apesar da modernidade capitalista promovida à força pelo Regime Militar, ainda estava mergulhada em valores arcaicos (do tempo da República Velha e muito mais).


8. “O amuleto de Ogum”. Direção de Nelson Pereira dos Santos. Brasil, 1974. 112 min.

Um violeiro cego (interpretado por Jards Macalé – foto acima - também autor da trilha sonora) canta a história de um retirante nordestino que vêm para o município de Caxias (no estado do Rio de Janeiro) e se transforma num pistoleiro de bicheiro (este último, interpretado por Jofre Soares). Detalhe importante: quando criança, o futuro pistoleiro viu o pai ser assassinado e foi levado pela mãe a um terreiro de Umbanda para ter o corpo fechado. A narrativa reúne a tradicional violência rural nordestina com a nova violência das vertiginosas metrópoles do Sul Maravilha. Vinculação entre os dois espaços sociais (o rural tradicional e o urbano moderno) por meio de um personagem com atributos sobrenaturais. A cena da ressurreição do pistoleiro – o rapaz salta do fundo das águas com armas em punho – é inesquecível. Um enfoque surpreendente do universo religioso e social das classes populares. A religiosidade de matriz africana e as condições de vida das classes populares na periferia da megalópole carioca. Para o estudante de História que eu era na época, uma narrativa cinematográfica que inovava as abordagens da realidade brasileira, na medida em que era mais dinâmica e mais vinculada ao ponto de vista popular – diferente das narrativas de outros filmes do Cinema Novo (que eu andava assistindo nas sessões de cineclube). Me parece que o filme é um ponto de virada na abordagem do universo popular. Mas nunca mais revi o filme. Escrevo com a lembrança do grande prazer que o filme me proporcionou. “E quem não gostou dessa história vá pra puta que pariu”, canta o violeiro cego na última cena do filme.

9. “Último tango em Paris”. Direção de Bernardo Bertolucci. Com Marlon Brando, Maria Schneider e Jean-Pierre Léaud. Música de Gato Barbiere. Itália/França, 1972. 129 min.
O filme foi um sucesso na Europa e censurado no Brasil. Enquanto não chegava às telas brasileiras, li o romance que deu origem ao filme e não gostei. Quando a película foi liberada e entrou na programação do Cine Cacique (ou será que foi no Scala?), fui dos primeiros a assistir (em dezembro de 79, provavelmente). O desempenho dos atores, a trilha sonora jazzística, a fotografia, a trama, os diálogos, tudo funciona muito bem. A princípio parece apenas uma aventura erótica entre um homem maduro (Paul) e uma mulher jovem (Jeanne) – homem e mulher que recusam revelar suas identidades e apenas viver seus impulsos sexuais –, mas logo a trama entre o casal se revela muito mais complexa, de uma densidade impressionante. O ponto de virada talvez seja o monólogo de Paul (Marlon Brando) diante do corpo da sua esposa, que havia se suicidado. Fica explicado o desespero e a desesperança do personagem. Enquanto Paul quer distância da lembrança da esposa morta, Jeanne (Maria Schneider) parece quer algo mais vital que a sua relação com um noivo enlouquecido por cinema (Jean-Pierre Léaud). Jeanne e Paul se relacionam como se apenas o sexo bastasse. Quando Paul tenta mudar o padrão da relação e revelar a sua identidade, Jeanne recua. No final, a cena do assassinato de Paul é um tango argentino desesperador, trágica e debochada. Paul entra no apartamento de Jeanne, a moça pega o revólver do pai, dispara e o amante morre na sacada, diante da paisagem parisiense. Antes de cair no chão, Paul sorri, tira o chiclete da boca e o gruda no parapeito da sacada. Enquanto isso, a moça murmura o que dirá para a polícia: que ela não conhecia aquele homem, que ele a perseguiu pela rua, invadiu sua casa e tentou violenta-la. A mocinha vence o homem madurão, cínico e debochado – e talvez vá casar com seu noivinho alucinado por cinema. Assisti várias vezes esse filme e sempre me surpreendi. Uma obra-prima.

