quinta-feira, 11 de maio de 2017

Livros que impactaram

O poeta Escobar Nogueira me convidou para participar, na semana passada, de um evento na Feira do Livro de Santa Maria. Convidou a mim e a outros escritores e professores. A ideia era a de que cada um de nós falasse de um livro importante em nossas histórias pessoais, um livro que nos impactou. Para alguns convidados, esses livros foram “As aventuras de Robin Hood”, de Monteiro Lobato, “Contos plausíveis”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Os miseráveis”, de Vitor Hugo. Eu escolhi “Contos”, de Guy de Maupassant, traduzido por Mário Quintana, uma publicação da Editora Globo, de 1955. Livro que encontrei na estante da sala de casa, quando tinha 15 anos de idade.
A maioria de nós falou pouco dos livros em si, dos seus autores, e mais sobre as condições em que as obras entraram em suas vidas e o quanto impactou, emocionou e por aí afora. Eu não fugi ao roteiro e abordei pouco a obra literária de Guy de Maupassant, esse importante contista francês da segunda metade do século XIX, uma referência na construção do conto clássico, com começo, meio e fim, personagens com nome e endereço, história redondinha e final surpreendente. Falei, isso sim, do menino que eu era quando me deparei com os contos de Maupassant, que retratam de forma realista a sociedade francesa, com ênfase nos aspectos sórdidos, cruéis, e nos personagens sem escrúpulos e até perversos.
Falei do menino ingênuo que terminava o Ginásio, estava no final do ano letivo e que ficara em exame de Língua Portuguesa por  alguns décimos, provavelmente uma decisão do professor da disciplina para dar uma lição ao aluno presunçoso que eu era. A matéria a ser estudada era a famosa análise sintática, eu não estava muito interessado no assunto e ocupei meu tempo lendo Maupassant. Uma surpresa total para o leitor que até então tinha Júlio Verne e José de Alencar como referências principais. Enfrentei o exame, passei com oito ou nove, e segui a leitura de Maupassant. Minha mãe achava que não era livro para mim – "não era apropriado para a formação de um jovem”, esse o pensamento da mãe – e o pai me defendeu dizendo que o livro era bom e era melhor que eu lesse coisas boas. “Deixa o guri”, ele disse. A mãe gostava de Maupassant, “O colar de diamantes” era um dos seus contos prediletos, e aceitou que eu me emancipasse de sua tutela ao menos em assuntos literários.
O menino que eu era ficou deslumbrado com as personagens de Maupassant – as prostitutas (“Bola de Sebo”), os militares cruéis (“Mademoiselle Fifi”), as mulheres volúveis, os homens sem escrúpulos – e aquela leitura significou uma guinada na minha vida, na minha compreensão do mundo. A partir daí, creio que passei a me aventurar mais no campo da literatura. Descobri Machado de Assis, Tolstói, a literatura policial norte-americana – mas nem sempre entendi muito bem o que lia. Era um menino ingênuo e romântico, comprometido com o catolicismo ainda por cima. Logo ingressei na Juventude Católica, não perdia a missa dos domingos e, na verdade, na verdade, demorei muito a crescer.
Mas Maupassant ficou como referência. Um marco. Uma leitura impactante. E, feito um personagem do conto "Mosca", eu era bem capaz de dizer que, "no tempo em que eu remava [nas águas do Sena], vi muita coisa gozada e gozadíssimas raparigas". Na literatura, ao menos, eu me emancipei a partir de então.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Eça de Queirós

