sexta-feira, 9 de maio de 2025

A criança da casa

 

Tornei-me um usuário de aplicativos de transporte e às vezes converso com os motoristas. Nem sempre. Não tenho um padrão para isso. Mas gosto quando acontece uma conversa e pintam boas histórias.

Semana atrás foram os córregos que existiam em Porto Alegre e, hoje, estão canalizados. No bairro Boa Vista, por exemplo (onde moro atualmente), até o início dos anos 1980 havia um pequeno arroio com peixes e a gurizada usava para tomar banho, me garantiu um motorista. Ele era um desses garotos. Depois veio o Shopping Iguatemi, a abertura da Avenida Nilo Peçanha, o fim dos chalezinhos de madeira, a construção de edifícios bacanas, a canalização do arroio e tudo mudou. Difícil rastrear por onde passava esse “veio de água” a que o motorista se referiu.

Outro dia foram as novas relações que se estabeleceram entre os humanos e os animais domésticos. “Hoje é o gato que manda lá em casa”, afirmou o motorista. “Ninguém doma um bicho desses, é diferente dos cachorros”, ele adiantou, dizendo que tem três cães, um gato, e sabe bem o que é isso. “Os cachorros são mais obedientes”, garantiu.

Eu perguntei se ele era casado, se morava em casa e tinha filhos e ele respondeu item por item. Era casado, morava numa casa com pátio e não tinha filho. “Eu sou a criança da casa”, ele disse, “não tenho jeito pra cuidar um pentelho e a mulher entende isso”, arrematou.

A criança da casa... Puxa vida. Um homem que aparenta 40 anos e, ao que tudo indica, se nega a crescer. Eu não soube mais o que falar e ele continuou conversando. Perguntou se podia parar numa casa veterinária (precisava pegar um remédio para o cachorro salsichinha, que estava com dor na coluna) e eu disse que não tinha problema. “Não tenho pressa”, garanti. Ele estacionou, levou dois minutos para descer e trazer o medicamento, e depois continuou falando dos animais domésticos da sua casa. Adorava a bicharada.

“Com eles eu não me incomodo de dar toda a atenção do mundo. Mas com um filho eu não teria paciência. Criança é muito exigente. Já basta eu”, concluiu. E eu não prestei mais atenção no que ele falava. Fiquei imaginando qual seria a conversa da mulher. Que mulher aguenta um cara desses?, me perguntei. Deve ser outra apaixonada por cães e gatos, imaginei, senão não ia dar liga. Iam viver brigando.

Mas lembrei de uma tese de doutorado a respeito do comportamento feminino (de mulheres paulistanas de classe média) que apresenta uma série de casos de mulheres que nem perguntaram aos maridões se eles queriam ou não ter filhos. Engravidaram e pronto, os homens que assumissem os rebentos e aí que se tornassem pais ausentes, os desnaturados. Talvez a mulher do motorista, um dia, siga esse roteiro e, numa tacada, o destrone da sua condição de criança da casa. O homem vai enlouquecer.

domingo, 4 de maio de 2025

Sala de espera de exames médicos

 

Estou na sala de espera do setor de medicina nuclear do Hospital Moinhos de Vento para exames de cintilografia. Exames que investigam o funcionamento do coração, pulmão, rins, tireoide e outros órgãos. Somos quatro homens idosos na sala de espera e não conversamos a respeito de nossos problemas de saúde. Falamos de política. Melhor dizendo, um de nós fala, os outros escutam. Ele comenta a política do tarifaço que o presidente Trump realiza para intimidar diversos países do mundo.   

– Não há racionalidade alguma – ele afirma. Fala de um parente que mora numa pequena cidade dos Estados Unidos e da corrida da população para comprar smartfones e eletrodomésticos. – Esses produtos irão escassear nas prateleiras, ficar muito mais caros e o pessoal está enlouquecido, comprando. Um tiro no pé essas medidas malucas que o presidente vem implementando.

Diz que o seu parente era um admirador da sociedade americana e tudo fez para morar lá. Vendeu o que tinha, apartamento e carro, e foi com a mulher. Agora tem um filho e uma pequena empresa prestadora de serviços (manutenção de aparelhos de ar-condicionado) que se utiliza de mão-de-obra imigrante. Acha que sua situação é estável, mas não tem certeza.

