sábado, 18 de setembro de 2021

Retomar as atividades

 

Em outubro do ano passado, meu filho retornou às aulas do curso de gastronomia que iniciara em novembro de 2019, em Porto Alegre. As aulas tinham sido interrompidas com o início da pandemia (em março de 2020) e, após seis meses, foram reiniciadas, seguindo os protocolos de segurança estabelecidos.

Recordo que fiquei espantado. Não era desse jeito que esperava que ele voltasse às aulas. Mas foi isso que aconteceu. Naquela época, nem vacina existia. Somente no mês seguinte, em novembro, a vacina da BioNTech / Pfizer seria aprovada e iniciaria o grande esforço mundial para a imunização em massa.

Enquanto isso, no entanto, a “Sumidade” que ainda se encontra no Palácio do Planalto brasileiro se pronunciava contra as vacinas, fazia piadas a respeito da epidemia... e o seu obediente Ministro da Saúde não o contrariava. O Governo Federal corria na contramão das medidas estabelecidas pela OMS no combate à Covid-19 e a maioria dos governadores e prefeitos faziam o que era possível para driblar (estou sendo otimista) a ignorância e a truculência bolsonaristas. Nunca imaginei que viveria uma situação tão caótica e de tremenda insegurança.

Passado um ano, ainda não sei como escrever a respeito do assunto. Meu filho concluiu o curso, conseguiu um emprego de cozinheiro num restaurante e atravessou esse período inteiro sem ser contaminado. Cuidou-se, claro, seguiu todas as regras (já tomou a primeira dose da vacina), mas se expôs cotidianamente ao sair de casa para trabalhar, pegar ônibus e enfrentar o seu expediente na cozinha. Que tempos!

No final de julho desse ano, fui a Porto Alegre fazer uma cirurgia e aproveitei para visitar o restaurante onde o guri trabalha. Procurei me adequar a esse contexto de máscaras, álcool gel e lenta vacinação (contexto bizarro, não encontro outra palavra), mas até agora não assimilei completamente essa realidade.

Desde agosto, porém, estou me experimentando para retornar as atividades. Semana passada, o meu grupo de amigos (que desde o início da pandemia não teve nenhum encontro presencial) resolveu fazer um teste: irmos todos à abertura da exposição de pintura de um amigo comum. Irmos de máscara (como manda o figurino) e ver como nos sentíamos. Um exercício para o retorno à normalidade ou coisa assim.

O teste não foi ruim e vamos nos aventurar, no próximo mês, a fazer um novo encontro. A maioria de nós tem mais de 60 anos, um e outro com algum comprometimento de saúde, mas estamos otimistas.

Retornar, voltar a encarar as atividades normais – os desafios de nosso tempo de peste, que arrefece muito devagar.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Os Três Mártires e o Santuário do Caaró

 

Comentei com um amigo a respeito da Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, e falei do obelisco colocado na frente, um marco para orientar os peregrinos. Esse tipo de visitante continua vindo a Cidade Eterna e aos seus locais de devoção, mas o que vi ao redor do obelisco foram apenas jovens sentados ao redor, rindo, conversando e fumando. Alguns deles bebendo, se não me falha a memória. Rapazes e moças que não lembravam, de forma alguma, penitentes vindos de longe.

Meu amigo, talvez cansado de me ouvir a respeito das minhas andanças europeias, começou a citar os locais de peregrinação existente aqui na região, no interior do Rio Grande do Sul, e percebi que a maioria eu não conheço.

– Estive no Santuário do Caaró – falei – mas não era dia festivo.

O santuário fica no município de Caibaté, a 40 km de São Miguel, e estive lá com um grupo de professores e alunos, a maioria estudiosos de temas missioneiros, há alguns anos atrás. No Caaró foram mortos, em 1628, os Três Mártires Missioneiros, os jesuítas espanhóis Roque Gonzales, Afonso Rodrigues e João de Castilhos, pioneiros na evangelização no nosso estado. O processo de canonização iniciou poucos anos depois, mas, estranhamente, emperrou no Vaticano durante mais de 300 anos e só se concretizou no século XX, após os religiosos da região platina (inclusive do Rio Grande do Sul) encamparem a causa, a partir da década de 1920.