Terminei de ler Eça de Queirós e o século XIX, de Vianna Moog (Rio de Janeiro, Editora Delta, 1966, 358 p.). Encontrei o livro num sebo e me entusiasmei. Lembrei que meu primeiro contato com Eça se deu quando cursava o ensino médio, numa edição de Contos em formato de jornal (São Paulo, Jornalivro, 1972). Li e reli esses contos. Demorei muito até concluir Os Maias, a sua obra-prima, e creio que nunca darei conta da sua obra completa.
Quando vim morar em Santa Maria, no início dos anos 90, conheci uma professora de Letras – Glorinha, companheira de um colega de departamento – e conversávamos muito sobre literatura. Ela tinha um gosto especial por Eça de Queirós e falava com entusiasmo sobre ele. Eu tinha uma ideia de Eça apenas como crítico social, disposto a transformar a realidade sócio-política portuguesa, e ela falava da mudança que ele passara no final da vida, quando fez as pazes com a tradição lusitana, com a monarquia e a religião. Ela apontava um Eça que eu desconhecia. Conversávamos muito sobre isso porque nos interessava o engajamento dos escritores e também o nosso, de professores.
“Por que essa fissura em querer mudar a realidade social e política?”, nos perguntávamos. “Por que não aceitar as coisas como são? E por que alguns mudam no meio do caminho?” Não nos interessavam as razões objetivas de transformar o sistema econômico-social (que para mim eram – e ainda são – claríssimas), mas entender as motivações pessoais de quem se propõe a fazer isso ou deixa essa preocupação de lado. A trajetória de Eça se prestava a essas elucubrações.
Lendo a biografia feita por Vianna Moog, retomei esses velhos assuntos. Eça viveu a agitação cultural da Universidade de Coimbra (no início da década de 1860) e, a partir daí, forjou um ideário de combate em relação à sociedade portuguesa, monárquica e católica. O crime do padre Amaro é exemplar nesse sentido; Os Maias, igualmente, com muito maior requinte e perfeição. Mas por volta dos 43 anos de idade, pouco tempo depois de casar-se com uma aristocrata portuguesa e vivendo como diplomata em Paris (uma das grandes aspirações da sua vida), ele tinha outra cabeça e não lhe arrebatavam mais as novidades tecnológicas e filosóficas do seu século, marcadas pela Revolução Industrial e a derrubada da Bastilha.
À época da Grande Exposição Internacional de Paris (1889), dedicada a comemorar o centenário da Revolução Francesa, “as maravilhas do século XIX” começaram a lhe causar “tédio e desconfiança”, segundo Vianna Moog. No mesmo ano, morreu o rei de Portugal, D. Luís, e Eça compôs um necrológio muito elogioso ao rei, que valeu como uma espécie de conciliação com a monarquia lusitana.
O que diria minha amiga Glorinha, se eu retomasse essa conversa e utilizasse os dados apresentados por Vianna Moog? Não nos vemos há duas décadas e só posso imaginar... Talvez ela dissesse que Eça fora apaziguado pela esposa aristocrática, os filhos, uma quinta na região do Douro, e passara a sentir o mundo de outra maneira. Imagino que comentaríamos comentaríamos a respeito das pessoas do nosso círculo de relações que migraram do campo da esquerda para a direita de forma ruidosa e selvagem - e suponho que ela sustentaria que Eça fez essa passagem de forma civilizada, mantendo o estilo elegante de sua escrita, assim como argumentos sólidos, como se lê em A Cidade e as Serras.

sábado, 29 de abril de 2017

Greve Geral

Não estava muito otimista em relação à greve geral proposta para o dia de ontem. Mas, ao longo da semana, tive a impressão de que a coisa poderia dar certo. Para quem, como eu, apostou na política desenvolvimentista dos governos Lula e Dilma, as atuais reformas em curso, encabeçadas pelo Governo Temer, são uma calamidade – a começar pela desconstrução da Constituição de 88, com a chamada “PEC da Morte”, de congelamento dos gastos públicos em educação e saúde. A desmontagem da Petrobrás (em especial a sua retirada do Pré-sal) mais as reformas trabalhista e da Previdência configuram um quadro de horror. É a vitória completa do Capital sobre os interesses do Trabalho e também da Nação (ou de uma espécie de nação, aquela que leva em consideração "a saúde do seu tecido social”).
Pois foi com esse sentimento – de pouco otimismo, mas de certeza quanto à necessidade de uma reação popular contra essa reconfiguração da sociedade brasileira que as reformas neoliberais indicam – que fui caminhar pela cidade desde o início da manhã. Fui para minha sessão de Pilates e, antes disso, passei pelo centro. Eram oito horas da manhã e lá estavam, na boca do Calçadão, vários manifestantes – provavelmente sindicalistas – já com aparelho de som ligado (música do Zé Ramalho) e as devidas cuias de chimarrão.
No final da manhã, voltei ao centro da cidade e vi e fotografei os militantes do movimento fechando o Buraco do Behr e a Rua Venâncio Aires - esta última logo depois liberada ao trânsito - e tive uma conversa curiosa com uma repórter do SBT. Ela falou, rindo, que “estão dizendo que a Globo mente”, e logo acrescentou:
– Mas felizmente é só a Globo, não é mesmo?
Achei graça do comentário – deve ser duro trabalhar nas grandes empresas de comunicação, haja visto o engajamento delas nas atuais reformas – e olhei a moça com simpatia.
Voltei ao final da tarde para acompanhar a passeata pelas ruas do centro e me surpreendi com a quantidade de pessoas. Seguramente a maior manifestação de rua de que participei em Santa Maria. Gente a perder de vista. Impressionante. Fiquei contente em viver e registrar (com a câmara fotográfica) esses momentos de "luta popular". Em Santa Maria e no Brasil inteiro (pelo que acompanhei no Facebook), as manifestações tiveram grande presença de público. Talvez se possa dizer que o campo popular reagiu. Talvez se possa dizer que é o início de alguma coisa. Seja o que for, com certeza as forças políticas que apoiaram o Fora Dilma e dão sustentação ao Governo Temer e suas reformas neoliberais vão ter de levar em conta essa "resposta das ruas" - por mais que tenham, ao longo do dia, minimizado a greve geral de 28 de abril.
Passeata do dia 28 de abril em Santa Maria.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Descaroçado


