domingo, 19 de abril de 2020

Turista brasileira em Varadero

Estive em Cuba em 2011 e me hospedei num hotel de Havana, no bairro Miramar, um local de embaixadas e hotéis internacionais, com casarões antigos (“pré-revolucionários”) e casas no estilo norte-americano dos anos 1950. Caminhando pelo bairro, tive a impressão de andar num território estadunidense e lembrei que não foi sem razão que o anti-imperialismo foi um dos vetores da luta revolucionária. Cuba era uma espécie de protetorado dos Estados Unidos.
Hotel Miramar. Havana.

          Recordo essa viagem por conta de um passeio que fiz a Varadero e de uma cena que assisti protagonizada por uma turista brasileira. Varadero é um dos locais mais importantes da indústria turística cubana e consiste numa série de resorts ao longo de uma praia paradisíaca. Eu tinha que conhecer o lugar e lá fui com minha companheira passar um dia.
Saímos de Havana de manhã cedo, voltamos ao anoitecer. Ao chegar fomos para a beira da praia e constatei que aqueles postais que vemos do Caribe... são verdadeiros. Eles não enganam. A areia é branca, o mar é azul. Todas as cores são intensas. Uma paisagem de cartão postal. É só clicar.
Infelizmente, apesar do dia de sol, o mar não estava para banho. A bandeira era vermelha e havia um enorme cartaz informando (em diversas línguas) a respeito de uma determinação internacional para as praias do Caribe segundo a qual os banhos de mar ficam proibidos quando a bandeira estiver vermelha. Devido ao repuxo, me explicou o salva-vidas.
Fiquei frustrado e molhei apenas os pés. Eu e a totalidade dos visitantes daquela pequena praia de um resort de Varadero. E digo pequena porque a praia era cercada por rochas. Uma extensão de areia de pouco mais de cem metros e sólidas rochas em cadda uma das pontas. Na areia, cadeiras de praia, umas armações cobertas com folhas de palmeira para servir como guarda-sol e um bar servindo quantos drinques o visitante quisesse. Território paradisíaco. Mas sem banho de mar naquela manhã de céu esplendorosa, sol brilhante e nenhuma nuvem.
Varadero.

          A proibição, no entanto, não valia para uma turista que caminhava dentro da água enquanto o filho (um guri de menos de dez anos) se banhava livremente, dando mergulhos invejáveis. O salva-vidas foi até ela explicar as normas da praia e ela respondeu, altivamente, que cuidava do menino. Que era seu filho e ela estava habituada. Nas praias brasileiras nunca ninguém lhe dizia o que tinha de fazer. E respondeu num português brasileiríssimo que não deixava dúvidas quanto a sua origem.
O salva-vidas (um professor de educação física) se esmerou em explicar o quanto o mar é traiçoeiro, mas não houve jeito. Ora o mar, ora as normas internacionais! A jovem senhora, escultural no seu maiô de duas peças, não se dobrava a qualquer argumento.
O rapaz se retirou, me viu observando a cena, sabia que eu era brasileiro e veio me dizer que isso era frequente.
– Alguns turistas não entendem – explicou. – E os piores são os russos e os brasileiros – acrescentou. – Se atiram dentro da água, dizem que está tudo sob controle, que eles sabem nadar, mas se o repuxo os carrega para o fundo não conseguem voltar sozinhos. Eu tenho de busca-los. E não pensa que é fácil.
Lembrei desse episódio porque tenho a impressão de que muitos brasileiros são assim: acham que podem descumprir as normas e se comportarem do mesmo modo como fazem em casa. Se o sujeito é jovem, penso que a petulância está explicada. Vai passar. Mas se já passou dos 30, se já foi curtido pela vida, a coisa me incomoda.
Um comportamento, me parece, que tem se revelado ultimamente no país, quando vemos brasileiros de meia idade, enrolados na bandeira nacional, negando as medidas rigorosas de combate à expansão do covid-19. Negam o que é consenso entre as autoridades médicas e sanitárias internacionais. Negam com o nariz erguido. Negam e acham que não serão atingidos pela catástrofe que se aproxima.
Me lembram a turista brasileira em Varadero. Ao final ela se deu bem. O filho deu todos os mergulhos que teve vontade e depois ela saiu com ele pela mão. Era uma mulher bonita. Arrogante e bonita. Bem tratada. E imagino que  ela, nesses últimos dias, deve ter estado engrossado a multidão dos bolsonaristas que estiveram na Avenida Paulista protestando contra o governo Dória, a Rede Globo e a China.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Memória, enchente e Beethoven