10. “Sonata de outono”. Direção de Ingmar Bergman. Com Ingrid Bergman e Liv Ullmann. Suécia, 1978. 99 min.
         No meio da enxurrada de filmes de temática histórica, social e política que assisti nos anos 70, a cinematografia de Bergman era um aviso de que havia muito mais a investigar e entender que “o mundo determinado pelas condições materiais da existência”. Mais do que a realidade sócio-política, havia a complexidade da “alma humana”, sua psicologia e também sua inquietação com o sobrenatural. O primeiro filme que assisti desse cineasta foi “A hora do amor” (1971), considerado menor na sua produção, mas com uma cena que me marcou: um arqueólogo descobre uma estátua de Nossa Senhora esculpida em madeira e identifica nela uma colônia de insetos que a estão devorando. Em determinado momento ele a ilumina com uma lanterna e diz para a mulher a seu lado (com quem está tendo um caso) que aquela representação do sagrado, como tudo, está com data marcada. As palavras não são essas, claro, mas creio que o sentido é esse. O adolescente que eu era ficou impactado: o mundo do sagrado também era devorado pelo tempo, o implacável tempo. “Sonata de outono”, por sua vez, é um dos títulos mais elogiados de Bergman. Relembrei tudo outro dia revendo o filme no Telecine. Liguei a TV e peguei justamente na cena da fotografia acima: uma filha (Liv Ullmann) dialoga com a mãe, célebre pianista (Ingrid Bergman). As duas estão diante de um piano. A filha toca uma peça de Chopin para a mãe constatar o seu progresso e a mãe não é nada condescendente. Até tenta ser compreensiva com a filha, mas logo assume seu papel de exímia pianista e pouco a pouco corrige a filha e a ensina a interpretar corretamente aquela peça musical. Nem naquela hora, na intimidade de uma conversa com a filha, Charlotte (esse é o nome da exímia pianista) consegue ser uma mãe amorosa. Os olhos de Helena, a filha, vão se transformando (na medida em que a mãe fala e corrige), os olhos vão deixando aflorar as mágoas que a filha traz desde criança. “Eu te amava, mamãe, era uma questão de vida ou morte (...). Quando eu era criança, eu a sentia no meu corpo todo. Mas eu sentia que você não falava com o coração”. A mãe continua não falando com o coração. O filme é isso: uma tentativa de acerto de contas entre uma filha madura e sua mãe. Elas se dizem praticamente tudo que é possível dizer (muito mais do que a maioria das filhas e mães conseguem se dizer, imagino) e as coisas não se resolvem. Se a trilogia “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo, me ensinou a respeito do lugar do Pai na vida de um filho (por meio da relação entre Floriano e seu pai, o doutor Rodrigo Cambará), acho que esse filme me ensinou a respeito do lugar da Mãe. Especialmente quando a mãe não desempenha o papel amoroso que os filhos desejam. Tudo nesse filme é primoroso – as atrizes, então, excepcionais. Revendo o filme na TV, tive a certeza de que o cinema ocupa uma posição especial na minha vida. Diversão, aprendizagem, reflexão, prazer.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Filmes que marcaram (1)


Um amigo me propôs uma brincadeira: postar durante dez dias, no Facebook, uma imagem de cada um dos dez filmes que mais me impactaram. Topei. A regra do jogo era não fazer comentários. Apenas postar imagens. Segui o roteiro proposto, mas retomo aqui a lista com um pequeno comentário a respeito de cada um dos títulos.
Fiz a escolha entre os filmes que assisti na infância e juventude. Só aqueles que me fascinaram. Não necessariamente os melhores. Mas os que marcaram, conquistaram meu coração & mente e me constituíram. Narrativas cinematográficas, personagens, paisagens, atores e trilhas sonoras que forjaram meu imaginário.

1. “Os 300 de Esparta”. Direção de Rudolph Maté. EUA, 1962.


Filme ambientado na Grécia antiga, no período das lutas contra os invasores persas. Os exércitos de diversas cidades-estados gregas se comprometem a deter os persas no desfiladeiro das Termópilas, mas na hora H só os espartanos - com uma tropa de elite de 300 homens - aguentam o rojão. Mesmo sabendo que não terão reforços, que não terão chance de vitória, os espartanos não recuam e optam pela morte heroica. O filme me pegou por aí: a opção pelo sacrifício. A grandeza do sacrifício por uma causa grandiosa. O guri de calças curtas que eu era ficou fascinado. O filme foi a minha porta de entrada para esse importante episódio da Antiguidade e também do tradicional elogio do martírio. Adulto, li e reli o longo capítulo do livro de Heródoto em que essa batalha é abordada e sempre lembrei do filme, da emoção que tive ao assisti-lo. Contei isso diversas vezes para os meus alunos de História Antiga.