Os mártires foram beatificados em 1934, por Pio XI, e é por volta dessa época (ou nesse processo pela canonização dos padres espanhóis) que o Caaró passou a ser local de devoção. Cito essa última informação de memória (acho que foi o professor Quevedo quem me disse), pouco tempos atrás consultei a respeito da passagem da relíquia (o coração) de Roque Gonzales por Santa Maria, mas não encontrei nada sobre o Caaró. Quando o coração de Roque Gonzales foi trazido a Santa Maria, em 1940, o bispo da cidade (Dom Antônio Reis) encampara a causa dos Três Mártires. A canonização, no entanto, só viria em 1988, durante o governo do papa João Paulo II.

Reza a história (ou a lenda) que, em 1940, graças a passagem da relíquia de Roque Gonzales por Santa Maria, ocorreu um milagre na região. Um camponês das proximidades veio visitar a relíquia, pediu pela melhora da sua filha desenganada pelos médicos e a menina se salvou. A “cura milagrosa” se espalhou e meses depois o bispo de Santa Maria enviou ao local um emissário (Monsenhor Busatto) para abençoar a pedra angular da futura Capela dos Três Santos. Na sequência, o local passou a chamar-se Três Mártires (atualmente 2º distrito do município de Júlio de Castilhos).

Capela dos Santos Mártires. À esquerda,
a cruz missioneira em homenagem
aos padres espanhóis.

Dois anos atrás, fui até Três Mártires para tirar algumas fotos. Também não era data festiva e estive lá apenas para registrar o local.

Escrevo isso para dizer ao meu amigo que, apesar de certo esnobismo da minha parte, abusando da sua paciência para falar das minhas andanças europeias por museus e basílicas (a de Santa Maria Maggiore e outras), não descuido completamente das marcas religiosas da minha região. Talvez devesse dar mais atenção (acho que foi isso que ele quis me apontar) e vou me corrigir nesse sentido.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Tempos de peste

           

            Meu avô materno tinha 21 anos quando a gripe espanhola chegou à Pelotas, a cidade onde morava. Conversamos a respeito do assunto quando eu era estudante de História (o assunto era citado numa das leituras obrigatórias do curso) e ele apenas contava que foi um susto danado, que as pessoas ficaram com medo e muitas se trancaram em casa. No pátio da sua casa havia um limoeiros, ele acrescentava, rindo, e que isso ajudou muito. Mas, quando descobriu que a limonada ficava melhor com cachaça e açúcar, foi a salvação da lavoura.

Mais do que isso ele não falava e a tônica da conversa passava a ser as “propriedades medicinais da caipirinha”. Uma brincadeira que a mãe referendava (limão, cachaça e mel – ela dizia – são os melhores remédios para a gripe), mas não sei se, de fato, meu avô, naqueles meses de peste, tomou conhecimento da receita preciosa. Minha memória fantasiosa, porém, insiste em afirmar que é real e vejo o vô, a mãe e eu falando e rindo a respeito do assunto, no apartamento que então morávamos, em Porto Alegre, na década de 1970.

O vírus da gripe espanhola chegou a Pelotas a partir de Rio Grande, depois que ali aportou o navio Itajubá, em 9 de outubro de 1918, com 38 tripulantes doentes. Dias depois já havia casos em Pelotas e, no mês de janeiro, os jornais pelotenses deixaram de noticiar a doença. O Carnaval, em fevereiro, aconteceu normalmente e, segundo a lenda, com redobrado entusiasmo.