Algumas coisas estão se transformando dentro de mim. Nem sei o que é e escrevo para descobrir. Já fiz e refiz esse texto várias vezes e aqui vai a última versão.
Minha memória está perdendo a clareza e preciso me apressar. Algumas lembranças estão se perdendo, às vezes ganhando um jeito difuso. Diversos quadros surgem “na parede da memória” e nem sempre doem como o Belchior cantava em uma de suas canções. Pelo contrário, até dão alegria. Algumas lembranças afloram estranhas e embrulhadas em clima de sonho. Quase um conto mitológico.
Por exemplo, uma lembrança a respeito do Canal São Gonçalo (aquele canal que liga a Lagoa dos Patos a Lagoa Mirim e que muitas vezes chamamos de rio). Na primeira metade dos anos 60 ele deu de transbordar e invadir as margens da cidade de Pelotas (onde eu morava). Acho que poucas pessoas moravam na beira do rio, mas algumas casas foram alagadas. Eu residia a dez quadras do canal (mais ou menos) e lembro disso. Eu tinha menos de dez anos de idade.
Era agosto e chovia. Era agosto, a chuva dava uma trégua e fazia um dia cinzento. As pessoas vinham da beira do rio e paravam na frente de casa para contar para o pai e a mãe o que estava acontecendo com o canal. Pelo jeito dos adultos, era coisa grave. Mas eu não me assustava. Meu irmão sim. Acho que ele chorava. Minha mãe o abraçava e consolava.
Um dia o pai falou que depois da tempestade sempre vem a bonança. Não sei quando ele disse isso. Acho que foi num daqueles dias cinzentos, depois de muita chuva e trovoada. Ele colocou a 6ª Sinfonia de Beethoven na eletrola e eu ouvia (ouço até hoje) com atenção. O quinto movimento representa a tempestade e no sexto tudo muda de repente: a bonança. “O hino de ação de graça dos camponeses” (nome dado por Beethoven ao sexto movimento). Uma felicidade só.
É isso que eu lembro. As águas do São Gonçalo transbordam, invadem a cidade e até a minha casa fica submersa. Mas isso não atrapalha a vida. Pelo contrário, nós voltamos a nossa condição primeira, primitiva e arcaica, de seres aquáticos ou algo assim, e tudo corre bem.
Vá entender porque eu recordo as coisas desse jeito. Realidade misturada com fantasia, com sonho. Parece um conto mitológico. Lembro assim essa enchente. Minha memória dá piruetas e desenha as cenas da infância desse jeito.
Faz sentido e deixo dessa maneira. Sinto uma satisfação danada e me dou conta que é isso que tenho procurado. Pouco tempo atrás viajei a Pelotas, fui ao Cassino, e era isso que estava buscando: essa sensação de viver num mundo submerso, aquático, dentro da minha casa, com meus pais. Essa lembrança primitiva Minha mãe consolando meu irmão, meu pai colocando um disco na vitrola, e do outro lado da janela esse clima de horror – a enchente do São Gonçalo - incapaz de me perturbar.
Minha memória não é mais confiável. Ela está me pregando peças. Mas deixo estar. Alguma coisa está acontecendo dentro de mim e sinto que há algo de verdadeiro nessas lembranças embrulhadas em lenda.
Depois da tempestade vem a bonança. Quando parava de chover, eu saia para a calçada com meus dois irmãos e colocávamos barquinhos de papel na água da sarjeta, que corria feito correnteza de rio.
Já refiz esse texto várias vezes e não vou reescrever mais. Vou deixar assim.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Copacabana Palace