2. “O Vigilante Rodoviário”. Direção de Ary Fernandes. Brasil, 1962.


O menino que eu era ia ao cinema todos os finais de semana e não se alimentava apenas de épicos norte-americanos. Devo ter visto mais de uma vez esse filme do inspetor Carlos e seu fiel auxiliar, o cão Lobo. Hoje sei que a fita reunia episódios de um seriado da TV Tupi, mas na época era apenas uma das poucas opções de filme nacional que havia (junto com os de Oscarito e Grande Hotel). O Vigilante Rodoviário ficou na memória como garantia de um prazer semelhante ao das histórias em quadrinhos: a certeza da vitória do mocinho contra qualquer malfeitor – e ainda ajudado pela esperteza de um cachorro muito especial.

 3. “O Rei dos Reis”. Direção de Nicholas Ray. Roteiro de Philip Yordan e Ray Bradbury. EUA, 1961. 168 min.


        Entre os filmes de temática católica que assisti na infância (entre eles, “Marcelino, pão e vinho”) esse soou completamente diferente. Um épico hollywoodiano, certo – mas nem um pouco sentimental como era o padrão dos filmes religiosos. Criança, levei à sério a representação da Palestina no tempo de Cristo apresentada pela produção. Não sei como entendi a questão política apresentada, isto é, a do domínio romano sobre a Palestina e as várias opções para enfrenta-lo: o colaboracionismo do rei Herodes, a luta de libertação nacional liderada por Barrabás, a proposta pacifista de Jesus Cristo. Filme político-religioso, a película claramente leva a plateia a simpatizar com a doutrina de Cristo e o seu exemplo. É ele quem tem a melhor proposta e atitude para se contrapor a crueldade da dominação do Império Romano e também de transformar o mundo para melhor. O menino que eu era (que não perdia a missa aos domingos) de alguma maneira percebeu isso: o poder da mensagem cristã para o estabelecimento de um marco civilizatório. Mas não compreendeu, claro, que esse marco civilizatório implicava no reconhecimento do domínio do Império Norte-Americano. Decifrar os truques do cinema seria exigir demais de um menino que ainda não terminara o Curso Primário.

4. “Rastros de ódio”. Direção de John Ford. Com John Wayne e Natalie Wood. EUA, 1956. 120 min.


Assisti a esse faroeste quando criança, junto com tantos outros de John Ford, como “No tempo das diligências”, “Forte Apache” e “Rio Bravo”. Eu era parceiro de cinema de meu pai e ele adorava western, especialmente aqueles com John Wayne. Ele deve ter assistido a maioria dos filmes que esse ator encenou e não deixava de revê-los quando eram reprisados – e geralmente me levava junto. “Rastros de ódio” me caiu como um filme estranho – talvez devido ao aspecto sombrio do personagem interpretado por John Wayne – e só percebi a sua grandeza quando era estudante universitário, num memorável ciclo de faroeste no auditório da Assembleia Legislativa, em Porto Alegre. Memorável porque nesse ciclo de cinema vi filmes de John Ford que havia assistido quando criança, gostado, e jamais imaginado que fossem tão prestigiados pela crítica. Em “Rastros de ódio”, uma dupla de cowboys procura durante anos umas meninas raptadas por índios. Ao final, descobrem que apenas uma sobrevive e um deles (o sombrio cowboy interpretado por John Wayne) deseja matá-la, pois não admite um familiar aculturado pelos indígenas. A cena em que o cowboy é conquistado pela mocinha e ele enfim decide salva-la é impactante (fotografia acima) e talvez indique um emblemático e esperançoso episódio de superação do ódio racial. Provavelmente o maior de todos os faroestes. O embate do homem de fronteira (o cowboy) com seus sentimentos de repulsa e ódio diante do que lhe estranho (o mundo indígena, a cultura e a presença dos nativos que vivem no território que os brancos lutam para ocupar e dominar). Seguramente uma grande reflexão sobre o expansionismo norte-americano tanto no Velho Oeste quanto no mundo após a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos de um espectador latino-americano, o drama contundente das figuras que protagonizam o imperialismo ianque – figuras que são, ao final, conquistadas por uma proposta humanista, o convívio com o diferente. Para o estudante de esquerda que me tornei nos anos 70, uma película imperialista genial. Filme impecável - desses que vou continuar revendo.