No período colonial, havia uma expressão utilizada para designar o processo de desumanização que os negros africanos sofriam ao se transformarem em escravos e passarem a trabalhar nas lavouras, nos engenhos e nas minas: descaroçado. Homens e mulheres tinham os cernes de suas vidas (caroços) extirpados e ficavam vazios por dentro.
Lembrei dessa expressão um dia desses, enquanto caminhava pela rua. Estranhamente me senti vazio, como se algo houvesse sido arrancado de mim. Estava no centro da cidade e parei na calçada. Constatei as pessoas ao meu redor e tive a impressão de que eram conduzidas por propósitos muito claros. Iam ao supermercado, voltavam para casa, buscavam os filhos na escola e isso configurava suas vidas. O mundo tinha sentido, coisas e pessoas possuíam razão de ser, e eu, no entanto, alheio a isso. Descaroçado, pensei, era isso que acontecera comigo.
O leitor dirá que estou exagerando e concordo. Naquele momento, caminhando no centro da cidade de Santa Maria, eu era um personagem de filme vivendo um drama surreal. Perdera a minha identidade, a minha razão de ser. Parei na calçada, procurei a parede mais próxima e me encostei para observar o movimento da rua. Constatar a imensidão do mundo e minha insignificância não é uma experiência nova. Já vivi isso de forma mais intensa e hoje, ao menos, consigo não me apavorar. Espero passar e sigo em frente.

Após a tempestade vem sempre a bonança – ouvi desde pequeno -, o  difícil é esperar. Reencontrarei meu caroço, minha alma e o sentido das coisas – é só uma questão de tempo. O mundo voltará a ter sentido e roda do mundo girará sem muita estranheza. Estou no centro de Santa Maria e recordo que, quando lecionava no ensino fundamental e abordava o mundo colonial, afirmava que a ordem política e social descaroçava os escravos, mas havia a possibilidade da resistência e até da rebelião. A possibilidade de reencontrar o cerne da vida e humanizar-se. Reencontrar o sentido das coisas e sentir-se parte do mundo. A possibilidade, ao menos. A esperança, enfim.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Chapéu de cowboy