Estive no Rio de Janeiro neste verão e me hospedei em Copacabana, num ótimo hotel da Rua Xavier da Silveira. No primeiro dia, passeando pela Avenida Atlântica, minha companheira falou em tomarmos um café no Copacabana Palace. Nada mais do que um café no Pérgula do hotel, ao redor da piscina. Na verdade, um simples cafezinho. Da outra vez que estive lá inventei de pedir uma taça de vinho branco e paguei o preço de uma garrafa. O vinho era bom, claro, mas não valia tudo aquilo. O local, no entanto, puxa vida, era de cinema.
E continua sendo, constatei mais uma vez. Nessa oportunidade, uma moça caminhava de maiô inteiro, azul, lá na outra ponta da piscina, e era como se desfilasse. Alvoroçada, cheia de gestos, vestia uma espécie de saída de banho branca e transparente, esvoaçante, e andava entre as mesas, saia em direção ao prédio dos fundos, entrava, saia, voltava a andar entre as mesas, e tive a impressão de que protagonizava uma encenação. Uma performance, quem sabe.
Minha companheira chamou minha atenção para uma mulher que se deixava fotografar próxima a nós, com muitos brincos, pulseiras e colares, e percebi que era outro espetáculo. Fiquei atento. A mulher pousava puxando os cabelos para trás, indicando o detalhe dos brincos, e depois mudava de pose, as mãos na cintura, e parecia dizer para a fotógrafa que agora era ali que ela devia focar.
– Uma styler influence – imaginamos. Vendendo balangandãs, eu pensei (compraria uma biografia da Carmen Miranda naquela semana).
O garçom nos serviu os cafezinhos e notei que as xícaras não tinham alças. Coisa estranha, mas deve ser a tendência ou coisa assim. Peguei a xícara com uma das mãos (ou copo ou sei-lá-o-quê), me recostei na cadeira para beber e lá estava a moça do maiô azul sentada na mesa defronte. Ela, mais outras duas, todas jovens, bonitas e maquiadas, reunidas a três homens velhos, feios, um deles sem largar o celular.
As jovens empunhavam taças de espumante (ou seria champanhe o que elas bebiam?), riam e falavam entre si. Os homens conversavam também entre si, sem risos, um deles sempre com o celular. Minha companheira e eu nos olhamos e acho que pensamos a mesma coisa: acompanhantes, garotas de programas? Sei lá, mas não falamos nada pra não pegar mal e ficamos observando o cenário: o azul da piscina, o entardecer, a fauna sofisticada, essas coisas.
Na madrugada de hoje revi Pixote – a lei do mais fraco (no Canal Brasil) e me acordei pensando no Copacabana Palace... O que será que o Pixote, a Lilica, o Dito e Chico (personagens do filme) achariam desse hotel?
Explico melhor: Pixote, Lilica, Dito e Chico são os meninos que fogem do reformatório em São Paulo e vão para o Rio de Janeiro vender cocaína. Eles imaginam que vão se dar bem e se dão mal, claro.
Uma cena antológica: os meninos estão na Pedra do Arpoador, assistindo o entardecer na Praia de Ipanema e sonham acordados a respeito do que vão fazer quando meterem a mão na grana resultante da venda de cocaína... Os meninos divagam, a Lilica canta “Menino do Rio”, e a cena releva o quanto eles são estranhos naquela paisagem carioca, um território de alta classe média.
Exagerando a analogia, diria que lembrei do Pérgula do Copacabana Palace porque me senti como os meninos do filme: um alienígena num território estranho. Um exagero, claro. Era outro o filme que eu estava encenando. Minha companheira e eu formávamos um casal de turistas de classe média e apenas usufruíamos um dos diversos cenários do Rio de Janeiro. Nada de mais. Um dia na Pérgula do Copacabana Palace, outro no Angu do Gomes, outro na barca para Niterói.
Quando fui pagar a conta, o garçom perguntou se eu queria que lançasse nas despesas do quarto. Sem  pestanejar, eu disse que não e abri a carteira. Aprendi a me comportar no universo dos bacanas. Me tornei um personagem de filme, talvez: o turista metido, o poeta da província, conferindo os mais diversos cenários. Nesse caso, um território da mitologia carioca.