– Agora não sabe em que pé as coisas vão ficar – ele comenta. – Incerteza total em relação à economia, isto é, ao abastecimento de produtos industriais, a maioria produzida no exterior, e quanto ao mercado de trabalho movido com mão-de-obra imigrante.

Estou num espaço da classe média alta porto-alegrense, uma camada social que tem a economia e a sociedade norte-americana como referenciais positivos, e penso que agora já é possível criticar os Estados Unidos. Algo inimaginável há pouco tempo. Um ano atrás, alguém sairia em defesa dos States, na hora. Não admitira falarem mal do “paraíso”. Agora não.

Lembro de um parente que morava em Miami e vivia trombeteando que “aqui as coisas funcionam”, “é um país decente, com regras”. Uma chatice a sua conversa. Nós mantivemos contato via Messenger por um tempo e eu pedi para ele largar de mão de me enviar vídeos para convencer a respeito das maravilhas do capitalismo estadunidense em contraponto ao caos brasileiro (agravado pelos governos petistas, segundo ele). “Tu não vais me convencer”, eu escrevi, “não me manda mais esses vídeos de propaganda direitista, alguns deles de muito baixo nível, quando não fake news descaradas”. Expliquei que estávamos campos político distintos, mas que éramos primos e seria legal não perdermos o contato”. Insisti, mas não deu certo. Ele só queria fazer conversa política e eu larguei de mão.

Depois ele adoeceu e veio se tratar no Brasil. A medicina de lá na certa não funciona tão bem quanto a economia e a sociedade, sei lá. As regras do atendimento médico não foram favoráveis a ele e isso que ele garantia que ganhava a uma boa grana. “Um dinheiro que não levantaria no Brasil com esses políticos corruptos que tem por aí.” Enchia o saco esse meu primo. Uma hora dessas preciso procurar esse primo.

Tenho vontade de contar essa história ao meu colega de exame de cintilografia, mas me calo. Só escuto. Qual o órgão interno que ele irá avaliar: coração, pulmão ou tireoide? Nós dois temos obstruções de coronárias ou hipertiroidismo? O que o futuro nos aguarda? Conseguiremos administrar nossas respectivas doenças? Não sei, não falamos disso. Ele fala do Trump e eu concordo: é um político da pior espécie. Um bravateiro arrogante que declarou que os dirigentes do mundo inteiro virão “lamber o meu traseiro” (sim, o chefe da Casa Branca usou essa expressão) para negociar o valor de tarifas comerciais, mas não é isso que vem ocorrendo. O líder da segunda potência mundial, Xi-Jinping, nem se coçou para conversar com o topetudo de Washington.

E, na sala de espera de um hospital frequentado pela classe média tão admiradora dos States, ninguém defende o seu atual mandatário. Um sinal dos novos tempos: já dá pra falar mal dos Estados Unidos. Não é mais o país onde tudo funciona, regido por uma lógica invejável. A extrema direita brasileira parece que está estupefata com o seu grande líder no Norte.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Aprendendo com a deusa Ísis

 

Em maio de 2023, estive no sítio arqueológico de Dion, na Grécia, localizado ao sopé do Monte Olímpico, a montanha que servia de moradia aos deuses gregos, Zeus e sua turma. Só existem ruínas, nenhuma parede de templo religioso erguida e haja imaginação histórica para reconstruir o que deveria ser o local. Parei no local onde se encontrava o Templo de Zeus e foi um cartaz com desenhos e legendas que me deu alguma ideia do que poderia ser o lugar: a monumentalidade do prédio, o local de sacrifício de animais e as cerimônias de adoração. E confesso que fiquei um tanto decepcionado. Difícil entender a Grécia Antiga.