5. “El Cid”. Direção de Anthony Mann. Com Charlton Heston e Sophia Loren. EUA/Itália, 1961. 182 min. 


Assisti no Cine Pelotense e saí em estado de êxtase. Talvez eu tivesse 10 anos de idade. Vivi, naquela tarde, uma das maiores emoções que o cinema me proporcionou. Fiquei fascinado com a bravura do herói e impactado com a utilização da figura do guerreiro cristão morto, encaixado em cima do cavalo, empolgando seus soldados na batalha decisiva contra os mouros, para garantir a conquista da cidade de Valência. Mas estranhei o fato do herói ter matado o pai da mocinha, sua amada, e ela ainda assim ter ficado com ele. Devo ter cravado o meu pai de perguntas a respeito do filme. Fiz o álbum de figurinhas que foi lançado na época e o guardei por vários anos. Mas terminei perdendo-o. O épico dos épicos. Recordo de um colega de aula, no Curso de História, afirmando que o filme foi a maior criação mítica do cinema norte-americano. Um símbolo da luta contra os adversários da Cristandade. Anos mais tarde li o “Poema de Mio Cid”, uma das referências para a construção do roteiro, e fiquei decepcionado. A conquista de Valência está no meio do poema e não ocupa o lugar central que tem na narrativa cinematográfica. Nem a luta com os mouros é o tema central do poema. A criação hollywoodiana é muito melhor. Também tive contato com a peça teatral de Corneille – “El Cid”, 1637 – e entendi que foi dali que os roteiristas se inspiraram para criar o conflito do herói com o pai da mocinha, Ximena (fotografia acima). Conflito que resultou em duelo, morte do pai de Ximena e banimento do herói para fora de reino de Castela. Descobri, então, que minha cabeça foi feita pelo cinema hollywoodiano. Afinal, durante anos, achei que a filme era a história verdadeira de Rodrigues Dias de Bivar ou coisa assim. Me enganei redondamente. Mas não deixei de gostar do filme e me comover com as lutas do Ocidente Cristão. Em especial, com o romance entre o bravo guerreiro e a delicada e também determinada Ximena. Que mulher – ou melhor, que interpretação brilhante a da atriz Sophia Loren.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Memórias de Lygia Fagundes Telles


Encontrei numa livraria de shopping um livro de memórias de Lygia Fagundes Telles – Durante aquele estranho chá – e me deparei com uma pergunta que a autora se fez quando começou a ler a poesia de Drummond, em 1944: “aquele mundo de desencanto e de náusea devia mesmo ser cantado em verso?” A escritora tinha 21 anos de idade, era estudante da Faculdade de Direito, em São Paulo, já conhecia os autores modernistas – Mário de Andrade, Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes –, mas nenhum tão radical como Drummond. Ficou impactada.
Livro de memórias e ficção, Durante aquele estranho chá me fisgou completamente e o li em poucas horas. Uma prosa cativante, na qual “a grande dama da literatura” reconstitui parte da sua formação e vivência. Memórias de seus encontros com escritores, leituras, participação em congressos internacionais, conferências e também viagens com o segundo marido, Paulo Emílio Sales Gomes. Encontros com Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Jorge Luís Borges, Simone de Beauvoir, Hilda Hilst e Clarice Lispector, entre outros – e, principalmente, leitura de Machado de Assis, um autor fundamental na sua obra de contista e romancista. Livro revelador dessa autora que admiro muito.
Aos 21 anos, além de entrar em contato com a poesia de Drummond, a escritora – já autora de alguns contos – escreveu para Mário de Andrade e este a convidou para um chá (o estranho chá referido no título). Um chá na Confeitaria Vienense, na Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, durante o qual ela revelou as suas “ousadias”: ingressar numa “escola masculina” (a Faculdade de Direito do Largo São Francisco) e exercer “um ofício de homens” (escrever literatura de ficção). A autora calçava luvas, havia sons de piano e violinos – “tudo era finíssimo naquela confeitaria” – e os poucos passantes que cruzavam a rua eram bem vestidos, com chapéus de feltro e gravatas (até os estudantes usavam gravatas). Recordando a cena quase sessenta anos depois, Lygia se perguntou onde estava o povo, os camelôs e os mendigos...
Uma moça da “classe média em decadência”, segundo ela própria, a autora não se considerava uma feminista nem nunca se viu como tal. Como explicita numa das crônicas, entende que uma das maiores revoluções do século XX foi a Revolução da Mulher e não a Revolução Feminista – e foi naquela que ela se integrou. Uma revolução feita de forma prudente e paciente, na qual a mulher foi saindo da condição de invisibilidade e foi "se desembrulhando e se explicando" – como fez Gilka Machado escrevendo sobre o amor sexual em “flamejantes poemas”. Uma revolução sem os ressentimentos e agressões – “contra o primeiro sexo e até contra o próprio” – como foi o caso da revolução feminista, segundo a autora.
Lembrei do romance As meninas (1973), que li e reli, ao entrar em contato com as reflexões da autora sobre o movimento feminista. Nessa obra, três moças vão se explicando, se revelando – se desembrulhando de todos os silêncios a que as mulheres foram submetidas – e a mais prudente é a que teve melhor sorte. Um grande livro, um dos meus preferidos, talvez emblemático dessa fabulosa escritora, que nunca abandonou o lirismo (aprendido na leitura dos românticos, de Álvares de Azevedo e outros) e que soube articulá-lo com o desencanto, a náusea e a miserabilidade do mundo (que talvez tenha lido primeira vez em Drummond). Autora de uma literatura delicada, “palpitante de emoção e humanidade”, como disse Caio Fernando Abreu.