domingo, 5 de abril de 2020

Isolamento social, sol e leituras


Meu filho recomendou que eu tomasse sol todas as manhãs para aumentar a dosagem de vitamina D. Em tempos de Covid-19 é importante fortalecer as defesas do organismo. A ideia é essa. E estou seguindo à risca o conselho. Fico na sacada por um tempo, tomando o sol das oito horas, escuto os pássaros, olho os morros que cercam a cidade e lembro coisas.
Hoje lembrei do sol da praia do Cassino, entre os anos 2000 e 2015, quando lá fui veranear com minha companheira. Nas últimas vezes nos hospedávamos num hotel de frente para o mar e por volta de 9 e 10 horas saíamos para a praia, com as cadeiras debaixo do braço, guarda-sol e toalhas. Atravessávamos as dunas por meio de uma ponte de madeira e logo estávamos na beira d’água.
Recordei aquele sol esquentando a pele, a areia da praia sendo ocupada pelas pessoas (acho que a maioria chegava perto do meio-dia) e as coisas que conversávamos...
Na verdade, nem lembro o que conversávamos. Em algum desses verões dividimos o romance Reparação, de Ian McEwan, e na certa falávamos do livro. Ela lia de dia (talvez até na beira da praia), eu lia quando ela largava o romance na mesa de cabeceira.
Lembrei desse sol do Cassino. E também de Castro Alves – mas não sei por onde uma coisa se juntou com a outra... Talvez por causa da descrição que o poeta faz do mar logo no início d“O navio negreiro”:

‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...

Quem leu e ouviu Castro Alves na adolescência, geralmente não esquece. Pelo menos aqueles que foram ginasianos nos anos 60 e participaram de sessões de Grêmio Literário na escola.
E esse interesse pelo Poeta Condoreiro (era assim que meus professores chamavam o poeta) foi reavivado semanas atrás ao ler Castro Alves: um poeta sempre jovem, de Alberto da Costa e Silva. Uma bela biografia.
Não recordava que o poeta morrera tão cedo, aos 24 anos. E não sabia muita e muita coisa que esse biógrafo narra.
A mãe do poeta morreu de tuberculose quando ele tinha 11 ou 12 anos, em 1859, e provavelmente foi ela quem o contaminou. Aos 16 anos, o poeta teve a primeira manifestação da doença.
Costa e Silva o descreve como homem de palco, um poeta político, que antes de mais nada queria ser “um bravo soldado da guerra para a libertação da humanidade”.
“O navio negreiro” foi recitado pela primeira vez em 1868, em São Paulo, e bem concretiza esse projeto. Um poeta político e de vanguarda. Em 68, o movimento abolicionista ainda não ganhara as ruas e era assunto especialmente de estudantes, nas escolas de ensino superior do Recife, Salvador, Rio e São Paulo.
Mas também um homem sensual, com magníficos poemas nessa linha. Aos 19 anos se tornou amante de Eugênia de Castro, atriz talentosa, beirando os 30 anos, e a mulher largou tudo para viver com o poeta. Ela “deixava-se adorar, encantada por ser musa e senhora”, diz o biógrafo. Eugênia reorganizou a sua vida de atriz e foi viver com o poeta (dois anos).
Castro Alves era estudante pouco aplicado aos estudos, vivia de mesada enviada pela madrasta (que o adorava) e a atriz não largou o palco. Nem outros amantes, cochichavam os amigos.
Lembrei do sol do Cassino e do poeta dos escravos nessa manhã de isolamento social. Enquanto o sol reforçava a taxa de vitamina D no meu organismo, minha lembrança flanava... E lembrei, depois, dessa pérola de Castro Alves, escrita para sua amada Eugênia, depois de uma das tantas discussões, em 1868:

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

terça-feira, 31 de março de 2020

D. Maria I, Rainha de Portugal


      Li o último livro da historiadora Mary Del Priori, D. Maria I – as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca” (Editora Benvirá, 2019, 212 p.). Desde que visitei o Palácio de Queluz, nos arredores de Lisboa, tinha muita curiosidade a respeito dessa rainha. O palácio foi construído durante o seu reinado e, logo na entrada, há um enorme monumento dedicado a ela.
        Nos livros de História do Brasil D. Maria I é simplesmente a mãe de D. João VI e há poucas referências a seu respeito – o que a historiadora confirma. Os jornais do Rio de Janeiro, da época, quase nunca trazem notícias sobre a rainha. Quando a Família Real portuguesa foge para o Brasil, em 1808, ela já é dada como demente. Não é ela quem governa, mas seu filho, D. João – que só vai assumir como rei depois da sua morte, em 1816.
      Uma história que se repete nos livros (e que eu muitas vezes contei em sala de aula) é a do episódio que ela protagoniza durante a fuga da Família Real, no porto de Lisboa. Episódio que a historiadora confirma. Os serviçais a estão carregando numa cadeirinha, em direção ao navio que a transportará ao Brasil, e ela pede que eles não andem depressa. Afinal não está fugindo. Ao que tudo indica, ela não compreendia a gravidade da situação.
     Segundo a historiadora, D. Maria foi uma boa rainha, preocupada com os seus súditos. Era profundamente religiosa e seguiu o padrão da monarca absolutista: muito piedosa e em completa sintonia com a Igreja Católica e a aristocracia. Sucedeu ao pai, D. José I, que tinha como principal ministro o Marquês de Pombal, mas não seguiu a orientação iluminista e modernizadora desse reinado. Quando se tornou rainha, demitiu o marquês. Não chegou a desfazer as reformas implementadas por Pombal, mas restaurou o poder da velha aristocracia, afrontada por Pombal.
      Aos 20 anos, em 1759, D. Maria assiste a uma das cenas mais tenebrosas da história portuguesa: o Massacre dos Távora. Um episódio no qual diversos membros da família Távora e outros nobres são torturados e mortos em local público (próximo à Torre de Belém). Um espetáculo de vingança promovido pelo rei D. José I (pai de D. Maria) e seu poderoso ministro (o Marquês de Pombal). Uma cena de justiçamento exemplar promovida com pompa e sadismo.
       A partir daí a figura do pai se torna insuportável para a jovem princesa. No entanto, mais tarde – quando a sua saúde mental está abalada –, ela passa a assumir os atos do pai (o Massacre dos Távora, entre eles) como se fossem seus. Um sentimento de culpa pavoroso, que ela, religiosa como era, passa a entender como sinal de danação divina e busca purgar. Um entendimento que seus conselheiros religiosos (seu confessor, em especial) só reforçam. E ela, como boa católica do seu tempo de exarcebações religiosas, não tem como se defender.
     Mas segundo a autora o quadro de saúde mental de D. Maria se desequilibra a partir de sucessivas mortes de familiares entre os anos de 1786 e 88. D. Maria é uma rainha zelosa do seu papel desde a morte do pai (1777), mas a morte do marido, da filha mais próxima e do filho que vinha sendo preparado para sucede-la, uma ao cabo da outra, a abalam profundamente. As águas negras da melancolia a envolvem e ela não consegue livrar-se delas. Tristeza, culpas – pela morte dos parentes e até pelos atos do pai (o Massacre dos Távoras) – não a deixam mais em paz.
       Segundo a autora, tratava-se de uma depressão profunda – que a medicina da época (em especial a medicina orientada pela religiosidade católica) não tinha condições de identificar e, muito menos, de lidar e minimizar seus efeitos. Pouco tempo depois, então (em 1792), a rainha é considerada demente, afastada do governo, e seu filho D. João assume como regente.
      O drama da rainha, sua depressão, me tocou profundamente. Acho que o modo como a historiadora conduz a narrativa favorece isso. Mary Del Priori, como boa biógrafa, prioriza os conflitos íntimos da sua personagem. Ao final do livro ela escreve que D. Maria não foi “só uma pessoa que adoeceu”, mas também uma “esposa e mãe querida, avó e sogra generosa”, “boa rainha e adorada por seus súditos”, “uma mulher como tantas”. 

quarta-feira, 4 de março de 2020

"Leitura", de Almeida Júnior


Almeida Júnior pintou o quadro abaixo – “Leitura” – em 1892. É uma cena paulistana, segundo os historiadores da arte. Alguns chegam a identificar o Teatro São José, ao fundo, que se localizava próximo à Rua da Glória, em São Paulo, próximo também ao atelier do artista. O quadro também evidencia o engajamento do pintor à causa dos republicanos que ocupavam o governo do estado de São Paulo, preocupados com a educação das mulheres.

"Leitura" (1892), de Almeida Júnior.
As mulheres dominavam apenas os rudimentos das letras, naquela época, e as novas autoridades estavam interessadas em incrementar a educação feminina. No quadro, uma moça mergulha na leitura de um livro e indica o seu rompimento com a postura tradicional das mulheres (mesmo de elite) de não realizar leitura de livros. A moça é uma mulher avançada, moderna, mas seu repertório de leitura seguramente era aquele indicado pelos pais e pelo marido. Não é uma mulher independente, segundo essa interpretação.