Registro isso porque vivemos um outro tempo de peste – essa epidemia do coronavírus que insiste em não arrefecer – e volta e meia recordo meu avô falando a respeito da gripe espanhola... Suscintamente, é verdade. Eu nunca soube de alguém próximo a ele ter estado entre às vítimas fatais da doença (foram 4 mil no estado do Rio Grande do Sul), mas tenho a impressão de que era um assunto que ele não gostava de lembrar. Um susto danado, como ele falava.

Quando eu tiver a sua idade (76 ou 77 anos, quando falávamos da doença pela primeira vez), o que eu responderei se alguém me perguntar o que foi a peste do Covid-19? Talvez eu diga que o pânico foi geral e eu, na condição de aposentado, não tive dificuldade em acatar as regras de confinamento e distanciamento sociais, passando a usar máscara  e álcool gel regularmente.

À direita, meus primeiros frascos de álcool gel.

Mas isso não era a regra, acrescentarei. No Facebook, acompanhava um antigo colega de universidade declarar que não usaria máscara e que percebia, nas determinações do prefeito da cidade a respeito da sua obrigatoriedade, um ar de comunismo chinês cerceando a liberdade individual. Um posicionamento que não era raro e com o qual cedo me habituei a conviver. Tempos de peste e de alguma insanidade também. 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Basílica de Santa Maria Maior

             Na primeira vez que me hospedei em Roma, fiquei num hotel a duas quadras da Basílica de Santa Maria Maior (Santa Maria Maggiore). Foi um final de semana corrido e, quando quis entrar na famosa igreja (uma das quatro basílicas papais encravadas em Roma, todas elas território do Vaticano), estava fechada para visita.

Isso aconteceu em março de 2017. Dois anos depois voltei a Roma (em outubro de 2019) e deu para dar uma conferida na igreja, no horário adequado.

Lembrei disso outro dia, enquanto assistia a uma aula on-line a respeito das igrejas medievais. Santa Maria Maior havia ficado na minha memória como uma igreja barroca e, quando entrei, tive uma enorme surpresa. A igreja é constituída por uma série de estilos diferentes e possui tanto os elementos barrocos que lembrava, quanto renascentistas e até medievais. O Guia Visual de Roma (da Folha de São Paulo) fala que ainda existe parte do modelo original (do século V), mas isso não confere.

Fachada da Basílica

A fachada é do século XVIII e, ao atravessá-la, me espantei com a enorme nave central, feita ao estilo das primeiras igrejas cristãs, lembrando as antigas basílicas (prédios civis, para uso de tribunais de justiça) da antiga Roma Imperial. As colunas que dividem a nave central das naves laterais parecem antigas colunas romanas (alguns dizem que são, de fato, colunas romanas reaproveitadas) e, no teto central, caixotões dourados, bem ao jeito renascentista (provável presente do papa Alexandre VI, da família Bórgia).

Nave lateral esquerda, com colunas romanas à direita.

Caminhei até o altar central e aí o espanto foi maior. No alto das paredes do altar (abside) encontra-se um colorido mosaico medieval, com marcadas características bizantinas. Mosaico cheio de brilho, de esplendor, representando a coroação da Virgem Maria – que, mais tarde, conferi tratar-se de produção datada do ano de 1295, feita por Jacobo Torriti.

Mosaico do altar principal.

Resumindo, uma basílica que abriga os diversos estilos que marcaram a construção das igrejas católicas e capaz de dar um nó na cabeça de um professor de História como eu, desses que se acham capazes de entender a história da arte. Compreensão que, mais uma vez, me dei conta de que é limitada. Sou um conhecedor de generalidades e, muitas vezes, como ocorreu nessa visita ao interior da Basílica de Santa Maria Maior, fico surpreso e em dúvida com o que vejo. Recordo que me sentei num banco, consultei meu guia de viagem e procurei colocar em ordem as ideias, sem grande resultado.