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TELLES, Lygia Fagundes. Durante aquele estranho chá: memória e ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 160 p. Livro escrito em 2002, a pedido de um pós-graduando que preparava dissertação sobre a autora, e revisto em 2010.


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Meu avô e Mussolini


Meu avô paterno não conheceu Mussolini. Nunca fez parte da multidão que o assistiu discursar da sacada do Palazzo Venezia, em Roma, e apenas o escutou pelo rádio. Pelo menos era isso que meu pai e meus tios falavam a respeito dele: que ele ligava o rádio em alguma emissora italiana, escutava as notícias de sua terra natal e às vezes a voz do Duce. Ele se emocionava com o grande líder. Admirava as suas realizações – provavelmente a conquista da Abissínia (1935), o ingresso da Itália no conjunto das nações colonialistas europeias – e a fama que conquistava no mundo, na elite europeia inclusive.

Anticomunista e autoritário, meu avô não teve resistência em relação ao fascismo. Apenas em 1942, quando Vargas declarou guerra ao Eixo e os italianos que viviam no Brasil passaram a sofrer alguns constrangimentos, ele calou a sua admiração. A partir daí, ligava o rádio bem baixinho e escutava as notícias da sua terra com o ouvido colado ao aparelho. Deve ter sido com pesar que tomou conhecimento das derrotas do grande líder: a sua deposição do cargo de ditador (pelos companheiros de partido, em 1943) e o seu fuzilamento pelos partigiani (em 1945).

Pois foi desse avô que lembrei quando me deparei com o Palazzo Venezia, quase dois anos atrás. Estava com meus colegas de Campus Magnolle nas escadarias do Monumento a Vittorio Emanuele, a professora explicava o que há para conhecer no Monte Capitolino e apontou para o famoso palácio. “Era daquela sacada que Mussolini discursava às multidões”, ela disse. Apesar do meu precário italiano, consegui compreender a referência ao Duce e lembrei do meu avô – um homem que admirava Mussolini. Um homem que, de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, nas décadas de 1920 e 30, diante de um rádio, estava – de coração – com pés na Piazza Venezia, na frente do palácio, escutando o grande líder.
Palazzo Venezia, em Roma - antigo quartel-general de Mussolini.
Não conheci meu avô (ele morreu quando eu era criança) e sei dele apenas pelos relatos do meu pai, tios e minha mãe. Mas sua figura sempre me acompanhou (meu pai tinha verdadeira veneração por ele) e não foi por nada que sua lembrança irrompeu quando eu estava em Roma. Entre outras coisas, a admiração desse avô por Mussolini sempre foi motivo de conversa com meu pai e devo ter perguntado mais de uma vez se o vô sabia o que era a doutrina fascista. Meu pai garantia que não, que tudo não passava de uma relação sentimental com a Itália e fui aprendendo que foi assim com muitos imigrantes italianos. 
Os imigrantes vivenciaram com muito sofrimento a inserção nos países da América (tanto no Brasil e Argentina, quanto nos Estados Unidos) e Mussolini restabeleceu neles o orgulho de serem italianos. No final da década de 1920, o Duce era festejado como uma resposta à “decadência da democracia liberal” e não faltavam elogios ao seu estilo de governar. Muitas celebridades passavam por Roma para conhecer o ditador – Gandhi, entre elas, em 1931 – e até falava-se de uma “Internacional fascista
”. Em 1933, em Nova Iorque, um dos emissários políticos de Mussolini discursou para os seus compatriotas e afirmou: “É para vocês, operários, que se dirigem o orgulho e o amor do Duce. Sintam orgulho de serem italianos [...] sobretudo vocês, operários de braços incansáveis e corações simples. [...] Mussolini encerrou a era das humilhações. Ser italiano é um título honorífico.”
Se meu avô escutasse isso, um imigrante que colheu café em fazenda paulista e depois se fez ferroviário no Rio Grande do Sul, o que sentiria? Natural que se enchesse de orgulho e se fizesse um fascista também. Predisposição para isso ele tinha (o anticomunismo e o pouco apreço pela democracia liberal) e o grande líder na certa o fazia reparar antigos ressentimentos.
Mesmo depois do alinhamento com Hitler e as primeiras derrotas na guerra europeia, meu avô manteve a simpatia pelo líder. Ligava o rádio baixinho (para não se incomodar com os vizinhos nem com as autoridades brasileiras) e acompanhava as notícias da Itália. De coração, meu avô devia andar pela Piazza Venezia – e foi com a sua lembrança (especialmente o sentimento que meu pai me passava desse austero imigrante) que também atravessei a mesma praça.