Felizmente a visita foi completada pela ida ao museu do sítio arqueológico e as peças ali encontradas – as esculturas e os ornamentos escultóricos dos templos – funcionaram como um bálsamo, isto é, possibilitaram um contato mais efetivo com essa antiga civilização. Não encontrei nenhuma escultura de Zeus que me encantasse (talvez exista, não sei – é tanta coisa que não dá para prestar atenção a tudo) e fui fisgado pelo material a respeito do Templo de Ísis. A representação grega da deusa egípcia que se encontrava na fachada do prédio (foto abaixo), mais uma escultura da deusa do amor, Afrodite Hipolimpídia, mandada instalar ao redor do prédio religioso, na mesma época da sua construção (século II a.C.).

Admirei as esculturas e lembrei os estudos de Plutarco, complicadíssimos, a respeito da deusa, seus ensinamentos religiosos, mais as reflexões filosóficas do autor a respeito dos Mistérios de Ísis (as voltas que os iniciados deveriam dar para conhecer as verdades dadas a conhecer pela divindade).

Não, eu nunca compreendi a complexidade da religiosidade do Mundo Antigo. Meu conhecimento se limitou às generalidades e, mais do que tudo, fiquei restrito ao encantamento com a deusa. Visitei o seu famoso Templo de Philae, no Egito, e foi emocionante. Passei a mão nas pedras que tanto peregrinos tocaram e pronto. Resumindo, não passei de um estudante de primeiras letras a respeito dessa crença que se expandiu do Egito para o mundo greco-romano. Mas um estudante que, ao final, aprendeu o seu lugar.

No Museu Arqueológico de Dion, senti o silêncio austero da deusa e me dei conta do meu lugar no mundo, isto é, o meu tamanho e limitação. Uma lição de humildade que à princípio vivenciei com tristeza e só hoje consigo dizer que não era para tanto. Afinal reconhecer a nossa condição humana, finita e limitada, não é uma aprendizagem banal. É um exercício de sabedoria também. Talvez um dos mais importante para um bem viver.


Observação: Plutarco foi um historiador grego que viveu entre 46 e 120 d.C. Seu tratado sobre Ísis e Osíris é uma das principais fonte de informação a respeito da deusa. E os ritos iniciáticos que aborda (os Mistérios de Ísis) é uma criação grega feita quando o culto a essa divindade egípcia se difundiu pelo mundo mediterrâneo a partir do século IV a.C. Haja engenho e arte para decifrar as maravilhas dessa deusa.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Adolescência

 

Assisti a minissérie “Adolescência” e fiquei impressionado com o personagem principal: o menino de 13 anos de idade que esfaqueia a coleguinha de escola. A princípio entendi que o motivo do assassinato era o fato de a menina ter esnobado e humilhado o rapazinho de cabeça quente, mas logo descobri que o buraco era mais embaixo. O crime não decorreu apenas da fúria do gurizinho rejeitado, mas foi alimentada por uma subcultura extremamente machista e antifeminista de ampla circulação nas redes sociais. Uma subcultura que, mais do que a família e a escola, é o que faz a cabeça de muitos adolescentes contemporaneamente. A minissérie é ambientada no Reino Unido, mas tudo indica que pode ser ampliada para o mundo ocidental em geral (o mundo formatado pelo universo da Internet).

Eu não fazia ideia da abrangência desses “discursos de ódio” em relação às mulheres divulgado por influencers do tipo de Andrew Tate, citado na minissérie e que eu nem sabia da existência. Sou um velho de 69 anos sem muito treino nas redes sociais. Utilizo o Facebook, me atrapalho com o Instagram e não participo de fóruns de debates on-line ou coisas do gênero (apesar de manter um blog de crônicas).

Dessa maneira, como sujeito despreparado no universo alucinante da Internet, foi fundamental para eu entender a minissérie a cena apresentada no segundo episódio, no qual o policial que investiga o crime recebe uma verdadeira aula do seu filho a respeito do que rola no Instagram e faz a cabeça da meninada da escola. Isto é, o filho do policial (que estuda na mesma escola do menino assassino) explica ao pai o que é a cultura machista e antifeminista que circula fora do radar dos pais e professores. Apresenta (didaticamente) o caldo cultural que serve para o menino e seus amigos articularem as suas dificuldades de identidade e comportamento sexuais. A gurizada acredita numa bizarra crença na qual as mulheres só se interessam por 20% dos homens, deixando os outros 80% chupando o dedo, e reage violentamente em relação a isso. Uns rapazes que sentem a sua masculinidade colocada à prova e entendem que precisam enfrentar essas mulheres que os desprezam, puni-las inclusive. Mostrar valentia. Usar armas para assustar. Faca, como a que é utilizada pelo assassino, que, segundo relato do amigo que empresta a arma, seria utilizado para ameaçar e não para matar.