Assistindo a uma aula virtual, dia desses, recuperei a impressão daquela visita. Até hoje estou procurando colocar em ordem as ideias e dar um jeito nessa perplexidade que o mundo católico romano provoca em muitos de nós.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Francesca e Paolo no Museu d'Orsay

           No Museu d’Orsay, em Paris, encontra-se uma cópia em gesso da “Porta do Inferno”, de Rodin. Uma escultura enorme, com dezenas de figuras, das quais, posteriormente, o artista desenvolveu algumas peças independentes, como “O Pensador” (no alto da porta) e “O beijo” (no canto inferior, à direita).

Confesso que, quando me deparei com a obra, fiquei zonzo. Não sabia o que olhar primeiro. As figuras em gesso ficam um pouco perdidas, falta alguma coisa (é um “esboço”, afinal de contas) e é preciso atenção. A versão acabada, em bronze, se encontra no Museu Rodin e não fui até lá.

Em Paris, fiz visita de uma semana (em outubro de 2019) e o passeio ao d’Orsay durou apenas uma manhã. Tempo suficiente apenas para ter uma visão geral do museu. Mas guardei fotos, um catálogo das obras e uma infinidade de impressões que guardo feito um tesouro. De tempos em tempos, me vem uma e outra lembrança (de uma obra ou um detalhe, de uma impressão ou um comentário) e a memória vai adquirindo novos contornos.

      A “Porta do Inferno” foi inspirada na Divina Comédia, de Dante, e abrange pouco mais de cem figuras. No canto inferior à direita, está um casal de amantes, inspirado em Francesca de Rimini e Paolo Malatesta (citados no Canto V). Famoso casal de uma história de amor adúltero, do século XIII, que foi recriada inúmeras vezes a partir do século XIX. Atualmente, o castelo de Gradara (em Rimini, na Itália), onde Francesca viveu sua história com Paolo, se tornou um point turístico dedicado à celebração do amor.

Francesca foi prometida pelo pai (governador da cidade de Ravena) ao filho mais velho do governador de Rimini, nas tratativas de um acordo de paz entre as duas cidades em guerra. Francesca, sem conhecer o noivo, serviu para selar a negociação política. Reza lenda que o noivo era muito feio (deformado) e foi o irmão dele (mais jovem e belo) quem tratou dos acertos finais. O resultado foi uma variação de Tristão e Isolda: a noiva se apaixonou pelo emissário do noivo...

No poema de Dante, o momento em que o casal sucumbe ao pecado (isto é, incorre na lascívia que os conduz ao adultério, na visão severa do poeta) é quando eles estão lendo um romance de cavalaria e Lancelot beija Guinevere (a esposa do Rei Arthur). Francesca e Paolo se excitam com a cena e beijam-se também.

Ingres pintou a cena em 1816 e colocou Giovanni (o marido de Francesca) surgindo atrás de uma cortina, tirando a espada da bainha e prenunciando o assassino duplo que cometeria: a morte dos amantes.

Guia de visita ao Castelo de Gradara
com reprodução do quadro de Ingres.

Com o passar dos séculos, a abordagem moralista de Dante a respeito do casal de amantes arrefeceu e a obra de Rodin já indica isso: Francesca e Paolo foram o ponto de partida para a celebração do amor. Em “O beijo” não há ecos do amor carnal sendo condenado (e conduzindo os casais de amantes aos círculos do Inferno).

          Pensando bem, não foi por nada que fiquei zonzo diante da cópia em gesso da “Porta do Inferno”. Quantos séculos de história e transformações a respeito do que seja o amor (e especialmente o amor erótico) estão esculpidas naquela obra! Séculos em que a visão do amor mudou, o amor se transformou e nos transformamos todos nós.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Quintana: Velório sem defunto

             Velório sem defunto foi o último livro publicado pelo poeta Mário Quintana. Naquela época (1990) ele tinha 84 anos e o título era claramente uma provocação e uma ironia desconcertantes. Lembro que foi assim que meus amigos e eu recebemos o livro[1].

No poema “Inquietude”, o poeta escreve, como quem não quer nada: “Sinto-me assim, sem motivo algum, / Como alguém que estivesse comendo uma empada de camarão sem camarões / Num velório sem defunto...”.