sábado, 8 de setembro de 2018

A polêmica a respeito dos Romanov

         O historiador francês Marc Ferro coloca em xeque a versão de que a família do último czar da Rússia foi fuzilada pelos bolcheviques, na noite de 16 de julho de 1918. Segundo Marc Ferro, apenas o ex-czar Nicolau II foi morto naquela noite – ele, mais o médico e três empregados da família (mortos esses últimos para fazer número e/ou ocultar a farsa montada). A czarina, suas quatro filhas e o herdeiro, Alexei, foram poupados.

Para isso, houve uma negociação entre o governo comunista e o kaiser Guilherme II, que desejava salvar os membros da família real russa com sangue alemão (a czarina era alemã). No acordo, a Alemanha se comprometeu a sair da Bielorrúsia, entregar dois membros da organização spartaquista, enquanto os Sovietes reconheciam a independência dos Estados Bálticos, deixavam de incentivar a propaganda revolucionária entre o proletariado alemão e entregavam a imperatriz alemã e seus filhos.

Assim, após o assassinato do ex-czar, um comboio conduz secretamente os sobreviventes da família real em direção a Moscou e dali para fora da Rússia. No caminho, porém, desaparece Alexei e a princesa Anastasia foge com um guarda. Sobre Alexei não há pistas plausíveis (apenas uma história rocambolesca), mas Anastasia aparece mais tarde, na década de 1920, e sua identidade vai ser contestada. Injustamente contestada, segundo o autor.

Enquanto isso, ainda segundo Marc Ferro, a imperatriz e suas três filhas são acolhidas por membros da nobreza europeia, sem alarde, pois assim convinha ao movimento contrarrevolucionário que pretendia reinstaurar a monarquia na Rússia. Restaurar a partir de outra linha sucessória que não a estabelecida por Nicolau II, visto que esse soberano era avaliado como incompetente e sua memória incapaz de empolgar os nostálgicos do Antigo Regime.
Para muitos historiadores, a hipótese que Marc Ferro encampa – a da sobrevivência da imperatriz e das princesas – não passa de uma lenda. O historiador francês, porém, argumenta com tanta propriedade, levanta documentos e testemunhos tão contundentes, que, ao menos no meu caso, convence. Essa tese ele já anunciara em 1990, ao publicar na França uma biografia de Nicolau II – recebida, segundo ele próprio, “com uma indiferença e um silêncio glaciais”. Em 2012, o autor sintetizou o assunto num pequeno livro – A verdade sobre a tragédia dos Romanov –, o qual foi publicado no Brasil (Editora Record, 2017, 160 p.).
É um pequeno livro impactante, recomendável para quem se interessa por Revolução Russa e/ou gosta de histórias de famílias reais. No meu caso, os dois temas agradam. São assuntos para muitas leituras e conversas. Para quem indiquei o livro, uma professora apaixonada por História, a leitura foi daquelas de varar a noite. Um tema polêmico que ainda rende.