Nesse aspecto, cabe assinalar a cadeira vazia ao lado da jovem leitora. Sobre a cadeira há uma vestimenta de homem a indicar uma figura masculina que se faz ausente, mas que provavelmente a observa e registra a cena.

Existe também uma discussão a respeito de quem é a modelo: Rita de Paula Ybarra (a companheira com a qual o pintor teve um filho) ou Maria Laura (casada com um primo e com a qual o artista teve um caso por longos anos). Tudo indica que se trata de Rita de Paula, devido às fotografias que existem dela. São muito parecidas e podem ser encontradas no Google. A hipótese de a modelo ser a amante não tem muito fundamento – se bem que há certa semelhança entre uma foto da moça (também encontrável no Google) e a modelo.

A hipótese da amante ganha relevo, no entanto, quando pensamos que o caso entre os dois durou muito e as cartas da moça, encontradas pelo marido, revelam paixão intensa. Logo após a descoberta das cartas o marido trata de se separar da esposa e mata o pintor, em 1899. O crime se dá em Piracicaba (onde o marido era conhecido cafeicultor) e nessa mesma cidade ocorre o julgamento. Os jurados entendem que o autor do crime estava privado dos sentidos e da inteligência quando esfaqueou o artista e o inocentam.

Quatro anos antes do assassinato, em 1895, o quadro fora negociado pelo artista junto às autoridades paulistas e adquirido pelo Estado de São Paulo. Hoje se encontra na Pinacoteca do Estado de São Paulo e foi lá que eu o vi e revi, em lugar de honra. É um grande quadro, de um dos principais artistas paulistas.

Outro dia reparei numa reprodução desse quadro – na parede do consultório do psiquiatra – e o associei a viúva Noronha, personagem do romance Memorial de Aires, de Machado de Assis. Engraçada a associação... Estávamos conversando sobre o mundo das elites, olhei o quadro e lembrei do Machado, do seu retrato das elites do segundo reinado... Só me dei conta de que fizera uma associação equivocada (pelo menos quanto à geografia) quando saí do consultório.

“Leitura” é uma cena paulistana, apenas contemporânea ao mundo retratado por Machado no Memorial...  (ambientado nos anos 1888 e 1889, no Rio de Janeiro). Seja como for, também retrata o universo dos ricos e talvez eu não tenha errado tão feio. Mas sei lá qual o motivo de associar o quadro “Leitura” a um romance de Machado. Talvez uma dessas voltas inexplicáveis do nosso pensamento, prezado leitor, e que nem convém investigar.

A vida tem se tornado tão inexplicável e tão desnecessário explica-la, que eu apenas registro as voltas que ela dá. Procuro formatar esses pensamentos no gênero crônica (é o que eu tenho, o que sei fazer) e deixo-as voar à cata de leitores.

terça-feira, 3 de março de 2020

A Menina do Regimento

           Em 1998, no livro coletivo Quarteto in prosa e verso, o poeta Prado Veppo publicou um poema dedicado a Maria Sem Queixo: A porta-estandarte.
“Maria Sem Queixo / Só não é / Letra de samba / Por que não foi / Contemporânea / de Noel // Pois se ela fosse / Ele teria / Certamente / Posto sua vida / Numa folha / De Papel // E ela seria / Com as cores / Da Bandeira / Porta-estandarte / Da Poesia / Brasileira”[i]
O poema integrava um conjunto que tematizava figuras populares de Santa Maria – mendigos, professores, médicos, poetas, jornalistas e um cabeleireiro –, todas pessoas  mortas – uma e outra de forma violenta, como Luizinho De Grandi (morto num assalto):
“O Luizinho morreu cedo / Como morrem os toureiros / Sangrando dentro da arena / De algum domingo em Granada.”
 Os poemas enfocavam a trajetória dessas pessoas (ou suas mortes) e desenhavam também uma espécie de cartografia de Santa Maria: um mapa das suas gentes, ruas e histórias. Um roteiro que utilizo até hoje para entender nossa cidade.
Eu não sabia coisa alguma a respeito da Maria Sem Queixo, na época, e essa crônica é para suprir essa falta de informação.
Na Feira do Livro de Santa Maria do ano passado encontrei um livro com o título A Menina do Regimento e a associação com o poema do Veppo foi inevitável, afinal Maria Sem Queixo era também conhecida como Menina do Regimento (do 7º Regimento de Infantaria – quando esse ainda se localizava na Avenida Borges de Medeiros). O livro foi lançado na mesma Feira do Livro, mesma praça, vinte anos depois do Quarteto in prosa e verso, e, para mim, foi como se completasse o poema d’A porta estandarte.
O livro, de autoria de Carlinhos Bortoluzzi[ii], tem enfoque memorialístico, priorizando as vivências do autor no NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais Regulares), no final dos anos 60 e início da década de 70, e a figura da Menina do Regimento serve como uma espécie de eixo condutor da narrativa. O NPOR funcionava no 7º Regimento e, em 1969, no primeiro dia em que o autor chega ao quartel, ele se depara com a Maria Sem Queixa. Ela vem entrando pelo portão principal, gritando e fazendo espalhafato.
O autor conhecia a mulher desde guri – quando assistia aos desfiles de 7 de Setembro e a via marchando ao lado do regimento –, mas se surpreende com o modo como ela era tratada. O guarda do portão, por exemplo, a cumprimenta formalmente, isto é, com uma caprichada continência.  