Impressionante o fato do poeta estar em idade avançada e pensar na morte com humor, sem nenhum traço de amargura. “Nas despedidas / O mais doloroso é que / – tanto o que fica como o que vai embora – / Põem-se os dois a pensar: / Meu Deus! quando é que parte o raio deste trem!” (“As despedidas”)

Reli numa dessas tardes de pandemia (olhando pela janela o céu ensolarado) na edição da Editora Objetiva (2015), com uma apresentação instigante de Fabrício Carpinejar. Nessa introdução, Carpinejar se refere aos poemas do livro como o “suspiro de um defunto, ainda vivo, lembrando como morreu”. Sarcásticos como se fossem de um personagem machadiano, ele diz – mas um sarcasmo leve, acrescento, mais para ironia do que qualquer outra coisa.

Como afirmou o crítico Luís Augusto Fischer numa entrevista a Zero Hora, “há um quê de rebeldia” na obra do Quintana, mas não “uma rebeldia pró-ativa”. O poeta não joga bomba nos seus inimigos, apenas faz caretas, afirma o crítico. As alegrias e dores da vida (e aí entram as mágoas e ressentimentos) viram canção e ironia na poética de Quintana, como se lê em “Reflexão para o dia de finados”: “Morrer, enfim, é realizar o sonho / que todas as crianças têm... / O motivo? Só elas sabem muito bem: / Fugir... fugir de casa!”

Mas nessa releitura, me chamou atenção os poemas que são comentários a respeito de grandes assuntos da cultura ocidental (outro tema constante nas reflexões irônicas do poeta), dos quais destaco um.

Em “O amor eterno”, Quintana reflete a respeito de um famoso casal de amantes imortalizado na Divina Comédia: “Dante se enganou: Paolo e Francesca / Continuaram bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo / Juntinhos e felizes! / Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino? / Um amor que jamais pudesse terminar...”.

Se o leitor não lembra, no Canto V, Dante caminha num dos círculos do Inferno (aquele dedicado aos homens e mulheres que foram conturbados por “carnais intentos”), encontra Francesca de Rimini (que traiu o marido com Paolo) e ela recorda o momento em que foi capturada pelo “vício da luxúria”.

Cito a tradução de Dante Milano: “Nós [Francesca e Paolo] líamos um dia, com delícia, / de como a Lanciloto amor venceu. / Estávamos a sós e sem malícia. // Por vezes seu olhar buscando o meu / (...). // Quando lemos que a boca desejada / fora beijada pelo ansioso amante, / este a quem para sempre estou ligada // beijou-me a boca, tremulo, ofegante. / E o livro (...) interrompendo, / não lemos mais daquele dia em diante.”[2]

Não sei se, em 1990, comentando com meus amigos a respeito do livro, os poemas que comentamos foram os citados acima. Apenas sei que Haroldo Ferreira e eu, numa noite qualquer (depois de um jantar com amigos poetas), descemos a Avenida Borges de Medeiros falando sobre o Quintana e sua recente publicação.

O poeta morava na Cidade Baixa, andava pelo centro com uma sacola no braço, e seguidamente cruzávamos por ele e o cumprimentávamos silenciosamente com um aceno de cabeça. Às vezes ele respondia com um sorriso, outras vezes, não.



[1] QUINTANA, Mario. Velório sem defunto. RJ: Objetiva, 2015. 98 p. (Selo Alfaguara.)

[2] MILANO, Dante. Poesias. Ed. Sabiá / MEC, 1971. p. 163-4. O Lanciloto citado é o cavaleiro Lancelot, da Távola Redonda, e o seu amor é Guinevere, a esposa do Rei Arthur.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A Igreja de N. Sra. da Glória do Outeiro e D. Pedro I

Em janeiro de 2020, minha então companheira e eu fizemos uma visita guiada pelo Rio de Janeiro, iniciando pela Igreja de N. Sra. da Glória do Outeiro, uma velha igreja colonial construída num morro entre as avenidas que cruzam o aterro do Flamengo. Há um elevador que conduz até o alto, mas, como era cedo (9 da manhã), estava fechado e subimos pela escada.