Cena de "Adolescência": o inspetor policial recebendo uma aula do seu filho
a respeito do que rola nas redes sociais.

Mundo cão. Os rapazes em formação, preocupados com a sua macheza (“Sou atraente ou não para as mulheres?”), alimentados pela tal teoria dos 80/20, se sentem acuados e metem os pés pelas mãos. É o que acontece com o gurizinho de 13 anos. Seu sentimento de desvalia diante da menina que o faz de “corinho” (na linguagem dos anos 60 e 70; bullying na expressão atual) se articula com a cultura machista e antifeminista e dá no que dá: uma reação violenta que resulta em assassinato. O antifeminismo legitima a raiva que ele sente e o guri nem percebe que se torna um criminoso. Só cai a ficha após meses de cadeia e a proximidade do julgamento. Demora para o menino se perceber um assassino.

Penso que nenhum espectador sai o mesmo depois de assistir à minissérie. A emancipação feminina abalou as estruturas da sociedade tradicional, está reorganizando os papéis de gênero, mas muitos de nós não imaginavam que tantos homens fossem reagir a isso de modo tão violento. É esse caldo cultural (a revolução feminista, seus desdobramentos) que abala o personagem central da minissérie, um frágil e furioso adolescente acossado pelas transformações comportamentais. Fúria e fragilidade que encontra nos “discursos de ódio” um modo de se expressar. (O terceiro episódio, o da sessão do jovem assassino com a psicóloga, evidencia a fúria do frágil adolescente. Sua pergunta final, se ela gosta ou não dele, escancara a sua carência. Uma verdadeira cena de horror psicológico.)

A minissérie só não precisava pegar tão pesado com os pais, como ocorre no último episódio. Os velhos não merecem mais essa lambada. Já nos sentimos responsáveis demais pelas angústias e descaminhos da juventude.

sábado, 5 de abril de 2025

Novela juvenil

             Quando estava na terceira série ginasial, botei na cabeça que iria ser escritor. O professor de Língua Portuguesa sugeriu a prática do diário como exercício da escrita e segui o conselho. Décadas depois, peguei o material e o utilizei como matéria-prima para uma novela juvenil, que intitulei “Jorge encontra Lilian”.

Jorge, o narrador adolescente, se interessa por uma guria chamada Lilian e vive o despertar em relação ao sexo oposto. Não rola muita coisa entre os dois, eles dançam, mal se tocam, mas acontece de tudo dentro do rapaz e ele registra essa transformação no seu diário. Um texto intimista.

No final dos anos 90 eu publicara dois paradidático pela Editora FTD (“O mundo grego”, 1996, e “Quando os holandeses invadiram o Brasil”, 1998) e aproveitei para apresentar a minha ficção. A responsável pela literatura juvenil me chamou, disse que o texto era bom, mas não vendia. O mercado editorial mudara e o leitor juvenil queria temas mais fortes, como violência urbana, consumo de drogas, gravidez indesejada, Aids e assim por diante. Lembro que voltei de São Paulo (de ônibus) lendo livros juvenis com esse tipo de pegada.

Apresentei o texto para o Walmor Santos, meu antigo colega de oficina literária na PUC/RS, e ele também não topou. Walmor vinha fazendo sucesso com a sua editora, a WS, vendendo bem literatura juvenil nas escolas do Rio Grande do Sul, e sabia das coisas. Tivemos uma conversa telefônica memorável e ele me disse que faltava tempero. O personagem precisava beijar a menina, talvez transar, ao menos tentar, e fez um monte de sugestões para apimentar o texto. Mas não acatei. Eu queria a minha novela daquele jeito antigo, intimista, e parti para a edição independente.