         Quando o pintor Paul Gauguin chegou pela primeira vez ao Taiti, em 1891, ele trazia “o cabelo comprido e avermelhado cobrindo os ombros, por baixo de um vasto chapéu de feltro, marrom de aba larga, como [de] um cowboy”. Para David Sweetman, um dos seus biógrafos, esse visual do artista destoava dos costumes locais, causava impacto entre os nativos e era revelador da sua postura fantasiosa. Guaguin era um pintor talentoso e inquieto, que procurava o mundo selvagem das Ilhas da Polinésia a partir do imaginário colonialista da época, em especial da literatura que romanceava os povos da Ásia e da África.
A conclusão de David Sweetman é a de que Paul Guaguin, debaixo daquele chapéu de cowboy, teve muita dificuldade de entender os códigos da cultura nativa. Apesar de aprender a língua local, de cedo arranjar uma noiva-adolescente e se envolver com as pessoas, a paisagem e os costumes locais, ele os entendeu a partir das suas inquietações e necessidades, e não soube se colocar no lugar do outro, o colonizado.
Verdade que, no caso de Guaguin, apesar da influência do imaginário colonialista, seu envolvimento com a cultura local resultou numa arte de grande qualidade, que encantou os europeus cultos da sua época e influenciou a arte do século XX – em especial a arte que bebeu nas cores e formas do “mundo primitivo” da Ásia e da África.
Resgato essa história de Guaguin porque ela é emblemática da postura de muitos viajantes até hoje: aqueles que são seduzidos por lugares distantes e se põem a desbravar esses locais a partir de referenciais fantasiosas, em especial aquelas produzidas pela literatura e o cinema. Em outras palavras, penso nos viajantes que saem pelo mundo acreditando serem capazes de decifrar quaisquer códigos culturais, mas esquecem que trazem um chapéu de cowboy enfiados na cabeça – um chapéu que representa o imaginário de sua época, da sua classe ou do seu grupo social.
Às vésperas de embarcar para a Itália, pela primeira vez, relembro essas histórias e fico pensando a respeito do meu chapéu de cowboy. Meus avós paternos vieram da Itália nas primeiras levas de imigrantes, no final do século XIX, e tenho camadas de fantasias a respeito do seja esse país. Desde criança escuto histórias da “terra dos antepassados” e dentro de mim existe um menino que acredita que em cada povoado italiano há uma igreja ricamente decorada, com alguma madona renascentista num nicho lateral, venerada pelos camponeses locais. Camadas e camadas de fantasia que, na certa, terei de desbastar. Isto se conseguir tirar o meu chapéu de cowboy.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Canção para um dente partido

       Aconteceu durante as manifestações estudantis em 1977, em Porto Alegre. Os estudantes planejaram ocupar a Praça Raul Pilla, para protestar contra a ditadura, e tomaram a Avenida João Pessoa. A Polícia de Choque fechou a rua, impediu o avanço da passeata e, de repente, avançou contra os estudantes. A gurizada correu para dentro do campus universitário. Alguns entraram pelo portão da Faculdade de Economia e outros pelo portão da Faculdade de Direito. Uma colega escorregou no chão molhado do pátio do Direito, caiu, bateu com o rosto e lascou um dente.
Houve estudantes que levaram cacetadas, mas não recordo se alguém foi preso. Só lembro da minha colega que se estatelou no chão sem que nenhum policial a tivesse derrubado. Lembro por causa do dente quebrado e da trabalheira que ela teve para consertar a boca. A trabalheira e o preço do serviço. Trabalho odontológico nunca foi barato.
O reitor da UFRGS negociara com o comando da Brigada Militar que a polícia não entraria no campus e avisou às lideranças estudantis. “Dentro do campus a integridade física de vocês está garantida”, ele falou, “lá fora, na rua, não posso assegurar coisa alguma”. Por isso os estudantes correram para dentro da Universidade. A gurizada atravessou os portões e ficou do outro lado das grandes, gritando “Abaixo a repressão” e outras palavras de ordem da época. Na calçada, encarando os estudantes, ficaram os policiais com capacetes, máscaras contra gás, escudos e cacetetes.
Eu não estava naquela manifestação política e soube do caso da minha colega dias depois, no bar do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), tomando um cafezinho. Naquela época, eu tivera a minha primeira inflamação na íris – um caso que iria se repetir ao longo dos anos, até hoje – e o oftalmologista dissera para ficar de resguardo. “Protege teu olho”, ele falou, “a gente nunca sabe o que pode acontecer”.
Mas não foi por causa da indicação do oftalmologista que deixei de ir à manifestação. Achei que ela não iria acontecer, isto sim. Ao longo daquele ano houvera diversas tentativas de colocar “o movimento na rua” e todas fracassaram. Naquele dia, porém, deu certo.
Levei um susto quando soube o que ocorrera com minha colega e imaginei o que teria acontecido se eu tivesse levado um tombo e batido com a cabeça... Arrepiei. Teria afetado os olhos? Contribuído para alguma sequela na visão ou coisa assim? Não sei.
Ônus desse tipo – sequelas físicas e emocionais – fazem parte do jogo político, aprendi com o tempo. E aprendi também que a vida é muito frágil. Um deslize no momento errado... e dançamos. Um deslize que pode acontecer numa manifestação política, no trânsito das ruas e estradas ou numa boate construída e fiscalizada de modos inadequados.