A igreja foi construída no início do século XVIII, entre os anos de 1714 e 1739, com planta composto por dois octógonos irregulares, dando ao templo um formato de 8, com os espaços curvos típicos do estilo barroco. Um marco na introdução da arquitetura barroca no Brasil.

Revestindo as paredes internas, azulejos azuis e brancos no estilo lisboeta, produzidos pelas oficinas cariocas do Mestre Valentim de Almeida. Temas religiosos no espaço da nave da igreja (referentes ao Cântico dos Cânticos) e temas profanos (de caça) no corredor que circunda a nave e na sacristia. Neste mesmo corredor, duas pias de mármore de lioz português (a mesma pedra das famosas construções lusitanas do século XVI: o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém).

Pia de mármore de Lioz.

Um espaço agradável, o do interior da igreja, em grande parte devido ao tamanho reduzido, às paredes curvas e aos azulejos. Sentado num banco, olhando os altares (três, no estilo rococó), ouvi a guia explicar que era a igreja favorita de D. João VI e da família real. Na sequência, da corte imperial brasileira também. Ali ocorreram muitas missas e batizados envolvendo figuras da corte. Numa dessas missas, D. Pedro I escapuliu e foi transar com Maria Benedita (irmã mais velha da sua amante Domitília), que morava ali perto. Mas voltou antes da cerimônia religiosa terminar.

Nave central da igreja.

Mais uma lenda do garanhão imperial ou realidade? Não sei. Minha companheira e a guia conversaram a respeito dos amores impulsivos do imperador e só eu não sabia que ele atacara a irmã de Domitília (e a engravidou também). Mas as irmãs o perdoaram. Até o marido de Maria Benedita foi tolerante com o episódio (principalmente depois de receber um cargo de superintendente da Fazenda).

 Na saída da igreja, minha companheira e a guia desfiaram os escândalos da corte do primeiro reinado, enquanto eu, mais uma vez, aprendia a respeito. Nunca soube muita coisa sobre a vida privada de D. Pedro I. Apesar do meu interesse pelos casos amorosos do imperador, nunca os tive muito presente na memória. Nas poucas aulas que ministrei sobre o primeiro reinado, nunca os levei em consideração. Há uma extensa bibliografia tratando dos amores de D. Pedro I, pródigo em escancarar suas aventuras (a ponto de tornar-se folclórico nesse sentido), mas, relativa ao seu filho e sucessor, o número de estudos diminui.

Alguém dirá que isso se deve ao comportamento do filho, o que está longe de ser verdadeiro. D. Pedro II não era um marido fiel, apenas mais discreto. Tão precavido, que até em relação ao seu caso mais duradouro, a relação com a Condessa de Barral, não há provas concretas de “relacionamento íntimo” entre os dois. Isto, ao menos, é o que afirma a historiadora Mary Del Priore no seu livro sobre a Condessa. Tudo indica que os dois foram amantes, mas a dupla não deixou rastros (queimou todas as cartas que os pudessem comprometer, p. ex.).

Visitar igrejas antigas que foram o território das cerimônias religiosas da corte imperial brasileira às vezes dá nisso: o foco sai do desenho da planta octogonal, da qualidade dos azulejos e descamba para os amores carnais de um imperador por uma marquesa e sua irmã, o sofrimento da esposa, seu adoecimento e morte.

Viajar é um prazer que não termina. Uma coisa puxa outra e, tempos depois, ainda rende. Foi lendo sobre D. Pedro e Domitília que recordei da igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro... D. Pedro escafedeu-se da missa e foi transar com uma moradora das redondezas. Voltou sorridente antes da cerimônia acabar e na certa deu o braço para a esposa e, juntos, desceram a escadaria do morro. O Demonião (codinome que D. Pedro usava na correspondência com Domitília, a sua Titília) não era flor de algodão.