Organizei o livro com ajuda dos amigos e mandei imprimir mil exemplares na Gráfica Pallotti, em Santa Maria. Fui à luta. Tive o apoio de professores de Ensino Fundamental em relação à novela (em especial do Colégio Nossa Senhora de Fátima, em Santa Maria) e consegui vender por volta de 800 exemplares. O restante distribuí gratuitamente. Hoje só tenho dois exemplares. Um sucesso, considerando o fato de ser um livro independente.

"Jorge encontra Lilian", edição independente, 1998.
Capa: Renato Valderramas.

Não era o meu batismo de fogo, mas a impressão que ficou é a de ter sido a minha maior peleia literária. Como o livro era adotado nas turmas de sétima e oitava séries, muitas vezes fui às escolas conversar com os alunos. Uma leitora reclamou que “não rolava nem um beijinho entre os personagens” e eu achei essa a melhor síntese da novela. “Sim”, eu disse, “o encontro se dá sem que ocorra muito contato físico.”

Eu tinha treze/catorze anos quando escrevi aquele diário que serviu de base para a novela e não sabia o que era beijar. Ao reescrever, nos anos 1990, me deparei com a paixão platônico que vivera (conheci a menina numa quermesse de colégio, nunca falei com ela) e fiz o personagem ir além, isto é, conversar e dançar com a guria. Depois ligar para ela e convidá-la a um cinema. Ter a ousadia que não tive. E terminei por aí a minha ficção. Um livrinho muito bem-comportado. Uma novela juvenil onde não rola um beijinho.

domingo, 23 de março de 2025

Pescar na beira do Canal São Gonçalo

 

No início da década de 1960, como a maioria da gurizada que morava na Zona do Porto, em Pelotas, pesquei nas margens do Canal São Gonçalo (que a gente chamava de rio, mas que nunca passou de um canal natural de ligação entre as lagoas dos Patos e Mirim). Um canal que diziam ser de pouca fundura e de correntezas fortes.

A pouca fundura explicava a impossibilidade de grandes navios chegarem ao porto. As correntezas, a necessidade dos pescadores utilizarem chumbadas pesadas para as águas não levarem suas linhas.

Relembro essas informações e escuto os mais velhos falando: as águas do canal, a importância disso para a história da cidade (desde o tempo das charqueadas), a construção do porto, as pescarias e as travessias a nado de um lado a outro do rio.

Meu pai, quando jovem, era desses que atravessavam o canal. Um feito grandioso que eu, menino, achava o máximo e nem imaginava imitar. Nós frequentávamos o Clube de Regatas que havia nas margens do canal, e o assistia mergulhar da plataforma de trampolim. Ele andava por volta dos 40 anos e ainda era capaz dessas áfricas.

Também o admirava preparando a linha de pesca para jogá-la no canal. O exame atento em relação ao peso das chumbadas, a colocação das iscas e depois a ginástica de rodopiar a linha com a mão direita, ao lado do corpo, dar força a ela e lançá-la ao fundo das águas. Uma ginástica olímpica, aos olhos do menino que eu era. Artes de um atleta grego em algum campo de provas da Grécia Antiga.

Lembranças das minhas perplexidades de menino na beira do Canal São Gonçalo. Coisas de guri e de sua relação com o rio e o pai. As águas caudalosas e piscosas do rio, a grandeza e os feitos heroicos do pai (não deixo por menos).

No final da década de 1970 ele veio a se suicidar e hoje, quase cinquenta anos depois, ainda sou capaz de reviver a mesma surpresa e dor que sua morte causou. Como um corpo com tamanha vitalidade no trampolim do Clube de Regatas e nas pescarias na beira do rio pode colocar um fim na sua vida de modo tão abrupto e descabido?!

Como a maioria dos guris que moravam na Zona do Porto, em Pelotas, pesquei nas margens do Canal São Gonçalo. Gurizada de infância simples, filho de um bancário e uma professora primária, com dois irmãos (um mais velho, outro menor), porém com um tesouro guardado na memória: meu pai girando a linha com a mão direita e depois a lançando no ar. Graças a chumbada, ela voava, caia no rio e, logo depois, era capaz de ter um dos seus anzóis mordido por um bagre.

Local das pescarias de infância. Foto de 2023.


quinta-feira, 20 de março de 2025

Voltar a morar em Porto Alegre

 

Voltei a morar em Porto Alegre, depois de 33 anos em Santa Maria, e preciso dizer isso a mim mesmo.