Maria Sem Queixo preparada para desfilar junto ao 7º RI.
Foto obtida na Casa de Memória Edmundo Cardoso.
 Segue daí uma série de informações sobre a Maria Sem Queixo que eu não conhecia. Nos dias de desfile, ela usava um vestido verde amarelado, com uma faixa no peito escrito “Ordem e Progresso”, e um cabo de vassoura no ombro. Na cabeça, um bico de pato (boné militar) verde oliva e, dessa maneira, compunha as cores da bandeira brasileira a que o Veppo se referia no poema.
Naquele tempo, a Avenida Borges de Medeiros era um projeto de rua (não tinha calçamento) e as casas da Vila Militar estavam começando a ser construídas. Maria sem Queixo morava por ali, num "chalezinho" (conforme diz o autor) e usufruía da maior liberdade dentro do prédio do Sétimo.
Segundo Carlinho Bortoluzzi, a história da Maria Sem Queixo remonta ao período da Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Brasileiro criou um Batalhão de Carros de Combate (3º BCC), em Santa Maria. Os tanques de guerra vieram do Rio de Janeiro, chegaram no porto de Rio Grande e seguiram de trem para Santa Maria. Os carros alcançaram a cidade em setembro de 1944 e dentro de um deles foi encontrado uma menina magrinha, com cabelo desgrenhado, malvestida, descalça e sem queixo. Ela tinha provavelmente 16 anos e disse se chamar Maria Martins. Os militares não conseguiram saber se ela viera do Rio de Janeiro, de Rio Grande, de alguma parada do trem ou de Santa Maria mesmo. Houve tentativas de localizar familiares, mas ninguém foi encontrado. Enquanto isso o comandante do batalhão providenciou acomodações para a moça e ela foi instalada num barraco nos fundos de um terreno próximo.
Em 1948 o 3º BCC mudou-se para o Boi Morto, Maria Sem Queixo foi proibida de acompanhar o batalhão e ficou instalada num chalezinho abandonado no local da atual Vila Militar. Fez amizades com os guardas do 7º RI e se tornou “integrante do Regimento”.
Com alguns percalços essa história se desenrolou até 1972, quando Maria Sem Queixo morreu. Sua moradia pegou fogo e nunca se soube se foi acidente ou crime. O comandante da 3ª Divisão, general Tácito Theóphilo de Oliveira, determinou que o comandante do 7º RI, coronel Weiss, tomasse as providências e assim foi adquirido um túmulo individual no Cemitério Municipal. No registro do cemitério ela está identificada como “menina do regimento”, sob o nome de “Maria Martins – Sem Queixo”, sem pai, sem mãe, mas com a proteção do Exército Brasileiro.
Prado Veppo tinha razão, se Noel Rose vivesse em Santa Maria, ela seria personagem de uma canção.



[i] ZANATTA, Humberto (org.), FONSECA, Orlando; PRADO VEPPO; e BIASOLI, Vitor. Quarteto in prosa e verso. Santa Maria: s/ editora, 1998.
[ii] BORTOLUZZI, Carlinhos. A Menina do Regimento: Maria Sem Queixo, Mula Sem Cabeça e outras histórias da caserna. Santa Maria: s/ editora, 2019.