Obs.: A manifestação estudantil a que me referi ocorreu no dia 23 de agosto de 1977, no centro de Porto Alegre. “Foi a primeira vez que o movimento estudantil assumiu em todo o pais o Abaixo a Ditadura”, afirmou uma liderança da época, Bete Portugal. O jornal Zero Hora publicou boas fotos a respeito e algumas delas foram reproduzidas no livro de Ivanir Bortot & Rafael Guimarães, Abaixo a repressão: movimento estudantil e as liberdades democráticas (Porto Alegre: Libretos, 2008).

domingo, 24 de novembro de 2013

Boate Kiss

        A moça que sorri para mim no restaurante é uma das sobreviventes da Boate Kiss. Logo depois da catástrofe, ela me contou que não sabe como escapou. Ela e o namorado saíram correndo, tropeçaram e se estatelaram no chão. “Alguém caiu por cima de nós”, ela disse. “Eu desmaiei e me arrastaram lá de dentro. Não sei como.”
Quando ela se deu conta, estava sentada no asfalto, com os joelhos esfolados e os pulsos vermelhos. Nos pulsos, havia marcas de mãos que a haviam segurado com força e a arrastado. Ela e o namorado foram salvos dessa maneira.
A moça que sorri para mim, no restaurante a quilo que freqüento, é uma das sobreviventes. Às vezes conversamos. Há um ano atrás, eu li o seu trabalho de conclusão de curso e participei da banca de avaliação. Às vezes conversamos sobre o tempo, a vida e o futuro.
Apesar dos pesadelos, crises de choro, cuidados redobrados com a saúde, medicação, mais os efeitos colaterais da medicação, ela continua sorrindo. Nenhuma nuvem parece encobrir os seus olhos.
Eu e ela nos cruzamos semanalmente e nos cumprimentamos. No restaurante, cada um de nós se serve de arroz, feijão, carne de gado, frango ou peixe, e não esquecemos as verduras e legumes. Às vezes aponto para ela que tem bife de fígado. “Bife de fígado é muito importante para a saúde”, eu digo, “minha mãe sempre diz isso.”
Ela ri e imagino que a mãe dela também repete esse mantra. Eu vejo a moça caminhar por entre as mesas, segurando o seu prato, e penso que nunca entenderei o que aconteceu na Boate Kiss.
Dias antes do episódio, minha filha me contou que a boate era uma das mais prestigiadas da cidade, para festas universitárias. Casa noturna badalada. Festas muito concorridas, com superlotação e gente na fila, na calçada, esperando a hora de entrar.
Festas que exigiam maior atenção com a roupa, observou uma aluna, acentuando que não era como ir a Boate do DCE, “onde não se repara tanto no que as pessoas estão vestindo”.
Volta e meia eu passava pela frente da boate – sempre durante o dia – e não imaginava que aquilo fosse uma arapuca com uma única saída. E com material de vedação acústica – a malfada espuma – completamente inadequado e fora do padrão indicado. Uma espuma que propaga o fogo com rapidez e, pior de tudo, que produz uma fumaça letal.
Nunca imaginei que uma construção com tantos erros atravessasse incólume o coração de uma cidade com autoridades responsáveis!
A moça que sorri para mim, no restaurante a quilo, é uma das sobreviventes. Às vezes falamos do tempo, da vida e nunca das normas e regulamentos que regem a vida de uma cidade. Muito menos comentamos a respeito do processo judiciário em curso, que visa identificar o grau de responsabilidade de alguns dos atores envolvidos no caso, aqueles que caíram nas malhas da Justiça.
Sorrimos e nos servimos de arroz, feijão, carne, e não esquecemos legumes e verduras. Para a sobrevivência de um corpo são necessários mil e um cuidados. Um descuido e lá vem uma carência disso ou daquilo, de vitamina B, C ou ferro.

“Por isso o bife de fígado, não é mesmo, minha amiga?”