Nasci em Pelotas, morei onze anos naquela cidade, e vim com a família para a Capital, em 1967. Um exemplo da migração das populações das cidades do interior para as grandes capitais que ocorria no país inteiro. A busca por alternativas de ascensão econômico-social que o interior não tinha condições de oferecer.

No caso de meu pai, pesava a sua situação de bancário, categoria que estava com os salários arrochados e da qual ele se desiludira. Recordo que ele era vinculado a uma iniciativa cooperativista no banco em que era empregado e essa ação dera com os burros n’água.

A mãe era professora do Magistério Estadual e permaneceria como tal. Ela resistia a mudança, mas entendia que Porto Alegre era melhor para o marido e os filhos (neste último caso, um tratamento mais adequado para o filho mais velho, diagnosticado com reumatismo juvenil).

A família não se deu mal. Creio que os novos ares foram bons para todos.

Cursei o primeiro ano do Ginásio no Colégio Rosário e pegava o bonde todos os dias. Uma novidade completa para mim. O Túnel da Conceição não existia (as obras iniciariam em 1970), mas os moradores antigos já falavam que a cidade estava deixando de ser uma província. Havia um clima de modernidade que se refletia nos costumes (“Novos valores, novos comportamentos”, dizia a prima Carmen Lúcia) e logo os bondes seriam tirados de circulação.

Enquanto isso, na política, os militares dominavam e conduziam o país para uma ditadura, o que ocorreu de fato em dezembro do ano seguinte, com a promulgação do AI-5. Eu não sabia o que era autoritarismo, mas começava a entender o que era repressão. Certo dia, andando pelo centro da cidade, assisti de longe a polícia lançar bombas de gás lacrimogênio numa passeata de estudantes e descobri que protestar era perigoso. Logo me avisaram para manter distância em relação aos “subversivos” e segui o conselho.

Completei o Ginásio no Colégio São Pedro, no qual não se falava em Grêmio Estudantil, apenas em Grêmio Literário, do qual eu participava com entusiasmo, apresentando, entre outros, o famoso poema de Machado de Assis a respeito da sua visita ao túmulo da esposa: “Trago-te flores, restos arrancados / Da terra que nos viu passar unidos”.

Depois fui fazer o Curso Clássico no Colégio Júlio de Castilhos e lá, sim, descobri que existia política estudantil, porém isso estava proibido aos estudantes. O Grêmio Estudantil da escola fora fechado e vivíamos “tempos bicudos”, diziam os estudantes bem-informados.

Na mesma época (1971) ingressei no movimento de juventude da Igreja São Pedro (no bairro Floresta, onde morava) e ali iniciou o meu letramento político. O nosso padre-orientador comentava as resoluções do Congresso Episcopal de Medellin (aquele que estabelecera a opção preferencial pelos pobres), nos orientava para um Cristianismo com compromisso social, e aquilo me desvendou um novo mundo. Sim, política era possível. Necessária inclusive.[1]


Rua de Porto Alegre - Bairro Boa Vista.

Rememoro isso sem saber onde vai dar. Depois de três décadas regresso a Porto Alegre como professor universitário aposentado e certamente cumpro outro roteiro, diferente daquele que seguiu meu pai. Não busco novas alternativas econômicas. Minha carreira profissional está encerrada. Busco alternativas prazerosas numa cidade grande e me preparo para envelhecer.

As lembranças da Porto Alegre do final dos anos 60 me vêm quando subo no ônibus (como estão diferentes, alguns até com ar-condicionado) e sinto que elas marcam um início de uma nova etapa que ainda não sei como nomear. Mas vou recordando e registrando.



[1] O movimento de juventude que existia na Igreja São Pedro se chamava Movimento Estudantil Floresta (MEF). Fora fundado por remanescentes de organizações católicas (JEC e JUC especialmente) desmanteladas pelo Regime Militar. Tinha uma orientação progressista, mas a política não era o seu eixo. Esse era apenas um dos assuntos. Valia mesmo eram os Evangelhos, lidos por uma chave “libertadora”.